As Leis Do Paraíso
1 Prólogo
Não posso lembrar com exatidão, mas acho que tínhamos cinco anos quando reparei que os olhos de Louis brilhavam de uma forma diferente da dos meus. Não um reparar de forma consciente, não entender o quanto aquilo nos diferenciaria mais e mais com o passar dos anos. Não. Apenas o opaco de meus orbes castanhos procurando a cintilação quase esverdeada dos dele, como um viajante perdido no escuro, buscando por estrelas em meio ao véu negro da noite.
Segurei-o pelas bochechas e me inclinei para perto dele, encarando-o com curiosidade. Era como vê-lo pela primeira vez, não como alguém idêntico a mim, com quem eu dividia tudo que tínhamos e ganhávamos, mas outra pessoa, tão única quanto os adultos que nos cercavam – e dos quais eu sabia tão pouco sobre — com sua personalidade, com suas idiossincrasias, gostos e manias que nada teriam a ver comigo, que nos diferenciaria ao mesmo tempo em que nos completaria, desde que permanecêssemos sempre juntos, unidos, irmãos de sangue, coração e alma.
Claro que eu entenderia tudo o que se revolveu dentro de minha intuitiva mente de cinco anos apenas quando mais velho, ao lembrar-me daqueles anos pretensiosamente inocentes, puros e fáceis. Eu amava Louis. Era, e continua sendo, minha única certeza, a única que importa, a única que aperta o coração e trava a garganta, porque verdades como essa, que nos incapacitam frente à sua intensidade e magnitude, são grandes demais para caberem dentro do corpo débil e frágil dos seres humanos. O que me fascina, pois somos os únicos seres capazes de sentir com tamanha paixão e arrebatamento.
"Lor, o que foi?" Ele perguntou, largando o brinquedo com o qual se distraía antes de eu abordá-lo, fascinado com o que via. Ele parecia igualmente curioso, fitando-me de volta com a cabeça levemente inclinada para o lado e as sobrancelhas finas e aloiradas franzidas.
Passei a mão por seu rosto, experimentando a pele macia e jovem sob meus dedos, e então me afastei, sem alterar minha análise séria e absorta. Nós tínhamos cabelos dourados escuros, ondulados, caindo quase até os ombros e compartilhávamos a pele pálida e acetinada de nossa mãe. Eu sempre tive a impressão de que a constituição física de Louis era mais delicada do que a minha, e talvez fosse, ou talvez sua personalidade fresca, expansiva e ingênua se misturasse e se confundisse com sua aparência, quando esta banhava meus olhos, com uma força maior do que raios de sol num dia de verão.
"Não é nada." Dispensei, e logo ele estava entretido outra vez com sua brincadeira, que consistia em pequenos bonecos de monstros, dragões e cavaleiros em meio a um campo de batalha.
Na imaginação de meu irmão, os dragões soltavam um fogo púrpuro da boca e voavam pelo quarto, alguns deles batendo as asas de maneira capenga depois de receberem espadadas dos cavalheiros corajosos e nobres. Estes subiam nos cavalos de plástico e tentavam acertar os dragões com flechas e lanças sem ponta. Era uma grande confusão, e Louis adorava montar aquelas estratégias de guerra. Ele sempre fazia com que os cavaleiros e dragões, ao final, se unissem a fim de derrotar os monstros, os quais, é claro, eram poupados da morte pela benevolência de Louis.
Eu me pegava observando-o, sem realmente participar da brincadeira, e sempre que ele insistia para que eu brincasse junto, eu matava todos os montros e depois fazia meus cavaleiros matarem os dragões (Louis não abria mão de controlar os dragões) à ponta da espada, da forma mais imaginativamente sangrenta possível, mesmo quando estávamos do mesmo lado.
"Não, Lorcan! Não é para você atacar meus dragões! Não somos inimigos!" Louis reclamava, achando que eu não havia entendido sua estratégia.
"Brinque sozinho, se não gosta desse jeito." Eu retorquia, dando de ombros.
Minutos depois ele já não se lembrava mais porque estivera tão brabo e continuava a brincadeira, até mesmo convidando-me outra vez. Eu negava, ele insistia, eu aceitava, nós brigávamos daquela forma patética, que nem uma briga propriamente era, e ele voltava a brincar. Agíamos assim em quase todas as brincadeiras. Eu preferia assisti-lo a fazer parte de seu mundo imaginário. Eu não gostava de participar, mas não conseguia negar quando ele me pedia com seus olhos, que refletiam o mundo de uma maneira tão diferente das imagens que chegavam aos meus.
Durante todos os anos de nossa infância, nós não tivemos residência fixa. Nossos pais nos levavam nas viagens que faziam pelo mundo em busca de animais e plantas exóticas, cada um deles tentando confirmar suas teorias absurdas e excêntricas. Lembro-me de ter ficado cruelmente satisfeito quando minha mãe foi forçada a aceitar que uma planta qualquer não era uma nova espécie que ela havia encontrado e a transformaria numa bióloga famosa.
Helena, nossa mãe, ingênua e boba, carinhosa, amável, músicas cantaroladas sob a luminosidade solar branda em um final de tarde, piqueniques e histórias malucas sobre visgos, fadas e chás de limão. Não vou dizer que não era uma boa mãe, apesar de seu jeito etéreo e suas histórias sobre criaturas inexistentes me irritarem tanto quanto sua bondade excessiva. O que era uma contradição, pois Louis tinha muito de Helena, e é verdade que em muitas vezes brigamos por causa disso, mas eu no fundo não queria vê-lo perder seu jeito inocente e alegre de encarar a vida. Seu problema era achar que todos eram puros como ele.
Viajávamos com nossos pais e por isso não tínhamos amigos fixos. Conhecíamos uma ou outra criança, ou passávamos alguns dias do ano próximos dos filhos de nossos ditos tios, dos quais nossos pais eram muito amigos; mas, mesmo assim, naqueles anos, tínhamos apenas um ao outro, já que Helena e Roger se perdiam em seu mundo zoológico e harmônico, enquanto eu e Louis éramos apenas satélites orbitando em torno da cumplicidade de suas pesquisas e descobertas.
Eu era indiferente quanto a participar ou não das explorações de nossos pais, seguia-os sem falar muito, apenas observando a natureza e os animais, e como essas visões afetavam meu irmão. Ele gostava daqueles passeios, ouvia as explicações extasiadas de Roger e Helena com entusiasmo e tentava transmiti-lo e compartilhá-lo comigo, queria que eu sentisse o mesmo.
"Olha, Lor, o que você acha desse bicho? Acha que é uma criatura mágica?"
Observei-o ajoelhado perto de uma pedra, onde um bicho que se parecia com um inseto batia vagarosamente as asas, sem sair do lugar. Eu estava com as mãos no bolso e uma expressão de tédio. De repente, como todo garoto enjoado e estúpido de sete anos, uma ideia me passou pela cabeça.
"Não sei, deixa eu ver mais de perto." Falei, aproximando-me e fingindo interesse. Assim que alcancei a pedra, pisei no colorido inseto.
"Não! Lorcan, por que você fez isso?" Exclamou Louis, levantando-se e olhando-me cheio de ressentimento. Ele havia ficado extremamente feliz quando uma vez encontrara, por acidente, uma nova espécie de um mosquito estúpido qualquer e recebera abraços e congratulações acaloradas de nossos pais. Desde então tentava encontrar outra para exibir para eles, mas sempre se perguntava se não seriam mágicas como nas histórias que Helena contava.
"Era só um inseto." Retruquei, torcendo os lábios. E levei um soco. Acho que mereci, porque quando Helena nos encontrou em meio aos tapas e viu o inseto esmagado, constatou que era mesmo uma espécie desconhecida de uma fada. Eu revirei os olhos para a lorota, enquanto Louis soltava uma exclamação abismada e olhava para mim em uma acusação silente.
"Só espero que não haja nenhum tipo de maldição por matar esse tipo de fada. Imagina se dá azar?" Falou Helena, com um sorriso de quem mente algo agradável ao filho pequeno, e eu me perguntei se ela não teria nada melhor para comentar para uma criança.
Louis ficou inconsolável. Ver aqueles olhos tristes deixou-me com a consciência pesada. Ele poderia estar naquele momento vibrando por sua descoberta, mesmo que falsa, se não fosse pelo meu comportamento tipicamente infantil, o qual eu tanto desprezava nas outras crianças. Sentei-o numa cadeira quando chegamos ao chalé onde estávamos hospedados, perto das montanhas da Áustria.
"Louis, tenho uma coisa para você." Falei, ajoelhando-me na frente dele. Ele estava melancólico, com seus lábios finos contraídos em um beiço chateado, mas mesmo assim olhou-me sem conseguir esconder sua agitação.
Esperei que ele fizesse a pergunta.
"O que é?" Ele perguntou, já impaciente, remexendo as pernas. Estiquei o braço e tirei uma franja amarelo-queimada de seus olhos, para poder enxergá-los sem qualquer obstáculo quando eu lhe desse meu presente de desculpas.
"Aqui." Tirei do bolso uma pequena pedra polida em formato arredondado e achatado. "É uma pedra mágica." Expliquei, colocando-a na mão de Louis. "Tem uma cor especial para cada pessoa que a possuir. E quando estiver nervoso ou triste, se você a alisar, vai sentir-se melhor."
A pedra, que era cinzenta em minhas mãos, passou para um branco cintilante nas dele, e ele alisou a superfície resvaladia, sentindo, por alguns segundos, a textura contínua e perfeita antes de me olhar com um renovado sorriso, que me fez suspirar de alívio.
"Obrigado, Lor. Eu perdôo você por ter esmagado aquela fada." Ele se abaixou, ficando também de joelhos, e me abraçou. "E não acho que você pegou alguma maldição do azar por causa disso."
Abracei-o de volta, afundando meu rosto em seu pescoço, porque amava seu cheiro de alfazema e gostava da sensação de seus fios sedosos tocando as maçãs de meu rosto. Ele passou as mãos pelos meus cabelos, numa carícia suave. Eu não gostava de qualquer contato humano que não proviesse de Louis. Nem mesmo Helena, ou Roger, abraçavam-me daquele jeito, simplesmente porque, desde que eu era pequeno, eu repudiava suas tentativas, fugia de seus beijos e torcia o nariz para seus afagos. Louis dizia que eu estava sendo egoísta, porque meu abraço era o melhor do mundo.
"Então que ele seja apenas seu." Eu retorquia, sem dar importância para o que ele dizia, e então ele engatinhava até o meu colchão e se aconchegava nos meus braços, caindo rápido num estado entre a realidade e o mundo dos sonhos, enquanto eu continuava a ler algum livro ou revista.
"Me desculpa por aquele soco." Ele falou, num tom arrependido. Afastei-me dele e dei-lhe um beijo na bochecha rosada.
"Não foi nada. Foi no braço, e não foi forte." E era verdade. Louis não conseguiria bater com real intuito de machucar nem mesmo numa formiga, mesmo que ela o picasse e o deixasse todo inchado, já que era alérgico a elas.
"Onde você conseguiu a pedra?" Ele perguntou, analisando-a com uma sobrancelha arqueada, enquanto eu o ajudava se levantar.
Abri a boca para responder, mas então pensei melhor e voltei a fechá-la, encarando-o analiticamente, com uma mão no queixo. Resolvi me divertir com a exacerbada curiosidade infantil de meu irmão.
"É segredo. Não posso contar."
Observei com um sorriso contido sua agitação crescer no exato instante em que minhas palavras escapavam de meus lábios. Ele primeiro olhou para a pedra, esperando que, caso se concentrasse, ela lhe desse a resposta, mas como ela continuou sendo apenas uma pedra branca brilhante, ele olhou para mim, suplicante.
"Ah, Lor, por que é segredo? Eu sempre conto tudo para você, vai, me conta, por favor." Ele segurou o meu braço e suas mechas, que se assemelhavam a ouro fundido, flutuaram em torno de sua cabeça, dançando em concordata com o vento gelado que descia das montanhas.
Admito que fiquei tentado a contar, mas não poderia me render tão facilmente.
"Um dia eu te conto." Falei e ele me abraçou outra vez, encostando sua testa à minha, seus olhos – sua força e minha fraqueza – tão pertos que, se ele me pedisse outra vez, eu sei que acabaria contando.
"Você promete?" Ele perguntou num sussurro, como se agora compartilhássemos um grande segredo, do qual ele só saberia o conteúdo completo na hora certa.
"Eu prometo."
Eu cumpri a minha promessa e anos mais tarde contei para Louis onde eu conseguira aquela pedra. Na verdade não é uma história extraordinária, e ele pareceu levemente decepcionado quando revelei que a roubara de uma tenda de artefatos misteriosos de uma velha antipática no Egito.
Os meses de nossa infância se confundem em minha mente. Eles passaram rápido, numa sucessão de viagens e descobertas, barracas montadas no meio do mato, chalés perto de vales, montanhas e bosques; passeios por trilhas, banhos em cachoeiras enquanto Roger procurava por alguma planta aquática com fins medicinais.
Louis tinha medo do escuro, e eu era o único que sabia desse seu temor que não era de todo infundado. Passávamos a maior parte do tempo embrenhados em lugares desconhecidos, quase desabitados, e as noites eram sempre silenciosas demais, mesmo quando preenchidas pelos sussurros e estalos noturnos: um animal pisando em folhas secas, o assobio do vento balançando a copa das árvores, o lamento sonolento de algum animal.
Nós montávamos a barraca e nossos pais faziam alguns esquemas de proteção ao redor, de forma que nos sentíamos mais seguros. Acendíamos o fogo e sentávamos em torno. Helena e Roger contavam-nos histórias, lendas, curiosidades sobre nossos antepassados e tantas outras coisas já esquecidas pelo tempo e pela memória. Às vezes Roger cantava essas histórias. Tinha uma boa voz e sabia tocar gaita, instrumento que ganhara do avô.
Não eram momentos ruins, porque eu podia observar o brilho nos olhos de Louis disputarem com as chamas alaranjadas do fogo, via-o sorrir e via sua pele tornar-se rosada graças ao calor da combustão da madeira, e eu me sentia bem com sua felicidade. Às vezes eu me pegava com um leve e quase imperceptível sorriso no rosto, acompanhando os dele. Eu me fingia de distraído, catando pequenos galhos secos no chão e jogando-os na fogueira, e quando Louis sentava ao meu lado, eu puxava seu braço, trazendo-o mais para perto e apoiava meu queixo no meu joelho, e nós ouvimos juntos os contos de Roger e Helena, os quais eu aturava, porque sentia a cabeça de Louis descansando em meu ombro.
Depois que todos iam dormir, eu gostava de ficar do lado de fora, sozinho, e perdia a noção das horas, apenas observando o crepitar do fogo queimando como se tivesse vida, crescendo, diminuindo, remexendo-se como se quisesse se expandir e incendiar tudo à sua volta. O que me surpreendia era quando Louis, mesmo com medo do escuro, saía da barraca, com seus cabelos emaranhados de travesseiro, seus olhos semicerrados pelo sono, e se aproximava como um gato silencioso, por vezes quase me assustando ao sentar-se ao meu lado, com a roupa do pijama, e punha-se a observar o fogo no mesmo silêncio contemplativo que o meu.
"Você vai pegar um resfriado se ficar aqui fora só com essa roupa fina." Falei certa vez, quando estávamos em uma floresta descolorida devido ao manto espesso e gelado dos flocos de neve.
"Queria saber por que você sempre fica do lado de fora depois que todo mundo vai dormir." Ele ignorou minha preocupação, esticando as mãos para perto do fogo. Seus lábios estavam roxos e o barulho de seus dentes se chocando me fez querer arrastá-lo para dentro do calor da barraca outra vez. O fogo já quase se extinguia junto à lenha. "Pensei que estivesse escondendo alguma coisa."
"Eu nunca escondo nada de você." Retruquei, já irritado com sua estupidez, por ter saído, arriscando uma pneumonia. "É melhor você voltar lá para dentro, Louis. Depois você fica doente e quem tem que cuidar de você sou eu."
Ele balançou a cabeça.
"Quero ficar aqui com você." Ele falou, sério, olhando compenetrado para o fogo. Naquele momento, por alguma razão, comparei-o com o foco solitário de uma lanterna numa parede preta e com o brilho misterioso das galáxias girando no universo.
"Idiota." Murmurei, mas de forma carinhosa, aproximando-me e o abraçando, meus braços envolvendo-o com firmeza, deixando o calor de meu corpo fluir para o seu, até que eu visse seus lábios aos poucos voltando para o tom rosado natural.
"Por que você gosta tanto de ficar sozinho?" Ele perguntou, quando as chamas já não eram mais do que faíscas lutando por sobrevivência. Ele estava com as costas apoiadas no meu peito, e eu o segurava pela cintura. Não sabia o que responder. Eu apenas gostava.
Apoiei meu queixo na curva entre o ombro e o pescoço dele.
"Eu também gosto de estar com você. Mais do que estar sozinho." Minhas palavras o confortaram, porque não insistiu no assunto, e quando sussurrei em seu ouvido para que fôssemos dormir, ele não ofereceu resistência. Estava quase adormecido em meus braços.
Como acontecia muitas vezes, quando o deitei no colchão, não resisti e me aconcheguei ao seu lado, caindo no sono assim que nos tapava com as cobertas. Àquelas alturas, eu já tinha plena consciência de que Louis era tudo o que mais importava para mim, e que o amava única e exclusivamente. Não amava Helena, nem Roger, apenas os respeitava, pois sabia que eram bons pais, apesar de suas extravagâncias.
Aconteceu após uma tarde fazendo compras em uma feira perdida e exótica, aparentemente no meio do nada. Havíamos alugado um espaço para nós em uma pensão, na pequena vila, e nossos pais nos deixaram passear por lá e comprar o que queríamos enquanto eles se aventurariam nas trilhas complicadas da floresta próxima.
“Não gastem muito, ouviram? Não precisam se encher de brinquedos, mas podem comprar alguns se quiserem! E voltem para pensão antes que escureça.” Helena nos recomendou antes que saíssemos.
"Brinquedo, mãe? Nós não somos mais crianças!" Reclamou Louis, estufando o peito em seguida. "Daqui a sete dias faremos treze anos!”
"Às vezes eu esqueço o quão crescidos os meus filhotes estão. Agora vão, vão." Ela nos enxotou e logo ganhávamos as ruas de ladrilhos e a praça onde acontecia a feirinha, junto com lojinhas que também participavam, com suas portas abertas aos turistas curiosos.
Observar a empolgação fácil, juvenil de meu irmão era sempre agradável, ainda mais quando havia sol, e seus cabelos brilhavam, como um ponto de luz que eu deveria perseguir, atraído pelo calor que emanava dele. Eu o seguia com as mãos nos bolsos. Naquele momento eu me assustei quando parei para pensar no quanto eu era dependente de Louis, de seu sorriso, seus olhos, sua maneira leve e alegre de levar a vida. Eu começava a pensar que aquilo não era saudável, que havia algo de diferente em nossa relação fraternal. E ao mesmo tempo em que isso me consternava, espalhava um gostinho agridoce pelo meu corpo, porque era também especial e apenas nosso; algo único.
“Olha! Aqui nessa placa diz que eles vendem artefatos mágicos!” Louis apontou para uma das últimas lojas da praça. Havíamos comprado tolices, como chocolates especiais e outras guloseimas encontradas apenas ali, enfeites feitos de artesanato, um navio de madeira pelo qual Louis apaixonou-se e um colete que ele insistiu em dar-me de presente. Eu carregava tudo, deixando-o livre para correr à minha frente. “Vamos entrar?”
Ele perguntou como se duvidasse que eu lhe negaria algum pedido. Tolo e adorável irmão.
Entramos.
Fomos atendidos por um velho decrépito que me surpreendeu por ainda conseguir manter-se em pé. Porém um homem mais novo, que comentou ser neto do velho, foi quem buscou os apetrechos mágicos. Ele fez uma apresentação com várias mágicas, e algumas surpreenderam até a mim, que não pude entender como ele acertava qual a carta meu irmão havia tirado do baralho.
“Você viu, Lor? Como ele fez isso?” Ele sussurrou para mim.
“Que tal comprarem umas varinhas? Dizem que a bruxaria anda em alta nessa época do ano.” O velho senhor sugeriu.
“Não vamos gastar nosso dinheiro com dois pedaços de pau inúteis.” Eu falei secamente. “Mas me dê esse baralho, quero aprender a fazer esse truque de agora pouco.”
Meu irmão não perdeu a oportunidade de comprar duas varinhas enquanto eu estava distraído aprendendo o truque, e saiu da loja sacudindo a dele, apontando para as pessoas e sussurrando palavras mágicas que nunca surtiriam efeito. Eu revirei os olhos, mas acabei pegando a minha varinha quando ele a empurrou para mim.
Um pouco antes que o sol sumisse por trás das montanhas, estávamos novamente na pensão. Helena e Roger ainda não haviam voltado; o que era bom. Eu estava exausto e um pouco de silêncio era tudo do que eu precisava. Fui direto para o quarto, larguei as compras de qualquer jeito em um canto e me joguei na cama. Louis apareceu minutos depois, mas, no lugar de deitar na própria cama, deitou-se na minha, abraçando-me.
“Quem chocolate?” Ele perguntou, colocando um pedaço mordido do chocolate perto de minha boca. Eu o mordi, pois adorava chocolate e era impossível resistir quando justamente meu irmão o oferecia aos meus lábios. Deixei-o derreter na boca e relaxei, porém percebi que para Louis, acontecera o contrário. Ele ficou tenso, encarando-me, e eu o encarei de volta, sem entender o que se passava com ele.
Ele estava com o mesmo brilho nos olhos claros de quando estava fazendo algo de errado, ou tomando coragem para fazer algo que não deveria. De repente, fiquei tenso também, meu corpo muito mais consciente do corpo de meu irmão do que qualquer outra vez.
"Louis...?" Chamei, minha voz apenas um sussurro, apesar de estarmos sozinhos.
“Eu gostei muito de hoje, Lorcan. Você não achou divertido?” Perguntou, remexendo o corpo para deixar seu rosto mais próximo do meu. Sua respiração bateu no meu rosto, e eu imediatamente pude sentir a palpitação no meu peito.
“Claro.” Respondi e ele, abaixando as pálpebras, sorriu, doce tal qual a saliva em sua boca, mesclada de chocolate.
O ar quase me faltou quando nossos olhares – a marca mais antagônica em nossa aparência – se encontraram novamente. Eu Amava os olhos de Louis, porque neles eu podia ver o mundo através de um vidro de ingenuidade e simplicidade, podia ver o mundo como ele, um mundo que desconhecia, porque meus olhos eram como um filtro: o que era bom, o que era luz, passava por minhas retinas, mas as impurezas pregavam-se em minhas íris, nublando a visão, escurecendo meus olhos.
Foi simples assim, sem nenhum grande acontecimento que nos levasse a isso, além de uma tarde agitada comprando besteiras. Mas quem precisa de episódio surpreendente, quando já havíamos compartilhado tanto, feito tanto, sempre juntos, sempre apenas nós? Eu o vi, eu o amava e eu o queria tanto, apenas para mim. Eu era completamente dele.
Ele se aproximou e, como se fôssemos dois pólos oposto de um ímã em um campo magnético, fiz o mesmo. Seus lábios eram ternos contra os meus; macios e quentes como sua textura e cor prometiam. Segurei-o pela nuca e puxei-o mais contra mim. Nenhum dos dois sabia direito o que estava fazendo e nossas línguas brincaram de se encostar e percorrer os lábios um do outro. O gosto de sua saliva com chocolate, a partir daí meu sabor favorito, se derretia em minha boca e meu coração batia descompassado em meu peito, confundindo-se com o som das batidas do dele, que eram tão ou mais desacertadas. Ele encheu a mão com os meus cabelos e meu corpo todo se arrepiou com o toque.
Eu poderia continuar com aquilo por horas, apenas beijá-lo, abraçá-lo, sentir sua pele quente contra a minha. Não havia nada de muito erótico naquele primeiro beijo, tínhamos apenas doze anos, afinal de contas, mas havia o amor e o carinho e o medo de acabarmos nos distanciando algum dia.
Afastamo-nos sobressaltados ao ouvirmos barulho de porta na sala. Helena e Roger estavam de volta. Louis olhou-me de maneira tão acuada e confusa que o segurei pelo queixo antes que ele se afastasse.
"Louis, não há nada de errado nisso, ouviu? Nada de errado." Assegurei, com o tom de voz firme. "Mas as pessoas podem não entender, então não conte para ninguém, okay?" Eu acho que estava mais transtornado do que ele. Mesmo assim, ele acenou com a cabeça, comprimindo seus lábios com força.
Fiquei imaginando o que teria acontecido se Helena ou Roger houvessem nos surpreendido. Eles nos separariam? Depois de uma longa conversa sobre o quanto aquilo não era correto e sobre como estávamos confundindo o tipo de amor que sentíamos um pelo outro, nos mandariam para pólos opostos da Terra?
Eles não poderiam saber. Ninguém poderia, ninguém entenderia que nós não havíamos escolhido aquilo, simplesmente éramos. E o que sabemos sobre o amor? E o que os outros poderiam saber sobre o nosso? Mesmo as pessoas que já experimentaram a incompreensível força do verbo amar, o que sabem sobre ela? Elas apenas acham, não há certezas. Não há razão ou explicação no amor. Ele nos surpreende, do início ao fim, e sempre. E se é real e infinito, ele não esfria, não duvida, não esquece. É algo amedrontador, perdemos o chão, a razão e, mesmo quando sabemos que vamos sofrer, nos jogamos em sua chama e aceitamos de coração aberto seu calor queimando nosso corpo e nossa alma. Porque o amor não nos dá opção. E a nós resta apenas aceitá-lo e vivê-lo.
E era o que eu pretendia fazer: vivê-lo, porque eu já o aceitara há muito tempo, só ainda não havia percebido.
"Compraram coisas legais, meninos?" Perguntou Helena carinhosamente, assim que entrou no quarto. Louis já estava deitado na própria cama e eu estava lendo o jornaleco do dia, que estivera em minha cômoda.
Olhei para ela com minha expressão mais calma e indiferente.
“Sim, mãe, compramos bastante, mas sem exageros. O troco está em cima da mesa. Vocês encontraram algo interessante?”
“Ah, sim, encontramos! Uma nova espécie de Trifolium arvense. Precisamos voltar à civilização, para patentearmos o que encontramos. Vocês vão poder ver seus tios e primos.” Ela sorriu, como se a ideia fosse empolgante. Assenti distraído e continuei minha leitura. Ela ainda deu um beijo de boa noite em Louis antes de sair do quarto, fechando a porta.
Depois de tomarmos banho e escovarmos os dentes – fui primeiro, porque Louis permaneceu um bom tempo deitado na cama, em silêncio, com uma expressão distante, alisando a pedra branca –, apagamos as luzes e fomos dormir.
"Louis..." Chamei, depois de alguns minutos decorridos na quase completa escuridão do quarto. Alguns feixes de luz escapavam da janela, mas se perdiam, difusos, antes de alcançarem as formas dos móveis.
"O quê?" Ele perguntou suavemente.
"Você quer dormir aqui comigo?" Falei, temendo pela primeira vez uma recusa da parte dele. Porém demorou apenas alguns segundos até que eu ouvisse o barulho dos lençóis sendo afastados, e então meu colchão afundando com o peso dobrado.
Ele se aconchegou contra meu corpo, sem dizer nada, e eu o abracei, sentindo-me aliviado por ele ainda querer aquela proximidade. Não demorei muito para adormecer.
E os sete dias até nosso aniversário passaram voando, até que o comemorássemos na casa de nossos tios, em meio às crianças e primos que nos olhavam desconfiados, por talvez não se lembrarem mais de nós, os pequenos intrusos que chegavam e ganhavam uma festa, enquanto eles não recebiam nenhum presente.
Louis e eu nos esgueiramos para nosso quarto, em meio à festinha, e trocamos beijos entre o medo e a excitação de sermos flagrados. Fazíamos isso agora, trocávamos carícias rasas sempre que achávamos que nossos pais não estavam por perto, ou que estávamos protegidos pelas paredes de um quarto. Eu gostava da maneira com que ele me beijava, e a forma com que suspirava quando minhas mãos passeavam por suas costas magras. Seu cheiro de alfazema me atingia em cheio nesses momentos, entorpecendo-me, porém não o suficiente para que eu deixasse de sentir sua língua inquieta contra a minha.
Paramos, sobressaltados, quando alguém bateu à porta, um dos primos, chamando-nos para jogar.
Sempre que visitávamos nossos tios, irmãos de Roger, no país em que nascemos, jogávamos algum esporte. Aos fundos da modesta casa, havia um pátio enorme, no tamanho de um estádio de futebol, onde podíamos praticar, principalmente quando todos os primos e amigos estavam por lá.
Era um das coisas que eu apreciava, o futebol. Jogava como meio-campo e sempre conseguia atrapalhar bastante os adversários. Muitos reclamavam da minha agressividade em jogo, mas eu dizia para que deixassem de serem tão mulherzinhas. Ou simplesmente os ignorava. Louis jogava como atacante. Ele era rápido e tinha uma visão aguçada do jogo como um todo. Mesmo sendo mais novo, fazia mais gols que Christopher, atacante do time adversário.
Naquele dia, eu não sei bem o que aconteceu. Num minuto, estávamos jogando; no outro, eu estava correndo a toda velocidade, pois Louis estava caído no chão, desacordado. Depois ficaria sabendo que Hugo, um garoto grandalhão e destrambelhado, a fim de impedir que Louis chutasse a bola, acabara agindo por reflexo e jogara o corpo contra o de Louis, fazendo-o cair de cabeça contra uma pedra escondida na relva.
Eu corri, mais do que lembrava já ter corrido na vida, ao vê-lo caído na grama.
Ajoelhei-me ao lado de Louis e coloquei dois dedos em seu pescoço, procurando por alguma pulsação. Meu coração, que estava aos pulos, enviou uma onda de alívio por todo meu corpo assim que senti os batimentos suaves dele. Fiquei com medo de mexer em seu corpo, pois não sabia se havia algum osso quebrado ao cair em uma posição torta, e o sangue que escorria para a grama me apavorava.
"O que estão esperando, seus idiotas? Chamem alguém!" Exclamei, ao perceber todos paralisados perto, olhando assombrados para meu irmão. Senti raiva, desespero, e não consegui me mover para chamar ajuda; meu corpo não me pertencia naquele momento. Apesar de ainda respirando, Louis estava pálido demais. Não conseguia tirar os olhos dele. Minha garganta estava seca; minhas mãos suadas e trêmulas. Teodoro e Christopher correram para chamar algum dos adultos, todos dentro da casa.
Antes que alguém chegasse, levantei, tremendo, minhas mãos cerradas em punhos e minha expressão irada, e avancei para cima de Hugo. Ele era dois anos mais velho do que eu, estava com quinze anos e sempre achei que era o mais estúpido e desajeitado de todos. Eu queria deixá-lo com um belo roxo naquele rosto cheio de espinhas.
"Qual o seu problema?" Gritei e ele se encolheu, cheio de culpa. "É só um jogo idiota! Por que tentar matar o meu irmão?" Acusei, segurando-o pela gola da camisa.
"Lorcan, acalme-se! Ele não fez de propósito!" Giordana, irmã de Hugo, porém, intercedeu pelo irmão, abraçando-o. Todos me olharam assustados. Foi a primeira vez que percebi o impacto do meu olhar sobre as pessoas. Elas se assustavam, e continuam se assustando com ele. Há algo de sombrio e áspero na cintilação gelada das minhas orbes castanhas, e imagino que algo assim em um garoto de treze anos fosse mesmo um tanto surpreendente. Hoje em dia, as pessoas gostam de manter-se longe de mim.
"Eu... Eu não queria... Foi um acidente..." Soluçou Hugo. Alguém tocou no meu ombro, para me acalmar, mas eu afastei a mão e me voltei outra vez para Louis, minhas pernas fraquejando outra vez.
Os minutos seguintes foram um sofrimento sem igual, e meus olhos se perdiam em nuvens de poeira cósmica, cintilando estrelas opacas em minha frente, cegando-me para toda a confusão – o socorro, a ida conturbada e chorosa até o hospital da cidade. Mas vi quando os plantonistas levaram meu irmão, sobre a maca branca entre paredes e vestes dolorosa e igualmente brancas, e dei um passo, querendo segui-los; era como se meu corpo estivesse ligado ao de Louis por um fio invisível e quanto mais ele fosse esticado pela distância, mais eu me machucava. Ficar longe dele num momento tão desesperador causou-me até mesmo dor física. Contudo, Helena segurou-me firme pelo braço, impedindo-me.
"É com os médicos agora, querido. Quando estiver tudo bem, poderemos ir ver seu irmão." Ela falou, num tom sereno, porém pelo modo como seu lábio inferior tremia, via-se que estava igualmente nervosa e apreensiva. Já eu me sentia enjoado, tonto, dolorido.
"Mas e se não ficar tudo bem...?" Minha voz saiu tão ou mais quebradiça que um vidro repleto de pequenas e quase imperceptíveis rachaduras. Nunca havia me sentido tão desamparado. Até mesmo Helena ficou sem reação ao meu lado, uma vez que nunca me vira daquele jeito. Sempre mantive para mim as minhas aflições, vulnerabilidades e medos. Fui uma criança, um adolescente e continuo sendo também um adulto introspectivo.
Fomos levados até uma sala de espera, enquanto analisavam meu irmão em algum lugar do hospital. O cheiro esterilizado do lugar me causava náuseas. Desde então tenho pavor do exagero descolorido de um hospital e de seu odor insípido. Em um dado momento, tive a certeza de que Louis estava morto. Não conseguia senti-lo. A sensação provavelmente foi fruto da minha angústia e medo. Eu via os homens de jaleco pela janela de vidro, via pessoas entrando e saindo da sala, mas não registrava nada, era como estar em uma máquina do tempo, avançando não sabia se para frente ou para trás, em qual velocidade, por quanto tempo.
"Nunca mais! Nunca mais!" Ouvi Roger exclamando, ao andar de um lado para o outro, agitando as mãos no alto. Não fazia ideia de à que ele estava se referindo, nem ao menos havia percebido que ele estivera falando.
"Roger, acidentes acontecem em qualquer esporte ou brincadeira. Você não vai querer proibir os meninos de-"
"Estou falando de futebol, não de qualquer brincadeira. Louis não foi feito para esse tipo de esporte. É descuidado demais!"
Assim que Roger terminou de falar, um médico entrou na saleta, com uma expressão grave, e meus pais se calaram, enquanto eu sentia minha respiração cessar quase a ponto de me sufocar.
"Sr. e Sra. Deville?" Ele perguntou e os dois assentiram, colocando-se em frente ao médico.
"Por Deus, doutor, como ele está?" Perguntou Roger, sua voz saindo bem mais mortiça e frágil do que segundos antes. O médico abriu a boca para responder, mas então me viu, ainda sentado na cadeira, olhando-o fixamente. Helena seguiu o olhar dele e depois balançou a cabeça.
"Lorcan pode ouvir o que você tem a dizer." Ela falou e foi um daqueles momentos que me faziam lembrar por que eu respeitava meus pais.
"Muito bem," Concordou o médico, desviando os olhos de mim. "seu filho sofreu uma concussão séria, o que o induziu a um coma-"
"Um coma! Oh, meu Deus!" Exclamou Helena, tapando o rosto com as mãos e escondendo as lágrimas. Roger passou um braço pelos ombros dela, abraçando-a, e olhou preocupado para o médico.
"Quanto... quanto tempo esse coma, doutor?"
"Infelizmente, não temos como precisar o tempo em que o corpo se manterá em coma até que a região cefálica lesada se recupere. Ele pode acordar agora, daqui alguns dias, alguns meses ou anos."
"Não!" Alguém exclamou, e então percebi que o grito fora meu. Levantei da cadeira e caminhei até o médico. "Eu quero vê-lo! Por favor, me leve até ele. Ele vai acordar, se ficarmos juntos, ele vai acordar. Por favor..." Pedi, e limpei com raiva uma lágrima que escorreu pelo canto do meu olho.
O médico olhou-me compreensivo, e eu fingi não reparar nisso, mantendo-me o mais firme possível, tentando não demonstrar o quão aflito eu estava. Eu só precisava ver meu irmão, e tudo ficaria bem, eu tinha certeza disso. Eu só precisava vê-lo.
"Ele está estável. Vou acompanhá-los até o quarto dele."
Assim que entrei no quarto e vi Louis deitado na cama, como se estivesse apenas cochilando tranquilamente, com a respiração ritmada de um sono sem sonhos, imediatamente parei ao seu lado e peguei sua mão, apertando-a com força entre as minhas. Eu sabia que alguém estava falando no quarto, ou que alguém acabara de se mover, mas todo o meu corpo estava concentrado na imagem de meu irmão, inerte naquela cama de lençóis brancos, nos fios de cabelos dourados espalhados pelo travesseiro, em seus olhos fechados. Por quanto tempo permaneceriam fechados?
Em algum momento, deixaram-me sozinho com Louis. Acho que tentaram me tirar dali, dizendo que eu precisava descansar e comer ou beber alguma coisa, mas eu não soltaria a mão de meu irmão por nada. Assim que o quarto ficou silencioso, com apenas uma brisa morna de verão entrando pela janela, beijei a mão dele e sussurrei contra sua pele:
"Você pode acordar agora, Louis. Eu estou aqui com você. Você pode acordar, vai ficar tudo bem." Eu olhava diretamente para seus olhos fechados, desejando com todas as minhas forças que eles se abrissem e eu pudesse ver seu brilho inocente e doce novamente. "Louis? Louis, acorda. Eu preciso de você, você sabe disso."
Quase subi na cama e segurei seu rosto com as minhas mãos, afastando os fios de cabelos que lhe caíam sobre a face.
"Eu te amo, Louis." Sussurrei, nossos rostos muitos próximos. "Volta para mim..."
Comecei a chorar, sujando o rosto adormecido com lágrimas. Se ele levasse mesmo anos para acordar, eu provavelmente definharia até não aguentar mais a solidão e, quando ele voltasse à consciência, quem não estaria mais por ali seria eu. Eu não estava pensando nisso naquele momento – eu tinha certeza que ele acordaria, eu só precisava desejar com mais força.
Mas era uma mentira.
Porque nove anos se passaram, e meu irmão continua dormindo, mesmo que eu deseje até a exaustão, todos os dias, que acorde e retorne para mim.
Lorcan Deville
22 de Janeiro de 2013
Notas finais
Beijos! :*
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