Notas iniciais
Um mês mercadinho no calendário, voltamos! Vocês vão reparar bem rapidinho que esse capítulo é diferente do que vocês estão acostumados, mas é por um ótimo motivo. Afinal, toda história tem mais de um lado, então… Eu vou volto com mais uma LONGA nota no final, mas por agora vou deixar vocês aproveitarem o capítulo. Espero que gostem e até breve! /Lia Como prometido, mais um capítulo para vocês fresquinho, sem demorar um século para a postagem! Viva! Mas, dessa vez, vai ser um pouquinho diferente e vocês já devem ter notado qual é a diferença nele rsrs. Espero que gostem, pois, primeiro: a gente não demorou nada pra postar! Segundo: porque amamos escrevê-lo! Tem tudo o que vocês possam imaginar, só não vou falar o que é, pois, né, spoiler kkkkk boa leitura, meus amores! / Laís

James Sirius Potter entrou na minha vida como uma tempestade. Com a sua prepotência, arrogância e o seu jeito irritante de ser, ele chegou espalhando caos por toda a minha existência, tal qual um enorme vendaval, levando tudo embora com sua não tão simples presença. Ele me enlouquecia e isso desde a primeira vez em que nos vimos. Ele veio sem aviso, estrondoso e caótico e mudou tudo que eu tinha como certo, deixando um rastro por onde tinha passado e, mesmo abalando todas as minhas estruturas, criando um solo fértil que me ajudou a florescer.

Mas é um pouco mais complicado que isso.

(...)

Liguei o chuveiro, deixando que a água escorresse pelo meu corpo e, como sempre acontecia agora quando eu estava sozinha, a voz rouca e sexy de James sussurrava em meu ouvido: “Você é tão linda. Nunca te disse isso, mas sempre te achei linda.” A respiração fraca e a lembrança de que ele me fizera gozar apenas chupando meu seio me invadiu pela quinquagésima vez em um curto período de tempo, esquentando todo o meu corpo, mesmo que a água escorresse por mim.

Fechei os olhos, respirando fundo e tentando afastar aquelas lembranças, mas a tarefa era mais difícil do que você possa imaginar. Porque não era uma simples lembrança, era algo mais palpável, como se ele estivesse ali de novo. Por Deus, eu sentia os lábios de James na minha boca, pressionando, sugando e depois a pressão que ele fazia ao me encostar na ilha da cozinha, onde eu podia ter contato com a sua ereção contra meu baixo ventre, depois seus lábios sugando com vontade meus seios... a lembrança, a sensação, era tão real, que eu não conseguia evitar de me sentir excitada. Meu coração estava acelerado e eu podia sentir, mesmo estando debaixo do chuveiro, que ficava molhada; o que me fez levar uma de minhas mãos a um dos meus seios, enquanto a outra desceu para entre as minhas pernas, tocando onde mais me daria prazer e que acabaria com a tensão, me dando o alívio que James havia me proporcionado apenas com a boca em meu mamilo. Um orgasmo que eu nunca havia tido igual.

Um gemido escapou dos meus lábios quando movimentei meu dedo. Não era a primeira vez que eu me tocava pensando em James Sirius, houve aquela vez depois que dançamos juntos. O sonho havia sido muito real para o meu gosto e agora... ah, agora eu pensava na voz dele no meu ouvido, do gosto de seu beijo e seus lábios no meu seio. Movimentei meus dedos outra vez, agora imaginando sua boca descendo pela minha barriga e sua mão abaixando meu short e minha calcinha de uma vez. Do jeito que James agira naquela noite eu tinha certeza que ele não teria tanta delicadeza. Suspirei alto, com a água escorrendo pela minha boca, enquanto eu mesma fazia movimentos circulares e apertava meu seio.

Então, em minha imaginação, James abriu as minhas pernas e me lambeu; lambeu toda a minha excitação, depois beijou e sugou meu clitóris como se sempre quisesse ter provado meu gosto. E, do jeito que eu me lembrava, tinha certeza que queria.

Gemi baixinho, com meus dedos fazendo certa pressão, pensando na boca de James fazendo o trabalho que eu mesma fazia com meus dedos. Aumentando a velocidade, eu me masturbava, com o nome de James em minha mente, imaginando que ele mesmo pressionava com a língua, com rapidez, desejando que eu gozasse na sua boca. E, com aquele pensamento obsceno, eu explodi em minha própria mão. O gemido que soltei foi alto, mas abafado pela água que saía do chuveiro. Meu coração disparava em meu peito e eu respirava com dificuldade. Encostei minha cabeça no azulejo azul claro — outra cor que eu odiava —, organizando os meus pensamentos, ainda que eu pudesse ouvir James gemer e ajeitar o pau dentro das calças.

Então, quando me dei conta, eu chorei. Chorei porque nada disso era para ter acontecido. Porque eu sentia meu coração acelerado toda vez eu pensava em James Sirius Potter, o quanto a sua presença sempre dominava qualquer espaço, chamando a atenção com o seu jeito extrovertido e sexy e brincalhão. O seu maldito perfume. Aquele cheiro masculino e amadeirado. Era o mesmo perfume que eu me lembrava de Hogwarts, só que mais adulto e mais irresistível. Eu sempre me julguei tão forte, mas foi apenas vê-lo de terno e gravata, de ouvir sua cantada barata, que senti meus joelhos tremerem.

Terminei de tomar banho, me enrolando na toalha e parando para me encarar no espelho. Os azulejos azuis me davam náuseas, a mãe de Stephen tendo os escolhido. Nada, a não ser as janelas e cortinas, eram obras minhas e de Stephen. Eram dela. Ele nunca fez questão de ter opinião própria quando se tratava da própria mãe. E não era por mal, eu via que ele concordava com ela porque Stephen queria. E eu não podia contrariar, ainda que tivesse dinheiro meu naquele apartamento.

Balancei a cabeça, colocando meus cabelos molhados para trás. Fechei os olhos e as feições carinhosas de James invadiram minha mente. E também as mais desejosas, o fogo que ele emanava toda vez que me via. No início ele se controlava mais, entretanto, depois de um certo tempo, ele não conseguia disfarçar. James sempre foi muito expressivo, como um livro aberto, e quem não conseguia ver isso não o conhecia muito bem. Parecia que eu conseguia ver todas as facetas dele e, ainda assim, não conseguia saber direito o que estava acontecendo.

Durante um tempo fiquei confusa. Porque eu gostava de Stephen. Só Deus sabia o que nós já havíamos passado juntos. E foram, eram, tempos bons. Eu amei Stephen com todo o meu coração, mesmo que, durante um tempo, no começo do nosso relacionamento, eu fosse apaixonada por James Sirius Potter. Tempo esse que eu jamais achei que voltaria, mesmo que eu soubesse onde ele esteve durante todos esses anos desaparecido. Mas eu conseguia me enganar e eu conseguia ignorar porque eu realmente amava meu namorado.

Até James Potter voltar e colocar meu mundo de cabeça para baixo ao não me deixar em paz nem por um segundo. Passei os dedos em meus lábios e a sensação fantasma de seu beijo ainda permanecia ali.

Saí do banheiro, indo para o meu quarto com as cores mais escuras e feias que eu já vi. Só Deus sabia o quanto essas paredes bordô me deixavam claustrofóbica e me irritavam. Mas nem podia reclamar, não fazia sentido mais, e no final do dia as escolhas decorativas horrendas da mãe de Stephen, e indiretamente dele, me faziam me convencer de que eu não estava sozinha. De novo. Naquela casa que era minha, mas não tinha a minha cara. Não me leve a mal, eu sabia que Stephen me amava. Eu via em seus olhos, mas eu estava sempre sozinha, mesmo quando eu estava com ele. Depois do acidente ele ficou comigo durante todo o tempo e quase pareceu que tínhamos voltado aos eixos. Eu pude quase ter esquecido James. Mas aquilo não durou.

E a ausência de Stephen abria espaço para minha mente vagar por outros lugares. Porque era só alguém mencionar o nome de James que meu coração se acelerava e eu me pegava esperando que ele passasse por aquelas portas dizendo que me queria, que estava apaixonado por mim. E quando eu acordei do meu acidente, ter sido o seu rosto que eu tinha visto primeiro, me fez perceber que eu... eu estava me apaixonando por ele. Então eu escrevi uma carta. E, quando tudo o que eu recebi dele foi silêncio, eu entendi que deveria ter sido um momento James Sirius Potter e que nada fora real, que ele havia ido se encontrar com a mulher de quem ele estava afim e não quis revelar quem era, mesmo que a minha intuição dissesse o contrário.

Um barulho na janela me despertou, fazendo o meu coração idiota se acelerar, ainda esperando a sua resposta. Mas a coruja que apareceu em meu apartamento não era a dos Potter. A decepção me atingiu quando notei que a coruja era da mãe de Stephen. Fechei os olhos e suspirei, abrindo a carta que a coruja havia trazido; sorri para ela, que logo depois saiu pela janela aberta.

Ao ler a mensagem de Lilá Brown Thomas tentei não revirar os olhos. Seria mais um daqueles típicos jantares que ela fazia questão de dar apenas para me azucrinar a respeito de netos. Stephen e eu mal nos víamos, quem dirá transar para que esse sonho dela se tornasse realidade. Talvez tenha sido por isso que James me fizera gozar apenas chupando meus peitos. E, quanto mais eu pensava, mesmo antes de James voltar para me atormentar, menos eu queria ter filhos com Stephen. Ele estava no auge de sua carreira e eu não queria criar filhos sozinha. E quanto mais Stephen fazia sucesso, mais eu percebia que ele teria esse filho apenas para agradar Lilá Thomas. Se ele pensasse direitinho, saberia que eu jamais faria algo do tipo para agradar alguém. Devia ser por isso que não me pressionava quando, por algum milagre, ele se encontrava na mesma cama que eu.

Olhei para o Sol que estava se pondo. Nunca pensei em príncipes encantados e cavalos brancos, mas eu ainda esperava pela resposta de James. Engoli em seco enquanto eu me arrumava para o jantar na casa da minha sogra; eu sabia que James iria para França hoje à noite. Hoje poderia ser a última chance dele... Meu Deus, como eu era idiota! Eu nunca fui assim, por que James despertava a adolescente que nunca existiu em mim? Deve ser porque você ainda o a...

Interrompi meus pensamentos balançando a cabeça. Não. Se eu admitisse isso para mim mesma não teria volta e se ele não correspondesse ao mesmo sentimento que eu, o que era claramente o caso, meu coração não iria aguentar. Quantas vezes eu havia fingido para mim mesma que nunca tive sentimentos por James Sirius? Mais do que eu poderia contar. Portanto, eu não podia pensar naquilo. Além do pequeno grande detalhe que eu tinha um namorado. Que eu amava. Mesmo que nossa vida como casal estivesse um tanto quanto turbulenta nos últimos anos. Eu ainda amava Stephen. E não, eu não estou repetindo isso apenas tentando me convencer.

Coloquei um vestido longo prata que eu ainda não havia usado. Ele tinha um belo decote nas costas e uma fenda lateral que me deixava deslumbrante e minha tatuagem à mostra. Pelo o que eu havia entendido o jantar tinha um código de vestimenta — coisas que apenas a minha sogra inventava — e por isso eu havia decidido usá-lo. Ondulei meus cabelos com magia, depois fiz uma maquiagem básica e um batom vermelho nos lábios. Peguei os saltos pratas e simplesmente aparatei em frente à casa dos Thomas.

Franzi a testa ao ver, da janela, uma grande comoção dentro da casa. Toquei a campainha e logo May atendeu a porta animada. Ela também usava um vestido típico dela, bem colado ao corpo — isso a diferenciava da insuportável da April —, preto que ia até um pouco acima do joelho. Ela sorriu para mim e eu sorri para ela, mesmo sabendo que ela tinha a completa experiência de ter James Sirius Potter, eu gostava de May.

— Lis, estávamos ansiosos para vê-la! Entra — disse a irmã de Stephen e eu entrei, ficando ainda mais confusa ao ver Dominique e Fred ali, ambos com trajes formais iguais aos meus. Domi tinha os cabelos cacheados e um vestido verde escuro que tirava o fôlego, Fred usava apenas um colete, camisa e calças sociais e um sapato combinando.

— Oi... o que está acontecendo? — perguntei, olhando para todos e Domi deu de ombros, tão curiosa quanto eu.

Então Stephen apareceu, sorrindo. Ele usava uma camisa social preta e um terno da mesma cor. Seus cabelos estavam para trás e todas as suas tatuagens estavam cobertas. Eu podia ver apenas algumas despontando em seu pescoço. É, eu ainda o amava. Stephen, mesmo quando passávamos semanas sem nos ver, tinha uma sensação de lar. Era certo, era confortável, quente à sua maneira. Bloqueei o pensamento dos lábios de James pelo meu colo e foquei em meu namorado, sorrindo para ele.

Sua mão se estendeu para mim e eu a aceitei, deixando que ele me guiasse para a sala de estar, onde mais alguns familiares estavam à espreita. Mas eram todos dele. Apenas Domi e Fred que eram mais meus amigos do que dele.

Tudo estava decorado com muita... extravagância e eu sabia que aquilo era demais, até mesmo para minha sogra. Portanto, deduzi que era uma ocasião muito especial. Olhei em volta e vi que a mesa de jantar estava posta, mas ninguém havia se sentado para comer. O que raios estava acontecendo ali?! Voltei a procurar o olhar de Stephen e o que eu encontrei ali foi intensidade.

— O quê...? — tentei dizer, mas Stephen simplesmente me fez ficar em silêncio quando começou a falar.

— Sabe, nós estamos juntos desde os nossos dezesseis anos e têm sido os anos mais felizes da minha vida. Você esteve comigo nos momentos de alegria, tristeza e sucesso.

— Stephen…

— Você é minha melhor amiga Elisabeth, e a pessoa com quem eu quero compartilhar a vida. Você me dá forças para ir além e eu sei que ao seu lado eu sou mais forte. Venho pensando nisso já há algum tempo... — ele, então, se ajoelhou diante de mim com uma caixinha estendida e senti um frio na barriga. Mas não era de felicidade.

Coloquei as mãos na boca. Agora, James, apareça! Mas esses pensamentos duraram apenas dois segundos. Apesar de meu coração bater por James, apesar de eu saber que não, eu não iria esquecê-lo, eu não podia deixar de pensar que Stephen também esteve comigo. E sempre quis ficar comigo. James teve sua chance; eu esperei por ele.

— Quer casar comigo? — ouvi a voz de Stephen perguntar.

O gelo se espalhou por todo meu corpo. Era hora de parar com aquela palhaçada. Droga, Elisabeth, esse homem que está ajoelhado aos seus pés pedindo sua mão em casamento realmente a ama. E ele também a deseja. Certo que tem um tempo que vocês não ficam íntimos, mas quando acontece é incrível, não é? E você se planejou para passar mais tempo com ele então esses probleminhas irrisórios estão prestes a mudar. Chega de viver essa fantasia patética e adolescente que você criou. É hora de voltar à realidade. Agora.

Então me ouvi dizendo:

— Sim — e sorri, aceitando o anel que ele havia me estendido. As lágrimas que escorreram dos meus olhos não eram de alguém que queria casar com o homem que estava à sua frente, mas as coisas mudariam dali pra frente, elas precisavam mudar.

Porque Stephen era o certo. James sempre foi duvidoso. E eu não podia largar o que eu havia construído com Stephen dessa maneira. E agora nós iríamos nos casar. Eu estava em choque com o pedido inesperado, e logo ficaria sentida com a ausência de meus pais ou família naquela reunião, mas eu ficaria feliz, sabia que sim, tinha construído essa relação com Stephen havia anos. Aquilo era o certo, era o curso correto das coisas. Certo?

As palmas encheram a sala e eu vi, de repente, Dominique sair correndo. Virei o rosto, preocupada, enquanto Fred acompanhava a namorada até a porta. A comoção dentro da sala de estar era tamanha que eu apenas pude escutar que a minha melhor amiga gritava alguma coisa do lado de fora. Foi então que aquele... puxão que eu sempre sentia quando James ia para algum lugar me atingiu. Me virei para a janela, mas não havia ninguém lá e, quando fiz menção de seguir Dominique, Stephen me abraçou e me rodopiou em seu colo.

Eu sorri para ele, mesmo que eu sentisse que o sorriso não chegasse aos meus olhos... que não chegasse até a minha alma. Stephen era um homem bom e agora não havia volta. Eu disse sim e manteria a minha palavra.



O jantar ocorreu de forma animada, com brindes e conversas altas. Eu tentava me manter presente, sorrindo e agradecendo as felicitações; às vezes olhava para o anel com a pedra de diamante sutil em cima do aro. Era lindo, pelo menos isso Stephen acertou e não deixou que a mãe escolhesse. Ele sempre me olhava com um sorriso feliz e eu tentava corresponder com o mesmo sorriso.

Quando todos foram embora e restaram apenas Dominique e Fred na casa, Stephen resolveu que era hora de conversar animadamente sobre o último jogo de quadribol com o amigo. Lilá tentou me monopolizar, mas eu consegui escapar, dando a desculpa que precisava surtar com Mini sobre o casamento. Seu semblante não demonstrou que havia gostado, mas eu — ainda – tinha vontade própria para não baixar a minha cabeça e aceitar tudo o que ela queria. Pelo menos quando se tratava de mim mesma.

Minha amiga estava parada na frente da janela, olhando para a rua, parecendo estar longe dali. Pela expressão que ambos fizeram, Fred e Dominique não sabiam que o jantar seria o meu pedido de noivado — nem chamaram os meus pais! — e agora eu estava curiosa para saber o porquê de minha melhor amiga ter resolvido sair tão de repente naquela hora.

Eu parei ao seu lado, encostando a minha cabeça em seu ombro. Ouvi o seu riso e logo os seus braços estavam ao meu redor; eu sempre me sentia bem quando estava com ela. Dominique era minha irmã de alma e eu não via a minha vida sem que tivesse a sua presença.

— Serei a sua madrinha, certo? — perguntou ela e eu levantei o rosto, como se a pergunta fosse a mais idiota do mundo.

— Quero que seja a única — falei com convicção e a risada dela reverberou pela sala.

— Tenho certeza que as gêmeas darão ótimas damas de honra — a voz de Mini era cheia de sarcasmo. Suspirei e me sentei de frente para ela. Mal havia colocado o anel no dedo e já sabia que Lilá iria querer mandar em tudo no casamento.

— Quem era naquela hora que você saiu correndo? — Mudei de assunto, porque eu não estava nem um pouco afim de me estressar com aquilo agora. Ainda tinha que contar para os meus pais.

Dominique desviou o olhar e depois balançou a cabeça, decidindo alguma coisa que apenas ela tinha ciência.

— Achei que tinha visto alguém — respondeu e meu coração bobo deu um pulo. Minha respiração ficou presa na garganta e eu tentei engolir a saliva. Será que...? Será que era ele?

— E quem achou que tinha visto, Mini? — a pergunta saiu em um sussurro, enquanto eu tentava não deixar transparecer a minha expectativa.

Minha amiga abriu a boca, como se fosse responder, mas a voz de Fred e Stephen se aproximando a fez virar-se para vê-los. Os sorrisos dos dois eram largos, mesmo que Fred estivesse um pouco... desconfortável? Balancei a cabeça, decidindo que eu não iria ficar me prendendo aos e se; a resposta de James Sirius Potter havia sido alta e clara, ainda que tudo o que eu tivesse recebido fosse o silêncio... Mas ainda assim era uma resposta.

Então me concentrei — ou tentei — no homem que parecia ser o mais feliz na face da Terra. Ao olhá-lo daquela maneira, uma esperança se acendeu em meu peito, uma oportunidade de tentar esquecer minha paixão secreta por James Potter. Eu sabia que ela não iria passar nem tão cedo, parecia que eu precisava estar perto de James o tempo inteiro, sentir o seu perfume, o seu calor... eu sabia exatamente onde ele estava naquele momento e aquilo não era normal. Uma pontada de dor atravessou meu coração, mas eu resolvi ignorar. Estava na hora de ignorar. Eu iria me casar e o homem estava parado bem na minha frente, sorrindo, repleto de felicidade.

Eu deveria esquecer James Sirius Potter. Esquecer que ele me proporcionou uma semana quente, com direito a vê-lo de cueca box... molhada. Eu não sabia se ele havia reparado em mim, mas eu... Ah, eu com certeza vi tudo e...

Balancei a cabeça e me dirigi até Stephen, que imediatamente largou Fred e abriu os braços para eu me aconchegar nos seu abraço. Sorri. De alguma forma Stephen tinha cheiro de casa. Talvez fosse porque eu estive desde os meus dezesseis anos com ele. Era bom, mas não era onde meu coração dizia querer estar.

Suas mãos passaram em meus cabelos e eu inspirei o seu perfume masculino. A risada dele tremeu meu corpo e eu olhei para cima. Stephen era bonito, tinha várias tatuagens e eu achava sexy, não mais que…não importava. Eu via as fãs dele enlouquecidas e achava graça; nunca tive ciúmes daquilo, não sabia dizer o porquê. Mas era inegável que Stephen tinha presença, um charme que exalava e qualquer uma que o conhecesse gostaria de estar no meu lugar. Eu ia casar com o melhor artilheiro da temporada.

— Você não sabe o quanto eu estou feliz, Lis — ele disse em meu ouvido, com os olhos em Fred e Mini. — Obrigado por estar comigo.

— Eu que agradeço, Stephen — respondi e virei minha cabeça para cima. — Volta comigo para casa hoje?

Olhei em seus olhos e Stephen sorriu, fazendo com que minha expressão murchasse. Eu conhecia aquele sorriso: o famoso sorriso de desculpas. Me afastei dele, esperando a explicação.

— Minha mãe pediu para eu ficar hoje, para resolver umas coisas para ela.

— É nossa noite de noivado. — Disse, sem nenhum tipo de humor ou emoção na voz, encarando-o um tanto quanto apática. — E você vai passá-la com a sua mãe.

— Não é assim, meu amor. Temos tantas coisas para resolver e você sabe como mamãe gosta de...

— Ah, eu sei. — O interrompi antes que ele pudesse explicar o quanto adorava o gosto da mãe e o quanto Lilá amava nosso relacionamento e se meter no meio dele.

Para além das ausências constantes de Stephen, ter Lilá Brown Thomas como uma terceira parte era algo que realmente desgastava nosso relacionamento, por mais que eu ignorasse a maior parte do tempo.

— O que isso significa? — Eu às vezes não sabia dizer se ele era assim tão inocente ou se ele se fazia de tonto para não precisar escolher entre mim ou a mãe. Entre os três filhos, Lilá tinha escolhido logo Stephen para ser o filhinho de mamãe e ele cumpria bem aquele papel.

— Que é a nossa noite de noivado. Você me pediu para ser a sua mulher e passar o resto da minha vida com você há poucas horas. Tudo que eu quero nesse momento é que nós dois, só nós dois, celebremos esse novo capítulo da nossa vida.

Stephen sorriu, inclinando-se para cheirar a curva do meu pescoço, mas, ao invés de me excitar, aquilo me irritou, eu o conhecia bem demais e sabia o que estava vindo a seguir.

— Você pode dormir aqui e podemos juntos decidir...

— Nós temos uma casa, Stephen. E não vamos nos casar amanhã, temos tempo para resolver as coisas.

— Eu sei, meu amor, mas mamãe... — Aquele sorriso de desculpas estava novamente em seu rosto.

Após um suspiro, eu trinquei os dentes. Eu poderia dizer que aquele momento era para ser nosso, não da mãe dele. Poderia sugerir que Lilá fosse se intrometer no casamento de May, que estava noiva há mais tempo, e que aquela era a oportunidade perfeita para que Stephen e eu iniciássemos nossa vida juntos de uma forma diferente, de uma forma que fosse só eu e ele e nossas decisões. Mas antes mesmo de abrir a boca eu senti a energia me deixar. Não tinha o porquê brigar, não adiantaria e eu só ficaria mais desgastada.

— Eu vou para casa com você amanhã. — Eu apenas assenti.

Uma sensação de pertencimento, de certo, então tomou conta de mim. James estava de volta à Inglaterra, para onde ele tinha ido?

— Ok, mas eu realmente preciso da minha cama hoje. — Stephen se inclinou para me dar um beijo, eu apenas aceitei.

— Fica mais um pouquinho?

Eu então notei os olhares atentos de Fred e Dominique sobre mim, quase esqueci que eles estavam ali. Forçando um sorriso, concordei, apenas para que não causasse uma cena ali. Não que Dominique não pudesse presenciar uma DR com Stephen — ela já tinha visto várias desde que meu noivo entrou para o time titular de quadribol da Noruega —, só não queria que os parentes dele ficassem bisbilhotando.

Então eu fiquei.

E Stephen continuou como se nada tivesse acontecido, como se ele ficar com a mãe no dia do nosso noivado fosse a coisa mais natural possível. Dominique me olhava, sabendo o quanto a minha energia já havia sido drenada. Ela nunca opinava, a não ser que eu pedisse, mas eu sabia o que se passava em sua cabeça e eu não fazia nada para discordar. Não quando apenas o silêncio vinha da minha melhor amiga.

Dominique e Fred não ficaram muito depois daquilo. E, sem eles ali, eu realmente não queria estender a minha presença, tentei mais uma vez convencer Stephen a voltar para casa comigo, mas, enquanto conversávamos, Lilá adentrou a sala, espalhafatosa como sempre, basicamente se jogando em cima de mim para fazer com que eu abrisse espaço para ela ao lado do filho.

— Tontonzinho… — Ela não olhava em minha direção, mas ainda eu fechei os olhos para evitar que eles se revirassem. — Eu estava esperando seus amiguinhos irem embora porque não queria causar nenhuma comoção ou tirar a atenção do seu grande dia. — Aquilo era novidade. — Mas é que eu não pude deixar de notar que você se esqueceu de me dar meu anel…

Eu ri. E imediatamente comecei a tossir para disfarçar. Lilá virou-se em minha direção, com desgosto, enquanto eu levantava e dava alguns passos para trás.

— Tá tudo bem, meu amor? — A atenção de Stephen também veio para mim e, nesse momento, Lilá voltou a concentrar-se nele.

— Stephen!

— Oi?

— Meu anel!

— Que anel?

Mais algumas tossidas. Eu não sabia dizer, mesmo após sete anos juntos, se ele era genuinamente inocente daquele jeito ou se ele apenas se fazia de bobo quando estava perto da mãe. Qualquer resposta me irritaria igualmente.

— Oras… — Lilá empertigou-se. — Você deu um lindo anel com um diamante belíssimo para sua namoradinha…

— Noiva. — Interrompi, apenas porque, Deus, aquela mulher me tirava do sério. Lilá abanou a mão no ar, me ignorando completamente.

— E eu, sua mãe, a pessoa responsável por ter te trazido a esse mundo, seu primeiro, único e verdadeiro amor. — Ela era adorável assim em todas as situações, caso estejam se perguntando. — Não mereço um?

Eu encarei Stephen, genuinamente interessada na resposta dele. Ele olhava para todos os cantos da sala, menos para mim.

— Mamãe, não é isso, é que…

— Você não me ama mais, é isso?

Eu sabia exatamente onde aquilo daria, e não estava nem um pouco afim de ficar para assistir aquele show.

— Eu vou indo agora, vocês parecem ter assuntos pendentes e eu jamais vou querer ficar entre o amor de uma mãe por seu filho. — Sarcasmo pingava de cada palavra que eu dizia. Eu sabia disso, Lilá sabia e Stephen também. Ainda assim nós três fingíamos não perceber.

— Mas já?

— Ah querida, uma pena, acredito que você saiba onde fica a saída.

Eu forcei um sorriso à Lilá e impedi Stephen de levantar-se para despedir-se de mim apropriadamente. Qualquer mísero sentimento de felicidade ou empolgação com aquele noivado já tinha se esvaído e dado lugar a uma irritação crescente. Se ele se aproximasse de mim, iríamos brigar. E eu me recusava a dar esse gostinho à mãe dele.

Ao menos nisso Lilá concordava comigo, pois ela logo voltou a monopolizar a atenção do filho enquanto eu fazia meu caminho em direção a saída da casa.



O vento gelado do outono ajudou a esfriar minha raiva quando aparatei em um beco de Londres, não muito longe do meu apartamento. Entretanto, assim que alcancei a portaria, percebi que não queria ir pra casa, não agora. Eu estava maluca ou aquilo era extremamente errado?

Eu tinha acabado de ficar noiva. De fazer um compromisso pro resto da vida com Stephen. De concordar que, em breve, viraríamos um só. Eu tinha concordado em passar o restante dos meus dias como mulher dele e ele não estava ali, comigo, para celebrarmos aquele marco em nosso relacionamento.

Um gosto amargo subiu por minha garganta e, mesmo a raiva não estando mais ali, um misto de sentimentos cresceu. Frustração, rancor, tristeza. Eu não deveria estar triste no dia do meu noivado, deveria? Não. E eu certamente não deveria estar sozinha no nosso apartamento com um anel de brilhantes no meu dedo esquerdo e sem ele ali.

Apertando o casaco fino em meu corpo, dei as costas ao prédio em que vivia praticamente sozinha e me joguei nas ruas geladas de Londres, andando sem rumo enquanto as vozes na minha cabeça cresciam com dúvidas, certezas e pensamentos que eu estava tentando ativamente ignorar, em vão.

Era honestamente patético que eu tivesse me masturbado pensando em James horas antes de ser pedida em casamento por Stephen. E era igualmente patético que Stephen tivesse, como sempre, me deixado sozinha, mas especialmente patético que ele fizera isso na nossa noite de noivado. E era patético que eu tivesse permitido aquilo. Quando eu tinha parado de lutar? Eu sequer tinha imposto minhas vontades alguma vez durante aquele relacionamento? Eu sabia as respostas para aquelas perguntas, mas não queria pensar sobre elas.

Era pra ser diferente. Era pra ter sido diferente. E mesmo que meus pensamentos continuassem voltando à James eu sabia que, independente dele, era pra ter sido diferente. Porque meu noivo deveria querer passar a noite comigo após me pedir em casamento. E não era James quem o estava impedindo de fazer aquilo. Stephen sequer imaginava os sonhos e pensamentos que eu tivera nas últimas semanas. Como ele poderia? Ele não ficava comigo tempo o suficiente para perceber minha mudança de comportamento quando James estava perto, ou então para notar que eu estava passando mais tempo no mundo da fantasia do que na realidade.

Normalmente ele estava trabalhando e eu entendia, Deus, como eu entendia. Eu era a namorada perfeita, tão compreensiva, eu nunca cobrava nada dele, nada, e talvez o estado atual desse relacionamento fosse culpa minha também, ele me dava aquilo que tinha vontade, e eu nunca pedi por mais. Mas, mesmo nas férias, ele parecia não encontrar tempo para mim, e James não tinha culpa nenhuma disso, porque a verdade é que se não fosse James meus pensamentos e fantasias estariam passeando por aquele saboroso moreno de passado obscuro do último romance fantástico que eu tinha lido. Ou Clark Kent. O ponto é: aquela confusão de sentimentos que eu sentia agora não eram por causa de James, ele apenas calhou de estar ali. E ter me beijado na semana anterior. E me ter feito gozar apenas chupando meu peito. Detalhes.

E, certo, talvez eu tivesse ansiado pela presença de James todos os dias desde aquele acontecido no chalé de meus pais em que caímos um tanto quanto perto demais um do outro. E talvez eu tenha ficado decepcionada quando foi Stephen, e não James, a aparecer para conferir meu bem-estar após o acidente no St. Mungus. Mas, de novo, ele não tinha nada a ver com isso. Stephen e eu estávamos apenas vivendo um momento difícil em nosso relacionamento, mesmo que ele fingisse não perceber.

Então por que você aceitou o pedido?

A pergunta veio como um tapa na cara e me puxou para longe dos meus pensamentos quando eu parei meus passos para evitar esbarrar em uma senhora que caminhava apressada para frente. Ergui o rosto e observei a fachada da estação King’s Cross. Mesmo sendo domingo à noite a estação estava movimentada, ela sempre estava, com pessoas entrando e saindo e o barulho de trens do lado de dentro evocando a sensação de urgência que apenas ela conseguia transmitir.

Respirei fundo. Talvez fosse um sinal, talvez eu devesse fugir para bem longe dali, sem olhar para trás. Eu ri, balançando a cabeça. Era um pensamento ridículo, mas e se…?

Seguindo a pequena multidão que ia em direção à entrada da estação, bloqueei qualquer pensamento racional enquanto permitia apenas a emoção me guiar. E era como se uma corrente estivesse me puxando para lá, como se eu estivesse exatamente onde eu deveria estar, como se nada mais no mundo importasse. Talvez eu realmente devesse deixar tudo para trás, o que eu tinha a perder?

Abaixei o olhar para o anel em meu dedo anelar e suspirei. Não parei em nenhuma bilheteria, sequer avaliei os destinos dos trens naquela hora. Eu mal tinha documentos ou dinheiro comigo, ainda assim, continuei caminhando em frente, passeando entre as plataformas, contemplando as possibilidades infinitas que estar ali me dava. E, então, parei.

A dupla de cabelos ruivos não deveria ter chamado minha atenção, pessoas ruivas tinham aos montes por ali, mas o quinteto que se abraçava se destacava dos demais, os rapazes com cabelos escuros e bem aparados, com exceção de um deles, que possuía um tom mais claro de castanho em comparação ao pai e ao irmão, mas longe do tom alaranjado da irmã e mãe, e fios revoltos que levavam um charme sensual a todo seu look. Antes do abraço se quebrar eu corri para me esconder atrás de uma pilastra e, agora, perto de James, aquele puxão que eu sentia parecia se intensificar em direção a ele. Respirei fundo, de onde eu estava ele não me veria, graças a Deus, mas eu pude observar a família Potter se despedindo dele. O trem ao lado tinha como destino Paris e, de alguma forma, o aperto no meu peito cresceu. E aquela angústia que eu tinha sentido ao chegar no meu apartamento me atingiu ainda mais forte.

Por que você aceitou o pedido de Stephen?

Minha própria voz voltou a ecoar nos meus pensamentos. A risada de James serviu como um soco no meu estômago e eu senti o gosto de bile subir por minha garganta; endireitei meu corpo, apoiando a cabeça na pilastra em que me escondia e respirando fundo.

Porque ele me ama. Independente da ausência, independente das brigas, independente dos problemas. Ele me ama. E eu gosto dele. Porque ele quer passar a vida comigo, mesmo que ele não tenha querido passar essa noite. Porque ele me escolheu. Todas as vezes, desde os nossos dezesseis anos, ele me escolheu. E porque James não queria nada comigo. Porque ele tinha me beijado e deixado meu apartamento em seguida com desculpas cuspidas e não tivera a decência de falar comigo depois. Porque ele tinha ido me salvar de um acidente de carro, mas não ficara no hospital para saber se eu estava bem. E porque eu o tinha enviado uma carta, confessando que estava disposta a deixar tudo de lado, desde que ele prometesse não brincar com meus sentimentos, e ele não a tinha respondido. E porque James agora embarcava para viver sua vida de aventuras e muitas mulheres como ele sempre tinha sido. Porque, por mais certo que ele parecesse ser, ele nunca seria meu. E porque Stephen merecia que eu me esforçasse para nosso relacionamento dar certo.

Conforme eu me misturava de volta à multidão, deixando a estação para trás, aquele sentimento de ser puxada em direção a James se intensificou, mesmo quando o trem partiu, como se quisesse que eu fosse para Paris. Mas era hora de calar aquelas sensações e sentimentos. Eu tinha as minhas respostas, aquela tola aventura tinha chegado ao fim, e James tinha sido o responsável por colocar um ponto final nela.

(...)

Nos dias que se seguiram Stephen tinha cumprido sua promessa e realmente ficado em casa. Pude deixar aquela história com James de lado e enfim aproveitar meu noivado junto com meu noivo. Ainda tinha que contar para meus pais, mas Stephen estava tão dedicado em me agradar que eu me concentrei em apenas aproveitar aquela bolha mágica de paixão que tinha nos envolvido como se estivéssemos uma vez mais quatro ou cinco anos no passado, quando as coisas eram simples. E tinha sido bom. Até Lilá convocar Stephen novamente, afirmando que estava doente e precisava do Tontonzinho dela pois sentia que iria morrer em breve. Aquilo já fazia três dias e desde então Stephen me encaminhava curtas mensagens explicando que estava cuidando da mãe e não poderia voltar. Três dias que foram o suficiente para desmanchar tudo que tínhamos construído nos outros quatro e me lembraram como um tapa como eu nunca seria prioridade na vida de Stephen.

Suspirei, desligando a água da chaleira e encarando o pedaço rasgado de pergaminho que indicava um endereço mais ao sul de Londres e a hora marcada para dali três horas, direcionando à capela que iríamos olhar para a realização do casamento, coisa que decidimos nos dias que passamos juntos. Ao lado, a carta de Stephen que tinha chegado naquela manhã, informando que a mãe ainda precisava dele e que ela conhecia uma capela melhor que aquela que eu tinha sugerido, mas avisando que, caso eu quisesse ir sozinha vê-la, poderia.

As batidas na porta vieram impacientes, me tirando do estupor de mágoa e vazio antes que ele me dominasse e eu caminhei até lá, dispensando as imagens de James saindo do meu apartamento envergonhado após ter me beijado e…

— Ela entrou em trabalho de parto e eu juro por Deus que se não saísse de perto de Fred aquela pobre criatura ia nascer sem pai. — Dominique invadiu o apartamento e eu a observei passar, fechando a porta em seguida. — Eu realmente preciso de uma distração agora. — Pediu, jogando-se no sofá olhando pra mim, eu ri e ergui os ombros.

— Eu estava fazendo chá. — Comentei, refazendo meu caminho até a cozinha e pegando uma outra caneca, a caneca de Stephen.

— E onde está o homem mais feliz do planeta terra neste momento? Além do idiota do Fred, mas não quero pensar nisso agora, amanhã eu foco em ficar feliz por ele. — Eu me concentrei em pegar outro saquinho de chá, ignorando a pergunta de Dominique apenas porque eu não tinha a presença de espírito de respondê-la. — Steeeeeepheeeeeen sua madrinha está aqui.

Eu parei. Respirei fundo. E então olhei para Dominique.

— O que eu estou fazendo?

Ela se apoiou nos cotovelos, erguendo-se no sofá e olhando de volta pra mim, uma sobrancelha arqueada.

— Chá?

Eu bufei, mas ri. Puxei uma bandeja e organizei as canecas, chaleira e açucareiro ali e levei os itens até a mesinha da sala, então suspirei e me joguei no sofá por cima de Domi.

— O que eu estou fazendo da minha vida Mini? — Choraminguei, ajeitando-me ao lado dela enquanto minha amiga fazia o mesmo.

— Ah, esse é o tipo de distração que eu estava precisando. — Comentou, cuidando de colocar a água da chaleira nas canecas. — Ele não está aqui, então?

— Quando ele está?

Dominique assentiu, me entregando uma das canecas e se recostando no sofá.

— Eu não estava esperando por aquele pedido, mas eu definitivamente não estava esperando que você fosse aceitar. — Eu ri, sem um pingo de humor no ato enquanto aceitava a bebida e a imitava, ficando mais confortável no sofá. — É sério Lisa, você não ia terminar com ele tipo… em março? Me lembro de algo assim.

— Não é simples assim…

— Parece simples para mim.

— Bom, não é. — Eu tomei um gole do chá, sentindo o calor da bebida me aquecer por dentro. — Eu gosto dele.

— Bom, eu também gosto de Stephen e nem por isso vou casar com ele.

— E o que mais eu vou fazer? — Se não fosse a bebida quente em minhas mãos eu teria as jogado para o ar. — Certo, Stephen nunca está aqui, certo, eu tenho que ficar brigando com a mãe do meu namorado pra conseguir a atenção dele, certo, esse não é o casamento dos sonhos que toda garota tem, mas a gente constroi essa relação há anos e, Deus, todos os meus planos envolvem Stephen. Eu não tenho uma profissão, e não pretendo viver sustentada pelos meus pais por muito mais tempo, não que eu aceite ser sustentada por Stephen, mas, sei lá, a gente conversou em março e se ajeitou Dominique, eu passei aquele tempo com ele e foi… legal, mesmo que ele passasse mais tempo nos treinos do que comigo e, eu não sei ok? Só sei que eu vou me mudar para a Noruega antes do começo da próxima temporada e resolver minha vida lá, mas, droga, eu gosto dele.

Foi a vez dela de tirar um minuto para degustar a bebida. Os olhos de Dominique diziam muito sem ela abrir a boca, e eu sabia que ela tinha muito mais a dizer do que estava se permitindo, colocando argumentos na balança e avaliando se valia ou não a pena entrar naquela disputa comigo. Secretamente eu desejava que ela optasse por sim.

— Eu só acho que você está usando a palavra errada para definir os sentimentos que você tem por alguém com quem pretende se casar.

Eu fechei os olhos, sabia daquilo. Droga, eu amava Stephen, mas estava sendo difícil dizer aquilo para outras pessoas ouvirem, soava falso sempre que eu fazia.

— Ele é um bom homem e, apesar de tudo, um bom namorado. Tirando aquele incidente dois anos atrás ele nunca mais fez nada de errado e ele tenta me agradar, mesmo que Lilá sempre ganhe essa disputa, eu vejo que ele tenta. E mais importante: ele gosta de mim. — Uma vez mais Dominique me avaliou por um longo segundo.

— Vocês nunca mais voltaram ao que eram depois desse incidente né.

— Foi só um beijo, caralho. — Uma vez mais eu fui tomada pela lembrança de James me beijando, bem ali naquele apartamento. — Eu não ia terminar com ele por causa disso.

— E ainda assim só um beijo mudou a forma como você enxergava ele por completo, não mudou? Você não está tentando me convencer que casar com ele é a melhor escolha, você tá convencendo a si mesma.

— Não é como se eu pudesse continuar reclamando sobre isso. — Respondi apenas à primeira pergunta, ignorando por completo a segunda afirmação de Domi.

— Ah sim, entendo que a vingança é um prato que se come frio, mas James? — Dominique riu quando eu tentei tacar uma almofada nela.

— Eu contei pra ele. Deus, eu não conseguiria viver comigo mesma se não tivesse contado. Logo no dia seguinte, quando ele chegou aqui. Stephen apenas olhou nos meus olhos, disse que a partir de agora poderíamos seguir em frente do zero, beijou minha testa e saiu. Eu realmente achei que ele terminaria comigo ali.

— Você achou ou você esperava?

Eu não tinha resposta para aquilo. Eu não tinha resposta para muitas coisas. Mas as coisas tinham se desenvolvido da forma que tinham e eu me sentia como um barco de papel sendo levado pela correnteza. Se eram para convencer Domi ou a mim mesma não importava, mas as coisas eram como eram e aqueles fatos não deixavam de ser verdade só por não serem sonhos de infância. De todas as coisas da minha vida Stephen era a única certeza que eu tinha, a única coisa concreta e real e… segura. Fosse como fosse.

— Nós íamos ver uma capela para o casamento hoje, mas ele avisou hoje de manhã que não poderá ir comigo, que a mãe já tem a capela perfeita e que eu posso ir sozinha se quiser. Só pra me fazer perder tempo, eu sei, agora que Lilá já decidiu onde vai ser o casamento eu posso só aparecer lá na hora.

Para minha infelicidade, apesar das provocações, Dominique decidiu que não valia a pena entrar naquela disputa comigo. Pousando a caneca de volta na mesa minha amiga se levantou e estendeu as mãos para mim.

— Vem, a gente precisa de algo muito mais forte que chá no dia de hoje.

(...)

— Eu ainda nem contei para os meus pais, Stephen! — exclamei, exasperada, pela rede de flu. Mais uma vez me encontrava sozinha em casa. Na casa onde aconteceram muitas coisas com outro homem. Tentei colocá-lo no fundo de minha mente, mas James sempre voltava para me assombrar. Ainda mais em momentos como aquele. E em sonhos que vinham parecendo cada vez mais reais.

— Mas a minha mãe...

— Eu não irei experimentar o menu do nosso casamento com a sua mãe antes de sequer ter contado para os meus pais que vamos nos casar. — eu o interrompi, puta da vida. — Então eu acho melhor você estar aqui às sete em ponto, Stephen Thomas! Não é só a porra da sua família que importa! — saí da lareira antes que eu falasse mais alguma coisa da qual me arrependesse.

Voltei a terminar de cozinhar, tentando me acalmar. Nunca pensei que iria me estressar com os preparativos do meu casamento, mas a verdade era que cada marco importante vinha me causando um estresse extremo no último mês e sempre culminava em alguma briga com Stephen e, no fim, eu apenas desistia de tentar e deixava que Lilá Thomas continuasse a decidir tudo. E eu não sabia nem metade das coisas que ela estava aprontando. Eu queria saber, queria ver a decoração da igreja, queria que fôssemos juntos provar o buffet e selecionar as comidas que mais combinavam conosco, não com os gostos da mãe dele, queria que tivesse a nossa cara, mas Stephen não entendia nada daquilo, nem fazia questão. A vontade de chorar me assolava, mas eu me concentrei.

Depois da conversa com Dominique, Stephen tinha voltado para casa mais uma vez. E foram dias bons, parecia que minha vida tinha voltado aos eixos. Mas então tudo desandou outra vez, quando Stephen voltou para a Noruega e me deixou pra trás, com a mãe dele. Fechei os olhos. Lilá não me deixava participar da minha própria vida e Stephen não encontrava espaço na agenda para um jantar com meus pais. Brigamos quanto ao fato de que meus pais deveriam ter estado naquela festa e aquilo não nos levou a lugar nenhum, com Stephen interrompendo a conversa porque estava dando a hora dele dormir. E eu só aceitei.

Quando eu tinha virado essa mulher passiva? Por mais que eu tivesse meus próprios gostos, opiniões e desejos, por mais que eu acabasse brigando com Stephen pela intromissão não solicitada da mãe dele, no final do dia eu apenas me sentia exausta demais para tudo aquilo e… jogava a toalha. Aceitava tudo do jeito dela, apenas concordava com o fluxo das coisas para me poupar. Me poupar de participar do planejamento do meu próprio casamento, que eu queria fazer parte, mas não tinha forças pra convencer meu noivo da importância daquilo. Suspirei. Ao menos naquele dia eu tinha conseguido me impor sobre algo. Não duraria, eu sabia que no final seria o buffet de Lilá, mas não hoje. Hoje meus pais descobririam daquele maldito noivado.

Em alguma coisa eu precisava mandar. Preparei o jantar, a sobremesa, depois me arrumei e arrumei a mesa. Meus pais sempre foram um pouco atrasados, mas quando falei que era importante chegaram no horário combinado.

Fernando Carter, o belo ator de cinema, estava com os cabelos grisalhos penteados para trás e sua postura era relaxada. Jessie Carter, a charmosa bailarina, usava um vestido midi preto e se parecia muito comigo, apesar da beleza serena e sutil. Eles abriram um sorriso gigante para mim, que eu não pude não retribuir. Corri para abraçá-los. Estava tão absorta em meus problemas que acabei esquecendo de que estava com saudades deles. Ao contrário da frieza que diziam que os ingleses tinham, meus pais sempre foram muito amorosos... acho que era porque eles passavam muito tempo fora e desde Hogwarts nunca tivemos muito tempo juntos.

Dei espaço para que entrassem e finalizei a mesa. Estava bonita e bem servida. Sabia que James faria um jantar melhor do que aquele, mas era o que tinha para hoje. Balancei a cabeça discretamente enquanto colocava a colher no lugar certo.

— Onde está Stephen? — perguntou meu pai, após se acomodar à mesa.

— Está vindo — respondi, com um sorriso. Eu não podia deixar que ele visse que eu estava frustrada. Como ator, ele sabia muito bem quando eu estava fingindo.

Dito e feito, quando levantei o meu olhar para ele, meu pai me observava como se soubesse que alguma coisa em mim não estava certa.

Antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa a campainha tocou, me fazendo correr até a porta. Stephen estava vestindo um cachecol no pescoço e, nossa, ele era lindo! Quando ele sorriu e me beijou, sorri. Não conseguia ficar por muito tempo com raiva dele, não queria ficar muito tempo com raiva dele. Stephen colocou o cachecol e o casaco no closet e eu pude ver as suas tatuagens no pescoço. Mordi o lábio, eu o faria ficar hoje… A neutralidade tomou conta do meu rosto com a lembrança, não solicitada, de um sonho.

— Fernando, Jessie! — ele cumprimentou meus pais enquanto eu o seguia até a mesa de jantar posta. O sorriso dele contagiava todos a sua vontade e com meus pais não era diferente. — Vocês estão incríveis!

— Você é muito gentil, Stephen — disse minha mãe.

Stephen se sentou e eu me sentei ao seu lado. Coloquei a minha mão na dele, a que tinha o anel, e ele me olhou. Seus olhos brilharam e meu coração errou uma batida. Não eram as cores certas. Não era a expressão de alegria que eu queria ver. Não a dele. Você tomou sua decisão, Lisa.

Enterrei esse sentimento bem fundo em mim e sorri de leve para ele. Stephen se serviu e serviu uma taça de vinho para o meu pai. Quando ele se acomodou novamente ao meu lado, nós nos viramos para os meus pais.

— Bom, temos uma novidade. Mas gostaria de que soubessem por nós — disse Stephen, com a voz pingando felicidade. Ele olhou para mim por um momento e então ergueu minha mão. — Estamos noivos!

As exclamações dos meus pais foram de surpresa à felicidade. As felicitações, os brindes e os risos dos meus pais e de Stephen encheram a sala, me fazendo achar que tudo estava bem novamente. E esqueci Lilá Thomas e James Sirius Potter apenas por algumas horas.

(...)

A lua no céu brilhava com uma intensidade que não parecia genuína. Olhei ao redor, percebendo que aquilo realmente não era de verdade, pois eu me encontrava em Hogwarts, com o tempo quente, a grama em meus pés e o lago negro à minha frente. E eu sabia que eu não estava nem perto de Hogwarts; eu estava deitada na minha cama, dormindo.

Mas parecia tão real que eu poderia fingir que era. O vento era tão leve que nem conseguia me fazer sentir frio, a grama em meus pés era muito palpável. Encolhi os dedos nela, sentindo a textura do solo. Eu ri baixinho, mas logo tratei de me calar ao ouvir um barulho de alguém andando. O castelo estava silencioso demais e eu tinha certeza que, se fosse de verdade, teria algum movimento. Contudo, o único barulho que eu conseguia ouvir era de alguém se aproximando.

Eu me virei para saber quem estava invadindo meu sonho e minha respiração ficou presa em meu peito. Eu não esperava vê-lo ali e ele parecia tão confuso quanto eu. Engoli em seco, observando os músculos fortes expostos pela regata que ele usava e a calça de moletom xadrez de cós bem baixo; os cabelos estavam revoltos como sempre e o seu perfume amadeirado era trazido pelo vento de verão. A pele dele brilhava à luz da lua, o deixando incrivelmente... lindo.

Se era um sonho, por que James Sirius Potter parecia tão… palpável?

— James — chamei e, como em câmera lenta, ele se virou.

Eu não sabia que ele podia ficar ainda mais bonito. Seus olhos brilharam com tanta intensidade ao ouvir a minha voz que eu me esqueci que deveria estar com raiva dele. James, em toda a sua glória, me encarava como se eu fosse a estrela mais bonita no Céu, como se minha voz o despertasse de qualquer pesadelo que ele poderia estar tendo. E aquilo, aquela devoção, mudou alguma coisa em mim.

— Lisa — meu coração parou ao ouvir a sua voz. Eu não consegui me mover, era como se ele cantasse meu nome, como se sentisse saudades de mim, como se estivesse necessitado de mim. Seus olhos percorrem meu rosto, meu corpo, que estava coberto pela minúscula camisola que eu usava. — Linda. — Meu Deus, James era capaz de me fazer pegar fogo com apenas uma palavra; o seu olhar era tão intenso, sua voz tão intesa, como se Deus houvesse finalmente atendido às preces dele, que minhas bochechas ficaram coradas e eu não sabia onde enfiar a cara.

Escutei o farfalhar da grama enquanto James se aproximava, não era possível que aquilo fosse um sonho, porque, quando ele pegou meu queixo delicadamente e o ergueu para que eu pudesse olhá-lo, eu senti absolutamente tudo. Seu perfume, sua pele quente, a aproximação dele que me roubava todo o ar. Ainda assim, eu sabia que não era real.

James me observou como se eu fosse a mais bela e valiosa obra prima que ele já tinha visto. E eu também não conseguia desviar os olhos dele; eram amendoados, uma mistura perfeita do verde com o castanho, o rosto forte e bem marcante, o olhar desejoso e... bondoso, os lábios que eram bons de beijar. O silêncio que se seguiu não era desconfortável. Ao contrário, era como se estivéssemos nos vendo pela primeira vez.

— Você é tão linda. — Ele repetiu, a voz carregada de emoção.

Meu rosto permaneceu corado, meu coração acelerado com a voz dele, a mão dele em meu queixo, os olhos parecendo enxergar a minha alma. Eu tentei gravar cada pedacinho do seu rosto lindo, tentando entender como e por que eu estava tão... encantada por aquele homem. James era só um sonho, certo? Ele não estava ali de verdade, afinal, eu sabia que tinha me deitado na minha cama. Mas ainda assim… Estiquei a mão, tocando a bochecha dele, escondendo a surpresa de senti-lo tão real. Com a ponta dos dedos eu decorei os seus olhos, seu nariz perfeito, enquanto James fechava os olhos, apreciando o meu toque e soltando um grunhido ao me sentir tocá-lo. Quando cheguei em seus lábios, eu hesitei, a memória vívida deles me beijando simplesmente me queimando por dentro.

James segurou a minha mão que pairava a centímetros da sua boca, ainda de olhos fechados, ele beijou a palma e eu pude sentir aquilo. Um arrepio simplesmente percorreu toda a minha espinha e um suspiro de prazer saiu por entre meus lábios. Minha respiração falhou, enquanto eu passava a língua em meus lábios entreabertos e James finalmente abria os olhos.

— Como isso é possível? — perguntei em um sussurro, enquanto as minhas mãos desceram para o seu rosto, depois foram para os ombros fortes e firmes, constatando que eu realmente podia sentir cada parte do corpo de James ali. — É tão... real — deslizei a mão pela sua camisa fina até a sua barriga definida, sentindo cada fibra do meu ser vibrar por aquele homem. Meus olhos continuavam em seu rosto, temendo que, se eu desviasse, ele sumiria e eu acordaria. Meu coração estava acelerado e minha respiração querendo ficar entrecortada, mas eu estava decidida. — Eu quero você, James. — Era um sonho, eu não conseguia controlar meu subconsciente, certo?

Minha voz soou clara, como se fosse uma ordem. Ordem essa que James acatou quase no mesmo instante. Uma de suas mãos me puxou pela cintura e a outra se embrenhou na minha nuca, levando o meu rosto até ele. Seus olhos escuros pelo desejo me desarmaram e eu estava rendida outra vez a James Sirius Potter, como se meu corpo e minha alma só estivessem em paz se James estivesse comigo. Sua boca logo tomou a minha e eu derrubei todos os meus escudos para não me entregar a James Potter novamente. Porque eu o queria e ansiava desde sua partida. Porque eu precisava estar com ele, como se tudo o que pesava em minhas costas sumisse quando ele estava por perto. Era um beijo saudoso. Era um beijo que me deixava, nos deixava, em chamas.

Suas mãos, de repente, foram parar atrás das minhas coxas, me colocando em seu colo. Meus lábios não deixaram os dele em momento nenhum, enquanto minhas unhas arranhavam a sua nuca e minhas pernas envolviam a sua cintura. Eu precisava de ar, mas cada toque que James me dava parecia incendiar o meu corpo, eu queria mais dele, tanto que nem percebi que ele me levava até uma árvore e me colocava no chão. James parecia estar inebriado, eu olhei para ele e vi o quanto ele já estava excitado e sorri. Eu precisava aproveitar, aquilo não era real, mesmo que eu pudesse sentir cada parte do corpo de James. Era como se eu tivesse adormecido e ele havia voltado para me acordar. Eu queria James Sirius Potter. Então, ainda o encarando, deslizei uma alça da camisola, depois a outra e a deixei cair na grama. Logo depois, tirei a minha calcinha, ficando nua para ele.

James me encarou e eu vi os seus olhos mudarem, sua respiração ficar mais pesada. Vi quando ele observou meu corpo exposto, meu rosto, meus seios com os mamilos entumecidos, minha buceta. James agora era a pura luxúria, o homem que me desejava em todos os sentidos. O homem que me salvou. O homem que eu esperei desde que tinha quinze anos. O homem que parecia me venerar. Porque era assim que James Sirius era. Eu reconheci aquele olhar: era o mesmo que ele sempre deu para as mulheres que ele amava. O olhar que eu desejei e jamais sonhei que iria receber.

Ele veio até mim, a sua cabeça se encaixando na curva do meu pescoço, seus lábios deixando a marca ali, enquanto a sua mão brincava com o meu seio e a outra descia a própria calça, me fazendo sentir seu membro duro contra a minha barriga. James me cobria com o seu corpo e eu arfava com o seus beijos molhados e sua mão boba. Eu o sentia em mim e precisava saber, precisava sentir. Então a minha própria mão envolveu seu pau, a pele quente, o pré gozo molhando a ponta, me deixava louca, enquanto James voltava para os meus lábios. Os movimentos de masturbação se fizeram presentes e eu o ouvi gemer com o contato, minha mão subindo e descendo, sentindo-o deliciosamente contra a minha palma. Estávamos tomados pelo desejo ardente, sua mão se rendendo me tocando bem onde eu mais necessitava, me fazendo gemer alto, enquanto eu continuava a masturbá-lo. Eu estava encharcada por ele. Para ele.

James decidiu interromper os nossos toques e me segurou pela cintura. Seus dedos se fecharam em torno da minha pele, me deitando delicadamente na grama. James me observava de pé e eu queria que aquele sonho nunca acabasse, porque eu estava tendo a visão mais luxuriante que já tive em minha vida: ele me observava, de pé, segurando o pau na mão, alisando-o, me impulsionando a abrir mais as minhas pernas, para que pudesse ver o quanto eu o desejava. Sorri com malícia e aquilo foi o fim para James, que se ajoelhou diante das minhas pernas e deslizou um dedo em mim. Meu corpo arqueou com o contato, me fazendo gemer. Eu latejava por ele, enquanto ele me tocava outra vez e depois levava os dedos à boca, sorvendo a minha lubrificação e apreciando o gosto, algo que Stephen nunca nem tentou fazer.

— Puta que pariu — gemi baixo, com aquela cena obscena e totalmente excitante.

James se inclinou para frente, se apoiando em cada lado do meu corpo, se posicionando estrategicamente entre as minhas pernas. O sorriso que ele me deu aqueceu meu corpo e minha alma. Portanto, eu retribuí o sorriso. Eu estava decidida.

— Eu quero você aqui, James — ordenei, enquanto eu mesma levei o meu dedo indicador em meu clitóris inchado e necessitado. James nem percebeu que gemeu quando me viu fazer aquilo. — Me come. Agora.

Ele não precisou que eu dissesse mais uma vez, se ajeitando e segurando o pau, James não tirou os olhos de mim enquanto entrava. Eu gemi alto e ele também, enquanto eu erguia meus quadris para senti-lo ainda mais, porque eu precisava ser preenchida por ele. James nem tinha entrado até o fim quando eu me dei conta de algo. E eu quase ri por ter que precisar de um sonho erótico para entender algo que eu vivia escondendo de mim mesma.

Meus olhos se encontraram com os dele, cheios de luxúria e carinho e desejo e... amor.

Amor.

— Eu te amo, James — revelei e James finalmente afundou-se em mim por completo, como se aquela confissão fosse o que faltava para me penetrar totalmente, me fazendo gemer.

— Eu também te amo, Elisabeth…



Meu corpo se levantou e meu coração martelava em meu peito. Minha respiração estava desregulada, minha pele ainda estava quente pelos toques e pelo... Suspirei, esfregando as coxas uma na outra e sentindo minha intimidade ainda úmida e quente, como se ele realmente estivesse preenchendo-a.

Apertei os olhos e virei para o lado. Merlin, aquilo precisava parar. Mas eu não conseguia controlar meu inconsciente, e sempre que o sono me embalava era James quem me encontrava nos sonhos. Abri os olhos e encarei o espaço vazio e frio da cama. Especialmente em noites como aquela.

Coloquei os cabelos para trás e olhei para a janela, a cortina grossa cobria as imensas janelas que eu tanto gostava. Era como se o perfume de James ainda estivesse impregnado em meu nariz e o seu pau dentro de mim. Estremeci com o pensamento e, ao lembrar do que fora dito antes do sonho acabar, estremeci de novo. Era só o que me faltava. Amar James Sirius Potter. Ri, um amargor tomando conta da minha boca enquanto o passado chegava para tomar conta dos meus pensamentos.

Foi durante meu tempo no Brasil que eu percebi que talvez sentisse algo por James. Eu constantemente me via querendo contar algo para ele, ou sentindo falta da presença dele, fosse para implicar ou qualquer coisa. Era estranho, nossa relação fora do quadribol nunca tinha sido muito amigável, mas naquele ano fora eu passei muito tempo ativamente sentindo saudades de James, não que eu jamais tivesse feito algo sobre aquilo.

Quando voltei no ano seguinte, aquele sentimento tomou força. Saber que James tinha me defendido e brigado com todos os envolvidos no que resultou em minha partida havia despertado algo em mim e a forma como eu o via definitivamente tinha mudado. E, Deus, eu me odiei por aquilo. Era ridículo, eu sabia exatamente como James era, sabia que ele jamais me incluiria na lista infinita de conquistas dele, mas, ainda assim, lá estava eu, não conseguindo controlar as batidas do meu coração sempre que ele se aproximava, mesmo que Stephen tivesse entrado em minha vida.

Eu tentei ignorar, tentei fingir que não era nada, mas parecia que quanto mais eu me esforçasse para deixar aquilo de lado, mais forte ficava.

Meu coração ansiava por aquele momento. Aquele em que James desceria da vassoura e viria até o time, após mais uma partida bem sucedida. Eu poderia me enganar, poderia dizer que estava feliz por termos trabalhado em equipe e tudo o mais. Mas seria totalmente mentira. James iluminava o lugar pelo qual passava. Ainda ecoava em minha mente quando ele, antes do jogo, dissera meu nome do meio. Era o nosso último ano e eu não lembrava de ter dito para ele. Mini sabia, mas tinha certeza de que nunca contou para James. Como ele sabia?

O nosso último jogo. O último ano. E James simplesmente disse que amava Saphira Malfoy no microfone. E eu era uma idiota por ainda ficar mexida com ele, mesmo estando feliz com Stephen. Mas era só olhar a luz iluminando seus olhos alegres que eu poderia jurar que derreteria.

A comemoração seria na torre da Grifinória, como sempre. A música estava alta, as pessoas riam, bebiam e se divertiam, principalmente porque seria o último ano da maior parte da equipe que havia levado a taça das Casas desde que James Sirius Potter começou a liderar o time. Portanto, todos estavam tão felizes que não queriam pensar que não haveria mais ano seguinte para voltar.

James, como sempre, estava no meio da bagunça, com uma garrafa de firewhisky, cantando junto com o pessoal. Stephen estava ao meu lado, rindo e se divertindo. Eu percebia que, apesar de James conseguir ser sempre o centro das atenções, Stephen recebia uma boa quantidade de olhares, os quais eu cortava assim que cruzava o olhar com as atiradas. Jogador de quadribol, charmoso para cacete, e sexy. E, apesar de gostar dele, meu coração não parava de acelerar quando James Sirius entrava em cena. Essa estupidez havia começado quando eu tinha uns treze anos, mas passou ao perceber que James era um idiota... só para voltar agora, desde que James dissera que minhas pernas eram bonitas. Aquela voz que exalava sedução. E eu jamais pensei que aquilo poderia me arrepiar inteira.

Mas saber que ele havia entrado em brigas para me defender era, simplesmente, algo que me deixava caidinha por ele.

Argh! Tomei um gole grande de firewhisky e Stephen riu quando eu esvaziei o copo e pedi mais para ele. Um grito geral foi ouvido e virei o rosto só para ver James Potter beijando o próprio irmão na boca! Eu ri, porque Albus no mesmo segundo deu um murro no estômago dele, irritado. Todos na sala riram ainda mais alto e eu balancei a cabeça, imaginando como seria ter os lábios de James nos meus. Com certeza seria ótimo.

Stephen voltou com o copo cheio e eu lhe dei um beijo na bochecha. Ele ficou todo bobo. Ele era assim, divertido e sexy, mas quando se tratava de demonstração de afeto, ficava uma graça. Se juntasse James e Stephen num mesmo corpo seria o combo perfeito. Ou se fosse os dois e eu no meio, seria o duplo combo perfeito. Ou triplo combo, se é que me entendem.

Meu Deus, eu era tão depravada!

— Vou ao banheiro — disse a Stephen, que assentiu.

Decidi que iria ao banheiro do lado de fora, precisava de ar. Precisava tirar James Sirius Potter de vez da minha cabeça. Essa queda sem sentido por ele tinha que acabar. Só que Merlin parecia me odiar porque, quando eu estava voltando para a sala comunal da Grifinória, James saía pelo retrato, tão bêbado que nem conseguia se mover direito. Bufando, eu o impedi de cair de cara no chão.

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— Potter, presta atenção no que está fazendo! — reclamei, levantando o monte de músculos. A risada dele chegou em meus ouvidos e eu o encostei na parede. — Está fedendo a cachaça!

— Leãozinho! — ele disse, passando a mão em meus cabelos e levantando algumas mechas. Eu xinguei, mas não pude acalmar meu coração. — Não deveria estar sozinha por aí a essa hora.

— Muito menos você! Olha o seu estado — eu o olhei de cima a baixo, com a expressão cheia de desgosto, ainda que o filho da puta fosse um gostoso. — Tá mais bêbado que um gambá!

James, embriagado, me olhou seriamente de repente. Meu coração deu uma parada, a leve sobriedade dele me fez encará-lo com a expressão altiva, não podia me derreter em sua frente.

— Lisa.

— James.

— Stephen te trata bem? – perguntou ele e eu me surpreendi com a pergunta, principalmente com o tom de voz que usou, como se exigisse uma resposta positiva.

— Sim, por quê? — respondi e James assentiu, ficando em silêncio por alguns segundos.

— Não quero bater nele por ter feito merda com você. — Era por isso que meu coração simplesmente parava quando James estava por perto.

— Se ele fizer merda, eu mesmo arrebento ele — falei e James riu, segurando meu rosto nas mãos e me olhando de perto.

— Não esperava menos de você — ele riu outra vez, escorregando pela parede. Xinguei novamente e o levantei. James me olhou, como se me enxergasse. — Sabe, nunca pensei que eu amaria Saphira. Mas eu a amo, Leãozinho. Ela é a dona do meu coração. Espero que Stephen te ame assim, você merece... Agora eu tenho que mijar. Depois eu te vejo, Leãozinho! — James me beijou na bochecha e foi embora.

Eu era estúpida demais! Como eu poderia amar alguém que claramente não me amava e, ao mesmo tempo, agia como se eu fosse especial?

Mas ele tinha razão. Havia um homem lá dentro que moveria mundos e fundos por mim e eu ainda tinha a coragem de me sentir em dúvida? Eu realmente só podia estar fora de mim! Olhei para onde James havia cambaleando e depois balancei a cabeça.

Falei a senha para a Mulher Gorda e entrei, decidida a enterrar os meus sentimentos por James Potter bem fundo em meu coração e me entregar completamente para Stephen, que merecia que eu fosse dele por inteira.

— Caralho Elisabeth, supera. — Sussurrei para mim mesma, sentando-me na cama e passando as mãos pelos cabelos.

Eu me recusava a acreditar que tudo aquilo por James fosse qualquer coisa além de um crush tolo de adolescência. E mesmo após todos aqueles anos, os sonhos, os desejos, tudo, era só o choque de tê-lo visto de novo depois de todo aquele tempo. Realmente o visto, conversado com ele, não só os relances que eu via a distância quando aquela necessidade de ir para onde ele estava era maior do que eu.

E, certo, desde aquele dia no casamento de Teddy e Victoire e nos encontros seguintes James vinha mexendo comigo, mas eu já tinha me convencido de que qualquer um teria mexido comigo nas condições que meu relacionamento estava e, droga, não era pra ser assim.

Eu ainda tentava me acalmar quando a porta foi aberta. Olhei para o lado e vi Stephen entrando no quarto com um grosso casaco de lã. Eu o olhei e, mais uma vez, como vinha sendo nos últimos meses, eu não o reconheci. O choro se acumulou em minha garganta e eu engoli em seco, fazendo o possível para impedir que as lágrimas se acumulassem em meus olhos.

— O que foi? — perguntou Stephen, vindo correndo até mim. Me desvencilhei de seu toque e foi aí que ele ficou ainda mais preocupado. — Está tudo bem?

Eu o olhei. Não. Nada estava bem! Nem agora, nem antes de James Sirius Potter me atormentar outra vez. Nem quando eu percebi que jamais tinha deixado de gostar de James Potter. Nem com você, Stephen. Havia anos que não estava nada bem!

— Qual o problema? — ele tornou a falar, com o tom de voz urgente. Respirei fundo, colocando os cabelos para trás. O perfume cítrico de Stephen era errado.

— Nada. Só tive um pesadelo... — suspirei. Nada no sonho foi aterrorizante. — Preciso de um banho — respondi, jogando as cobertas para o lado e franzindo a testa. Me virei para Stephen, confusa. — O que está fazendo aqui?

Stephen riu, tirando o cachecol e depois o casaco. Eu estava parada a meio caminho do banheiro quando virei para ele. Stephen se despia, suas tatuagens, que antes eu achava extremamente atraentes, aparentes.

— Aqui é a minha casa também, esqueceu? — brincou ele, terminando de tirar a calça.

— Sim, como eu poderia lembrar? — respondi, de mau humor. — O que está fazendo?! — indaguei, quando Stephen tirou a cueca, ficando nu na minha frente. Ele me olhou como se fosse óbvio.

— Vou tomar um banho com a minha futura esposa, tirar esse pesadelo da sua cabeça, fazer um carinho gostoso... — ele sorriu com malícia e eu podia me sentir atraída, mas, ao invés disso, eu senti o desespero tomar conta de mim. Não, ele não podia fazer isso comigo!

Primeiro: ele preferiu ficar na casa da mãe mais uma vez e ela nem estava doente.

Segundo: eu acabara de sonhar com James Potter fazendo amor comigo. Jamais me deitaria com Stephen quando era James quem estava impregnado em mim, mesmo que tivesse sido um sonho. Um sonho muito vívido. Era sujo, inapropriado. Não seria em Stephen que eu pensaria.

— Vista-se. — Não existia nenhuma emoção na minha voz, nem um pingo de energia. Stephen percebeu e, sem discutir, colocou a cueca novamente.

— O que está acontecendo, meu amor?

Meu amor. Eu senti a bile subir por meu estômago, mas consegui voltar com o fluido de volta para o lugar. Encarei Stephen, meu coração disparado por todos os motivos errados, o desgosto e a raiva tomando conta de mim. Ele deu um passo em minha direção, eu dei um passo para trás.

— Lisa…

— O que nós estamos fazendo?

— Nós não falamos disso semana passada?

— Não! Nós não falamos, Stephen. Porque você nunca me escuta! Você fica aí, me encarando, fingindo que está me ouvindo, e aí no dia seguinte faz tudo de novo. O que caralhos nós estamos fazendo? Como… como que isso vai funcionar? Que porra de vida é essa que eu estou vivendo? Que estamos vivendo?! Eu fiquei te esperando a noite toda Stephen, você prometeu que estaria aqui e não veio. De novo. E ainda teve a coragem de me pedir em casamento e eu… — Dei mais um passo para trás, precisando estabelecer mais distância física entre nós dois. — Isso é ridículo. Você nunca está aqui, você não me escuta, você tenta não contrariar sua mãe e coloca todas as minhas vontades na linha para isso, todas as suas vontades, porra, você sequer tem uma personalidade ou você é só o que ela decide que você é? Não era pra ser assim. Não era assim antes. Como que ela consegue te controlar mais agora que você mora em outro país do que quando vocês moravam na mesma casa? Eu preciso que você faça alguma coisa, mas você não… você não liga, você nunca… você…

— Eu amo você, Lisa.

— Não! — Eu gritei, sentindo minhas costas colidirem contra a parede e o choro por fim vencer a briga, as lágrimas escorrendo por meu rosto ao tempo que eu tampava meus olhos e bochechas. Um longo minuto passou, ou cinco, eu não saberia dizer, mas só falei novamente ao sentir que conseguiria o fazer sem minha voz tremer. — Como você consegue dizer que ama alguém que você sequer percebe que está morrendo? Eu estou sufocando aqui Stephen, e eu só estou pedindo para você perceber.

Minha voz tinha saído firme, mas minhas mãos tremiam. Apesar da agitação, meu coração voltara ao compasso natural das batidas e, talvez, aquela fosse a pior parte. O silêncio se estendeu entre nós dois, parecendo tornar os dois metros entre a gente em oceanos. Stephen coçou os olhos e passou a mão pelos cabelos bem penteados, tão diferentes dos rebeldes de James. Nada. Absolutamente nenhuma reação de mim.

— Tome seu banho, Lisa, amanhã é outro dia.

Se eu já não tinha energia antes, naquele instante eu senti o restante dela ser drenada de mim. E eu o obedeci. Submissa como eu era eu apenas balancei a cabeça e dei as costas para o meu futuro marido.

Ao voltar para o quarto, mais de uma hora depois, Stephen me comunicou que dormiria na sala. Eu, por minha vez, não dormi novamente, sendo incomodada pelo impulso quase incontrolável de aparatar para algum lugar ao sul da França. Mas permaneci exatamente onde estava, imóvel na cama vazia e fria. E o dia seguinte de fato foi outro dia, e continuamos, uma vez mais, como se aquela discussão, como todas as outras que vieram antes dela, nunca tivesse acontecido.

(...)

O Ano Novo passou e, mais uma vez, eu passei com Dominique e Fred, sem Stephen. Eu não entendia como, alguns anos atrás, tudo parecia estar no lugar certo, minha vida estava completa, meus amigos estavam bem e eu estava muito mais do que feliz por acompanhar Stephen crescer nos times de quadribol. Como tudo pode desandar daquela maneira? Como eu tinha me contentado em viver em função de Stephen?

Agora, mais uma vez, eu estava indo atender mais um capricho de Lilá. Ir até Paris para escolher um vestido, porque, de acordo com ela, lá se faziam os melhores vestidos de noiva. E, mais uma vez, me perguntava onde havia ido parar aquela mulher de língua afiada que eu era? Estava tão drenada que nem me posicionar sobre qualquer coisa sobre aquele casamento eu conseguia. Pela vitrine, eu enxerguei Lilá correndo atrás da atendente toda hora, perturbando a pobre coitada com todas as suas exigências sem fundamento. Será que se eu me virasse e fugisse ela ainda assim encontraria uma maneira de querer mandar no meu relacionamento?

Respirei fundo, tirando coragem de sabe Deus onde, e entrei na loja. Tinha chamado Dominique e minha mãe para ir junto para a prova do vestido, mas, como sempre, Lilá deu um jeito de fazer aquilo se tornar dela. Nada nesse casamento tinha a minha personalidade ou a de Stephen. Ou a nossa. Lilá ainda discutia sobre onde seria a festa, tendo escolhido lugares bregas e totalmente ridículos. Entretanto, eu a enrolava, porque, pela tradição, seria meu pai que pagaria. E eu não queria que meus pais vissem que todo o processo para aquele casamento não tinha um dedo meu.

Quando Lilá percebeu que eu tinha chegado me puxou para um espaço grande, com um palanque branco e redondo no meio, em frente a um imenso espelho. Ela me puxava, falando e falando, mas eu não conseguia me concentrar nem na metade do que dizia. Eu estava no modo automático, concordava com o que ela falava, sorria quando eu achava que tinha que sorrir. Lilá pedia opiniões que jamais iria aceitar de verdade. Minha mente estava tão esgotada que eu nem rebatia. Era como se, quando eu estava longe dela, eu conseguisse ignorar tudo o que acontecia em meu relacionamento com Stephen, mesmo que me matasse aos poucos. E eu até conseguia ficar bem. Mas perto dela era como se o fantasma que assombrava nossa relação estivesse sempre ali, me lembrando de todos os motivos que eu tinha para desistir. E, para não ouví-lo, eu simplesmente desligava tudo.

Lilá me guiou para uma arara cheia de vestidos que eu sabia que iria odiar. Mas lá estava a nora perfeita, a nora que Lilá moldou para que eu fosse. Ela me vencia no cansaço, como se soubesse que eu estava incrivelmente exausta para rebater, para me impor. E eu fazia o que ela queria, assim como Stephen. Eu não entendia como eu havia me perdido no meio do caminho.

— Vamos, vamos! Experimente este! — ela me empurrou um vestido que estava segundos antes nas mãos da atendente. Ele era tão cheio de babados que eu quase não via o chão.

Sem dizer nada, segui a atendente até o vestíbulo, onde me ajudou a entrar no vestido. Não tinha espelho ali, portanto, eu tive que voltar para o espaço destinado às noivas. Lilá bateu palmas, animada, enquanto eu me olhava no espelho. O vestido era totalmente ridículo. Para mim, é claro. Era bem feito, mas tão bufante que eu parecia ter saído de um filme antigo. Eu não conseguia ver meus pés.

— Lindo! Mas acho que ainda não é o certo. Experimente este agora — ela colocou outro nos braços da mulher.

Voltei para o vestíbulo e coloquei outro vestido.

E foi assim que eu experimentei três vestidos diferentes, um tão feio quanto o outro. Que não combinavam em nada comigo. Quando vesti o quarto, Lila simplesmente vibrou. Era estilo princesa da Disney, com mangas curtas bufantes e saia rodada. Parecia que eu não era eu mesma.

— É este! É este! — Lila exclamou, feliz da vida. Chegou a bater palmas. — Pode prepará-lo, iremos levar.

Era isso. Era assim? Era assim que se escolhia um vestido de noiva?

— Minha mãe e Dominique já estão chegando. Acho que deveríamos esperá-las — disse eu, tentando dissuadi-la, mas Lilá fez cara de desgosto e aquilo afundou meu coração no peito.

— Bobagem! Somos capazes de escolher um vestido, querida — Lilá respondeu. — Você está linda.

Foi quando dei um sorriso que não chegava aos meus olhos, que senti. Meu olhar procurou, meu subconsciente sabia quem procurava antes que eu mesma me desse conta. Então meu olhar seguiu para o espelho e ali, bem ali, tão perto de mim, James me olhava pela janela. Seus olhos demonstravam a mesma admiração que em meu sonho. Foi por breves segundos, mas eu sabia que era ele, e sabia também que não estava imaginando coisas, porque eu senti aquela coisa que sempre me puxava para ele.

Desviei o olhar do espelho para descer sem tropeçar naquela coisa e corri até a janela. Mas James Sirius havia sumido. Meu coração batia forte contra as minhas costelas, os olhos marejados de lágrimas. Por dois segundos, por dois segundos que vi seu olhar admirado, eu me senti bem. Porque sabia que tudo o que James iria querer para mim seria minha felicidade.

Na mesma hora, eu segui para a porta da loja, com Lilá gritando atrás de mim, mas James havia desaparecido. A vontade de chorar me invadiu, porque eu ainda conseguia sentir aquele laço invisível me puxando para ele, o que significava que ele ainda estava por perto. Eu segurava o vestido acima dos joelhos, enquanto olhava para os lados, à procura dele. Então, como mágica, James se foi. E o vazio foi instaurado novamente em meu peito.

Coloquei a mão em meu coração. Ele estava partido, não somente pelo descaso de Stephen em relação a nós dois, mas também por James. Muito mais por causa de James Potter. Eu sentia a dor me invadir, mas nem tempo de chorar eu tive. Lilá me puxou para dentro da loja novamente, brigando comigo por ter saído assim. E, então, voltei para o meu modo automático: tirei o vestido horroroso, depois ele foi embrulhado com cuidado e Lilá pagou pelo mesmo, na mesma hora em que minha mãe e Dominique chegaram na loja, dizendo que tinham tido um contratempo. Forcei a voltar para mim mesma e a tristeza estampada no rosto da minha mãe por não ter acompanhado a escolha do vestido terminou de me matar por dentro. Para tentar amenizar, falei que a compensaria quando chegasse a hora de vestir e de me arrumar. Jessie não pareceu tão alegre assim, mas aceitou.

Meu olhar cruzou com o de Dominique, que me olhava de forma séria, como se soubesse de tudo. Eu estava infeliz, e só minha amiga parecia perceber isso. Ela não disse nada e nem precisou, porque eu entendi o seu olhar. Eu assenti e ela passou por mim, pegando na minha mão. Sabia que Dominique não iria dizer nada na frente de Lilá e minha mãe.

Mostrando certa animação forçada, falei que a gente precisava almoçar. Saímos da loja, com Lilá tagarelando com a minha mãe, que tentava ser mais polida possível.

(...)

Encarei a porta de madeira à minha frente com uma visível expressão de desgosto ao perceber os corações e cupidos que a decoravam. Minha vontade era de rasgar todos aqueles papeis e tacar fogo. Quanto mais a segunda quinzena de Fevereiro se aproximava, mais evidentes ficavam as promoções e eventos referentes ao dias dos namorados e, mais do que nunca, aquilo vinha me tirando do sério.

— Lisa?

Ouvi meu nome ser chamado e me virei para a porta semi-aberta atrás de mim. A bela mulher de cabelos lisos escuros e olhos azuis portava um sorriso gentil e deu um passo para o lado, convidando-me a entrar. E assim o fiz. O consultório da dra. Sabine Abrasax era acolhedor e confortável, as paredes possuíam tons neutros mesclados a suaves tons de azul, uma delas completamente preenchida por estantes abarrotadas de livros diversos e decorações altivas. Uma outra portava um quadro aberto a muitas interpretações, com uma mancha colorida preenchendo-o por completo e, abaixo dele, uma singela lareira crepitava um calor convidativo em contraste ao vento gelado que soprava do lado de fora. Ao centro, um sofá confortável na cor creme com almofadas em diversos tons pasteis esperava por mim, logo à frente desses uma cadeira igualmente confortável aguardava a chegada de Sabine, que após ter fechado a porta já se encaminhava para lá. Uma mesinha ao lado dela segurava seu caderno e caneta, além de uma vela que emanava um agradável cheiro de lavanda e camomila.

Nos dias seguintes à prova do vestido eu senti toda minha vontade de existir ir embora. Por três dias eu mal me levantava na cama, tendo permanecido no quarto escuro, apenas olhando para além das cortinas que eu não tinha aberto, pensando em tudo e, ao mesmo tempo, nada. Respirar sendo a tarefa mais árdua que eu conseguia exercer. No quarto dia, já aprofundada na madrugada, uma pontada aguda em minha bexiga me fizera perceber que eu não me levantava para ir ao banheiro já há um tempo. Um cheiro ruim já começava a estagnar os lençois e eu percebi, apenas ali, que não comia nada há ainda mais tempo e também não tomava banho há alguns dias. Fora naquele momento que eu percebi que precisava fazer alguma coisa e, então, encontrei a psicóloga que agora estava à minha frente. Duas sessões por semana, há aproximadamente dois meses, já vinham mostrando sutis melhorias. Ao menos eu tinha conseguido sair da cama novamente.

— Como você tem passado, querida?

Ela não era muito mais velha que eu, dez anos no máximo, mas parecia não passar muito de cinco. Ainda assim, a voz dela possuía uma cadência sábia, compreensiva e prudente, que, às vezes, me fazia pensar que ela tinha secretamente já passado dos setenta anos e apenas tinha acesso a ótimos produtos de beleza.

— Eu odeio o dia dos namorados. — Disse em um suspiro, me aconchegando no largo sofá. Já tinha estado ali vezes o suficiente para saber que mentir que estava tudo bem só me faria perder minutos preciosos daquela consulta. Sabine puxou o caderno para o colo e me olhou com calma, sem julgamento, nada que indicasse que ela me achava uma maluca por aquela afirmação.

— E por que você diz isso? — Perguntou somente, calma como sempre.

Eu ergui os ombros, olhando ao redor por um instante. Observando o ambiente ao meu redor e pausando o olhar sobre o filtro que ficava ao canto, uma gota quase pingando da torneira no copo disposto abaixo dela.

— Não sei, acho que nunca gostei. É tudo tão… ugh. — Fingi que um arrepio tinha passado por todo meu corpo. — Quando eu era mais nova acho que nunca pensei muito sobre isso, era só um dia como qualquer outro, não dava muita atenção para essa coisa. Acho que só virou realmente uma data pra mim quando Stephen e eu começamos a namorar. Antes dele os namoricos que eu tive nunca chegaram à data e, enfim. Stephen adora, acha romântico. — Ri sem humor, balançando a cabeça. — No nosso primeiro dia dos namorados ele me deu um buquê de rosas. Eu odeio rosas. Mas era o começo do relacionamento, não queria falar nada nem o deixar sem graças então fingi que amei, desde então ele me dá rosas em todas as oportunidades. — Revirei os olhos, olhando para minhas unhas. Eu gostava de tulipas, especialmente as vermelhas. Tinha lido em um livro de fantasia quando mais nova que tulipas vermelhas significavam amor eterno e tinha ficado com aquilo em mente. Já mencionara o fato para Stephen algumas vezes, mas ele insistia no classicismo das rosas porque, bem, eu apenas não tinha coragem de falar que as odiava. — E jantares. Nas casas de chá mais cheias de frufru que você conseguir imaginar. É tão irritante, sabe? Tantas pessoas e parece que todo mundo ali sabe que você vai transar naquela noite e argh. É desconfortável. Não que ele me leve a jantares mais, já tem um tempo que não. Deus… — voltei a rir, balançando a cabeça. — Não, agora eu tenho uma coleção de joias diversas para compensar a ausência dele. Dia dos namorados, aniversário de namoro, o que for, pode ter certeza que eu vou ganhar um novo brinco de rubi ou um colar de safira. Eu realmente não gosto de safira. E é irritante. Tudo tão… padronizado. Flores, jantares, presentes. E aqueles casais jovens sorrindo e se beijando na rua. Mal sabem eles o que o futuro lhes reserva. Uma dona de casa frustrada que bebe espumante às nove da manhã rodeada por suas joias porque é a única companhia que tem.

Aquele era meu futuro. Eu conseguia imaginar exatamente aquela cena. Uma casa gigantesca, meus filhos em algum lugar com as babás e eu lá, em minha suíte de luxo, rodeada por joias de diamante e pedras diversas, ursos maiores que eu e quaisquer outras coisas que Stephen achasse para compensar sua ausência.

— Você acha que tem algo que faria você gostar mais dessa data? — Uma vez mais, ergui os ombros.

— Eu não sei. — Inflei as bochechas, agora encarando meus sapatos. — Algo mais individual talvez. Não tenho problemas com jantares, é só o ambiente e as pessoas e… Já sugeri para Stephen uma vez que fôssemos jantar só nós dois, um piquenique ao luar ou qualquer coisa do tipo, mas ele fazia questão do restaurante chique. Acho que ele quer provar algo gastando o máximo de dinheiro comigo, mas nem tudo é sobre dinheiro, sabe? James namorou essa amiga que temos em comum quando éramos adolescentes, eu estava no intercâmbio então não cheguei a ver o planejamento, mas eu e ela nos correspondíamos toda semana já que ela tinha vindo no meu lugar e enfim, ela contou que ele tinha preparado tudo para os dois. Um lugar isolado, velas, comidas que ela gostava e a lembravam de casa, um ambiente só pros dois, focando nas coisas que ela mais gostava. Foi doce, eu achei pelo menos. Ele fez questão de prestar atenção nela e nas coisas que ela gostava e cuidou para tudo ser de uma forma que ela gostasse. Não ligaria de ter algo assim, só nós dois, um momento íntimo para conversar e compartilhar. Acho que se tivesse algo do tipo eu poderia odiar menos a data.

— Esse James… parece ser bem diferente de Stephen, né?

Eu ri, agora verdadeiramente. Ótima piada.

— Deus, sim! Muito me surpreende que os dois são ingleses, mas garanto que as semelhanças acabam aí. Stephen é pragmático. Ele faz as coisas e enfrenta a vida como se fosse uma lista de afazeres. Quando ele não está constantemente tentando agradar a mãe e deixando que ela o controle ele parece agir no automático, ele é muito racional e age com base naquilo que ele considera certo e apropriado, e sempre foca em fazer o que precisa ser feito, seja como for. — Como me pedir em casamento porque já estava passando da hora e aquilo era o esperado. — James… não. Ele é mais emocional, sabe? Sempre foi, desde que eu o conheci. Ele presta mais atenção aos detalhes, razão raramente controla os impulsos dele e é… selvagem. Vivo. Ele emana uma energia que preenche o ambiente, sabe? Ele sempre conseguiu me deixar bem reativa, despertar emoções em mim só de estar por perto. Raiva, inveja, alegria, vergonha…

— Amor? — Sabine sugeriu e eu ergui os olhos para ela, em um flash milhares de lembranças rodando como em um filme na minha cabeça.

— É, claro. Ele é um ótimo amigo, eu adoro ele e tudo, claro que amor também, claro que… — Eu gaguejei, não tinha o que acrescentar, as lembranças continuavam a todo vapor. O silêncio preencheu o espaço por um arrastado minuto.

— Você gostaria que Stephen fosse mais como ele?

Meus olhos encontraram o dela, o show de lembranças parando enquanto eu a encarava. Droga, eu quase queria que Stephen fosse James. E aquilo era errado, não era? Eu sabia sim, mas, ainda assim, eu movimentei a cabeça de baixo para cima de forma sutil, mas evidente.

— Patético, né? E injusto. Stephen é um homem bom. — Eu vinha repetindo tanto aquelas palavras nos últimos tempos que elas quase não faziam mais sentido. Quase. — E ele me trata bem. Quero dizer, quando ele está aqui e quando não estamos brigando, sei que desde o noivado preenchemos quase todo o tempo que passamos junto brigando, mas é o estresse da cerimônia e da mãe dele e… quando ele está aqui… Ele me ama, e é legal ter alguém que me ame, apesar de eu não saber o que quero da vida e… — Balancei a cabeça. — Ele é bom e é gentil e ele me trata bem, mesmo que ele não escute tudo que eu falo, ele discutiu com a mãe para garantir que teríamos as janelas que eu gostei quando mudamos para o apartamento. — Depois de eu ter ameaçado não me mudar pra lá. — Então ele também tenta fazer as coisas como eu gosto, eu sei que ele é a própria pessoa e que não é justo querer que ele seja mais como James. James sumiu de nossas vidas por anos, como ele poderia? Mas é só que James é… diferente.

Em absolutamente tudo. Enquanto Stephen era alto e musculoso, James, apesar de mais alto que eu, era bem mais baixo e os músculos torneados eram abrigados em um corpo mais esguio. Enquanto os cabelos de Stephen eram perfeitamente alinhados e sua barba sempre estivesse por fazer os de James eram rebeldes e sua face estava sempre perfeitamente barbeada. Stephen tinha vinte e sete tatuagens espalhadas pelo corpo, James não possuía nenhuma. Os olhos castanhos de Stephen eram tão marrons quanto chocolate ao leite derretendo em uma xícara de café, enquanto os de James eram salpicados por raios de um verde suave. Enquanto James invadia meus sonhos mais devassos e meus devaneios diurnos, Stephen nunca estava em lugar algum.

Sabine concordou, então colocou o caderno de lado e inclinou-se para frente, esticando as mãos em minha direção. Eu a observei e, sem jeito, segurei as mãos dela.

— Olhe Lisa, eu sei que não nos vemos há tanto tempo e, talvez, eu não devesse ser tão direta assim para não te assustar, mas sinto que você precisa disso então me escute com atenção, ok? — Eu assenti. — Nessas últimas semanas, em nossas conversas, eu já pude perceber diversas coisas sobre você, e eu não quero dizer o que você é ou como você deve agir, mas eu sinto que sua demora em perceber o que eu notei em nossa segunda conversa está atrapalhando o seu desenvolvimento aqui, comigo, então é minha obrigação te dizer isso. Você precisa se priorizar. Você precisa dizer aquilo que gosta, aquilo que espera, você precisa se impor. E eu sei que você tinha isso em você quando mais nova, porque você me conta, mas já há um tempo que não. Você diz que Stephen age no automático, mas percebe como você faz o mesmo? Por quê? O que aconteceu que te fez parar de lutar por si mesma? Para que continue buscando desculpas para os outros?

Aquelas perguntas eu já tinha me feito diversas vezes nos últimos meses, especialmente desde o noivado, mas ouvir de outra pessoa era realmente algo. E eu as recebi com um impacto que pareceu bastar para fazer a resposta surgir assim, de repente.

— É mais fácil assim. — Minha resposta era um sussurro, mas a proximidade bastou para que ela compreendesse. — Eu tento brigar, eu tento me impor, mas é como se eu estivesse gritando no vácuo. Eu ainda grito, mas há tanto tempo que eu sinto que minha voz não sai mais, então é mais fácil. Eu gosto de Stephen, eu gosto da companhia dele, eu gosto de ter uma companhia. E não sei se consigo achar alguém melhor. — Fechei os olhos perante a imagem de James que brilhou na minha mente, aquilo era impossível e irrealista. — Ele é um homem bom. Ele me apoia no que eu faço — ou não faço — da minha vida e nós estamos juntos há tanto tempo que… — Ergui os ombros. — É mais fácil assim e eu sinto que se ficar sozinha, verdadeiramente sozinha, não apenas deixada pra trás por ele, mas sozinha ao ponto de saber que ele nunca mais vai voltar, eu vou ser obrigada a me olhar no espelho e enxergar a bagunça que eu sou. E como qualquer pessoa poderia amar alguém como eu que sequer consegue escolher uma carreira para seguir aos vinte e quatro anos? Que não mantém nenhum hobby por mais de duas semanas? Como eu posso impor meus gostos e vontades a ele se eu sequer sei do que eu gosto?

Apenas percebi que chorava quando Sabine soltou uma de minhas mãos gentilmente e me ofereceu um lencinho, o qual aceitou envergonhada. Ela sorriu compreensiva, um sorriso que indicava que estava tudo bem, que aquele era um lugar seguro.

— Você é tão mais do que uma carreira ou hobbies, e qualquer pessoa teria sorte em amar você, Lisa. Mas eu sinto que agora estamos realmente indo para algum lugar. Infelizmente nosso tempo por hoje está acabando, mas eu tenho um dever de casa para você, e eu sinto que se você o cumprir direitinho nosso próximo encontro será ainda mais produtivo que hoje. — Eu enxuguei as lágrimas, percebendo que o ponteiro maior do relógio realmente já tinha dado uma volta completa ao redor dos números, e a encorajei a continuar. — Você vai fazer algo que você queira. Alguma coisa que você realmente queira fazer. Troque seu vestido de noiva, viaje para algum lugar interessante, vá a algum show, coma aquele brownie que você está desejando há semanas. As possibilidades são infinitas. Siga seus instintos, faça aquilo que você sente que é certo, que você precisa fazer, sem medos, sem pensar nas consequências, apenas faça.



Fazer algo que eu quisesse. Seguir meus instintos. Fazer algo por mim. Já fazia uma hora desde eu tinha deixado o consultório e atravessado a rua até a sorveteria italiana que se encontrava do outro lado. Chovia e fazia cinco graus, então a atendente estranhou ao me ver entrar ali e perceber que não era apenas para me esconder da garoa. Apesar do clima, eu decidi que queria sorvete de pistache. Era um dos meus sabores preferidos, mas Stephen não gostava, então por regra sempre escolhia um que ele também gostasse para que pudéssemos desfrutar de mais sabores e trocar entre nós dois. Mesmo quando ele não estava presente eu mantinha aquele hábito, mas não hoje. Não. Hoje eu tinha decidido que comeria sorvete de pistache.

Encarei o pote com sorvete de queijo gorgonzola à minha frente. Ao alcançar o balcão a simpática atendente tinha me apresentado a opção antes que eu tivesse a oportunidade de falar. Aparentemente era uma criação dela e se ela vendesse o suficiente dele o chefe colocaria o sabor no menu e ela receberia um bônus. Eu, obviamente, aceitei. Agora, uma hora depois, apesar do frio e da chuva, o sorvete, de sabor absolutamente horrendo, já tinha derretido por completo em seu potinho. E eu já tinha falhado em minha primeira tentativa.

Mas talvez fosse pelo bem. Meu dever de casa não poderia ser solucionado em apenas um sorvete e aquele era o universo me dando uma chance para fazer melhor. Certo. Mas então… o que eu queria? Suspirei, misturando a pazinha na gosma creme-esverdeada na minha mente.

James.

Travei o maxilar. Não. Sim. Não assim. Um arrepio tomou conta de mim ao mesmo tempo que a lembrança dos lábios de James em meu pescoço chegaram. O beijo quente em minha boca, colo, peito…Não! Não assim. Mas… uma resposta. Quem James Sirius Potter achava que era para me beijar daquela forma? Quem ele achava que era para sussurrar em meu ouvido que eu era linda antes disso? Que direito ele tinha de deixar meu apartamento como um fugitivo e me largar para trás, seminua e trêmula, desacreditada do que tinha acabado de acontecer? Por que ele não respondera minha carta? Por que ele vinha me olhando de um jeito diferente nas últimas semanas antes de partir? Por que ele me segurava no colo quando eu acordei do acidente, mas não estava no hospital quando eu recebi alta? Por que ele correra ao me ver na loja de vestidos?

Respostas. Era disso que eu precisava. Era aquilo que eu queria. Era o que bastaria para me colocar no caminho certo novamente. Para solucionar todos os problemas que eu tinha com Stephen desde antes de James sequer retornar para a Inglaterra e flertar comigo naquele casamento. Era tudo o necessário. Respostas, e nada além disso. Não era sobre ver James ou sobre entender o que eu sentia por ele. Não era para descobrir se aquele estúpido crush tinha voltado para me atormentar de forma ainda mais tortuosa que antes. Não era para conquistar um último beijo de tirar o fôlego, tão pouco para dá-lo uma oportunidade de falar que me amava para que eu pudesse largar tudo para trás e me jogar nos braços dele. Não. Apenas respostas.

Levantei de uma só vez, esquecendo-me de descartar o sorvete derretido na lixeira mais próxima, e caminhei pela chuva de Londres até virar em um beco deserto. Acelerei ainda mais o passo até encolher-me atrás de uma lixeira e fechei os olhos.

Existia uma vibração em meu peito ligada a uma corda. Cada batida do meu coração parecia ser puxada em uma direção específica e, como em todas as vezes anteriores, eu sabia exatamente para onde precisava ir. Deixando esse sentimento me envolver, saquei minha varinha e senti o vácuo me puxando e esticando em todas as direções.



Contei até três antes de abrir os olhos novamente, era um novo beco, mas claramente diferente do anterior. Não chovia e, apesar de ainda gelado, o clima parecia um pouco mais ameno. Para além dos prédios que me cercavam, na quina de um deles eu conseguia ver uma pontinha da Torre Eiffel à distância. Ainda me surpreendia aquela habilidade que eu jamais tinha pedido ou treinado de conseguir apenas ir para onde James estivesse. Nunca tinha falhado.

Como em todas as outras vezes, não demorou para provar-se verdade e eu ouvi ao longe a voz de James. Meu coração disparou imediatamente e minha mão parecia suar. Engolindo em seco, dei uns passos à frente no beco, olhando para os dois lados até o encontrar a alguns metros de distância. Ele estava parcialmente de costas para mim, mas eu sabia que era ele. E era essa certeza que fizera o tempo congelar.

James estava ajoelhado em frente a uma bela mulher. A garota de pele escura e belos cachos que emolduravam seu rosto exibia um sorriso largo enquanto dizia algo com lágrimas nos olhos, agora com o tom de conversa nivelado eu não saberia dizer o quê.

Senti um nó se formar em minha garganta, minha cabeça girava, mas estava longe de acabar. James se colocou de pé e envolveu os braços ao redor da cintura da mulher, puxando-a para perto dele com tanta força que os pés dela deixaram o chão quando o rosto de ambos se nivelou. Ainda de varinha em mão consegui sussurrar um feitiço para ouvir melhor o que eles conversam e foi naquele momento que James a devolveu ao chão, o braço dela passando pela cintura dele enquanto o dele cobria o ombro dela e seu rosto se inclinava para beijá-la. A náusea que eu senti não possuía relação nenhuma com a aparatação de momentos atrás. E, então, ele disse:

— Iremos comemorar em grande estilo.

A mulher riu, jogando a cabeça para trás como uma criança e, do meu esconderijo, eu pude ver o olhar de carinho que ele direcionou a ela. Abaixei o feitiço, não querendo ouvir mais nada, mas ouvi a risada dele em cada átomo do meu ser.

Engoli a bile que subia por minha garganta e dei passos para trás, encostando a cabeça na parede e tentando ignorar a tontura que me dominava. Como em todas as outras, James provara ter mudado pouco. Na Austrália em que eu o tinha visto em um piquenique com uma simpática garota de cabelos castanhos, ou na Escócia em que ele saia de um mercado rindo junto a uma mulher de cabelos azuis. Na Bulgária longos minutos passaram até a ruiva sair de cima dele para eu confirmar que era realmente ele e na Itália o som do gemido dele e as janelas embaçadas da cabana me contaram tudo que eu precisava saber. Na Grécia a jovem de cabelos loiros e na Espanha a morena com diversos cachorros na guia. Ele não tinha mudado em nada, ele nunca iria. Fosse em Hogwarts ou ao redor do mundo ele sempre encontrava uma nova cama para se deitar. Na Inglaterra com May, Ruby e… eu. Em não mais que quatro meses. Com o sorriso galante e a história romântica de encontrar um amor, ele seguia conquistando corações sem se importar com os cacos deixados para trás. Talvez o grande amor da vida de James realmente tivesse sido Saphira e a perda dela o tornara em alguém ainda mais inconsequente que ele era antes de tudo aquilo. E eu me recusava em ser efeito colateral daquele comportamento. Não.

Eu tinha ido ali atrás de respostas e, sem precisar proferir nenhuma elas, obtive todas. James Sirius Potter, para as duas primeiras. O direito de um Don Juan que não se preocupava com nada além do próprio prazer. Porque ele não se importava. Para me provocar e atrair. Porque ele tinha ido lá para auxiliar Fred apenas. Porque não tinha motivos para me ver novamente, figurinha repetida não completa álbum.

James e Stephen eram infinitamente diferentes. E aquilo era uma maldição, e uma benção.

(...)

Faltavam cinco horas para o casamento e as coisas tinham se ajeitado a um nível satisfatório. Casaríamos na Igreja sugerida por Lilá, mas a festa seria na casa dos meus pais. Após uma longa conversa com Lilá, que não decidia se estava feliz por me ter na família e organizar meu casamento como se fosse dela ou se me odiava por roubar o Tontonzinho dela, trocamos o vestido para um meio-termo. Ainda não era 100% o que eu escolheria para mim, mas também não era o que Lilá quereria para ela. O buffet tinha sido atualizado com um doce do meu gosto e os convites ao menos possuíam detalhes na minha cor preferida. Minimamente, com os incentivos de Sabine, eu tinha conseguido me impor mais, tentar fazer aquilo funcionar, me adaptar, mas também exigir algo para mim.

E faltando apenas cinco horas para a cerimônia eu estava completamente desesperada. Eu não podia fazer aquilo, não conseguiria seguir em frente. Não dava.

Olhei-me no grande espelho da penteadeira a minha frente sentindo o desespero escalar em mim com patas de aranha ao me observar, de cara limpa, cabelos volumosos e despenteados, em um robe branco de seda, nem um pouco pronta para dar aquele passo.

No mês anterior eu tinha decidido que tentaria um emprego no departamento de trouxas do ministério da magia. A melhor forma de unir os dois mundos aos quais eu pertencia e amava e aquela decisão me tinha feito bem. Como eu nunca tinha pensado naquilo antes? Com essa constatação, eu não poderia mais me mudar com Stephen para a Noruega, devido a minha nacionalidade eu não seria permitida a assumir um cargo público no governo deles. Strike um.

Três semanas atrás, com a desculpa de ser para o casamento, eu tinha me matriculado em uma aula de dança e descoberto que eu amava dançar. Os movimentos me libertavam e me traziam alegria. Eu me sentia leve e completa e feliz comigo mesma. Eu estava descobrindo meu corpo, minha sensualidade, meu desejo. Descobrindo que eu era completa, ousada e divertida. E que o charmoso professor de salsa me achava linda e deslumbrante. Strike dois.

Duas semanas atrás a estreia de um filme que eu estava ansiosa para assistir aconteceu. Com Stephen em sua última semana antes das férias antecipadas que ele tiraria para sua despedida de solteiro, nosso casamento e a lua de mel, ele estava trabalhando dobrado, enquanto Dominique e Fred se dedicavam no estudo e pesquisa para a criação de um restaurante vinculado às Gemialidades Weasley, decidi ir sozinha. E descobri amar minha companhia. Strike três.

Há uma semana eu vinha tentando contatar Stephen. Precisava sentar com ele e explicar, olhando-o nos olhos, que não conseguiria dar aquele passo naquele momento. Que estava finalmente me descobrindo e não estava pronta para me mudar, que, agora, eu não queria colocar todas aquelas descobertas de lado para acompanhá-lo cegamente enquanto ele conquistava os sonhos dele e eu ficava mofando perto ao aquecedor.

Tentando, porque era impossível falar com ele. Os companheiros de time tinham organizado uma semana inteira para a despedida de solteiro dele e, pelas notícias que eu via nas revistas de fofoca, por mais respeitoso que Stephen fosse, envolvia muita festa. E os amigos dele se recusavam a permitir qualquer contato entre mim e ele ao longo daquela semana, o que me forçara a ir empurrando com a barriga, seguindo os planos como se nada tivesse mudado, como se aquele casamento fosse acontecer. Mas eu não podia apenas não aparecer ali. Não era justo com ele, afinal, eu ainda nutria um carinho grande por Stephen e não o deixaria plantado no altar sem uma noiva para encontrá-lo lá. Eu tentaria ao máximo evitar que chegasse a tanto, mas minhas tentativas não pareciam estar surtindo nenhum efeito.

— Ele disse que dá má sorte ver a noiva antes do casamento. — Dominique comunicou, entrando no quarto em que eu estava.

— Eu tentei de forma bem discreta dar a entender que não existia sorte nesse mundo que fosse resolver o problema dele, mas o querido não parece ter captado a mensagem. — Maya, minha prima, chegou atrás dela, fechando a porta.

— Puta que pariu. — Exclamei, jogando a cabeça para trás e passando as mãos em meu rosto.

— Coloca uma roupa e eu te levo embora daqui agora. — Dominique sugeriu e eu neguei a cabeça.

— Não vou fazer isso com ele.

— Prefere dizer não no altar a frente a toda família dele? Dramático, eu gosto. — Maya aprovou e Dominique concordou, eu choraminguei.

— Ao menos eu estarei olhando nos olhos dele e poderei explicar.

— Ou só manda ele se foder por ter te tratado como lixo nos últimos três anos and call it a day. — Aquela era a ruiva.

— Honestamente sempre achei que você merecia mais, mas quem era eu pra julgar. Quero dizer, com todo respeito prima, ele é gostoso, mas não é só de carne que se faz uma refeição nutritiva.

— Deus…

— Você tá em uma igreja, tenho certeza que isso é blasfêmia. — Domi repreendeu e eu ri, balançando a cabeça, apenas porque minha vida tinha se tornado uma grande piada.

— Tentem mais uma vez, por favor, os trogloditas dos amigos dele não me deixam nem chegar no corredor. Inventem qualquer coisa, falem que eu estou morrendo. Porra! Eu nem tô vestida ainda, não vai dar má sorte, eu só preciso ver ele.

— Ok. Mas é a última vez. — Maya quem iniciou daquela vez.

— Eu preciso das horas restantes para me convencer a passar maquiagem. — Dominique concluiu, enquanto ambas deixavam o quarto novamente.



Stephen não aceitou. Minhas mãos tremiam, como todo meu corpo, e eu sabia que não teria outra escolha, não mais, não agora. Ele nunca mais olharia na minha cara, mas eu tinha tentado, Merlin sabia como eu tinha tentado. E, no fundo, provavelmente, Stephen também sabia.

Então, me sentei em frente ao espelho e a maquiadora, que já estava paga, começou a fazer a maquiagem. Pedi que não fosse elaborada, meu coração batia freneticamente, pois eu já havia me decidido. Logo depois Dominique voltou e ajeitou os meus cabelos, enquanto as minhas mãos suavam. Minha amiga não falou nada ao mexer em meus cabelos, fazendo o penteado o mais simples possível. Minha respiração estava acelerada, ainda sentia a minha pulsação bater em meus ouvidos.

Por mais que me doesse magoar Stephen, eu não aguentava mais. Não aguentava me anular para não estressar a mãe de Stephen, me anular porque ele não me ouvia. Viver presa em uma casa que não era como eu queria, ou viver de país em país porque Stephen não iria desistir da carreira de jogador de quadribol. E, honestamente, eu jamais pediria isso a ele. Era o sonho da vida dele e eu entendia. Só não era para mim. Na realidade, nunca foi. Mas eu o amava naquela época e faria tudo por ele.

Só que não mais.

As lágrimas ameaçavam cair, mas eu me neguei a fazê-lo. Coloquei o vestido com ajuda de minha mãe, Dominique e Maya. Quando estava pronta, as três me olharam em compreensão e saíram, dando lugar ao meu pai. Ele entrou no quarto, enquanto eu me olhava no espelho, não me reconhecendo naquele vestido, ainda que ele tivesse sido trocado por um menos horrível. Não me reconhecia mais e eu queria a antiga Lisa de volta.

Meu olhar encontrou-se com o do meu pai pelo espelho. Fernando realmente era um astro de cinema e, vestido daquele jeito, só confirmava aquilo. As trouxas ficavam loucas quando ele aparecia. Mas eu só o via como ele sempre foi: meu pai. Tranquilo, carismático e paciente. Apesar da idade — a qual não parecia ter —, Fernando ainda era muito requisitado para filmes. Ele poderia estar em uma gravação hoje, mas nada o faria perder o dia da sua única filha. Esperava não decepcioná-lo com o que eu estava prestes a fazer.

— Você está linda – ele comentou, parando ao meu lado. Olhando-o pelo espelho, percebi que eu era bem parecida com ele.

— Com este vestido? — perguntei e Fernando riu.

— Até vestida com um saco de batatas você ficaria linda, Elisabeth. Olhe para você, é a minha cara! Mas não conte para sua mãe — brincou e eu consegui dar uma risadinha. Mas logo meus olhos se encheram de lágrimas e era óbvio que Fernando sabia que tinha algo errado. Meu pai deu a volta e parou na minha frente, segurando as minhas mãos. — A minha pequena Elisabeth sempre teve um temperamento que eu nunca tive, um brilho de esperteza nos olhos que sempre me deixou orgulhoso — eu o olhava enquanto ele falava, segurando as lágrimas. — Mas, de um tempo para cá, eu não vi mais esse brilho e isso me preocupa. Aos poucos eu via que minha filha não estava mais sorrindo com os olhos, mas você sempre me afastava, dizendo que estava tudo bem. Me arrependo de não ser um pai presente, Lisa. — Seus olhos eram sinceros e me fazia engolir o choro que ameaçava sair. — Mas sempre fiz o que pude para te dar o melhor. Eu e sua mãe. Não me importo de te sustentar até o último dia de minha vida, se isso significa que vai estar bem. Então... — ele respirou fundo e eu nunca o vi tão sério. — Se quiser ir embora, se quiser desistir disso, eu a tirarei daqui no estilo de um dos meus filmes. E eu não estou brincando. Mas se quiser continuar, eu a levarei até o altar. Só quero que seja feliz.

Eu queria me debulhar em lágrimas naquele exato momento. Sempre temi que, se eu desistisse, eu não seria forte. Que, se eu não completasse alguma tarefa, eu não seria bem sucedida. Mas ali estava meu pai, dizendo que me apoiaria em qualquer que fosse a minha escolha. Eu assenti e ele me abraçou.

A porta foi aberta e a voz de Dominique preencheu a sala dizendo que estava na hora. Me virei para a minha amiga e concordei com a cabeça. Depois voltei para o meu pai, que tinha o sorriso mais compreensivo e encorajador do mundo. Eu sorri para ele, que estendeu o braço e eu o peguei. Respirei fundo, pronta para a decisão mais importante da minha vida.



A marcha nupcial típica tocou assim que as minhas damas de honra andaram pelo tapete vermelho. As flores — rosas — vermelhas decoravam as laterais dos bancos onde os convidados estavam sentados. Quando foi a minha vez de entrar, vi todos se levantarem para me ver. Reprimindo uma careta, entrei com meu pai na capela que Lilá havia escolhido; estava cheia, vi vários rostos conhecidos me olhando enquanto eu passava. Meu coração ainda batia em meus ouvidos e eu me apoiava em meu pai. Podia sentir o suor se acumulando em minha nuca e meu estômago embrulhar conforme eu chegava perto do altar.

Estava tão nervosa que, quando eu olhei para Stephen, em toda a sua glória, me admirando com os olhos brilhantes, um filme passou pela minha cabeça. Quando ele, antes de começar a querer me moldar para os seus gostos, derrubou meu sorvete e comprou outro do meu sabor favorito. Quando nos deitamos nas gramas altas em Hogwarts e contávamos as estrelas, quando Stephen me fazia rir e deixava meu coração leve. Quando ele me ajudou a superar o trauma que o meu surto por Scorpius causou. Lembrei do nosso primeiro beijo. Da nossa primeira vez. E, Deus, como ele estava bonito naquele terno! Mas não me causava mais aquele frio na barriga quando me permiti amá-lo por inteiro. Tudo aquilo que vivemos quando éramos adolescentes eram lembranças boas e felizes. Lembranças que eu sabia que ficariam gravadas como tatuagens em minha pele, mesmo que Stephen me odiasse depois de hoje. E eu não o amava mais. Havia um bom tempo que não. Antes mesmo de James retornar para a minha vida. E não seria justo com nenhum de nós dois continuar com aquele teatro. E Merlin sabia o quanto eu tentei para não chegar a esse ponto.

Quando meu pai me entregou a Stephen, quando a minha mão encontrou com a mão dele, ergui os olhos para ele e vi um sorriso genuíno em seus lábios. Aquilo me partiu o coração, mas não era o suficiente para voltar atrás. Nada do que Stephen fizesse, agora, me faria voltar atrás. Eu tinha dado diversas oportunidades a ele, tinha tentado incontáveis vezes, agora era tarde demais. Mas eu subi naquele altar, segurando a mão de Stephen e não ouvindo nem a metade do sermão que o padre dava.

Stephen sorria e assentia, mas eu olhava para frente sem enxergar realmente o padre. A igreja parecia me sufocar conforme o tempo ia passando e a decisão ficando mais clara em minha mente. Eu sempre fui corajosa — eu era da Grifinória! — e agora eu não seria diferente. Não podia ser diferente. Olhei para Stephen, que também me olhou, ainda com o sorriso incrivelmente apaixonado e feliz. Não conseguia sorrir como ele, mas talvez as lágrimas em meus olhos marejados o tivesse convencido de alguma coisa, pois a voz do padre chegou até os meus ouvidos, naquela parte que todos os noivos temiam.

— Se há alguém presente que deseja impedir esse casamento, fale agora ou cale-se para sempre — disse ele e eu esperei alguém falar. Mas nenhuma voz se pronunciou e meu peito afundou. Entendi...

O padre continuou e novamente minha mente ficou enevoada, eu me via virando de frente para Stephen, que segurava as minhas mãos, animado. O meu coração martelou quando o padre voltou a falar, aquela era a hora. Minhas mãos suavam contra as palmas dele, que me olhava como se pedisse para eu ficar calma, que tudo ia dar certo.

— Você, Stephen Richard Thomas, aceita Elisabeth Stella Carter como sua legítima esposa, para amá-la e respeitá-la, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, até que a morte os separe? — perguntou o homem.

O sorriso largo de Stephen se espalhou pelo seu belo rosto.

— Sim — ele respondeu. E eu odiei por isso.

Agora era a minha vez, parecia que eu teria um treco a qualquer momento, mas eu não podia empurrar com a barriga novamente. Eu não queria me casar e me separar dois dias depois. Fora que eu quis conversar com Stephen durante toda a semana e ele não me deu brechas.

— Você, Elisabeth Stella Carter, aceita Stephen Richard Thomas, como seu legítimo esposo, para amá-lo e respeitá-lo, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, até que a morte os separe?— o padre perguntou e eu respirava de forma irregular, meu estômago dando voltas e voltas em minha barriga.

Os segundos se passaram e a testa de Stephen começou a se franzir quando percebeu que eu demorava. Seu semblante me lembrou dos dias em que ele não me ouvia, não ficava em casa, sua passividade para com a sua mãe.

Respirei fundo.

— Não.

O murmúrio de surpresa ecoou pelas paredes da capela, mas eu não me virei. Nem Stephen. Ele ainda segurava a minha mão e o padre estava sem palavras.

— O quê? – perguntou ele, parecendo atordoado.

— Não — repeti, com lágrimas nos olhos, sentindo todo meu corpo começar a tremer – Stephen, eu não posso me casar com você — acrescentei. As lágrimas eram de alívio, misturadas com um pouco de pesar. Afinal, Stephen fora meu namorado durante anos e eu realmente o amei. Um dia, eu realmente o amei. — Eu tentei falar com você durante toda a semana, tentei falar antes do casamento. Mas você não quis me ouvir. Você nunca quer me ouvir, Stephen — aqui, a minha voz arranhou por conta do choro. — Eu tentei fazer de tudo para salvar a gente, mas ao invés disso eu estava morrendo por dentro e você nem notava. — Minha expressão era torturada, pois eu não queria ter feito aquilo ali, daquela maneira.

Stephen me olhou, confuso, e soltou as minhas mãos para passá-las no rosto. O burburinho aumentou, e eu fiquei parada ali, o olhando. Eu não sabia o que esperar, o que fazer. Eu apenas fiquei parada, sentindo as lágrimas descerem pelo meu rosto. Eu me sentia aliviada, como se um peso saísse dos meus ombros, mas uma parte de mim se importava com o que ele pensava, com o que ele sentia.

— Como? Por quê? — a voz dele era de quem havia levado um tapa.

— É por causa dele! — me virei para trás e vi April apontando para James Sirius Potter, parado na porta, olhando para mim e Stephen, mas que agora desviou o olhar para a irmã do meu ex-noivo.

Stephen, com a expressão transtornada girou o corpo para encarar James. Os irmãos dele estavam presentes, ficaram chocados com a acusação, mas permaneceram no lugar. Os olhos de Stephen voltaram para mim outra vez. Ele tinha se afastado de mim, mas deu passos largos, quase avançando sobre meu corpo.

— ELE? Você disse que tinha sido uma vez e que nunca mais aconteceu nada! — gritou ele e era a primeira vez que Stephen fazia isso. O que me encheu de raiva.

— E foi uma vez!

— Eu sabia, eu sabia que você iria acabar destruindo lares... — começou April, se aproximando de James lentamente e eu vi.

— Ah, cala a sua boca, April! — exclamei alto. Agora eu estava sendo impulsionada pela raiva. A mulher se virou para mim, escandalizada. Lilá tentou responder, mas eu não deixei. — Você parece que sempre amou James Sirius Potter, ele deu atenção até para sua irmã ao invés de você. É dor de cotovelo? É o quê? Deixa de ser insuportável uma vez na vida! Você não sabe nada sobre James e muito menos sobre mim! Então, por favor, uma vez na sua vida cala. A. Sua. Boca! E não meta o seu nariz onde não é chamada.

Os convidados ficaram quietos enquanto Stephen se recuperava. Ele avançou um pouco mais para cima de mim e eu fiquei esperando. Meu peito subia e descia, ele me encarava transtornado. Eu jamais o tinha visto assim. E não fiquei com medo, fiquei aliviada. Stephen jamais demonstrou qualquer sinal de raiva, sempre concordando, nunca brigava com ninguém.

— Você está me trocando por ele? Você não quer casar comigo por causa dele? — quis saber ele, a voz estrangulada.

— Não! Não tem nada a ver com James! Não quero me casar por causa de você! E por mim — exclamei, o encarando. — Por anos depois da adolescência eu venho esperando que você faça alguma coisa, Stephen. Anos. Que você pare de deixar a sua mãe mandar em você em cada coisinha que você faça, que você reaja! — enxuguei as lágrimas que teimavam em descer. — E todos esses anos eu te apoiei, fiquei ao seu lado e tudo o que recebi foi ter que morar sozinha, numa casa com paredes de cores bregas e azulejos horríveis que a sua mãe escolheu e que tem, literalmente, uma coisa que eu escolhi.Você tira férias e não fica comigo, Stephen. Você me pediu em casamento e no mesmo dia não ficou comigo. Você nem tentou ver como seria morar em um lugar só. Você não estava tentando mais. E eu estava morrendo aos poucos.

— E onde que James entra nisso tudo?

— Eu te disse todos os motivos, te disse tudo o que aconteceu e você se concentra apenas no James? — perguntei, indignada. Stephen apenas me olhou, como se tudo aquilo não significasse nada, que tudo era culpa de James. — Você quer saber onde ele entra? Muito bem. James entra quando me deu atenção durante todo o tempo que você esteve fora, ele entra quando me ouve sem me julgar, ele entra quando ele foi o primeiro a me socorrer enquanto você achava que Fred tinha a capacidade de brincar com algo sério como aquilo, ele entra quando me encara da forma que está me encarando agora... e... ele entra desde que eu nunca deixei de estar apaixonada por ele — respondi, sem desviar o olhar dele. — Era isso que queria ouvir?

Stephen me olhou e eu pude ver os olhos dele queimarem de ódio.

— Mas não foi por causa dele, não é? — ele perguntou com a voz baixa.

— Não.

Ele riu e desceu as escadas do altar, a passos largos. Me virei para vê-lo e Stephen parou na frente de James, que, pela primeira vez, estava calado. Me preparei para o que ele iria fazer, o soco que Stephen estava armando. Mas, antes que o punho dele atingisse o rosto de James, um armário — Dimitri — e Fred, que tinha corrido até o primo, seguraram o braço de Stephen.

James olhou para cada um deles, surpreso. Porque, provavelmente, ele achava que merecia o soco. Só que quem merecia aquilo era eu. Entretanto, eu estava aliviada demais para sequer me importar. Lilá tentou chegar até mim, dizendo que o filho dela era bom demais para mim, que sabia que eu nunca fui boa o suficiente para ele, que eu era uma vadia, por ter ficado com outro. Mas, quando eu ia revidar, a mão da minha mãe voou no rosto dela, gritando que Lilá não tinha o direito de falar assim da filha dela.

Eu não esperava aquilo, mas amei que alguém tivesse me defendido de alguém como Lilá. Mas meu olhar estava em James, Dimitri, Fred e Stephen. Dimitri colocou-se atrás do protegido e o olhar que Stephen lançou para Fred era doído, como se ele o tivesse traído. Mas o primo de James não vacilou e talvez Stephen não merecesse ódio. Ele era uma pessoa boa, só não era bom no nosso relacionamento.

Derrotado, Stephen passou as mãos nos cabelos e saiu da igreja. Sua família foi logo atrás e eu desabei. Meus pais vieram ao meu socorro e me tiraram dali rapidamente.

(...)

Seria um desperdício não fazer nada com aquelas comidas todas na casa dos meus pais. O grande pátio da área da piscina estava todo decorado com as rosas que eu odiava, o DJ que meus pais haviam contratado já se encontrava no local. Não queria que cancelasse algo que meus pais se esforçaram para fazer. Ainda que eu não tivesse nada para comemorar, eu sentia meu peito mais leve, parecia que eu conseguia até respirar melhor. E apesar disso tudo, eu estava sorrindo com mais facilidade.

Na festa só tinha a minha família e meus amigos. Obviamente ninguém da família de Stephen queria saber de mim... a não ser May, que se encontrava ali, conversando com o noivo Jeremy Corner. Ela tinha me dito que se o irmão dela era otário ao ponto de perder uma mulher como eu ela quem não iria dispensar um bom buffet por causa dele. Eu evitava chegar perto dos dois, mas não me incomodava que eles estivessem ali. Toda a família Weasley e Potter estava presente, nenhum deles foi embora, nenhum deles agiram como se eu estivesse louca por ter falado tudo aquilo na frente de todo mundo. Até Harry Potter estava ali, conversando com o meu pai.

E eu? Me escondia de todos. Não estava preparada ainda para falar ou para encarar os convidados. Assim que cheguei na mansão dos meus pais fui direto para o meu antigo quarto e tomei um banho, coloquei um vestido simples e leve, encontrando a maioria dos meus amigos e família já na festa. Eu ficava à margem, observando-os. Tinha certeza que algum jornal bruxo de fofoca iria mencionar o fatídico casamento do artilheiro mais cobiçado do quadribol do time da Noruega e, que provavelmente, iriam mencionar que eu tinha fugido com o filho primogênito de Harry Potter. Honestamente? Eu não ligava. Me sentia bem mais... eu mesma. Como se tirasse um peso das minhas costas.

Ainda sem querer falar com ninguém, peguei um pratinho de salgados, peguei um drink no bar e me sentei no chão, atrás da mesa de doces. Sozinha. Aproveitando a minha própria companhia e sabendo que James estava em algum lugar daquela casa. Encostei a cabeça na madeira e olhei para o céu, enquanto bebia um gole da bebida. Era doce e gelada, como eu gostava. Sorri para o nada. Não queria ter feito da maneira que eu fiz, mas eu não podia negar que um bloco de pedra tinha sido tirado do meu peito.

Ouvi passos sobre o chão polido de mármore e olhei para o lado, sabendo exatamente quem era. Meu Merlin, como podia ficar ainda mais bonito apenas com uma camisa social amarrotada e calça preta? Um cinto com a fivela dourada completava o look do Potter mais velho. Ele se sentou ao meu lado, esticando as pernas que eram maiores do que as minhas. Ficamos em silêncio enquanto ele roubava alguns salgadinhos do meu prato. O perfume dele, amadeirado, junto com o seu shampoo me inebriavam e eu não entendia como eu podia ficar tão afetada com a sua presença.

— Quem diria... — começou James, olhando para frente, relaxado, com as mãos atrás da cabeça. Seu rosto se virou para me encarar, com o seu típico sorriso malicioso. Seus olhos brilhavam intensamente. — E eu achando que iria impedir um casamento... ao invés disso, ganhei uma confissão. Não sei se te perdoo por tirar os holofotes de mim apenas por causa disso.

— Achei que a essa altura você já teria me jogado nessa mesa de doces e me beijado — comentei, também o encarando.

James riu, tirando a mão de trás da cabeça e a pousando em minha coxa exposta, se inclinando para frente e me encarando com aqueles olhos intensos. Um arrepio perpassou pelo meu corpo, como se fossem pequenas correntes elétricas que disparavam pela minha pele. Eu olhei sua mão ali e era tão melhor do que nos meus sonhos! Percebi que estava com saudades dele.

— Ah, mas quem disse que eu não quero? — perguntou, olhando para os meus lábios e depois voltando para os meus olhos. Minha respiração? Ah é, eu tinha que respirar. — Mas você acabou de dizer “Não” em alto e bom som na frente de um padre, esculhambou a irmã do cara que você ia casar, esculhambou o cara que ia casar e a mãe dele... achei que você ia precisar de um tempo para assimilar isso tudo. Não me leve a mal, eu achei incrível, parecia que eu era um dos protagonistas de uma novela — James riu e olhou para baixo, para onde sua mão estava, subindo um pouco. — Mas quando esse tempo passar... Ah, Leãozinho — outro arrepio passou pelo meu corpo quando me chamou daquela forma, sua voz carregada de segundas intenções. — As coisas obscenas que eu quero fazer com você. Vai levar tempo. Eu quero admirar você, apreciar você... — aqui, James subiu tanto a mão, que quase pôde sentir o pano da minha calcinha. A minha respiração estava acelerada e eu não conseguia dizer nada. — Eu vou venerar o seu corpo.

— Potter — falei, sem fôlego. James me olhou com aquele brilho luxuriante nos olhos e sorriu. O safado sorriu.

— Mas eu lhe darei o seu tempo, porque... porque eu quero que esteja bem e esteja com o coração livre para que eu possa entrar — disse ele, tirando a mão da minha coxa. Imediatamente, senti falta dele. — Eu demorei muito tempo para perceber e eu lamento por isso. Apesar de achar que tudo pelo o que eu passei era para me preparar para você. Eu não podia ser seu se eu estava perdido, se eu era imaturo. Eu estou pronto agora Elisabeth, e vou esperar até que você esteja também.

— Por diversas vezes, eu tentei falar com você. Eu não sabia se... se você estava brincando comigo ou não. Depois do acidente eu cheguei até mandar uma carta para você, dizendo que eu queria ser sua, mas a resposta nunca veio e eu achei que você... só não me queria e...

— Espera. Que carta? Uma carta... — James parecia confuso, eu conseguia ver suas engrenagens funcionando, até que ele finalmente pareceu entender. — Lisa.

— James.

Ele riu.

— Eu queimei.

— Queimou o quê?

— A carta. Eu queimei sem ler, achando que você estava me rejeitando — James revelou e meu rosto esquentou pela irritação. Me virei completamente para ele, dando um tapa em seu braço. — Ai!

— Como que você queima uma carta sem saber o que era, James Sirius? — perguntei, indignada. — Eu depositei meus sentimentos ali e você nem leu!

Passei as mãos nos cabelos, com raiva, e ouvi uma risada baixa. Olhei novamente para o homem ao meu lado, que me observava com verdadeira devoção. Era aquele olhar que eu sempre quis, desde que eu percebi que gostava dele. Eu quase não podia acreditar.

— Eu achei que você e Stephen estavam bem e ouvir que você estava morrendo por dentro, que ele não a estava fazendo feliz, não sabe o quanto eu quis socá-lo! — a raiva na voz de James era genuína e eu sorri. — Mas... fiquei orgulhoso que você tirou coragem para dizer “Não”. Tudo bem que eu iria amar que fosse totalmente por mim, mas me enche de orgulho que tenha sido por você e a sua felicidade. Que é o que mais me importa. Eu poderia viver com o meu coração partido sabendo que você estava bem e feliz. Ainda que comigo você seria muito mais feliz — James abriu o sorriso mais convencido do mundo e eu estiquei a minha mão para o seu rosto. Ele fechou os olhos e eu suspirei.

— Da próxima vez que eu lhe mandar uma carta, leia. Ouviu? Senão eu vou até onde estiver e esfregarei a porra da carta na sua ca...

— Eu amo você, Elisabeth — James disse simplesmente, com a voz cheia de emoção. Aquilo me fez calar a boca. — E eu vou esperar por você o tempo que for.

— Merda. Eu também amo você, James. — e naquele momento eu tinha finalmente e definitivamente aceitado aquele fato.

— Não esperava menos de você.

E, com um beijo na bochecha, James se afastou com as mãos nos bolsos, despreocupado e incrivelmente sexy. Eu sorri, encostando a cabeça na perna de madeira, e pensando sobre todas as possibilidades que eu agora tinha.

James Sirius Potter passou por mim como um furacão. Arrancou meus telhados e fez minhas estruturas voarem pelos ares, deixando nada além de uma bagunça para trás. O caos por ele criado me fizera encarar a vida com outros olhos e me forçou a recomeçar. E, depois, ele voltou como uma brisa de verão, me permitindo contemplar tudo aquilo que tinha conquistado, e agradecer pela bagunça por ele provocada para aquilo acontecer.

Notas finais
I’m baaaack. E como eu disse no capítulo anterior eu *continuo* melancólica com o fim dessa fic e vocês vão ter que me aturar por aqui segurando vocês um pouco mais enquanto eu começo minhas despedidas e agradecimentos. E eles serão longos, vou agradecer cada um de vocês nome por nome saibam disso, mas eu queria começar agradecendo a Laís. Eu comentei na nota final do capítulo passado que essa fic não existiria sem ela e aqui eu gostaria de ir ainda mais além. Todo esse universo que a gente acompanhou na última década, muitos dos personagens que nós nos apaixonamos pelo caminho, essa personalidade do James que a gente ama, tudo isso foi construído em conjunto. Foram longas conversas madrugada adentro, cenas que existem só pra nós duas, ideias e behind the scenes que nunca verão a luz do sol, mas que a gente sempre fez questão de desenvolver pra acrescentar mais nesse universo, mais nessa história. Com Laís foi a primeira vez que eu desenvolvi algo com outra pessoa e eu sinto de verdade que não poderia ter escolhido ninguém melhor pra assumir essa fic do que com ela. É como se a gente tivesse uma conexão, às vezes temos a exata mesma ideia para uma cena, enquanto Laís está escrevendo algo eu faço uma sugestão de uma coisa que ela já está fazendo e eu honestamente acho isso incrível. A forma como nos conectamos com esse James, como ele ganhou vida própria nas nossas mentes e proporcionou que essa nossa amizade fosse fortalecida ainda mais. Mesmo quando discordavamos do rumo das coisas - o que aconteceu raríssimas vezes - nós sempre encontrávamos um meio termo e tudo isso deixou essa história mais fácil de ser deenvolvida e eu sou e serei pra sempre eternamente grata por Laís ter me emprestado a mente afiada dela, uma das personagens mais queridas dessa fic que sempre foi feita com base nela, cada palavra dessa escrita dela pela qual eu sou apaixonada (e ela vai em breve lançar um livro então vocês por favor não comam mosca e fiquem de olho em A Última Pétala!). A sagacidade que ela conseguia passar pras páginas, os conhecimentos mais eróticos que permitiram essa fic respeitar a evolução e entrada na vida adulta do James, as piadas, os dramas, tudo, cada cena que ela escreveu que contribuiu pra essa fic ser o que ela é hoje. Juntando essas mais de 400 mil palavras que compõe essa história ainda me faltariam termos pra agradecer Laís por tudo que ela colocou nessa história e como ela me incentivou a continuar, a começar. E nesse tópico eu sinto que vocês também deveriam agradecer a ela porque, de verdade, sem Laís vocês provavelmente não teriam As Mulheres de James Sirius Potter. Eu sou uma pessoa um tanto quanto volátil, eu jamais abandonaria uma fic que eu comecei a postar publicamente e que eu sei que tem leitores, porém sem aquele comecinho dessa história, AMJSP muito provavelmente se juntaria a outros 54 arquivos que vivem abandonados e empoeirados nas profundezas do meu google drive sem nunca ter visto a luz do sol. O que mais me motiva a concluir uma dessas histórias malucas que vez ou outra passa pela minha cabeça é saber que tem outras pessoas interessadas em lê-la e quando Laís pegou amjsp no colo e juntas concordamos em postar, essa história hoje, dez fucking anos depois, só vai ser concluída graças a ela. E graças a ela vamos concluir em 10 anos, não 20 ou 30. Como eu disse eu nunca abandonaria, mas eu constantemente arrumo outras coisas para fazer e eu nem sempre estava na vibe da fic, então sabe quanto tempo demoraria até eu concluir um capítulo? Os longos hiatus dessa fic foram majoritariamente culpa minha. Pra além de correrias da faculdade, vida adulta, um período de desconexão com a história, eu às vezes só não conseguia vir aqui e escrever. Laís, porém, sempre me puxava de volta, sempre encorajava, sempre me propunha novas ideias para que eu voltasse. E por mais que possa ter demorado um pouco em alguns casos, demorou muito menos do que poderia porque sempre funcionava. E essa devoção que Laís tinha por esse universo aqui sempre me ajudou a também manter a minha em tudo isso. E depois desse longo texto eu volto a dizer que, por tudo isso, palavras não são e nunca serão o suficiente pra agradecer tudo que Laís significa pra essa fic e, mais pessoalmente, pra mim. Obrigada por toda a parceria todos esses anos lirou friend, por compartilhar essa história comigo e ter me ajudado a criar essa loucura que a gente ama. Por fim e não menos importante eu vou expor ela na internet então, depois que vocês deixarem seus comentários aqui sobre o que foi esse capítulo que fugiu muito do comum, vocês vão correr no instagram e seguir o perfil profissional dela pra apoiar nossa menina na jornada que ela está começando (@loliveira_autora // https://www.instagram.com/loliveira_autora/ )