As Leis Do Paraíso
2 Capítulo 1
A noite estava terrivelmente quente. Eu tentava manter-me quieto, mas a cada dois segundos, virava de lado, chutava o lençol para longe, buscava por algum canto frio da cama.
Em algum momento, me irritei e sentei na cama, apenas a calça do pijama cobrindo meu corpo suado. Olhei para Louis, sua cama logo ao lado da minha, e ele parecia extremamente sereno, imerso no mais profundo e delicioso sono. Senti inveja e decidi acordá-lo.
Caminhei até a cama dele e subi vagarosamente, pois queria acordá-lo com um bom susto; porém, assim que estava ajoelhado ao lado do corpo esguio dele, não consegui ir adiante em meu intento.
Louis soltou um gemido baixo, fraco, e à meia luz eu consegui divisar bem seus lábios rosados entreabertos. De repente, senti-me hipnotizado pela imagem de meu irmão adormecido. Nós já andávamos trocando beijos havia alguns dias, desde aquele primeiro beijo inocente trocado após um dia de compras. Mas agora eu sentia algo ainda mais forte, uma necessidade que se revolvia em minhas entranhas e arrepiava cada poro da linha que formava minha coluna.
"Lorcan..." Ele gemeu meu nome de maneira concupiscente, e minhas mãos formigaram desejando tocá-lo. Meu coração acelerou ao ver que ele também estava excitado, dado o volume indiscutível na parte inferior de seu pijama.
Vi-me também excitado. Muito. De uma forma que eu nunca imaginaria ficar ao tocar meu irmão. Tocar, sim, pois como se possuísse uma vida a parte, minha mão escorregou para dentro da calça do pijama dele.
Meu irmão gemeu mais alto, mais duro em minha mão, e quando comecei a movê-la, ele abriu os olhos. Olhos espantados, surpresos, fechados nos meus. Recolhi a respiração alterada que ele deixava escapar pela boca com um beijo. Ele segurou meus ombros e senti que tremia – talvez pensasse que ainda estava sonhando. Talvez eu estivesse sonhando. Não havia certezas.
"Lorcan... não... não devíamos..." Ele sussurrou, escapando do beijo, mas inconscientemente abrindo as pernas para que eu pudesse acomodar-me entre elas. Não dei ouvidos. Não queria ouvir.
Não importava.
Movi minha mão mais rápido, fazendo-o ofegar e se segurar a mim com força.
Foram os toques mais íntimos que trocamos antes do acidente...
XxX
Louis bateria pé se me visse fumando, deitado na mureta da sacada de meu apartamento observando a fumaça subir e se dissolver em direção ao céu, como se absorvida pelas estrelas. Eu lembrava perfeitamente das vezes em que meu irmão teimava comigo. Naquela época, eu apenas o ignorava; hoje em dia eu daria cada moeda, cada suspiro, cada vertente de vida que corre por meu corpo para ouvi-lo ralhando novamente comigo. Mas quando ele chorava, eu primeiro o olhava com desdém, porém então, minutos depois, acabava cedendo, e indo consolá-lo. Eu gostaria de tê-lo para me consolar agora, quando choro. Mas minhas lágrimas são sempre por sua ausência.
Eu e ele... Sempre nos considerei belos. Sempre o considerei belo. Meu gêmeo. Então também o era, apesar de odiar olhar-me no espelho hoje, pois o vejo ali, como ele poderia estar, como ele poderia ser se não estivesse deitado numa cama de hospital há nove anos, definhando, com o rosto mortalmente magro, os músculos atrofiados pela falta de uso, ainda que eu e nossos pais pagássemos para que ele fosse submetido a sessões diárias de fisioterapia, o corpo pouco desenvolvido, frágil. Não que eu esteja muito diferente. Sei que ele seria mais saudável do que sou. Mas evitar-me olhar no espelho, ignorar minha imagem... Ver-me não faz falta. Ele sim, ele faz uma tremenda falta, que me sufoca tão ou mais que a fumaça em meus pulmões.
Nesses momentos eu gosto de fechar os olhos e pensar nele. Seus cabelos eram macios, de um tom castanho-claro, como mel; seu nariz era fino e levemente arrebitado, o que combinava com os riscos vermelhos que eram seus lábios. Seus olhos, levemente puxado, oblíquos, como os de um gatinho selvagem, naquele tom esverdeado como a superfície turva da água de um lago. Nem alto, nem pequeno demais, com o corpo delgado e os pulsos finos e pálidos, com as veias azuis saltando aos olhos de quem as quisesse ver. Belo, mas não extraordinário. Belo, mas comum. Mas nossa fascinação vem dos detalhes que ninguém mais nota.
Duvido que você tenha notado aquela estrela entre tantas. Aquela, que brilha mais forte, alaranjada, como se quisesse dissolver-se e espalhar-se por toda a negritude do universo, levando consigo as outras estrelas, absorvendo-as para formar algo maior e ainda mais bonito. Gananciosa, essa estrela. Mas ninguém repara, porque está tão longe, e é mais fácil admirar o todo, e esquecer o individual. Os detalhes são para os que querem ver.
E eu queria. Ver a marquinha pequena que só ele tinha, logo acima do lábio superior esquerdo, ou os cílios que eram longos e claros que chegavam a dar-lhe um ar feminino aos olhos. Ou seu canino direito ligeiramente torto em meio aos seus dentinhos afiados. E suas unhas roídas, e a cicatriz que tinha no ombro de uma brincadeira infantil. E a maneira como apertava com o dedo indicador a ponta do nariz quando estava tentando resolver um problema de lógica, e depois o torcia quando não encontrava a resposta. Ou como ficava adorável quando chorava, com o as bochechas coradas e os longos cílios úmidos de água.
E havia tanto mais. Tanto mais, que às vezes me dói perceber que esqueci uma ou outra coisa, e então, quando lembro, é com prazer e tristeza, porque vou esquecendo, e daqui uns dias, talvez eu não lembre, nunca mais.
Saí da sacada e entrei na casa, na sala escurecida e apenas parcialmente iluminada por velas. O cheiro é de incenso e solidão. Se antes eu já era fechado, depois do acidente tornei-me praticamente um eremita. Eu não me faço de nobre. Eu não preciso ser nobre, fingir sorrisos, abarcar amizades que não me atraem, ou fingir que viver não é apenas sobreviver e esperar. Esperar que ele acorde. Não. Eu serei quem eu tenho de ser, quem eu preciso e quero ser, porque meu irmão continuará a me amar, mesmo dormindo, eu sei que o amor dele continua lá, esperando-me, mantendo-o vivo. Sempre foi assim. Eu, Lorcan, o insensível, o distante, o antipático Lorcan, que não gosta de risadas exageradas, ou balbúrdia de conversa e farra muito perto de mim. Que prefere ficar quieto em um canto, lendo um livro, ou apenas observando. Eu não gosto dos outros. Parecem, a mim, todos idiotas, arrogantes, alegres, mentirosos, sonhadores, barulhentos, irritantes demais. Todos eles. Até mesmo meus pais. Nem mesmo meus pais costumam me abraçar ou beijar, por saberem que eu não gosto.
Isso está escrito no diário, vocês sabem.
E não que isso faça de mim uma pessoa ruim, que quer a morte de todos. Não. Que sejam felizes, desde que me deixem quieto em meu canto. Eu tenho Louis, meu encaixe perfeito, e isso é... O suficiente. Nada mais importa. Eu não preciso de mais nada. Simples. Mesmo que meus pais tentem, sempre que nos vemos, dizer-me através de palavras sutis e cautelosas, que eu preciso aceitar, que talvez esteja na hora de eu deixá-lo ir. Então nós brigamos, eu os ameaço, digo que se desligarem os aparelhos cometerei alguma loucura; falo tantas coisas, que algumas delas chego a me envergonhar, pois arrancam lágrimas de ambos. Eles sofrem também. Louis é o filho amoroso e ideal; eu, apenas o filho antipático, distante e ausente.
Meus pais sabem. Eles sabem. E isso é tudo que há para dizer quanto a eles. Isso os faz chorar também, e talvez em certos momentos fiquem em dúvida, se perguntando se não fora melhor que não pudéssemos concretizar o que havíamos começado aos treze anos. Mas eles provavelmente devem pensar que teria sido perfeito se fosse eu o acidentado. Eu vejo em seus olhos, cada vez que brigamos.
Eu minto. Às vezes sinto vontade de matar alguém, quando vejo esse alguém tão alegre, tão risonho. Eu me assusto com meus pensamentos, nesses momentos, e por isso evito contato humano mais do que nunca. Tenho medo do que eu posso fazer quando a raiva toma conta. Já destruí meu apartamento sete vezes, e passam-se dias antes de eu arrumá-lo e comprar móveis novos. Às vezes apenas fico lá, estirado em meio à bagunça, sem sequer tomar banho ou comer. As pessoas fingem alegria, eu penso ao vê-las esbanjado uma felicidade exacerbada.
Apaguei o cigarro no cinzeiro sobre o balcão da cozinha americana. Meu notebook estava jogado no sofá, ligado e aberto numa página qualquer do Word. Como não gosto de pessoas, afundei-me na profissão mais anti-social possível: escritor. Eu não sou famoso, não possuo nenhum Best-Seller mundial, mas meus livros são donos de alguma notoriedade, e conhecidos por seus temas pesados e, segundo dizem, angustiantes. Há um sobre um assassino serial, outro sobre um garoto que nutria uma paixão obsessiva pela prima, que o levou a matá-la após a rejeição; outro sobre dois homens apaixonados, e um deles tentava lembrar ao outro dos momentos que passaram juntos, porque este perdia aos poucos a memória pela demência.
Estes livros são apenas o suficiente para pagar as contas.
Eu queria escrever a nossa história. Virando escritor, descobri que sou bom em conversar com as palavras, contar a elas sobre todas essas coisas que nos escapam por entre os dedos, e extravasar através delas todas as razões que me fazem enlouquecer um pouco mais a cada dia. Você me acharia emotivo, Louis, muito mais do que se lembra, nas memórias em sua mente, se é que ainda as tem. Há milhares de fotos de nós dois espalhadas pela sala, fotos presas no tempo, perdidas em feições que já não nos pertencem. Você poderia dizer que há rostos demais me olhando por todos os cantos do apartamento, e diria que eu não faço nenhum sentido, pois evito o espelho, mas nos vejo refletido em cada fragmento de tempo capturado por uma máquina fotográfica. Mas o que me machuca não é isso, entende? Não. É você, e o que você é agora. Não é que eu não seria capaz de te amar da mesma maneira se não fossem as coisas, as lembranças, o tempo... O que me assusta é você acordar e, sem essas provas, não ser mais capaz de me amar. Eu sei. Talvez eu tenha medo dos dois. Medo do tempo e dos grãos de areia.
Você riria disso, Louis, mas sei que mereço; aliás, o som de sua risada me arrancaria um sorriso. Há quanto tempo não esboço um? Eu vigio seu sono, e o som da sua respiração me soa como a queda lenta de minúsculos grãos de areia numa ampulheta. Nesses momentos, eu preciso que você acorde, que acorde e olhe para mim, e me faça saber que seus olhos me vêem, e realmente me vêem. Você me escuta quando falo com você? Quando conto sobre as mudanças do mundo, sobre algum filme idiota que você iria gostar, ou falo de nossos pais, ou até mesmo te relembro sobre nós dois? Será que você sente falta da minha voz quando não estou com você, e será que ao acordar brigaria comigo por nunca contar sobre os meus dias? Mas não há nada de bom nos meus dias, Louis. Nada de bom, sem você.
Hoje não fui ao hospital. Reli meu diário, escrevi algumas resenhas sobre um novo livro, organizei minhas ideias e lembrei de nós dois, de você. Hoje precisei ficar em casa, para me lembrar, e amanhã poder te lembrar. Você pode achar que estou guardando algum segredo, e então diria que segredos são perda de tempo, porque você nunca soube guardar um. De ninguém. Então eu discordaria, diria que eles são essenciais, que são eles que mantêm os astros no céu e a Terra girando, o sol queimando... Eles vencem guerras, as pequenas, as grandes, e as nossas guerras. Guerras limitadas por nossos conceitos, pensamentos e emoções frágeis, todas condicionadas ao que vivemos, escolhemos guardar, decidimos tomar como nossa verdade. E nada é apenas sobre armas e estratégias, causas justas ou nobres, e o valor de cada uma das razões que insistimos serem as certas, ou as erradas. Isso até pode importar, mas não é essencial. Guerras são vencidas com segredos, descobrindo os do inimigo e mantendo os seus, mesmo que às vezes nós sejamos nossos próprios inimigos, e tenhamos de mentir e esconder-nos de nós mesmos. São os segredos que determinam a nossa história.
Comi qualquer coisa. Comida congelada, acho, e chequei as notícias no jornal do dia. Nunca como muito, e assim não nos diferenciamos tanto. Meu corpo também é magro; minha constante mania de passar vários dias sem comer impediu-me de crescer muito. Meus cabelos são opacos, sem vida como os olhos; as olheiras profundas são minhas companheiras constantes em noites de vigília. Eu estou em coma também, porém consigo andar e comunicar-me com as pessoas – consigo? –, e raramente durmo. Tenho mania de meu auto-medicar com frequência e, considerando a falta de exercícios e a grande quantidade de cigarros que eu consumo por dia, tanto meus músculos, quanto meus pulmões devem ser mais atrofiados do que o normal. Algumas vezes contrato prostitutos para virem ao meu apartamento. As transas são sempre rápidas, desagradáveis e brutas. Eu aviso claramente antes de chamá-los que gosto de um pouco de sadismo. Vêm aqueles que preferem dinheiro, a peles sem roxos. Eu não sou tão forte, e talvez por isso eles voltem, farejando dinheiro. Mas isso acontece apenas algumas vezes por ano. Eu só preciso apaziguar uma necessidade física, biológica, que jamais é satisfeita, entretanto.
Um deles se chama William, e insiste para que eu o chame de Bill. Estranhamente se afeiçoou a mim. Tenta conversar depois do sexo e, às vezes, eu o deixo falar. É nele em quem eu mais bato, quando o chamo. Mas ele é masoquista e gosta, mesmo que minha intenção nunca seja fazê-lo gostar. Não é para gostar que eu o pago. William fala que é fã de meus livros, que havia lido todos. Eu não ligo, apenas fumo enquanto olho pela janela. Sei que em alguns momentos retruco, mas não consigo me lembrar de nenhuma palavra que digo a ele. Não é um amigo, mas é o mais perto disso que eu jamais terei. Às vezes eu também quero matá-lo, mas a sensação passa depois de machucá-lo. William é carente, entenda, ele não gosta da solidão como eu gosto.
A segunda pessoa com quem eu mais converso é meu agente literário. Ele não gosta de mim, mas já tentou me levar para a cama, sem sucesso. Ou talvez seja por isso que não gosta de mim. É um homem arrogante, presunçoso porque as pessoas devem achá-lo bonito. Imagine um modelo de cueca, Louis, esse é meu agente literário. Deve ser um homem inteligente, porque faz os livros venderem bem, considerando suas temáticas. E eu já havia ganhado três ou quatro prêmios pequenos nos últimos tempos. Já pensei em tentar escrever algo decente, para ler para você, Louis, mas não consigo. Apago todas as vezes, como apago meus maços de cigarro.
Uma vez por mês vou ao cinema, sempre numa quinta feira, nas sessões das cinco e quarenta e cinco. Também não sei bem por que faço isso, pois sempre saio de lá enjoado, e uma vez já vomitei no banheiro dos cinemas e desmaiei, mas suponho que não deva ter sido por culpa do filme, mas pela dose exacerbada de remédios que tomei naquele dia; porém lembro-me de como você gostou quando fomos ver um filme juntos num telão, pela primeira vez. Quando foi? Não estou conseguindo me lembrar agora, deveria ter pensado nisso durante o dia. Hoje não fui te ver para lembrar esse tipo de coisa. Mas lembro de como seus olhos brilhavam. Também lembro que foi numa quinta feira, às 17h45min. Estávamos empolgados porque, quando o filme terminasse, já seria noite. Ou só você estava. Era você quem gostava de surpreender a lua quando ela menos esperasse.
Hoje saiu uma notícia de um acidente que matou milhares de pessoas. Percebi-me estranhamente indiferente a essas mortes. Foi quando notei que meus sentimentos estão me deixando, que cada dia sinto menos e até mesmo as mudanças climáticas não me afetam — calor, frieza, lua ou sol, tudo parece gelado. Não de uma maneira que deixe minha pele arrepiada, ou me faça vestir roupas quentes. É difícil explicar, mas não quero falar sobre isso. Nove anos é muito tempo. Talvez eu seja mesmo uma casca vazia para além da minha espera. Não me faça dizer, Louis. Por favor, não me faça. Jamais me faça dizer que talvez eu sequer consiga te amar como antes. Eu sei que amo. Não vamos mais falar sobre isso. Só não me diga que eu gosto de relembrar, porque assim posso fingir que ainda sinto as mesmas emoções, porque não sentir, como às vezes eu desejo, é ainda mais perturbador. Por favor, não diga mais nada.
Voltei para o notebook e escrevi. As estrelas caíram, ofuscadas pelo sol da manhã, e eu ainda escrevia. Escrevia que cada minuto daquelas memórias distantes é, para mim, como uma joia única feita dos grãos finitos que caem da ampulheta. As joias do tempo são muito mais caras frente a uma joia comum, sem valor, mas isso é apenas óbvio, não é? Cada um dos minutos que nos foram roubados parecem-me inestimáveis. Eu lhes daria preços absurdos, se eu fosse um poeta, apenas para você se sentir mais importante – e você sabe que é impossível ser mais importante, Louis. Mas não sou nenhum poeta, e meus versos não rimam há muito tempo. Resta-me escrever que, para cada um daqueles minutos, simplesmente não podem existir outros iguais.
XxX
Segui para o hospital naquela manhã, horário de visitas. Algumas vezes eu apareço fora do horário, porque quero ver seu rosto, simplesmente olhar e esperar que seus olhos se abram pela uma hora em que eu fico sentado te observando, falante ou silencioso. Imagino que seria como nos filmes. Você moveria um dedo, dando o primeiro sinal de vida, e meu coração dispararia. Eu gritaria por um médico e, depois de uma análise rápida, ele diria que você estava perto de acordar. Então você acordaria, o médico estaria certo, e eu poderia continuar a viver, porque você também poderia. Mas quando aquela uma hora passa e você continua tão inerte quanto antes, eu entendo que não vivo em nenhum filme. De novo. E de novo. Eu entendo todas as vezes, mas minha mente gosta de me iludir, Louis, basta eu olhar para você, e volto a acreditar. Você sempre fez isso comigo, sempre me tornou bobo e tolo. Eu costumava gostar, quando podia ver seus olhos.
Mas hoje cheguei no horário e, como sempre, ignorei todos os olhares de pena. As enfermeiras já me conhecem, assim como alguns médicos. A moça da recepção é a mesma há dois anos, e ela costuma sorrir mesmo que eu nunca retribua. Eles acham que entendem. Acham que podem compreender, porque já perderam um gato, ou uma mãe. Tanto faz. Nenhum deles te perdeu como eu perdi. Nenhum deles remói esperanças que sangram e amortecem, e voltam a sangrar. Nenhum deles bebe desse sangue como se bebesse o cerne da vida e permite-se existir mais um pouco. Os seres humanos são assim, Louis, imperfeitos, errados, idiotas. Eu também sou assim, você sabe que sou. Mas não diga que você é. Eu não gostaria de escutar isso.
No caminho até a sala onde mantêm meu irmão, entretanto, eu fui parado pelo médico. É ainda o mesmo médico que falou que Louis poderia acordar dali alguns minutos, meses, ou anos. Eu ainda me pergunto por que não pudera ser em alguns minutos. Não acredito em Deus, nem em nenhuma forma de divindade, mas em alguns momentos fraquejo, desejando que as energias do universo se comovam e façam algo por meu gêmeo. Roubem a minha energia e a entreguem a ele, quem sabe, mas nesta opção eu não penso muito, pois de uma maneira ou de outra, eu estaria longe dele. Ah, o egoísmo. Poderia o amor não ser egoísta uma vez que encarcerado dentro de todas as limitações humanas?
“Sr. Deville.” Ele disse, num trinta de fevereiro. “Acompanhe-me, por favor, nós dois precisamos conversar.”
Admito que nada se revolveu dentro de mim. O médico, Peter Gause, é seu nome, já havia me chamado outras vezes para conversar. Algumas eram sobre os gastos quanto à manutenção da vida de meu irmão. Outras ele apenas queria conversar sobre a situação de Louis. Eu gosto de ouvi-lo. Talvez seja uma das poucas pessoas que gosto de ouvir, pois fala apenas de minha outra parte, meu gêmeo. Eu o segui calmamente, ainda que um pouco irritado por ele não pedir para conversar após a minha visita. Ele se dirigia a mim, pois eu tinha me tornado o guardião legal de meu irmão. Exigi isso de nossos pais, pois apenas assim eu me sentiria tranquilo, sem medo de que eles mandassem interromper a alimentação intravenosa com a qual o nutrem.
Entramos numa sala simples do hospital, onde havia uma mesa e algumas cadeiras. Ele pediu para que eu me sentasse, e eu o fiz. Umedeci o lábio ressecado e tamborilei os dedos sobre a mesa, esperando para saber o que quer que ele tivesse para me dizer. Estava impaciente, admito.
“Como você sabe, Lorcan,” Depois de tantos anos, ele se sentia à vontade para usar meu primeiro nome. “Eu há algum tempo já lhe expliquei sobre a escala de coma de Glasgow, que é nossa forma de se avaliar a profundidade e duração clínica de inconsciência e coma. Você deve se lembrar que, depois de conseguirmos avaliar seu irmão, há nove anos, algumas semanas após o acidente, ele estava em escala 4...”
“Coma profundo.” Tamborilei mais os dedos sobre a mesa. Aquele dia havia amargurado minhas esperanças de que Louis acordasse em breve. Peter me olhou condescendente. As pessoas do hospital são as únicas que me olham dessa maneira. As outras me olham com indiferença, e até raiva, mesmo que eu nunca tenha feito nada para elas, além de não lhes dar atenção, ou tentar fingir alegria como muitos fingiam. Mas nenhum desses olhares me importa, nenhum me causa qualquer emoção; o único olhar capaz de tanto está fechado para mim, sob pálpebras pesadas.
“Algo inesperado aconteceu, Lorcan. Como sabe, você requisitou novos exames há alguns dias e...” Nesse momento eu o olhei, e meu coração retumbou, como seria quando Louis movesse o dedo. As lágrimas escorreram por minhas bochechas antes mesmo que ele completasse: “Louis está na escala 12.”
Minha respiração alterou, tornando-se densa. O ar pareceu virar sólido quando chegou aos meus pulmões corrompidos. O mundo girou tão rápido que todos os meus segredos se quebraram num espaço curto e infinito de milhares de milésimos de segundo. E não havia mais astros girando, chão sob meus pés, ou sol ofuscando-nos enquanto queima.
“Coma superficial.” Peter complementou.
Louis estava acordando.
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