As Feministas
3 Conto Três — Bruna e a Redação do ENEM
Notas iniciais
Larguei o lápis em cima do caderno coberto de anotações e coloquei ambas as mãos nos ouvidos, como se aquilo de alguma forma pudesse me fazer parar de ouvir os gritos vindos do apartamento ao lado. Era praticamente impossível distinguir qualquer palavra, mas a briga não estava pequena e parecia bem séria.
Não era a primeira vez que os dois discutiam a essa altura e aquilo geralmente não me incomodava, porém algo muito importante aconteceria em quinze horas. Uma prova que decidiria o meu futuro e se eu teria que desperdiçar ou não um ano de minha vida estudando para esse mesmo teste, que se repetiria em doze meses.
Quando olhei mais uma vez para o notebook com o Google Chrome aberto em vários links para possíveis temas da redação, um forte estrondo alguns metros à distância me fez pular da cadeira.
Levantei-me um pouco hesitante, procurando o celular para discar o número de minha mãe, que saíra algumas horas antes para o supermercado, afirmando que não demoraria.
— Mãe, acho que tem algo errado na casa da Marcela — falei quando ela atendeu ao segundo toque. — Ouvi um barulho muito forte. Ela e o marido estavam discutindo, mas estão silenciosos agora.
— Deixe que eles se resolvem, Bruna — respondeu ela, parecendo irritada por eu ter ligado só para isso. — Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher. Já estou chegando.
— Tudo bem, tchau.
Voltei a me sentar na cadeira de madeira que deixara minha bunda quadrada pelo tempo de utilização e tentei me concentrar no tema em evidência pela maioria dos professores de redação do país: reforma agrária.
— Não tinha um assunto melhor não? — murmurei comigo mesma.
Mal consegui dormir naquela noite.
Toda a pressão da situação de estar indo em direção a algo tão decisivo deixava meus nervos à flor da pele. Revirei na cama e cochilei algumas vezes até que o sol finalmente nasceu e minha desculpa para levantar surgiu.
Tomei um banho demorado, pensando sem parar em todas as fórmulas que me lembrava de matemática, me recordando perfeitamente bem do trabalho mediano que fizera na prova de química e física na tarde anterior.
Queria passar em medicina — clichê, eu sei. Mas sempre sonhei em ajudar os outros, comigo nunca foi realmente sobre o dinheiro.
Tentei engolir o café da manhã que mamãe fizera com o carinho de sempre, mas estava difícil. Esperei que meu pai chegasse em casa do turno da noite para me despedir e pegar o ônibus. Ao sair de casa, olhei por algum tempo para a porta fechada e o apartamento silencioso de meus vizinhos, enquanto esperava o elevador.
Lembrei-me do estrondo horrível na noite anterior e, em um impulso, toquei a campainha. Demorou alguns minutos até que alguém viesse abrir, mas finalmente Marcela apareceu. Ela se escondia de mim; podia ver apenas o lado direito de seu rosto. Seu olho a mostra estava molhado de lágrimas e um corte acima de sua sobrancelha direita estava aberto.
— Acho melhor ir ao médico olhar isso, parece que precisa de pontos — comentei.
Ela assentiu.
— O que a traz aqui, Bruna?
— Eu, ahn, ouvi um barulho ontem à noite... Está tudo bem?
— Sim.
Fiquei a encarando por segundos e em outro impulso, empurrei a porta, deixando que toda a sua fisionomia ficasse disponível aos meus olhos.
Marcela estava com o olho direito e o braço direito inchados e roxos. Além de vários arranhões em toda a extensão de seu corpo que não estava coberto por roupas. Ela logo voltou a se esconder atrás do objeto de madeira.
— Marcela, foi Fábio que fez isso? — exclamei. — Você deveria...
— Cuide de sua vida! — gritou ela, batendo a porta na minha cara.
Fiquei parada ali por tanto tempo, absorvendo aquela situação, que pela primeira vez em mais de 48 horas não pensei no Exame Nacional do Ensino Médio. Quando olhei o relógio, o mesmo marcava 09h58. Precisava estar no local até às 13h...
Por mais que eu quisesse ajudá-la, não sabia o que fazer. Se Marcela não aceitou meu apoio, por que eu deveria fazer algo, na verdade?
Dei de ombros e peguei o elevador.
O local onde iria fazer o teste era do outro lado da cidade, o que me fazia precisar pegar três ônibus para chegar até a escola. Quando desci do terceiro, oscilando nos pensamentos sobre a prova e Marcela, já era quase meio-dia.
— Gostaria de uma caneta? — me perguntou um senhor. — Estão apenas dois reais.
— Não, obrigada, já trouxe as minhas.
Durante quase duas horas, esperei a prova ansiosa. Na minha sala, a grande maioria era mulher. Tinham apenas dois homens, dois Brunos. Todos pareciam tão nervosos quanto eu, pareciam querer aquela oportunidade tanto quanto eu queria.
Quando a chefe da sala me entregou aquele pequeno caderninho rosa e o sinal tocou, o abri imediatamente.
E ali estava o tema da redação que definiria meu futuro: a persistência na violência contra a mulher. Surpreendi-me; estava certa de que seria reforma agraria. Mas logo comecei a ler, e os números me chocaram.
Mais de 92 mil mulheres foram assassinadas no Brasil nos últimos 30 anos, quase 05 mil morriam pelas mãos de outras pessoas por dia. 50% das violências eram físicas, mais de 200 mil denúncias foram feitas nesse período de tempo e... 7 em cada 10 eram feitas contra seus próprios companheiros.
Imediatamente me lembrei de Marcela.
Foi difícil passar cinco horas ali.
Outrora, estava extremamente focada em mim e na minha vida, no meu futuro. Mas de repente, como se fosse mágica, eu simplesmente não importava. O que era absurdo; eu mal conhecia a mulher...
Mas eu também era mulher. Poderia ser comigo.
Como eu poderia deixar que uma igual sofresse dessa forma?
Esperar que as horas fossem retiradas aos poucos foi uma tortura quase tão grande quanto tentar responder as 90 questões. Fiz a redação em um pulo, no entanto, movida pelo repentino sentimento de compaixão e justiça.
Quando finalmente terminei a prova, saí voando do local e entrando no primeiro ônibus de volta para casa. Saquei meu telefone celular, o usando pela primeira vez desde que ligara para minha mãe na noite anterior.
Fui direto para o Facebook, observar as reações das pessoas sobre o tema da redação. Grande parte delas se dizia ultrajada com a escolha, dizendo que falar disso era absurdo, que as mulheres não eram as únicas que sofriam violência.
— Mas são nove e duas mil — exclamei para mim mesma. — Como seria um absurdo falar de nove e duas mil?
Me vi acessando o Google em busca de mais informações sobre violência contra a mulher, tentando encontrar a melhor forma de ajudar Marcela. Naquele momento, pouco me importei de estar em um ônibus com um celular na mão.
Ao chegar em meu prédio, antes que perdesse a coragem, bati na porta de Marcela mais uma vez, porém quem a abriu agora foi Fábio. Ele me olhou, estranhando, e disse:
— Algo errado, Bruna?
— Quero falar com a Marcela, por favor — respondi, evitando olhá-lo nos olhos. — É importante.
— Marcela está indisposta. Volte outra hora.
Ele já ia fechando a porta, mas a segurei.
— É realmente importante.
— Já falei que não, garota! — gritou.
— Por quê? — respondi. — Porque você não quer que todos vejam que você bateu nela?
Fábio parecia muito irritado.
— Cuide da sua vida!
— É, eu faria isso. Mas recentemente descobri que violência, não importa qual seja, não pode ser ignorada em nenhuma circunstância. Então, se você não me deixar falar com ela, vou pegar meu telefone e ligar para a polícia. Você escolhe.
Fábio não parecia muito feliz. Caminhou decidido até minha porta e tocou a campainha como um enlouquecido até alguém vir até a porta. Meu pai parecia atordoado ao nos encarar com minha mãe logo atrás.
— Digam a sua filha para cuidar da porra da vida dela!
— O quê? — papai exclamou, confuso. — O que está acontecendo?
— Ela tá metendo esse narizinho empinado em assuntos que não a dizem respeito!
— Bruna... O que está acontecendo?
— Esse senhor espancou sua esposa e está dando chilique porque alguém sabe e se importa, só isso.
— Bruna, o que eu te disse sobre não se meter? — Mamãe parecia transtornada.
Era incrível como me sentia decidida.
Peguei o telefone e disquei 180.
— Eu queria conversar com ela, mas já que você não me deu essa opção...
Fábio avançou para mim e eu dei vários passos para trás, com meu pai vindo até perto dele e segurando seu braço.
— Central de Atendimento a Mulher — Uma calma voz.
— Gostaria de fazer uma denúncia — anunciei, com Fábio ainda tentando vir até mim, mas meu pai o segurava firmemente. — Um senhor agrediu fisicamente sua esposa e ela está bem machucada. Gritaria e barulhos altos demais também foram ouvidos.
— Poderia me informar de onde a senhora fala, por favor?
— Rua Edevaldo Beltrão, no centro, Edifício Levada.
— E a situação atual?
— Tudo sobre controle por agora.
— Estaremos mandando uma viatura nos próximos minutos.
Guardei o aparelho.
— Pode soltá-lo, pai, se ele encostar em mim só vai ser mais uma para a sentença dele.
— Você se meteu com a pessoa errada, garotinha.
Garotinha.
Nunca me vi como feminista. Nunca tinha parado para pensar muito sobre isso. Nunca me interessou. Mas durante as duas horas que passei no ônibus, entrei em tantos sites e li tantas opiniões... Parecia certo. Justo. Normal.
Garotinha.
Eu não era uma garotinha. Era uma mulher com sonhos e deveres como cidadã, como humana. E meu dever como humana era não permitir que outro humano sofresse com algo que eu não gostaria de sofrer. Que ninguém gostaria. Ou merece.
Marcela finalmente apareceu, toda retraída, na porta.
Fábio se virou para ela.
— Você vai dizer que não quer fazer, denúncia, entendeu? Amanhã de manhã esses idiotas me liberam. Entendeu, né, sua idiota?
Ela assentiu.
— Não! — exclamei. — Marcela, não faça isso. Essa é a sua chance de recomeçar.
A mulher me olhou.
— Recomeçar o quê? Eu não tenho nada.
Aquela frase foi como um soco. A polícia chegou alguns minutos depois e o levou embora. Marcela não me deixou falar com ela. Eu tentei, bati na porta, mas nenhuma resposta veio.
Tentei ajudá-la. E esperava que um dia ela encontrasse a força para ajudar a si mesma.
Quando entrei em casa, meus pais me esperavam.
— Tem algo a nos dizer, Bruna Daniela? — papai exclamou.
— Fiz uma boa redação, se os interessa — respondi, soltando o rabo de cavalo que fizera após tomar banho naquela manhã.
Minha mãe segurou meu braço e me fez encará-la.
— O que diabos foi isso, Bruna?
Respirei fundo e disse:
— Feminismo, mãe. A senhora deveria tentar usá-lo e a Marcela também. Ninguém merece viver em uma relação abusiva.
— Eu te disse para não falar nada, em briga de marido e mulher... — começou.
— Se mete todos os talheres do mundo. Boa noite.
Bati a porta do meu quarto e não os deixei falar mais nada.
Fale com o autor