As Feministas

1 Conto Um — Ana e o Banheiro Químico


Notas iniciais
Olá pessoal! Espero que vocês gostem ^^ PS: O capítulo não está betado ainda!

Escutava atentamente a letra da canção apresentada naquele momento pela banda Capital Inicial. Nem o céu sem estrelas conseguia diluir a sensação maravilhosa com que meu corpo se balançava no ritmo da música. Os olhos fechados, a respiração tranquila, os braços erguidos no ar, a voz repetindo as palavras ditas pelo vocalista a plenos pulmões.

Estava muito feliz em ter decidido comparecer aquele show. Após semanas de apenas dizer não para meus amigos, desisti da minha vida de caramujo e resolvi acompanhá-los em mais uma de suas aventuras mensais. Mariana ficara definitivamente chocada quando lhe avisei que comprei o ingresso para o concerto; era normal de sua parte me convidar e normal da minha não aceitar. Raramente acontecia de falar “tá bom, eu vou com vocês”.

Portanto, era um momento especial.

A noite estava fria e minha blusa — disfarçada de casaco — xadrez não estava dando conta do recado; sentia os pelos de meus braços se arrepiarem a cada rajada de vento. Minha garganta seca implorava por água, mas parecia simplesmente impossível localizar qualquer vendedor naquela multidão agitada.

— Quer que eu vá procurar um para você? — gritou meu amigo José depois que reclamei da sede pela terceira vez. — Com certeza tem alguém que venda por perto.

— E se você não conseguir nos encontrar depois? — exclamou Mariana para ele. — Olhe essa loucura!

Ele deu de ombros.

— Não se preocupe com isso.

Após alguns minutos e a finalização de duas canções, José retornou para nós com quatro garrafas de 500 ml de água em suas mãos. Bebi rapidamente, sentindo o líquido preencher meu estômago vazio. Logo em seguida, peguei outra garrafinha e a abri, tomando metade de seu conteúdo e então a fechando novamente.

Quando olhei meu celular, o aparelho me informou que já era dez e quarenta da noite. O show não duraria muito mais tempo, porém uma urgência de urinar repentina não iria me permitir esperar até que Dinho Ouro Preto agradecesse a presença de todos e sumisse de nossas vistas.

— Preciso ir ao banheiro — anunciei.

— Vá se foder, Ana — riu José, passando o braço ao meu redor e apertando meu ombro. — Não para quieta nem um instante.

Era meio verdade, mas não tinha muito que eu podia fazer com relação aquilo.

— Realmente preciso ir ao banheiro — insisti. — Está vendo algum?

— Parecem mais difíceis de localizar do que o vendedor — observou ele, olhando em volta. — Bem, tem aquele perto do Bar das Ostras. Vamos lá? Acho que demoraria até menos do que sair procurando um mais perto daqui.

Assenti e puxamos Mariana para ir também. Minha melhor amiga passou toda a caminhada de sete minutos reclamando sobre perder o fim do show só porque eu não tinha o poder de controlar minha própria bexiga.

— Espera — exclamou ela quando só estávamos a poucos passos do Bar das Ostras. — Esse não é aquele bar onde você tem que pagar pra fazer xixi? Eu não vou dar nem um centavo!

José revirou os olhos.

— Eu pago, Mari, se esse é o problema.

— Deixa de ser bobo, José, tem um estacionamento ali do outro lado, que tem um banheiro químico de graça — contestou ela. — Vamos lá.

Meu amigo virou na mesma hora e começou a andar em direção ao outro lado, onde uma placa em vermelho indicava que o local estava lotado de veículos. Quando entramos, um homem gordo com uma camisa social verde escura que mais parecia vomito de bebê se aproximou de nós com um olhar desconfiado.

— Queríamos saber se é possível usarmos o banheiro — falou Mari.

Ele assentiu, passando os olhos por ela de cima a baixo duas vezes.

— Vá, Ana — murmurou José.

Dirigi-me ao pequeno espaço nojento e fiz minhas necessidades respirando pela boca para não sentir o terrível odor que impregnava aquele local. Quando acabei, me juntei a Mariana e ambas aguardamos enquanto José também usava o banheiro químico.

— Não devia andar com essa roupa no meio da rua — O homem olhava fixamente para Mari, como se quisesse poder ver através de seu vestido vermelho colado. — Pode deixar algum homem com a ideia errada sobre o que você quer.

Demorei alguns segundos para assimilar o comentário, mas a loira ao meu lado foi rápida:

— Não me recordo de ter pedido sua opinião quanto a minha roupa. Tem certeza que não quer que paguemos pelo serviço utilizado?

— Só se você for me pagar abrindo essas perninhas lindas pra eu te mostrar a minha opinião te fodendo.

O susto que levei com as palavras profanadas foi tão intenso, que gritei imediatamente:

— Você só pode estar fora de si se acha que tem direito de falar um absurdo desses!

O que aconteceu nos instantes seguintes é tão turvo quanto a minha visão ao cair no chão depois do tabefe estrondoso que o homem meteu em minha face. Senti o gosto metálico do sangue invadir minha boca ao mesmo tempo em que ouvi Mariana gritar desesperadamente por ajuda.

Ouvi gritaria e um tiro sendo disparado para cima. O homem gritou que se alguém se aproximasse, ele não teria pena “e matava mesmo”.

Fui puxada do chão de pedrinhas delicadamente e senti o perfume de José ao me agarrar com força nos braços da pessoa que me ergueu. Sentia que me arranhara em diversas partes dos joelhos e braços, mas o choro sufocante se originava da humilhação repentina que se apossara de meu ser.

— Você vai ser preso por isso! — gritou uma voz que eu desconhecia. — Alguém já ligou para a polícia?

— Já liguei — exclamou uma mulher. — Meu Deus do céu, como ela está?

Meus olhos estavam fechados, como se não olhar para o mundo exterior fosse me eximir de qualquer vergonha que estivesse sentindo.

Durante algum tempo, apenas permaneci abraçada a José, recebendo sua mão em meus cabelos, tentando me confortar enquanto as lágrimas caíam sem parar por meu rosto machucado. Depois, fui colocada em uma viatura junto aos meus dois amigos e seguimos para a delegacia mais próxima.

Mariana já ligara para minha mãe e junto a meu pai, ela estava indo para o mesmo lugar que a gente. Não tinha a menor ideia do que iria acontecer a seguir, mas meu corpo não parava de tremer e minha mente repassava a cena repetidas vezes, como um replay desagradável em um filme ruim.

— O que aconteceu? — perguntou um policial assim que chegamos.

— Aquele monstro ali socou a Ana depois que ela me defendeu dele — gritou Mariana. — Isso é um absurdo!

O choro voltou com força total enquanto observava o policial de cabelos brancos pedir para que minha amiga não “elevasse o tom de voz”. A discussão se desenrolou por mais alguns minutos, e então o homem se virou para mim e declarou:

— Senhorita, terei que prendê-la por desacato se não parar de escândalo.

— Meu Deus — exclamei, me entregando ainda mais ao sofrimento. — Sou agredida fisicamente e serei presa por chorar por isso?! Você não pode estar falando sério!

— Vem cá — murmurou José, como sempre perfeitamente calmo, me puxando para seu abraço mais uma vez. — Vamos sentar ali.

Tentei controlar minha fúria e incredibilidade até que meus pais chegassem com o advogado. Alguns minutos depois que mamãe começou a chorar em minha frente, finalmente me levaram para fazer o Boletim de Ocorrência. Lá, duas mulheres policiais atenderam a Mariana e eu.

— Se vocês tivessem ficado em casa, nada disso teria acontecido — murmurou uma delas, com a voz carregada de pena. — Esse mundo é dos homens, querida, não adianta tentar mudar isso.

Não respondi, pois estava farta daquilo tudo.

— Porque pensa comigo — a outra prosseguiu. — Estar em casa, lendo um bom livro, ou até mesmo assistindo a novela das nove, é bem mais seguro. Não acha?

— Acho — concordei. — Mas também acho que não devo me privar de viver porque algumas ditas pessoas não respeitam minha liberdade e meu direito como cidadã, de não ser agredida fisicamente. Não acha?

Elas não me responderam.

Estava embasbacada com a culpabilização da vítima que mulheres (como eu!) estavam insinuando. Era quase impossível crer que em pleno século 21, alguém ainda pensava que se a mulher não queria ser ofendida ou agredida, deveria mais é ficar em casa.

— O que acontece agora? — indaguei, bem mais calma do que quando chegara ali.

— Ele será fichado — explicou uma das policiais. — E se for réu primário, liberado.

Foi como se outro tapa fosse desferido em meu rosto.

— O quê? — gritei. — Sou agredida fisicamente, uma arma ilegal é disparada, ameaças são feitas, e ele simplesmente é fichado, só isso acontece? Que porra de país é esse?!

Não parei de gritar até que fosse novamente ameaçada de prisão por desacato. Tudo a minha volta girava como se estivesse em um carrossel. Parecia surreal que aquela noite agradável havia se tornado isso — um banho de injustiça.

Felizmente, consegui ir para casa sem ter que olhar na cara daquele monstro novamente. Ele ficaria ali até às nove e meia da manhã do dia seguinte e então poderia retornar a sua vida normal, com uma passagem na polícia por “agressão física, armamento ilegal e disparo de arma de fogo”. Nenhuma daquelas acusações parecia suficiente para manter um “cidadão de bem” atrás das grades.

Mal consegui dormir. Mariana ficou comigo até à tarde do dia seguinte, quando meu telefone celular já estava entupido de mensagens que eu não queria responder. A notícia que saíra no jornal online de minha cidade foi que um “homem disparara uma arma ilegal contra um grupo de pessoas, mas ninguém saíra ferido”. Ninguém saíra ferido, eles disseram.

— Não vou ficar calada — disse à mamãe depois que li a matéria. — Vou fazer um post lá no Facebook contando a verdade. E vai ser agora mesmo.

— Filha, deixa isso quieto — choramingou dona Marta. — Já passou. Siga em frente.

— Não, mãe — exclamei, surpresa com seu pedido. — Não é assim que funciona. Nunca irá passar; as mulheres continuarão sendo agredidas e silenciadas. Alguém precisa dar o passo inicial. Não se pode existir uma situação como essa, onde um homem bate em uma completa estranha por porra nenhuma e saí impune, com um mísero fichamento na polícia.

Nunca fui o tipo que aceitava com a cabeça abaixada e as mãos entre as coxas. Nunca me deixei ser diminuída por qualquer homem, ou até mesmo qualquer mulher que me dissesse que por ter uma vagina, eu deveria procurar meu lugar inferior. Não. Apenas não. Eu não quero deixar para uma possível filha a lembrança que a mãe dela foi agredida e ficou em silêncio.

Nenhum homem encosta em mim e se livra disso com nada. Se a justiça não for feita pelas autoridades, a farei sozinha. A sociedade é machista, mas nada existiria dela se nunca tivesse havido uma mulher para segurar a mão do soco antes que ele batesse em sua cara.

Notas finais
Para esse primeiro conto, escolhi me basear em uma história REAL, acontecida uns meses atrás com uma mulher chamada Beatriz. Quem quiser saber mais sobre o caso, me manda uma MP que podemos conversar.Por que escolhi uma história real para começar? Para que vocês soubessem a seriedade do projeto. O objetivo é mostrar que as mulheres precisam SIM ser feministas, falar por si mesmas, não se deixarem abater pelo machismo (que também afeta outras mulheres!). Espero de coração que tenham gostado! E se gostarem, me deixem um comentário dizendo por quê. E se não gostaram, me deixem um comentário dizendo por quê não, hehe.