As Duas Lâminas

2 Desafio os terrores da escola, e seu capanga



Faltavam três dias para a escolha pra Ilha Maple. Por isso, as sessões de treinamento duravam do meio-dia até quase as dez horas da noite. Os alunos do último ano(sou um deles) treinavam muito para ser um dos vinte recrutas selecionados para o teste. Esses vinte iriam para a Escola Avançada de Gatunos para aprender com o próprio Dark Lord. É uma ocasião anual e, se falharmos, precisamos repetir tudo de novo no ano seguinte... e o fato de eles treinarem ainda mais só me lembrava o quanto eu era fraco e incapaz.

Pelo menos Streppe estaria fora o resto da semana, preparando os desafios para nosso exame. Substituindo-o, estaria Arien, o bondoso assistente de cabelos longos castanhos, olhar divertido.

Arien é o melhor professor daqui, mesmo que não seja nem de longe tão habilidoso quanto Streppe. Ele de fato se preocupa com cada um dos alunos, e sempre dá um jeito de me livrar dos castigos exagerados do instrutor. De toda a turma, ele é o único que de fato se importa comigo.

Sabe, isso chega a ser um pouco estranho. Quando cheguei aqui aos oito anos, todos me receberam muito bem, diziam que eu seria um grande gatuno um dia, por causa do meu sobrenome Cooper.

Mas então eu descobri que não poderia usar minhas duas adagas aqui, foi como se me dissessem que eu teria que lutar sem um braço. Eu me dava bem nas corridas, esconderijos e “habilidades ninjas”(saltar muros, andar sobre faixas estreitas), mas pro meu azar a área mais valorizada tinha que ser o combate. Eu perdia todas as lutas com a adaga, e com o tempo começaram a ver que eu não era lá grande coisa, e aí comecei a ser excluído. Minha timidez nunca me deixava responder nada, e quando comecei a falar mais, e superar a timidez, minha reputação já estava acabada. Eu era aquele aluno calado que não tinha amigos e muito menos habilidade em luta.

Por que eu continuo aqui, treinando com esses troços de madeira? Bem, estou aqui há quatro anos, treinando duro, sendo Encorajado, tudo pra tentar ser escolhido pra passar uma semana ainda mais dura numa ilha tosca aparentemente no meio do nada, não vou desistir agora, certo?

E na verdade, eu até que não estou assim tão mal. O boneco só me atingiu oito vezes, e dessa vez eu completei uma rodada de exercícios com apenas vinte minutos de atraso em comparação ao resto da turma. Talvez, se eu tentasse de novo...

Então minha adaga bateu em alguma coisa que eu, concentrado, não percebi de imediato o que era. Olhei para o lado e vi que, bloqueando minha(fracassada) tentativa de ataque, estava Hector, um dos melhores alunos da classe, e talvez o mais idiota, acompanhado de três outros colegas que reconheci como Jeremy e Axel(seus fiéis capangas que achavam que me perturbar era a melhor diversão do mundo), e um outro cara um tanto musculoso que eu não sabia o nome. Todos traziam as adagas de madeira do treino.

–Hmm, olha só quem está treinando para a escolha – zombou Hector, fazendo seus amigos rirem. É impressionante como todos viram comediantes perto de mim.

–O treinamento do primeiro ano já acabou, “Will”. Essa semana é somente para os melhores que vão fazer o exame – completou o rapaz musculoso.

–Ele está no último ano que nem a gente, Egon. Vamos ter que disputar uma vaga com ele, você não sabia?

–O quê? — interpôs Jeremy, o mais alto deles – Não é justo. Nunca vamos conseguir derrotar o poderoso Will Cooper, não é, rapazes?

Os quatro começaram a rir. Olhei para a porta,e é claro que vi alguns olhos espionando a conversa. Comecei a corar, mas não queria demonstrar medo a eles – e provavelmente ao resto da turma que deveria estar assistindo pela porta.

–Você sabe que eles não fazem a gente lutar entre si, só contra os monstros — falei, tentando soar calmo, mas devo ter parecido uma criancinha corajosa.

–Sério? — Axel fingiu decepção – Que pena. Porque humilhar o filho de Connor Cooper em uma luta deveria praticamente me garantir uma vaga na Escola Avançada, você não acha?

–Sim... ei, por que não fazemos isso agora mesmo? Já enjoei daqueles bonequinhos de madeira, são pra criança.

–Não sei não, Jeremy – falou Egon, pensando um pouco – Os bonecos podem ser chatos, mas pelo menos eles revidam e defendem, não sei se esse fracote vai conseguir aguentar meio minuto com a gente.

–Bom, eu também duvido – falei, desesperado – Seria um pouco difícil enfrentar quatro de uma vez!

Eles sorriram maldosamente. Eles formavam um círculo e eu estava bem no meio deles. Hector me devolveu minha adaga e disse:

–Bem, ele está certo. Pode escolher um para lutar, os outros não vão interferir, certo pessoal?

Os outros concordaram, rindo.

–Olha... por que isso? Não precisamos lutar, eu não fiz nada pra vocês! — Eu sabia que isso não ia adiantar nada, mas o que mais eu poderia dizer?

Agora eles gargalharam mesmo.

–Não precisamos. Mas e se a gente fosse uma gangue má e perigosa de bandidos entediados, você ia falar isso pra eles? — e eles se afastaram um do outro. — Escolha, vamos.

Eu estava sem saída. Eu não poderia simplesmente atacar um deles, não somente pela vergonha – mas também porque ele iria me surrar até eu implorar pra ter Streppe de volta... não, nem tanto assim. Agora que pensei nisso, poderia ser bem pior se ele estivesse presente, provavelmente diria que “uma luta seria bom pra mostrar como eu me sairia em um combate real”, e assistiria a tudo muito divertido. Além de que, eu também não poderia fugir, a sala era um quadrado imenso do tamanho de uma Igreja, mas todas as portas estavam trancadas — exceto as portas duplas de entrada, onde dava pra ver vários curiosos olhando.

Eu precisava escolher algum idiota, ou ficaria aqui pra sempre, ou pelo menos até eles se cansarem de esperar. O único que eu não conhecia ali era Egon, seria uma novidade apanhar de alguém diferente, pra variar. Mas ele tinha uns músculos que me diziam que seriam má ideia escolher ele. Hector, Jeremy e Axel sempre foram os mais violentos, e sabiam usar bem a adaga. Eles viviam me atrapalhando a treinar, sempre me desafiavam e algumas vezes eu voltava pra casa com vários inchaços e hematomas pelo corpo.

Bem, não exatamente para casa. Desde que meu pai sumiu, minha mãe saiu para procurá-lo. Mas ela só fez isso porque Arien prometeu que iria cuidar de mim, ela tinha muito medo de me deixar aqui sozinho, tampouco queria me levar com ela. Eu tinha sete anos na época, e desde então fiquei com Arien. A casa dele tem uma porta que leva direto para a Escola, por isso alguns colegas de vez em quando vão até lá me chatear. Por isso eu me mudei pro extremo oeste da cidade, onde havia um enorme terreno com um edifício construído pela metade(somente o “esqueleto”, ou seja, a vigas e bases de sustentação). Sabe-se que os trabalhadores entraram de férias, e quando voltaram encontraram o local tomado por Tocos, que eram basicamente tocos de árvore transformados em monstros por... não sei, talvez alguma magia negra. E os cogumelos laranjas e azuis que cresciam nesses tocos também criaram vida, quando os construtores finalmente chegaram já havia tantos que não valeria a pena tirar todos de lá, porque a fundação do prédio já havia sido bem corroída pelos monstros.

Mas lá tinha um túnel de esgoto que era bem seguro, ele começava na cozinha da escola, passava por debaixo de Kerning até chegar à área de construção. E ele então subia paralelamente encostado no prédio que seria construído e terminava no andar mais alto, que era basicamente um pedaço de madeira do tamanho de um andar de prédio normal, sustentado por quatro vigas. Não havia rampa, somente a entrada do esgoto, por isso os monstros não conseguiam chegar até lá.

Eu geralmente fico lá, deitado num colchão que fica ali desde que meu pai o levou pra lá. Ele até fez um pequeno quartinho coberto, pra quando chovia. Foi ele que descobriu a entrada do túnel, fica no armário debaixo de uma pia estragada(porque ele tirou uma peça do cano) da cozinha. Quando meu pai descobriu aquilo, ele pegou um tremendo cadeado e trancou a porta, e ajudou a espalhar que ali só tinha algumas vassouras e rodos velhos. Somente ele e mais uns cinco ou seis amigos sabiam que o túnel existia.

E eu esperava ter contado essa história em algum momento que eu estivesse deitado lá em cima, vendo as estrelas, curtindo o confortável friozinho da noite. Em vez disso estou em pé no meio de quatro colegas lutadores prontos pra atacar e eu ainda não decidi qual seria o menos pior.

–O que está esperando? Vamos, me ataque – Jeremy sorria, quase rindo.

–Ele não, ele é muito forte. Eu sou mais fraco, não sei nem segurar a adaga direito. — zombou Alex.

–Eu... não sei – eu estava começando a ficar com raiva. Isso sempre acontecia, eles me provocavam até eu não aguentar de raiva e partir pra cima de um deles. E era aí que eu apanhava.

–Olhem a cara dele, melhor a gente parar ou estamos perdidos! — Egon conseguiu dizer antes de se acabar de rir!

–Muito bem – Hector olhou pra mim, animado – Acho que devemos dar a ele uma chance. Não vamos brigar, pode correr pra casa da mamãe.

Egon olhou pra ele sem entender, mas Jeremy e Alex sorriam.

–A mamãe não está em casa. Ela foi procurar o papai, ele fugiu de vergonha do filhinho dele.

–Não fale assim da minha mãe.

–Ou o quê? Vai me bater, vai? Vamos, defenda a sua mamãe, me dê um murro na cara.

Sério, eu precisava me controlar. Eu queria muito acertar um soco bem dado na cara dele, mas assim que eu fizesse isso ele iria me dar outro, e outro, e iria ser como sempre. Eu sempre conseguia acertar um deles uma vez, depois levava uns vinte.

Egon entrou na brincadeira:

–Como assim, ele não tem mãe? Hector, você mandou ele procurar a mamãe dele, mas ela também fugiu, e agora?

–É verdade — Hector fingiu estar pensando – Bom, eu tentei ser generoso, dei uma chance pra ele. Acho que vamos ter que te bater. — Mas eles continuaram parados, esperando eu fazer alguma coisa.

–Agora eu entendo – Egon falou, zombando – O pai dele era um cara muito bom, não vou negar. O que será que aconteceu com ele?

–Ele foi investigar um monstro em El Nath – rosnei.

–Não, acho que foi outra coisa. Saber que o filho era um fraco, que não sabia nem lutar, deve ter sido demais para ele, mas talvez não seja sua culpa. Deve ter sido a sua mãe que era ruim. Acho que ele foi atrás de uma mulher melhor, uma que pudesse dar a ele um filho decente.

Aquilo foi demais pra mim. Aquele imbecil nem me conhecia, duvido que algum dia tenha sequer visto minha mãe. Sem importar com o que iria acontecer comigo depois, peguei minha adaga de madeira e acertei com toda a força no rosto dele.

–Ai! — ele gritou surpreso, caindo de joelhos, com sangue escorrendo pelo nariz.

Os outros se recuperaram do choque rapidamente. Puxaram as adagas e se preparam para me surrar. Mas dessa vez eu não iria me encolher e me proteger.

Peguei a adaga de Egon com a outra mão e, sem pensar, ataquei Jeremy, o primeiro que investiu contra mim. Ele tentou me dar uma estocada, mas desviei o golpe usando a adaga da mão direita e acertei ele no estômago com a esquerda. Rapidamente voltei a mão direita e acertei ele na cabeça, fazendo-o cair.

Andei um pouco pra trás até sentir a parede nas minhas costas. Alex estava mais perto e tentou um ataque por cima, usando a arma como se fosse uma serra, mas parei o golpe fazendo um X com minhas adagas, e então as empurrei, fazendo ele cair em cima de Hector. Mas Hector era o melhor espadachim dos quatro, por isso rapidamente se livrou do colega e me atacou.

A arma dele era um pouco maior e mais pesada que a dos outros, era quase uma espada. Ele a segurou com as duas mãos e me atacou por cima, pela esquerda, pela frente, por baixo... não, o chão não deixava atacar por baixo. A cada ataque, eu cruzava as adagas e o bloqueava, ou então o desviava com uma das adagas e usava a outra pra dar golpes doloridos na canela, ou no braço.

Eu tinha me distanciado uns dois metros da parede, que estava à minha esquerda. À direita pude ver Alex se levantando, correndo para ajudar o amigo. Fingi estar totalmente concentrado na luta contra Hector e então, quando ele chegou perto o bastante, coloquei minha perna direita para a frente, ele tropeçou e bateu a cabeça na parede.

Hector resmungou. Mas, como bom lutador, continuou olhando pra mim e não se distraiu. Então eu perdi (ainda mais) a paciência e mirei um golpe bem nas costelas, com as duas adagas ao mesmo tempo.

Foi por pura sorte que ele pisou em alguma coisa e quase caiu, o que me confundiu por um momento. Ele cambaleou, tropeçou e conseguiu se levantar. Olhei para o que ele havia pisado: a adaga de Jeremy.

Hector a segurou na mão esquerda, e agora usava duas adagas. Mas ele não ficava horas praticando com duas ao mesmo tempo. Ele tentou me atacar desajeitado, mandando uma delas em direção à minha cabeça e a outra em direção à barriga.

Abri os braços, desviando os dois golpes ao mesmo tempo, de modo que ambos ficamos um de frente para o outro com os braços abertos, então levantei o pé e acertei um chute de baixo para cima... exatamente entre as pernas.

Hector caiu no chão, e aparentemente ficaria assim por um bom tempo.

Pelo canto dos olhos, observei Egon se levantando. Ele havia insultado meus pais e eu iria garantir que não saísse dali somente com um nariz quebrado.

No momento em que ele se levantou eu o agarrei, quando me dei conta ele estava com as costas na parede e eu tinha as duas adagas cruzadas sobre seu pescoço. Tudo bem que elas são de madeira e não de algum metal afiado, mas o efeito era praticamente o mesmo.

–Você pode até atrapalhar meu treinamento — falei calmamente, olhando bem nos olhos do rapaz — Pode arranjar briga comigo, falar o que quiser de mim, chamar quantos quiser pra me bater. Mas nunca mais vai se referir à minha mãe desse jeito — apertei as adagas um pouco mais, levantando-o alguns centímetros do chão. Então aproximei mais os olhos — Você entendeu?

–Eu... entendi — Egon respondeu, ficando na ponta dos pés, tentando respirar. Impressionante como a voz dele perdera completamente a zombaria e a autoridade.

Soltei-o, e ele caiu sentado no chão, massageando o pescoço. Depois olhei à minha volta: Axel ainda estava caído de encontro à parede, e Jeremy estava sentado atordoado. Hector ainda estava sentado com as mãos na barriga.

Foi só aí que olhei para a porta. Não tinha percebido que toda a turma tinha entrado novamente na sala. Todos estavam boquiabertos, olhando pra mim, e de repente me subiu uma sensação imensa de culpa e vergonha. Eu tinha praticamente nocauteado quatro alunos do último ano, numa briga inteiramente fora das regras.

Meu coração deu um pulo quando vi que, encostado à porta, estava Arien, junto com o próprio analisador de exames. Gatunos são indisciplinados, mas não creio que ele aprovaria meu... pequeno descontrole.

Arien olhou para o outro homem, e disse:

–Bem, senhor, o nome dele é William.

William? Desde quando eles anunciam os alunos pelo primeiro nome?

O analisador, um homem baixo de barba e cabelos brancos curtos, olhou pra mim sem acreditar, depois para Arien.

–William, certo. Assistente, traga-o até a minha sala, em vinte minutos.

Arien coçou o pescoço, meio confuso.

–Hã, o senhor é um visitante e só vem aqui uma vez por ano, não temos uma sala própria para o senhor.

–Hein? Ora, tudo bem, então vamos até a sua sala, só me garanta um lugar onde eu possa conversar com esse garoto.