As Feministas
4 Conto Quatro — Camila e a Romantização do Estupro
Notas iniciais
É difícil ser uma mulher no mundo.
Sempre foi e seria utópico demais pensar que um dia não será.
Suspiro profundamente com a constatação e permaneço encarando a rua escura através da janela de vidro de meu quarto pequeno. São quase nove da noite e estaria no computador se não tivesse acabado de ler algo que tirou meu folego e fez todo o meu corpo se contrair.
Sou uma das chamadas “internet kids”, aquelas que as pessoas afirmam que não podem viver sem WiFi e dormem super tarde por causa de uma série americana ou uma fanfic de romance. A internet costumava ser meu refúgio, o lugar onde procurava aceitação nos momentos mais complicados. Para onde me virava depois que tudo aconteceu.
Aquele verão de 2009 está marcado para sempre.
Me lembro perfeitamente de sentir o vento em minha face enquanto corria euforicamente nos grãos de areia macia em uma das praias do Rio de Janeiro. João gostava de brincar de me perseguir e eu jamais reclamaria; ele era tão bonito e é legal quando um rapaz mais velho tem interesse em você.
— Você gosta de mim, Camila? — indagou ele quando o sol foi embora e fomos deixados completamente sozinhos com uma grande de cerveja em uma determinada parte isolada da praia. — Eu acho que gosta.
Senti as bochechas arderem, e fiquei feliz por estar escuro demais para ele as ver avermelhadas.
— Gosto.
— Sabia!
João beijou minha bochecha e meu pescoço. Fechei os olhos, soltando a respiração de uma vez enquanto sensações tomavam conta de meu corpo com rapidez. Nos beijamos por alguns minutos, e deitamos na areia. Ele colocou a mão em minha bunda e apertou, e eu deixei, porque gostei daquilo.
Mas então João soltou um dos laços da parte de baixo de meu fino biquíni e me contraí.
— Não faça isso — pedi, mas ele não me escutou, mordendo minha mandíbula enquanto deslizava a mão para minha vagina. — Ei! Pare!
João era muito mais forte do que eu; aquilo só pararia se ele quisesse parar, mas ele não quis. Não parou quando comecei a chorar e tapou minha boca depois do primeiro grito. A dor formigava em meu corpo a cada segundo mais machucado. Sentia meu coração bater mais de devagar conforme o tempo passava, e minhas lágrimas secarem enquanto a cabeça dele entrava e saía de foco. Depois que seus gemidos cessaram, tentei buscar algum lugar de mim que existisse, mas fui embora. Não sei pra onde; apenas fui.
Fui e não voltei nunca mais.
Em dois dias seria a marca de sete anos da noite quente em que meus pulsos brancos ficaram roxos e minhas nádegas, assim como minha vagina, sangraram. Em dois dias seria a marca do dia que não significava nada para ninguém, nem mesmo para ele; só para mim.
Quatro dias atrás, fiz 21 anos.
Conheci o mundo das fanfics em 2008, através de um site especifico que contava histórias de Harry Potter. Foi como descobrir um universo abrangente e cheio de possibilidades; quase como mágica. No ano seguinte, movi para um site maior e comecei a escrever também. Depois do ocorrido, passei alguns anos afastada de tudo o que me fez bem em uma vida passada.
Olhei para a tela de meu notebook aberto na cama enquanto ainda estava sentada ao parapeito da janela. Conseguia ver com certa dificuldade por conta do brilho, a história que estava lendo antes do ataque de pânico sofrido meia hora no passado.
Melissa havia sido estuprada como eu, naquela história. Era um romance, na verdade. Melissa era apaixonada por Douglas e no capítulo que eu estava eles se beijavam apaixonadamente depois que ela o perdoava por ter se forçado na garota quando ela tinha dito que não queria transar. Melissa disse, naquele capítulo, que entendia que os homens tinham uma necessidade que as mulheres não tinham.
Às vezes é difícil não vomitar.
Ler aquilo, para mim, dá a mesma ânsia de medo ao andar em um beco às quatro da manhã ou ouvir um assobio enquanto passa numa construção indo em direção ao trabalho. É como se a sociedade gritasse “ah, deixe para lá, garota! Homens são assim mesmo; temos que nos acostumar”.
É, eu tive que me acostumar com muita coisa.
Tive que me acostumar em acordar assustada no meio de todas as noites por mais de um ano.
Tive que me acostumar a deixar as pessoas tocarem em mim quando tudo que eu mais queria era gritar, chorar e correr quando elas o faziam.
Tive que me acostumar a ouvir protestos quanto a meu comportamento agressivo e depressivo.
Tive que me acostumar a simplesmente não conseguir ter um relacionamento amoroso com qualquer pessoa.
Tive que me acostumar a olhar para meu agressor pelo menos uma vez por dia quando ele chegava da escola e entrava rapidamente em sua casa, tentando me evitar.
E tive que me acostumar a ter de repetir em frente ao espelho, todo maldito dia, pelos últimos seis anos e 363 dias, que a culpa daquilo não era minha.
Não me julgue por não ter contado a uma única alma viva. Era algo meu. Eu não saberia explicar, ela não iria entender, e eu não queria um olhar de pena, um abraço apertado, e um “homens são assim, mas nem todos” esfregado em minha cara. Não queria que alguém que nunca sofreu o que sofri me dizendo o que fazer e como sentir. E era covarde demais para buscar um grupo de apoio de vitimas como eu. Cada um lida com seus demônios da forma que preferir.
Já tinha pensado em fazer um enorme texto contando minha experiência no grupo que frequentava em uma grande rede social, onde pessoas constantemente debatiam a romantização do estupro e alguns soltavam que era determinação de quem escrevia a forma como escrevia. Eles não conseguiam nem começar a compreender como isso dói profundamente.
Melissa não existe. Ela é alguém impossível.
Eu costumava amar a internet; agora, eu a temo. Meus dedos tremem de desespero sempre que leio alguém falando sobre algo que não tem poder. Que não passou por isso. Não sofreu o que eu sofri, não se machucou como eu me machuquei. Não teve que encarar as marcas visíveis de uma violência que ficaria para sempre invisível dentro de mim.
Puxei o cobertor para mais perto de mim, mesmo que não estivesse frio naquela noite. Uma garota passou no lado de fora naquele momento, com um sorriso enorme estampado na face. Para onde será que estava indo? Será que chegaria bem onde quer que fosse? Eu não sabia, e nem ela.
E se o pior acontecesse, será que ela um dia abriria uma rede social e teria que ler que um autor tem liberdade de expressão para tratar de um estupro da forma que melhor desejar, sem se importar com o que eu e ela sentiríamos? Será que ligaria a televisão e veria uma garota dizendo não e então, segundos depois, sentindo prazer com algo que ela não queria fazer? Será que teria que ver alguém ser chamado de “cu doce” só por se negar a ter uma relação sexual? Será que teria que ler uma relação abusiva sendo retratada como carinho excessivo?
Será que seria obrigada a passar o resto de seus dias com medo de ser tocada por um homem enquanto pessoas sem conhecimento ou sensibilidade alguma sobre a causa escreviam que, às vezes, não tem problema em se romantizar essa violência?
Era possível. Era provável.
Não era utópico.
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