As Desventuras e Romances de Percabeth
74 23 – Gelo
Notas iniciais
Percy voltou de Bristol na segunda, dois dias antes do previsto. Inventou um compromisso com a Flip — o que não era mentira, só não era o motivo real. O motivo real era que mais um jantar com o barão cortando o faisão em silêncio hostil teria feito ele perder as estribeiras.
Ouviu a música antes de abrir a porta do apartamento. Alguém tinha ligado a TV alto demais, e por cima disso, vozes se sobrepondo, risada de Nico cortando tudo.
— Ele voltou! — Nico anunciou assim que Percy entrou, como se estivesse narrando um evento esportivo.
A cobertura estava diferente. Cheia. Havia uma mala no corredor que não era de ninguém que morava ali, um cobertor jogado no sofá que definitivamente não pertencia ao apartamento, e Thalia sentada de pernas cruzadas no chão da sala, debochando de alguma coisa que Luke tinha acabado de dizer.
— Jackson — ela disse, erguendo os olhos, o mesmo tom afiado de sempre, como se os anos não tivessem passado — Achei que você tivesse virado um lorde inglês de vez.
— Grace — ele respondeu, largando a mochila — Ainda viva, pelo visto.
— Infelizmente pra alguns — ela apontou o queixo pra Luke, que revirou os olhos e fingiu não ter ouvido.
Percy passou os olhos pela sala. Juniper estava na cozinha com Grover, os dois rindo baixinho de alguma coisa na tela do celular, próximos demais pra ser só amizade antiga. E então ele a viu.
Annabeth estava sentada no braço do sofá, uma caneca nas mãos, os pés descalços dobrados sob o corpo. Usava uma blusa que não era dela — grande demais, provavelmente de Thalia — e o cabelo solto caindo bagunçado sobre os ombros.
— Você ficou — ele disse, sem pensar direito antes de falar.
— Fiquei — ela respondeu, sem se explicar mais que isso.
Ele foi até o quarto trocar de roupa antes que alguém notasse o jeito como tinha ficado parado ali por tempo demais.
— Campeonato é sexta, certo? — Luke perguntou, já com os pés em cima da mesinha de centro, uma cerveja na mão.
— Sábado — Percy corrigiu, voltando pra sala com uma camiseta da Nike SB — Battersea. Não sou mais competidor, só vou representar a marca.
— "Só representar a marca" — Nico imitou, com escárnio — Cara, você ainda é o nome mais pedido nas listas de presença desses eventos. Aceita que amadureceu virando lenda.
Thalia se intrometeu, os olhos brilhando de um jeito que Percy reconheceu como perigoso.
— A gente vai — ela declarou, olhando pra Annabeth — Não tem discussão sobre isso.
Annabeth ergueu uma sobrancelha por cima da caneca.
— Eu nem disse nada.
— Não precisou. Eu decidi por você.
***
O sábado amanheceu frio o suficiente pra Londres inteira reclamar, mas seco — um milagre raro o bastante pra Percy comentar sobre isso enquanto carregava o Skate pro carro. Por alguma razão ele ainda levava todo o aparato da época de competições, uma peça de cada sobressalente, roupas e a costumeira banana com paçocas amassadas que ele comia nos intervalos.
Battersea Park tinha uma pista temporária montada pro evento, arquibancadas improvisadas cercando e uma seção de rampas que Percy conhecia de cor, mesmo sem competir ali havia mais de dois anos. O ar cheirava a churrasco de food truck e borracha queimada.
Tyson apareceu antes de qualquer outra pessoa, o boné virado ao contrário, gritando o nome de Percy do outro lado da grade de segurança antes mesmo de chegar perto.
— Cara, VOCÊ VAI COMPETIR? — ele quase pulou a grade.
— Só uma exibição, Ty. Relaxa.
— Isso é ainda melhor, você não tem que se preocupar com nota.
Sally chegou logo depois, Lilian de mãos dadas, a menina usando um gorro rosa com orelhinhas que a fazia parecer metade criança, metade personagem de desenho animado.
— Annabeth! — Lilian gritou ao ver o grupo se aproximando, largando a mão da mãe e correndo na direção deles sem qualquer cerimônia, exatamente como fazia com Percy.
Annabeth se abaixou pra recebê-la, e por um segundo Percy ficou só olhando aquilo, incapaz de fazer qualquer outra coisa.
A pista estava lotada quando ele subiu no Skate pela primeira vez, o corpo lembrando movimentos que a mente quase tinha esquecido de saber que ainda sabia. O Hardflip veio fácil, quase automático, um aplauso disperso da arquibancada acompanhando a aterrissagem.
Ele olhou pra cima só uma vez, procurando sem admitir que estava procurando, e encontrou. Annabeth estava sentada entre Thalia e Lilian, o vento bagunçando os cabelos dela, os olhos acompanhando cada movimento dele na pista com uma atenção que não tinha nada de casual.
Percy foi até o corner onde os representantes da Flip estavam e notou certo burburinho e olhares aflitos.
— Tudo bem pessoal? — Percy trocou socos com Geoff e mais uns três profissionais aposentados.
— Percy — Geoff o puxou pelo braço com rapidez — O Andy não tá bem cara, se machucou no treino mais cedo, tô achando que você vai ter que voltar da aposentadoria.
Percy sentiu a barriga revirar e gostou da sensação — Não brinca. Não criem expectativas.
Ninguém precisou convencê-lo, ele esboçou um alongamento meio tímido e já se foi andando no skate. Quando o nome Jackson foi anunciado no telão a plateia vibrou como não tinha feito durante a manhã inteira. Ele realmente era um fan favorite.
Antes de começar ele viu seus amigos todos reunidos na plateia, sua mãe e seus irmãos. O AirPod estava no bolso do short jeans e ele não perdeu tempo em escolher um som do Kasabian. Seria o aquecimento do show de mais tarde.
Percy foi tomado pela nostalgia ao ver Annabeth fazendo joinha pra ele da arquibancada. Era quase idêntico a uma tarde específica, anos atrás, numa colina do Summit, ele suado e sem fôlego e ela dizendo "você tem jeito de que anda bem" com as bochechas coradas.
Ele desceu da pista entre uma manobra e outra, só pra beber água, e Lilian correu até ele antes que qualquer outra pessoa pudesse chegar perto.
— Ela ficou olhando pra você o tempo todo — a menina anunciou, sem qualquer filtro, apontando o polegar por cima do ombro na direção de Annabeth.
Percy sentiu o rosto esquentar de um jeito que nenhuma manobra na pista jamais tinha conseguido causar.
— Obrigado pela informação, Lily.
— De nada.
Por fim, Percy não venceu. Mas ele também não decepcionou. Mesmo após dois anos parado ele conseguiu ficar a apenas uma posição de distância do pódio. Ele recebeu vivas e até foi timidamente carregado pelos colegas da Flip, que tentavam a todo custo tirá-lo da aposentadoria precoce. Percy se permitiu sentir aquela alegria genuína que o skate sempre proporcionava desde moleque.
Depois da exagerada comemoração pelo 4º lugar ele foi andando até onde seus amigos estavam reunidos.
— Sabia que você ainda tinha uma carta na manga — Luke o cumprimentou muito orgulhoso
— Cão velho também sabe latir. E agora, show do Kasabian? — Percy se sentou ao lado da mãe. Sally o abraçou de lado — Eu sei que o James arrumou ingressos de backstage pra todos.
O show do Kasabian era à noite, num galpão reformado perto de Brixton.
As garotas foram se arrumar no apartamento de Annabeth em Greenwich e Nico mandou uma mensagem para um acessor da No Name e eles mandaram a van da banda busca-los em Chelsea às 20h.
O lugar já estava lotado quando eles chegaram, o baixo da banda de abertura sacudindo o chão sob os pés, luzes roxas e azuis cortando a fumaça artificial. Thalia gritou alguma coisa que ninguém entendeu por cima do som, e então riu da própria frustração.
Eles ficaram perto do palco lateral, o grupo inteiro grudado — Nico, Luke, Grover, Juniper colada nele agora sem nenhum disfarce, Thalia empurrando Luke de propósito toda vez que a multidão comprimia, Annabeth ao lado de Percy porque foi assim que ficou, sem ninguém decidir aquilo conscientemente.
Quando o Kasabian subiu ao palco e o refrão de Fire explodiu pelo galpão inteiro, a multidão virou um só organismo pulando junto. Percy sentiu o ombro de Annabeth colado no dele, o calor dela misturado ao calor de cinco mil pessoas gritando a mesma letra.
Foi Thalia quem aproveitou o barulho pra falar o que ninguém mais teria coragem de dizer em silêncio.
— VOCÊ VAI FICAR AÍ FINGINDO QUE NÃO SENTE NADA A NOITE INTEIRA? — ela gritou no ouvido de Annabeth, alto o suficiente pra cortar a música.
— O QUÊ?
— VOCÊ SABE O QUÊ — Thalia apontou pra Percy, sem qualquer sutileza — PARA DE ESPERAR ELE DECIDIR. VOCÊ TAMBÉM NUNCA DECIDIU NADA.
Annabeth não respondeu. A música engoliu qualquer chance de resposta, e talvez fosse melhor assim — Thalia parecia ter dito exatamente o suficiente pra plantar a pergunta sem esperar resposta imediata.
Percy não tinha ouvido as palavras exatas, só o suficiente pra saber que alguma coisa tinha sido dita, e viu o jeito como Annabeth ficou quieta demais pro resto da música, os olhos fixos no palco, mas claramente processando outra coisa.
Do outro lado do grupo, Luke puxou Thalia pelo pulso no intervalo entre uma música e outra, e os dois desapareceram por um instante entre a multidão. Quando voltaram, alguns minutos depois, Thalia tinha o batom borrado e Luke o sorriso mais idiota que Percy já tinha visto nele.
— Já não era sem tempo — Nico gritou, batendo palmas de forma exagerada.
— Cala a boca, Di Angelo — os dois disseram ao mesmo tempo, e isso só fez todo mundo rir mais.
Eles saíram do show perto da meia-noite, os ouvidos ainda zumbindo, o frio de dezembro batendo diferente depois do calor abafado do galpão. O grupo se dividiu nas ruas — Luke e Thalia sumiram primeiro, sem qualquer explicação necessária, Grover e Juniper logo depois, Nico decidindo ir atrás de alguma balada que só ele conhecia.
Percy e Annabeth ficaram pra trás, sem combinar aquilo, caminhando devagar em direção a lugar nenhum específico.
— Você tá com fome? — ele perguntou, mais pra preencher o silêncio do que por real interesse em comida.
— Não — ela respondeu — Só... não quero voltar ainda.
Foi Percy quem viu primeiro — as luzes coloridas piscando ao longe, o contorno de uma pista de gelo montada numa das praças, parte da decoração de Natal que tomava conta de Londres inteira naquela época do ano.
Ele parou de andar.
Annabeth seguiu o olhar dele e também parou.
— Você tá pensando o que eu acho que tá pensando? — ela perguntou, a voz baixa.
— Provavelmente.
***
Dezembro de 2015.
A touca rosa ainda estava molhada de neve derretida quando Annabeth tropeçou pela quarta vez e se agarrou no braço de Percy pra não cair de vez.
— Você disse que sabia patinar — ele acusou, rindo.
— Eu disse que já tinha patinado. Uma vez. Aos oito anos.
— Isso não conta como saber, Jackson.
As luzes de Piccadilly Circus se refletiam no gelo, vermelhas e douradas, misturadas com o vapor que saía da boca deles a cada respiração. Ele a segurou pela cintura, mais pra se equilibrar do que qualquer outra coisa, e os dois quase caíram juntos, rindo alto demais pro frio que fazia.
— Se a gente cair, eu juro que vou filmar e mostrar pra Sally — ela ameaçou.
— Se a gente cair, eu levo você comigo, então tanto faz.
Levaram quase uma hora pra dar uma volta completa na pista, mais rindo do que patinando de verdade, e quando finalmente pararam pra descansar na beirada, Annabeth com as bochechas vermelhas de frio e risada, Percy tirou o celular do bolso.
— Foto — ele disse, simplesmente.
— Nós dois parecemos ridículos agora.
— Exatamente por isso.
Ela se aproximou, a cabeça encostada no ombro dele, e o flash capturou os dois sorrindo de verdade, sem pose nenhuma, as luzes de Natal borradas ao fundo.
Aquela foto ficaria, anos depois, dentro de um porta-retrato que Percy nunca teria coragem de jogar fora.
•
Eles pararam na entrada da pista, o bilheteiro já fechando a bilheteria pra noite, mas ainda disposto a deixar mais um casal entrar por um preço qualquer que Percy pagou sem discutir.
— Você lembra da última vez? — Annabeth perguntou, já calçando os patins, a voz mais baixa do que o barulho da rua exigia.
— Você caiu três vezes — Percy ficou de pé esperando.
— Quatro.
Ela riu, um som real, cansado, o tipo que ele não ouvia direito havia semanas demais.
O gelo estava quase vazio àquela hora, só um casal de turistas no canto oposto e um funcionário limpando a superfície com a máquina antes de fechar de vez. Percy entrou primeiro e estendeu a mão pra ela sem pensar duas vezes.
— Isso é meio clichê — ela comentou, aceitando a mão mesmo assim.
— Rosas são clichês. Isso é só história se repetindo.
Eles deslizaram devagar, sem pressa nenhuma, o silêncio entre os dois diferente de todos os silêncios que tinham dividido nos últimos meses — não pesado, não cheio de teatro, só quieto do jeito que só existia entre duas pessoas que já tinham decidido, há muito tempo, sem nunca dizer em voz alta, que aquilo importava mais do que qualquer coisa que tentassem construir por cima.
— Percy — ela disse, parando no meio do gelo, os olhos presos nos dele.
— Eu sei — ele respondeu, sem saber exatamente o que estava respondendo, só que parecia, de novo, a única coisa certa a dizer.
Nenhum dos dois se aproximou. Nenhum dos dois se afastou.
As luzes da cidade piscavam ao redor deles, vermelhas e douradas, do jeito que tinham piscado anos atrás, numa pista diferente, numa versão diferente dos dois — mas o peso no peito de Percy era exatamente o mesmo, nem um grama mais leve depois de todos aqueles anos tentando fingir que tinha sido só coisa de adolescente.
Ele tirou o celular do bolso, quase por reflexo.
— Foto? — ele perguntou.
Annabeth sorriu, pequeno, cansado, real.
— Foto.
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