As Feministas

2 Conto Dois — Vivian e sua Falta de Pinto


Notas iniciais
Olá, pessoal! Primeiramente, preciso gritar aqui rapidinho graças aos 54 comentários, 160 acompanhamentos, 32 favoritos e mais de 1.000 visualizações só com um capítulo: AAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHH. Gente, cês querem me matar, só pode. Sério, estou absurdamente feliz com o feedback de vocês. E sim, irei responder absolutamente TODOS os comentários, já respondi alguns. Só peço que entendam que estou doente e que foram muitos (ainda bem haha) e preciso tecer minhas respostas para ficarem a altura do que vocês disseram. Então saibam que a resposta pode até tardar, mas irei sim, sem duvida, respondê-los. Por fim, estou muito nervosa com esse conto. É um assunto delicado (transexualidade) e eu li matérias, depoimentos e etc, e espero que não tenha nada ofensivo e eu tenha conseguido passar, pelo menos em parte, algumas das lutas de mulheres transexuais da maneira mais real possível, contando com o fato de que não sou uma. Espero de coração que gostem desse tanto quanto gostaram de Ana e o Banheiro Químico. Até as notas finais!

— Gabriel, você não pode ir para o casamento — exclamou minha mãe, a beira das lágrimas pela quarta vez naquela manhã.

Respirei profundamente e evitei encarar seus olhos.

— É Vivian — proclamei de forma dura. — Meu nome é Vivian.

Estávamos as duas em pé na enorme sala de estar do apartamento de meu irmão mais novo, o Gustavo. Sua noiva estava em um SPA com as amigas e havia me convidado para juntar-me ao dia de princesa, mas mamãe se enfurecera com a notícia e gritava comigo sem parar desde que coloquei os pés na cidade onde cresci, e de onde fugi quando resolvi me adequar àquilo que sempre senti em segredo.

O sol forte entrava pelas persianas finas e iluminava o lado esquerdo da face marcada pelo tempo da mulher que me colocara no mundo. Sua respiração saía entrecortada, como se estivesse se controlando ao extremo para não encostar em mim. O que era provavelmente verdade, já que mal trocara duas palavras comigo desde que me tornei uma mulher — aos olhos da sociedade, porque, para mim, sou uma desde que nasci.

Muito debate acerca de minha vinda a união matrimonial de meu irmão ocorreu. Por fim, mamãe me fizera desistir de comparecer. Uma ligação exasperada de papai na noite anterior, no entanto, me fizera pegar o primeiro avião de volta para casa.

— Ninguém vai entender, você vai roubar aos holofotes da Mirian, e não de uma forma positiva — prosseguiu ela. — Imagine a vergonha que sua família passará, a cidade toda só falará disso por meses!

Meu pai estava sentado na velha poltrona onde dormi dezenas de vezes durante a infância. Quando me convenceu a ir até lá, imaginei que estaria me defendendo dos ataques da esposa a essa altura, mas não; estava em silêncio, como se não quisesse que Vitória soubesse que fora ele quem trouxera a “ovelha negra” para levar à família a desgraça de ter uma mulher transexual entre ela.

— Meu irmão me convidou, Vitória — Fazia muito tempo que recusava chamá-la de mãe, por mais que fosse assim que me referisse a sua pessoa em meus próprios pensamentos. — Você não tem o direito de me impedir de ir.

— Estava tudo resolvido que você não iria vir! Aí, do nada, resolve aparecer aqui...

— Pergunte a papai sobre esse “do nada” — suspirei, pegando minha bolsa com força de cima do sofá forrado e me dirigindo em direção à saída. — Talvez ele consiga te explicar o que estou fazendo aqui.

Antes de bater a porta da frente, a ouvi dirigir sua fúria para o marido.

Enquanto encarava minha aparência abatida na frente do espelho do elevador de um dos poucos edifícios na cidade, pensei em quantas vezes odiara o que meu reflexo reproduzia. O pomo de adão, o cabelo curto, as roupas masculinas. Doía quase fisicamente ter que me vestir como a sociedade dizia que eu deveria, me portar como queriam que me portasse.

Apesar de ter namorado garotas durante minha adolescência, pelo fato de que detestava fazer as “coisas típicas de menino”, sempre houve os rumores de que eu era gay. Meu pai insistindo para que me juntasse ao time de basquete da escola, meu irmão sendo obrigado a me levar em toda partida de futebol da cidade, minha mãe empurrando-me livros que meninos geralmente liam.

Por fim, quando fiz 18 anos e ganhei minha primeira viagem para fora daquele ovo que chamavam de cidade, escolhi a capital do estado. Lá, conheci pessoas maravilhosas, que me mostraram que eu não precisava ser quem queriam que eu fosse... Tudo o que eu precisava, era me amar e me aceitar.

— Eu quero ir embora — murmurei com o telefone celular pressionado contra o ouvido direito. A mulher do outro lado da linha suspirou. — É sério, Li. Eu não vou aguentar isso por muito mais tempo.

— Seu irmão a quer aí, Vivian — exclamou ela. — Não ligue para sua mãe, ou qualquer pessoa que a olhar estranho. Lembre que Gustavo não se importou com isso, que ele escolheu te convidar. É isso que importa.

— Estou com medo — Era algo que não queria admitir. Conhecia aquelas pessoas por toda minha via, e, em um belo dia de agosto, aos dezenove anos de idade, parti para nunca mais voltar. — Faz quase uma década que não coloco os pés nesse fim de mundo. Ninguém se lembra mais de mim... Talvez eu não precise deixar claro que sou a filha de Vitória e Ricardo Gomes...

— Não foi isso que combinamos. Você não tem que ter vergonha de quem é, Vi. Você é uma mulher poderosa, uma heroína. Colocou a cara a tapa e se tornou quem estava destinada a ser. Nunca esconda isso de ninguém.

Estava agora andando pela calçada de pedras que me levaria em direção ao local onde Mirian estava com suas amigas, no salão mais chique da pequena cidade.

— Me prometa que não vai se esconder — pediu minha namorada depois de alguns segundos de silêncio. — Por favor.

— Não vou me esconder, prometo.

— Eu te amo, Vi. Me ligue a qualquer hora, não vou nem dormir.

— Não, não se preocupe comigo. Ficarei bem. Amo você.

Desliguei a chamada ao empurrar a porta de vidro fumê. O frio do ar-condicionado ligado chegou até mim depressa, mas não tão rápido quanto os braços calorosos de Mirian.

— Ah, que bom que está aqui, Vivi! — exclamou ela, me soltando, mas deixando suas mãos apoiadas em meus ombros. — Gus disse que você talvez não fosse vir, fiquei bem triste.

— É, papai me convenceu — Tentei sorrir; a mulher estava feliz demais para que eu estragasse seu dia com bobagens minhas. — Por que ainda está sem maquiagem? O casamento começa em quatro horas! Vá se arrumar.

Ela assentiu, olhando em volta como se procurasse algo.

— Sente-se ali, que Duda vai te aprontar. Vai ficar tão linda, Vivi, com esse cabelão loiro!

Deixou-me nas mãos da tal Duda e voltou para o interior do salão. Durante alguns minutos, a cabelereira trabalhou em minhas mechas em completo silêncio, mesmo que suas olhadas para meu rosto não fossem nada furtivas.

— Quem é você? — decidiu, por fim, perguntar.

— Vivian — respondi sorrindo. — Irmã do noivo.

A mulher franziu o cenho.

— Mas o Gustavo não tem irmãs; só um irmão, que francamente, não vejo por aqui faz muitos anos... Acho que ele nem vem.

— Ele vem — suspirei. — Ele está aqui. Bem, é ela agora.

Duda soltou meu cabelo e olhou em meus olhos através do espelho. Seu rosto ficou vermelho na mesma hora e ela pigarreou diversas vezes antes de continuar o trabalho.

Já estava acostumada com esse tipo de reação. Porém, me deixava com um pouco de mal estar. Só de imaginar que teria que repetir o processo “Gabriel, irmão do Gustavo” durante o casamento, me fazia ter arrepios de ansiedade.

— Você está linda — suspirou Mirian quando coloquei o vestido dourado de madrinha que ela tinha me arranjado de última hora. — Gustavo deve estar louco para vê-la, talvez devesse passar lá na casa do Bernardo antes de ir, o que acha?

— Farei isso. Fique deslumbrante, tudo bem?

Eu a adorava. Fora a única pessoa da família que não se desesperou quando os informei da cirurgia de adequação de sexo. Até mesmo Gus chorou. Ficou sem falar comigo por dias... Acho que fora Mirian que o convencera de que isso não me faria menos sua irmã, o convenceu que eu não seria alguém diferente... Que seria apenas eu, a pessoa que correu com ele na lama e bateu na cara e ficou de castigo por isso.

Mas não era como se fosse uma surpresa tão grande; quando nossos pais saíam, sempre consegui convencer Gus a brincar de provar as roupas dos velhos. Ele colocava as de papai, claro, e eu as de mamãe. Me maquiava, usava salto... Talvez meu irmãozinho visse tudo isso como uma brincadeira inocente. Como deveria ser, na verdade. As pessoas deveriam poder se vestir da maneira que quisessem. Porque nem todo cara que gosta de se vestir de mulher, quer ter uma vagina.

Muitos não sabem que transexuais não são o mesmo que drag queens.

— Maninha — gritou Gustavo quando abriu a porta da casa de seu melhor amigo para mim. — Você tá muito gata, sabia? Bê, vem ver como a Vivian tá gata.

Bê usava um smoking branco quase idêntico ao de meu irmão, com a exceção da gravata vinho que Gus utilizava no pescoço e o lenço em seu terno.

As sobrancelhas do homem se ergueram ao me olhar, como se nunca tivesse me visto. E não tinha mesmo; pelo menos não ao vivo, já como mulher.

— É ofensivo dizer que acho isso impressionante? — indagou. — Porque eu acho.

— Não — sorri. — Nada ofensivo, Bê. Como vai Gabi?

— Nos separamos alguns meses atrás, porém Mirian fez questão de chamá-la para o casamento, então, talvez você possa fazer essa pergunta diretamente a ela.

Nós três rimos.

E era isso. Todas as pessoas que sabiam de minha — menos a Gabi — já haviam me visto. A partir de agora, seria choque atrás de choque. Pessoas sem saber o que dizer, desconversando, me olhando torto, sussurrando umas nos ouvidos das outras.

Demorou meia década para que Gus se sentisse confortável para me tratar como se tivesse sido mulher a vida inteira. Mas me era extremamente gratificante que agora o conseguisse fazer. Papai apenas aceitava; nunca conversamos profundamente sobre o assunto. Quanto à mamãe... Jamais parou de me chamar pelo nome que me dera quando “vi seu pintinho pela primeira vez”, como dissera quando gritara e chorara ao saber de minha cirurgia.

— Vai para a Igreja conosco, mana? — indagou Gus.

— Não acho que comparecer a cerimônia em si seja uma boa ideia.

Ele revirou os olhos.

— Vivi, você é minha irmã! Quero você lá.

— Melhor não.

Nossa troca de argumentos durou até que meu pai chegasse para pegar os dois. Gustavo finalmente foi convencido de que eu os esperaria no salão onde aconteceria a festa. Seria a madrinha “que chegou atrasada”.

Usei o tempo que todos passaram na Igreja para me preparar para as pessoas que veria. Velhos amigos de escola, professores, quem sabe... Amigos de meus pais. Mamãe deveria estar tão nervosa quanto eu; ou até mais. Uma coisa era certa: estava na hora de eu parar de esconder minha vida. Para os residentes de minha cidade natal, Gabriel sumira no mundo e nunca mais voltara. Estava na hora deles trocarem o artigo “no” para “do”, e flexionar o verbo “voltar” para “voltaria”.

Não que fora dessa cidade eu nunca tenha sofrido preconceito por ser uma mulher transexual. Longe disso. O Brasil é um país difícil para se ser qualquer coisa além de “heterossexual”. Se você é gay, bi, trans ou pan, as pessoas vão te tacar pedras. Vão te chamar de imoral. Vão gritar que você é anormal. Mas a verdade que tais pessoas tanto negam a si mesmas é que anormal é tentar definir o que os outros são.

Ah, se no mundo fosse cada um na sua...

— Você que é o irmão que virou irmã do Gustavo, né? Ouvi o Bernardo comentando isso com a Gabi — uma voz exclamou atrás de mim. Estava sentada em uma das mesas da recepção da festa, e o homem de boa aparência e olhos azuis se sentou ao meu lado. — Meu nome é Júnior.

— Prazer — respondi, por pura educação.

Observei os garçons passarem para lá e para cá, fazendo os preparos finais antes que a grande maioria dos convidados chegasse ao local.

— Você está muito bonito — comentou o homem.

— Bonita — suspirei. — Sou uma mulher. E obrigada.

Ele não parecia muito convencido no fato de eu ser uma mulher.

— Bem, tudo bem, então. Se é uma mulher, quem sabe a gente não acaba ficando até o final da festa, né?

— Improvável — Queria me livrar dele, mas não sabia como. — Gosto de mulher.

— Ué — disse ele. — Pensei que fosse gay. Um homem gay, quero dizer.

— Não sou um homem, mas sou gay. Porque sou mulher e gosto de mulher.

— Então, quando você era homem, gostava de mulher também? Como isso é possível?

Ele parecia sinceramente confuso.

— Ter nascido com o gênero errado não tem absolutamente nada a ver com sexualidade. Sempre gostei de mulher.

— Então isso te faz hétero. Eu acho. É muito complicado, não acha?

— Acho que já passou da hora de nossa sociedade parar de querer definir tudo, colocar a droga de um rótulo em todo mundo. Somos sempre algo. “A magrela”, “o galinha”, “a puta”, “o cara que não tem mãe”, “o viado”, “a sem graça”. Só quero ser Vivian. É pedir demais?

Ele estava me olhando como se não conseguisse entender o que eu estava dizendo.

— Bem, tanto faz — exclamei, pedindo a um garçom que me trouxesse uma taça de vinho. — Sou só uma feminista com ideologias demais num país que não as quer, mesmo as precisando desesperadamente.

E foi tudo tão horrível quanto achei que seria.

O pior momento foi quando a melhor amiga de mamãe, Matilde, não quis me tocar quando falei quem era. A mulher desconversou, desviou os olhos, e por fim, saiu de fininho como se eu fosse uma completa estranha. Doeu um pouco, não irei negar.

Eu sempre soube que seria difícil, quando tomei essa decisão. Mas nunca pensei em desistir de me tornar quem sempre me senti por causa da opinião de terceiros. Sou quem sou e me amo assim mesmo.

Queria poder ajudar a todos aqueles que se escondem de seus próprios desejos, vontades e sonhos, por medo do que o resto do mundo dirá disso. Queria poder dizer a eles que tudo bem ser diferente, que ser igual não é divertido.

E talvez eu possa...

— Queria fazer um brinde — exclamei no microfone, logo após todos terem se sentado para comer o bolo. Quando todos os olhos se viraram para mim, julgadores e decepcionados, iniciei: — Meu querido irmão e, sua agora bela esposa Mirian merecem toda a felicidade do mundo. Querem saber por quê? Porque pessoas como eles, que aceitam você por quem é devem reproduzir. Devem reproduzir esse amor e esse respeito maravilhoso.

“Quando eu tinha sete anos, passei nos lábios um batom rosa escuro que minha mãe tinha em sua caixa de maquiagem. Me borrei toda, é claro, porém me senti bem. Aquilo soava certo. Aos nove, convenci Gustavo a brincar de casinha comigo. Ele era o pai e eu a mãe. Brincamos assim por muito tempo, e ele nunca achou anormal. Quando eu tinha doze anos, chorei por não poder usar a roupa rosa que queria no dia de meu aniversário. Quando fiz quatorze, me apaixonei pela primeira vez. O nome dela era Júlia e eu a adorava. Porém, ela me achou errado demais, simplesmente por gostar de falar de moda tanto quanto ela. Aos dezesseis, comecei a achar que era gay. Afinal, como um garoto hétero poderia gostar tanto de coisas de garota?”

Mamãe estava passando mal, mas eu não me importava. Queria falar, estava na hora.

— Aos dezoito, viajei para a capital pela primeira vez. Lá, descobri que não, eu não era gay. Eu gostava mesmo de menina. E queria ser uma. Era uma. Apenas nasci no corpo errado. E eu não ligo que vocês discordem disso, não preciso da sua opinião para viver. Porém, acho importante que saibam que não está no seu poder julgar a vida de outra pessoa. Você não tem esse direito. Sim, eu nasci como Gabriel. Gabriel Gomes. Essa pessoa não existe mais. Me chamo Vivian. E fico feliz por ter pessoas como Gustavo e Mirian para me apoiar e amar por ser quem sou. E sobre minha falta de pinto... Ele não era da sua conta nem quando estava no meu corpo. Quanto mais agora, não é?

O silêncio mortal que tomou conta do salão enquanto em retornava a mesa principal era tangível. Quando me sentei, a noiva imediatamente se ergueu, com sua taça de champanhe no ar e exclamou:

— Um brinde a Vivian... E sua falta de pinto.

Quando mais da metade da sala ergueu sua taça, me perguntei se o discurso tinha surtido efeito. Talvez sim, ou talvez eles estavam sendo apenas educados. De qualquer forma, estava satisfeita. Porque falei o que pensava, e, às vezes, isso é mais do que o suficiente.

Notas finais
E aí, gostaram? Se não, me digam o motivo! E se fui ofensiva de alguma forma, me avisem por MP para que corrija esse deslize feio. Também quero saber se vocês gostaram de banner em cada capítulo, para que tenham uma noção de como a mulher de cada história seria em minha visão delas. E quero que saibam que todos os seus pedidos foram anotados e eventualmente aparecerão por aqui. Obrigada por ler e vejo vocês nos comentários!