Notas iniciais
Bom, olá! Dois capítulos em menos de um mês? Que isso? 2015? Não! Você não voltou no tempo, você não está alucinando, sim! Voltamos em tempo record com um capítulo fresquinho pra vocês. E deixa eu dar alguns avisos aqui em cima: 1º: Vocês escutam isso já tem alguns anos, mas agora é oficial: a fic está chegando ao fim. E ela vai acabar esse ano. Além desse só existem mais 3 capítulos para o final das aventuras de James e Laís e eu decidimos que todos eles serão postados esse ano, isso mesmo, em 2024, e a partir de hoje, até dezembro, vocês ganharão um capítulo por mês e; 2º: Por causa disso eu me encontro extremamente desolada, depressiva, emotiva e carente e aviso prévio: eu estou INSUPORTÁVEL nas notas finais, peço desculpas desde já, mas enfim! Aproveitem o capítulo, vou atormentar vocês com minha emotividade logo logo. /Lia Um milagre está acontecendo! Isso mesmo, outro capítulo — tão emocionante quanto o outro — está saindo em menos de dois anos?! Se acostumem, porque será com mais frequência, pois a fic está terminando — infelizmente. Aproveitem o capítulo, meus queridos. Tá do BABADO! Espero que gostem! Xoxo Laís

Eu, obviamente, tive que voltar para a Inglaterra. Eu tinha que me despedir da minha mãe conforme o planejado e buscar minhas malas para embarcar no trem que me levaria oficialmente para Paris às 19h da noite. E eu consegui fazer isso. Mesmo que eu tenha botado todas as minhas tripas para fora no momento que a aparatação chegou ao fim. Mesmo que o mundo rodasse, meus ouvidos zunissem e nada parecesse fazer sentido. Eu forcei o ar para dentro dos meus pulmões, aparatei de volta para casa e consegui, por aquela noite, fingir que nada tinha acontecido.

Eu busquei a planta rara no escritório de meu pai e subi para meu quarto para fechar a última mala. Eu coloquei minha melhor máscara e me despedi dos meus irmãos, de Luna — que me olhava com um olhar suspeito, o qual eu não me permiti refletir por tempo demais — e dos meus pais. Eu interpretei o melhor papel da minha vida enquanto exibia um largo sorriso e acenava para eles da plataforma de trem e, quando a locomotiva de alta velocidade disparou, transformando a visão que eu tinha da minha família em um borrão e me levando para longe de tudo ali, eu, mais uma vez, chorei.

Passava das nove quando cheguei em Paris e, àquela altura, as lágrimas tinham secado, apesar do aperto no meu peito se manter com força. Eu mentia para mim mesmo sobre não entender aquela reação que eu estava tendo, afinal, Elisabeth e eu nunca tivemos nada e um beijo do qual ela claramente se ressentia não deveria significar nada, mas no fundo eu entendia exatamente os porquês de tudo aquilo. E era justamente por nunca ter tido nada com Lisa em sentidos românticos que aquela dor em mim crescia. A agonia que me queimava de dentro para fora vinha da certeza que eu tinha encontrado aquilo que buscava, apenas para perdê-lo tão logo eu percebesse isso.

Meus olhos continuavam vermelhos e inchados, minha expressão era de quem realmente tinha entrado em profunda tristeza, que apenas um coração partido poderia causar, e eu não conseguia fazer nada para mudar isso enquanto seguia em direção a universidade, onde sabia que tinha um quarto reservado para mim naquela noite. A expressão de Lisa ao aceitar o anel em seu dedo anelar voltava com frequência em minha mente. A sensação de que eu sabia que ela tinha sido feita para mim ainda permanecia gravada em meu peito e isso só piorava toda a situação.

E eu sabia que precisava me recompor, voltar a ser o James que se metia em confusão enquanto fazia intercâmbio pela Europa. Mesmo que eu sentisse que nada voltaria ao normal, que eu ficaria estagnado com um sentimento que me puxava sempre para a casa dela, eu precisava me reerguer, superar aquela besteira — que de besteira não tinha nada — e viver minha vida. Eu já tinha feito isso antes. Mas eu sabia que era diferente.

Na primeira vez eu tinha perdido mais do que uma namorada, mas um filho que eu sequer sabia que queria até descobrir que não o teria mais. Na Grécia era muito mais sobre o abandono, sobre a traição, do que a perda em si, algo que me fizera conseguir me reerguer com considerável facilidade. Mas aquilo? Perder algo que eu desejei a minha vida inteira, algo que eu sabia e sentia que jamais iria encontrar igual, parecia, a cada inspiração forçada, cada vez mais impossível. Por mais que eu tentasse enterrar, seguir em frente ou ignorar, aquela sensação continuava ali: incômoda, latente, como se minha alma soubesse que eu jamais iria amar outra pessoa como eu amava Elisabeth.

Pelo restante daquela noite eu agi no automático, apenas concordando ou negando em palavras simples quando os funcionários da universidade falavam comigo em sotaques carregados e me direcionavam para o pequeno quarto com apenas uma cama, cômoda e pouco espaço extra para eu deixar minhas bagagens. Eu possivelmente estava me apresentando como uma pessoa arrogante, mas não conseguia nem mesmo forçar um sorriso enquanto continuava com curtos acenos confirmando que entendia que precisaria buscar a diretora na manhã seguinte para minha transferência e eles, provavelmente por isso, não demoraram muito, me largado pra trás na minha própria infelicidade assim que finalizaram os avisos.

Sem energia para mais nada, apenas joguei meus pertences no cantinho, empilhando um sobre o outro para caber, e me joguei na cama. As lágrimas voltaram antes que eu conseguisse dormir e, quando o sono finalmente me venceu, tive sonhos com Elisabeth.

Sonhos em que ela aparecia em minha porta e declarava que sentia o mesmo e que eu não precisava me preocupar, pois ela me escolhia. E então os sonhos viravam pesadelos, lembrando a mim mesmo, com uma voz rígida do meu pai que eu escutara apenas duas vezes na vida, que eu nunca tinha dado a ela escolha a ser feita e precisaria lidar com a situação.

Ao acordar eu estava ainda mais exausto do que quando tinha ido dormir. O vazio dentro de mim me preenchia, meu rosto estava abatido, eu sequer sentia fome. Mas, enquanto me levantava e me arrumava, tomei a fria decisão de passar por cima de tudo aquilo e, conforme encorajado por Luna e Viola, viver a minha vida da melhor forma que eu conseguisse.

Após um longo banho e alguns tapas na cara eu consegui recuperar um pouco de brilho. Eu caminhava pela universidade observando os alunos de um lado para o outro e admirando a estrutura do lugar. Conclui, contente, que apesar de tudo eu estava empolgado. Tudo ali me fazia querer continuar, ir além, preencher aquela caixinha de desejos; não havia apenas o curso de poções, tinham outras matérias, eu podia ver alunos levando seus projetos em bolhas, outros com as mãos transfiguradas, papeis coloridos voavam de um lado para o outro, com mensagens diversas, e tudo me lembrava que eu podia fazer mais da minha vida, que eu não precisava resumir minha felicidade em uma mulher, mesmo que por anos eu tivesse acreditado que isso poderia me fazer mais feliz, eu podia ser feliz independente. Eu gostava de ver aquele ambiente com todos aqueles tipos de magia, tanto que arrancou um sorriso sincero de meus lábios. Eu precisava me animar, afinal, era o último ano no intercâmbio e o último para eu me formar e, cada passo que eu dava por ali, ajudava a estabelecer aquela ideia em minha mente.

— Evans! Evans! — Escutei uma voz feminina chamar, mas, como eu já havia me acostumado com meu sobrenome verdadeiro, eu demorei a entender que era, bem, eu.

Virei-me quando ninguém estava respondendo, porque já estava feio para quem chamava, e eu vi Guadalupe acenando para mim, finalmente entendendo que ela me chamava. Coloquei o meu melhor sorriso, esse que não chegava aos meus olhos, e caminhei até a mexicana baixinha animada. Guadalupe possuía grandes olhos castanhos, assim como seus longos cabelos que caíam em suaves cachos por suas costas, tais quais os de… engoli em seco e balancei a cabeça por um segundo.

— Oi, Lupe — cumprimentei, ainda com um sorriso nos lábios. Ela inclinou a cabeça, como se percebesse que eu estava diferente de algum modo, e eu entendia. Ela havia visto eu me lascar várias vezes durante aquele intercâmbio, mas talvez meu vazio interno já estivesse se evidenciando do lado de fora também.

— Quanto tempo. — Ela disse suavemente.

— Minha grade me deu uns meses a mais de férias e foi bom para aproveitar um tempo com a família... e… é... hum.. é Potter — corrigi, de repente, deixando-a um pouco confusa. — Meu nome, James Sirius Potter.

Guadalupe piscou algumas vezes e eu esperei. Alguns alunos que estavam nas primeiras aulas na Bulgária já não estudavam mais no intercâmbio, portanto, nenhum dos que eu conheci durante a minha estadia na Itália sabiam quem eu era.

— Tipo... Harry Potter? O salvador do mundo bruxo na Europa ou coisa assim?

— Tipo ele mesmo... meu pai. — Admiti, sem sentir qualquer incômodo ao dizer aquilo. Eu tinha orgulho de ser filho dele e não me importava com o que as pessoas iriam pensar sobre esse assunto, não mais. E, no final das contas, já tinha atingido o máximo de objetivos por mim mesmo naquele intercâmbio, então ser eu mesmo não faria mal dali em diante.

Mas Lupe sorriu. E assentiu logo em seguida, dando uma risadinha, balançando a cabeça. Um sorriso surgiu singelo em meu rosto, dessa vez um pouco mais verdadeiro, enquanto aguardava a mulher à minha frente se recuperar do choque.

— Bem que eu achava você parecido com alguém. — Brincou ela, agora rindo mesmo. — Você é mesmo uma caixinha de surpresas, James Sirius Potter... deixa o Ian saber disso.

Franzi a testa, lhe dando a língua, esquecendo por dois segundos que eu estava quebrado por dentro, e aqueles dois segundos foram bons. Mas então a dor voltou, me apertando de uma maneira que comprimia os meus pulmões. Busquei por ar, enquanto eu sentia que não conseguia respirar, quando, na verdade, eu podia muito bem. A vontade de chorar era grande, quando a minha mente fez o favor de me lembrar dele ajoelhado na frente dela. Com um anel. Que ela ficou extasiada em colocar no próprio dedo.

— Tudo bem, James? — perguntou Guadalupe, preocupada.

Respirei fundo e assenti.

— Sim, tudo ótimo. — respondi, por fim. Não estava, mas aqueles dois segundos que a breve conversa com Lupe me provaram que eu podia sair daquela fossa. Podia demorar e não seria fácil, mas existia uma luz no fim do túnel. E aquilo me motivou a seguir e suavizou um pouco minha respiração. — Eu tenho que ir agora, preciso resolver um bocado de coisas, mas te vejo por aí?

— Claro, quando estiver mais tranquilo vamos marcar um happy hour, tem um bar aqui perto que você vai adorar, é cheio de mulheres bonitas.

Guadalupe gargalhou e, por mais alguns segundos, um outro sorriso sincero surgiu em meu rosto. Eu não tinha interesse nenhum nas mulheres mencionadas, afinal, eu não iria funcionar mesmo, mas uma boa distração e uma noite divertida com antigos colegas poderia me fazer bem, então certamente voltaria naquele assunto assim que possível.

Chegando à diretoria madame Peltier fez com que eu seguisse uma mulher baixinha de cabelos encaracolados que me mostraria como chegar à escola de magia e bruxaria da França, e ela não perdeu tempo em começar uma longa explicação em um sotaque quase impossível de se compreender que me fizera dissociar por alguns momentos, mesmo que eu estivesse dando meu melhor em ouví-la.

Eu assenti, entendendo como eu iria transitar por entre a escola e a universidade na maior parte da semana. Entendi que eu passaria toda a semana em Beauxbatons, mas que poderia ficar na universidade durante os fins de semana e feriados e, para isso, o quartinho minúsculo que tinham me dado na noite anterior estaria disponível.

A madame Pansier — tinha descoberto o seu nome e concluí que todo mundo ali tinha nomes muito parecidos — disse que eu já iniciaria o projeto em Beauxbatons, mas eu teria horário para ir e horário para voltar à escola, já que eu dormiria por lá ao longo da semana. E isso não seria problema, não pretendia quebrar nenhum toque de recolher porque, bem… Outra vez, meus pensamentos voltaram para ela. Eu deveria deixá-la ir. Eu deveria esquecê-la. Mas meu coração se recusava a querer isso, como se desejasse ter alguma esperança, quando, na verdade, eu sabia não haver nenhuma. Respirei fundo, sentindo que as lágrimas ameaçavam descer, enquanto madame Pansier apontava para uma lareira em uma sala específica.

Ela me olhou e eu assenti, recebendo um saquinho com o que eu supunha ser Pó de Flu. Era um saquinho considerável, provavelmente duraria mais de um mês.

— Você poderá transitar sempre que tiver que voltar para uma das escolas. Creio que o senhor seja adulto o suficiente para usar com moderação — ela disse, meio ríspida. Eu tinha notado que os franceses eram bem geniosos. Eu assenti, colocando o saquinho bem amarrado em minha mochila. — Nos finais de semana, poderá ficar aqui, caso deseje. Mas, durante a semana, apenas entre a escola de Beauxbatons e a faculdade, entendido? Suas aulas serão noturnas, para não atrapalhar seu estágio na escola, mas excepcionalmente a matéria Análitica Qualitativa de Ingredientes Raros e Como Identificar Suas Propriedades será toda quinta-feira às 16h. Entendido?

— Entendido, senhora — respondi mais do que depressa.

— Ótimo — disse ela, assentindo. — Agora pode ir — ela apontou para a lareira. — Sua grade completa será informada lá. Para manter o estágio, você precisa manter ótimas notas, portanto, evite faltas e organize seus estudos apropriadamente. Se não der conta de ambos, avise a Madame Poltier o quanto antes. Vejo o senhor em breve.

— Ah, ok — falei, me apressando para entrar na lareira e jogar o Pó de Flu. Me concentrei e disse: — Beauxbatons!

Rapidamente, chamas verdes que não queimavam me envolveram, me rodopiando por entre outras lareiras, até que eu parei em uma que eu não conhecia. Se Merlin gostasse de mim mesmo eu estaria na lareira certa. Olhei em volta, era um escritório bem iluminado, muito diferente de Hogwarts que parecia sempre estar na penumbra, fosse de dia ou com centenas de velas espalhadas. O escritório no qual eu adentrava era amplo, candelabros diversos tomavam o teto e paredes, junto a quadros tão numerosos que era quase impossível ver a pedra por trás deles. Havia retratos com pessoas dormindo e outras me encaravam com curiosidade.

Tirava o pó dos cabelos quando escutei uma voz grave chamar meu nome, me sobressaltando e me fazendo virar para ver uma mulher alta, bem alta, ainda mais que Hagrid para vocês terem uma ideia. Seu cabelo era curto e suas vestes da melhor qualidade.

— Bom dia, senhorrr Potterrr — Me cumprimentou a mulher com muito sotaque. — Quando me falarram que James Sirius Potter estava inscrrito no prrogrrama de interrcâmbio eu não pude acrreditar que alguém da sua família seguirria a carreira acadêmica. E quando vi o seu currículo fiquei imprressionada.

— Boa noite, senhora. Espero que tenha ficado impressionada num bom sentido — dei um sorriso incerto. A mulher meio gigante deu uma risadinha.

— O senhorr está na minha escola, não está?

— Acho que responde a minha pergunta — conclui, fazia sentido. Ela balançou a cabeça, ainda com um sorriso simpático no rosto.

— Seu pai tinha um ótimo senso de humor quando erra jovem. — comentou a mulher e depois se empertigou, batendo palmas. — Bom, bem-vindo à Escola de Magia e Bruxaria Beauxbatons! Je suis Madame Maxine, enchanté. — Ah! Aquilo fazia sentido. Tia Fleur já tinha comentado da mulher comigo algumas vezes e haviam boatos de que ela era realmente meio-gigante, o que justificava o tamanho.

Maxime estendeu a mão para eu cumprimentá-la e garanto que ela era facilmente duas vezes o tamanho do meu rosto. Engoli em seco e com delicadeza beijei o dorso da mão dela, que se empertigou.

— Tão galanteadorres vocês jovens. Muito bem, temos trrabalho a fazer! — Mais um bater de palmas e daquela vez eu juro que uma brisa rápida moveu meus cabelos. — Acrredito que l’université já tenha te explicado os detalhes de entrrada e saída, vous ête bienv… bem-vinde a permanecerr aqui em tode seu tempo livrre e a larreirra do seus aposentos está liberrada parra sua passagem de ida e volta das 06h às 23h de tode dia. Vous pode usar livrremente todos os aposentos de poções em seu tempo livrre, contanto que não estejam acontecendo aulas, desde às salas aos estoques. Nos contarram que você está desenvolvendo uma potion e encorrajamos fortemente a pesquisa. Lisette!

Com o chamado final eu dei um pulinho de susto e antecipação tomou conta de mim antes que eu pudesse me dar conta. O sotaque de Madame Maxine era forte o suficiente para que ela pudesse errar a pronúncia do nome daquele jeito e eu virei quase em câmera lenta em direção ao barulho da porta abrindo. Mas não tinha nenhum frio na barriga, nenhum pêlo arrepiado e, acima de tudo, não fazia o menor sentido. A alegria que tomou conta de mim morreu assim que os longos cabelos platinados cruzaram a passagem. A pele da mulher era a mais branca que eu já tinha visto, os olhos arroxeados. Muito alta, mais do que eu, mas bem menos que Madame Maxine, a tal Lisette quase parecia um quadro. E aquilo não significava absolutamente nada para mim.

Oui Madame?

— Leve o senhor Potter à senhorita Millefeuille, oui? Et James? Se precisar de qualquer coise pode me chamarr.

Assenti, grato, e deixei a sala de Madame Maxine acompanhado da tal Lisette. O que eu realmente precisava a diretora seria incapaz de me oferecer, mas tentei não pensar nisso.

Lisette não era muito de falar, percebi em poucos minutos de nossa caminhada. Beauxbatons era, para todos os efeitos, um belíssimo castelo medieval; feito de pedras claras e com largas janelas, a luz preenchia os espaços e corredores criando um ambiente agradável mesmo à vista das árvores de folhas caídas do lado de fora pela estação. O vento frio não parecia penetrar pelas espessas paredes. Estudantes passavam indo e voltando, alguns parando por alguns segundos para olharem curiosos para mim, cochichando coisas que eu não entendia e logo voltando a seus afazeres após uma bronca da garota albina a minha frente, que eu também não entendia.

As perguntas que eu fazia só eram respondidas quando podiam ser feitas com sim ou não e a resposta vinha por ligeiros movimentos de cabeça. Após alguns minutos de caminhada e minha provável trigésima pergunta, Lisette deu uma resposta mais longa e um tantinho ríspida em francês, que pelo contexto e duas palavras que eu consegui entender eu traduzi como ela dizendo que não falava inglês, mesmo que ela tivesse me compreendendo perfeitamente por todo aquele tempo.

Assentindo derrotado, permaneci em silêncio pelo restante do caminho, admirando, encantado, toda a arquitetura e detalhes do castelo. Tudo ali parecia etéreo, belo e brilhante. Camadas de ouro preenchiam das molduras de quadros às maçanetas e mármore era outro elemento muito presente por todos os cantos. Se me contassem que Beauxbatons era uma escola particular que admitia apenas as famílias mais ricas da Europa em seu corpo discente, após aquela visita, eu teria acreditado.

Após descermos alguns lances de escada, finalmente sendo privados da luz externa ao adentrarmos no que eu supus ser o mais próximo de masmorras que eles tinham — que ainda eram muito bem iluminadas por pedras cristalinas dependuradas nas paredes que emitiam um brilho branco e limpo por todo o local — Lisette caminhou apenas alguns passos mais, antes de parar em frente a uma porta, a única daquela parte, e bater, sendo logo convidada a entrar.

— Bom dia, senhorita Millefeuille. Esse é James, seu estagiário pelo próximo semestre, madame Maxine me pediu para trazê-lo a você. Ele não fala francês. — Lisette disse em um inglês quase perfeito e eu a encarei de boca aberta. Rude!

A tal senhorita Millefeuille apenas sorriu e assentiu, movimentando a mão para que Lisette se retirasse e ela o fez, com um breve aceno, fechando a porta logo em seguida.

— Pela sua cara sinto-me na obrigação de pedir desculpas por Lisette, a família dela descende de Napoleão e ela tem um ódio particular por ingleses no geral, não leve para o pessoal. — A mulher levantou o olhar e sorriu. Os cabelos estavam presos em um coque baixo e as linhas de expressão ficaram mais evidentes conforme sua boca se repuxava para um sorriso mais aberto. Apesar da idade evidente, ela ainda era bonita.

A senhorita Millefeuille se encontrava atrás de uma mesa cheia de aparatos para poções. Diferente de Hogwarts, a sala de poções de Beauxbatons era bem ampla e, apesar dela definitivamente ter menos luz que o restante do castelo, algo necessário para a manutenção de muitos ingredientes, aqui não era apertado e úmido. E não era assustador.

— Seja bem-vindo, senhor Potter. Eu sou Ophelia Millefeuille, professora de poções aqui em Beauxbatons — e estendeu sua mão. — Como pode ver — ela riu. Seu sotaque não era tão carregado quanto o de madame Maxine, na verdade era quase tão suave quanto o de tia Fleur.

Eu sorri também, me sentindo verdadeiramente empolgado com o intercâmbio e conseguindo deixar de lado todos os demais pensamentos ao me aproximar de sua mesa, enquanto ela deixava alguns pergaminhos de lado e me estendia a mão.

— Prazer, professora. — Retribui o cumprimento com o melhor sorriso que consegui, focando toda minha energia ali. — É um verdadeiro prazer e uma honra. Agradeço imensamente a oportunidade, você não sabe o quanto isso significa para mim.

O sorriso dela era amistoso, muito diferente dos professores de poções em Hogwarts. Eu sabia que não seria como eles, eu não conseguiria ser taciturno e eu não queria ser um professor que inspirava medo e, sim, um que inspirasse os alunos a gostarem da matéria, como Teddy fazia. Aqueles poucos segundos com Millefeuille me deram um indício de que ali eu conquistaria isso.

— Nesse primeiro momento o senhor irá apenas me auxiliar em ajudar os alunos com dificuldade ou com dúvidas, especialmente considerando sua… hm… barreira linguística. — Explicou Ophelia. — Conforme o semestre for passando, irei solicitar que o senhor prepare uma aula, seguindo nossos planos de estudos, que eu lhe darei ainda hoje. E, se o desempenho for de acordo com o seu currículo e as cartas de recomendação que eu recebi, se você também conseguir se comunicar com clareza com os alunos, conseguirei dar a você ao menos uma aula completa por semana, toda semana, para diferentes anos, até o fim do seu intercâmbio. O que acha?

Em um primeiro momento eu fiquei sem fala, sentindo como se eu finalmente pudesse ter um pouco de alegria. Era a primeira vez que eu ficava sem resposta, fazendo com que a professora risse e eu voltasse para o meu corpo. Balancei a cabeça e depois assenti, me sentindo realizado.

— Eu acho esplêndido! — respondi, feliz. Pelo menos eu poderia ocupar a minha mente. Não apenas com a minha poção, mas também eu poderia fazer o que eu desejava desde os meus dezesseis anos e eu poderia esquecer Lisa. Ou tentar esquecer, eu teria que dar um jeito.

Me recusei a sentir qualquer dor naquele momento assim que eu percebi que ela viria outra vez. Eu estava tendo uma oportunidade única, eu não podia deixar a dor me assolar, não ali; não, eu lidaria com ela quando eu me deitasse, mas, agora, eu tinha todo o meu futuro bem à minha frente e eu não iria me permitir ser arrastado para aquele buraco mais uma vez, não naquele momento.

Então eu sorri. Era um sorriso verdadeiro, ainda que não chegasse totalmente aos meus olhos. Aquele momento era uma pequena vitória e um grande passo para minha carreira, para o que eu sempre quis. Eu precisava focar em meus estudos. Ophelia sorriu também e assentiu.

— Bom, a primeira aula começará daqui a pouco. Me ajuda a preparar os ingredientes? — perguntou ela e eu prontamente concordei.

A primeira aula de poções que eu participei foi para o sexto ano. E foi uma das experiências mais difíceis da minha vida. Francês era uma língua que soava extremamente embolada aos meus ouvidos. Das poucas aulas que Victoire me dera — e que eu definitivamente deveria ter prestado mais atenção — eu quase não entendia o suficiente para fazer sentido metade do que estava sendo dito. Ainda assim, tinham muitas palavras parecidas com o inglês, o que Ophelia explicou com uma risada divertida para mim serem “falsos cognatos”, já que o significado verdadeiro delas não tinha nada a ver com o significado em inglês. Algo como o que tinha acontecido com a questão do cherry/chérie.

A aula também não foi muito produtiva no tocante conteúdo. Todos os alunos — as meninas especificamente — estavam fascinados com minha presença ali e queriam saber mais sobre quem eu era, o que estava fazendo ali, por que eu estava ali. Depois que descobriram que eu mal falava francês, os cochichos e piadinhas começaram sem que eles ao menos tentassem disfarçar e madame Millefeuille repreendeu diversos grupos mais de uma vez, me dando uma breve explicação do porquê, mas me privando de detalhes dos comentários, que, segundo ela, não eram apropriados para alunos fazerem sobre professores.

Ainda assim, foi extremamente divertido. Alunos diversos arriscaram o inglês para me deixar mais confortável, mas o sotaque de alguns era tão carregado que eu não os entendia muito melhor do que se estivessem falando francês. Outros, mais desenvoltos na língua, juravam me ajudar a aprender a nova, e eu confesso que fiquei verdadeiramente agradecido por estes.

Ao fim, Ophelia me explicou que algumas outras aulas seriam assim, considerando que cada ano que chegasse para as aulas ficaria igualmente curioso e interessado em mim, e que as segundas aulas seguintes ao primeiro contato seriam melhores. Ela também me recomendou uma ida à biblioteca, informando que lá eles possuíam alguns livros de gramática francesa com feitiços que permitiam que as palavras fossem pronunciadas de forma correta para que eu aprendesse mais rápido o idioma, além de uma sala lateral com acústica boa o suficiente que me permitiria treinar minha própria pronúncia.

Após isso ela me dispensou, informando que a próxima aula seria apenas após o almoço e que eu poderia usar meu tempo livre como preferisse já que esse era apenas o primeiro dia.

Agradeci imensamente e depois eu rodei o castelo por duas horas inteiras. Ok, eu fiquei perdido por duas horas. Por fim, um aluno simpático que não aparentava passar dos 13 anos — e ficou assustado com a possibilidade de um invasor na escola antes de eu explicar que era o auxiliar da professora de poções — me indicou o caminho da biblioteca.

Chegando lá, descobri que era quase hora do almoço, mas ainda assim tive tempo de conversar com uma velha senhorinha — que não aparentava estar nenhum pouco feliz em falar inglês e ficou reclamando, na minha língua, sobre como nós ingleses nos achávamos donos do mundo e como era inapropriado ir para outro país sem falar o idioma local — que me direcionou para as prateleiras com os livros mencionados por Millefeuille e, em seguida, me indicou a sala acústica para meus estudos. Agradeci prontamente e me permiti estudar o primeiro capítulo do livro mais fino de todos.

Era um inferno. Mesmo que eu já tivesse ideia de línguas como o grego, que era um alfabeto completamente diferente, eu realmente nunca tinha me aprofundado tanto no estudo de idiomas e dez páginas — e uma quantidade indecente de les e las depois — minha cabeça já estava doendo. Decidindo que aquilo era o suficiente pelo dia, corri em busca do almoço, visto que meu estômago se unia à minha cabeça quanto às dores. E, novamente, me perdi por um tempo indecente naquele castelo até um simpático aluno cruzar meu caminho e me ajudar.

Recebi o cronograma completo de aulas da madame Millefeuille mais tarde naquele dia e quando o uni com meu cronograma de aulas da faculdade respirei muito, muito, fundo. Eu tinha tempo livre, especialmente nos fins de semana, mas também alguns horários soltos na semana, como toda a manhã de terça e quarta à noite, mas, no geral, minhas pausas eram curtas, de uma hora no máximo em dias de sorte, e eu certamente estaria muito ocupado o tempo inteiro, fosse focando em minha poção, estudando francês, ajudando Ophelia com o estoque ou pesquisas, ou, então, cuidando de trabalhos ou estudos para meu curso.

Seria intenso. A rotina mais apertada que eu já tive durante todos aqueles anos em que mesmo meu tempo livre não era nada livre. E foi no final do primeiro dia que eu percebi que isso era bom porque, ao deitar na cama, eu percebi que não tinha pensado em Elisabeth desde aquele momento na sala de Ophelia e sorri. Antes de chorar minutos depois.

A semana passou sem que eu percebesse e, como previsto, eu de fato mal tinha tempo para respirar. No almoço eu escondia comida na minha jaqueta e a contrabandeava para a biblioteca, onde podia continuar minha dedicação no aprendizado de francês — la pomme est rouge — por cerca de três horas diárias. Eu acordava cedo, normalmente por pesadelos daquilo que eu tinha perdido, mas vinha ao máximo evitando me entregar àquele sentimento, então iniciava minha rotina junto ao Sol.

Após concluir os estudos de francês do dia, no tempo que eu passava com madame Millefeuille, eu fazia anotações diversas que poderiam me ajudar em minha poção, apesar de ainda não ter tido tempo de realmente manuseá-las, e era incrível ter acesso livre a todo estoque de poções e ingredientes, o que me permitia estudar ainda mais enquanto eu ajudava Ophelia com os preparativos das aulas conforme o planejamento que ela tinha me passado.

À noite a faculdade, apesar de ter menos aulas que meus semestres anteriores, se provou não estar nenhum pouco mais fácil, pelo contrário. O trabalho final de uma das matérias seria uma aula completa sobre algumas das poções mais difíceis do mundo bruxo e os critérios de avaliação iriam de didática, manejamento de tempo, escolha de ingredientes à sucesso dos alunos — que seriam outros colegas de curso — nas poções, sendo que deveríamos seguir a risca todas as instruções do professor do dia.

Não posso negar que a angústia, às vezes, me pegava. Nos momentos sozinho na biblioteca ou antes do cansaço me consumir por completo à noite — ou mesmo em meus sonhos — Elisabeth sempre me encontrava e, com ela, uma pontada no meu coração que parecia me puxar para o noroeste, onde eu sabia que ela estava, e lágrimas que eu não conseguia evitar.

Sábado chegou com uma calma que eu tinha ficado rapidamente desacostumado. Sem aulas, passeei pelos arredores do castelo, enviei cartas a Viola e Luna explicando minha rotina — uma tentativa de mostrar meus esforços em tentar seguir em frente —, dobrei minhas horas de estudo do idioma e finalmente coloquei a mão na massa em minha poção, recuperando anotações antigas e colocando em prática novas técnicas, ingredientes e metodologias.

Já tinha anoitecido quando uma anotação solta escapou do meu caderno e eu me abaixei para pegar. O conteúdo era um rabisco em péssima caligrafia com o nome de um doce que eu há muito conhecia: vomitilha parte roxa. Mas não foi o escrito que apertou o nó na minha garganta, nem o que fez meus olhos imediatamente encheram d’água, mas a lembrança que aquela nota trazia.

Contendo-me ao máximo, desliguei o fogo do caldeirão e sai cambaleando pelo castelo, que parecia estar vazio àquela hora. O nó parecia me sufocar e meus olhos ardiam com as lágrimas que o inundaram. De fora eu parecia um bêbado, mas felizmente ninguém passou por mim enquanto eu tateava pelas paredes, a dor em meu peito me deixando de joelhos em mais de uma ocasião enquanto eu me impulsionava para fora do castelo em busca de ar.

Não era um episódio de pânico como o que eu tivera na casa de Viola, isso eu conseguia dizer, mas a dor era tão parecida que eu sabia que era só uma questão de detalhes para tornar-se tal. Então eu tentei me puxar para a realidade e controlar minha respiração, mas não conseguia. Minha mente estava inundada por ela. Eu conseguia ouvir a risada de Elisabeth reverberando por meu corpo, no campo aberto pelo qual eu cambaleava eu apenas a via e conseguia sentir a proximidade dela, com nossos corpos molhados entrelaçados, meu braço segurando sua cintura, os lábios dela tão próximos dos meus naquele maldito momento em que tudo mudou.

A cena se passava em repeat na minha cabeça, então o beijo e tudo de novo. Eu a sentia em cada molécula do meu corpo me chamando, esperando por mim, e eu sabia que se pegasse minha varinha do suporte eu iria imediatamente aparatar para a porta do apartamento dela. E eu não podia fazer aquilo. Porque por mais minha que ela fosse, por mais que a única coisa certa do mundo inteiro fosse o corpo dela colado ao meu, por mais que eu tivesse certeza que eu era tão perfeito para ela quanto ela era para mim, ela não me pertencia, e ela nunca seria verdadeiramente minha, porque eu fui cego demais quando tive a oportunidade e porque agora era tarde demais.

Eu queria gritar, arrancar a grama, socar a parede. Queria, de alguma forma, descarregar toda aquela tensão que me dominava, mandar o choro embora, a angústia, a dor, o luto pelo amor da minha vida perdido bem em frente aos meus olhos, mas eu não podia, não conseguia, e isso parecia apenas somar àquela espiral de sentimentos que me sufocava e me frustrava porque a verdade que eu sabia no fundo do meu coração é que nada daquilo jamais iria passar.

Eu podia seguir em frente, conquistar meu diploma, o emprego dos sonhos, poderia até mesmo encontrar um novo amor, iniciar uma família, viver, mas eu viveria para sempre ciente de que uma parte essencial de mim estava faltando e tudo porque eu tinha sido burro o suficiente para não perceber o que estava ao meu lado o tempo todo, para notar que o que eu tanto buscava sempre esteve a minha frente.

E era melhor eu fazer logo as pazes com isso ou, do contrário, eu acabaria me matando. Não literalmente tirando minha vida, mas me adoecendo ao ponto de que aquela certeza, aquele desejo, me definharia de dentro para fora até que eu deixasse esse mundo.

Um som deixou minha garganta e uma vez mais eu caí de joelhos. Um urro ou rosnado ou algo no meio disso, e isso pareceu ajudar a desatar pelo menos um pouco o nó na minha garganta e as lágrimas transbordaram com mais força, enquanto eu revivia aquelas cenas de novo e de novo e criava forças para sobrepujá-las com os conselhos de Viola e Luna, com a ciência de que deixá-la ir era o certo a se fazer. Mesmo que eu soubesse que poderia amá-la melhor do que Stephen jamais conseguiria, ela o amava e ele a fazia feliz o suficiente para que ela não tivesse nem tentado me procurar após o beijo. E isso deveria ser resposta o suficiente para mim.

Então eu substituí as lembranças de como ela fazia cada átomo do meu corpo cantar com a mera presença dela para o olhar horrorizado de Elisabeth após nosso beijo, para o choque e terror no rosto dela, os braços tampando sua nudez enquanto as mãos escondiam a boca aberta e ela me encarava sem reação enquanto eu deixava seu apartamento. Sim, ela já sabia, mesmo que eu não tivesse chegado a tempo e gritado para o mundo ouvir, Elisabeth sabia que eu a queria, e ela escolheu me ignorar completamente porque a escolha dela já estava feita há anos e eu nunca tive chance.

Bloqueei os “e ses” de chegarem, se eu tivesse percebido ela antes, se eu tivesse aberto mão daquela rivalidade tola entre mim e ela, se eu tivesse correspondido os sentimentos dela quando ela sentiu algo por mim. Nada daquilo adiantaria agora, era tarde demais, e eu precisava seguir em frente.

Não sei dizer se foram minutos ou horas, mas o tempo passou, e uma vez mais eu chorei toda a água do meu corpo. Àquela altura eu apenas soluçava, repondo o ar em meus pulmões. Uma carcaça descartada, sem vida e sem vontade de viver, mas, ainda assim, vivo. Percebi tardiamente estar no alto de uma torre, o céu coberto de estrelas próximo e todos os instrumentos que me rodeavam possibilitando a observação dos astros me dando um indício que, de alguma forma, eu fui parar na torre de astronomia do castelo. E eu estava apenas surpreso o suficiente de não ter caído de lá acidentalmente. Eu não estava bem, merda, talvez eu nunca mais ficasse, mas eu teria que conviver com essa dor, com esse vácuo dentro de mim e esse seria meu novo normal.

Passei a mão no rosto e ouvi alguém arquejar. Me levantei rapidamente, percebendo que uma mulher estava parada ali, como se tivesse levado um susto. Ela era… pequena. Talvez um pouco maior que Luna, mas ainda pequena. Os cachos espessos de seu cabelo formavam uma moldura ao redor de seu rosto e ela passou rapidamente a mão pelas bochechas, atraindo minha atenção para o fato que ela chorava.

— Não achei que alguém fosse estar aqui, sinto muito, eu volto depois.

— Hey! — Chamei, impedindo-a de ir embora, ela cruzou os braços, aguardando. — A torre é bem grande, pode ficar. — Coloquei as mãos nos bolsos e suspirei. — James Sirius Potter. — Falei e estendi a mão em sua direção.

— Obrigada, mas… não é necessário, eu tô acostumada a… não importa, eu volto depois.

— Não precisa ficar com vergonha, eu tava aqui chorando também, bom, chorando não é o termo correto, eu estava me debulhando em lágrimas, e eu não preciso de um espelho pra saber que isso tá bem visível. — Ergui os ombros e pela expressão dela eu soube que ela estava se esforçando para não negar nem confirmar. — Podemos iniciar nosso próprio clubinho do choro, que tal? É algo comum por aqui? Virem pra torre de astronomia para chorar?

Ela pressionou os lábios, virando o rosto para o lado por um instante antes de suspirar e dar um passo para frente, enfim encontrando minha mão estendida.

— Aimée Camille Eckhart.

Foi ao ouvir o sotaque carregado do nome dela que eu percebi que ela vinha falando comigo em inglês, limpo e claro, sem sinal de sotaque e definitivamente sem os resmungos que outros adultos pareciam ter. Confesso que aquilo me deixou curioso.

— Então? É um ponto comum de choradeira? — Insisti e ela sorriu mais abertamente dessa vez, balançando a cabeça.

— Não, era mais como meu esconderijo secreto até você encontrá-lo.

— Oh, sinto muito por isso. Eu não tive a intenção de vir pra cá e… hm… talvez eu quem devesse sair né?

Aimée deu de ombros, sentando-se, apoiando as palmas atrás de si e inclinando-se um pouco para observar o céu.

— Você pode ficar. Parece certo o rapaz melancólico da biblioteca compartilhar meu lugar secreto de tristeza infinita.

— Rapaz melancólico da biblioteca? — Eu me sentei ao lado dela, feliz por ela ter me permitido ficar ali pois eu não sabia se já tinha forças para sair, ela assentiu.

— Sou uma das auxiliares e te vi por lá ao longo da semana. Quero dizer, eu sei que a gramática da língua francesa não é o livro mais feliz do mundo, mas eu definitivamente nunca chorei lendo-a.

Foi a minha vez de esboçar um sorriso, até me lembrar o motivo pelo qual eu chorava durante meu estudo e minha expressão fechar novamente, com um suspiro exausto da minha parte.

O silêncio então se instaurou entre nós. As perguntas que ambos tínhamos pairavam no ar, mas continuamos ali, calados, olhando para as estrelas; quantas noites levam para contar as estrelas? Esse é o tempo que demoraria para consertar o meu coração, de repente, a letra desta música surgiu em minha cabeça. Era de uma banda trouxa que havia se separado muito tempo atrás, mas que conseguia ter um certo impacto em como eu me sentia.

Olhei para a mulher sentada ao meu lado. Ela tinha mudado de posição e agora segurava os joelhos, encostando o queixo nos mesmos, observando as estrelas como eu; seus olhos estavam cheios de lágrimas que eu sabia que ela queria deixar escapar. Franzi a testa, já que há poucos minutos eu estava na mesma situação. Acho que ela só não chorava porque eu estava ali.

— Pode chorar, se quiser. — Quebrei o silêncio, a olhando. — De verdade.

Aimée voltou seus olhos para mim, encontrando um sorriso solidário em meus lábios. Eu não sabia pelo o que ela estava passando, mas creio que Aimée confiou o bastante em mim — um estranho — para deixar as lágrimas descerem de forma constante. Eu fiquei com o coração apertado ao vê-la daquela forma, então passei o braço em volta de seus ombros, dando tapinhas amigáveis em seu braço. Éramos dois estranhos e não estávamos tendo a menor vergonha de chorar e ser consolado por uma pessoa que tinha acabado de conhecer. Acho que não tinha nada de errado com aquilo, né?

Ela ficou daquele jeito por algum tempo, até que respirou fundo e me olhou. Mais precisamente para o meu braço ao redor de seus ombros, parecendo notar que ele estava ali apenas naquele momento. Depois olhou em meus olhos e eu retirei o braço, desviando o olhar para as estrelas novamente. Ouvi o seu riso sem humor, enquanto ela se recompunha.

— É meio patético né? — Ela disse enfim, fungando e enxugando o rosto. — Como nos permitimos desmontar por algo que não é nosso. — Eu a observei atentamente, sentindo-me exposto de um jeito que eu não sabia explicar, visto que ela parecia colocar em palavras exatamente o que eu sentia, mas me fazendo perceber só naquele minuto que realmente era meio patético.

— Como você sabe que era por isso que eu estava chorando, porém? Podia ser qualquer coisa, da morte da minha planta à notas ruins. — Ela sorriu, um sorriso torto, de lado, e adorável.

— Um coração partido consegue reconhecer os pedaços de outro, James.

— Reconhecem é? — Ela assentiu, eu arqueei a sobrancelha. — Prova.

— Bom… a não ser que você realmente estivesse chorando pela forma como flexionamos gênero, eu posso dizer que você perdeu alguém, mas não para o abraço gelado da morte, não, essa pessoa está viva, mas não para você, não do jeito que você quer. E vocês poderiam ser algo, mas você viu todo esse potencial escapando por entre seus dedos porque não tinha nada que você pudesse fazer além de aceitar. E você odeia isso. E você odeia odiar isso porque você sabe que você está destinado a muito mais, mas essa coisa, essa dor, esse ressentimento, essa tristeza, continua te segurando para trás e você sente como se nada no mundo fosse capaz de te devolver a felicidade que você um dia sentiu antes de provar o fruto do paraíso e perceber que a vida depois dele nunca mais seria a mesma.

Eu estava abismado e boquiaberto. Cada palavra que ela dizia fazia minha boca se abrir mais e mais e, ao fim, eu sentia como se ela tivesse entrado dentro da minha alma e estudado cada arquivo de mim para descrever com detalhes exatamente aquilo que eu sentia. E isso me deixou em completo choque.

— Você é uma bruxa? — Aimée riu, e a risada dela, apesar do longo choro de minutos atrás, era leve e suave.

— Eu espero que sim ou eu definitivamente estou no terreno errado. — Respondeu e foi minha vez de rir brevemente, mas eu ainda estava estupefato, então balancei a cabeça.

— Como você fez isso? Usou legilimens sem eu ter percebido ou coisa do tipo? — Ela negou.

— Eu te disse, um coração quebrado sabe reconhecer os pedaços de outro. — Eu assenti, observando-a de perto.

— Eu sinto muito. — Disse, enfim, percebendo que o motivo do choro dela era possivelmente muito parecido com o meu e que ela tinha, de fato, identificado na minha dor a dela refletida. Vi os olhos de Aimée se encherem de lágrimas novamente e ela torceu o nariz, fungando e impedindo o choro de cair.

— Eu também. — Ela estendeu a mão para a minha e apertou; e eu consegui sorrir brevemente, assentindo novamente.

— Então estamos oficialmente abrindo um clube de chorões? — Ela riu e, ao fazê-lo, uma lágrima lhe escorreu pelo rosto.

— Clube dos corações partidos soa mais poético. — Opinou e eu concordei.

— Na próxima reunião a gente devia trazer algumas colas porque eu não sei por quanto tempo mais eu aguento isso. — Disse, sério, e Aimée sorriu.

— Clube de apoio para pessoas emocionalmente danificadas. — Ela testou o novo nome e eu ri.

— Oi, meu nome é James e eu estou há 6 dias sem o amor da minha vida. — A risada dela mais uma vez provocou um sorriso em mim.

— Oi, James.

A brincadeira poderia morrer ali. Poderíamos continuar procurando nomes para nosso grupinho de tristeza ou mudar de assunto, falar sobre as constelações ou nossos respectivos trabalhos no castelo. Eu poderia perguntá-la como ela falava inglês tão bem e ela poderia questionar sobre a minha loucura em aceitar um estágio em um país que eu mal sabia o idioma. Mas existia uma oportunidade ali, para nós dois, que parecia boa demais para deixar passar. Falar sempre ajudava, conversar sobre sentimentos, medos e anseios ajudava a tirar um peso do ombro e massageava o coração. E, por mais que eu amasse Viola e Luna e tivesse a certeza que esperaria as respostas delas com ansiedade, falar sobre aquele assunto tão específico com alguém que entendia perfeitamente o que eu estava passando parecia bom demais para deixar passar. Então eu continuei.

— Eu estava indo contar a ela sobre como eu me sentia quando a vi ser pedida em casamento pelo namorado dela de anos. — A lembrança veio e eu travei o maxilar, sentindo meus olhos arderem de novo. — Eu demorei tanto, tanto, para perceber o que sempre estivera debaixo do meu nariz e quando as peças finalmente se encaixaram eu só… O sorriso dela é uma das coisas mais lindas do universo e ela aceitou tão… feliz. Eu vi. Eu não deveria estar ali, eles não me chamaram para aquele momento. Meus primos foram, nós supostamente somos do mesmo grupo de amigos, mas eu não fui convidado, não me queriam compartilhando daquela felicidade, ela provavelmente não quer me ver nem pintado de ouro por causa do que eu fiz, mas, ainda assim, eu estava lá, nas sombras, vendo tudo e… — Balancei a cabeça e me livrei de uma lágrima. Era o suficiente por aquela noite. Aimée alcançou minha mão e a apertou, os olhos dela transbordando simpatia e compreensão.

— Eu sinto muito, James — disse ela, ainda com a expressão solidária. Eu assenti, agradecendo-lhe.

— Bem... e você? Por qual motivo está de coração partido?

Aimée desviou o olhar do meu, segurando o braço, enquanto eu franzia a testa. Encostei meus dedos em sua pele, tentando fazê-la me olhar outra vez.

— Hey, aqui é o CCP anônimos. — Brinquei, com um sorriso sem entusiasmo. — Não seria um clube se só eu fosse responsável pelos monólogos.... vamos lá, Aimée... eu sei que sou um estranho, mas é seguro aqui. E falar ajuda. — Ela engoliu o choro, ainda relutante. — Eu deixo você me olhar mais de perto enquanto eu estiver na biblioteca... — Fiz piada e, dessa vez, uma risada escapou dos lábios dela e ela enfim olhou de volta para mim.

Fine. Meu nome é Aimée e eu estou há 7 meses sem o amor da minha vida.

— Olá, Aimée. — Incentivei com um meio sorriso, ela revirou os olhos, mas retribuiu, apesar das lágrimas que se acumulavam novamente nos seus olhos.

— Eu… eu tinha ele exatamente onde eu queria e precisava. Era um conto de fadas perfeito, mas… — Ela fechou os olhos e as lágrimas correram por suas bochechas, eu subi meu toque para o ombro dela, apertando levemente. — Eu tive que deixá-lo ir. E eu fui horrível, mas… era a única escolha. — A voz dela estava instável e mais uma vez ela se calou, mais lágrimas correndo por seu rosto, iluminadas pela luz da lua. Eu permaneci ali, quieto e calado, apenas esperando. — Ele merecia mais, ele… ele não… — Ela balançou a cabeça e então enxugou o rosto, abrindo os olhos novamente. — Eu achei que fosse ficar melhor com o tempo, mas cada dia que passa é pior que o anterior e nem mesmo os re… — Ela voltou a fechar os olhos e respirou fundo. — É difícil. — Pontuou e eu soube que ela não diria mais nada naquela noite.

— É difícil. — Concordei, eu mesmo suspirando, e então desviei o olhar para o céu. — Mas nós iremos ficar bem, algum dia, em algum momento, nós vamos.

Aimée não disse nada, mas quando eu olhei para ela novamente ela guardava um sorriso em seu rosto. Não era um sorriso triste, nem mesmo um divertido, mas um sorriso amargo, como se ela soubesse de algum segredo terrível que ia diretamente contra minha afirmação.

(...)

— Você está pronunciando errado — sussurrou Aimée, alguns dias depois, quando eu estava na biblioteca tentando aprender francês. Ela passou bem na hora em que eu tentava dizer alguma palavra e, por alguma razão, estava errado. — Você não pode dizer o L, senão o sentido fica totalmente diferente.

Eu olhei para cima, vendo-a ao meu lado.

Ergui uma das sobrancelhas para ela, atraindo os olhares de algumas meninas que se encontravam na biblioteca. Oras, o auxiliar estrangeiro que andava sempre sozinho e dispensava qualquer investida estava falando com uma mulher? Ela me encarou e sorriu, me fazendo balançar a cabeça.

— Então me ensina — respondi, apontando para os diversos livros de aprendizagem de francês para idiotas. Como eu! — Porque eu estou falando exatamente como ele. — Reafirmei, abrindo uma página que dizia, até onde eu tinha entendido, que o filho de um comerciante comia uma maçã azul. Eu discordava daquela escolha nutritiva, mas quem era eu pra discutir? — Le fíl de merchant mange une pomme blé.

— Non. — Ela suspirou, puxando uma cadeira e tomou um lugar do meu lado, ativando a fala da página novamente e repetindo junto a ele: — Le fils de merchant mange une pomme bleu. Físsss, prolongue o s, não pronuncie o L. E é blê, não blé.

Eu puxei o livro novamente para perto e encarei a escrita, que certamente não indicava nada daquilo, e encarei ela de volta.

— Mas vocês nunca pronunciam o S no final das palavras. — E eu já tinha avançado nos meus estudos o suficiente para entender que pra saber se estavam falando de uma ou mais mulheres eu teria que pegar pelo contexto, pois a pronúncia não iria me ajudar em nada naquilo.

Femmes ou Femme de James Sirius Potter? Você teria que ir um pouco além para compreender se eu era um homem fiel ou um safado sem vergonha em francês.

— Sim, mas essa é uma exceção à regra. A não ser que você esteja querendo dizer que o fio do comerciante está comendo essa maçã estragada.

Eu parei por um momento, rodando o áudio do livro novamente.

— Quer saber? Em português não altera tanto a pronúncia assim pelo que me lembro. Fio é, na verdade, a forma preferida de Teresa para falar filho. Então eu vou aceitar a vitória.

Non! Vous parlez français et non portugais donc vous le prononcez correctement.

— Obrigado! São seus olhos e uma quantidade obscena de produtos hidratantes, posso recomendar alguns depois.

Aimée revirou os olhos, mas percebi que ela sorriu um pouquinho.

— Ok, ok. — Mais uma vez coloquei o áudio para tocar e respirei fundo. — Físssss.

— Menos como uma cobra, mais ênfase no í.

— Fíis.

— Isso, muito bem. Agora tudo. — Repeti conforme indicado e Aimée se recostou no encosto da cadeira. — Ainda temos que trabalhar na pronúncia de azul, mas agora pelo menos a frase não fica sem sentido.

Eu sorri, satisfeito, e a observei.

— Então isso significa que você irá ser minha professora?

Aimée me encarou, depois observou a pilha de livros que tinha deixado de lado e então os livros espalhados pela mesa e suspirou.

— Eu não posso agora, estou trabalhando.

— Estou sempre aqui de manhã, antes das aulas. Você sabe, o rapaz melancólico. — Brinquei, fazendo-a rir.

— Não irei pegar leve. — Avisou e eu sorri.

— Não pensei que iria.

Aimée balançou a cabeça, mas o vestígio de sorriso permaneceu em seus lábios enquanto se afastava da minha mesa e voltava aos seus afazeres na biblioteca. Virei outra página do livro para continuar meus estudos mesmo sem minha recém-adquirida professora. Manter-me ocupado tinha se definido como meu modus operandi desde o sábado, quando eu constatei que a ociosidade não era uma opção.

Ela me encontrava, ela sempre me encontrava, mas esse era um problema para o James dos sonhos e aquele que acordava com as lembranças para lidar. Ao menos assim foi nos últimos quatro dias. A página seguinte apresentava um texto pequeno, um poema. Palavras se perderam na tradução, mas se o desenho ao lado era indicativo de algo então o poema relatava um beijo apaixonado entre amantes e eu senti minha garganta apertar naquele instante.

Suspirei e olhei para a janela. Minhas mãos foram até meus lábios, me torturando ao lembrar do sonho que me atormentava todas as noites. Ao que parecia chorar as minhas pitangas com Aimée só serviu para o meu subconsciente fazer-me lembrar da noite fatídica em que tudo saiu dos trilhos de vez. E eu ainda conseguia sentir os lábios dela nos meus. Suas mãos passeando pela minha nuca e depois explorando meu corpo. Parecia que as impressões digitais dela tinham penetrado minha pele e deixado uma trilha inapagável por onde Elisabeth havia tocado.

Engoli em seco, sentindo o meu coração se partir em mais um pedaço. Era evidente que ficar com o namorado que sempre esteve com ela era o mais óbvio. Mas, às vezes, eu me perguntava, uma pequena parte de mim, o porquê de Lisa ter retribuído o beijo e as carícias. Eu tentava afundar esse pensamento para que não criasse nenhuma falsa esperança. Era tédio, apenas o calor do momento, era inegável que tínhamos química e, às vezes, ela só não pensou. Entretanto, mesmo com aqueles argumentos muito plausíveis, mesmo com a lembrança seguinte do estado de horror que ela ficou ao perceber o que tinha feito, eu ainda não conseguia parar de lembrar de seu beijo.

Balancei a cabeça e engoli em seco, bloqueando os pensamentos ali, naquele momento. Não era hora para aquilo, eu precisava recuperar as rédeas da minha vida e aquele era um ótimo começo. Deixei aquele livro de lado e puxei outro, um mais avançado sobre o desenvolvimento de poções que serviria como estudo de ambas minhas áreas de interesse.

O aperto no meu coração permaneceu forte, mas, ao menos pelas horas seguintes, eu consegui me concentrar na tecnicidade de algo que eu era capaz de controlar.



(...)

A semana passou depressa. Minhas idas e vindas entre Beauxbatons e a faculdade em Paris, mais as aulas de francês e meus experimentos para a poção, ocuparam minha mente, de modo que eu deitava a cabeça no travesseiro e logo apagava. Não irei mentir que, quando tinha um minuto em que eu não estava fazendo nada, eu ainda pensava nela. Ela invadia meus pensamentos da maneira mais invasiva possível e eu caía. Mesmo tentando não cair.

Para me distrair, decidi ir até à sala de poções e tentar me concentrar na minha poção. Ophelia tinha me garantido que eu poderia usá-la sempre que precisasse, mesmo com a possibilidade de alguma coisa explodir ou derreter. Ela havia dito que ali era o lugar ideal e eu precisava mais do que nunca me concentrar em algo que não fosse o meu próprio coração.

Havia trazido comigo as anotações que tinha feito a partir da goma roxa que fazia parar de vomitar no kit do meu tio. Olhar para a minha caligrafia me fez retornar para quando meu rosto havia ficado a centímetros de distância do dela, de quando eu a tinha visto apenas de calcinha e sutiã e a sua pele molhada contra a minha... Argh! Elisabeth tinha que sair da minha cabeça! Não importava o que eu fizesse, não importava o quanto eu ignorasse, ela ainda estava ali. Me atormentando, fazendo com que fosse ainda mais impossível esquecê-la.

Balancei a cabeça e me concentrei no que eu deveria fazer. Eu tinha entrado em contato com meu tio George para saber qual era o componente principal da poção que ele colocava na goma e agora eu tentava complementar aos ingredientes que já haviam dado certo na minha poção. Adicionei uma pitada de orégano à mistura e, então, fechar os olhos foi a única reação que consegui ter quando uma nuvem esverdeada de fumaça soprou contra meu rosto.

— Se eu precisasse apostar eu diria que isso não deveria acontecer. — Ouvi a voz de Aimée a poucos passos de distância e alcancei um pano que eu sabia estar perto para tirar a sujeira do rosto. Ela me olhava do batente da porta, parecendo divertida.

— Bom dia para você também.

— Você está bem? — Aimée mantinha uma sobrancelha arqueada, mas não fez nenhum movimento que indicasse sua genuína preocupação em meu bem estar.

— Já aconteceram coisas piores antes. Uma vez um amigo meu ficou completamente careca com uma poção. Quero dizer, não foi a minha poção, mas o que é um pouco de gosma na cara em comparação à calvície, né? — Tagarelei enquanto usava o mesmo pano para limpar a mesa, sentindo o olhar de Aimée sobre mim.

— Então já que você não está deitado em completa agonia eu posso perguntar o porquê de você não estar na biblioteca nesse minuto aprendendo francês?

Eu ergui o olhar para ela, que ainda estava parada no mesmo lugar, e depois olhei ao redor, como se o movimento fosse me ajudar a encontrar uma resposta decente.

— É sábado. — Disse, enfim, porque aquela era a única resposta possível.

— E? Você disse que estaria na biblioteca todos os dias de manhã.

— Antes das aulas. Hoje não tem aula.

— Claro que tem, a sua. — Eu pisquei.

— Eu achei que você estaria dormindo.

— Bom, eu estava, mas acordei pra encontrar com você lá.

— Bom…

— Bom…

— Talvez tenhamos nos perdido na tradução. — Ela riu e balançou a cabeça.

— Você não estuda aos sábados?

— Esse é apenas meu segundo sábado aqui, mas sim, estudo; O dobro dos outros dias da semana. Mas não queria te incomodar então achei que trabalhar na minha poção fosse uma boa distração até você estar disponível.

— Espere… como assim sua poção?

O interesse dela agora estava um pouco mais aguçado. Eu sorri e a convidei para entrar, explicando por alto meu projeto dos últimos anos.

— Isso é…

— Incrível? Estupendo? Genial?

— Sim, todas essas coisas. — Ela disse, puxando uma cadeira e avaliando os ingredientes espalhados pela bancada enquanto eu me desfazia da tentativa falha e lavava o caldeirão. — Você já teve algum resultado positivo?

— Nada substancial. — Suspirei, voltando para o local onde estava e também olhando para os materiais e anotações jogados pelos cantos. — Tem vezes que eu chego perto, tão perto, mas então… — Mais um suspiro enquanto eu gesticulava para o pano sujo no cantinho da mesa. — Não vou negar que não estive dando muita atenção a ela nos últimos meses, mas já estou há anos nessa pesquisa e, às vezes, parece um terrível labirinto sem saída. Acho que já tentei todos os ingredientes existentes, inúmeras combinações. Já consegui uma que me deu uma sensação de saciedade por duas semanas inteiras e outra que me fez vomitar por sete horas sem intervalo, todas relacionadas ao que eu queria, mas nunca… lá. — Balancei a cabeça, um pouco frustrado.

Tinha tido certeza que a magia aplicada no doce do meu tio era a solução de todos os meus problemas, mas, claramente, aquele não era o caso. Aimée não disse nada e, quando o silêncio se estendeu a certo desconforto, eu olhei novamente para ela, que observava pensativa o ambiente. Aguardei, pacientemente, então ela me encarou.

— Vem comigo. — Chamou antes de apenas virar-se e sair andando, me fazendo ir correndo atrás dela.

Aimée andava pelos corredores de Beauxbatons, passando por vários corredores e salas, enquanto eu ia atrás, tentando entender o que ela queria fazer. Mas, ainda assim, eu confiava nela para segui-la sem fazer perguntas.

Subimos alguns lances de escada e a claridade aumentou, fazendo eu apertar um pouco meus olhos perante a luz do Sol que brilhava forte mesmo em meados do outono por ali. Aimée seguiu em frente, virando em um arco aberto em uma das paredes que nos levou a um imenso jardim. Não me lembrava de ter estado ali antes, nem mesmo no primeiro dia em que eu tinha acreditado rodar por todo aquele castelo, e aquele novo local desbloqueado era… incrível.

No ápice do outono, o jardim parecia congelado na primavera. Folhas e plantas diversas coloriam a paisagem e combinavam em harmonia às poucas árvores que pareciam respeitar o passar das estações, criando uma mistura de tons que apenas servia para deixar tudo ainda mais belo e etéreo. A grama permanecia verde e fresca e o piar de pássaros fazia parecer que, ao atravessar aquele arco, tínhamos entrado em um jardim encantado parado no tempo. Sempre vivo e vibrante e tão belo que era como se nada além dele existisse. No centro do jardim, pequenas piscinas com água jorrando se conectavam em um belo formato losangular até linkarem-se à maior de todas, uma fonte larga e grande que levava em si a estátua de um casal em tamanho real, a mulher aconchegada nos braços do homem, o olhar apaixonado dele para ela perceptível até mesmo através da gravação na pedra.

Bem distante, quebrando de leve o encanto daquele ambiente, ao observar a estátua que parecia ser a protagonista daquele ambiente, senti uma pontada no meu coração. Mas a memória que tentava alcançar o topo da minha mente não chegava e a dor se dissipou antes mesmo de chegar. Suspirei, sentindo um alívio que não saberia explicar, e continuei admirando a paisagem, o casal apaixonado à minha frente, não sentindo nada além de uma paz inexplicável.

— É fácil se perder por aqui, não é? — A voz feminina soou próxima de mim e eu me assustei, virando a atenção para Aimée, que me observava curiosa. — A primeira vez é sempre a mais impactante, mas pra gente? Nós que somos quebrados por dentro… parece um feitiço inquebrável. E é tão bom, tão calmo, que é como se pudéssemos viver aqui, não é?

Eu pisquei lentamente, absorvendo as palavras de Aimée, parecendo lentamente acordar de um sonho. Ainda sentia tudo aquilo que ela falava, mas parecia um pouco, só um pouco, mais desperto.

— Aquela é La Fontaine du Flamel, construída em homenagem à Nicolal e sua esposa, Perenelle, que foram estudantes modelos aqui em Beauxbatons. Ele próprio supervisionou a construção da fonte, centenas de anos atrás, e o local escolhido não foi em vão. É dito que essas águas têm poderes curativos e embelezadores. As fontes lançam partículas de água no ar e se espalham por todo o jardim e é por isso que aqui parece ser sempre primavera, por isso que essa paz que você sentiu tomou conta de você na sua primeira inspiração após pisar aqui.

Meu olhar passou de Aimée para as fontes e de volta. De certos ângulos era possível admirar as gotículas de água viajando pelo ar, tocando as folhas, plantas e grama e, quanto mais eu respirava, mais o que Aimée dizia parecia fazer sentido. Eu me sentia bem, mais do que estivera nas últimas semanas, mais do que já sentira em toda minha vida.

— É perigoso, não é? É lindo e cativante e tão, tão perigoso. Você se sente bem, você se sente ótimo, invencível. Nada no mundo parece ser capaz de te abalar, mas essa confiança, essa certeza — essa alegria — ela não te incentiva a ir além, ela te segura aqui. Afinal, do que mais você precisaria? Aqui não existe tristeza, dor ou angústia, não existe fome ou medo. Apenas paz. Mas não é porque você não sente algo que ele deixa de existir. Aqui, sua mente é levada para um local além da realidade e, sim, existe algum tipo de cura que penetra em seus poros e te leva a sentimentos únicos, mas seu corpo ainda necessita de nutrientes para sobreviver, e por baixo desse manto de calmaria seu coração continua quebrado. É entorpecente e incrível e… enganoso. O jardineiro me encontrou aqui dias depois, eu tinha desmaiado e estava nos estágios iniciais de desnutrição severa. Nem mesmo percebi até acordar na enfermaria e eu quis voltar imediatamente. Não me importava com os riscos, não me importava com minhas obrigações, eu só queria essa paz novamente. — Ela suspirou, também voltando-se para a fonte. — Mas, para além da beleza, esse jardim encantado esconde horrores que não conseguimos perceber e os efeitos são superficiais e temporários. Ele mascara a realidade, mas não cura as feridas mais profundas, como poderia? Mas é bom, não é?

Eu deixei o que Aimée falava entrar em minha mente, enquanto ainda admirava toda a beleza daquele local e, lentamente, concordei. Era, era bom; e que mal faria continuar ali mais um pouco? Não conseguia compreender o que de tão ruim tinha em não sentir sentimentos ruins. Fome, medo, dor, não sentiria falta de nada daquilo pois aquilo que estava sentindo agora me colocava em um estado que eu passara minha vida toda buscando. Eu sentia alegria, tranquilidade, paz e amor; e eu não precisava de mais nada além daquilo.

— E é por isso que eu disse que é fácil demais se perder aqui. — Senti o toque de Aimée em meu rosto, virando-me para olhá-la. — E não foi pra isso que eu te trouxe aqui.

— Para que você me trouxe então? — Eu ainda me sentia aéreo, distante, Aimée suspirou.

— Acho melhor conversarmos no seu escritório. — Disse, suspirando uma vez mais antes de segurar minha mão e arrastar-me de volta para a sala de poções.

Eu ainda sentia aquela calmaria que me dominara no momento em que pisei no jardim. A tranquilidade e paz permaneciam ali enquanto fazíamos o caminho de volta e nem eu, nem Aimée, conversamos muito durante o trajeto. Eu estava contente que a sensação não tinha passado e desejava que ela permanecesse por muito mais tempo. Parecendo ler meus pensamentos, Aimée disse:

— Dura algumas horas mesmo depois que você sai de lá. Não é de tudo ruim é só que… é necessário moderação, sabe? E é difícil ter isso quando algo parece ser bom demais. — Pelo breve relato que ela tinha compartilhado comigo eu sabia que ela dizia por experiência própria e que ela não tinha aprendido a hora de deixar o jardim de forma fácil. Já tinha passado por algo parecido, as explicações dela começavam a fazer sentido agora no “mundo real”. Não é porque você deixa de sentir algo que esse algo deixa de existir. Eu entendia bem. — Mas enfim, sua poção.

— Hm?

— Sua poção. Te levei lá por causa da sua poção. O objetivo dela é acabar com os efeitos colaterais causados pelos meios de transporte bruxos, certo? Enjoos, tontura… sintomas leves. A água tem propriedades curativas, pode ser esse o ingrediente que falta na sua receita.

— Mas você mesmo disse que é perigoso.

— O jardim, aqui, sim. No jardim está por todos os cantos, a gente não consegue controlar a dose e nossos sentidos, nosso corpo, tudo, é dominado pela magia da água, e nós nem precisamos bebê-la. Mas em uma poção? Você testaria a quantidade perfeita para não deixar ninguém nesse estado de estupor, apenas o suficiente para afastar os sintomas de aparatação ou viagem por flu. Encontrando a medida perfeita… é inofensivo.

Eu a observei, as engrenagens na minha cabeça girando. Fazia perfeito sentido, e aquele de fato era um ingrediente inédito que eu nunca tinha testado antes. Nos últimos anos eu tive a oportunidade de experimentar ingredientes e misturas diversas e nunca cheguei em lugar algum. Testar não faria mal e, bem, não custava nada.

— Ok… — Disse, ainda pensando em que momento isso poderia ser adicionado e qual a quantidade perfeita de água seria necessária.

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Aimée sorriu, empolgada, e correu para um dos armários, puxando uma pequena escada e subindo alguns degraus na tentativa de alcançar um frasco do tamanho ideal para a coleta do ingrediente. Eu a observei enquanto ainda fazia somas na minha mente, e foi por a estar observando que eu vi quando o sorriso sumiu do rosto dela e ela se desequilibrou do topo da escadinha. A queda não seria tão grande, não mais de um metro, mas a quina da mesa estava perto o suficiente para provocar uma fatalidade. Anos como batedor no time de quadribol da Grifinória me garantiram reflexos bons o suficientes para que eu conseguisse correr até ela e segurá-la no colo antes da queda se completar. Aimée me observou assustada por uns momentos. Quando o susto passou, ela pigarreou e se remexeu no meu colo, fazendo-me colocá-la no chão.

— Você está bem? O que aconteceu?

— Eu estou ótima.

— Tem certeza? Sua boca tá um pouco branca.

— Eu tô bem, James.

— Mas…

— James. Eu tô bem. — E, para contrariar o que ela falava, ela tossiu, forte. — Foi só uma leve tonteira, devo ter levantado rápido demais. — Desde o minuto em que entrara na sala de poções Aimée não se sentara por nem um instante.

— Foi a fonte?

— Pode-se dizer que sim. — Ora, aquilo não parecia promissor de usar na minha poção.

— Nós deveríamos te levar na enfermaria, se a água é assim tão…

— James. — Ela segurou minha mão, olhando-me nos olhos. — Eu estou bem, foi só uma tonteirinha boba, ok? A água não é tão perigosa assim e eu não preciso ir na enfermaria. — Ela não parecia ter motivos para mentir para mim, mas ainda assim eu a avaliei com cautela. — Garanto a você. Agora largue de ser preocupado sem motivos, pegue um bom frasco para mim e eu irei colher a água e voltarei com o novo possível ingrediente da sua poção e uns lanches pra gente.

— Eu posso ir buscá-la, você deveria sentar aqui e descansar.

— Eu. Estou. Bem. Além do mais, você não conseguiria encontrar o jardim nem se tentasse.

— Por quê?

— É encantado, bobinho. É perigoso, lembra? Só uma parte dos funcionários sabe encontrá-lo, por isso demorou tanto para o jardineiro me encontrar, não é como se aquele local precisasse de manutenção frequente.

— Eu sinto que você está tentando boicotar a minha poção.

— Estou tentando ajudar! Você vai ver que se bem controlado não é tão ruim assim. As curandeiras usam da água direto, como eu disse, só é necessário moderação e num local como aquele é difícil saber dosar. Agora vamos, pegue o frasco para mim.

Sem discutir, fiz como ela pediu e a observei retirar-se em direção ao jardim encantado, ainda não completamente convencido quanto a tontura repentina dela, mas não mais interessado em discutir.

Aimée voltou aproximadamente meia hora depois, com o frasco que comportava 1L cheio e algumas bandejas flutuando atrás dela carregadas com comida o suficiente para um brunch reforçado.

Sorri para ela e começamos a colocar a mão na massa.

Aimée continuou por ali, sentada na lateral da mesa, me observando fazer o que eu achava que tinha que fazer. Enquanto comíamos, eu revisei minhas anotações e colhi a água em pequenas ampolas em diferentes quantidades, começaria com a menor delas e, se necessário, aumentaria. Reservei os ingredientes das tentativas que mais chegaram perto de dar certo, separei três caldeirões diferentes e três diferentes modos de preparo aos quais eu acrescentaria a água aos poucos em diferentes momentos para irmos testando. Enquanto isso, Aimée nomeava em francês cada ingrediente, instrumento ou método que eu segurava e usava, garantindo que, mesmo que meu foco estivesse na poção naquele momento, eu ainda aprendesse francês. Além disso, ela me ensinava frases mais comuns do dia a dia e me ajudava a treinar minha pronúncia. Felizmente, eu conseguia fazer mais de uma coisa por vez sem me distrair.

Eu estava tão concentrado, olhando minhas anotações, escrevendo novas e observando a reação daquele ingrediente ao restante da mistura, que nem notei quanto tempo já havia passado. Nunca pensei que me divertiria enquanto fazia a poção, normalmente eu estava sempre super concentrado e sozinho, nervoso às vezes, e a tarefa era em sua maioria estressante, mas Aimée era uma companhia leve e, somado aos efeitos remanescentes do tempo passado no jardim, aquela tarde estava se desenvolvendo em algo proveitoso.

Aimée vez ou outra arriscava em me dar apenas algumas sugestões, nunca de fato colocando as mãos dela na massa. Às vezes me pedia para experimentar alguns ingredientes que ela achava que poderia dar certo, às vezes ela apenas assentia, como se eu estivesse no caminho certo. E eu estava começando a achar que Aimée queria que o mérito fosse meu, completamente meu, mesmo que ela tivesse dado aquela dica que poderia mudar tudo. Achei um belo gesto da parte dela. Ela não tinha conhecimentos tão avançados em poção ou no desenvolvimento delas, mas já tinha lido livros o suficiente e conhecia bem alguns ingredientes e técnicas que de fato ajudavam, e, apesar de estar contribuindo com minha pesquisa naquele momento, não parecia nem um pouco interessada em conquistar os louros caso aquilo funcionasse.

Devido a localização da sala de poções e as poucas janelas por ali, e também devido a boa companhia e ao fato de que aquele tempo estava sendo agradável, eu nem mesmo percebi quando o dia virou noite. O brunch que Aimée trouxera tinha bastado para nos manter saciados ao longo do dia e estávamos concentrados o suficiente para que os giros nos ponteiros do relógio pendurado em um dos cantos da sala não chamasse tanto assim nossa atenção.

Horas depois, muitos outros frascos tinham sido adicionados à bancada e uma dezena de menores caldeirões estavam espalhados pela sala com outras possíveis versões da poção. Já tinha experimentado alguma delas, mas nada significativo pareceu acontecer e, até aquele momento, apenas três receitas tinham dado terrivelmente errado, com uma delas se tornando uma gosma pegajosa, outra evaporando em instantes e a última me fazendo arrotar bolhas por três minutos seguidos. Não tinha sido nada agradável. Mas, com exceção dessas, o acréscimo da água aos demais preparos da poção parecia promissor e eu estava começando a criar certa expectativa de que, talvez, daquela vez, fosse funcionar.

— E agora? — Aimée perguntou, olhando com expectativa para um dos caldeirões que adquiria uma tonalidade azul-menta e borbulhava um cheiro agradável de limão e pimenta.

— Talvez deixar ferver mais um pouco?

— Mas o último não evaporou?

Eu a observei, olhando o caderno cheio de anotações em minha mão e suspirei, desligando o fogo.

— Deixar a mistura descansar então e podemos testar de hora em hora, essa ficou quanto tempo no fogo?

— Desde a adição do último ingrediente você a mexeu por quinze minutos e ela ferveu sozinha por outros trinta.

— Certo. — Concordei, olhando para as anotações que diziam o mesmo que Aimée tinha informado. — Essa aqui não parece muito promissora, já vi essa textura outra vez e … — Calei-me diante ao som das tossidas de Aimée, tirando os olhos das anotações e erguendo os olhos para ela, observando-a curvar-se sobre a própria barriga enquanto a tosse seca aumentava.

Larguei os pergaminhos de lado e me aproximei dela, sem realmente saber o que fazer. Aimée ergueu a mão, como se para dizer que estava bem, mas a tosse continuava e, perdido, busquei um pano limpo e entreguei a ela. Sem discutir Aimée o aceitou, tossindo sobre o pano por aproximadamente mais trinta agonizantes segundos, até que ela enfim conseguiu parar e respirou uma longa lufada de ar, puxando o pano para o colo, mas não antes que eu pudesse ver a coloração carmim deixada sobre o tecido branco.

— Nós vamos para a enfermaria. — Comuniquei, virando-me apenas para avaliar o que eu precisava finalizar por ali afim de evitar um acidente.

— Isso não é necessário. — Ela disse, a voz fraca devido ao tempo forçando a garganta.

— Você claramente não bate muito bem da cabeça se realmente acha isso. — Comentei, tampando um dos caldeirões e abaixando o fogo de outro.

— Eu sei exatamente o que eu preciso e o que é ou não necessário. — Agora a voz dela tinha ganhado um pouco mais de energia, mas ainda não estava convencido.

— Permita-me discordar. — Resmunguei, olhando para ela mais uma vez enquanto reunia todas as anotações e a vi revirando os olhos.

— Se é assim que vai ser agora então com licença, tenho coisas mais importantes para fazer. — Ela se levantou para sair dali, mas tão logo deu dois passos e caiu, a tosse forte voltando por mais alguns segundos.

Corri até ela, segurando-a no meu colo enquanto ela se estabilizava, o sangue agora manchando minha camisa. Eu a encarei, sério. Ela me olhou de volta com a mesma determinação.

— Eu só preciso de um pouco de ar fresco. Ficamos tempo demais aqui embaixo, é só isso.

— Aimée…

— Por favor. — Ela soou cansada, exausta. O choro contido explícito em seu tom. — Só me leva, não sei, para a torre de astronomia, eu tô bem.

Ela estava mais pálida, e o fato de que ela tinha me pedido para levá-la à torre ao invés de ter levantado-se e saído andando me dizia tudo que eu precisava saber. Mas Aimée segurou com um pouco mais de força na minha camisa e, observando-a, eu suspirei. Então a segurei firme no colo e fui com ela até a torre de astronomia.

Foi ao sair para o exterior do castelo que eu percebi que realmente tínhamos passado muito tempo no subterrâneo. A lua estava alta no céu e o restante da escola estava consideravelmente silenciosa, indicando que possivelmente já tinha dado hora do toque de recolher. Igualmente em silêncio, segui com Aimée para a torre e, ao acomodá-la no chão no mesmo lugar em que nos conhecemos apenas na semana anterior, permanecemos ambos calados por um tempo prolongado. A tosse não retornou, e a quietude se prolongou até que eu comecei a ficar incomodado, virando-me para Aimée para confrontá-la sobre aquilo.

— Meu nome é Aimée e eu estou há 7 meses e 7 dias sem o meu amor.

Eu trinquei o maxilar, ela claramente sabia o que eu estava prestes a dizer e tinha dado um jeito de desviar daquilo, mas a cor tinha voltado ao rosto dela e ela parecia realmente mais estável, então eu apenas suspirei.

— Oi, Aimée.

— Às vezes tê-lo perdido parece ser a pior coisa no mundo inteiro. Não existe dor, doença ou angústia maior do que a ausência dele, do que não tê-lo aqui, comigo. Quando estávamos juntos era… — Ela balançou a cabeça. — Eu sei que não, mas eu sentia como se fosse invencível, como se nada pudesse me abalar, como se eu pudesse superar qualquer desafio. Mas sem ele? Eu me sinto fraca e perdida e como um castelo de cartas no meio de uma tempestade, como se o menor dos sopros pudesse me derrubar. E acho que essa é uma das piores partes de ter deixado ele ir.

Eu a olhava com atenção, tentando ler nas entrelinhas, buscando compreender aquilo que ela não dizia com palavras, sem realmente conseguir chegar a nenhuma conclusão. Ela não estava bem, isso era um fato, mas por quê? Era realmente a ausência do amor dela que a deixava daquele jeito? E a ida à fonte a tinha inebriado em uma utopia que, quando arrancada dela, o próprio corpo reagiu negativamente? Eu queria perguntar, eu queria entender além, mas a verdade é que só nos conhecíamos há uma semana, e por mais que eu tivesse me afeiçoando a Aimée eu sabia melhor do que forçá-la em um assunto que ela claramente não queria se aprofundar, então suspirei.

Aimée riu e enxugou uma lágrima que escapou pelo canto do seu olho, balançando a cabeça.

— Patético, não é?

— Nem um pouco. — Ela me olhou, como se achasse que eu estava tirando onda com a cara dela, mas viu logo que não era o caso. — Eu sequer a tive e consigo entender perfeitamente o que você está falando. Desde que eu percebi o que sentia por ela, o pouco tempo que passamos juntos eu… com ela eu me senti completo, inteiro. Como se todo o tempo antes de perceber isso eu tivesse sido apenas uma alma cheia de buracos vagando pelo universo e encontrá-la tivesse enfim preenchido o que faltava em mim. E é exatamente isso, como se não houvesse nada no mundo que eu não pudesse enfrentar desde que ela estivesse do meu lado. Mas sem ela? — Foi a minha vez de balançar a cabeça e rir sem humor. — Eu mal consigo me convencer a levantar da cama todas as manhãs. A gravidade parece ser o pior chefão de qualquer videogame e ela seria a única arma capaz de me ajudar a combatê-lo, mas se encontra fora do meu alcance e…

Mordi a boca, não querendo chorar novamente. Agora eu conseguia perceber que o efeito da água do jardim já estava deixando meu sistema, pois a aflição causada pela ausência de Elisabeth já enrolava as garras ao redor do meu peito, ameaçando parar as batidas do meu coração e me sufocar de volta àquela espiral de desesperança e solidão. Respirei fundo, tentando afastar aquele sentimento.

— Você acha que isso um dia vai passar? — Aimée perguntou, a voz dela um sussurro. Eu ri, daquela vez com um pouco mais de humor, como se ela tivesse contado uma ótima piada.

— Eu tive minha quantidade de amores por aí, sabe? Mulheres de todos os tipos e jeitos, personalidades. Eu pensei que tinha me apaixonado algumas vezes e de fato me apaixonei algumas outras e os fins… as quebras, os rompimentos, nunca foram fáceis. Alguns foram piores que outros, eu sei que não sou tão velho assim, mas minha bagagem é pesada e tiveram momentos em que eu não via saída. Em que o mundo deixou de fazer sentido e que o chão sumiu debaixo dos meus pés. E eu sempre achei que nunca ia passar, que aquele era meu limite, que eu nunca iria melhorar. E, cada vez, por pior que tenha sido, eu sempre me recuperei. Mas, hoje, olhando para trás, eu sei que era diferente. Cada vez, cada coração partido, cada estrada que parecia não ter fim que eu acabei pegando… nada, absolutamente nenhuma delas, se equipara nem um pouco a isso. A esse sentimento, a essa tristeza. A esse vácuo que existe em mim desde que eu descobri o que tinha perdido. E para além da dor, da angústia e do desespero, eu sei que eu atingi o limite agora, que esse é o ápice de dor que eu vou sentir, é tudo que eu aguento, tudo que eu consigo suportar. Nada vai ser pior do que isso, porque isso é infinitamente pior do que todas as vezes que eu achei que era o pior. E… — suspirei, balançando a cabeça. — Se você se identifica com esse sentimento, com essa certeza, então eu sinto muito em ser o carrasco que precisa te dar essa sentença, mas não, não vai passar, nunca.

E essa realização me atingiu com uma calma fria. Eu poderia seguir em frente, viver minha vida, alcançar sonhos e viver. Mas aquela dor, aquela ausência, aquela falta, nunca ia passar. Poderia se assentar em mim, virando uma companhia conhecida que com o passar do tempo não fosse ser mais tão incômoda, mas não iria embora e iria me encontrar assim como ainda me encontrava ali. Nos momentos de silêncio e solidão, quando não tinha ninguém observando, sussurrando no meu ouvido que eu tinha perdido aquilo que mais me desejava por estupidez minha. Outro suspiro seria convocado afim de conter o choro.

— Mas viveremos apesar dela. E vamos nos acostumar à dor até que ela se torne parte de nós. E acho que isso é o melhor que temos a tirar dessa situação.

Aimée não disse nada, e uma vez mais o silêncio se instaurou entre nós dois, mas dessa vez ele se prolongou por muito mais tempo. Cada um de nós perdidos nas próprias dores e pensamentos para dizer qualquer coisa além. Quando a claridade da manhã despontou no horizonte Aimée tinha adormecido no chão de pedra e, segurando-a no colo uma vez mais, levei-a até a enfermaria, onde expliquei para a curandeira de plantão o acontecido da noite anterior antes de deixá-la lá e seguir para meu quarto, onde, por mais uma noite, seria assombrado pelo fantasma de Elisabeth.



(...)



Nos dias seguintes Aimée não mencionou absolutamente nada sobre o fato de eu tê-la levado à enfermaria contra a vontade dela. A curandeira não me ofereceu nenhuma informação quanto ao quadro da garota para além de um “ela está bem” rosnado em um inglês muito carregado e eu fui esperto o suficiente para não abordar o assunto eu mesmo. E, para todos os efeitos, ela realmente parecia bem, na medida do possível.

Ela não apareceu novamente na sala de poções, mas continuamos nos encontrando na biblioteca todas as manhãs e na torre de astronomia todos os sábados à noite para desabafarmos sobre as dores de nossos corações partidos. Às vezes, entre as aulas, ela perguntava como a poção estava indo, e, apesar de ter conquistado avanços significativos, eu ainda não tinha alcançado nenhum resultado realmente satisfatório. Madam Millefeuille tinha visto meu trabalho e me parabenizara, apesar de não ter tido nada a acrescentar que pudesse auxiliar na conclusão daquela tarefa. E os dias se tornaram semanas com facilidade.

Com Aimée me acompanhando nos estudos da língua, agora Lisa só me encontrava nas noites silenciosas, vezes me tentando em sonhos em que eu sentia o corpo dela no meu como se eu realmente estivesse com ela e vezes me torturando com sua ausência, me lembrando daquilo que eu nunca teria, que ela não pertencia a mim. Naquela noite, o sonho que se apossou de mim, para o paraíso e o inferno, foi o do primeiro tipo.

Eu estava em Hogwarts e tudo ali parecia mais vívido do que uma memória, quase como se fosse real. Eu sentia com vivacidade a grama sob meus pés, a textura áspera e seca causada pelo final da estação provocando cócegas em meus pés descalços. A lua estava alta no céu e à minha frente estava o lago negro, refletindo o astro como um espelho enorme e cristalino. Durante meus anos naquela escola o lago tinha sido um local destinado à marotagens e o responsável por muitas das minhas detenções. Mas eu nunca estava sozinho em nenhuma delas, Fred, Dominique, meus demais colegas de quarto na Grifinória, a galera do time e, claro, Lisa, comumente estavam junto comigo, se divertindo, vivendo; Fui tomado pela lembrança de um episódio no quarto ano quando Lisa e eu acabamos perdendo uma aposta após uma partida e precisamos pular no lago negro à noite. Nus. Eu ri da memória. Sem malícia ou segundas intenções na época, era só um momento de diversão entre amigos, mas a risada não duraria muito. Talvez, se naquela época…

— James. — A voz dela era uma carícia em minha nuca que me deixara imediatamente arrepiado. Meu nome nos lábios de Lisa era uma súplica, uma prece, a origem de todos os pecados e o fruto do santo graal. Vinha carregada de desejo e culpa, e de uma necessidade que parecia calar todo o resto.

— Lisa. — Na minha boca o nome dela saia como um rosnado, um rugido, algo cru e selvagem de quem precisava dela.

E lá estava ela quando eu me virei, olhando para mim, ao alcance da mão, os olhos castanhos refletindo a luz da lua, as pálpebras dilatadas, os lábios carnudos entreabertos quase como em um convite. Lisa usava uma camisola fina que pouco fazia para realmente cobrir-lhe o corpo, o tecido sedoso marcava cada curva, me atiçando, me atraindo.

— Linda. — Ela era tão linda, em cada detalhe, cada centímetro. Eu queria, eu precisava senti-la. Ela corou, o sangue acumulado em suas bochechas visível mesmo à luz prateada, o olhar abaixando para os pés, envergonhada.

Atraído por ela, como um imã que puxa um metal, eu me aproximei. O topo da cabeça de Lisa chegava logo abaixo do meu queixo e eu sabia que se a puxasse para mais perto ela se encaixaria perfeitamente no meu abraço. Cada pelo do meu corpo estava arrepiado com a proximidade dela. Era apenas um sonho, eu sabia disso, mas ainda assim parecia real, como se ela de fato estivesse ali, à minha frente, o perfume dela dominando meus sentidos.

Gentilmente toquei o queixo de Lisa e ergui o rosto dela para mim. Os grandes olhos castanhos, os lábios carnudos e tão convidativos, o nariz delicado. Cada detalhe dela combinava perfeitamente e me dava mais certeza de que ela era perfeita, porque ela era.

— Você é tão linda. — Repeti, porque não havia mais nada que eu pudesse dizer.

Ainda corada, Lisa não disse nada, apenas me encarou por um prolongado minuto, e a consciência do olhar dela sobre mim fez meu corpo reagir de todas as formas inapropriadas que você puder imaginar, mas eu permaneci estático, eu próprio a observando, quando Elisabeth ergueu as mãos para tocar meu rosto. A sensação dos dedos dela em minha pele me fez fechar os olhos e respirar fundo, Lisa não se intimidou por isso, delineando cada centímetro da minha face, da mandíbula aos olhos, sem pressa, com um toque tão delicado que provocou um rugido de antecipação em mim. Lisa pausou a carícia, mas eu não queria que ela parasse. Segurando a mão dela com a minha, pressionei a palma de Lisa em meus lábios e a ouvi suspirar, som que me fez abrir os olhos novamente e encontrá-la ali, os lábios entreabertos levemente úmidos, quase um convite.

— Como isso é possível? — A voz dela não passava de um sussurro e o toque de Elisabeth desceu pelo meu pescoço e ombros, eu engoli em seco, imóvel. — É tão… real. — Ela soava sem ar, e eu fiquei assim assim que Elisabeth colocou as mãos por dentro da camisa fina que eu vestia, tocando meu abdômen enquanto mantinha os olhos nos meus. Deus… — Eu quero você, James.

Era um pedido, uma ordem, uma simples constatação. E, Merlin, ela não precisava repetir.

Eu a puxei para perto, colocando minha mão na nuca dela, trazendo o rosto de Lisa ao meu. Eu olhei em seus olhos brilhantes de entendimento e, sem perder nenhum segundo, eu tomei-lhe os lábios, sedento por seu gosto, pela lembrança daquele beijo que, ali, era tão boa quanto eu me recordava. Lisa não pestanejou, ela, na verdade, estava tão ansiosa quanto eu e não perdeu tempo ao invadir minha boca com a língua, as mãos bagunçando meus cabelos e arranhando minha nuca, enquanto eu a puxava para mais perto, apertando sua cintura, deslizando o toque por sua pele. Desesperado, mas sem pressa, eu queria tomá-la por completo ali, sem demora, mas, também, queria desfrutar do momento com calma, regozijar de cada reação dela, cada arrepiar, cada suspiro.

Minhas mãos passaram pelas suas coxas, a içando para que pudesse ficar em meu colo. Ela arranhou minha nuca, sem parar o beijo, enquanto as minhas mãos apertavam a sua nuca e eu a levava até uma árvore, descendo-a assim que a encostei no tronco. Lisa sorriu quando me separei para puxar ar, me olhando com admiração e desejo. Mas a fome dela parecia superar a minha, e ela não queria perder tempo.

Ela deslizou a alça da camisola, enquanto eu a observava ficar nua em minha frente. Minha respiração ficou presa em meus pulmões, eu observava os seios médios empinados e entumecidos pela excitação, a barriga lisa e o paraíso que se encontrava — e me aguardava — entre as pernas de Lisa. Meu Deus, as coisas que eu queria fazer com ela! Mas eu também queria fazer aquele momento durar, queria que Lisa gozasse chamando o meu nome. Então me aproximei, beijando a curva de seu pescoço, enquanto uma das minhas mãos massageava os seus seios e a outra descia as minhas próprias calças, deixando o meu membro duro encostar em sua barriga.

Lisa gemeu ao sentir a minha pele na dela, sua mão descendo para tocar meu pau ereto. Sua mão macia e quente me envolveu e, dessa vez, quem gemeu fui eu. Meus lábios trilharam um caminho de volta para sua boca gostosa, aproveitando o gosto do seu batom, da sua língua tocando a minha. Ela começou a fazer movimentos de vai e vem com a mão, enquanto saboreava o nosso beijo, gemendo contra os meus lábios. Então, levemente, minha mão direita desceu até onde eu queria sentir. Acariciei sua parte mais íntima, sentindo que ela encharcava meus dedos com a sua própria excitação, ouvindo-a gemer outra vez em aprovação.

Então, com delicadeza, eu a peguei pela cintura e a deitei no gramado. Aquele sonho era tão real que, por todo aquele tempo em que eu admirava seu corpo, seus peitos gostosos de chupar subindo e descendo, eu esqueci que era apenas um sonho.

Eu podia sentir cada pedacinho dela. Meu pau estava apontando para cima e eu o alisei com a minha própria mão, olhando Lisa abrir as pernas, me dando total visão do que eu queria; Seu sorriso safado e seu olhar felino eram um convite para que eu a fodesse como eu sempre quis desde que a vi no casamento de Teddy e Victoire, então eu me ajoelhei, passando o dedo pela sua entrada, a fazendo arquear o corpo. Ela estava molhada, tão molhada que eu resolvi colocar os meu dedos cheios de sua excitação na boca, sentindo o seu gosto na minha língua, ouvindo sua voz murmurar algo que eu não compreendi, mas que indicava que Lisa havia gostado de me ver chupando os dedos. Era melhor do que eu tinha imaginado.

Gemi junto com ela e me apoiei na grama. Seus cabelos estavam espalhados em volta de seu belo rosto o que me fez sorrir. Lisa retribuiu o sorriso, uma confirmação.

— Eu quero você aqui, James — disse ela, tocando o próprio clitóris. Aquilo era tão sexy e excitante, que eu fui ao Céu e voltei. — Me come. Agora.

Meu coração parou por dois segundos, antes que a ordem de Lisa ecoasse diretamente para o meu pau. Sem deixar os seus olhos, me posicionei entre as suas pernas e, segurando a base do meu membro, guiei para dentro dela, sentindo-a me apertar para me receber. Lisa gemeu alto, e eu também, arqueando o corpo outra vez. Eu ainda não tinha entrado todo quando ela me olhou. Os olhos cheios de luxúria e brilho e...

— Eu te amo, James — confessou e eu meti bem fundo, sentindo todas as suas paredes me apertarem.

— Eu também te amo, Elisabeth...

E, então, pude sentir a mudança no ambiente, como se Lisa estivesse sendo puxada para longe de mim, como se o mundo estivesse saindo de foco, ficando mais nublado e distante. Eu implorei para que ela não fosse embora, para que não me deixasse, e Lisa pediu pelo mesmo, mas, contra nossos desejos, eu acordei sozinho em minha cama em Beauxbatons. O perfume de Lisa, o aroma suave de pêssego e framboesa que só combinava com ela, estava impregnado em meus lençois, assim como a sensação do corpo dela ao meu, como se o sonho tivesse sido real, como se aquilo tivesse realmente acontecido.

Frustrado, forcei-me a deixar o quarto e começar meu dia.

(...)

Naquele momento eu estava fazendo valer o nome dado aos corredores. Meus passos eram tão apressados que as pessoas em meu caminho se afastavam para os lados, cientes que eu seria incapaz de desviar delas a tempo. Beauxbatons era um castelo gigantesco e, apesar do meu bom preparo físico, eu estava quase completamente sem ar ao alcançar a biblioteca. Por sorte, Aimée estava na recepção, conferindo algo com a bibliotecária-chefe. Minha chegada espalhafatosa atraiu a atenção de ambas.

— Está feito. — Foi tudo que eu consegui verbalizar, inclinando-se sobre meus joelhos enquanto tentava devolver o ar aos meus pulmões.

Observei pela visão periférica enquanto Aimée dizia algo para a bibliotecária antes de vir em minha direção, puxando-me para fora da biblioteca.

— Tem certeza? — Levantei um dedo, pedindo um instante até ter certeza que conseguiria me expressar com eloquência. Quando soube que estava bem puxei um frasco do meu bolso e mostrei-o a Aimée.

— Eu tenho quase certeza. Não sei explicar, mas está diferente de todas as outras vezes. O cheiro, a textura… Não queria testar sem você, mas Aimée… acho que dessa vez vai dar certo.

Ela olhou do frasco, que levava em si um líquido leitoso em um tom turquesa suave, para mim e suspirou.

— Espere aqui que eu já venho. — Pediu e voltou para a biblioteca.

Às vésperas do feriado de Natal os alunos de Beauxbatons quase não saiam da biblioteca, estudando para as provas que encerrariam aquele período. Enquanto eu, o assistente de poções que agora era intermediário básico na língua, quase não estava recebendo demandas — os alunos preferiam não arriscar nenhum erro de tradução ao tirar dúvidas comigo — Aimée estava atarefada até o último fio de cabelo, mas após alguns segundos ela apareceu.

— Você está me devendo um almoço. — Resmungou ao começar a me acompanhar.

Como devido aos feitiços de segurança era proibido aparatar dentro das propriedades do palácio, Aimée não tardou a tomar a dianteira e me guiar em direção à pequena vila nas montanhas frequentada pelos alunos de Beauxbatons. Assim como Hogsmeade, a escola francesa também dispunha de uma vila próxima para que os alunos mais velhos pudessem visitar aos finais de semana e Tehridge possuía um charme único para uma cidade construída nas montanhas, sendo os diversos morros uma de suas principais características.

A apenas vinte minutos de caminhada do palácio, não demoramos ao alcançar a entrada da vila e, então, paramos a caminhada.

— Como 70ml nos deixou felizinhos demais e 30ml não foi o suficiente e da última vez 50ml pareceu promissor, mas tínhamos deixado tempo de menos no fogo… não sei explicar Aims, mas acho que agora realmente vai dar certo.

Aimée me observou, sorrindo, e concordou.

— Ok, vamos testar. — Convidou e, tirando meu próprio frasco do bolso, tiramos a rosca e brindamos antes de tomar a poção.

— Hm… — Analisei.

— Tem um gostinho de… canela?

— E Alecrim?

— Pelo menos não dá vontade de vomitar e isso é definitivamente um avanço. — Eu ri, concordando. — Ok, você vai primeiro. — Doce como um coice de mula, Aimée me deu um empurrão pra frente; Resmungando, concordei.

Concentrei-me na loja de chocolates e quitutes da sra. Faëlle, que ficava numa das primeiras elevações da fila e, fechando os olhos, aparatei para lá.

Abri os olhos, enxergando Aimée lá embaixo, a alguns metros de distância, e analisei a situação. Sem tontura, sem enjoo. A empolgação ameaçou me dominar, mas já tínhamos passado daquele primeiro nível antes. Ergui um polegar para Aimée, que me respondeu da mesma forma antes de desaparecer no ar, reaparecendo mais a frente e acima, perto à fonte congelada da praça local. Observei-a atento, apreensivo, e exibi um largo sorriso quando ela levantou ambos os polegares. Juntos, então, olhamos para o pico mais alto da cidade, onde ficavam as residências dos habitantes de Theridge, mais afastado do comércio e dos adolescentes cheios de hormônios. Respirando fundo, contei até três e, então, aparatei para lá.

A distância era maior, tanto em latitude quanto em altitude, e, também devido ao ar, quase sempre sentíamos os efeitos comuns da aparatação ao tentar chegar ali dos primeiros níveis da vila. Senti a brisa gelada da aproximação do inverno tocar meu rosto e evitei abrir os olhos. Uma vez mais respirei fundo e aguardei. Um segundo, dois, três. Meu estômago permaneceu no lugar; o mundo estava tão estático quanto deveria estar. Aimée se encontrava a poucos metros de mim.

— Funcionou. — A voz dela era um sussurro. Eu ainda estava me acostumando àquela ideia. — James, funcionou! — Agora ela tinha dito mais alto, pulando em mim em um abraço que não tardou a me contagiar. Era aquilo. Tinha dado certo. Depois de tantos anos tentando e… Aimée me sacudiu. — Você tá bem? — Ela cobrou e eu sorri, um dos sorrisos mais sinceros que eu já tinha dado desde que chegara ali.

— Quero dizer, ainda precisamos testar pó de flu e chaves de portal e ainda precisamos avaliar se… — Aimée me segurou pelos ombros e me sacudiu, sorrindo abertamente. — Funcionou! — Repetiu uma vez mais e eu, então, me permiti celebrar aquela, muito merecida, vitória.

Aimée e eu saímos para comemorar depois daquilo, ela provavelmente levaria uma bronca da bibliotecária, mas não se importava. Então aproveitamos que já estávamos pela vila e fomos a um bar local para rir, brincar e, de fato, comemorar minha conquista, que Aimée me ajudou a alcançar com a ideia brilhante de usar a água da fonte Flamel.

— E é uma ótima coisa que são apenas 50ml não é? Quero dizer, se fosse muito mais a fonte poderia acabar secando ou sei lá… — Aimée comentou antes de lançar um dardo no alvo da parede e eu parei cada movimento meu.

Ah, droga.

— Ah, droga. — Aimée virou-se para me olhar, curiosa. — Eu não posso depender de Beauxbatons para o resto da vida. Quero dizer… mesmo que eu fizesse um acordo de exportação com o castelo e eles conseguissem fornecer determinada quantidade da água todo o mês, quero dizer, isso custaria uma boa grana, não é? E aumentaria os custos de produção que automaticamente aumentaria também os preços da poção e eu sempre pensei nela como uma poção acessível a todos e seria praticamente impossível replicá-la em casa porque não seria fácil encontrar todos os ingredientes e… ah droga.

Resmunguei, jogando-me na cadeira mais próxima, completamente frustrado. Tinha alcançado o sucesso apenas para perceber que precisaria voltar à estaca zero ao lidar com um ingrediente inacessível. Droga.

Aimée me observou por um longo minuto, estudando minha expressão de pura tristeza e frustração, pensativa.

— Há uma lenda… — Ela começou, tomando a cadeira ao meu lado e suspirou. — E eu quero que saiba que é só isso, uma lenda, mas, bem, é uma possibilidade. Enfim. Lembra como eu te disse que Nicolau supervisionou a construção da fonte centenas de anos atrás? Ele já era um alquimista de referência naquela época, mas isso foi antes da pedra filosofal. Você consegue ver por onde estou indo? — Ela me cutucou, fazendo-me sair do meu estado de autopiedade para lhe dedicar minha atenção completa. — Há histórias de que a água só possui as propriedades que possui devido à pedra filosofal e que a nascente da água da fonte está repleta de pedras assim e que foi lá, durante a construção da estátua, que Nicolau encontrou a pedra que o permitiu fazer tanto por tanto tempo. Quero dizer, se isso for verdade significa que, se encontrarmos a nascente, e a pedra filosofal realmente for a fonte das propriedades da água, então qualquer água em todo o mundo pode ser encantada para atender as necessidades da sua poção e, sei lá, você pode vender a água também.

Foi a minha vez de observá-la atentamente, apesar de uma lenda, o que Aimée dizia fazia sentido, mas…

— E se for só uma lenda e não existir pedra ou nada e for só uma nascente comum?

— Aí você volta pros seus estudos, mas vale a tentativa, não vale?

Eu precisei de mais um drink e longos minutos pensando no assunto, discutindo com Aimée possibilidades e probabilidades antes de, enfim, decidir que sim, valia a pena e não custava nada tentar.

(...)

Na semana seguinte, a maioria dos alunos tinha viajado de volta para casa para celebrar o natal. Com a decisão recente de que iríamos buscar a nascente da fonte, que descobrimos não ser de tão fácil acesso assim, eu decidi passar o feriado por ali mesmo e Aimée disse que não tinha para onde ir de qualquer jeito — e se recusou a falar mais sobre em nosso encontro semanal do CCP. Eu sentia falta da minha família e sobretudo de passar o Natal com eles, fazia anos, mas eu ainda não estava pronto para voltar à Inglaterra, pelo menos não antes de Lisa estar definitivamente casada com o suposto amor da vida dela, algo que eu sabia que aconteceria na primavera devido a uma carta não-solicitada que Fred tinha me enviado basicamente contando sobre o casamento dos pombinhos. Eu a tinha queimado e enviado uma resposta nada amigável ao meu primo, mas a informação tinha ficado comigo e, bem, era apenas melhor esperar aquele pesadelo acabar antes de voltar para casa.

Nos dias seguintes à descoberta e decisão, Aimée e eu tínhamos nos dedicado a encontrar formas de achar a nascente da fonte e naquela manhã de Natal parecíamos não ter nada melhor para fazer, então lá estávamos nós, de volta ao jardim, sentindo o melhor que já tínhamos sentido nas últimas semanas e com uma missão.

— Você trouxe a poção? — Ela perguntou enquanto abria um antigo livro em uma página marcada.

Aimée tinha passado horas visitando os registros e segredos do Palácio e encontrara um ritual que, supostamente, revelaria um portal secreto da fonte à uma rede de cavernas subterrâneas que poderiam nos levar até a nascente das águas. Esse ritual envolvia uma poção e um feitiço mais longo do que eu era capaz de lembrar, então dividimos as tarefas.

Entreguei a Aimée um frasco com poção cremosa de coloração esverdeada e ela me entregou o livro, que foi cuidadosamente levado até a saída do jardim para não ser estragado pela água enquanto Aimée, com a poção, desenhava um quadrado no chão antes de entoar as palavras decoradas do feitiço, margeando a forma desenhada no chão.

— Se estivéssemos na Idade Média você iria parar uma fogueira num estalar de dedos. — Comentei e ela, sem interromper o cântico, me lançou um olhar fuzilante. Eu sorri. Então ela parou, e nada aconteceu. — Tem certeza que decorou as palavras certas? — Perguntei, olhando para o quadrado no chão.

— Tem certeza que usou os ingredientes certos? — Ela retrucou, em um tom quase infantil de pura implicância.

— Mas é claro que eu… — E, então, o chão abriu.

A grama verde foi engolida e eu puxei Aimée pela cintura, dando alguns passos para trás enquanto o chão tremia e o quadrado desenhado por ela se expandia. Durou cerca de cinco segundos, mas logo tudo estava calmo novamente e, hesitantes, nos aproximamos da entrada, observando com atenção lá dentro.

— É uma escada? — Perguntei, observando a descida irregular que sumia escuridão adentro.

— A poção é sua, você vai primeiro. — Aimée disse, me dando um empurrãozinho.

— E se isso estiver fechado quando voltarmos?

— Aí aparatamos para algum lugar?

— E se não conseguirmos aparatar?

— James, vai! — Eu suspirei. Certo. Sabíamos dos riscos e já tínhamos tomado providências com base em tudo que pesquisamos nos últimos dias, não tinha o que dar errado.

Lumus. — Sussurrei para minha varinha ao erguê-la e então tomei a dianteira na descida para o desconhecido.

Quando a escada terminou estávamos em uma caverna escura e úmida que tinha cheiro de… água. Como aquele aroma que fica no ar após uma chuva de verão. Um pequeno riacho corria por ali, vindo do norte e seguindo despretensiosamente para o sul. Estávamos à margem dele, sem realmente tocar na água, e uma vegetação baixa preenchia a orla de ambos os lados, com pedras, plantas e algas que deixavam o chão escorregadio.

— Tome cuidado. — Aconselhei Aimée, enquanto a ajudava a manter equilíbrio com a mão disponível e enquanto íamos na direção contrária ao fluxo da água.

A caverna era tranquila e, apesar do riacho não parecer ser muito fundo, decidimos não nos arriscar em vão enquanto fosse possível, seguindo pela margem até as paredes e teto se expandirem em uma mata cujas árvores mais próximas ao rio vibravam em um verde intenso e primaveril, já aquelas mais distantes estavam secas e salpicadas por neve, indicando que os efeitos que a água exercia nos jardins também era replicado naquela floresta.

Provavelmente devido à estação em que estávamos não ouvimos muitos barulhos de animais, mas ainda assim nos mantivemos restritos às margens do rio, seguindo-o em direção a sua origem sem nos afastar um do outro e mantendo as conversas baixas, evitando acidentalmente provocar qualquer possível criatura que vivesse por ali.

Precisamos parar para comer em certo momento, tínhamos levado as provisões necessárias para aquela excursão particular. Apesar de não sabermos exatamente o que nos aguardava, estávamos preparados e o Sol já começava a descer no horizonte quando o rio foi se afunilando. Aceleramos o passo, acompanhando-o ficar cada vez menor até uma pequena elevação em que, entre duas pedras, a água emergia e desaguava numa singela cachoeira no rio que seguia ao sul.

— É aqui. — Disse num sussurro, observando a nascente e as pedras ao redor. Olhei para Aimée, apreensivo e, então, começamos a explorar.

Nada ali parecia demais, ou encantando, ou filosofal. Papai já tinha me dito sobre a pedra filosofal uma vez e se eu me lembrava bem das histórias ele tinha mencionado que ela era vermelha, o que definitivamente não era o caso ali. Reviramos os pedregulhos abaixo da pequena cachoeira e eu cheguei até mesmo a testar a pedra em que a nascente estava, sem sucesso. Após um longo período de testes inefetivos, sentamos, exaustos.

— Tem de haver algo que estamos perdendo. — Aimée comentou, tão frustrada quanto eu, mas definitivamente mais otimista.

— Talvez seja hora de desistirmos. — Comentei, já sem esperanças, e ela suspirou. Apoiando a cabeça em meu ombro e observando o rio.

Permanecemos ali por um tempo, eu perdido em meus pensamentos voltados aos estudos e já pensando em maneiras e possibilidades de replicar o sucesso de outra forma, até Aimée levantar-se de uma só vez e caminhar até a nascente, fazendo concha com as mãos e tomando a água que saia dali.

— O que você está fazendo? —Perguntei, mas ela não me respondeu, esperando um instante antes de caminhar alguns passos para o sul, para além de uma cortina de algas em que o rio começava a de fato expandir e ganhar forma e repetir o que tinha feito na nascente ali. Tão logo a água do rio tocou seus lábios Aimée virou-se para mim.

— São as algas! — Afirmou, correndo até a própria mochila para puxar um frasco. — Quando eu tomei a água da nascente nada aconteceu, mas então aquela água ali? É a mesma sensação das águas do jardim, é quase como se eu conseguisse sentir a doen… faz eu sentir minha pele ter mais colágeno, mas nós olhamos as pedras e… eu estive observando e depois de passar pelas algas… você consegue ver? — Ela falava animada e rápido demais, se perdendo nos próprios pensamentos enquanto, de luvas, puxava uma das algas para a superfície. — Ela adquire uma coloração mais esverdeada ao passar pelas algas, é quase imperceptível, mas se você observar com atenção…

Então eu o fiz e, de fato, prestei atenção na água.

Continuava sendo transparente, é claro, mas refletindo a tonalidade do ambiente ao seu redor a água deixava as pedras límpidas refletindo o tom mais terroso das pedras que a envolvia, já mais para frente, rodeada pelas algas, uma singela coloração esverdeada a fazia parecer mais… potável, saudável.

Pensei em todo o trajeto, como aquelas algas estavam em todos os cantos desde a saída do portal até ali e as peças se encaixaram. Não era a água em si que possuía aquelas propriedades, mas as algas, que mergulhadas naquelas águas fazia com que elas replicassem a essência das algas da melhor forma possível, servindo para muito mais do que apenas filtrar a água de impurezas aquelas algas a contaminavam com sua própria magia, deixando-a levar o crédito por todo seu trabalho.

— Você é genial… — disse em um sussurro, levantando-me e abraçando Aimée, rodopiando-a no ar enquanto ela ria. — Claro que precisamos fazer testes para confirmar, mas… Eu poderia te beijar agora!

— Por favor, não, eu sei que você ama outra.

E, como a presença da água — das algas — servia para acalmar nossas dores mais profundas, nós dois rimos daquela situação.

Como já estava ficando tarde e tínhamos diversos testes para fazer, decidimos acampar por ali aquela noite. Coletamos o máximo de material possível, tanto das algas nas margens quanto aquelas presentes na cortina divisória, para meus estudos, evitando afetar muito aquele ecossistema, mas reunindo o suficiente para as testagens e, claro, para replicá-las caso aquela fosse realmente a solução de nossos problemas.

Com a noite se aproximando, seguimos para a área em que a neve cobria o chão e as árvores estavam secas, evitando os efeitos da água que, apesar de mínimos se comparado ao jardim, ainda nos afetava, e subimos nossas proteções e acampamento por ali, onde também jantamos e nos preparamos para dormir.

Ao encostar a cabeça no travesseiro aquela noite, e não apenas porque a água me tinha feito bem, eu estava confiante e alegre, verdadeiramente alegre, pela primeira noite desde que tinha deixado a Inglaterra.

Acordaria ao som de tossidas ao longe e de vômito. Demoraria alguns segundos para compreender onde eu estava e o que poderia estar acontecendo. Sem sonhos naquela noite eu apenas estava desnorteado pelo sono, mas bastou olhar ao redor para lembrar-me que eu estava acampando com Aimée em nossa busca pela fonte da água milagrosa que tinha sido a solução de minha poção. E Aimée não estava na barraca.

Pulando para fora da cama, segui os sons de doença e encontrei-a ajoelhada no chão da floresta, a neve branca manchada de uma coloração escura que, mesmo a luz da lua, eu soube ser sangue.

— Não! — Aimée encontrou forças para dizer, fazendo-me parar por um instante. Um instante.

— Para o inferno você. — Ralhei, aproximando-me dela e, contra fracos protestos que ela não conseguiu manter por muito tempo, visto que a tosse logo retornou, peguei-a no colo e a levei de volta para a barraca, colocando-a perto do fogo e a aquecendo apropriadamente, aumentando o tamanho de um frasco que serviria como um balde para que se ela ainda precisasse botar os bofes para fora ela o fizesse.

Sem forças para lutar contra mim, Aimée permaneceu ali e de fato usou o balde duas vezes. Eu não era fã de vômito, mas pelo vidro transparente eu não conseguia tirar os olhos do sangue que ela continuava vomitando, inquieto, sem saber o que mais fazer ou para onde ir, com medo que ela não aguentasse a aparatação e começando a me odiar pelo fato de tê-la levado ali. Mas, droga, depois daquela vez na sala de poções ela nunca mais demonstrara nenhum sintoma de nada e...

— Eu estou bem, James. — Ela disse, secando a boca com um paninho e largando o frasco de lado. Eu ri. Gargalhei mesmo, de tão nervoso que eu estava no momento.

— Você pode estar muitas coisas, bem não é nenhuma delas. — Aimée suspirou, cansada, e fechou os olhos. — Você não pode morrer! — Disse aproximando-me dela, dando-lhe tapinhas no rosto. Ela encontrou forças para me empurrar e riu.

— É a maldita água. Eu não deveria tê-la tomado, mas… — Ela balançou a cabeça, abrindo os olhos novamente. — Reage ao remédio, é sempre pior. Eu tomo a água e me sinto curada, mas sei que não estou, então obviamente sou responsável e continuo tomando as medicações para… bem, me enganar. Mas o resultado é sempre esse.

— O… curada de quê? Que remédio? O que você está falando? — àquela altura eu poderia somar um mais um, mas, bem… eu tinha acabado de acordar.

— Eu estou morrendo, James. — Simples assim, ela tinha falado. Vi Aimée respirar fundo mais uma vez e, daquela vez, bocejar. — Não se preocupe, eu não vou morrer agora, ainda tenho alguns meses.

— O quê? — Eu não conseguiria ser mais eloquente que isso.

— Consegue me dar um pouco d’água? Água normal, por favor.

Eu obviamente não demorei a atendê-la, e aguardei, sem saber o que mais falar ou como agir. Aimée tomou a água sem pressa, então encarou o nada por uns instantes.

— Meu nome é Aimée e eu estou há nove meses sem o amor da minha vida. — Ela disse, eu me sentei ao lado dela, atento a cada mínimo movimento que ela fizesse.

— Oi, Aimée.

— Dez meses atrás eu estava com gripe pufosiana e fui ao curandeiro para tratar e, enfim, você sabe. Acontece que não era gripe. Pelo menos não só isso. O curandeiro realizou alguns exames e, encurtando a história… eu fui agraciada com uma rara doença de sangue, incurável, e no máximo mais dois anos de vida. O tratamento poderia prolongar mais alguns meses de vida, mas sem certeza, e os remédios apenas ajudam que eu não definhe na cama antes da hora para ter uma vida normal o máximo de tempo possível. Mas eu ia morrer de qualquer jeito, muito antes do esperado e… Elliot não se importava com isso. Ele quis adiantar o casamento, queria que vivêssemos o máximo que pudéssemos antes do fim, prometeu que cuidaria de mim até o último minuto e… eu não podia fazer isso com ele, vê-lo destruir a própria vida assim por uma moribunda que… — Aimée balançou a cabeça. — Eu apenas não podia. Eu sabia que me ver morrer iria matá-lo e… ele é tão jovem e bonito e tem a vida toda pela frente. Ele poderia conhecer alguém e se apaixonar sem precisar viver com meu fantasma sempre o assombrando e… Você entende, não entende? Eu apenas não podia. Então eu fui terrível com ele, o pior que eu pude ser. Chamei-o de nomes que eu sequer consigo repetir, disse que não o amava, que nunca tinha… — Ela parou, os olhos transbordando, o nó na garganta tão forte que era quase visível. — Eu precisei. Eu não queria, mas eu precisei, você melhor do que ninguém entenderia. Porque o que eu queria era irrelevante, não importava o quanto tê-lo ao meu lado por tudo isso fosse a melhor forma que eu conseguisse imaginar de passar meus últimos dias, o que eu queria não importava se isso fosse custar a felicidade dele pelo resto da vida, então… eu precisava quebrar o coração dele agora, sabendo que ele conseguiria colar os pedacinhos com o tempo, ao invés de prendê-lo a mim para sempre. Eu, doente, fraca, quebrada. Sem cura. Ele é a pessoa mais incrível que eu conheço James e ele não merecia isso, eu precisava… — Ela suspirou, mas não conteve o choro. Sem saber mais o que dizer, eu me aproximei e a abracei.

Eu entendia, mas não conseguia imaginar a dor que Aimée sentia; eu tinha perdido o meu amor por ser burro, ela o tinha, mas… o destino tinha sido cruel, com os dois. Apertei-a em meu abraço o mais forte que pude sem machucá-la e deixei que ela chorasse até pegar no sono, perdido nos meus próprios pensamentos enquanto refletia sobre tudo aquilo que ela tinha me dito.

Na manhã seguinte reunimos os frutos da nossa excursão e voltamos para o castelo. Aimée estava melhor, mas ainda assim tomei todo o cuidado do mundo com ela e, ao chegarmos no palácio, forcei-a a ir até a enfermaria para garantir que estava realmente bem. A curandeira já sabia do que se tratava e, daquela vez, ela não tinha sido tão ríspida comigo.

Aparentemente as duas já tinham uma rotina e eu aguardei ao lado da maca de Aimée enquanto ela era cuidada e atendida, observando-a com atenção.

— Então você só tem mais um ano de vida? — Fiz a pergunta que estava me perseguindo desde a noite anterior, ela deu de ombros.

— Por aí, um pouco mais. — Assenti.

Enquanto eu a observava pensei no que Giulietta disse quando decidiu por nós dois não lutar pelo nosso amor. Quando não me deu a escolha de lutar, de arranjar uma maneira de tirá-la de onde ela estava... de fazer alguma coisa a respeito. Aimée tinha feito a mesma coisa com o amor dela, tinha chegado naquela conclusão ao longo das últimas horas. Mas Aimée não podia ter escolhido por ele, embora eu entendesse os seus motivos. Se fosse eu, tinha certeza que não sairia do lado dela, mesmo que ela me chutasse a bunda, literalmente.

E, pelo que eu via, eu realmente não sairia. Aimée tinha se tornado minha amiga e ninguém merecia passar por um tratamento tão doloroso como aquele sozinha. Mesmo que ela não quisesse, eu ficaria. Então, eu suspirei, passando as mãos em meu rosto, me recostando na cadeira, colocando as mãos em cima da barriga e virando a cabeça para vê-la.

— Eu entendo porque fez isso, Aimée... mas, ninguém, ninguém, mesmo que seja o seu amor, deve tirar a escolha da outra pessoa. — Ela me olhou, os olhos enchendo de lágrimas ao perceber o que eu estava dizendo. — Eu ficarei ao seu lado, irei às consultas...

— Já...

Ergui uma das mãos para cima, interrompendo-a de protestar.

— Eu sou seu amigo, ficarei ao seu lado. Você não vai me fazer mudar de ideia, não vai conseguir me tirar do seu pé — falei, a olhando seriamente. — Mas você irá iniciar aquele tratamento e vai prolongar sua vida ao máximo que você conseguir, porque você é jovem e merece viver Aimée. Todos temos tempo contado nessa terra, a única diferença é que você sabe o seu, mas isso não significa que você pode desistir. Então você vai fazer o tratamento e eu irei estar ao seu lado para isso. Mas quero que fale com ele de volta. Pode não ser agora, pode ser depois... mas volte a falar com ele. Não fique sem o amor da sua vida... pelo contrário, você deveria aproveitar cada segundo com ele. Você sabe que pode ser a última vez que respira — eu não tirava os olhos dela, queria que ela visse que eu estava falando sério. — O amor da minha vida está viva e saudável, mesmo não estando comigo, mesmo que acabe comigo, mas saber isso me basta. Mas ele... — balancei a cabeça. — Ele pode não vê-la mais e isso é injusto. — Aimée piscava, os olhos marejados, ouvindo cada palavra que eu dizia. Respirei fundo, voltando a me inclinar em sua direção. — Quero saber de cada consulta, cada remédio que precisar. Se não me falar tenho meus métodos de saber. Vai descobrir que eu sou incrivelmente irritante quando coloco alguma coisa na cabeça, Aimée.

Ela ficou me encarando por longos segundos, enquanto eu sustentava o seu olhar. Eu não sabia como ela havia feito com que o namorado dela fosse embora, mas eu era o seu amigo. E incrivelmente mais teimoso. Ele com certeza deveria estar sofrendo em algum lugar, preocupado com ela. Eu insistiria que ela falasse com ele de novo, que ela tentasse. E se ele não quisesse pelo que ela tinha feito, bem, ao menos ele saberia que ela ainda estava viva. E se o que Aimée tivesse feito realmente tinha sido o suficiente para ele odiá-la, então o lado positivo seria ela saber que Elliott não era realmente o amor da vida dela e não passar os últimos dias de sua vida arrependida e solitária.

Por fim, Aimée soltou um longo suspiro, assentindo.

— Combinado, James. — Respondeu, percebendo que eu não ia ceder.

— Ótimo. — Ficamos em silêncio por alguns segundos, até que eu soltei: — Já ouviu as músicas da Taylor Swift?

(...)

Depois do Ano Novo Aimée se organizou para dar início ao tratamento, o que me deixou imensamente orgulhoso de mim, por tê-la convencido a fazer isso, e dela, por fazer. Eu imaginava que não era fácil e que devia ser desesperador viver basicamente sabendo o dia em que tudo aquilo terminaria, mas saber que ela estava disposta a viver da melhor forma os dias que lhe restavam me deixava contente. Não era porque a vida dela estava acabando que ela deveria agir como tal.

Ao longo da semana eu fui intimado a almoçar com meus pais, meus irmãos e Fred, para compensar minha ausência no Natal e para que eles se certificassem que eu não estava fugindo novamente. O restaurante era no centro de Paris e seria a primeira vez que eu os veria em semanas, então estava, inicialmente, empolgado. Ele era em um bairro trouxa, onde havia muitas lojas e restaurantes próprios para casamentos, em um dos que Ruby e eu fomos para provar o buffet. Ao perceber a escolha temática casamenteira para aquele almoço confesso que fiquei um pouco bravo com meus pais, claro que eles desconheciam minhas dores quanto ao casamento de Lisa, mas eles deveriam saber melhor do que me levar para um destino cheio de noivas histéricas quando eu mesmo não tinha nenhuma.

Caminhando entre as muitas pessoas que, inabaladas pelo frio, criavam uma pequena multidão, eu me direcionava para o restaurante naquela manhã quando uma mulher interceptou meu caminho, apontando para a vitrine de uma loja e falando mais rápido do que eu conseguia entender na língua, assim eu só entendi palavras específicas como vestido, preço e lindo, enquanto ela apontava freneticamente para a vitrine da loja a nossa frente e uma mulher que a acompanhava.

— Hã… — Olhei para o vestido que ela apontava, tentando tecer algum comentário que pudesse ser produtivo, mas algo dentro da loja me chamou a atenção.

Franzi a testa, impelido por algo que eu não sabia o que era, mas me aproximei da grande janela de vidro, olhando para além dos vários estilos de vestidos de noiva expostos, e senti o ar deixar meus pulmões.

Ela estava linda. Os cabelos longos e cheios estavam presos em um coque mal feito, mas o vestido que usava era rodado. Por mais que eu soubesse, de alguma maneira, que aquele vestido de noiva não combinava com ela, Lisa estava estonteante. O vestido era estilo princesa, com um corpete apertado em seu busto, mas caia rodado até o chão, branco com detalhes em pérolas. Uma mulher mais velha e loira batia palmas, empolgada, enquanto a sombra de uma careta passou por Lisa no espelho, mas ela sorriu e meu coração afundou em meu peito quando, observando o próprio reflexo, os olhos de Lisa se arregalaram ao encontrarem os meus.

Eu me afastei de uma só vez antes que ela virasse a cabeça em minha direção, dando alguns passos para trás e resmungando para a noiva histérica que tinha me parado que eu não falava francês, antes de disparar rua adentro. Enquanto eu acelerava meus passos senti a dor do meu coração partido percorrer meu corpo. Eu não podia respirar direito e minha corrida não tinha nada a ver com aquilo. Lisa ia se casar. Casar. Com outro. E não comigo. Aquela era a verdade mais dolorosa que eu podia perceber. Meus olhos se encheram de lágrimas e eu me apoiei em meus joelhos, tentando respirar, mas a percepção de que eu havia perdido a minha chance com Lisa me doía até os ossos.

As lágrimas caíram de meus olhos sem que eu tivesse notado, enquanto eu lutava para tentar me recompor. Encostei a cabeça na parede, tentando secar as lágrimas, sabendo que agora era real, que não tinha volta, e que Lisa tinha feito a sua escolha, mas eu sabia exatamente o caminho que percorreria depois dali e eu simplesmente não conseguia lidar com aquilo assim, ali, daquele jeito, em frente aos meus pais.

Reunindo forças que eu quase não tinha, enxuguei as lágrimas para fora de meus olhos ao tempo que uma noiva parecia correr em minha direção, mas, com a visão ainda nublada pelo choro, aparatei para a vila próxima a Beauxbatons e, em seguida, enviei um patrono chorando para Aimée.

(...)

Os meses seguintes passaram como um flash. Eu me mantinha ocupado, porque era a única forma de eu permanecer vivo, e ainda assim continuava sendo assombrado pela imagem de Lisa em um vestido de noiva. Os testes com as algas tinham sido bem-sucedidos e, apesar da alga diretamente não produzir o efeito esperado em minha poção, ela encantava qualquer água que tocasse por mais de 24h e sua reprodução acontecia de forma acelerada e efetiva, o que tinha resolvido muitos dos problemas que eu tinha imaginado inicialmente. Aimée aguardava por sua primeira consulta, marcada para meados de fevereiro, e, enquanto isso, eu a ajudava com a poção-remédio que ela tomava regularmente.

Aimée tinha me resgatado naquela tarde em Theridge e nossos encontros semanais eram o que me mantinham são, por mais que todos os sábados eu sentisse aquela sensação de pânico tomar conta de mim, a vontade de sequestrar Lisa e forçá-la a me amar crescente. Felizmente Aimée me lembrava o porquê daquilo ser crime, enquanto ela própria compartilhava seus medos de ser rejeitada por Elliott após tudo que ela tinha feito, após tanto tempo e, sobretudo, por ainda não querer que ele a visse definhando.

Eu tentava argumentar, dizer que ela não poderia adiar aquilo por muito tempo, mas ela me garantia que adiaria apenas até começar o tratamento, até saber que teria pelo menos um pouco mais de tempo para saber que ele poderia perdoá-la, pois não suportaria morrer sabendo que ele a odiava, o que eu conseguia compreender.

Mais rápido do que eu pude prever, Fevereiro chegou e, com ele, o tratamento de Aimée teria seu início. Como prometido, eu estaria ao lado dela em todo momento, então assim eu estava enquanto caminhávamos pelas ruas de Paris em direção ao hospital-bruxo local. Por mais que eu quisesse estar ali exclusivamente por e para Aimée, naquele ambiente, não pude deixar de lembrar de Lisa experimentando os vestidos de noiva; senti o aperto em meu peito ficar um pouco mais forte, mas tratei logo de deixar esse sentimento guardado bem fundo em meu coração para que eu pudesse remoê-lo mais uma vez mais tarde. Agora, eu precisava me concentrar em Aimée e eu não podia ceder à minha própria dor naquele momento, mesmo que ela estivesse ali, latente e pulsante.

Ela conhecia as ruas melhor do que eu, obviamente, o que fez com que eu me desse conta que eu e ela compartilhamos apenas nossas dores um com o outro e não as coisas boas que já vivenciamos, os lugares aos quais já visitamos, as lembranças que nos faziam felizes. Isso fazia de nós péssimos amigos? Balancei a cabeça, enquanto Aimée me guiava pelas ruas de Paris, onde as pessoas andavam de um lado para o outro, uns com pressa, outros simplesmente apreciando os pontos turísticos que a cidade oferecia.

Aimée disse que o hospital não era longe, mas eu não me importava de andar. Ajudava a me distrair e eu gostava de olhar as ruas cheias de turistas aproveitando o dia, portanto, eu apenas assenti, a seguindo por algumas quadras ainda cheias de pessoas, até que viramos uma esquina e nos deparamos com um bairro mais quieto. Era mais residencial do que turístico e isso era interessante. As casas eram uma mistura de antigas com algumas mais modernas, mas sem nenhuma muvuca para nos atrasar.

Seguimos na mesma calçada até que Aimée virou uma esquina e eu fui junto. Andamos apenas mais uns cinco minutos e chegamos a um pequeno prédio comercial que, em uma primeira olhada, parecia abandonado. Aimée seguiu em direção a ele e logo a fachada do Hospital Jeanne d'Arc des Mystères Cachés surgiu à nossa frente, brilhante, lustrosa e mais movimentada do que os trouxas conseguiam perceber.

Aimée foi direto à recepção, comunicando seus dados e a consulta que tinha agendada para aquela tarde, a recepcionista pegou a ficha de Aimée nas mãos e pediu para que aguardássemos o curandeiro chamá-la. Assentimos e nos sentamos nas cadeiras que haviam ali.

— Você quer que eu entre? — sussurrei, virando a minha cabeça para ela.

— Não — respondeu e eu abri a boca para discordar, mas Aimée balançou a cabeça. — Por favor, James, preciso fazer isso sozinha. Você estar aqui já significa o mundo pra mim, mas… Por favor.

Engoli em seco e assenti, compreendendo o temor de Aimée e de que ela, talvez, realmente precisasse enfrentar aquilo sozinha, ao menos aquela etapa. Eu estaria ali de qualquer forma.

Depois de meia hora aguardando, finalmente o nome de Aimée foi dito e eu me levantei com ela. Passei as mãos em seus cabelos, olhando em seus olhos castanhos escuros, com um sorriso no rosto.

— Seja qual for o diagnóstico, eu estarei aqui — garanti e ela assentiu. Beijei a sua testa e voltei a me sentar na cadeira, balançando as pernas de nervoso.

Aimée entrou e pareceu que ficou lá dentro por uma eternidade. Eu estava nervoso, minha ansiedade atacava, aguardando que ela voltasse. Eu realmente não tinha uma pista do que estava rolando lá no consultório

Olhava ao redor, observando pacientes que entravam e saíam, tentando entender o que tinha acontecido que os levara até ali, mas isso era apenas para me distrair do que eu realmente me importava. Rangi os dentes, batendo o pé no chão repetidas vezes, até que ouvi uma porta se abrindo.

Àquela altura, já havia mais gente no consultório, aguardando a sua vez de ser atendido. Eu me levantei de supetão, com o coração acelerado e expressão ansiosa. Tinha que ter algum tratamento, alguma possibilidade de que Aimée pudesse se livrar dessa doença, Céus! Por mais que ainda escrevêssemos em pergaminhos e que celulares atrapalhasse nossa magia, não é como se vivêssemos na Idade Média, a medicina bruxa precisava ter avançado algo e…, quando ela apareceu na recepção, o seu rosto estava branco.

Ela levantou o olhar para mim e o meu coração parou. Merda, eu odiava suspense!

— E aí?! — perguntei, assim que ela, em passos lentos, chegou até mim.

— James... — ela começou e depois olhou ao redor. — Lá embaixo eu te conto, vem — disse, me puxando para fora do consultório, nos despedindo da recepcionista.

Já estava sentindo frio na barriga por conta da ansiedade de saber o que havia acontecido enquanto, em silêncio, a seguia escada abaixo. Tínhamos alcançado o térreo, mas Aimée seguiu em frente, deixando o prédio, e eu estava a ponto de gritar quando ela parou.

Aimée me olhou e sorriu. E eu parei. Ajoelhando-me e a puxando pela mão, indicando que eu não iria a lugar nenhum mais. O nervosismo cresceu em mim de repente, uma sensação de certo tentou me acalmar, mas eu precisava ouví-la dizer.

— Me conta, se não eu que vou morrer! — exigi, a olhando.

— James... eu... eu nunca estive doente. — ela falou e eu fiquei estático. Aimée estava pulando, o êxtase exalando em gritinhos empolgados que explicaram o porquê de ela não ter dito no hospital. — James — deu uma risada feliz, enquanto eu ainda a olhava. — Ele leu e releu meus exames. Desde o primeiro, até os últimos. E eu nunca estive doente! Devem ter trocado minha ficha com algum outro paciente, confundindo os exames, mas eu estou tão saudável quanto um erumpente!

— Mas... mas... e as fraquezas, o sangue...? — perguntei, confuso.

— Eram por conta dos remédios que eu tinha que tomar. Na tentativa de tratar uma doença que não existia eles acabavam deixando apenas os efeitos colaterais, que foram reforçando a ideia de uma doença que… nunca existiu.

Eu poderia ter me apegado àquele grotesco erro médico. A como aquilo era perigoso e irresponsável da parte dos curandeiros, como a medicação desnecessária tomada por longos períodos de tempo poderia realmente a ter colocado em risco. Poderia ter causado confusão no hospital e ameaçado processos e outras coisas mais usando do meu sobrenome para acabar com a carreira do responsável por ter deixado Aimée naquele estado física e psicologicamente por um descuido que não deveria ter existido. Poderia, também, constatar como a água realmente estava apenas tentando curá-la, expulsando o que estava fazendo mal do organismo dela. Poderia ter feito muitas coisas, mas ao observar a leveza no rosto de Aimée, a alegria pura e simples em saber que estava bem, eu apenas exibi um largo sorriso, igualando minha felicidade à dela e a puxei para um abraço apertado, erguendo-a no ar.

— Iremos comemorar em grande estilo! — Decretei, ao colocá-la de volta ao chçao, passando meu braço em torno de seus ombros e o braço dela em volta da minha cintura, inclinando-me para dar um beijo em sua bochecha e, juntos, seguimos em direção a um restaurante chique dos arredores, rindo de alívio e felicidade.



(...)

Com o final do inverno chegando e depois de ficar aliviado com o não-diagnóstico de Aimée, eu pude me concentrar melhor em meus estudos. Minha primeira aula, dada completamente por mim, tinha acontecido mais cedo naquele dia e eu estava em êxtase até aquele momento. Ophelia tinha me elogiado, não apenas me parabenizando pela aula como dizendo que eu levava jeito para a coisa. Eu tinha brincado com os alunos ao longo da lição, mas ainda assim consegui incluir todo o conteúdo da aula nos minutos que tivemos e, ao final, os próprios alunos me elogiaram, afirmando que a aula tinha sido incrível e, alguns, até mesmo dizendo que era a primeira vez que realmente entendiam uma aula de poções. Aquilo tinha me deixado elétrico. Mas toda aquela energia sumiu no momento que o envelope que eu agora segurava chegou em minhas mãos.

Alguns minutos antes eu estava sentado com Aimée em nosso lugar secreto e o vento estava um pouco mais cortante que o normal, mas estávamos confortáveis, nos apoiando um no outro. Estávamos em silêncio naquele momento, aproveitando apenas a felicidade de que ambos estávamos bem. O vento balançava os nossos cabelos e eu lia um livro de didática sobre poções, já que a prova da professora seria na sexta-feira. Mas eu não conseguia me concentrar totalmente.

O sol estava quase se pondo quando eu finalmente a olhei.

— Você tem que falar com ele — falei, de repente, fazendo com que Aimée me olhasse. — Com o seu ex. Você tem que falar com ele — meu olhar encontrou o dela, mas Aimée simplesmente suspirou e balançou a cabeça.

— Ele não vai querer falar comigo. Não depois... não depois do que eu fiz — a voz dela era derrotada, como se não houvesse mais esperança. — De qualquer maneira, ele deve estar com outra agora — Aimée estremeceu apenas ao cogitar essa possibilidade.

Eu balancei a cabeça, virando-a para mim, para que ela pudesse me olhar. Eu segurava os seus ombros, prestes a falar, quando uma coruja simplesmente pousou no chão na nossa frente, estendendo a patinha. Para mim.

Franzi a testa e peguei o que parecia...

Merlin, não. Não. Isto não podia... não era... Abri o envelope, com as mãos trêmulas, cujas as letras eram extravagantes e em relevo, sabendo exatamente do que se tratava. Aimée me olhava preocupada, mas tudo o que eu conseguia enxergar eram as datas, os nomes em letras grandes e o motivo daquele convite.

Era o casamento dela. Deles. Eles me enviaram o convite! Meu coração despencou ainda mais. Não, não havia sido ela que tinha me enviado. Foi Stephen, que não sabia absolutamente nada do que tinha acontecido, do que eu sentia e de que Lisa não queria que aparecesse lá. Meu coração batia desesperadamente em meu peito e eu tentava usar a técnica de respiração que Viola havia me ensinado. Entretanto, aquilo não estava funcionando. Eu simplesmente não conseguia mais ouvir o vento ou a voz de Aimée chamando meu nome, eu não conseguia enxergar. Eu não conseguia encontrar minhas forças para poder erguer os olhos e contar o que estava acontecendo.

Senti as mãos de Aimée me sacudirem e, finalmente, uma lágrima caiu de meus olhos. E depois outra. E depois veio um monte delas. Aimée ainda não sabia o que estava acontecendo, mas me segurou pelos ombros e me abraçou. Eu deixei que ela me envolvesse, eu deixei que ela retirasse o convite de casamento de Elisabeth Carter — faltava o Stella. Eu gostava do Stella — e Stephen Thomas. Ela leu e depois me abraçou outra vez, sussurrando um “Ah, James...”, enquanto eu me derramava em lágrimas, sentindo uma dor ainda pior do que saber que Lisa não queria mais me ver.

— Ei, espera... tem outro... — ela olhava para baixo, enquanto eu só olhava para frente; para o nada que era a minha vida, mas que eu teria de conviver e seguir (tentar) seguir em frente. — James... eu só vou falar com Elliott se você for a esse casamento.

O que ela estava falando? Eu a olhei, quase falando que ela era louca, que eu não era masoquista daquela forma. Mas ela me estendeu um bilhete, escrito com a letra de, que eu reconheci entre as lágrimas, Fred. Ela me entregou o bilhete e meu coração deu uma guinada.

“James, Stephen pediu que eu lhe enviasse o convite. E eu lhe peço para que não deixe que esse casamento aconteça. Não é... certo. Fred. E Dominique.”

Olhei para cima, fungando, sem entender absolutamente nada do que aquilo queria dizer. Mas o sorriso que Aimée esboçava era intenso, era alegre e era... esperançoso.

— Mas... mas — eu gaguejei, não conseguindo entender e balançando a cabeça. Aimée segurou minhas mãos, ainda com um sorriso no rosto.

— James, ela não quer se casar com ele — Aimée constatou. Franzi a testa e olhei novamente para o bilhete de Fred, meu cérebro de uma colherinha não assimilando as palavras escritas por Fred e as palavras ditas por Aimée. — Presta atenção. — Ela virou o meu rosto para que eu pudesse encará-la. — Ela não quer se casar com ele, James. E eu só irei falar com Elliott, se você for neste casamento e impedir que o amor da sua vida fique com outro sem saber o que você sente. Se eu terei que ser sincera, então você também terá que ser.

Eu... eu estava confuso. Estava perdido, não conseguia assimilar o que aquele bilhete queria dizer. Uma hora, meu coração parecia estar mais estilhaçado do que antes; na outra, um pedido para que eu impedisse o casamento? Igual aos filmes trouxas que eu assisti um milhão de vezes? E se fosse mentira? E se aquilo fosse alguma armação? Eu não queria ter esperanças. Eu não iria suportar que o meu coração fosse quebrado em mais mil pedaços, não sobraria nada dele, se fosse mentira. Eu não me recuperaria. E eu não aguentaria ver a decepção nos olhos de Elisabeth se eu tentasse interromper o casamento dela com o cara que ela amava.

Entretanto, a caligrafia era de Fred. Sua letra era muito feia para que alguém tentasse imitar, nem com magia isso seria possível. Ele conhecia o casal muito mais do que eu. Li outra vez o bilhete, ainda com as mãos quentes de Aimée em meu rosto. Meus olhos fitaram os de Aimée, que tinha um sorriso no rosto, enquanto o meu coração dava uma guinada e batia loucamente dentro do meu peito.

— É... — peguei o convite e vi a data, meu coração afundando no meu peito. — É no dia da prova final, Aimée.

Meus olhos agora estavam desesperados, procurando uma saída. A esperança que eu sentia logo sumindo do meu peito. Eu não podia largar tudo o que eu tinha feito aqui, mesmo que isso significasse ter alguma chance com Elisabeth.

Aimée viu o horário e me dirigiu o olhar.

— Então eu sugiro que faça a sua aula rápido. Até a noiva entrar ainda tem o sermão. Até o sermão tem o sim e o não — disse ela, ainda sorrindo. — Vai dar tempo. Estarei com você.

As palavras dela soaram confiantes e, por isso, meu estômago deu sinais de vida, se revirando e me fazendo sentir aquele típico frio na barriga. Minha aula começaria às 17:30. Lisa entraria na igreja às 19:00. Daria tempo. Seria apertado, mas com o amparo da magia não era impossível de acontecer. Minha aula estava programada para duas uma hora e vinte minutos. Se eu me esforçasse…

Pela primeira vez desde que vi Stephen se ajoelhar e colocar o anel no dedo da minha leãozinho, eu via alguma luz no fim do túnel. Sorri, um sorriso sincero, que chegava aos meus olhos, e Aimée me acompanhou. Eu iria àquele casamento.

(...)

Preparar uma aula inteira para meus colegas de turma, algo que eu tinha me preparado ao longo dos últimos meses para fazer, usando das aulas que eu dava em Beauxbatons para me treinar àquilo, seria mais fácil se eu não tivesse um casamento para impedir. Minha mente girava em torno do peso certo dos ingredientes para cada poção e o que eu diria quando me levantasse no “Fale agora ou cale-se para sempre”. Minha ansiedade nunca esteve tão alta, a ponto de eu não conseguir pregar os olhos durante duas noites seguidas.

Aimée sempre estava do meu lado, é claro. Agora, sabendo que ela nunca esteve doente, estava engraçadinha, dizendo que minha vida era muito melhor do que novela turca ou drama coreano trouxa (eu não sabia o que eram novelas daquela maneira, mas, depois de um tempo, eu descobri), e que amava fazer parte do elenco. Revirava os olhos, esperando encontrá-la a qualquer momento com um balde de pipoca, aguardando as próximas cenas. Juro, quando se descobre que sempre foi saudável, de repente, a pessoa muda da água para o vinho. E sem magia.

Com a aula finalmente planejada e ainda sentindo que poderia morrer de arritmia cardíaca — pesquisei no dicionário —, sexta-feira chegou me trazendo olheiras profundas e um textinho escrito à mão do porquê que eu amava Elisabeth. Mas, por incrível que pareça, a ansiedade apenas se dava ao fato de que eu iria impedir o casamento do amor da minha vida, com quase 99% de chance de que ela não sentisse o mesmo e me mandasse catar coquinho — o 1% se devia a esperança de que ela, talvez, com uma chance remota, tivesse retribuído o beijo porque queria isso há algum tempo — e não porque eu estava prestes a dar uma aula que poderia me fazer reprovar naquela matéria e perder meu ano de estudo e dedicação. De alguma maneira, quanto a isso, parecia que eu tinha nascido para dar aulas. Eu queria isso. E sabia que eu seria ótimo. Mesmo que fosse para meus colegas de classe e mesmo que, ao contrário de em Beauxbatons, eu saber que não teria apoio algum da real professora, eu me sentia preparado para aquele trabalho. Era a outra coisa que fazia meu coração pedir por uma aposentadoria especial (antes do tempo previsto).

A hora da aula chegou e, enquanto meus colegas tomavam seus lugares, eu senti meu nervosismo dobrar, agora por causa do trabalho. Eu era o primeiro da turma a apresentar aquele trabalho, tinha me voluntariado àquilo logo na primeira aula, preferia arrancar logo o band-aid e entender o que eu poderia melhorar assistindo a meus colegas nas semanas seguintes. Por mais tranquilo que eu estivesse e por mais que eu já viesse dando aulas em Beauxbatons há alguns meses, era a primeira vez que eu estava realmente sozinho lecionando. E a ampulheta na mesa que pingava grãos de areia lentamente, e rápido demais, não estava me ajudando a manter a calma.

Eu tinha enviado outro bilhete para Fred e Dominique dizendo que eu estaria lá. Olhando de relance para o relógio, não daria tempo de me emperequetar. Teria de ser um terno qualquer; não podia desperdiçar nenhum segundo a mais.

Quando, finalmente, a aula terminou e madame Bonaccord me parou para falar como seria o método de avaliação e me informar que a nota seria dada ao final das apresentações, eu já estava na porta. A professora não estava entendendo, mas eu fiquei ali até que ela me dispensou. Corri com toda velocidade do mundo até o meu dormitório, encontrando Aimée com um terno em mãos.

— Não pergunta, só veste e some daqui — disse, balançando a roupa na minha frente, enquanto eu me dirigia para o banheiro, sem antes olhar para ela.

— Não pense que eu esqueci do que me disse. Eu vou atrás do meu amor e você do seu.

Ela apenas revirou os olhos e me mandou embora com um aceno apressado. Entrei no banheiro e tomei um banho rápido, sem nem me olhar no espelho, se eu parasse para olhar eu demoraria. Aimée me desejou boa sorte e eu saí na costumeira lareira da faculdade.

Com os cabelos ainda molhados. saí do local igual a um louco e fiz uma chave de portal com a flor do smoking para a casa dos meus pais. Não havia uma luz sequer ali; Eu nunca tinha ido à igreja em que Lisa iria se casar, não sabia onde ficava, por isso pedi ajuda para ninguém mais, ninguém menos, que meus fieis escudeiros: Dimitri e Teresa, o casal mais mais do Brasil e Bulgária.

— Segure no meu braço, idiota — disse Teresa, com um vestido lindo azul escuro.

— Tá linda — falei, segurando o seu braço.

— Eu tô do lado dela e você só repara nela — reclamou Dimitri, segurando o braço da namorada.

— Meu Deus — foi a única coisa que ela disse antes de aparatar até o local que ficava a igreja.

Quando aterrissamos alguém falava além das portas de madeira. A voz monótona do que eu acreditava ser um padre. Aimée estava certa: eu consegui chegar antes do fim. Entramos sem dificuldade na capela e eu olhei para Teresa bem na hora em que o padre introduziu o discurso que levaria à troca de votos.

— Eu vou matar você por ter me feito perder o começo. — Teresa resmungou.

— Eu te defendo, a parte da festa é muito mais divertida. — Dimitri disse brincando. Teresa bateu nele e resmungou algo sobre não ter festa, mas eu não conseguia mais ouvir ou ver nada que eles faziam, apenas Elizabeth, de noiva, no altar, com outro homem.

O celebrante direciona a ela uma pergunta simples, respondida com um simples sim ou não. “Elisabeth Stella Carter, você aceita Stephen Richard Thomas como seu legítimo esposo, para amá-lo e respeitá-lo, por todos os dias de vossas vidas, até que a morte os separe?”

Meu coração batia irregularmente, mas, qualquer que fosse a resposta, eu impediria aquele casamento.

E um parênteses? O nome do meio de Stephen era péssimo.

Notas finais
Madrugada do dia 12/09, eu deveria muito ir dormir pq tô cheia de trabalho pra fazer com prazos apertados, mas tô meio melancólica então decidi na verdade vir nas notas do meu celular pra encher o saco de vocês quando for postar o capítulo, entre hoje ou amanhã. Mais do que nunca a gente tá próximo do final e a certeza que eu dou a vocês é que As Mulheres de James Sirius Potter vai ser concluída aqui, em 2024. E eu tô completamente devastada com isso kkkkk não to pronta pra dizer adeus, então vou ficar enrolando vocês aqui por que quanto mais vocês demorarem pra ler esse capítulo mais vai demorar pra acabar de fato então vem cá, vou contar uma outra história pra vocês pra evitar que as notas finais do último capítulo ultrapasse a quantidade total de palavras dessa fic. As Mulheres de James Sirius Potter nasceu dez atrás, entre agosto ou setembro de 2014. Não sei a data exata, mas sei que foi por aí. Não sei também como ou porquê essa ideia surgiu na minha cabeça, o que me inspirou, o que foi que eu vi ou li que fez ela brotar assim na minha mente, eu só sei que eu sabia exatamente o título que ela teria e qual seria o final dela. A priori minha ideia era mais direta: os capítulos nomeados em homenagem a cada mulher marcante da vida de james seriam caracterizados por uma ficha da dita cuja, foto no começo do capítulo, informações essenciais como nome, idade, casa e outras besteiras que eu julgasse necessário e, então, um breve conto que relatasse naquela curta história exatamente como a mulher em questão tinha o marcado, narrado pelo próprio James. Dois ou três contos pras mulheres que fossem mais importantes, mas simples assim, direto e curto. Laís e eu nos conhecemos no tópico de uma fanfic que era postada na finada comunidade do orkut Fanfictions de Harry Potter em 2012. Alguns de vcs sequer devem saber o que é isso, mas existiu e nossa amizade nasceu ali, depois eu conheci as fanfics dela, ela as minhas e com o tempo essa relação de conversas aleatoriamente em tópicos e fóruns e trocar leituras de fics foi evoluindo ao ponto de que, nesses meados de 2014, ela fosse uma das primeiras pessoas pra quem eu corria quando tinha a ideia de uma história. E vice-versa. A gente trocava documentos, ideias e ia se dando ideias pra melhorar nossas fics individuais, com James Sirius não foi diferente, e sendo Laís apaixonada por James eu fui direto pedir a opinião dela e dicas, visto que na época ela tinha uma ideia melhor de quem James era do que eu. Laís escreveu as primeiras palavras dessa fic. A ideia tava na minha cabeça, eu sabia exatamente o que eu queria, eu só não sabia como começar. "Quer que eu te ajude? A gente pode escrever juntas!" Não tenho as provas concretas dessa mensagem, ao contrário dessa fic meu histórico do whatsspp não durou 10 anos, mas eu sei que essa foi a exata mensagem que ela me mandou. E que bom que ela mandou, e que bom que eu aceitei, porque umas horas depois, quando ela me mandou aquela cena do James pendurado no relógio, eu soube que aquela ideia que eu tinha não era prática e que As Mulheres de James Sirius Potter não poderia ser uma mera coleção de fichas e contos, mas, sim, deveria ser uma história completa sobre a vida do James, desde o comecinho. E assim foi. Depois dessa primeira cena que a Laís mandou a fic fluiu muito mais fácil, em 3 meses nós tínhamos os 6 primeiros capítulos prontos e decidimos começar a postar. Na nossa cabeça o fluxo de escrita ia se manter, e eu sinto muito que não manteve, mas esse é assunto pras notas finais do capítulo seguinte. Algumas cenas dessa história eu lembro exatamente onde eu estava quando estava escrevendo. Quando o James chega perto da Dominique e a vê despetalando a pobre flor eu estava descendo pelo caminho que levava da casa da minha avó à casa da minha tia. Era uma rua longa e uma descida tranquila, tinham umas escolas na calçada, eu fiquei desviando dos alunos que chegavam enquanto continuava com os dedos frenéticos no meu celular -meu recém-ganhado smartphone- escrevendo freneticamente num documento do dropbox porque a cena não saia da minha cabeça e eu precisava escrever. Mesmo que eu só estivesse a dez minutos de distância do meu destino, não deu pra esperar. O capítulo da Luna foi postado durante uma madrugada em que eu estava sentada no chão do quarto, o notebook da minha prima no colo, enquanto eu sem sono nenhum e ansiosa pela viagem do dia seguinte revisava e organizava o necessário pra vocês acordarem com essa surpresa no dia seguinte. Capítulo da Teresa, não lembro a cena exata de cabeça, mas eu sei que estava num churrasco de família ignorando tudo e todos pra colocar no papel todas as cenas que eu e Laís tínhamos decidido pela manhã. O da Kristina, após meses desaparecidas e sem ter ideia do que deveríamos fazer nele, um dia eu fui pra casa da faculdade, era feriado, então eu sentei na frente do computador e só levantei horas depois, mais de dez mil palavras escritas, nem sei como elas chegaram, elas só vieram e a gente soube como seguir dali em diante. E além dessas específicas existiram muitas cenas mais em que eu parava na metade e pedia socorro pra Laís, e vice-versa. Centenas de cenas que a gente escreveu em um piscar de olhos, as palavras só chegando pra gente, as ideias escalando e surgindo enquanto a gente escrevia, tão rápido que no meio de uma cena surgiam rascunhos de outras cinco; e outras centenas em que a gente passava dias encarando a tela sem saber o que fazer dali e ficava jogando uma pra outra até tirar leite de pedra. Vocês não tem ideia de quantos capítulos não planejados foram incluídos nessa história apenas porque a ideia era boa demais, ou porque a gente escreveu tanto que o nyah não deixava a gente ecrever mais por aquele capítulo, nem quantos capítulos planejados deixaram de existir sem que vocês sequer imaginassem. Um dia existiu uma Emma, e ela ia desprezar o James completamente, e um dia houve uma Pamela, mas não sabíamos muito o que fazer com ela, só que ela teria os olhos azuis da nossa amiga e seria da sonserina como ela. Mia quase não chegou a ser publicada, enquanto Holly e Alison só foram existir pouquíssimos meses antes de ganharem um capítulo para elas. Em um momento a gente quis fazer um capítulo para a Paisley, e um para a vó Molly, mas não foi pra frente, assim como concluímos que não tinha como encaixar um capítulo pra Roxy, Molly II e Lucy, mas a gente pensou. Enfim, já me alonguei demais aqui. A a Aimée estava prevista desde o começo, mas ela foi uma das poucas que a gente não sabia exatamente o que fazer com ela, descobrimos ano passado. E eu espero de coração que vocês tenham gostado dela tanto quanto a gente. Desculpa por segurar vocês tanto tempo aqui com um cliffganger desses, mas enfim, James tem convicção que não existe outro amor pra ele, vocês concordam? Cês sabem que eu amo os comentários de vocês, então vem conversar com a gente, conta pra mim que que vcs acharam, suas teorias, nosso tempo pra conversar assim tá acabando, tem mais três capítulos apenas e a gente só vai parar quando o James encontrar a mulher da vida dele, como você acha que isso vai acontecer? Diz pra mim e até mês que vem! (E essa é uma promessa )