As Duas Lâminas

3 Anseio por um fim de semana com Streppe


–Inacreditável! Venceu quatro lutadores grandes e fortes, sozinho, sem nem mesmo usar um escudo!!! Nunca vi nada parecido desde que aprovei Connor Cooper, séculos atrás.

O analisador andava pela sala, parecendo fascinado. Arien estava casualmente recostado na porta, satisfeito.

Mas aí estava meu pai de novo. Já disse que me orgulho dele?

E acho que ele se orgulharia de mim. Gostaria que ele tivesse visto minha luta; todos os golpes que eu apliquei, aprendi com ele.

Se eu sinto algum remorso pela luta? Nem um pouco. Ali estavam três das pessoas que faziam da minha vida um inferno, chamando um quatro pra ajudar a fazer da minha vida um inferno. Eles mereciam isso. E foi bom que toda a turma tenha visto: todos pensavam que eu não era capaz de nada, mas eu fui e derrotei quatro dos melhores alunos da escola. E eu não estava nem um pouco preocupado com o que o instrutor iria fazer.

Nas historinhas, é sempre assim: o pior aluno(Robert, por exemplo) consegue vencer o mais forte, mas o professor descobre e chama ele pra sua sala. Robert então fica morrendo de medo, achando que vai ser castigado, expulso, banido, preso, enfim, acha que está ferrado. Mas aí o professor chega e anuncia que nunca tinha visto uma pessoa lutar tão bem, e aí Robert diz algo tipo: “Mas... eu pensei que seria expulso!” e o professor responde rindo: “Claro que não, meu jovem. Você luta muito bem" ou "Nunca vi uma vitória tão boa quanto essa. Adoro café.”

Mas eu não sou um desenho dos Meso Rangers. Eu sabia quase perfeitamente que ele iria me parabenizar pela luta(sem querer me gabar, claro).

–Bem – começou o analisador, estendendo a mão – ainda não nos apresentamos, certo? Eu sou Lucas, o instrutor de Amherst, na Ilha Maple. Você é William, certo?

–Hã... sim – respondi, cumprimentando-o. Ele não tinha um aperto de mão muito forte. Era um tanto idoso, quase cinquenta anos, talvez, com barba e cabelos grisalhos, com olhos bastante inteligentes.

–William, meu caro. Arien estava me contando sobe sua vida na Escola. Pelo que sei, aqueles rapazes estavam pedindo aquela surra, certo?

Quase suspirei de alívio. Tudo bem, eu estava com um pouco de medo de que ele me expulsasse da Escola e não aprovasse o que fiz. Mas seus olhos e seu sorriso diziam exatamente o contrário.

–Bem, não foi exatamente uma surra, senhor. Eles vieram pra cima de mim, apenas tentei me defender.

Arien deu uma risadinha. Lucas olhou pra mim, divertido.

–Sim, eu sei. Mas pelo que o assistente me contou, você nunca tinha demonstrado nenhuma habilidade com a adaga, ou com qualquer outra arma que usasse. Sem querer ofender – acrescentou, com um sorriso -, mas, o aluno menos capaz da Escola vence quatro dos melhores, e ainda por cima usando duas adagas de uma vez. Essa habilidade não pode ter aparecido assim, do nada.

Eu... treinava em casa – ok, eu já estava ficando com um pouco de vergonha.

–Aposto que sim. Meu caro rapaz, se não for ousadia minha, posso perguntar-lhe o que eles fizeram pra você ficar com raiva e lutar desse jeito?

–Eles insultaram meus pais, senhor.

–Ah, claro. Eu entendo, é complicado falar da família. Dói mais quando falam mal dos nossos pais do que quando falam de nós mesmos. — respondeu Lucas, refletindo.

–Mas, entenda – ele continuou, agora um pouco mais sério. — Convenhamos que você desrespeitou as regras, e brigou, não somente com um aluno. Sem falar no mau exemplo que pode ter dado a seus outros colegas.

Tudo bem. Agora eu estava com medo de verdade.

–Maas... — ele continuou – Você deu uma bela demonstração de luta. Não creio que tenha ensinado muita coisa aos alunos, porque na Ilha Maple nós não cobramos o uso de duas adagas, mas eles certamente aprenderam alguma coisa... ou não – ele parou, pensando – foram golpes realmente muito rápidos. Eu mesmo não consegui registrar a maioria deles antes de ver seus oponentes caindo no chão. Mesmo assim, você ensinou a eles várias lições de esquiva e movimento.

Lucas era um cara legal, mas pelo amor de Deus, eu estava ou não encrencado?

Ele deve ter visto que eu estava começando a ficar meio impaciente, pois sorriu levemente.

–Enfim, concluímos que você realmente tem habilidade. O que acha de ir agora mesmo para a Ilha Maple, e começar a se preparar para o teste?

Olhei para ele, sem acreditar. Tudo bem, eu sempre soube que ele acharia que eu luto “bem”, mas isso? Eu tinha um pouco de medo de ser expulso, e agora ele dizia que eu poderia ir para a Ilha Maple, talvez realizar meu sonho, sem nem mesmo passar pela bendita escolha.

Ele ainda olhava pra mim, claramente esperando alguma resposta. Pigarreei, e tentei dizer alguma coisa.

–Sim. Quer dizer... e a escolha? Não preciso fazer uma porção de exames, pra saber se estou classificado? E quanto à minha punição? — a última parte escapou, eu queria garantir que saberia exatamente se seria castigado ou não.

–Meu jovem, você já está automaticamente escolhido. Sou eu quem escolhe, lembra? E acabei de ver uma demonstração que valeria mais do que qualquer teste ou simulação que eu poderia planejar. Mas se você aceitar, levaremos você para lá ainda hoje, e ficará livre para treinar lá o quanto quiser, ficará na barraca dos examinadores e terá toda a comida, bebida e conforto que um aprendiz pode desejar, pelo menos até começarem os exames. Quanto a punição – agora ele sorria quase com sarcasmo – acho que passar uns dias a mais com seu inspetor será suficiente, certo, Arien?

–Acho até que vai ser castigo demais – concordou.

–Então – disse Lucas, sentando-se e esfregando as mãos – você aceita ou não?

–Claro que sim! — respondi, sem hesitar

–Então está feito! — disse analisador – Existem mais dois examinadores em Maple, mas se você fizer no exame o mesmo que fez aqui, garanto que vai passar. A propósito... qual é o seu primeiro nome?

–Bem... — olhei para Arien, que olhava para cima como se tivesse chegado o momento que ele estava aguardando – meu primeiro nome é William.

–O quê? Seu nome é William William?

–Não senhor, William é meu primeiro nome. Meu sobrenome é – agora eu entendia que Arien estava me sacaneando – Cooper.

Lucas ficou parado. Olhou para mim, para Arien, depois de novo para mim. E então para Arien.

–Cooper... será possível que ele tenha alguma relação com Connor Cooper?

–Me diga você – Arien falou, soando enigmático – Quantos “Cooper” nós conhecemos? Tirando aquela cantora, mas ela não tem nenhum parentesco com ele.

–Hã... Alice Cooper é um homem, senhor.

–Sério??? — ele parecia muito surpreso – Ah, não importa, nunca ouvi nenhuma música dela... dele. Enfim, Lucas, sim, este é Will, filho de Connor Cooper.

–Mas... claro, como não percebi antes? Você é a cara do seu pai! — Lucas ainda tinha os olhos fixos em mim – Uma expressão mais tímida, claro, mas... como não desconfiei, quando o vi derrotar todos aqueles rapazes de uma só vez? Por Deus, Arien, por que não me contou isso antes?

–Você nunca me perguntou...

–Bem, isso não importa- continuou Lucas. — O importante é que agora eu tenho certeza de que você terá um grande futuro como Gatuno. Claro, seu pai não completou a Escola, mas...

–O quê? — Não aguentei. Como isso era possível? Pior ainda, como é que eu nunca soube disso? — Desculpe... mas, como assim, ele não aprendeu na Escola?

Eu estava olhando para Lucas, incrédulo, mas foi Arien quem respondeu.

–Seu pai não completou nem o primeiro ano, Will – ele contou. — Ele começou a matar as aulas e a treinar sozinho, porque ele gostava mesmo de usar duas adagas, e não havia ninguém que pudesse treiná-lo. Até que ele saiu da Escola e começou a procurar alguém ou um jeito de aprender a melhorar sua técnica.

–E, pelo visto, ele encontrou – Lucas continuou – Nunca conheci ninguém capaz de usar as duas adagas como ele, a não ser seu filho, como já vimos hoje. Mas pelo que parece, ele realmente treinou sozinho, pois não existe uma pessoa conhecida que ensine as duas adagas. E então, ele virou o melhor Gatuno que muitos já viram, mesmo sem receber treinamento graduado.

Aquilo estava começando a me preocupar um pouco. Eu não tinha certeza de que conseguiria chegar ao nível do meu pai treinando sozinho. Expliquei isso a Lucas.

–Ah... sim, esse talvez seja um problema. Mas a Escola hoje é um pouco diferente da escola da época do seu pai, é claro. Mais instrutores, um campo maior, mais opções de treinamento. Tenho certeza de que todos eles estarão mais do que dispostos a ajudar um Cooper em seu treinamento. Não se preocupe – acrescentou, sorrindo – eles vão ensiná-lo até você aprender. Nossos instrutores são um pouco menos rigorosos do que o dessa escola aqui, pode apostar – e piscou.

Aquilo me animou um pouco. Uma escola nova, com pessoas que não me conheciam(provavelmente me receberiam bem). Eu teria uma chance de fazer amigos. E, se treinasse duro, poderia até aprender a usar uma adaga só, se os professores fosse me ajudar, em vez de me repreender a cada erro, como Streppe.

Consegui sorrir. Realmente, as coisas seriam melhores na nova Escola. Eu só precisava passar no teste final.

–Bem, vejo que você já está um pouco melhor – disse Lucas – Então, podemos encerrar por aqui?

–Sim, senhor.

–Então estamos combinados. Cooper, meu jovem, tenho certeza de que você conseguirá convencer os outros examinadores de que você tem talento para se tornar um grande Gatuno um dia. Portanto, descanse, pegue as suas coisas e volte aqui em cinco horas. Então, vamos nos preparar para ir à Ilha Maple.