As Duas Lâminas
1 Começo sendo encorajado

Depois disso, escolhemos uma especialização: Assassin ou Bandit. Os Assassins aprimoram a habilidade de atirar shurikens, só que eles usam garras para proteger as mãos desde que um aluno perdeu um dedo tentando atirar a shuriken no alvo, além de elas servirem como arma em uma luta corpo-a corpo. E os Bandits usam adagas. Não possuem a força nem o alcance de uma espada, mas podem encontrar brechas na armadura do inimigo, além de dar maior velocidade e destreza para atacar. E também podem usar um escudo, só que eles são menores e mais leves que os pesados escudos dos grandes guerreiros.Qual dessas profissões eu quero seguir? Então, eu sempre quis ser um Bandit, como meu pai. Sim, meu pai é Connor Cooper, e ele — sem querer me gabar — é conhecido como o Bandit mais ágil do planeta. Ele não estudou na Escola de Gatunos, porque ele usa duas adagas, uma em cada mão. São poucos os que lutam assim, e essas pessoas geralmente aprendem sozinhas o uso da segunda adagas, porque não existe curso para "Gatuno De Duas Adagas".Só que ele desapareceu, cinco anos atrás. Ele foi investigar rumores de uma ameaça em El Nath, a cidade congelada, mas desde então ninguém nunca mais o viu e ninguém sabia onde procurá-lo. Por isso, eu sonho ser como meu pai: um grande Gatuno, usando duas adagas, sendo capaz de matar qualquer monstro que eu vir pela frente, para poder um dia viajar para El Nath e procurá-lo, pois sei que ele ainda está vivo, em algum lugar. Como não existe alguém que ensine como usar uma segunda adaga, eu treino sozinho em casa todos os dias. Só que não existe ninguém, em Kerning ou em qualquer outro lugar, que ensine como manejar as duas adagas. Não adianta eu treinar sozinho, levaria anos para desenvolver técnicas de combate como meu pai e essas coisas. Por isso, se eu quiser passar na Escola de Gatunos, preciso treinar com a shuriken ou com a adaga. De tanto treinar, acabei desenvolvendo certa habilidade com as duas adagas. Mas... com duas adagas. Nas lutas amistosas que fazíamos na Escola(espadas de madeira) a gente precisa usar uma adaga e um escudo, e eu perdia sempre, porque sentia falta de uma segunda adaga pra me auxiliar. Mas não posso usar duas adagas porque não existe um “superior” pra me aprimorar nessa modalidade. Resumindo: não posso ser um Bandit, nunca passaria no teste. Além de que eu não consigo me ajeitar com aquele escudo que eles usam, e simplesmente não tenho habilidade com shurikens, e nem quero ser um Assassin. Mas preciso passar na Escola pra ser um gatuno, treinar e encontrar meu pai. Ah, certo, já falei demais. Ainda tenho que contar sobre as flexões, não é? Bem, já vou chegar nelas. Primeiro, precisam conhecer o instrutor de gatunos, o Streppe. Streppe é o nosso instrutor, responsável por nos ensinar, corrigir(ele adora fazer isso) e supervisionar. Alto, cabelo militar raspado e com músculos de um guerreiro, mas não se engane, você precisa ver como ele é ágil. É um dos poucos que tem as habilidades das duas classes que ele treina, ou seja, ele pode te humilhar tanto com uma shuriken ou com uma adaga. Não é muito conhecido por ter senso de humor, acredite. É bastante irritável e rígido, dizem que ele não ensina na Escola em Perion porque lá os guerreiros são mais disciplinados, e dificilmente fazem alguma coisa que mereça alguma punição. Mas veja bem, o cara não é cruel, muitos odiamos ele, mas é o gatuno mais capaz que eu já vi lutando(eu sei porque infelizmente já fui estúpido o bastante pra enfrentar ele), com exceção talvez do meu pai e do próprio Dark Lord(mas ele eu nunca tive a honra de ver em ação). Claro que isso não muda em nada o fato de que ele é bastante irritável e rígido. A Escola de Gatunos não deveria ser assim tão severa, mas com ele aqui funciona assim: descumpriu uma regra? Dez flexões. Desobedeceu uma ordem? Vinte flexões, o número depende o humor do instrutor. Bem, é isso. É o melhor gatuno que eu vejo para ensinar, mas, pelo amor de Deus, eu detesto esse cara. Ai ai, agora vamos à flexões. Estávamos fazendo um exercício simples: Eles colocam um boneco de madeira envelhecida de Mu Lung na nossa frente(eles são enfeitiçados para se mover), e precisamos acertá-los em algum ponto “atacável” – braços, pernas, barriga – trinta vezes seguidas, em nada menos do que dez segundos. Eu disse que era simples, não que era fácil.
Podemos escolher entre usar garras ou adagas. Como eu quero ser Bandit, uso a adaga e mais a droga daquele escudo. Com certeza eu não teria problema em atingir ele cinquenta vezes, se usasse duas adagas. Mas como só posso usar uma, fica mais difícil. E ainda tem o escudo, simplesmente não consigo me defender com aquilo. E o boneco ainda usa o escudo pra bloquear meus imprecisos ataques, sem falar que ele tenta me acertar com a espada. Tudo bem que ela é de palha e nem chega a doer, mas o exercício simula um combate real: se a espada dele tocar, por exemplo, as costelas ou onde fica o coração, nós “morremos”. E aí temos que começar de novo. Olhei à minha volta. Todos já estavam sentados, ofegando cansados depois de completar a atividade, eu era o único que ainda não tinha completado. Aqueles malditos bonecos tinham algum tipo de sensor e só desativavam quando terminávamos o que o instrutor pedia. Ok, as flexões. Estou enrolando de novo... cara, acho que é a décima vez que eu não faço esse exercício direito.–Deve ser a décima vez que você não faz o exercício direito — comentou Streppe.–Eu sei – respondi, cansado – mas estou tentando.–Tentando? — riu o inspetor – Não, pois eu acho que você não está levando muito a sério. Tenho observado você, William Cooper. Não existe uma única tarefa que você faça sem errar... a não ser a de atravessar o portão pra ir embora. A turma inteira riu. Isso agora só me incomodava um pouco, nunca tive nenhum amigo aqui, tirando talvez o assistente do inspetor, mas ele é bom com todo mundo. E claro que ele estava me observando, é o trabalho dele olhar cada um dos trinta alunos da Escola. Dâ. Mas... não levo a sério? Como ele pode dizer isso? Todos esses anos eu me esforçava para aprender, tentar sair da sombra do meu pai, ser igual a ele! Ele deve ter adivinhado o que eu estava pensando, pois continuou:–Você nunca vai ser como seu pai, William. É uma pena que a única coisa que ele tenha deixado viva seja...você! — continuou, com um sorrisinho divertido. Como eu disse, ele não é conhecido pelas melhores piadas.–O treinamento final na Ilha Maple vai ser daqui a uma semana, e você não consegue derrotar nem mesmo nosso aluno mais novo. Você é uma vergonha, William. Vinte alunos vão ser selecionados para viajar até lá... acha mesmo que você vai ser escolhido?–Sim, eu acho. Treinei duro todos esses quatro anos – Certo, eu até treinei duro, mas duvidava que fosse escolhido. Mas o que mais eu poderia responder? Streppe fungou.–Sabe, às vezes eu me pergunto se quero realmente perder meu tempo tentando ensinar alguma coisa a você. Sabe por quê? Porque acho que sua cabeça fraca não consegue nem absorver metade do que estou falando com você agora. — concluiu, fazendo a turma rir e debochar ainda mais. Agora ele pegou pesado. Respirei fundo antes de responder:–Bem, eu não acho. Acho que você tem medo que eu acabe aprendendo alguma coisa e te dê uma surra que nem aquela que meu pai deu em você, na primeira vez que você tentou acertá-lo com aquele... o que era mesmo? Ele desviou tão rápido que nem consegui ver o que era. Silêncio na sala. De certa forma aquilo me animava um pouco: lembrar ao meu odiado instrutor que meu pai sempre o vencia, na frente de toda a turma. Ele olhou seriamente pra mim e disse, sem desviar o olhar:– Arien, traga o Encorajador, por favor. Tudo bem, encarar o Encorajador na frente da turma não me animava nem um pouco... mas é um nome bem estranho, visto que todos praticamente morrem de medo quando o professor diz que vai aplicá-lo em alguém. O Encorajador é um chicote que o Streppe usa, feito de linho trançado naquela cidade que esqueci o nome, só o que sei dela é que eles fazem chicotes bem pra caramba. Mas... o Encorajador. A punição mais temida da Escola de Gatunos. E eu teria a honra de levar alguns golpes dele, de novo. Arian voltou trazendo o Encorajador e mais o equipamento de proteção da vítima – um escudo e uma garra, ambos de verdade, ou seja, de metal e tudo. Ele me deu um olhar de desculpas. Ele sempre dava um jeito convencer o inspetor a transformar as três “encorajadas” em trinta ou cinquenta flexões, mas acho que Streppe levou pro lado pessoal. Tudo bem, eu até estava me acostumando.–Proteja-se. — sussurrou Streppe, o olhar sombrio. Coloquei a garra na mão direita e segurei o escudo com a esquerda, e me preparei. A turma olhava indiferente, nenhum deles se importava comigo. Aqui, somos reconhecidos pelas nossas habilidades. E eu aparentemente não tinha nenhuma. Eu sabia o que iria acontecer em seguida. Já passei por isso várias vezes: Streppe iria me dar três chicotadas, e eu tinha que me defender do jeito que me viesse à cabeça. Eu usaria a garra, que cobre quase todo o meu antebraço direito e, como eu não iria usar a outra mão para segurar nenhuma shuriken(se bem que umas duas Kumbis bem afiadas cairiam bem agora), eu podia usar o escudo na esquerda. Fácil, certo? Talvez, se o chicoteador fosse alguém menos habilidoso. A maioria das pessoas colocaria o braço com a garra na frente do corpo para se defender, e daria certo, mas o chicote se enrola nela e Streppe começa a puxá-lo sem piedade, te arrastando pela sala até você criar juízo pra soltar a garra. E depois disso ainda faltariam mais duas encorajadas, dessa vez sem a garra. Então, sem mais delongas ele preparou o chicote, e atacou. Eu já tenho alguma experiência com o Encorajador, portanto sabia que não podia simplesmente me defender com a garra. Então, coloquei o braço direito na frente do corpo e usei o escudo para impedir o chicote de enrolar. Tac! O chicote bateu na garra e no escudo. Streppe puxou e mirou meu ombro que carregava o escudo, agora desprotegido. Antes que eu pudesse sequer registrar que tinha defendido o primeiro golpe com sucesso, meu ombro esquerdo explodiu de dor. Eu não sabia o que ele passava naquele maldito chicote, mas sabia que cortes feitos por ele deixavam uma marca que doía durante dias. Meu escudo caiu. Pensei que ele fosse acertar meu peito e fazer eu me contorcer de dor, mas ele olhou pra mim e disse:–Gostaria de ter sido o instrutor do seu pai. Será que ele gritaria quando eu acertasse ele com meu brinquedinho cada vez que ele errasse alguma coisa?–Ele provavelmente te mataria — rosnei. Streppe ergueu o chicote — não tive escolha, coloquei a garra instintivamente na frente do meu corpo — quando uma voz feminina chamou:–Streppe! Ele parou e olhou na direção da porta da sala de treinamento. Era uma das funcionárias. O Dark Lord quer falar com você. — disse ela. Streppe olhou pra mim, seus olhos diziam claramente que o assunto não acabara aqui. Ele então falou, em voz alta:– Dispensados! Podem voltar para suas casas. Caí no chão segurando o ombro. Deus, como aquilo doía. Pelo canto dos olhos vi Arien chegando perto de mim. Eu sabia que ele, pelo menos, me entendia e tentaria me consolar.
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