As Histórias De Thalia
49 3? Meninos abusados
Notas iniciais
LUKE
Era um campo enorme de flores lilases; eu não era capaz de dizer aonde começava ou onde ele terminaria. O dia estava parcialmente nublado; as nuvens cinza claras cobriam o céu e não permitiam o sol brilhar com força, embora uma leve claridade pairasse sobre o campo. Andei por entre as flores sem saber o que fazia ali, mas com a certeza de que algo me puxava para si... E eu conhecia essa sensação.
Eu já havia experimentado a sensação de ser puxado... Era puxado pelos Titãs que habitam o Tártaro, pelo próprio Tártaro, por Cronos. Mas não fazia sentido nenhum deles querer me encontrar em um campo florido! Deixei de me questionar sobre isso; aquele lugar me oferecia uma paz indescritível e já fazia tempo demais que eu não a sentia. Não era um “sonho de semideus”, era somente um sonho.
Passadas lentas em intervalos regulares me garantiam o sossego. Avistei algo brilhando ao longe, um brilho intenso; não! Era um reflexo. Meu sonho pareceu se adiantar, pular etapas; nesse caso, a distância entre o reflexo e meu corpo foi diminuindo em uma velocidade fascinante sem eu ter que acelerar meus passos. Espelhos formavam um circulo muito bem feito ao redor das flores que foram refletidas no objeto refletor.
Uma linda moça brincava com seu vestido e com os reflexos obtidos. Ela erguia as saias da roupa enquanto girava lentamente e mexia seu corpo de uma forma inocente e sedutora. Minha atenção ficou total e inegavelmente centrada nela.
O vestido longo emoldurava de forma particularmente perfeita o corpo esbelto; tão negro quanto se é possível e sem alças, a região do busto bem marcada pelo tecido que caía solto e livremente a partir da cintura. Os cabelos soltos pareciam dançar e os cachos rebeldes davam um ar misterioso completando o rosto. Os lábios incrivelmente vermelhos, sedutores que convidavam qualquer desprevenido a se aproximar... Mas eram os olhos que me prenderam ao local, me congelando no tempo: o tom incomum de azul era mais do que indescritível, era divino.
Esqueci tudo o que poderia ser esquecido; apenas sua imagem, a visão de seu corpo saudável me encantava e me dava conforto. Ela estava bem e não graças a mim. Aproximei-me colando nossos corpos por trás, prendendo minhas mãos em algum lugar abaixo dos seios e acima da cintura. Ela reduziu seus movimentos e cravou seus olhos no meu reflexo. Encaixei meu rosto na curva de seu pescoço e respirei aquele perfume incomum que misturava o doce ao acido que só ela tinha. Ela soltou o ar pesadamente aprovando meu gesto, enquanto eu tentava controlar tudo o que se passava em mim.
Virei seu corpo de modo que ficamos frente a frente. Ela ergueu uma das mãos enquanto eu subia a minha por seu corpo, contornando cada curva, deslizando pelo braço e segurando sua mão. Uma súbita canção encheu o ar, um piano tocava uma melodia envolvente... Assim sendo, guiei seu corpo por entre as flores fechadas pelo círculo de espelhos. Nossos olhos nem sempre se encontravam diretamente, era algo quase desconfortante. A intensidade das notas era regulável, aumentava e diminuía de acordo com nossos olhos.
Paramos ao mesmo tempo no centro do circulo, mas seu vestido e seu cabelo ainda se moviam graciosamente. Nossos narizes colados, as respirações descompassadas e os olhares voltados para baixo nos descreviam.
–Senti sua falta. – consegui murmurar ao fim do som das teclas.
Um começo de um sorriso apareceu naquele rosto carregado de mistério. Ela se afastou e começou a andar lentamente para fora do circulo; sem ter uma completa noção do que fazia, eu a segui. Passos lentos e um coração calmo... Não fazia muito sentido! Ela deitou entre as flores e eu me deitei ao seu lado; ficamos olhando para as nuvens e, como em um filme, no mesmo instante voltamos o olhar para um para o outro. Selemos nossos lábios...
Foi diferente: o toque não foi quente, mas não era frio, não era doce e nem amargo, não era errado... Mas também não era certo. Era como se um de nós não fosse real e as sensações fossem completas mentiras; existia um fino e transparente véu que nos mantinha separados. Mas nem por isso deixou de ser bom. Era a minha garota que estava ali, a existência desse véu não me importava.
–Senti sua falta. – murmurei mais uma vez.
–Diria isso se seus “amigos” estivessem aqui? – sua voz era distante como se estivéssemos a quilômetros de distancia.
–O quê?
Ela se levantou e começou a andar, mas já não parecia calma... Ela estava perigosa. As nuvens pareceram escurecer e a luz diminuiu bastante. Quase correndo a segui na esperança de não perdê-la.
–O que você quer dizer com isso? – tentei de novo.
–Que você mudou... Mudou muito. – ela virou para mim e como eu ainda corria, só consegui parar quando nossos corpos colidiram e nós voltamos a cair nas flores. Meu corpo sobre o dela e, mesmo assim, ainda parecíamos distantes. Seus dedos vieram em direção ao meu rosto e traçaram um caminho contornando minha cicatriz e só pararam na minha bochecha, onde prendi sua mão com a minha. O seu toque era como uma neblina grossa: embora fosse difícil de sentir, era agradável.
–Eu... – minha voz morreu.
Sem que me desse conta, nós dois já estávamos de pé. Ela recomeçou a se afastar e eu a segui-la; não queria perdê-la, não podia!
–Eu não mudei. – consegui dizer enquanto lutava para alcançá-la. O tecido fino e leve voava junto com seus cabelos; o vento forte parecia querer me manter longe da menina mais preciosa do mundo.
– Seus “amigos”, não são amigos, são servos e monstros que o temem. Sua família agora não passa de um Titã em pedaços, um ser perigoso e impossível de se confiar. Você enganou o Percy e abandonou a Annie!
Sua voz tinha a tristeza e a raiva. Um relâmpago iluminou todo o céu e eu senti em mim um alerta enorme indicando perigo. Não demorou muito e logo eu já não via as flores; uma neblina tão densa quanto se é possível imaginar cobria tudo. Tudo pareceu sumir menos seus olhos. Mas não parei de correr. Eu senti o ar ficar mais frio e ir desaparecendo dos meus pulmões; a neblina desapareceu no instante em que cai de joelhos.
Só então me dei conta: não existia mais nenhuma flor; o solo era rochoso e a minha frente ela estava de costas para o penhasco; o topo de uma montanha era onde nos encontrávamos. A rocha que indicava o fim de onde se podia caminhar também marcava o inicio de um enorme abismo. Até para mim que não tinha medo, a altura dava vertigens.
–Não!... Não faça isso! – disse com muito esforço vendo que ela se aproximava cada vez mais do limite.
–Por que não fazer isso? – sua voz era tão poderosa que o semi de semideusa já não cabia mais para descrevê-la; eu via uma deusa com raiva, mas com tristeza dentro de si. Eu não sabia mais como agir perto dela.
–Você... Você tem medo de altura...
–Mas meu medo não é nada comparado a estar perto de você. Eu vejo só uma casca vazia do que você já foi; não sobrou nada do menino que conheci.
–Mas...
–Eu prefiro encarar este medo e me jogar do que encarar um estranho a quem amei durante muito tempo. – ela deu um passo para trás e ficou a centímetros de cair... O som do trovão encheu o ar... Seus pés descalços eram visíveis já que seu vestido voava... Um relâmpago cortou o céu... Meu coração foi parar na boca quando eu vi o ultimo milímetro da rocha desaparecer. Seu corpo desapareceu na queda e eu não consegui suportar a dor de vê-la cair...
–THALIAAAAAAAAAA
Lágrimas me subiram aos olhos e uma voz diferente me entrou pela cabeça:
– Não permita que ela sofra por sua culpa. Ela é forte, mas seu coração sempre permanecerá puro... Se você souber tratá-lo... O cheiro de perfume encheu meu ar por um mero instante, enquanto uma chuva forte parecia queimar minha pele...
Abri os olhos desesperado procurando por Thalia e a dona da voz misteriosa...
Meu quarto estava como sempre: bagunçado, mas a velha e imprestável dracaena iria arrumar. Não existia qualquer sinal de Thalia ou da voz feminina; o dia estava parcialmente nublado e as ondas inexplicavelmente calmas... Mas tinha algo errado naquela cabine... Algo a mais.
–Você grita bastante dormindo. – a voz repentina me fez gritar de susto e cair da cama... Sobre a minha cama estava ninguém menos do que o irritante semideus, filho de Hefesto, Alan.
–O QUE, POR CRONOS, VOCÊ ESTÁ FAZENDO NA MINHA CAMA?- eu gritei horrorizado.
– Relaxa cara... Vim acordar você, mas seu sono é pesado e eu só deitei no colchão bem longe de você!
–O que quer?
Ele se recompôs assim como eu.
– O mestre precisa falar com você. Ele diz que é urgente.
Meu sangue gelou, mas não demonstrei. Fiquei apenas parado, de pé, em silencio enquanto Alan observava minha reação.
–Teve um pesadelo? – ele perguntou compreensivo.
–Não sei bem o que foi aquilo... – tinha sido o meu melhor sonho... E o meu pior pesadelo. Segui em passos ligeiros até a cabine onde se encontrava o caixão...
–Por que será que você não vem no instante em que é chamado?
O silencio reinou no recinto
– Não faz nem duas semanas desde que “ela” voltou e seus sonhos têm ficado mais inquietos. Hoje mesmo a presença de uma Deusa também foi evidente!
–Não sabia que sonhava com ela e também não me dei conta da presença da deusa, senhor. – fiquei quieto por alguns segundos antes de afirmar o óbvio. – Preciso vê-la e se possível estar com ela pessoalmente.
–Sim... Mas isso ira demorar... Deixe este verão passar. Até o fim deste ano teremos a Princesa de Zeus do nosso lado, para o seu bem... Ou você sabe o que ocorrerá.
Não precisei responder, mas meu corpo tremeu em protesto a aquela afirmação.
– Mas você a verá antes disso; dar-lhe-ei uma oportunidade. Isso será feito com cuidado e eu planejarei tudo pessoalmente... Mas até lá, preserve sua concentração longe da menina... Bem longe!
Cortante, ríspida e gelada era essa a voz de Cronos... O único ser a quem eu podia chamar de família queria me afastar da única pessoa que me mantinha vivo.
THALIA
Meus sonhos tinham sido confusos e muito embasados; ver era quase impossível e a única coisa que consegui decifrar foi inúmeras flores lilases, mas eu sabia que aquilo tinha um significado forte...
Levantei me sentindo ainda mais cansada do que antes de cair na cama. Parecia que Luke tinha alguma coisa a ver com o sonho. Irritada, arranquei o colar e o deixei sobre a cômoda. Peguei uma lingerie preta e segui até meu banheiro.Prendi meu cabelo em um coque para não os molhar e finalmente entrei embaixo da água; nada melhor do que água morna escorrendo pelo corpo.
Saí da suíte apenas com a lingerie preta e com os cabelos já soltos. Parei de andar quando notei os dois desconhecidos remexendo nas minhas jóias. Era só o que me faltava!
–Perderam alguma coisa? – perguntei olhando de forma assassina e sorrindo marotamente. Eles viraram assustados e iam responder. Iam, mas não conseguiram. Os gêmeos não conseguiam deixar de reparar no meu corpo e isso era tão familiar...
“Então me vesti com o conjunto listrado e sai do banheiro ainda passado a toalha em meus cabelos praticamente secos...
– Você... Ele não... Como... Uau! – Ele não conseguia nem terminar uma frase direito. Essa ultima exclamação foi em relação a minha roupa, ou a ausência da maior parte dela.
Não pude deixar de sorrir da expressão boba que surgiu em seu rosto.”
–Nós...
–Nós só estávamos...
–Você...
–Uau!
Uma gargalhada me escapou e eles ficaram ainda mais constrangidos. Fui em direção ao guarda-roupa e peguei um cardigan verde musgo e joguei sobre os meus ombros.
–Estão fazendo o que aqui? – perguntei ignorando a baba que começava a escorrer pelo queixo de um deles... Tá bom! Eu ri mais ainda.
–Nós...
–Você... Sair... Uau!
Beleza, já estava ficando chato. Aproximei-me deles... E dei um bom tapa na cara de cada um. Era cedo demais para os filhos de Hermes estarem acordados...
–Comecem a frase de novo. Por que vocês estão aqui? Ah e eu não sei quem vocês são.
–Travis. – o menino piscou.
–Connor – o outro mandou um beijo. Deuses! Como esses dois são assanhados.
–Nós viemos aqui para levá-la para um bom treino.
–Mas não tem ninguém acordado há essa hora. – retruquei; era realmente cedo.
–E isso é ótimo! – agora era o outro que falava. Céus! Como é que eu saberia quem é quem?
–Vamos tomar café.
–E como não tem ninguém...
–Você não vai precisar ficar sozinha! – completaram juntos. Eu ri.
–Vamos treinar o que exatamente?
–O Quíron quer que você tenha um treinamento completo assim como o Percy, mas ele fica mais na espada.
–Nós começaríamos com um aquecimento básico e depois nós pensamos se você não gostaria de experimentar o boxe... Só alguns filhos de Ares se interessam em lutar, mas eles não gostam de treinar.
Eles esperavam uma resposta minha...
–Isso parece ser legal. – eles sorriram.
–Coloque uma roupa confortável.
–Mas se quiser ficar assim também está ótimo.
Joguei o cardigan em algum lugar e senti os olhares deles sobre meu corpinho. Já de costas sorri marotamente. Um short curto e uma regata justa me cobriram o corpo. Os gêmeos não tiravam os olhos de mim. Peguei um tênis e antes de sair do chalé...
–Devolvam as jóias que pegaram. – meu tom foi perigoso e de longe eu os senti tremerem de medo. O dia não seria tão ruim assim... Mas que meninos abusados esse, hein?
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