As Mulheres de James Sirius Potter
29 Elisabeth Stella Carter (parte II)
Notas iniciais

Quando Dominique foi me buscar no quarto com alegações e reclamações de estar com fome eu tinha conseguido me recompor o suficiente para viver em sociedade.
Aceitar, entender e assumir que eu tinha… sentimentos, por Elisabeth não tinha estado nos meus planos para aquela semana. Mas eu precisaria fazer as pazes com aquilo o quanto antes e, mais importante do que tudo, superar toda aquela palhaçada.
Lisa não desceu até que a janta estivesse pronta, Fred e Dominique ficaram me entretendo com um karaokê duvidoso enquanto eu cozinhava e me concentrava nas melhores formas de lidar com toda aquela situação. Eu talvez estivesse fragilizado com as minhas derrotas e estivesse projetando em Lisa tais sentimentos apenas porque fiquei comovido com a forma que ela se preocupara comigo durante meu sumiço. O término com Ruby ainda estava recente e o encontro inesperado com Giulietta tinham gerado aquela…necessidade, em mim, e Lisa apenas calhou de estar perto. Eu superaria aquilo logo, tinha certeza.
Certeza essa que quase desceu pelo ralo assim que Lisa entrou na cozinha. Ela estava uma bagunça. Os olhos apresentavam bolsas arroxeadas abaixo dos olhos, como alguém que tinha dormido mal ou mal dormido. Os cabelos desgrenhados e a camisola que de fato apresentavam uma mancha de sorvete completavam o look e… ela era a mulher mais linda que eu já tinha visto em toda a minha vida. E o nó na minha barriga e a falta de ar pareciam dar ênfase nisso.
— Esse cheiro tá divino. — Ela comentou, tomando um lugar na mesa enquanto eu terminava de servir as panelas.
Para aquela noite escolhi uma receita brasileira típica que Teresa tinha me ensinado no ano anterior que consistia em arroz, feijão, filé, batatas fritas e salada. Mas meu foco tinha sido na voz cansada de Lisa.
— Dormiu bem essa noite, Elisabeth? — Perguntei, escolhendo o assento em frente a ela e pude ver de camarote quando ela travou o maxilar e engoliu em seco, como se eu tivesse perguntado quantos corpos ela já tinha enterrado.
— Não muito… como a gente chegou e já tava amanhecendo eu acabei não conseguindo… você sabe, relógio biológico e tal…
— Há, até parece, você nunca teve disso. Podia ser meio-dia que você dormiria sem problemas. — Dominique entrou na conversa e Lisa fuzilou-a com o olhar, sem que minha prima percebesse.
— Bom, eu tenho agora.
Eu arqueei a sobrancelha, mas não fiz nenhum comentário. E quando percebi que meus olhos estavam se demorando demais em Lisa, eu me forcei a servir a comida e concentrar todas as minhas energias naquilo.
Dominique deu continuidade ao assunto iniciado, sugerindo alternativas para que Lisa não tivesse problemas para dormir, como uma máscara de sono ou uma cortina blackout e, enquanto as garotas conversavam, meu olhar escorregou de volta para Lisa, agora especificamente para a mancha na camisola dela.
Meu sonho naquela noite tinha sido longo, mas no fundo da minha cabeça eu conseguia lembrar que, dentro daquele universo imaginário criado pelo meu inconsciente, Elisabeth tinha mencionado um acidente com a camisola dela. Claro que aquela lembrança remetia outras e, para bloquear a falsa lembrança de Lisa com minha camiseta, eu bebi de uma só vez todo o copo de limonada à minha frente, mas incapaz de realmente esquecer tudo, me agarrei a um possível bote salva-vidas.
— Sabe o que eu estive pensando? — Minha voz estava um pouco mais alta que o comum, interrompendo Dominique no meio de uma frase que eu não tinha ideia sobre o que era. — Relacionamentos abertos.
Ok, não custava tentar, certo? Não era como se eu pudesse ou quisesse namorar Lisa ou qualquer baboseira desse tipo, mas, bom, se existia uma chance ao menos de superar aquela vontade mais física, que mal faria?
As três cabeças se viraram em minha direção com olhares cheios de interrogações desenhadas nas íris.
— Ontem na boate eu esbarrei em um casal e papo vai, papo vem, eles falaram que tinham um relacionamento aberto. E eu não consegui parar de pensar muito nisso, sabe? Acho que nunca tinha dado muita atenção ao assunto antes. — Claro que meu relacionamento com Holly e Allison tinha seguido aquele ideal, as duas só não tinham consentido com isso. — Mas se a gente analisar, a ideia é até… interessante. — Fred resmungou alguma coisa, mas o nervosismo começava a tomar conta de mim, então eu continuei. — Quero dizer, você tem um namorado, todas as vantagens e benefícios de uma relação estável e duradoura, mas, ao mesmo tempo, não fica preso a só uma pessoa e pode se … divertir… — Eu tentei impedir meus olhos de alcançarem os de Elisabeth. E falhei. — Sempre que quiser. Na teoria é uma ideia boa, não acham?
— Definitivamente não.
— Você tá maluco?
— Eu não poderia fazer isso nunca.
Fred, Dominique e Lisa, respectivamente, responderam ao mesmo tempo.
— Quero dizer, não tenho nada contra quem gosta e consegue lidar com essa situação, mas essa coisa de poligamia ou relacionamentos abertos exigem um nível de maturidade que eu não sei se tenho. Acho que sou um pouco ciumenta demais pra isso. Se o Stephen algum dia sugerir qualquer coisa assim acho que é mais fácil eu terminar com ele do que concordar.
Então a solução era convencer Stephen a querer um relacionamento aberto? Espera, o quê?
— Concordo completamente. Quero dizer, cada louco com suas manias, mas definitivamente não é pra mim. — Dominique logo concordou com a amiga e Fred sorriu.
— Além do mais, acho que já passamos por algo parecido o suficiente para entender que isso definitivamente não funcionaria com a gente.
— Mas por quê, James? — Domi retomou a palavra após rir um pouco com Fred. — Está planejando aparecer por aí com sete namoradas ou mais?
— Merlin, não! — Eu precisava deixar evidente que concordava com Lisa naquele posicionamento. Porque, vocês sabem… ah, porque sim! — Acho que sou fiel e romântico demais pra isso, se eu tô apaixonado eu só tenho olhos para aquela pessoa.
E mais uma vez meus olhos me traíram ao fixar-se em Elisabeth. Ela foi a responsável por olhar em outra direção.
— Falando em namorados… — Lisa sorriu, ajeitando um guardanapo em seu colo. — Recebi um patrono de Stephen hoje, o reserva se recuperou e liberaram ele. Ele está só ajeitando algumas coisas com as garotas, mas disse que vem pra cá hoje ainda, deve chegar mais a noite.
A força com a que eu segurava o garfo aumentou e o talher se entortou um pouquinho. Enquanto Dominique e Fred respondiam empolgados àquela informação, minha única reação possível foi ranger os dentes, enquanto eu chegava a um par de conclusões interligadas.
Eu precisava ir embora dali o quanto antes e eu tinha que cortar pela raiz qualquer que fossem aqueles sentimentos afetuosos que eu estava começando a nutrir por Lisa.
O jantar passou e eu mal mexi na comida em meu prato, tinha, por algum motivo, perdido todo o apetite, tal como o interesse em participar das conversas, limitando minhas respostas a movimentos suaves com a cabeça ou resmungos ininteligíveis.
A noite passou rápido e quando todos terminaram o jantar Lisa sugeriu de fazermos s’mores o que acabou acarretando em uma pequena fogueira próxima a piscina, rodeada por puffs e assentos de madeira que normalmente ficavam dispostos por ali. Naquela noite ventava um pouco mais e o calor da lareira era bem-vindo, eu segurava os palitinhos de marshmallows próximos do fogo, Elisabeth estava do outro lado, abraçando a si própria, enquanto entoava alguma música antiga junto com Dominique e Fred cuidava de montar os mini-sanduíches doces.
Tudo estava indo relativamente bem e meu humor começava a melhorar, a música das garotas se aproximava do fim e eu já tinha todas as piadas na ponta da língua sobre o timbre de Dominique — nós não vamos falar sobre como eu tinha gostado da voz de Lisa — quando eu ouvi a voz de outro homem naquela casa. E não era Fred falando, apesar dele ter aberto um largo sorriso ao ouví-la.
Naquele momento eu me virei para buscar mais marshmallows no pacote e, felizmente, ninguém pode ver o quanto minha cara linda e bela se converteu em uma careta desgostosa. Agora só de ouvir a voz de Stephen me deixava de mau humor. E ele não tinha nada a ver com isso. E eu também não conseguia controlar.
— Que cheiro ótimo! É chocolate?
Eu me virei para encará-lo e tentei não fazer ânsia de vômito. O sorriso que surgiu em meus lábios era digno de um Oscar, pois ele veio primeiro em minha direção e eu apertei a sua mão com um pouco mais de força do que o necessário. Se ele notou, não demonstrou.
Lisa saiu do puff em que estava e esticou-se em direção à Stephen, que a segurou pela cintura e a girou no ar, beijando como se não houvesse mais ninguém por ali, e eu não consegui conter a expressão de nojo que ecoou pelos ouvidos dos demais. Eu só percebi que tinha feito isso ao ver os olhares se virando em minha direção e precisei forçar outro sorriso.
— Pelo amor de Deus, arrumem um quarto.
Stephen, 100% alheio a minha vontade de jogá-lo naquela fogueira, riu, abandonando os lábios de Lisa mas ainda mantendo-a cativa com aquelas mãos grudentas ao redor da cintura dela, que eu não conseguia exatamente desviar o olhar.
— Em breve James, mas agora é um ótimo momento para aproveitar com os amigos.
O sorriso congelado no meu rosto foi o que me impediu de vomitar. A mera ideia de Stephen e Lisa em um quarto fazendo… argh. E sabe qual era a pior parte? Ele realmente estava fazendo brincadeiras e tentando ser legal, mas, Merlin! Eu odiava ele por estar apenas tentando.
Fred deixou os sanduíches em um pratinho e deu um aperto de mão e um abraço extremamente amigáveis em Stephen — que isso, agora esse mané ia roubar tudo que era meu? E … o quê? Enfim! — E Dominique logo em seguida o cumprimentou também, antes que Stephen se jogasse no puff em que Lisa estava e a puxasse para seu colo. Eu literalmente senti meu estômago se revirar. Lisa se aninhou no colo do mané e ele disse algo no ouvido dela que a fez dar risadinhas e eu…
— James tá pegando fogo! — O aviso veio de Dominique e eu levantei de repente, balançando o galho que segurava com o marshmellow carbonizado na ponta.
— Bom Jay, acho que cozinheiro não é a profissão certa para você. — Pelo tom dele eu conseguia ver que ele tentava brincar e ser agradável, mas absolutamente cada movimento de Stephen parecia, para mim, detestável.
Fred respondeu ao comentário dele com alguma piada e logo as garotas riram também. Eu rangi os dentes enquanto os observava.
Era óbvio que Stephen era um amigo muito próximo dos meus primos agora, fazia sentido. Além do fato de termos estudado juntos por sete anos, ele já namorava Lisa quando eu fui embora e, com Domi e Lisa sempre passando tempo juntas, fazia sentido que os respectivos namorados também mantivessem a convivência.
Mais uma vez, tudo que eu tinha perdido me atingia de uma só vez. Eu não me arrependia, tinha feito escolhas e sabia que cada uma delas tinham me tornado um homem melhor e mais maduro, mas também sentia pelo fato de não poder ter estado ali para viver aquilo, aqueles momentos. Se eu tivesse voltado para casa nos verões eu entenderia as piadinhas que os quatro agora estavam fazendo? Se nos feriados eu aproveitasse para passar um tempo com velhos amigos, será que eu teria reparado antes que Lisa fazia meu coração disparar cada vez que sorria para mim? Ou, então, se eu não tivesse demorado tanto tempo para me encontrar, será que eu não teria os perdido?
A mão de Stephen subia e descia pela coxa de Lisa em um carinho suave e íntimo, que exalava uma familiaridade que apenas um relacionamento como o deles, longo e forte, era capaz de transmitir. E mais do que nunca eu senti meu estômago embrulhar enquanto todas aquelas realizações me atingiam de uma só vez.
Larguei os galhos de lado e me levantei, eles estavam todos absortos demais nas atualizações de Stephen para repararem em mim, mas assim que eu dei um passo Dominique me parou.
— Onde você tá indo?
— Hm… acho que a mistura do feijão e chocolate não me fez muito bem, vou aproveitar pra já dormir. — A ruiva arqueou uma sobrancelha.
— Você não acha que já dormiu demais hoje?
— E você não acha que está tomando muita conta do sono dos outros? — Resmunguei em resposta e Fred riu, enquanto ela levantava os braços.
— Tá bom, rabugento.
— Até amanhã, James! — Aquela despedida foi de Stephen, eu apenas ergui a mão antes de seguir de volta para dentro da casa.
Ao alcançar o quarto liberado para mim eu percebi que a janela dava vista para a área do quintal em que estava a fogueira, agora com apenas casais ali eles alternavam a conversa baixa com sessões de agarração e foi ao ver Lisa e Stephen se atracando que eu realmente perdi tudo e precisei correr até o banheiro e botar para fora o pouco do jantar que eu tinha comido.
A lembrança de Stephen que ele ainda estaria ali amanhã não ajudou muito a me fazer sentir melhor, junto a promessa que ele tinha feito de que iria de fato encontrar um quarto com Lisa assim que os assuntos fossem botados em dia.
Ao lavar a boca, e sem outra escolha, rabisquei um bilhete de que tinham surgido alguns imprevistos, ajeitei meus pertences e então, saindo em silêncio pelo outro lado da propriedade, fui até os limites da cabana dos pais de Lisa para desaparatar para bem longe dali.
O caldeirão furado estava praticamente vazio, a não ser por um velho bruxo que estava debruçado sobre uma mesa no canto resmungando em meio ao sono e à garota de longos cabelos loiros que ergueu os brilhantes olhos azuis na minha direção assim que eu abri a porta.
— Ah, querido… — Luna deixou o balcão e correu na minha direção, me abraçando antes que eu sequer pudesse processar qualquer coisa e, antes que eu pudesse perceber, eu estava chorando. — Eu sei, eu sei. Vem cá, eu vou preparar um chocolate quente para você.
Eu nem mesmo conseguia entender o que estava acontecendo ou o porquê de eu estar naquela situação, mas não reclamei e deixei Luna me guiar, sentando em uma cadeira acolchoada e me recompondo no tempo que ela sumiu atrás do balcão, quando Luna retornou, eu tinha conseguido parar de chorar, mas tinha certeza que minha cara não estava lá das melhores.
O copo foi deixado na mesa e ela sentou-se à minha frente, me observando e aguardando, esticando um braço para tocar minha mão.
— Foi isso que você escondeu, não foi? — Eu a olhei e Luna suspirou. — Naquele dia lá em casa, quando você foi conversar comigo sobre Ruby, você não quis falar alguma coisa, foi isso não foi? Você tinha visto esse momento… — Ela assentiu brevemente.
— Eu vi você chegando aqui e eu vi que você não estava nada bem. Mas eu não sabia exatamente o porquê disso. Podia ser por Ruby ou qualquer outra coisa e eu preferi não atrapalhar nada ou colocar minhocas na sua cabeça. Mas o que foi que aconteceu? O que ela fez dessa vez?
Meu sorriso não tinha muito humor e eu balancei a cabeça.
— Não, não foi Ruby. Quero dizer, nós terminamos um pouco antes do casamento, mas foi o certo a se fazer, sabe? Tínhamos ideias muito diferentes de futuro, se serve de alguma coisa acho que fui eu quem parti o coração dela dessa vez. — Suspirei, encarando minha velha amiga e sorri para ela, agora um pouco mais sincero no gesto. Luna aguardou. — O que você faria se começasse a gostar de alguém que namora?
Realização pareceu tomar Luna de uma só vez e, apesar de ela ter tentado conter a surpresa, ela não foi muito discreta e eu arqueei uma sobrancelha em sua direção. Ela puxou o copo de achocolatado que tinha preparado para mim e tomou uns bons goles.
— O que você não está me contando? — Perguntei, divertido, e ela abanou a mão, pousando o copo e balançando a cabeça. — Vamos lá Luna, eu já tive um dia ruim o suficiente.
— Você sabia… — Ela parecia estar medindo o que ia dizer, mas eu aguardei. — Que Albus ainda estava com a Wood quando eu percebi que gostava dele?
— Really? — Ela concordou.
— Quero dizer, acho que na verdade eu sempre tive um crush nele, desde criança…
— Você me beijou. — Luna sorriu.
— Bom, quem não tem cão…
— Ouch!
— Foco, James. Quero dizer, você sabe como eu sempre tive essa coisa com olhos coloridos e os de Albus são lindos, mas não é o ponto! E ele nunca tinha me dado muita bola, mas, bem, depois que você… se foi… Albus e eu acabamos conversando bastante sempre que a oportunidade surgia, e depois que as coisas com Victor terminaram ele foi um ótimo amigo. — Eu, inclusive, ainda não sabia o que tinha dado errado no relacionamento daqueles dois, mas não era o momento daquela conversa. — E depois de um tempo, eu percebi o quão bem Albus me fazia e como eu gostava e ansiava pela companhia dele. Qualquer coisinha que acontecia no meu dia eu queria compartilhar com ele, eu não conseguia parar de pensar nele e sempre que eu o via tudo era… diferente, como borboletas no estômago e como se todo o ar do mundo tivesse sumido de repente. E ele ainda namorava Mellody. E eles estavam tão felizes juntos que… eu sabia que nunca teria a menor chance.
— Bom, não tá exatamente ajudando… — Luna riu.
— Não sei se o objetivo é esse, James. Foram os piores meses da minha vida. E quando eles terminaram foi pior ainda, porque ele ainda gostava dela e só tinha terminado por algo parecido com o que você e Ruby viveram, queriam coisas diferentes, mas ele a amava, e eu era apenas uma das amigas que o consolava da melhor forma possível e me matava vê-lo daquele jeito, mas eu não podia simplesmente dizer a ele que eu gostava dele, né? Não era o momento, e apesar de eu estar de fato aproveitando uma quantidade de tempo considerável com ele, não era do jeito que eu queria e… foi horrível, cada momento de tudo aquilo, de querer e não poder ter e de estar tão absurdamente de mãos atadas que doía. Eu não podia sentir ciúmes dela, a gente nunca teve nada, era ridículo sentir ciúmes, tampouco exigir qualquer coisa dele. Eu definitivamente não iria atrapalhar o relacionamento que ele tinha na época e mesmo quando chegou ao fim eu não podia me aproveitar daquilo porque ele estava sofrendo. Foi um pesadelo e eu não podia fazer nada. Até que tudo mudou.
— Então eu preciso esperar? — Ela balançou a cabeça e segurou minhas mãos.
— Se tem uma coisa que eu posso te dizer com certeza é que aquela visão que eu tive? A de você feliz e com aquele brilho no olhar de um homem apaixonado? Ela não aconteceu ainda, James. Seu amor ainda está por aí e você vai encontrá-lo e se for Lisa…
— Como é que você sabe que é a Lisa? — Perguntei e Luna apenas me encarou por um instante.
— Eu estava no casamento de Victoire, sabia? Do seu lado na hora daquela dança, eu apenas juntei os pauzinhos. Enfim, se for pra ser ela, então será.
— É impossível, ela está há anos com Stephen e eles claramente têm os mesmos planos. — Afinal, os planos de Lisa eram justamente se adequar ao estilo de vida do namorado. Luna ergueu os ombros.
— Então se for pra ser outra pessoa ela está te esperando na esquina, Jay. Está por aí e está chegando, você não vai precisar esperar muito mais tempo, mas, até lá, você vai sofrer também, e viver esses meses terríveis de pura incapacidade sufocante. Mas quando a felicidade chegar você será mais feliz do que nunca e, até lá, eu tô aqui com você.
Luna apertou minha mão e eu podia ver no sorriso sincero dela o quão contente ela estava em poder, de fato, estar ali. Em ter estado presente para aquele conselho, para aquele momento. Eu apertei a mão dela de volta.
— Amo você, baixinha. — O sorriso dela se alargou, mas ela forçou um revirar de olhos.
— Eu tenho um namorado, James, não se coloque na mesma situação duas vezes.
A risada que ela conseguiu arrancar de mim deixou tudo mais simples.
Acabamos conversando por mais algumas horas. Contei a Luna, sem muitos pudores, o que estava acontecendo, e precisei até mesmo fazer uma retrospectiva com Giulietta para dar mais contexto à conversa que tive com minha ex alguns dias antes. Contei também da conversa com Lisa no pub, a dança, o sonho — sem tantos detalhes porque na minha cabeça Luna ainda era um neném — e o que eu estava sentindo, além da minha reação a Stephen. Ela ouviu tudo pacientemente, compreensiva e empática, não deixando de rir da minha cara quando sentiu vontade. Quando terminei de contar tudo aquele velho resmungão já tinha ido para seu quarto e a luz fraca da vela acesa era a única iluminação do salão, Luna já bocejava quando se levantou.
— De tudo isso eu só posso te dar um conselho, Jay. Você pode ficar sentado aqui a noite inteira, beber todo o estoque de firewhisky que temos e sentir pena de si mesmo, ou você pode se acomodar em um dos quartos lá em cima, descansar e, amanhã, continuar vivendo sua vida, buscando por aquilo que você sempre procurou; o que tiver de ser, será.
Eu sabia o que ela estava tentando dizer e, infelizmente, não podia discordar. Então terminei de tomar o achocolatado — já era o terceiro copo desde que eu chegara — e a acompanhei escadas acima. No dia seguinte eu daria um jeito na minha vida.
Eu, James Sirius Potter, lindo e maravilhoso, estava, oficialmente, sem absolutamente nada para fazer. Não havia casamento para eu poder organizar, não havia ninguém para eu tentar juntar, não tinha mais férias com os amigos em uma cabana chique e isolada no interior. Trabalhar em minha poção? Indefinidamente proibido de sequer erguer uma ampola na cozinha de casa e muito menos tentar descobrir o que dera errado para que o balcão da minha mãe derretesse completamente — com fortes ameaças ao meu belo rosto caso eu repetisse o acidente com a nova bancada.
O que me fez pensar em algumas coisas: primeiro, eu estava muito dependente dos meus pais. Desde que eu havia sumido eu soube me virar muito bem — salvo as partes em que eu me embebedei e fui espancado algumas vezes, mas isso não conta —, e, agora, eu estava totalmente na aba dos meus pais. Não que eles reclamassem e nem que eles estivessem incomodados, mas eu tinha aprendido a ter a minha própria independência. E agora eu estava completamente ocioso. Então, ao acordar naquele domingo no caldeirão furado, eu tracei um longo plano de “como esquecer que a Lisa existe até de fato esquecer que a Lisa existe com alguma francesa que seja solteira, ao contrário da Lisa”. E, ok, talvez vocês estejam pensando que o nome não era tão bom considerando o objetivo final, mas vocês precisam confiar em mim, ok?
Eu só tinha mais uma semana na Inglaterra e sabia que os meses seguintes na França seriam intensos, além do mais, não queria precisar depender — ainda mais — do meus pais, então tomei a decisão de organizar o máximo de coisas possível ao longo daqueles próximos dias. Dentre os afazeres eu listei: encontrar um lugar para morar para quando eu voltasse do intercâmbio e durante, arrumar um emprego ou bico que me sustentasse enquanto eu estivesse na França, pensar em alternativas profissionais caso eu não conseguisse uma vaga imediata em Hogwarts — o que era bem provável — e, claro, comprar meus materiais para aquela última etapa dos meus estudos.
E tão logo eu tinha finalizado meus planejamentos, na segunda-feira logo pela manhã uma coruja deixou uma lista de materiais na cozinha, me estimulando a agir. Não eram coisas caras e absurdas, eram apenas objetos que a faculdade queria que cada aluno tivesse, pois seria de uso exclusivo do mesmo. E, apesar do que eu tinha decidido no dia anterior, antes mesmo do horário do almoço eu já deixava o Gringotes munido de uma bolsinha recheada com o dinheiro dos meus pais.
Levaria algum tempo até eu me estabelecer financeiramente e se eu estava ali era porque tinha merecido, ok? Na França e depois quando eu voltasse a gente foca nisso de independência financeira, até lá, Harry e Ginny Potter estavam mais do que satisfeitos em bancar meus materiais de estudo.
Duas noites, contando com a que eu tinha partido, tinham se passado desde que eu saíra à francesa (ba dum tss) do chalé de Lisa e nenhum dos meus amigos tinha me contatado para tirar satisfação, felizmente, e eu também não tinha me preocupado em informar mais detalhes a nenhum deles, não tinha o que dizer e também estava fingindo estar ocupado, como tinha explicitado no bilhete.
No dia anterior, após ter terminado meu planejamento, eu fiz uma faxina completa no meu quarto, separei roupas para doar, retomei meu hobby desenvolvido em julho por crochê e produzi uma roupinha e chapéu adoráveis para Marie, que, mais uma vez, se encontrava extremamente estressada com o excesso de atenção que eu a dava quando ela claramente preferia ficar reclusa embaixo da cama de Lily e me mantive atarefado com frivolidades para evitar a todo custo pensar em Lisa. E o fato de sentir algo forte em relação a ela. E o quanto eu não poderia tê-la, não importava o quanto eu quisesse. E naquele maldito sonho.
Quando a hora de dormir chegou o sono me embalou rápido e o cansaço bastou para que ele não fosse perturbado novamente por projeções indecentes do meu inconsciente. Quando o dia raiou na manhã seguinte, eu já estava de pé e preparando um bom chá quando a coruja da universidade entrou pela janela lateral.
Conferi a lista de materiais e a loja mais próxima ao banco era a de materiais de jardinagem e herbologia, pra onde eu segui a fim de conquistar as solicitadas luvas protetoras contra mandrágoras e coisas quentes.
A loja não estava necessariamente cheia de clientes, considerando a época do ano, nem era tão pequena quanto se pode pensar, entretanto, as plantas diversas espalhadas pelo chão, teto e paredes tornavam a locomoção pelo local quase impossível e, no caminho para o corredor de utensílios eu quase derrubei um aquário largo com visgo do diabo dentro.
— James? — A voz suave atraiu minha atenção pro lado contrário e meus reflexos me ajudaram a pegar um vaso de diafanina antes de atingir o chão.
Ergui o olhar para a mulher à minha frente. Usando um sobretudo longo por cima de uma combinação de blusa e calça, os longos e lisos cabelos avermelhados foram os responsáveis por ativar minha lembrança, enquanto os olhos azuis brilhantes seguravam minha atenção por um instante. Ela era o completo oposto de Lisa, bonita à sua maneira, impossível negar, mas a pele parecia muito pálida, os olhos azuis demais, o cabelo muito laranja. Eu forcei um sorriso.
— Oi… espera, não me conta. — Daquela vez eu realmente me concentrei em lembrar quem era a mulher e não ficar fazendo comparações infundadas com… bem… — Felicity! — O sorriso dela se alargou e ela assentiu.
— Não esperava te ver por aqui! Como você está? Você sumiu do casamento! — A voz dela também se diferenciava da de Lisa. Enquanto a leãozinho possuía uma voz um pouquinho mais grave, quase rouca, o que dava um tom sexy a absolutamente qualquer coisa que ela falava, Felicity tinha um tom mais agudo, não a ponto de ser irritante, mas… diferente de Lisa.
— Comprando alguns materiais para a volta às aulas e.. Bem, eu tinha bebido um pouco demais, foi indelicado da minha parte sair sem me despedir, peço desculpas. — Não era mentira, ela assentiu.
— Ah, não se preocupe com isso! — Eu sorri de volta e um breve silêncio se estendeu entre nós dois. Felicity, alternou uma sacola de uma mão para outra. — Bom, é melhor eu já ir.
— Ah, claro, muito bom te encontrar!
— Um prazer te ver também!
Com mais um sorriso Felicity passou por mim em direção a saída e quando o perfume de cravo e canela dela alcançou meus sentidos que meu cérebro pareceu funcionar novamente, tomando o controle do meu coração depressivo e desolado.
— Hey, Felicity! — Ela se virou rápido, quase rápido demais, como se estivesse esperando ser chamada. — Eu preciso finalizar algumas compras por agora, mas, hm… se você não estiver muito ocupada, o que acha de um jantar mais tarde? Adoraria compensá-la por ter ido tão cedo do casamento
Seu rosto se iluminou com o convite e eu quis me animar com a animação dela. Consegui o suficiente para mostrar meu interesse enquanto combinamos os detalhes para nos encontrarmos mais tarde. Eu provavelmente não deveria estar marcando encontros faltando apenas seis dias para eu partir para a França por longos meses, mas Felicity era uma mulher bonita com um sorriso bonito e, por mais que eu não me orgulhe muito de assumir isso, eu precisava esquecer Lisa.
Ao terminar as compras voltei para a casa e o que posso dizer para vocês é que, talvez, marcar aquele encontro com Felicity não tivesse sido a melhor das ideias. Isso porque, por causa dele, meu plano de CEQLEAFEQLECAFQSSACL (como esquecer que a Lisa existe até de fato esquecer que a Lisa existe com alguma francesa que seja solteira, ao contrário da Lisa, caso tenham se esquecido) foi completamente para o ralo pelo resto daquela tarde.
Toda vez que eu pensava em Felicity ou no jantar, eu pensava em Lisa, e em como ela fazia meu coração bater ou como meu peito tinha doído quando Stephen chegara no chalé, ou como eu me senti ao dançar com ela e como eu queria mais. E então eu me forçava a pensar em Felicity e no pouco que eu sabia sobre ela, mas suficiente para tentar me convencer que ela com certeza combinava mais comigo do que Lisa jamais tinha combinado e que o jantar era uma ótima ideia e então voltava a pensar nos grandes olhos castanhos, no delicado aroma de framboesa e pêssego combinados que a deixavam com um cheiro único e característico, nas ondas macias em tom de chocolate e… Felicity!
Como já devem ter percebido, se tornou um círculo vicioso. Eu não consegui fazer mais nada no dia, cada vez que eu considerava me arrepender ou desmarcar tudo com a ruiva, eu me forçava a lembrar que aquilo era necessário e me faria bem e então caía nos porquês de eu precisar daquele encontro com aquela mulher e, enfim.
Quando dei por mim o sol já estava se pondo e era hora de me arrumar para encontrar com a adorável e simpática professora que era uma conhecida de Teddy e claramente tinha muito mais a me oferecer do que Lisa.
Dessa vez, não havia meus pais na sala aguardando para ver qual seriam meus próximos movimentos, ou simplesmente vendo televisão juntos. Acho que, finalmente, eles perceberam que o único lugar para qual eu iria longe deles era a França e que eu jamais sumiria daquele jeito novamente. E eu fiquei muito feliz por esse fato, uma vez que eu saí por aquela porta sem me preocupar se eu teria a varinha confiscada novamente. Portanto, segui para o Beco Diagonal sem nenhum problema.
Assim que aparatei em frente ao Caldeirão Furado Felicity já me esperava, conversando com uma das irmãs de Luna, que não estava à vista. E Felicity estava bonita, com um vestido azul escuro perolado soltinho e saltos pretos pequenos, seus cabelos estavam soltos em ondas e cheios, me lembrando que o tom de cabelo estava errado, que eu preferia que fossem castanhos e mais cacheados. Quando notei o pensamento de que eu estava comparando as duas de novo, balancei a cabeça, voltando minha atenção para a mulher que realmente tinha interesse em mim.
Felicity ainda não havia me visto e eu me preparei para o que viria a seguir, mesmo que meu coração estivesse em outro lugar, naquela noite eu faria o possível para puxá-lo de volta para a rota que eu decidisse. Coloquei um sorriso no rosto e cheguei mais perto da mulher ruiva ao balcão. Qualquer um que a visse ali, daquele jeito radiante, a acharia sexy, e eu também achava, mas parecia que alguma coisa estava fora de lugar, como se algo estivesse faltando ou… errado.
— Boa noite, meninas — cumprimentei e a irmã de Luna sorriu para mim, quando me reconheceu.
— Ah, não me surpreende que seja ele com quem irá sair, Lice — disse Ginevra e eu estreitei os olhos para ela.
— Por favor, não estrague minha reputação, Ginevra — falei, brincando, enquanto Felicity se virava com um enorme sorriso nos lábios.
Eu sorri de volta, enterrando pensamentos e sentimentos bem fundo no baú da minha mente e estendi a mão na direção da bela mulher à minha frente.
— Oi, James — ela falou para mim, meio que suspirando.
Ela claramente estava afim de mim, e isso me deu um frio na barriga, mas não frio na barriga como as borboletas no estômago que eu sentia toda vez que Elisabeth olhava em minha direção, um frio mais próximo ao pavor que a gente sente quando a montanha-russa despenca em uma longa queda, como o medo que eu senti naquele momento ao perceber que, por mais que eu tentasse, eu não conseguiria, naquele momento, corresponder os sentimentos e desejos de Felicity na mesma intensidade.
Mas eu precisava.
De forma muito egoísta, eu precisava. E enquanto durante toda minha vida eu esperei o amor me encontrar, naquela hora, pelas horas seguintes, eu me comprometi em tentar ao máximo agarrá-lo pelos braços e forçar aquilo com a ruiva funcionar. Mesmo que ela não fosse quem eu queria.
— Oi, Felicity... vamos? — sorri, e o sorriso no meu rosto não revelava em nada os conflitos internos que eu batalhava naquele momento.
A comida era saborosa, Felicity era um colírio para os olhos, a noite estava agradável e, apesar do vento frio, um encantamento no restaurante mantinha o clima ameno e confortável, com a iluminação baixa criando um cenário perfeito para um encontro incrível. E eu não conseguia parar de pensar em como Lisa não seria tão animada quanto Felicity. Quero dizer, o humor de Lisa era ácido e divertido, ela conseguia chamar a atenção de todos apenas por dizer que certo jogador de quadribol não era bom, virava um shot de tequila como se aquilo não fosse nada e o melhor: me fazia querê-la apenas por me xingar. Felicity era o contrário.
Não que ela não fosse uma mulher interessante à sua maneira; ela era divertida, feminina, ria das minhas piadas idiotas. Dava aulas, gostava de poções, tinha uma carreira, se interessava pela minha carreira e por tudo que eu tinha a dizer, era realmente sexy, ruivas sempre eram, vide Kristina, mas ela não era… ela. E eu juro que estava me esforçando ao máximo para não focar nessas diferenças, nesses contrastes tão evidentes, mas eu parecia incapaz de me impedir de fazê-los.
Foi quando Felicity começou a contar mais sobre as experiências dela como professora em um pequeno vilarejo que eu finalmente consegui desligar meus pensamentos de Lisa. O assunto me interessava e a ruiva falava com paixão sobre ele, eu queria saber mais sobre ser professor, sobre o que ela passava com os alunos, sobre o cotidiano e sobre as matérias. Felicity me contara que um de seus alunos uma vez tinha pronunciado o feitiço tão errado que ao invés de transformar a pedra em um cálice ele tinha, de alguma maneira, conseguido transformá-la em uma galinha. Ela me contou rindo e eu também acabei caindo na gargalhada com as confusões futuras que o aparecimento da galinha causou na aula. Como eu tinha dito, Felicity era uma mulher interessante.
— E, então, eu tive que congelar toda a turma para que a pobre galinha fosse transformada de volta em pedra, àquela altura ela já estava praticamente toda depenada. — ia finalizando ela.
— Merlin, será que vai ser assim quando eu virar professor? — perguntei, rindo e tomando um gole do vinho que eu havia escolhido. Felicity já estava na terceira taça, enquanto eu ainda bebia a minha primeira.
— Ah, com certeza! Gostaria de dizer que eles melhoram com a idade, mas parecem ficar cada vez mais atentados. — Ela respondeu, solidária, com um sorriso nos lábios. Felicity fazia jus ao próprio nome, era agradável e muito simpática. Eu sorri junto a ela.
A sobremesa chegou e nós a aproveitamos juntos. Ela estava cheia e eu também, portanto, não me incomodei em dividir aquela taça grande de banana split. Rimos mais um pouco, depois daquele assunto eu acabei sendo mais sucedido na minha missão da noite e tinha até mesmo ficado feliz de ir até lá, apesar de toda a ansiedade prévia, da metade para o fim o encontro me fizera bem e me dera uma ótima perspectiva do que esperar até o final da formatura. Felicity ainda não era a pessoa que tirava completamente meu ar e fazia meu coração perder batidas, mas ela poderia ser.
Assim que terminamos, paguei a conta e saímos para o frio que outubro trazia.
— Ah, preciso ir ao banheiro. Já volto — Felicity me deu um beijo na bochecha e entrou novamente no restaurante. Eu assenti, aguardando-a do lado de fora.
Olhando para a movimentação da rua, percebi que era a primeira vez que eu ia a um restaurante no Beco Diagonal. Normalmente esse tipo de estabelecimento estava sempre nas ruas laterais e eu sentia, naquele momento, que eu não tinha explorado nem a metade daquele lugar; as luzes estavam acesas, havia bruxos e bruxas andando e rindo pelas ruas, músicas ecoavam de outros estabelecimentos e tudo parecia tão vivo, mesmo àquela hora da noite. Estava distraído, esperando Felicity retornar, até que ouvi uma voz familiar e imediatamente rangi os dentes.
— James Sirius Potter, por que raios você foi embora daquele jeito?!
Fechei os olhos e me virei para o outro lado. Eu não queria nem ouvir aquela voz, muito menos ver o rosto da dona. Se eu me virasse, tinha certeza que, com duas taças de vinho no meu organismo, eu lembraria imediatamente do sonho e a imaginaria rebolando em meu colo e... Merlin, tira essa mulher daqui!
— Não se faça de besta! — Lisa me virou e eu dei um sorriso para ela. — Por que você foi embora?
— Pensei que meu bilhete fosse auto explicativo — rebati, agora, inevitavelmente a olhando. Lisa cruzou os braços, esperando que eu dissesse mais alguma coisa. — Eu não sou um vagabundo à toa que pode só fugir de responsabilidades, Elisabeth. — Olhar para ela estava exigindo todo meu autocontrole, então talvez meu tom estivesse um pouco ríspido. Além do que, aquilo era uma mentira descarada. — E além do mais eu era o único que estava sobrando ali, preferi ir.
— Isso não é verdade.
— Ah, qual é, leãozinho, da janela dava pra ver vocês quase em uma orgia. E eu estava de fora da brincadeira. Ou você e Stephen tinham planos de me convidar pro quarto com vocês? — expliquei de um modo chulo, claro. Mas era a única alternativa para que ela sumisse da minha frente. Ignorei a reação breve de puro choque e nervosismo que ela demonstrou ao ouvir minha fala.
O que ela queria que eu fizesse? Que eu ficasse em meu quarto, enquanto ela se pegava com o namorado no puff da sala? Que eu ficasse por ali, apenas cozinhando? Se era isso que ela esperava então ela poderia ir para… vocês sabem. Eu ainda tinha alguma dignidade.
— Mas isso não te dava o direito de não nos...
— Vamos, Ja... ah, oi — disse Felicity, aparecendo do nada, interrompendo Lisa.
Conforme Felicity parava ao meu lado, cruzando o braço com o meu, Elisabeth a analisou de baixo para cima, os olhos castanhos subindo lentamente com um quê de julgamento que me deixou desconfortável.
Lisa soltou uma risadinha, a risada que costumava dar em nosso tempo em Hogwarts e que eu tinha um certo medo, pois normalmente indicava que ela iria aprontar alguma. Franzi a testa, mas apresentei as duas.
— Felicity, essa é a Lisa. Lisa, esta é Felicity.
— Ah... eu não sabia que estava acompanhado, Potter. — Seu tom de voz era um pouco distante, como se não estivesse se importando com o acontecia ali. E, devo admitir, ouvi-la daquele jeito era como levar um soco no estômago.
— Ah! É um prazer… você estava no casamento de Teddy também, não estava? — Sempre simpática, a ruiva desenhou um largo sorriso no rosto, mas Lisa não a respondeu, apenas arqueando uma sobrancelha e desviando o olhar dela para mim
— Felicity é minha acompanhante hoje — falei, avaliando sua atitude.
— De luxo? — Questionou ela, me fazendo ficar boquiaberto.
— Elisabeth! — censurei o seu comentário, antes que Felicity dissesse algo, pois eu senti que ela havia ficado espantada. — Primeiramente, Felicity não é esse tipo de mulher. Segundo, eu não preciso pagar ninguém para ficar comigo. Terceiro, eu definitivamente não esperava isso de você.
E foi então que Lisa pareceu recobrar a sua sanidade, sua expressão ficando um pouco mais assustada.
— Ah, meu Deus. Eu sinto muito Felicity eu não quis…
A expressão de Felicity agora estava menos convidativa, antes que Lisa pudesse continuar sua pífia explicação ou eu pudesse pensar em algo para dizer, Stephen chegou. Que bom. A expressão dele de estar sempre com um bom humor e feliz por me encontrar me irritava. Entretanto, eu permaneci com a minha expressão neutra.
— E aí, James? Boa noite, senhorita! — cumprimentou, simpático e com um sorriso irritante. — Por que foi embora naquele dia?
Eu tive que contar até dez mentalmente para não revirar os olhos. Passei o braço em volta da cintura de Felicity e, era impressão minha?, o olhar de Lisa acompanhou o movimento. Notei pois eu havia desviado os olhos para ela por alguns segundos.
— Embora de onde? — perguntou Felicity um pouco perdida, parecendo ter decidido ignorar o que tinha acontecido segundos antes.
— Tínhamos viajado com um grupo de amigos, mas precisei ir embora mais cedo pois tinha coisas para resolver... — Dei de ombros, já não queria mais ficar ali. Ver Lisa me abalava de um jeito que eu não sabia lidar. — Bom, nós já estávamos de saída. Tenham uma boa noite. — Assenti e acenei, guiando Felicity para longe dali. Ela também deu tchau para os dois, enquanto saíamos do Beco Diagonal.
Aparatei com Felicity em sua casa. Fúria corria por minhas veias como gasolina, bastando por si só para deixar a atmosfera quente. Havia mãos para todos os lados, nos apalpando, conforme andávamos pelo corredor da pequena residência da ruiva, que me agarrava como se dependesse daquilo. O episódio de Lisa, para ela, foi esquecido. Para mim, ainda queimava fresco em minha mente. Ao que parece, eu tê-la defendido havia dado um grande tesão em Felicity, que havia me puxado para um beijo no Beco Diagonal mesmo.
Ela me beijava vorazmente, enquanto minhas mãos passeavam pelas suas belas curvas, e eu não conseguia esquecer a audácia de Elisabeth ao ter falado com ela daquele jeito. Felicity desgrudou seus lábios dos meus, arrancando o vestido, ficando apenas de calcinha azul na minha frente. Por Deus, se meu corpo não estivesse em conflito com a minha mente, eu a teria devorado ali mesmo, em pé, comigo ajoelhado entre as suas pernas. Entretanto, a imagem de Lisa se ajoelhando em minha frente, assaltou a minha memória, me fazendo grunhir de raiva e puxar Felicity para mais perto de mim.
Ela me empurrou em direção a parede, passando as mãos nos meus braços e eu esperei. Ela guiou as minhas mãos até a sua bunda, fazendo-me apertá-la contra a minha semi-ereção. Sua língua acariciava a minha, suas mãos estavam arrancando a minha blusa. Quem Elisabeth achava que era? Não era apenas errado ela falar com qualquer mulher daquele jeito, mas que direito ela achava que tinha para agir daquela forma com alguém que estava comigo? Aquilo era inaceitável! Ela tinha um namorado e eu não saia por aí ofendendo-o na primeira oportunidade e, acredite em mim, eu bem que queria.
Felicity me empurrou e eu demorei alguns segundos para perceber que ela não se aproximou de volta, ela tinha descido do meu colo e me observava.
— Se você não estiver no clima…
— Hm? Não é nada disso.
Bom, era, mas eu estava me esforçando, então sorri para Felicity e a virei de costas para a parede e desci sua calcinha, fazendo com que ela desse um gritinho excitado e surpreso. Beijei seu pescoço, fazendo com que ela empinasse ainda mais a bunda em direção ao meu membro, ainda não completamente duro. Passei minha mão em seu clitóris, a sentindo molhada para mim... e isso deveria me deixar louco, mas as reações da ruiva ao meu toque não pareciam estar surtindo nenhum tipo de reação em mim. Voltei a puxá-la para mais perto e Felicity rebolou onde deveria haver uma ereção, e com aquilo eu lembrei de Lisa dançando com o corpo colado ao meu e, logo em seguida nas mãos de Stephen acariciando as coxas dela.
Levei Felicity para o quarto e joguei na cama, beijando seu pescoço e voltando a tocar seu ponto mais sensível, ela gemeu com o contato de meus dedos e absolutamente nada acontecia. E não demorou muito tempo até que ela reparasse que algo não estava certo. Mas Felicity, e eu, tentamos. Ela era sexy e se aproximou de mim com lábios quentes, Felicity era sedutora e certamente sabia o que estava fazendo, mas, não importava o que ela fizesse, meu pau não subia. Parecia que ele só reagia quando eu pensava no sonho com Lisa e, ainda assim, não era o suficiente, porque ele, de alguma forma, sabia que Felicity não era quem eu realmente queria foder.
Tentamos por mais alguns segundos, meu humor, orgulho e dignidade começavam a ficar arruinados, até que a ruiva que estava nua e molhada para mim, desistiu e suspirou, sentando-se na cama também não demonstrando muita felicidade ou contentamento.
— Eu sinto muito, isso nunca…
— Aconteceu? — Ela me interrompeu e eu fechei a boca. Era verdade, mas eu imaginava que ela não queria ouvir desculpas naquele momento. E eu poderia ao menos dar prazer a ela, meu pau estava em conflito com meu cérebro, mas meus dedos e língua ainda funcionavam bem. De alguma forma, porém, eu já sabia que as tentativas seriam igualmente fracassadas, talvez eu devesse ter desistido quando ela me deu abertura para tal.
— Desculpa. — Foi tudo que consegui pensar de novo, não que fosse resolver a questão, ela bufou.
— Aquela garota… no beco? Que achou apropriado ofender alguém que tinha acabado de conhecer? — Felicity disse sem rodeios e sem paciência. — O que vocês dois tem?
— Nada! — Minha resposta foi rápida e sincera. E doía. Felicity apenas assentiu.
— Bom, se eu posso recomendar algo é que você resolva o que quer que seja isso se pretender transar novamente. Essa pode ter sido a primeira vez, mas pelo que eu vi… — Ela riu com desgosto e levantou-se da cama. — É um desperdício, mas vai acontecer outras vezes.
Balancei a cabeça, ainda tentando assimilar que eu havia brochado pela primeira vez com uma mulher. E o pior era que o que Felicity dizia fazia sentido. Por algum caralho de motivo meu pau parecia ser extremamente fiel. Não importava se eu tivesse ou não uma chance com a pessoa, se eu tivesse algum envolvimento emocional com alguém, ele simplesmente se desligava para o resto do mundo. Quando eu estava livre aquilo não era um problema e eu pegava quantas mulheres tivesse vontade, mas bastava algum sentimento entrar na roda e pronto, era o fim.
— Bom, James, poderia ter sido um prazer. — Ela disse, me deixando chocado com as suas palavras, principalmente por ter razão. — Eu vou tomar um banho, tenho certeza que sabe encontrar a saída.
E essa foi a sua despedida, enquanto andava rebolando nua para uma das portas no meio do corredor. Junto com o resto da minha dignidade, me vesti novamente e encontrei a saída, aparatando de volta para casa.
Depois do episódio vergonhoso com Felicity, eu não consegui dormir por um longo tempo. E eu não me orgulho em dizer que, no final, eu alcancei o ápice do prazer naquela noite. E vocês já devem imaginar, mas eu prefiro não contar como. Minutos antes de cair no sono, porém, eu cheguei a uma amarga conclusão. Já que Elisabeth havia me quebrado para outras mulheres mesmo sem nunca ter me tocado, eu poderia muito bem virar padre e me comprometer de vez com o celibato, já que a mulher que eu queria, e a única que meu corpo parecia desejar, não estava disponível.
(...)
— Você, por acaso, tem alguma imobiliária ou algo do tipo? — indaguei para Dimitri, impressionado.
Ele riu, balançando a cabeça, enquanto caminhávamos por um bairro trouxa de Londres, que ficava um tanto quanto perto do Caldeirão Furado. Meu amigo se ofereceu para me acompanhar na procura de alguns apartamentos quando comentei que precisaria de um ao voltar da França, pois já havia passado tempo demais dependendo dos meus pais e aquilo quebrava todo o conceito de “desapareci de casa para ser independente”. E como ele agora estava de férias após a operação de sucesso contra os Bellucci, podia se dedicar ao seu segundo emprego de guarda-costas e garantir que eu não fosse parar em qualquer vizinhança, sob ameaças intensas de Ginny Potter caso ele não cumprisse aquilo com maestria.
O clima de outono ainda castigava quem andava na rua, o vento era forte, o frio quase conseguia penetrar a minha pele, por mais que estivesse com um casaco grosso de lã. Já Dimitri vestia seu sobretudo preto de sempre, seus cabelos ainda pelos ombros e bem aparados... acho que ser imenso o aquecia de alguma forma. Eu havia chamado Fred para nos acompanhar, mas, quando soube que Dimitri era quem iria apresentar o apartamento, desistiu de vir... parecia que ele ainda não havia superado o dia que Dimitri o havia pegado pelo colarinho. Não pude evitar que um sorriso escapasse de meus lábios ao lembrar.
— Apenas tenho bons contatos... deveria experimentar ter também — ele respondeu, com o sobretudo voando.
— Eu já tenho — falei, enquanto ele me guiou para a direita e me olhou com as sobrancelhas erguidas. — Você!
Nós rimos juntos, entrando em um prédio baixo, de aparência antiga, mas bem conservado. Eu, obviamente, não havia comentado com ninguém sobre o meu episódio único com Felicity. Era humilhante, além de me obrigar a admitir que eu estava gostando de Lisa. Fato esse que eu ainda queria esquecer ou fazer com que desaparecesse. Portanto, se Felicity não espalhasse por aí, ninguém saberia.
O interior do prédio estava mais quente, graças a Deus. Havia três andares e Dimitri disse que o apartamento vago era no segundo. Nós subimos uns três lances de escadas até chegarmos ao apartamento, trocando provocações e rindo de idiotices ditas, quando a porta de frente a que eu e Dimitri paramos foi aberta e uma voz conhecida surgiu no corredor.
Eu provavelmente estava vivendo um pesadelo. Eu tinha ignorado o formigamento que tinha tomado conta do meu corpo no momento em que eu pisei no prédio, acreditando ser por causa do frio, mas na verdade era como se eu sentisse a presença dela. Era sufocante, algo que eu podia sentir ecoando em meu corpo, algo que me puxava em direção a Lisa. Ela falava com alguém no telefone e eu percebi que eu estava muito quieto, já que Dimitri me olhava de maneira indagadora. Meu amigo se virou e eu vi seu sorriso aumentar ao mesmo tempo que a porta se fechava atrás de mim.
— Lisa! Que coincidência! — exclamou Dimitri. O corredor ficou em silêncio por alguns segundos — Lembra do meu amigo, James?
Eu sabia que Dimitri estava implicando comigo, mas eu me virei, vendo Lisa com um grosso casaco e touca na cabeça. Me lembrou de uma vez em que ela estava indo para Hogsmeade, muito tempo atrás. Eu não havia comentado, mas ela era linda desde aquele tempo e eu era... outra pessoa.
— Como poderia esquecer? — perguntou ela e eu apenas a observei, sentindo um frio na barriga que nada tinha a ver com o clima do lado de fora. — James... eu... eu queria pedir desculpas por ontem à noite. Espero que não tenha estragado seu encontro.
Ela estava sendo sincera apenas na primeira parte, mas algo na sua voz na segunda fez-me perguntar se ela não estava contente caso a minha noite não tivesse dado certo. Balancei a cabeça, obviamente não era isso. Eu estava imaginando coisas.
Lisa não imaginava que havia estragado de outra forma. Mas meu orgulho, naquele momento, gritou mais alto que qualquer outro sentimento.
— Está tudo bem. Se alguma coisa você até ajudou, ela gostou de ter sido defendida. — Menti descaradamente e Lisa empinou o queixo, engolindo em seco e enfiando o celular para dentro do bolso.
— Ótimo. — Ela disse ríspida e então respirou fundo, parecendo buscar por autocontrole. — Bom, de qualquer maneira, gostaria de me desculpar de forma mais apropriada. Eu moro aqui… — Ela apontou para a porta atrás de si. — Por que não vem aqui mais tarde? Não sei o que vocês estão fazendo por esses lados, mas, bem… — ela disse e meu peito encheu-se de ar, mas logo me lembrei que, com certeza, Stephen estaria lá. Eu ia negar, mas ela estendeu um dedo na minha frente. — Não aceito não como resposta. Precisamos terminar de ver Smallville e não é só você que sabe fazer uns deliciosos pratos brasileiros. — Lisa sorriu, simpática.
Porra, aquele sorriso me quebrou. Portanto, me vi assentindo, concordando em encontrá-la algumas horas mais tarde, sentindo o monstro acordar e farejar o ar.
— Ok, Lisa, estarei aqui — respondi e ela sorriu ainda mais. Se é que fosse possível, o frio na barriga aumentou.
— Eu tenho uma coisa para resolver em um lugar. — Dimitri disse, sua voz retumbando como um lembrete de que ele estava ali, parecendo despertar não apenas a mim, mas também Lisa.
— Ah, uma pena, Dimitri! Fica para uma próxima, talvez? — Ela alargou o sorriso e eu sentia todo meu corpo vibrar em resposta. — Bom, agora preciso buscar April… — ela revirou os olhos, mas depois voltou com a expressão normal, acenando em seguida. — Tchau, Dimitri. Vejo você daqui a... — ela olhou o relógio no celular — duas horas, James.
Ela desceu as escadas com pressa e, quando ouvimos a porta bater lá embaixo, Dimitri se virou para mim, cruzando os braços e erguendo uma das sobrancelhas.
— Pensei que eu não estivesse mais aqui — falou ele, abrindo a porta e me fazendo suspirar. — O que vocês dois têm?
— Nada, ela é só uma antiga colega da escola e ela tem namorado — expliquei, entrando no apartamento, olhando o espaço sem realmente ver alguma coisa. — Pela primeira vez na vida, estou na temida friendzone. E ela nem sabe disso.
Dei um giro, agora observando um pouco mais dos detalhes do hall de entrada. Havia um closet onde eu poderia pendurar casacos e colocar sapatos, entrando mais um pouco pela “porta” aberta em formato de arco, vinha a sala com uma grande janela colonial de vidro, dava para notar que havia sido reformado há pouco tempo, com uma varandinha do lado de fora. Tinha uma lareira bem de frente à parede vazia. Andei pelo corredor e notei dois quartos e um banheiro e no lado oposto uma porta que dava para uma cozinha. Tinha gostado dali.
Dimitri caminhava às minhas costas e eu assentia, entrando na cozinha. Havia uma janela grande e uma outra parede que separava a cozinha da lavanderia. Era um ótimo apartamento, prático e com uma localização perfeita, mas a recém-descoberta que Lisa seria minha vizinha… eu não sabia se conseguiria fazer isso.
— Então… você gosta da Lisa, né? — ouvi a voz de Dimitri e eu voltei o meu olhar para meu amigo. A pergunta dele penetrou fundo em mim, mas engoli em seco e balancei a cabeça.
— Tá mais pra um desejo, uma necessidade. Acho que além dos meus familiares, Lisa foi uma das únicas garotas em Hogwarts que eu nunca peguei e, bem, eu não sou cego, tá bem? Ela tá… diferente da época da escola e eu não consigo tirá-la da cabeça, é só isso. — Eu sabia que não era, mas não sabia se estava tão pronto para revelar aquilo com todas aquelas palavras. Eu sabia que Dimitri me olhava atentamente, mas eu estava ocupado analisando os rodapés das paredes.
— Sabe, James… Eu estava ali fora, apesar de vocês dois não parecerem ter notado ou dar alguma importância pra isso, mas eu tava bem ali. — Eu virei para olhá-lo e vi que Dimitri sorria. — E o olhar no seu rosto? Eu só o vi uma vez antes, meu amigo, e foi quando você estava ensopado do próprio sangue, com tantos hematomas no corpo que você deixou de ser branco e passou a ser roxo por uns dias e com tanta dor que você tremia ao falar, logo depois de ter levado uma surra dos guardas de Giulietta e de eu ter sugerido que você não deveria vê-la novamente. E essa coisa naquele olhar que é exatamente igual a que eu vi nesse é que, ok, você está certo, você não gosta da Lisa. Você está completamente apaixonado por ela.
Eu sabia disso. Eu tinha suspeitado logo após aquele maldito sonho. Merlin! Eu tinha começado a suspeitar depois daquela única conversa que tive com ela e de como ela afirmou com tanta certeza saber que eu sempre estivera vivo, sobre como ela conseguia sempre me encontrar. Eu soube quando dancei com ela e senti coisas que eu nunca tinha sentido antes e que eu passara todos os anos desde os meus cinco tentando sentir. E eu nunca em toda minha vida tinha imaginado que aquilo me faria sentir tão mal.
— Culpado. — Declarei por fim, suspirando e passando as mãos nos cabelos. — Mas não significa nada. Ela namora e eu aprendi minha lição com Giulietta, sabe? É… — Ergui os ombros, admitir aquilo em voz alta era, ao mesmo tempo, um alívio e um calvário. Eu jamais a teria... e eu podia sentir algo me puxando sempre para perto dela. — Irrelevante. Meus olhos podem brilhar o quanto quiserem, é uma rua sem saída. E, bom, se eu superei Giulietta, Lisa não será problema.
Balancei a cabeça, encarando Dimitri, que tinha o olhar quase suave, como se sentisse o que eu estava passando. Talvez a minha expressão me entregasse, talvez a nossa amizade fosse igual a de Dominique e Lisa, única. Por mais que eu tivesse ficado com raiva de Dimitri por conta do meu pai, ele fora a pessoa que me salvou de várias formas: da solidão, da morte, de viver por aí sem supervisão. Não me leve a mal, Fred era uma metade de mim, mas Dimitri se tornou a outra.
Ele suspirou e, com seus quase dois metros de altura e braços que eram do tamanho da minha cabeça, me puxou para um abraço, dando tapinhas nas minhas costas.
— Eu tô ok… — Disse, sufocado.
— Eu sei. — Ele me manteve cativo no abraço até eu retribuir o gesto e, só então, se afastou. — E mesmo assim você vai se encon...
Eu estendi a mão, balançando a cabeça, impedindo-o de continuar.
— Eu irei lidar com isso como sempre fiz: com humor — pisquei um olho para ele, dando um sorriso triste. Respirei fundo, apesar de doer, eu iria conseguir superar, como sempre... entretanto, por que eu sentia que não? Enterrei novamente no fundo do meu coração esse sentimento, precisava viver. — Vamos aos detalhes da casa, gostei daqui.
Depois que eu e Dimitri terminamos de ver o apartamento almoçamos em um restaurante trouxa, na companhia da minha querida Teresa, que tinha conseguido se reunir com o namorado na Inglaterra. Era engraçado como aqueles dois combinavam tanto que eu literalmente estranhava que eu e Teresa namoramos um dia. Um fato que, agora, era incabível para mim. E dava para ver que Dimitri era caidinho por ela, apenas pelo modo de agir. Ele era todo durão, mas só tinha pose, perto de Teresa ele parecia derreter só de olhá-la.
Após a refeição, Dimitri afirmou ter assuntos urgentes para resolver com Teresa e se despediu de mim, me desejando sorte no encontro. Após eu afirmar que não era um encontro, Teresa se mostrou muito interessada no assunto, mas o guarda-roupas que ela chamava de namorado a levou para longe, piscando um olho na minha direção. Balancei a cabeça, acenando para os meus amigos, ouvindo Teresa reclamar que queria saber o que tava acontecendo na minha vida antes de aparatarem para longe dali.
Após eles irem, fiquei mais um tempo no restaurante, analisando as opções de apartamentos que Dimitri tinha me mostrado ao longo daquela manhã. Tínhamos visitado cinco localidades diferentes, todas naquela região mais central, e, de todos os apartamentos, aquele no prédio de Lisa tinha sido o que mais me chamara a atenção. E a coisa é que eu não saberia dizer se era porque de fato era um bom apartamento com ótimo preço e condições ou se porque morar ali me permitiria vê-la, pelo menos de longe, pelo menos por alguns segundos, com maior frequência.
E quando eu percebi o quão patético aquilo me fazia eu decidi que preferia arrumar um lugar mais isolado, mais pro interior e, talvez, na Escócia, em algum vilarejo misto para que eu pudesse praticar minhas poções sem preocupações.
Deixei o restaurante e segui na direção do prédio de Elisabeth, que não era muito distante dali. Após informar ao porteiro que iria visitar a Srta. Carter ele me deixou entrar e então eu subi e toquei a campainha do apartamento que era de frente ao que eu tinha visitado apenas duas horas atrás. Esperei alguns segundos e nada. Então me sentei nas escadas, esperando-a.
Enquanto eu esperava, minha mente estava a mil por hora. Era uma mistura de ansiedade, expectativa e, bem, realidade. Realidade esta que eu tinha plena consciência de que Stephen voltaria com Lisa e eu teria que fingir não me importar que os dois estavam felizes, que cada toque que ele dava eu desejava que fosse eu no lugar dele... isso era muito difícil! Apenas pensar nisso fez um misto de raiva e pesar subir por mim, fazendo-me decidir sair dali, pensando em dar uma desculpa para ela quando chegasse em casa. Eu não aguentaria ver que não era eu quem ela desejava, não agora, não com meus supostos sentimentos tão recentes.
Já havia me levantado quando ouvi a portaria bater e passos apressados subirem as escadas rapidamente. Lisa apareceu ao pé do lance de escada que dava para onde ela morava, onde eu me encontrava pronto para partir. Ela ofegava e subia o restante da escada devagar ao constatar que eu ainda estava ali. Tirou a touca que usava e sorriu para mim.
— Eu espero que você esteja em pé para esticar as pernas — brincou assim que ficou de frente para mim. Um sorriso involuntário surgiu em meus lábios.
— Se eu soubesse que viria correndo por mim, teria esperado mais — falei, me arrependendo imediatamente, pois Lisa ergueu uma das sobrancelhas. Mas, antes que eu pudesse inventar alguma coisa, Lisa deu uma risada, passando por mim para abrir a porta de sua casa.
Ela fez sinal com a cabeça para que eu entrasse e eu fui, não tinha mais volta. Lisa jogou as chaves em cima da mesinha que ficava no hall de entrada. O apartamento era igual ao que eu tinha visto, mudava apenas que as janelas não eram colonial e sim em conceito aberto e moderno. As cortinas brancas estavam abertas e a luz amena do sol iluminava um pouco o local.
Enquanto eu observava tudo, Lisa ia pegando algumas coisas com pressa, fazendo barulho.
— Por favor, não repare a bagunça... eu e Stephen ficamos aqui quando voltamos à Inglaterra — ia explicando ela, jogando uma manta dentro do closet e voltando para a sala. Reprimi uma careta ao ouvir o nome do namorado.
— E onde ele está? — perguntei, olhando para ela e depois para a janela, que eu tinha achado demais.
— Essa é uma ótima pergunta. — Lisa riu, não parecendo estar de fato muito entretida com aquilo. — Ele cismou de passar a semana na casa dos pais, disse que estava com saudade das irmãs e precisava resolver algumas coisas, mesmo eu tendo deixado claro que o clima entre a mãe dele e eu estava meio esquisito desde o natal porque ela tinha me presenteado com meias de bebê e aparentemente eu não ter reagido muito empolgada com a exigência de netos não a agradou muito. — Suspirou Lisa, vindo para o meu lado. — Lindo, né? Eu que escolhi assim... pelo menos isso… — Ela parecia estar falando para si mesma. Eu a olhei de soslaio, enquanto Lisa parecia se perder em pensamentos. Queria saber o que se passava na cabeça dela, mas, quando decidi, Lisa se voltou para mim e bateu palmas. — Vou só trocar de roupa. Fique à vontade, já volto.
Ela saiu de perto de mim, pegando o aparelho de celular, seguindo para onde ficava os quartos. Eu permaneci ali, olhando o imenso sofá cinza de frente para uma enorme tv na parede. A lareira ficava embaixo, assim como no outro apartamento. Um tapete muito feio decorava o chão de madeira corrida e, em cima deste, uma mesinha de centro redonda com um arranjo de flores. Se a janela fora ela quem escolheu e era de bom gosto, deduzi que o resto havia sido Stephen quem escolhera.
Me sentei no sofá, esperando Lisa voltar, quieto. Eu podia ver a cozinha, mas não dava para dar muitos detalhes.
— Desculpe a demora mais cedo, April consegue ser bem... bom, digamos, um pouco antipática e mimada — justificou e eu a olhei, apenas para ter quase uma síncope.
Enquanto meu cérebro entrava em pane, meu corpo reagia à roupa simples de ficar em casa. Lisa usava meias até as canelas, um short larguinho e uma blusa da Grifinória de alças, que cobria uma parte do short curto. Meu Deus do céu! Engoli em seco, desviando o olhar rapidamente, mas tendo que voltar pois, um: eu precisava conversar com ela; dois: porque eu não conseguia desviar os olhos dela. O segundo fato era maior que o primeiro.
— Hum... er... eu sei como ela é — respondi, recobrando a consciência.
Lisa deu uma risada, prendendo os cabelos em um rabo de cavalo, indo até a tv gigante e a ligando. Depois, ligou o aparelho de DVD antigo, mexendo em algumas coisas em um rack, me dando uma visão parcial de seu grande dragão tatuado nas costas e uma pequena visão de sua bunda. Porra, aquilo era sexy pra caralho!
— Ah, é, esqueci que você teve um caso com May — ela comentou, ainda de costas para mim. — Que coisa, não? — Lisa se virou para mim, com um sorrisinho.
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Lembrar-me daquilo me deu uma vontade de socar aquele idiota; não apenas porque tirou meu brilho por alguns segundos, mas porque ele foi o motivo de Rose ter feito o que fez no passado. Balancei a cabeça, se Lisa estava ok, eu também estava.
— É, eu soube — disse ela, fazendo uma careta rápida e depois rindo outra vez. — Aposto que você ficou puto porque eles roubaram a cena.
Eu ri, acompanhando-a e observando-a voltar para o sofá com dois controles na mão, sentando-se ao meu lado. Seu perfume de framboesa impregnou os meus sentidos, enquanto ela selecionava algumas coisas na tv.
— Como pode me conhecer tão bem? — perguntei, rindo.
— Não sei... talvez porque desde os onze anos a gente estudou junto? — ela fingiu pensar e eu a empurrei de leve nos ombros. — Vou colocar agora... se quiser, pode tirar o casaco.
Lisa voltou a sua atenção para a tv, mexendo no controle do DVD. Ela tinha razão, estava bem quentinho em sua casa e eu não precisava estar com aquele grosso casaco de lã. Me levantei e, enquanto eu tirava, a minha blusa levantou um pouco, deixando a minha barriga à mostra por poucos segundos, antes de eu baixá-la. Segui até onde se pendurava os casacos e o deixei lá, ajeitando a minha camisa de manga preta na volta. E foi então que eu reparei em Lisa. Ela me olhava, com o rosto totalmente vermelho e eu senti o que quer que fosse dentro de mim rugir. Era impressão minha ou Lisa estava me secando?
Eu a observei melhor e cheguei a conclusão que não, já que isso foi por apenas alguns segundos. Sentei-me de volta ao seu lado, sentindo-me confortável naquele sofá, ainda que a sua presença me deixasse completamente abalado.
Lisa apertou o play e a série, finalmente, começou. Ela deitou numa ponta e eu deitei, depois de um tempo, na outra, fazendo com que eu tivesse um déjà vu de quando começamos a assistir ainda adolescentes. Havíamos ficado daquele mesmo jeito naquela época e eu me senti bem com isso.
Eu realmente estava viciado. Mal tínhamos chegado no início da terceira temporada e eu estava com ódio da Lana Lang. Sério! Eu conseguia gostar do Lex, mas ela já estava me irritando. Lisa se divertia às minhas custas, mas eu sabia que ela estava irritada também.
Passamos a tarde inteira e a noite vidrados na televisão. Eram quarenta minutos cada episódio, mas parecia menos. Quando a fome bateu de novo, Lisa preferiu pedir alguns petiscos via aplicativo trouxa de entrega, alegando que se parasse para cozinhar iríamos perder tempo demais que poderia ser usado enquanto assistiamos a série. Quando assustamos, uma temporada inteira já tinha passado e eram aproximadamente 4 da manhã.
— Merlin, eu tenho que ir embora. — Afirmei, piscando os olhos enquanto Lisa se levantava para tirar o dvd do player.
— Oh… por que você não fica aí? Temos um quarto de hóspedes vago, Stephen não vai voltar e nós podemos continuar assistindo assim que acordarmos…
Eu observei Lisa com atenção, sentindo minha garganta secar enquanto cada mínimo movimento dela, até mesmo o de devolver o dvd à capa e a fechar, pareciam sexy e atraentes. O convite de ficar ali parecia bom demais para ser verdade. E era. Não importava que tivéssemos passado as últimas 15 horas lado a lado, rindo, brincando e criando uma conexão só nossa com aquela série. Não importava que Stephen não estivesse em casa. Eu não poderia e, melhor, não devia, fazer aquilo que tinha vontade, e era melhor para mim, para minha dignidade e meus malditos hormônios adolescentes que eu aproveitasse aquela oportunidade de manter a distância.
— Eu… hm, agradeço, mas… meus pais ficam achando que eu fugi de novo e daí… — Eu desesperadamente precisava de água quando Lisa se inclinou para guardar o dvd de volta no lugar e me virei, indo em busca do meu casaco.
— Ah… — Ela parecia desapontada, mas eu já sabia que minha mente criava situações para tornar tudo aquilo ainda mais difícil para mim. — Tudo bem, então. Você está muito ocupado amanhã? Podemos continuar ass…
— Sim! — Respondi mais rápido do que tenho orgulho de admitir. — Quero dizer, não estou ocupado não, adoraria continuar amanhã. — Eu deveria estar ocupado, eu deveria me ocupar, mas era mais forte do que eu. Era como se eu estivesse me afogando e minha única salvação fosse me agarrar a qualquer oportunidade de estar com ela.
Virei-me para Lisa e vi que ela sorria abertamente, concordando com a cabeça. E… ah cara! Aquilo não parecia justo pra mim, ela ficar sorrindo daquele jeito na minha direção me deixava… Balancei a cabeça, forçando um sorriso de volta e dando um passo pra trás.
— Então… que horas amanhã? — Ela checou o relógio.
— Eu sei que tá tarde, mas por mim a gente começa de novo às 09h.
Aquilo não dava muito tempo de sono, mas eu concordei veementemente, ansioso para estar com ela de novo antes mesmo de ter saído.
— It’s a date. — Eu congelei no mesmo momento, arregalando os olhos. — Quero dizer, não um date, mas um… eu não quis… — Lisa riu, e aquilo me desconcertou mais ainda.
— Até amanhã, James.
— Até amanhã, Elisabeth.
Naquela noite, por aproximadamente duas horas, eu dormi muito bem. E então passei as horas seguintes acordado encarando o relógio apenas esperando dar a hora de poder encontrá-la novamente.
Ao retornar a casa de Lisa pela manhã, levei algumas coisas para almoçarmos, além de realmente estar gostando de ver a série trouxa, era uma desculpa perfeita para ficar perto dela, para rir com ela. Parecia que nenhum tempo passado com Lisa era o suficiente.
Deixei a comida em cima da mesa, enquanto Lisa surgia novamente da cozinha. Dessa vez, ela usava um short de malha e uma blusinha de alças larguinha com estampa de flores e pantufas. Toda vez que eu a via, parecia que era a primeira vez e o fato de ela não usar sutiã me deixara muito pilhado e eu precisei me esforçar muito e focar na imagem da minha tia-bisavó Muriel de biquíni para me comportar como um ser humano.
Ela ligou a tv e voltamos para o nosso vício. De vez em quando, eu e Lisa implicávamos um com o outro, rindo e beliscando os biscoitos; desde que começamos a ver a série, — que tinha dez temporadas — anos atrás, eu sabia que era algo nosso e eu me sentia bem com aquela sensação de ter algo que era apenas meu e dela, algo que sempre a faria lembrar de mim. O dia foi passando e resolvemos dar uma pausa para que pudéssemos esticar as pernas e descansar a vista. Na verdade, tínhamos concluído que precisamos fazer aquilo por questões de saúde. Apesar de Lisa ainda me dever um prato brasileiro preparado por ela, eu sugeri de fazer o jantar e Lisa me acompanhou, alegando que serviria apenas de apoio moral e perguntando o que eu tinha em mente. Quando eu disse pizza, ela logo se animou.
Lisa começou a pegar os utensílios para que eu pudesse fazer a massa, já que eu não sabia onde ficavam as coisas, enquanto eu esperava na ilha que tinha no meio da cozinha. Eu adorava cozinhar para ela e adorava ainda mais quando ela me ajudava a fazer as coisas, e, ok, eu sei que aquela era a primeira vez que aquilo estava acontecendo comigo cozinhando apenas para ela, mas, ah, ok, vocês entenderam. Eu a seguia com os olhos, prestando atenção e gravando cada movimento seu. Quem visse de fora, poderia ver que eu a devorava com os olhos, reprimindo todo meu desejo por aquela mulher.
Assim que eu comecei a preparar a massa, Lisa permaneceu do meu lado, observando o que eu fazia. Às vezes eu até narrava como se fosse um programa de televisão trouxa, fazendo com que ela risse. E eu adorava o som da sua risada, me contagiava, me dava ainda mais vontade de ouvi-la.
— Além dessa menina que te ensinou a cozinhar... — começou ela, de repente. — Você se apaixonou alguma vez durante o seu período fora?
— Curiosa para saber, leãozinho? — provoquei e ela revirou os olhos. Eu ri, agora sovando a massa. — Sim, apenas uma vez. Aconteceu na Itália. Giulietta... ela curou meu coração e depois o quebrou em pedaços ainda menores do que estava antes. — Revelei, ainda sovando a massa.
— Por quê? — Eu podia ouvir a curiosidade arder na voz de Lisa.
— Fofoqueira — brinquei.
— Uma boa fofoca edifica a vida. — Respondeu ela e eu ergui uma das sobrancelhas, deixando a massa descansar. — O quê? Foi o que eu ouvi por aí — Lisa encolheu os ombros.
Balancei a cabeça e ri, preparando o molho para a pizza. Lisa me seguia e, quando não me seguia, ficava me olhando enquanto eu preparava os ingredientes. Eu não entendia o porquê de ela me observar tanto, mas gostava de seu olhar sobre mim, era como se eu conseguisse captar a sua atenção. Como se Lisa realmente tivesse algum interesse. Eu sabia que era apenas o meu subconsciente me enganando, querendo me fazer acreditar que eu tinha alguma chance, mas eu sabia que não, então tentava não me apegar muito àqueles pensamentos.
— Bem... depois que eu me permiti voltar a abrir meu coração de verdade para alguém, foi logo com ela. Giulietta era uma mulher atraente, tinha um ar leve de uma pessoa que era confiante em si mesma. — Comecei, lembrando-me da primeira vez que eu a vi, entretanto, percebi que aquela lembrança não me despertava mais sentimentos, bons ou ruins, apenas um eco do que poderíamos ter sido. — Eu a vi pela primeira vez dançando ao redor de uma fonte e... era como se ela fosse a única ali. — Suspirei, mexendo o molho na panela. — Só que ela não sabia quem eu era e... nem eu eu sabia quem ela era. Era um amor proibido, eu pude perceber assim que trocamos cartas; recebi avisos para que eu não me metesse com ela. — Espiei Lisa por cima do ombro, dando um sorrisinho. — E você sabe como eu sou.
Lisa riu, entretida.
— Mas é claro que não ficou longe dela. — Disse ela e eu assenti.
— Claro que não. — Concordei, colocando sal na mistura. — Eu fui atrás dela, eu fiquei com ela... até que descobri em uma festa que ela era casada. — Aqui Lisa ofegou e eu ri. Lembrava da dor que eu havia sentido naquela noite, mas, agora, a única coisa que parecia se assimilar a dor que eu tinha sentido naquela vez era o que eu sentia ao ver um porta retratos de Lisa com Stephen, ou então quando ela o mencionava enquanto assistimos a série. Reprimi os pensamentos, me concentrando na tarefa que fazia e na história.. — Sim, eu fiquei devastado, mas provei do meu próprio veneno. Eu precisava daquela porrada para me desculpar com Allison. Enfim, eu fiquei puto, triste, inconformado. Mas então ela veio se explicar e, deuses, eu amava aquela mulher. Eu estava disposto a qualquer coisa por ela. Eu suspeitava que ela sofria violência doméstica… quero dizer, antes eu achava que era o pai dela, mas enfim, eu a chamei para fugir comigo, pois eu sabia que seria o único que podia protegê-la. Eu estava disposto a revelar minha identidade, chamar meu pai, eu faria qualquer coisa por ela ou pelo bem dela. Mas… não deu. Ela não apareceu no lugar combinado e então eu fui para Grécia.
Lisa me olhou por alguns minutos, em silêncio. Eu via em sua expressão não pena, mas solidariedade. Ela era mulher, apesar de não viver o que Giulietta viveu, só ela era capaz de entender a dor da outra.
— E como ela está? Agora?
— Tenho certeza de que está bem. Dimitri conseguiu pegar a família Bellucci e acho que agora ela está em algum tipo de programa de proteção a testemunha. — Respondi, com orgulho do meu amigo e feliz por Giulietta ter conseguido se libertar. — Eu a vi, no dia em que nós fomos beber.
Lisa piscou algumas vezes e suspirou, chegando mais perto de mim e, consequentemente, meu coração acelerou um pouco.
— E por que não vai atrás dela? Por que não diz que a ama? — perguntou Lisa, com um certo tom de tristeza na voz. Não consegui identificar o que era exatamente, apenas balancei a cabeça.
— Não posso.
— Por quê?
— Meu coração não é mais dela. — Respondi, encolhendo os ombros e, percebendo que aquilo criava certas aberturas, acrescentei: — Há um tempo que não a amo. E creio que talvez ela também não. Quando eu a encontrei ela disse que éramos o que o outro precisava naquele momento, mas não o que precisávamos para sempre e, bem, ela estava certa.
Voltei a terminar de fazer o molho e logo depois dei atenção à massa, sovando-a novamente enquanto Lisa me observava em silêncio. Não era incômodo, eu gostava de ter a presença dela. Coloquei a massa na forma que ela tinha me dado e depois espalhei o molho, colocando o queijo e o orégano em seguida.
— E você está gostando de alguém ultimamente? — perguntou Lisa, me olhando com intensidade. Eu desviei o olhar imediatamente, mas esqueci de responder a pergunta e Lisa continuou a me olhar. — Você está! Quem é? É aquela garota com quem você estava anteontem? — O tom dela combinava surpresa e algo mais.
— Deus, não. — Eu ri, balançando a cabeça. E então pisquei, reparando o que tinha feito. — Quero dizer, ela é legal e tudo o mais, só não deu muito certo…
— Como não? Você não tinha dito que o incidente até melhorou a noite de vocês. — Eu congelei, pego na mentira.
— Abre o forno para mim, por favor? — Pedi, tentando desviar a atenção, mas Lisa não iria desistir tão fácil.
— Qual é, se o encontro foi bom e você está gostando de alguém, mas não é ela, quem é?
— Não é da sua conta. — Eu disse, um pouco rude. Olhei para Lisa e ela piscou, eu respirei fundo, recobrando a calma. — Desculpa… é que, não é ninguém, Elisabeth. — Disse, forçando a mentira para fora de mim. — O forno? — Pedi novamente, mais baixo.
Lisa assentiu e se virou para abrir o forno conforme solicitado, enquanto eu seguia atrás dela, vendo o seu dragão colorido tatuado em suas costas.
— Doeu muito para fazer a tatuagem? — Mudei de assunto, porque não queria mais prolongar aquele por qualquer motivo que fosse.
Lisa se levantou rápido e eu me inclinei colocando a pizza no forno que ela havia ligado. Ela se virou para mim, eu estava bem perto, mas isso não incomodou Lisa, que abriu um sorriso animado, ignorando o breve estresse de um minuto atrás.
— Doeu muito, mas valeu a pena. — Respondeu e depois pareceu se lembrar de algo. — Olha só o que eu fiz! — ela correu até onde a sua varinha estava e eu permaneci no mesmo lugar, um pouco confuso. Lisa retornou e se virou de costas para mim, tocando a varinha na tatuagem e, meu Deus do céu, eu ia infartar ali, levantando a blusa, mostrando o seu dragão por completo.
Eu admirei aquelas costas, sua mão segurava a parte da frente para que eu não visse tudo, mas não conseguia esconder a curva de seu seio. Engoli em seco, demorando a perceber que a tatuagem dela estava se mexendo. Eu ofeguei e Lisa riu, ainda com as costas destampadas, enquanto a tatuagem se movia pelas costas dela.
— Legal, né? — Disse, empolgada e eu me aproximei, como se um imã me puxasse em direção a ela. — Parti do mesmo princípio que a poção para as fotos, depois o resto foi um pouco fácil. — explicou Lisa, ainda de costas.
Eu me aproximei ainda mais, mesmerizado com a imagem. E eu poderia dizer que era pelo desenho do dragão, mas era por ela. Então, meus dedos deslizaram pela sua pele, acompanhando os movimentos que o dragão fazia, notando que, onde eu lhe tocava, sua pele ficava arrepiada. Notar isso me fez segurar a respiração, enquanto traçava um caminho pela sua pele ainda eriçada.
Arrepiada, ela estava arrepiada com o meu toque.
Lisa me olhava de canto de olho, mas não disse nada. Podia ver sua respiração acelerar e ficar ainda mais irregular quando meu dedo roçou levemente naquela curva de seu seio. Ela ofegou e eu voltei com a carícia para as suas costas; eu não sabia o que havia dado em mim, mas agora eu não conseguia parar. Só Deus sabia o quanto eu queria aquela mulher, o quanto o meu desejo gritava por ela, o quanto eu via como aquele corpo era feito para mim.
— James... — ela se virou para mim, meio encurralada perto da ilha no meio da cozinha. Seus olhos ardiam, meu peito subia e descia com aquela proximidade, eu esperava que Lisa me afastasse, principalmente quando eu fiquei literalmente encostado nela.
Mas ela permaneceu no mesmo lugar.
E eu continuei a me aproximar.
— Você é tão linda. Nunca te disse antes, mas eu sempre te achei linda. — Eu confessei, meio suspirando, meio sussurrando.
Meu dedo, que agora repousava em seu pulso, já que ela tinha virado, subiu uma carícia por todo o braço de Elisabeth, passando por sua clavícula e segurando seu queixo, enquanto meu dedão deslizava por seus lábios carnudos e rosados. Cada pelo no corpo de Lisa parecia ter se arrepiado e ela não respirava.
Honestamente, eu não sabia se eu respirava. Mas tinha meus olhos cativos nos lábios dela, tão macios, tão convidativos. Ela era tão linda e estava ali tão… minha.
Inclinei-me em direção a Elisabeth e deixei meus lábios tocarem o dela por um segundo, um segundo era tudo que eu precisava, apenas para provar.
O que eu senti naquele exato segundo em que nossos lábios se tocaram foi inexplicável. Me afastei levemente sem conseguir respirar. Lisa ficou me encarando, um tanto chocada com a minha atitude. Nós dois ficamos nos olhando, com a respiração falha e desconexa. Lisa não me empurrou. Lisa não me xingou. Lisa não me bateu. Ela continuou ali, as mãos firmes mantendo sua camiseta na parte da frente de seu torso. Lisa não me repreendeu, ou gritou comigo. E eu observei enquanto a ponta de sua língua umedeceu seus lábios, deixando-os ainda mais convidativos e me dando a certeza de que eu precisava. Então eu a beijei de verdade.
Uma de minhas mãos se enterrou em seus cabelos, enquanto a outra descia para a sua cintura, a apertando contra mim. Eu sentia meu corpo todo em contato com o dela, realizando uma parte dos meus desejos mais profundos. Meus lábios se encaixavam nos dela, minha língua dançando com a dela, enquanto seus braços se lançavam para o meu pescoço e seus dedos arranhavam a minha nuca, fazendo com que um gemido profundo escapasse por entre o nosso beijo.
Eu a prensei ainda mais na ilha, não tendo o suficiente dela contra mim. Lisa devolveu o beijo com a mesma intensidade, com a mesma urgência. Minha mão escorregou para a sua bunda e a apertei contra mim, contra a minha evidente ereção, fazendo com que ela soltasse um gemido. Aquilo era surreal. Ela estava correspondendo ao meu beijo, correspondendo aos meus toques, e eu não estava sonhando. Aquilo era real, nosso beijo era real. Suas mãos descendo para dentro da minha camisa era real, eu estava inebriado, talvez até mesmo enfeitiçado. Estiquei o meu braço e, assim que a minha mão sentiu a maciez de sua pele nua, de seus seios contra meu toque, eu virei outra pessoa.
Tudo em mim correspondia ao corpo de Lisa. Ela gemeu contra os meus dedos, me fazendo beijá-la com mais intensidade, massageando o seu seio, sentindo que ele cabia certinho em minha mão. Eu não pensava direito, não quando as mãos dela decoravam cada gomo do músculo da minha barriga, meu membro pulsando para saber como era seu toque, sua boca, sua entrada. Eu queria venerar cada curva de de Lisa, eu queria ter tudo com ela, não apenas sexo. Não apenas esse beijo, o qual ela respondia com tanta intensidade quanto eu.
Meus beijos desceram para o seu pescoço, enquanto eu a ouvia gemer, e aquilo era como uma canção para os meus ouvidos. Ela não me afastou quando eu desci ainda mais o beijo para o seu colo, sentir sua pele nos meus lábios de verdade era tão melhor que em minha imaginação! Tão melhor que quando encontrei seus seios perfeitamente durinhos, eu simplesmente os chupei. Lisa ofegou, colocando as mãos em meus cabelos, logo depois, gemidos mais altos me fizeram ajeitar meu pau nas calças. Enquanto eu lambia e mordiscava e voltava a chupar, Lisa se contorcia da bancada, ainda segurando os meus cabelos. Mudei para o seu seio esquerdo, fazendo a mesma coisa e notando que aquele era o que mais a deixava excitada. Então eu permaneci sentindo a sua pele na minha boca, adorando cada momento daquilo. Minha outra mão massageava o seu seio direito e aquilo a levou à loucura. Lisa começou a gemer mais alto, seu corpo parecia se retesar e eu continuei o que estava fazendo. Isso nunca tinha acontecido comigo, mas saber que Lisa estava quase gozando porque eu lhe chupava os seios foi quase o ápice para mim.
Notar aquilo só me fez chupá-la com mais intensidade, a respiração dela ficou tão irregular que precisou se segurar em mim, soltando um gemido tão alto, que eu imaginava sua intimidade tão encharcada que eu mesmo quase gozei com ela. Lisa segurou os meus cabelos com força, enquanto espasmos de prazer percorriam o seu corpo e eu subia novamente para os seus lábios.
E foi então que nossos olhares se encontraram e nós acordamos para a realidade.
Eu me afastei dela tão rápido que eu dei com as costas na ponta do armário atrás de mim. Lisa cobria a boca com as mãos, mas eu podia ver que, se a gente não tivesse voltado à sanidade, ela teria sentado em mim da maneira que eu vinha imaginando ultimamente.
Mas aquilo não iria acontecer. Aquilo não podia ter acontecido. E eu era um cretino idiota por ter feito aquilo. Mesmo que Lisa tivesse aceitado todas as investidas, eu estava errado por ter começado, por ter continuado, por ter perdido o controle daquela forma vergonhosa.
— Eu sinto muito. Lisa… me desculpa, eu…
Ela continuava parada ali, naquele mesmo lugar, naquela mesma posição. Eu não conseguia me atentar ao quão glorioso o corpo dela era, como ela parecia estar brilhando após alcançar o prazer, a única coisa que eu via era o choque absoluto estampado em sua expressão, o leve tremor em sua mão que continuava cobrindo sua boca.
— Me desculpe Lisa, eu não quis, eu não… Tire a pizza do forno daqui a meia hora, por favor — comecei a me afastar e Lisa continuava parada lá. Ela me acompanhava com os olhos, mas parecia incapaz de dizer qualquer coisa.. — Me desculpe. Me... — eu me virei para ela, já na porta de saída. — Perdão, Lisa.
Abri a porta e saí sem me despedir, sentindo um misto de sentimentos que ia de vergonha e culpa a uma alegria genuína que eu não sentia há muito tempo.
Eu reconhecia o corredor onde estava. O tapete colorido com um unicórnio desenhado trazia a mensagem de que, se você não acreditasse em unicórnios, não deveria tocar a campainha. Eu tinha estado ali muitas vezes. A maioria delas bêbado, sangrando ou ambos. Mas havia muito tempo desde que eu estivera de frente àquela porta. Obviamente eu tinha visto a dona daquele tapete muitas vezes mais, mas meu medo de estar de volta em casa me mantivera longe da Escócia por tempo o suficiente para que eu não tivesse retornado ao apartamento de Viola desde aquele último dia antes de eu partir para a Bulgária.
A viagem fora breve, mas pareceu durar para sempre. Eu não sentia a natural tontura ou náusea e minha situação hormonal anterior parecia ter sido resolvida naquele espaço de tempo entre fechar a porta do apartamento de Lisa e surgir à porta de Viola.
Eu percebi, então, que tremia. Não parecia ter muito controle sobre o movimento da minha perna ou a minha respiração, que não parecia estar bastando para levar o ar necessário aos meus pulmões. Rangi os dentes e ergui a mão para a porta, dando três toques na madeira.
A voz que veio do lado de dentro pareceu me acalmar por um instante, avisando que já vinha e, em seguida, resmungando sobre quem poderia ser e xingando o visitante por não avisar. Ela certamente acreditava que não era possível ouví-la do outro lado da porta.
Viola abriu a porta de uma só vez. Ela não era mais um arco-íris ambulante, mas os resquícios daquilo ainda estavam por ali, no pijama colorido de donuts que ela vestia e na faixa rosa-pink que ela usava na cabeça, segurando seus fios para trás e permitindo que uma máscara facial esverdeada cobrisse sua face por completo sem tocar seus cabelos.
— Eu acho que já vi esse filme antes. — Ela me encarou, dando um passo para o lado, abrindo caminho para eu passar.
— Eu não consigo fazer isso mais. — Afirmei, adentrando o calor do apartamento.
— O que nós estamos fazendo? — Viola questionou, fechando a porta e me seguindo com o olhar enquanto eu passava para a sala, balançando as mãos ao lado do meu corpo.
— Não consigo, não posso viver assim.
— Estamos bebendo de novo mais do que o recomendado? — Eu percebi que ela erguia uma sobrancelha, mas não conseguia pensar o suficiente, parecia haver uma dose extra de energia em mim que eu precisava gastar, mas não conseguia, não importava quantas voltas eu desse ao redor do sofá.
— Isso não está dando certo, eu não deveria ter voltado, as coisas estavam dando certo e agora… agora isso, eu não consigo, não posso, eu não aguento isso, não de novo. Eu achei que fosse ficar tudo bem, mas não vai, não de novo, eu apenas não, eu não..
— Hey, James! — Eu não tinha percebido que ela tinha se aproximado, mas Viola estava na minha frente agora e ela segurava meu rosto entre as mãos. — Olhe pra mim.
— Eu não consigo, eu quis acreditar que tudo ficaria bem, eu tentei me convencer que iria, eu não vou…
— James, olhe para mim. — Ela insistiu e eu o fiz, encarando os olhos castanhos de Viola, tão castanhos quanto… Eu sentia meu pulmão arder, o ar não chegava nele, meu corpo inteiro tremia. — Olhe para mim, não desvia o olhar. James, foca na minha voz. Olhe para mim, vamos juntos, devagar. Respira fundo. — Ela ainda segurava meu rosto e ela própria puxou o ar, eu segui as ordens dela, imitando seu movimento. — Muito bem, solte o ar pela boca, lentamente. Olhe pra mim, para nada mais, não fala nada, foca nos meus olhos. Isso. Respira fundo novamente, até encher seu pulmão de ar. — Eu repeti, sentia agora os dedos de Viola em meu rosto, meu corpo ainda tremia. — Expira lentamente. — Eu deixei o ar ir, Viola mantinha os olhos fixos nos meus, agora eu sentia que seu polegar desenhava círculos em minhas bochechas. — Mais uma vez. — Ela pediu, e eu obedeci.
Viola manteve a situação daquele jeito até que eu parasse de tremer, até ela acreditar que aquele episódio tinha passado. Ela não soltou meu rosto até se certificar que eu conseguiria manter a atenção nela quando ela o fizesse. Eu não sei quantos minutos tinham se passado, nem quantas vezes repetimos os movimentos de respiração, mas quando ela deu um passo para trás eu sabia que a dor no meu peito não era por sufocamento.
— Vamos, deixe a água bater nas suas costas por um tempo, vou te arrumar uma toalha.
Eu deixei ela me guiar até o banheiro, e agi de forma automática para me despir e ligar a água gelada, permanecendo parado debaixo do chuveiro enquanto as gotas escorriam por meus cabelos e rosto. Mesmo com Viola distante eu me mantive fazendo os exercícios de respiração profunda, focando naquela tarefa repetidamente, até que ela bateu na porta do banheiro e afirmou ter deixado a toalha na pia.
Eu me enxuguei lentamente, focando em cada movimento que fazia, concentrando-me apenas naquilo, e me vesti novamente, deixando o banheiro apenas quando me senti melhor, saindo em direção a sala e encontrando Viola sentada no sofá, duas xícaras servidas com vapor subindo por ela estavam dispostas na mesa de centro com um bule de chá ao lado. Viola ergueu os olhos para mim e sorriu de leve, ela não estava mais com a argila na cara ou com a tiara rosa.
— Vem cá, fiz chá pra gente. — Ela chamou, dando tapinhas no lugar a sua frente e eu segui.
Viola não disse mais nada, apenas aguardou. Ela me observou quando eu sentei e quando alcancei a xícara. Eu degustei do chá, que estava doce e quente, sentindo-o descer pela minha garganta e se espalhar por meu corpo. O pensamento de que Viola nunca tinha preparado nada tão delicioso quanto aquilo antes me fez sorrir. Sabia que Paisley tinha a ensinado muitas coisas, mas aquilo era uma novidade.
E eu queria focar naquele assunto, queria tirar onda com a cara dela, desafiar-lhe a fazer alguma comida particularmente mais complicada, perguntar como Paisley estava indo na escola e como estavam as coisas por ali, mas, quando baixei a xícara e tomei fôlego, o que deixou minha boca não tinha nada a ver com aqueles tópicos.
— Eu acho que finalmente aceitei que estou apaixonado por uma amiga de longa data. — Falei e Viola respirou fundo.
— James… supera, já conversamos sobre isso, a gente não vai acontecer. — Eu ergui o olhar para ela e percebi que ela sorria, divertida, e me vi refletindo aquele sorriso.
— Sabe, eu culpo você por todos os meus corações partidos desde que a gente se conheceu. — Disse, também brincando, e ela riu.
— Hey, eu precisava ter certeza que você está pronto pra mim, eu tenho uma filha.
— Nós seríamos uma família linda e nada convencional. Eu, você, Paisley. Eu cozinharia pra vocês todos os dias, então você não precisaria torturar nossa filha com suas habilidades culinárias terríveis ou arriscar uma morte prematura com todos aqueles industrializados e nós seríamos felizes. — Propus e Viola ainda sorria quando revirou os olhos.
— Pra sua informação ela adora meu macarrão queimado, diz que é especial.
— Como você consegue queimar o macarrão? Ele literalmente é preparado dentro de água!
— Um chef não revela seus segredos. — Rimos e então ela suspirou, me observando. — Então… o que houve dessa vez? — Ela estendeu a mão e apertou a minha, servindo como uma âncora para me manter naquele momento com ela, eu também suspirei.
— Lisa aconteceu. — Disse somente e Viola me observou, aguardando. Quando eu não disse mais nada, ela assumiu a palavra.
— Vamos rebobinar aqui ok? Até… o quê? Três ou quatro meses atrás eu nem mesmo sabia seu sobrenome James. Quem caralhos é Lisa. — Eu gargalhei, verdadeiramente, enquanto Viola me olhava emburrada.
Viola me conhecia tanto e tão bem, tinha aprendido, naqueles cinco anos, a me conhecer melhor que eu mesmo, a antecipar minhas necessidades e a curar todas as minhas feridas que, às vezes, eu esquecia que, para ela, eu realmente era apenas um jovem bruxo quebrado e bêbado que ela tinha encontrado na rua um dia e levado para casa com dó e que as únicas coisas além disso que ela soubera por anos do meu passado era o fato de que eu tinha uma ex-namorada morta e um embrião que nunca passou dessa fase.
Então eu me acalmei e rebobinei de volta àquele primeiro de setembro de 2015. De volta a quem era Lisa, como ela era uma amiga de longa data e o que havia acontecido. Contei com detalhes coisas que eu descobri apenas conforme relatava a Viola, como o fato de que os cabelos de Lisa sempre tinham chamado minha atenção, como eu sempre os tinha achado lindo, e como esse sentimento me fizera apelida-la de Leãozinho, não de uma forma pejorativa, mas como uma forma de exaltar a magnitude dela. Pelo menos inconscientemente, no meu consciente eu tinha me convencido que era apenas uma piada de verdade. Contei tudo, das implicâncias no tempo da escola ao que Lisa tinha me contado sobre ter ido atrás de mim no funeral e então me rastreado pelo mundo. Contei sobre a semana no chalé da família dela, sobre a dança, sobre o sonho, sobre como eu acordei naquela manhã, sobre a certeza que eu tive. Contei sobre o que Luna tinha me dito, contei do plano que eu tinha feito de tentar seguir em frente, sobre Felicity e sobre o fiasco daquela noite e eu sempre vou amar Viola por não ter rido — imediatamente — da minha cara. Contei de ter encontrado Lisa de novo e da série que começamos a ver e contei como eu havia perdido todo o controle ao simplesmente tocá-la e como eu quase tinha ultrapassado todos os limites com uma amiga que eu amava e que namorava outra pessoa. E contei também como, apesar de tudo, eu não me arrependia.
No fim, Viola apertou ainda mais minha mão.
— Nunca é fácil com você né? — Concluiu por fim e eu a observei. — É sempre Romeu e Julieta, é sempre o amor proibido. É a garota com antiga rixa de família, a mulher casada presa em um relacionamento abusivo, a amiga apaixonada por outra pessoa. — Ela balançou a cabeça, e era o tom leve e divertido de Viola que me permitiu rir da minha desgraça.
— Já disse, a culpa é sua. Você era meu amor tranquilo e me negou essa vida simples. — Ela riu comigo.
Apesar das brincadeiras, e independente do quanto eu amava Viola — que era bastante — ela, de fato, nunca tinha me feito sentir do jeito que eu me sentira com aquelas outras garotas. E se eu fosse sincero, nem mesmo Saphira ou Giulietta — ou até mesmo Ruby ou Teresa em seus respectivos papeis de meus primeiros amores juvenis — tinham me feito sentir da forma que eu me sentia desde que descobrira aquilo por Lisa. Ao olhar para Lisa, ao sentir meu estômago se revirar, ou o ar deixar meus pulmões, eu sentia como se tudo aquilo que eu tinha sentido por aquelas garotas antes fosse fraco, incomparável, forçado, perto do que ela genuinamente causava em mim.
— Sejamos sinceros, você gosta dessa adrenalina. — Eu ri em um primeiro momento, mas meu sorriso morreu aos poucos e eu balancei a cabeça.
— Eu não consigo mais fazer isso. — Viola apertou minha mão mais ainda, eu sentia que em breve ela iria amputá-la, mas não reclamei, o gesto atraía minha atenção e me impedia de cair de volta naquela espiral. — A adrenalina, a aventura, eu apenas não… — Balancei a cabeça, sentindo as lágrimas chegarem aos meus olhos, e não tentei contê-las. — Eu acreditei minha vida inteira que eu queria isso, mas eu não quero mais, não consigo mais. Eu achava que o amor era algo bonito, algo que valia a pena, como o dos meus pais ou o de Teddy e Victoire, mas talvez esse não seja meu destino, talvez não seja para mim e eu, sinceramente, não aguento mais viver isso. Não posso.
Viola não disse nada, apenas se aproximou e me abraçou, me segurando com força contra ela enquanto eu chorava. Luna e ela eram muito parecidas e, ao mesmo tempo, diferentes. Eu sabia que sempre poderia contar com as duas, mas Luna me entendia de um jeito que Viola jamais entenderia, enquanto Viola compreendia coisas sobre mim que Luna seria incapaz de assimilar. E, ainda assim, elas reagiam igualmente ao me abraçar e aguardar pacientemente enquanto o choro deixava meu sistema.
Mais uma vez longos minutos se passaram enquanto a frustração crescia dentro de mim. A felicidade daquele momento tinha durado apenas aqueles poucos segundos em que eu tive Lisa comigo, como minha, mas agora já se esvaia a cada lágrima com a certeza de que, não importava o quão real aquilo tinha sido, aquela situação nunca seria verdade.
A culpa crescia dentro de mim enquanto a face horrorizada de Lisa parecia se estagnar em minha retina. Eu sabia que ela se arrependia do que tinha acontecido, sabia que ela iria se culpar, mesmo que a culpa tenha sido minha, e apenas por saber que o que eu tinha feito, o que tivera me garantido momentos únicos de felicidade, seriam para sempre o mártir para ela me fazia sentir nojo de mim mesmo, das minhas ações, do que eu tinha causado a ela. Viola deslizava as mãos pelas minhas costas, me confortando e garantindo que estava tudo bem, que eu podia chorar, que eu podia colocar tudo para fora. E eu o fiz.
Até que elas secassem, até que a dor em meu peito atingisse um ponto anestésico, até que a frustração crescente desse um tempo e eu entrasse em um estado de inércia que fazia até minha respiração parecer fraca demais. E Viola continuou ali, me segurando, me confortando, até que eu conseguisse me sustentar sozinho de novo. Sem falar mais nada ela me soltou, permitiu que eu secasse as lágrimas que tinham manchado meu rosto e se levantou, voltando um minuto depois com um copo de água que ela me entregou e, então, esperou.
— Eu me pego pensando se não cometi um erro em voltar pra casa. — Viola arquejou, mas não me repreendeu, não me cobrou nada, não me xingou ou concordou comigo, apenas esperou. — Eu sei que não acho isso realmente, no fundo do meu coração eu sei. Eu sei o quanto sentia falta da minha família, o quão feliz fiquei em encontrá-los novamente, o quanto me arrependo de ter perdido alguns momentos, mas… tudo parece tão errado. — Ergui os ombros. — E eu sei que isso é ridículo, tudo estava bem até menos de duas semanas atrás, até ela aparecer e virar meu mundo inteiro de cabeça para baixo, mas… — Eu ri sem humor, balançando a cabeça. — É mais intenso do que eu jamais senti, mais desesperador, mais profundo, mais angustiante. É como se minha existência inteira pudesse ser resumida nesses onze ou doze dias, como se a vida só fizesse sentido quando eu estou ao lado dela e eu simplesmente não… — Minha respiração saiu entrecortada, fraca, como se o choro quisesse retornar, mas não restasse mais nada ali para escorrer. — E então eu chego a conclusão que tudo isso é errado e que tudo deu errado porque nem mesmo era para eu estar aqui, se pararmos para pensar. Se eu não tivesse me assustado com Dulce não teria fugido da casa dela, se eu soubesse mais sobre as leis Espanholas não teria dado a entender que estava tentando furtar uma loja de artigos femininos e então não seria preso. Se meu pai não tivesse me vigiado de perto todos esses anos então Juan jamais teria pedido ajuda a ele e eu não teria sido arrastado de volta para cá. Se meu pai tivesse confiado mais em mim e me permitido viver minha vida do meu jeito eu teria continuado na Espanha, teria obliviado Dulce ou qualquer coisa do tipo para conseguir terminar o semestre e então iria para a França sem me preocupar com mais nada. Se tudo tivesse seguido o curso que eu tinha planejado então eu não estaria lá para o casamento de Teddy e Victoire e não teria sido surpreendido por ela, pela presença e beleza e… — Passei as mãos no rosto, jogando a cabeça para trás, sentindo minha garganta arder. — Era pra ser diferente. Quando eu voltasse seria nos meus termos, em uma situação controlada. Quando, e se, eu a encontrasse, não seria pego desprevenido, eu já iria sabendo que era Lisa e minha reação a ela seria diferente, normal, mas tudo isso… tudo foi tão errado. — Deixei minha cabeça pender para o encosto do sofá e observei Viola dali, ela me encarava com carinho e compreensão.
— E, ainda assim, foi tudo tão certo, né? — Ela enrugou o nariz e deu de ombros. — Quero dizer, é um conjunto engraçado de coincidências né? De arranjos e tramas do destino que te trouxeram até aqui quando tudo era pra ser tão diferente, mas foi assim. E então essa confusão que você se tornou por alguém que, parando para pensar, sempre esteve ali, você só demorou para perceber. Você mesmo disse que de outra forma isso nunca teria acontecido, então pense comigo, para além da dor e da mágoa e frustração, não parece certo que tudo isso, todos esses inconvenientes, todas essas quebras nos seus planos o tenham levado diretamente pra ela?
Eu a encarei, minha vez de ficar calado por um tempo. Eu entendia o que ela estava querendo dizer. Era adorável e poético e uma absoluta merda. Porque qual era o sentido de tudo aquilo além de me torturar? Além de esfregar na minha cara que eu tinha desperdiçado todos os meus anos em uma busca sem fim, a procura de algo que eu nunca teria.
— Seria lindo, se não fosse trágico. Eu não quero mais nada disso Viola, eu não aguento mais. O engraçado é que nada realmente aconteceu, mas… eu a magoei, e eu sei disso. Eu não a forcei a nada, mas ela não teria se entregado se eu não tivesse dado aquele primeiro passo, e eu sei que ela ama ele e que quando ela percebeu o que tinha acontecido isso quebrou algo dentro dela. E eu me odeio por fazer isso com ela. E eu odeio ainda o desespero que senti quando me afastei, a necessidade que gritava em mim para permanecer ali, para ignorar qualquer coisa, para apenas continuar ali com ela e… — Passei as mãos pelo rosto, bagunçando os cabelos novamente. — E de alguma forma dói mais do que quando Saphira se foi. — Eu ri, balançando a cabeça. — É patético, honestamente. Eu perdi uma namorada e um filho, mas, pelo menos ali, pelo menos lá, eu tive um ponto final. Eu vivi algo lindo e mágico que acabou, mas vivi, e teve um fim, mas isso… isso não é nada, nunca foi, nunca será, e isso está me matando. Eu poderia ter aparatado para qualquer bar ou beco, podia ter substituído todo o sangue das minhas veias por álcool, podia ter experimentado todas as drogas já inventadas e… para quê? Essa dor… essa coisa. Eu sei que nada vai tirar isso, não vai passar, não tem cura, não tem remédio, não tem anestésico e… eu não aguento mais.
— E então o quê? — A voz de Viola ganhou um pouco mais de energia e eu sabia que estava prestes a levar um sacode. — O que você vai fazer? Você vai deitar aqui no meu tapete, chorar até ficar desidratado e se matar? Porque se não tem cura ou remédio, o que você vai fazer? Você vai levantar e aprender a viver com essa dor? Vai entender que você já superou isso antes? Não importa o quão pior seja agora, você já passou por tanta coisa para desistir agora, então você vai apenas engolir em seco, erguer a cabeça, e seguir sua vida porque você sabe que sua vida é muito mais que uma mulher bonita que te faz sentir vivo? Ou você vai ir atrás daquilo que você quer, daquilo que você esperou tanto tempo. Porque você pode fazer isso. E você sabe que pode. Você pode sair daqui agora e voltar para o apartamento dela e se declarar, tirar tudo do seu peito, deixar ela escolher entre você ou ele. Mas eu vou te fazer mais uma pergunta, caso você opte pela última alternativa: Se fosse você no lugar de Stephen, você gostaria disso? Independente de qual seja a resposta dela, mesmo que ela te recuse, mesmo que ela o escolha, você gostaria que um antigo aminimigo da sua namorada de, o quê? 7, 8 anos? Surgisse do nada tentando tirá-la de você só porque ele se acha no direito de fazer isso?
Eu sabia o que ela queria de mim, eu sabia o que ela queria dizer com cada palavra dita, mas eu iria fingir que não. E felizmente eu estava cansado o suficiente para que o ato de me fazer de sonso não fosse apenas uma encenação.
— Ele não liga o suficiente pra ela. Eu poderia tratá-la tão melhor, dar mais atenção para ela, amá-la melhor.
— E você diz isso com base no quê? Duas semanas soltas e turbulentas que você viu? E você já acha que pode definir o relacionamento de quase uma década nesse curto intervalo de tempo? Qual é James…
— Então eu deveria de fato me enrolar em posição fetal no seu tapete e esperar a morte me acolher como uma velha amiga? — Viola sorriu.
— Eu te amo e eu sempre estarei aqui por você, mas eu te mataria antes da morte sequer pensar em te procurar ao invés de deixar minha filha te encontrar nesse estado deplorável. — Ela acariciou meu pulso com ternura e eu consegui esboçar um sorriso. — Não. Viu porque você não pode ficar sozinho? Você é péssimo tomando escolhas. Eu concordo completamente com a loira baixinha, mesmo ela me odiando. Você vai esperar. E vai viver a sua vida; Você já encontrou o que estava procurando, mas isso não está ao seu alcance. Então você vai esperar. Ela algum dia estará ao seu alcance? Não temos como saber disso. E pode não acontecer nunca, mas você tem uma vida linda e longa para viver ainda. Então você vai respirar fundo, comer alguma coisa, provavelmente uma lasanha congelada ou hot pocket, não reclame, e você vai dormir. E então você vai se afastar dessa garota pro seu próprio bem. E depois você vai arrumar suas malas e você vai pra França, e você vai terminar sua formação que você se dedicou por tanto tempo e você vai mudar a vida de centenas de crianças sendo o professor preferido de cada uma delas. E você vai finalizar sua poção que você está se dedicando há anos e ficar milionário e você vai comprar uma fazenda gigantesca pra mim para que eu possa adotar todas as crianças do mundo e um dos parques da disney praquela loirinha porque, honestamente? Nós somos as únicas mulheres que você precisa na sua vida e merecemos ser mimadas. — Ela sorria abertamente e voltou a segurar minha mão. — E, acima de tudo, você vai superar. E você vai ficar bem. Porque você é mais forte do que você pensa que é. E se isso não for pra ser eu me lembro que te disse algo logo quando a gente se conheceu, naquela manhã de natal depois de uma noite de pesadelos e antes de você perder um pedaço da sua panturrilha pela eternidade. Eu disse algo como… Você só consegue deixar algo ir embora quando entende que ele não pertence mais a você e, se não for pra ser, se a espera se prolongar demais e não tiver o final que você desejava, você vai deixá-la ir e você vai sobreviver.
Eu não tinha tanta certeza quanto Viola de que aquilo aconteceria, não tinha a confiança em mim que ela tinha, mas assenti, suspirando, derrotado. Porque a verdade é que eu sabia que ela tinha razão. Eu não podia fazer aquilo com Lisa, com Stephen e comigo. E eu não podia acabar com a minha vida apenas por não ter conseguido algo que eu queria como uma maldita criança mimada. Então eu assenti. E comi a lasanha congelada quando ela serviu e aproveitei uma longa noite de sono antes de concordar com o que ela tinha dito: eu precisava me afastar o máximo possível de Elisabeth.
(...)
Um pequeno milagre aconteceu com a família Potter: eu, Albus e Lily estávamos em casa juntos. Albus estava de férias e só veria Luna mais tarde. Depois do que ela me contou, passei a ver o relacionamento deles com outros olhos, com outra perspectiva e aceitava melhor o namoro dos dois. Lily e Hugo ainda estavam juntos, mas ela havia dito que ambos não haviam nascido juntos e, por isso, decidiu ficar em casa, pintando as unhas. Nossos pais estavam trabalhando, portanto, eu estava jogado no sofá, zapeando pela tv, tentando encontrar alguma coisa boa para ver.
Lily usava a mesinha de centro para colocar os esmaltes e outros aparatos para unhas, enquanto Albus tentava entender para que servia acetona se ela podia usar magia, deitado igual a mim no outro sofá.
— Cala a boca, Albus. Você não sabe de nada. — Mandou ela, me fazendo rir. Seus olhos se voltaram para mim e eu ergui uma das sobrancelhas. — Tá rindo de quê? Pode, por favor, decidir o que você quer ver?
Sem dizer nada, encarei a minha irmã mais nova e continuei trocando de canal apenas por implicância. Eu segurava o riso ao vê-la ameaçar levantar para me bater, me divertindo com ela. Albus e eu começamos a rir, me fazendo sentir algo quente no coração de apenas estar daquele jeito com meus irmãos.
— Parem! — ela jogou uma caixinha de algodão em nossa direção, quando uma luz surgiu no meio da sala, fazendo com que nós três parássemos.
Um patrono corpóreo no formato de uma raposa brilhou em nossa frente. Imediatamente eu e Albus ficamos sentados, alertas. Fred gostava de se divertir com berradores, então ele mandar um patrono daquele jeito era preocupante. Lily pulou para o nosso lado, enquanto uma voz muito conhecida saiu do animal de luz.
— James... caralho… — Meu primo estava ofegante e isso me deixou ainda mais atento. — Merda. Eu preciso de sua ajuda, ele não responde, eu preciso que venha até aqui! Rápido. É Lisa... — Eu não sei mais se ele disse algo além daquilo, em um segundo eu estava de pé, buscando por um casaco na porta, escutando um zumbido nos ouvidos.
Voltei para os meus irmãos e vi que Lily botava um sapato.
— Negativo, pode ficar aí.
— James, você não está...
— Estou e dessa vez vocês vão ficar em casa — eu a interrompi. — Pode ter sido algo mais sério e alguém pode vir nos procurar aqui, eu dou conta de Fred, vocês ficam. — Minha voz nunca tinha estado tão firme, então Lily e Albus apenas concordaram.
— Eles estão em Whitby. — Albus falou, repetindo as direções que Fred tinha dado, o patrono agora já se dissolvia, e eu assenti, agradecendo, e então desaparatei.
Aterrissei em uma estradinha reta, não havia nada nem ninguém além de um carro capotado de cabeça para baixo, soltando fumaça no meio de uma árvore. O pânico tomou conta de mim imediatamente, mas eu me lembrei dos exercícios de respiração de Viola e mantive a calma, correndo em direção ao carro e quase perdendo tudo.
Fred e Lisa estavam pendurados de cabeça para baixo, seguros pelo cinto. O braço de Fred sangrava e Lisa… ela não se mexia. Eu senti o frio correr por minha espinha. Fred respirava forte, obviamente sentindo dor, mas, quando me viu, pude ver o alívio em seu semblante.
— Você veio. — Ele parecia surpreso com aquela constatação, mas eu não podia reagir à descrença de meu primo naquele momento, ver que Fred estava consciente era o suficiente para mim, mas saber que Lisa não, ainda me deixava em desespero. Eu não podia perder alguém que eu amava. Não de novo. Eu me recusava.
Saquei minha varinha e olhei para a situação, sem saber o que fazer. Desvirar o carro poderia machucá-los ainda mais e eu sentia minha pulsação bater contra meus tímpanos como um relógio.
— Você consegue se segurar? Vou soltar o cinto tá bem? — Afirmei para Fred e fiz exatamente aquilo, soltando-o e abafando a queda dele, flutuando-o para longe do carro com magia. Além do ferimento no braço ele não aparentava muitos outros machucados, por isso eu corri sem nem pensar duas vezes até onde Lisa estava.
Não percebi que tinha guardado a varinha ao abrir a porta do carro em desespero, indo até ela e apoaindo-a nos meus ombros antes de soltá-la do cinto. Lisa caiu sobre mim e eu a segurei, conseguindo me afastar com ela do carro e indo em direção aonde Fred estava, agora apoiado contra uma outra árvore.
Sentei no chão com Lisa em meu colo e o desespero em mim crescia. Ela não se movia, os lábios dela estavam arroxeados e ela parecia gelada. Não. Não.
Não.
— Lisa? Lisa? — Perguntei, olhando para o seu rosto sereno, sentindo um medo percorrer a minha espinha. — Por favor, acorde. Por favor, por favor, acorde. — Eu procurava qualquer sinal de movimento e, se eu estivesse um pouco menos desesperado, teria reparado no subir e descer suave de sua respiração, mas eu estava focado em seus olhos fechados e expressão serena. Além de um hematona na cabeça, Lisa não parecia apresentar nenhum outro machucado, mas aquilo não importava. — O que foi que aconteceu? — Eu gritei para o meu primo, mas não porque estava com raiva, apenas aflito. Ele me olhou atordoado, mas com os olhos mais lúcidos que eu já tinha visto.
— Ela... ela estava tentando me ensinar a dirigir. — Ele respondeu, com a voz trêmula. — O freio falhou, eu tentei segurar o carro mesmo assim, mas então ele capotou e… se não fosse aquela árvore eu nem sei. — Fred ergueu os ombros, me olhando;
Eu grunhi, voltando o olhar para a mulher em meus braços e nem mesmo reparei quando baixei meu rosto para o dela, dando beijos em sua testa e bochechas enquanto murmurava contra sua pele, ninando-a em meus braços.
— Lisa, por favor. Não me deixe aqui, Leãozinho, não assim. Por favor, volte pra mim. Eu não vou aguentar mais uma... por favor, volta pra mim. — Era uma oração, um pedido, qualquer coisa. — Por favor, leãozinho, volta pra mim, não me deixa, volta pra mim. — Eu não percebi que chorava, nem que tinha fechado meus olhos enquanto ainda a mantinha em meus braços, balançando-nos de trás pra frente.
O arquejo abaixo de mim me fez abrir os olhos e eu percebi que meu coração voltou a bater quando as pálpebras de Lisa se abriram. A respiração dela estava fraca, mas ela respirava e eu levei minhas mãos ao rosto dela, evitando que ela mexesse muito — apesar do que eu estivera fazendo nos últimos minutos.
— James? — A voz dela estava fraca, mas firme, eu ainda chorava.
— Está tudo bem, você tá bem. — Eu não sabia se dizia aquilo para ela ou pra mim, mas Lisa concordou. — Você tá bem. — Repeti, respirando fundo, enfim.
— Eu tô bem. — Ela afirmou. — Só com um pouco de dor de cabeça… — Ela tentou se levantar, mas eu não permiti.
— Vocês dois precisam de um médico.
Após aquela constatação, enviei uma mensagem aos meus irmãos que se prontificaram em entrar em contato com o St. Mungus e conseguir um transporte apropriado para Lisa e meu primo, já que aparatar com eles dali não era uma opção. No tempo de espera Fred repetiu o que tinha dito para Lisa, que resmungou que apenas devia ter batido a cabeça quando o carro capotou e por isso tinha desmaiado. Ainda assim, não importava quantas vezes ela afirmasse que estava bem, eu a mantive em meu colo, segurando-a, até os medibruxos chegarem e a tomarem de mim.
No hospital, Albus e Lily se juntaram a mim no corredor da área de espera enquanto eu explicava a eles o que tinha acontecido e tranquilizava minha irmã. Após um tempinho, os dois saíram para buscar algo para comer e eu continuei lá, sentado, quando Fred surgiu no fim do corredor. Eu o observei, atentamente, se aproximando; A ferida do braço dele parecia ter sido curada sem deixar cicatrizes, ele andava normalmente e a única coisa de diferente era que ele tinha trocado a roupa ensanguentada por alguma que parecia ficar um pouco apertada demais para ele. Ele se aproximou e sentou ao meu lado, olhando para frente por um tempo em silêncio.
— Eu sinto muito. — Ele disse enfim, e eu o olhei, arqueando a sobrancelha. — Por como eu agi semana passada, com toda a história com Lisa? Eu não achei que você… Acho que estava sendo um pouco hipócrita também. — Ele balançou a cabeça. — Eu adoro Lisa, ela é a melhor amiga de Domi e acho que acabo ficando um pouco protetor com ela e… você esteve longe por tempo demais, James. Eu sinto, senti, que não te conhecia tão bem quanto antes e não levei a sério o que estava bem na minha frente. Então eu sinto muito. O que você quiser, o que você precisar, saiba que eu estou aqui. Saiba que eu irei apoiá-lo.
Eu sorri levemente, dando um tapinha cuidadoso nas costas do meu primo. Não que aquilo importasse, não mais, mas era bom saber que ele sabia que eu nunca iria apenas brincar com Lisa.
E quase como se sentisse o que podia estar rolando por ali, Stephen surgiu derrapando pelo corredor, freando os próprios passos ao identificar Fred e eu parados ali.
— Onde ela está? O que aconteceu? Ah cara! Eu sinto muito, eu achei que você estivesse brincando, que fosse alguma pegadinha. Eu estava olhando o maldito… merda, ela está bem?
Stephen estava claramente desesperado, mas eu precisei me conter para não torcer o nariz. Não importava o quanto ele achava que fosse uma brincadeira, ele deveria ter ido no menor sinal de perigo à Lisa. E, então, eu reparei. Eu não tinha sido a primeira escolha de Fred, a primeira pessoa que ele considerou chamar tinha sido Stephen. Ele não chamaria Dominique para não preocupá-la, mas quando o patrono dele chegou para mim eu me lembro de ter mencionado algo como “ele não responde”. Senti a fúria subir por meu corpo e me vi de pé de repente. O que eu faria a seguir eu não sei dizer, pois o curandeiro chegou naquele mesmo momento, atraindo a atenção de todos para ele, inclusive de Lily e Albus que chegavam de volta ali e a ruiva corria na direção de Fred, abraçando-o.
— Ela está bem, não identificamos nenhum machucado interno ou externo que possa gerar qualquer problema ou perturbação. Foi realmente apenas um impacto que a desmaiou por um tempo, mas nada além disso. Vamos mantê-la aqui essa noite só por segurança, mas vocês não tem com o que se preocupar. Mas vocês realmente deveriam parar de brincar com essas bugigangas trouxas. Nós temos maior resistência às doenças e acidentes deles, mas isso não significa que somos imunes a elas.
Eu, Fred e Stephens respiramos aliviados ao mesmo tempo. E, então, eu reparei que não devia estar ali. Não importava o quanto eu quisesse socar Stephen com todas as minhas forças. Para o meu bem, como Viola tinha dito, era minha hora de ir embora. Algo que foi confirmado quando Stephen pediu para vê-la e seguiu o curandeiro para dentro de uma das alas.
— Bom. Meu trabalho por aqui terminou. — Disse, tendo dificuldades de desviar o olhar da porta por onde eles tinham passado. — Você ouviu o médico, nada de brincar com bugigangas trouxas. — Disse para Fred, dando um rápido abraço no meu primo, que me olhava como se quisesse me fazer falar.
Como eu não estava disposto a reabrir aquela caixa, apenas fui embora dali, resistindo a todos os impulsos que me faziam querer ir até aquele quarto e agradecer a todas as divindades disponíveis pelo bem-estar de Lisa.
(...)
Três dias tinham se passado desde o acidente e eu estava fazendo o melhor para cumprir o que tinha prometido a Viola e manter distância de Lisa. Ela estava bem, eu sabia disso, pois tinha informantes. Ela deixou o St. Mungus na manhã seguinte e agia como se nada tivesse acontecido além de um simples tropeço. Stephen, por sua vez, não desgrudava dela nem por um segundo, querendo compensar por todo o resto.
Eu tentava não ligar, fingia não me importar. Mesmo que eu tivesse recebido uma carta com o seu nome, eu preferi não ler, já bastava a besteira que eu tinha feito, não precisa ler a sua rejeição. Estava feliz que ela estava bem e isso bastava, mas eu tinha minhas coisas para fazer, o que resolver. Na sexta-feira após o acidente Louis concordou em ir comigo até Paris para que eu ajeitasse algumas coisas por lá antes de partir, no domingo, e aproveitou para visitar os avós maternos. Eu tinha encontrado um loft amplo e charmoso na zona metropolitana da cidade, relativamente afastado de outras casas e, simultaneamente, bem localizado. Era apenas um cômodo com um banheiro, mas era amplo e oferecia muito espaço para que eu pudesse trabalhar em minha poção no tempo livre.
Quando Louis se separou de mim para visitar a Maison Delacour eu aproveitei para ir até a universidade, apenas para checar se tudo estava em ordem, confirmar minha grade curricular e quaisquer outros detalhes que pudessem ter passado em branco por cartas. E, lá, recebi a melhor notícia que podia esperar dos últimos dias.
A reitora esperaria o começo das minhas aulas para falar comigo, mas já que eu estava ali não via motivos para esperar. A universidade e Beauxbatons tinham feito um acordo e liberariam algumas vagas de auxiliares de certas matérias para os alunos dos cursos em Paris. Como o intercâmbio apresentava os alunos mais avançados e com conhecimento mais vasto de poções, também especializados em licenciatura, minha turma fora selecionada para aquela matéria e considerando meu histórico escolar — e ele apenas — decidiram que eu era a melhor escolha para aquela vaga.
A felicidade que tomou conta de mim preencheu meus pensamentos pelo restante do dia. Eles já tinham garantido acomodações para mim na Escola de Magia, me garantiram que eu teria livre acesso a sala da professora Millefeuille, responsável pela matéria, além de todo o apoio necessário, caso eu tivesse interesse, para continuar o desenvolvimento da minha pesquisa. Eles também tinham assegurado um meio eficaz e seguro para que eu pudesse transitar sem dificuldades da Escola à Universidade e tudo que me restava fazer era aceitar ou não.
Eu, obviamente, não pensei duas vezes antes de concordar. Mesmo que as condições não fossem boas eu não podia simplesmente recusar uma oferta daquelas e, particularmente, tinha trabalhado duro nos últimos anos para conquistar uma oportunidade assim. Mesmo que fosse apenas para manter o pote de lesmas sempre cheio ou para passar horas mexendo num caldeirão quando a madame Millefeuille não tivesse afim, aquela era uma chance que eu não teria nunca mais. Estar em sala de aula, acompanhando um profissional já formado e experiente na área me ajudaria a fortalecer meu currículo o suficiente para que Hogwarts não pudesse me recusar quando uma vaga fosse aberta e aquilo tinha me deixado em êxtase. Nada poderia tirar minha felicidade, nem mesmo a óbvia barreira linguística que poderia dificultar um pouquinho minha vida por lá.
Ou assim eu pensei, até me ver parado de frente ao prédio de Elisabeth, ansioso para contar a ela, e apenas ela, a novidade. Fui embora antes mesmo que o porteiro pudesse me ver, retornando aos meus afazeres. Após deixar a universidade eu cancelei o acordo com o dono do loft, afinal, não precisaria daquilo, e comi um croissant com Louis, que era uma ótima companhia e aproveitou para me contar como ele estava alternando seus hobbies entre o surf e ser DJ e como ele estava sendo bem sucedido em fazer daquilo uma carreira.
E os dias seguintes passaram assim. Eu tentava não pensar em Lisa, focava em meus planos e no futuro, tinha pequenas alegrias diárias e, quando assustava, estava parado na frente do prédio dela, o que funcionava como um dementador para tirar toda a minha felicidade e vontade de viver. Mas eu estava confiante que as coisas se resolveriam, assim que eu fosse para a França aqueles inconvenientes seriam dificultados pela distância e por um cronograma extremamente ocupado, então eu só precisava aguentar mais um pouquinho.
Encarei minha mala aberta sobre a cama, repassando uma lista mental sobre tudo que eu já tinha colocado e o que ainda faltava. Era meio da tarde do domingo e eu iria para a França ainda aquela noite, para conseguir me organizar por lá antes de começar de fato as aulas e atividades, então já estava deixando tudo pronto para minha partida.
Roupas, itens de higiene pessoal, documentos, anotações, tudo ok. Puxei minha lista de materiais e percebi que um item era o único não marcado. Uma planta extremamente rara que eu não tinha conseguido encontrar em nenhuma das lojas que visitei quando comprei os materiais. Larguei a lista por cima da mala e desci apressado, caminhando até o escritório de meu pai, onde Harry Potter estava sentado diante de uma larga mesa de mogno, de frente para uma estante igualmente grande repleta de livros diversos.
Parei na porta por um instante, admirando meu pai. Mesmo com o rosto com algumas específicas cicatrizes, a tão famosa cicatriz de raio em sua testa e um rasgo um tanto quanto rústico em sua maçã do rosto, Harry emanava respeito e estilo. Ele analisava uma lista de pergaminhos que, pelo papel timbrado, eu sabia que eram do ministério e, ainda que não quisesse atrapalhar, era domingo e ele precisava se desligar um pouquinho que fosse do trabalho. Ele podia passar os outros dias da semana sendo o super-poderoso e incrível Chefe dos Aurores do Ministério Mágico Britânico.
— Hey pai. — Anunciei minha presença, adentrando o escritório e me jogando em uma das cadeiras em frente a ele. — Você conseguiu encontrar aquele Gânglio de Bruxa que eu te pedi? — A vantagem de ter um pai famoso é que eu conseguiria ingredientes raros com muito mais facilidade e por uma pechincha, já que metade do mundo bruxo era super grato por meu pai ter livrado a todos de Lord Voldemort e insistir em simplesmente presenteá-lo com qualquer coisa como forma de agradecimento. Meu pai por sua vez, humilde como era, sempre fazia questão de pagar, mas pelo menos ninguém tentava superfaturar em cima dele, mesmo que ele tivesse dinheiro para tal.
Harry Potter abriu uma gaveta e enfiou os pergaminhos que anteriormente analisava ali.
— Consegui, bem lembrado! — Ele levantou, com uma majestosidade que eu quase invejava, virando-se para a prateleira atrás dele e erguendo de lá um vaso relativamente grande com uma planta horrível dentro. Era uma bola gigante vermelha que parecia ter olhinhos ainda mais vermelhos e uma franja bizarra com a folhagem que caía sobre ela. Com propriedades pouco estudadas e a suspeita de um alto teor venenoso, Harry Potter colocou a planta com cuidado sobre a mesa. — Hagrid tinha alguns contatos em Mahoutokoro e por coincidência a professora de biologia de lá tem um pequeno jardim onde cultiva essas, não foi fácil conseguir, mas aqui está.
Eu observei a planta por um tempo. Como caralhos eu transportaria aquilo junto com todas as minhas malas? Bom, daria um jeito.
— Já está pronto pra ir embora? — Papai perguntou e eu olhei, assentindo.
— Quase. E você sabe que eu vou voltar.
— Vai mesmo? Sua mãe me contou que você andou procurando apartamentos por aí. — Eu ri, balançando a cabeça.
— Quero dizer, eu já tenho 23 anos né. — Harry torceu o nariz e eu ri um pouco mais. — Vocês dois fizeram um ótimo trabalho nos criando, merecem ficar com a casa só pra vocês depois de tanto tempo. — Foi a vez de Harry rir.
— Diga isso pros seus irmãos. — Eu me juntei a ele na risada e ele suspirou. — Você sabe que não precisa sair daqui quando voltar né? — Eu assenti, sabia disso. Mas era muito mais uma questão de independência e liberdade do que realmente necessidade. — Não me importo se você tem 23, 59 ou 96 anos, essa sempre será a sua casa e eu quero que você saiba que sempre poderá voltar pra cá, sempre. — Eu sorri, assentindo novamente. — Mesmo que eu e sua mãe estejamos aposentados viajando pelas Maldivas, a gente te deixa uma chave reserva debaixo do tapete de entrada. — Eu ri, me levantando.
— Vamos deixar o sentimentalismo para hoje mais tarde. — Brinquei, me inclinando para pegar a planta, e então parei, percebendo ali um porta-retratos que eu não tinha visto antes nas breves vezes que passei por ali.
Eu estava simplesmente maravilhoso. Eu sei, eu sei, normal. Mas naquele dia particularmente eu estava um pedaço de mal caminho. Logo percebi que a fotografia em questão era do dia da minha formatura. As luzes brilhantes, os ternos, os vestidos de gala. Eu nunca a tinha visto antes, todo o acidente e problemas que vieram depois não me deixaram ficar ali para a revelação da fotografia, mas ali ela estava. Cada detalhe daquela foto, aos poucos, me lembrava o momento em que ela tinha sido tirada. Era um grupo enorme. Com Teresa e Lisa ao meu lado, Fred, Domi, Stephen, Maia e parte dos marotos daquele ano se aglomeravam, sorrindo e fazendo gestos para o flash que disparava em nossa direção. E foi então que eu vi.
Durante anos eu acreditei que naquele momento eu me inclinei um pouco em direção à Lisa, fazendo pose. Mas, enquanto a imagem se movia, eu percebi que meus olhos estiveram fixos nos dela durante todo o instante que gerou aquele clique. E por um segundo antes da imagem se repetir, Lisa também erguia o olhar para o meu e o sorriso no rosto dela se alargava ainda mais. Pra mim. Mesmo que ela tivesse as mãos do namorado enroladas na cintura, foram os meus olhos que ela buscou, e eu os dela. Como se fosse mais forte que a gente fazer isso. Como a força magnética que continuava me levando para a porta do prédio dela. Se alguém pegasse aquela foto e cortasse os demais participantes, seria uma linda foto de um casal apaixonado. Mesmo que não fizesse sentido, mesmo que, naquela época, eu amasse Saphira.
— O que é isso? — A pergunta saiu em um sussurro, sem que eu sequer percebesse.
— Uma foto da sua formatura. — No shit Sherlock. — Tenho para cada um de vocês. — Harry comentou e eu ergui os olhos brevemente pra perceber outros três porta-retratos por ali, representando as formaturas de Teddy, Albus e Lily. Mas minha atenção logo retornou para Lisa e eu naquela foto, para o olhar que a gente trocava, para os sorrisos direcionados um ao outro. Minha pergunta queria saber o que era aquilo. O que aquilo significava, como e porquê tinha acontecido.
— Sabe… Pouco depois de começar a namorar sua mãe eu terminei com ela. — Aquilo bastou pra atrair minha atenção, em choque. — Eram tempos mais complicados, eu tinha basicamente nascido com um alvo em minhas costas e eu sabia que continuar com ela era um risco para ela, então não podia continuar aquele relacionamento, não sabendo que ela poderia ser machucada como forma de me atingir, então eu terminei com ela.
— Como… — Harry ergueu um dedo, indicando que não tinha terminado de falar.
— Mas eu a amava, eu já tinha certeza disso naquela época. Sabe… o toque dos lábios da sua mãe foi uma das últimas coisas que eu pensei antes do momento que eu achei que seria a minha morte. — Todo meu rosto se converteu em uma careta, não importava se eu tinha 23, 59 ou 96 anos, aqueles eram meus pais e eu não queria saber absolutamente nada sobre os beijos deles! — E quando eu terminei com ela, para a própria segurança dela, porque eu não tinha certeza se sairia vivo daquela guerra, eu me certifiquei que ela soubesse que eu a amava. Porque ela precisava e merecia saber. Mesmo que eu tivesse terminado com ela pela segurança dela, ela merecia saber como eu me sentia para que ela pudesse escolher como ela ia seguir em frente dali em diante. Ela podia seguir, namorar outros garotos, criar uma vida mais estável do que eu poderia oferecer naquele momento, ou ela podia esperar por mim, como ela fez, mas ela pôde escolher fazer isso, porque ela sabia exatamente como eu me sentia em relação a ela e, com base nisso, ela decidiu o que fazer dali em diante. E aqui estamos nós dois, trinta anos depois, com três lindos filhos e uma família pela qual eu continuarei prendendo ou matando qualquer bruxo das trevas que tente ameaçar esse pequeno paraíso que eu construí pra mim. — Ele sorria, deixando a cicatriz de sua bochecha mais marcada, mas, Merlin! Meu pai era muito charmoso. — Enfim, fiquei meio nostálgico de repente.
Harry uniu as mãos, mas eu notei o olho que ele piscou em minha direção. E eu sabia que as palavras escolhidas enquanto ele contava aquela história não tinham sido em vão, especialmente as que ele tinha dado uma ênfase dramática enquanto contava.
Abaixei meus olhos para a foto da minha formatura mais uma vez e senti as borboletas tomando conta do meu estômago. Luna e Viola tinham razão e eu de fato deveria esperar, mas, ao contrário do que elas tinham dito, eu não podia continuar esperando por algo que a outra parte sequer tinha ideia que eu aguardava. Eu sabia o que sentia, nunca tinha tido tanta certeza, em tão pouco tempo, daquele sentimento que tomava conta de mim, que fazia todas as falas dos meus pais para meu eu de 5 anos de idade fazer sentido, que deixava os filmes coloridos e me fazia entender toda e cada música da Taylor Swift. Era uma explosão, uma coisa única, inexplicável e eu tinha finalmente a encontrado e, independente do que o destino reservasse pra mim, ela merecia saber como eu me sentia.
— Eu… eu preciso resolver uma coisinha antes de ir. — Comuniquei a meu pai, que alargou ainda mais meu sorriso, e saí em disparada.
Eu corria tanto que não tinha certeza se meu coração batia muito rápido ou se ele tinha parado de bater. Derrapei pela porta de entrada de Lisa, correndo até lá e abrindo-a com a mesma intensidade, afobado demais para cumprimentar o porteiro apropriadamente, perguntei se podia subir para ver Lisa, mas o senhorzinho, muito simpático, me informou que ela não estava ali naquela tarde, que tinha levado uma pequena mala e informara que passaria alguns dias na casa de Stephen.
Aquilo quase me desanimou. Quase. E então eu lembrei que sabia exatamente onde era a casa de Stephen, pois tinha ido até lá algumas vezes nos meses anteriores para buscar May para nossos encontros. Eu não me importava que a família inteira estivesse lá, eu não planejava fazer um escândalo, apenas queria vê-la, apenas precisava contar pra ela como e o quê sentia e então eu deixaria que ela escolhesse o que fazer com aquela informação. Viola poderia não aprovar aquele comportamento, mas eu não faria nada além de contar como eu a amava. Não iria tentar roubá-la de Stephen, nem exagerar com gestos grandiosos, eu iria apenas contar o que eu sentia, como ela me fazia sentir vivo, como ela me fazia querer viver. Como o sorriso dela iluminava meus dias sem esforço, como o som da risada dela era a música mais linda que eu já tinha ouvido, como ela dava sentido a tudo que eu tinha acredito durante toda a minha vida.
Eu corri, e aparatei, e corri de novo. E então parei. Minhas mãos tremiam quando eu parei de frente para a porta da residência dos Thomas, minha respiração estava tão acelerada que eu mal conseguia pensar. Eu deveria bater na porta ou tocar campainha? Quando alguém atendesse o que eu iria dizer? Quando conseguisse me encontrar com ela, pediria para ela sair, ou um quarto mais privado? Eu apenas diria que a amava e então sairia andando?
As perguntas me deixavam atordoado e, por isso, eu demorei um tempinho para perceber a conversa que vinha do lado de dentro. Dei um passo para o lado, olhando pela grande janela que decorava o lado de fora da residência. Pelo vidro, com as cortinas abertas, a visão do lado de dentro da casa era tão boa que era quase preocupante. Eles certamente tinham proteções o suficiente para não se importarem com o fato de que qualquer vizinho fuxiqueiro poderia ver basicamente toda a vida deles por ali e, bom, foi o que eu fiz.
Do ângulo que eu estava conseguia enxergar para além do hall de entrada uma sala ampla abarrotada de pessoas. Vi May, ou April, em um dos cantos, identifiquei os cabelos vermelhos de Dominique e a mão de Fred (apenas a mão) na cintura da namorada. Tinham outras pessoas por ali, mas eu não conseguia as ver direito ou reconhecer quem eram. De repente, todas as pessoas que eu conseguia ver exclamaram ao mesmo tempo. Mãos foram levadas às bocas, lágrimas escorriam do rosto de uma senhorinha que eu não tinha ideia de quem era. Todo mundo maravilhado com qualquer surpresa que tivesse acontecido ali.
Mexi um pouco para o lado, pisando em um canteiro de rosas para conseguir uma visão mais precisa do que quer que estivesse acontecendo ali dentro e, então, eu vi. E congelei ali mesmo.
Stephen Thomas estava apoiado sobre um só joelho enquanto erguia uma pequena caixinha avermelhada entre as mãos. Mesmo de longe eu consegui ver o brilho do anel que estava ali dentro. Elisabeth Carter — e eu sequer consegui reparar no quão linda ela estava em um longo vestido prata, com um decote profundo e uma fenda lateral na perna — estava de frente para ele, as mãos tapando a boca, da mesma forma que ela tinha feito depois que eu a beijei, mas com olhos menos aterrorizados, apenas surpresos, positivamente surpresos, eu não precisava aprofundar meu olhar para saber disso.
Eu senti meu estômago se revirar. Stephen puxou o anel da caixinha e eu soube o que ele estava dizendo naquele momento, mesmo que eu não pudesse escutar, eu sabia. “Quer se casar comigo?”. Meu estômago se revirou novamente, um arrepio correu por todo o meu corpo, meu maxilar se travou. Eu não percebi, mas murmurei a palavra “não”, ao mesmo tempo em que Elisabeth tirava as mãos do rosto, revelando um sorriso que poderia iluminar toda a cidade. Sua cabeça se movimentou de cima para baixo, positivamente, e então eu vi os lábios dela pronunciarem um “sim” animado, enquanto esticava a mão para que Stephen colocasse o anel ali. Eu engoli a bile que se acumulou na minha garganta. Stephen se punha de pé e agora agarrava Lisa, rodopiando-a no ar ao som de vivas e felicitações de todos os convidados que estavam ali reunidos.
Eu não podia fazer aquilo. Não com ela, não agora. De que adiantaria eu contar qualquer coisa? A escolha dela estava transparente, bem em frente aos meus olhos. Ela tinha o escolhido, para o resto da vida, para um compromisso vitalício. E é claro que fazia sentido. Era óbvio que ela escolheria o namorado de anos, com quem ela tinha construído uma vida junto, do que um velho amigo que tinha desaparecido sem deixar rastros.
Eu não podia fazer aquilo. Não comigo, não mais. O universo tinha me dado a resposta dele, e eu devia saber que Luna e Viola estavam certas desde o princípio. Em que momento eu tinha me permitido influenciar por conselhos amorosos secretos de Harry Potter? Não. Eu não iria continuar fazendo aquilo, não mais.
Eu ouvi a porta se abrir, e eu vi uma cabeleira alaranjada cruzar o batente, chamando meu nome, antes de aparatar para longe dali, com a imagem da Torre Eiffel fresca na minha mente.
Se com cinco anos de idade tivessem me informado que o amor da minha vida não estava destinado a ser meu eu, talvez, tivesse poupado muito tempo e energia nessa busca sem sentido. Descobrir essa verdade foi inegavelmente uma das bebidas mais amargas que eu já tomei, a surra mais dolorida de todas. Talvez, se eu tivesse aberto os olhos para o que estava bem na minha frente antes, pudesse ser diferente. Talvez, se eu não estivesse tão perdido na busca que não fui capaz de perceber que eu já havia encontrado aquilo que procurava essa história tivesse um final diferente. Talvezes e ses que tinham se perdido há muitos anos e que eu precisaria deixar para trás, pois, agora, eu teria que engolir meu sangue junto a todos os cacos do meu coração e aprender a viver com a inegável verdade que tirava todo o ar do meu peito.
Hoje, se me pedissem para definir Elisabeth Stella Carter eu a descreveria como o tornado que chegara abalando todas as minhas estruturas, me forçando a encontrar novos caminhos, destruindo meu mundo inteiro de uma forma irreparável. A descreveria como o amor da minha vida que não pertencia a mim e que estava pra sempre perdido, como uma casa de palha no olho de um furacão.
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