As Melhores Intenções

7 Capítulo 7 - Desastre em Pessoa


Notas iniciais
Quando tudo parecer ruim, cuidado que pode piorar ainda mais.

Quando o final de semana chegou, Eleanor já não tinha mais certeza de que seria uma boa ideia viajar com Elton. Na verdade, passou os últimos dias tentando evitar aquela viagem, mas Helena estava irredutível, e depois de um discurso de meia hora via áudio mensagem, Eleanor não tinha mais escapatórias além de seguir como planejado.

Os pais de Elton passariam dentro de meia hora em frente ao seu prédio. Segundo Helena, todos estavam ansiosos para conhecer a segunda garota no mundo inteiro, que foi capaz de mexer com as estruturas de Elton. Ah se eles soubessem, pensou enfiando dentro da mala dois maiôs.

E para sua desgraça, ela não conseguia parar de pensar em Fred. O momento na cozinha havia lhe despertado instintos adormecidos. Estava tão fora de si, que decidiu ignorar a presença de Fred nos últimos jantares que ele compareceu fielmente em sua casa.

Trocavam palavras monótonas, e até mesmo evitavam as calorosas discussões que tinham antes.

É claro que isso não passou despercebido por Pedro, que em uma noite, após Fred deixar o apartamento, indagou:

— O que aconteceu com vocês?

Eleanor apenas o ignorava e seguia para seu quarto. Fingia que nada estava acontecendo..., mas quem ela queria enganar? Já estava mexida novamente por Fred. Ele nunca havia tocado nela como na noite dos legumes e do frango. A voz rouca, os olhos ardendo em algo que ela não sabia o que era...

Pela primeira vez em três anos, sua armadura estava rachada.

— Eleanor! Parece que seus amigos chegaram! – Pedro gritou da cozinha.

Ela olhou uma última vez para mala e a fechou. Seguiu para a sala de estar, e suspirou.

Ao abrir a porta para sair de uma vez do apartamento, ela ouviu Pedro murmurar:

— Ultimamente você só suspira...

Revirou os olhos ao perceber que de fato, Pedro tinha razão, e ela odiava quando ele tinha razão.

§

A Range Rover preta do pai de Elton, era o carro mais espaçoso no qual Eleanor tinha andado. Além de confortável, é claro.

Ela dividia o banco de trás com Elton, na verdade, não era bem uma divisão, já que o espaço entre eles deixava claro o tamanho desproporcional do carro, ainda mais para uma família de três pessoas. Demasiadamente grande.

Elton Morteguini Massareti é uma das pessoas mais fingidas que Eleanor conheceu em toda sua vida. Assim que ela desceu do hall de seu condomínio, ele cordialmente pegou suas malas e entrelaçou os dedos aos delas. Abriu a porta da Range Rover como um cavaleiro, e a apresentou aos pais oficialmente como uma namorada, não como uma possível paquera.

Essa atitude apenas representou o fim do mundo. Eleanor não tinha percebido o quanto perigoso era mentir, até chegar naquela situação.

O pai de Elton, assim como o filho, foi cordial. Era evidente a felicidade estampada no rosto do homem, que sorria de ponta a ponta ao notar o novo envolvimento do filho. Ela suspeitava que o homem desconfiava do relacionamento ruim entre Elton e Helena, afinal, os dois eram mais amigos do que amantes.

Enquanto o pai a tratava da maneira mais cavaleira possível, a mãe a odiou no minuto em que Eleanor pisou dentro do carro. A mulher que se chamava Victória, tinha uma postura inabalável. Não dirigiu uma palavra sequer a ninguém no carro, e continuava acentuando múrmuros de incomodo.

Com certeza, se aquele não era o seu fim, logo seria.

— Vocês se conheceram na boate do Alexander? – o pai perguntou.

— Alexander? – Eleanor questionou, afinal, quem é Alexander?

Elton, por sua vez, assentiu enquanto tocava na mão de Eleanor.

— É o nome do pai de Helena. E sim, nos conhecemos lá. – ele explicou.

— Ah sim. A boate é a melhor do estado inteiro. Elton, você teve sorte em encontrar uma moça tão bonita e doce quanto Eleanor.

Falando daquela maneira, Eleanor não conseguia encontrar traços machistas e preconceituosos no pai de Elton, na verdade estava impressionada com a delicadeza nas palavras e na simplicidade que conduzia a conversa. Bem, ela não sabia como ele era no convívio com a família. Já ouviu falar em muitos pais e maridos que eram excelentes na frente de desconhecidos, mas que quando estavam com as mulheres e filhos, os tratavam da maneira mais errada possível. Talvez esse fosse o caso do pai de Elton. No fim, ela teria que verificar isso a fundo.

— Sim, sim. Ela é boa demais para ser verdade. – Elton disse, deixando uma entonação clara na palavra boa. Mas apenas Eleanor percebeu sua intenção, os pais continuaram olhando pela estrada.

— Pensei que estivesse com Helena... Não entendi como pode esquecê-la tão depressa! – Victória comentou amargamente.

O pai tossiu, e Elton apenas deu de ombros ao responder:

— Amo Helena, mas não de forma romântica. Ela será para sempre minha amiga.

— Não consigo entender isso, sinceramente... – Victória disse, olhando para o filho através do retrovisor.

— Não precisa entender. – ele murmurou. – Só respeitar.

Eleanor olhou para o lado de Elton, que se concentrava em observar a paisagem.

No fundo, Elton só queria que os pais fizessem uma única coisa: o respeitassem.

§

A viagem foi mais rápida do que Eleanor esperava. Em uma hora e meia de carro, eles já estavam no pátio da mansão. A casa ficava em frente ao mar, dando um livre acesso para uma praia privada. O litoral naquele lado do estado, era só tangível para quem tivesse dinheiro a esbanjar, e ela percebeu que tanto os pais de Elton como os de Helena, possuíam muito, mais muito dinheiro em suas contas bancárias.

O que seria um simples churrasco, foi transformado em um grande evento, cheio de garçons e convidados diferentes. Mais testemunhas para encararem seu trágico relacionamento de mentirinha.

Ela engoliu seco, e seguiu Elton para o andar de cima. Os pais se distanciaram, ao esbarrar com Esmeralda e Alexander, os pais de Helena.

— Pensei que seria uma reunião mais simples... – ela comentou, assim que os dois alcançaram o corredor dos quartos.

Elton abriu uma porta, que dava direto para uma suíte espaçosa, maior até que o apartamento de Eleanor.

— Simples não é uma palavra adequada para definir Helena. – ele deu de ombros, puxando as malas para dentro do quarto. – Esse será o nosso aposento.

— Vamos ficar no mesmo quarto? – ela tentava não ficar incomodada, mas seria difícil disfarçar o incomodo.

— Sim! Fica tranquila, da fruta que você come, eu como até o caroço!

Eleanor tentou não rir, mas a típica frase brasileira, a deixou totalmente entregue a piada.

Ahhhh! Isso é tão estranho. Semanas atrás você namorava Helena, e agora tem uma nova namorada. As pessoas vão desconfiar...

— Não vão não. – Elton a tranquilizou, se jogando na cama. – Olhe, as pessoas já percebiam que eu e Helena não estávamos tão bem. Não é surpresa nenhuma eu aparecer com uma nova namorada.

Ela se deu por vencida, não tinha argumentos para contra-atacar. Já estava ali mesmo, o que mais poderia fazer?

— Certo, pare de pensar um pouco e vista um maiô. Vou te esperar na piscina. Precisamos atuar bem na frente de todos, inclusive, na frente de Helena.

Elton passou por ela, e beijou a bochecha de Eleanor, antes de dizer:

— Vai ficar tudo bem, eu prometo!

Certo...

§

Vinte minutos depois, Eleanor estava caminhando rente aos corredores. Não se sentia confortável com o maiô, por isso, decidiu vestir uma saída de banho e prender os cabelos em um coque alto. Um visual tipicamente praiano e decente para aquela ocasião.

Seguiu até a piscina, que já estava cercada de pessoas. Eram convidados, garçons, empregados, e tinha até mesmo um DJ tocando diversas músicas. Ela olhou para a mesa eletrônica, onde o DJ tocava a música Dreams, numa versão mais atual e cheia de remix.

Assim que colocou os olhos no DJ, Eleanor quase caiu para trás, mas antes que pudesse cair no chão, ela esbarrou com um dos garçons que trazia na bandeja algumas taças de vinho, que foram parar imediatamente no chão, junto com Eleanor e o garçom.

— Meu Deus! – ela ouviu alguém gritar, mas estava tão absorta pela surpresa e pela queda, que simplesmente se levantou, espantando os cacos de vidros de sua roupa.

Por sorte, não tinha se cortado.

— A senhora está bem? – o garçom perguntou.

— Tô ótima!

— Ellie e suas lindas entradas triunfais. – Fred comentou. Ele tinha deixado a mesa eletrônica para poder visualizar melhor o desastre de Eleanor.

Ela olhou para o chão envergonhada. Suas bochechas aderiram uma tonalidade vermelha. Não sabia se era pela queda, ou pelo fato de Fred estar bem ali, tocando na festa de Helena.

As coisas não podiam piorar!

— Menina, como você é desastrada! – Victória grunhiu, ao lado de Elton, que imediatamente socorreu Eleanor.

— Você está bem? – ele perguntou, preocupado, ao menos.

Ela assentiu, mantendo o olhar no chão.

— Elton, essa é a sua convidada? Sua nova namorada? – Alexander, o dono da casa perguntou, avançando para o grupo de pessoas que já se formavam ao redor da queda de Eleanor.

Meu Deus, estava tudo piorando para ela.

— É sim tio... Meio atrapalhadinha, mas muito amorosa.

— Entendo. – o homem disse, observando Eleanor.

— Me desculpa... – ela sussurrou.

— Eleanor! Você que causou toda essa comoção? – Helena surgiu no meio das pessoas.

— Sim...

— Vamos pessoal! Ela está bem, vamos voltar para festa! – Helena declarou, puxando Elton e Eleanor para a piscina. – Você é bem doida mesmo...

Eleanor apenas balançou a cabeça. Estava tão perdida, que nem sabia como estava andando. Talvez as mãos de Elton em volta de seu ombro seja o principal responsável por sua andança.

— Esperem! – Fred gritou.

Os três pararam, e Fred caminhou na direção deles.

— Ellie, você é a namorada de Elton?

As coisas ficaram muito, mais muito ruim.

Notas finais
Obrigada por Lerem!