As Desventuras e Romances de Percabeth
75 24 – Fogo
Notas iniciais
24 – Fogo
Saíram do ringue em silêncio, os patins devolvidos, os tênis de volta aos pés ainda dormentes de frio. Annabeth tinha as mãos enfiadas nos bolsos do casaco de couro, o cachecol enrolado até o queixo, e Percy caminhava ao lado dela sem pressa nenhuma de chegar a lugar nenhum específico, as luzes de Natal de Piccadilly piscando vermelho e dourado contra o vapor que saía da boca dos dois a cada respiração.
Não tinham combinado voltar pra cobertura. Parecia que nenhum dos dois estava ansioso pra retornar, nem mesmo o frio congelante da capital da Inglaterra diminuía a chama que ardia no peito de Percy.
—Tá frio demais pra ficar andando sem rumo — Annabeth comentou, a voz baixa, mais pra preencher o silêncio do que por real reclamação.
— Tem um bistrô logo após a avenida Shaftesbury que serve um brunch da meia noite divino.
— Maravilha, meu estômago acabou de roncar — Annabeth apertou o passo e largou Percy para trás.
Não demorou mais que cinco minutos de caminhada até o modesto restaurante de esquina iluminado com luzes brancas natalinas. Percy segurou a porta para Annabeth passar e fez uma leve mesura. O ar quente encheu os pulmões de ambos.
O bistrô antigo tinha certo movimento visto o horário que os dois adentraram com as barrigas vazias. Percy foi na frente e escolheu uma mesa próxima ao aquecedor.
Ele fez questão de puxar a cadeira para Annabeth se sentar. Ela corou — Mora a tanto tempo aqui que adotou costumes cavalheirescos foi?
Percy não respondeu. Ele se sentou de frente pra ela e fez sinal pro garçom.
— Peito de Peru e creme de ricota, estou certo? — Percy nem esperou ela abrir a boca.
— Sim — à essa altura Annabeth já desviava o olhar e as bochechas ardiam como fogo.
— Dois então.
Quando o garçom se foi Percy não perdeu tempo.
— E você e James? — ele disparou.
— O que tem?
— Quero saber se estão juntos, não te vi mais pela minha casa, quase senti saudades.
— Porque esse interesse repentino em minha vida amorosa? — ela olhou pra baixo, as mãos entrelaçadas no colo — Sua namorada não ficaria nada feliz. Eu sei que eu não ficaria, se você fosse meu namorado.
Percy levantou as mãos em sinal de defesa.
— Pergunto como amigo. Vi meu colega chorando pelos cantos e fiquei preocupado.
Annabeth esboçou um leve sorriso, o suficiente pra fazer Percy gaguejar pelos próximos minutos — E não se preocupe, nem os Windsor tem espiões nessa parte da cidade.
— A verdade é que não fomos de fato um casal — ela admitiu e o fuzilou com o olhar — Já faz um tempo… que eu não namoro sério.
Percy sentiu esperança ao ouvir aquela frase — Quanto tempo?
— Namoro sério, sério… acho que uns três anos.
Percy ficou surpreso. Não que ele fosse um namorador nato, mas três anos eram muita coisa — Te falta prática.
— Diferente de você, seu safado… — o garçom voltou com o expresso martini de Annabeth e o negroni de Percy.
— Se estivermos falando exclusivamente de NAMORADA, tenho tanta prática quanto você — pela primeira vez Percy baixou o olhar e adimitiu vergonhoso — Depois de você, só namorei a Scarlet…
Annabeth estava incrédula. Ela praticamente bebeu todo o martini de uma só vez — Só ela já é o suficiente, imagino — ela deu uma risada sincera.
— Acredite quando digo que sim. E você? Esse seu namoro ia pro altar ou foi algo passageiro?
Foi a vez de Percy virar o copo de negroni.
— Pior que ia… — ela foi sincera e sustentou o olhar preocupado de Percy — Mas faltava algo… não sei explicar, cheguei a ser noiva por seis meses.
Percy prendeu a respiração. O estômago dele revirou e o negroni quase voltou pelo caminho errado — Difícil te imaginar vestida de branco — e não ser eu te esperando no altar, ele completou mentalmente.
— Parece que foi a uma vida inteira atrás — ela fitou as outras mesas, numa delas um casal rindo juntos, algumas pessoas sozinhas.
Percy estava reunindo coragem para perguntar o que vinha a seguir — O que faltou?
— Nem eu sabia explicar… sinto que decepcionei a todos, pois era uma relação sólida, transparente — ela engoliu em seco.
— Ainda bem — Percy disparou sem rodeios — Do contrário não estaríamos aqui nesta mesa… nesse exato momento.
Annabeth ainda assim suspirou — Eu o magoei, fui muito egoísta. Esse papo de “não era pra acontecer” de nada me adianta.
— Pra mim adianta — Percy seguiu o olhar dela até o casal apaixonado a duas mesas de distância — Estou muito feliz de você estar aqui, não achei que a vida me daria novamente essa chance.
Percy mexeu nos bolsos da calça e de lá retirou a carteira. Dentro, amassada e com as pontas gastas estava a foto daquele fatídico dia vinte e cinco. Onze anos separavam a singela polaroid daquele momento. O tempo pareceu se alongar enquanto Percy deslizava a foto pela mesa até chegar próximo a mão de Annabeth.
Os olhos de Annabeth marejaram por um instante. Ela pegou a foto com a mão trêmula.
— Todos esses anos… Percy — a voz dela à essa altura já estava uma oitava acima.
Na parte de traz da foto vinham os dizeres quase desaparecendo pelo poder do tempo. “Feliz natal Anabeth, quero passar muitos deles com você. Com amor, Percy”
Era golpe baixo até pra ele.
Annabeth pegou a foto com violência e levantou-se abruptamente da mesa. Ela não fez questão de dizer uma palavra, tampouco se despediu de Percy. Annabeth saiu correndo do restaurante como se tivessem soado o alarme de incêndio.
Naquela noite Annabeth não dormiu na cobertura em Chelsea. Percy chegou a procurar pela mulher no centro de Londres, mas não se atreveu a incomodá-la em seu apartamento em Greenwich. Se é que ela estaria lá, também.
Ele voltou andando até a cobertura, nem táxi chamou. Precisava se desfazer de toda a adrenalina e coragem que o momento exigiu. Nem quando Percy defendeu sua tese de mestrado sentiu tanta adrenalina bruta. O fogo que ardia dentro de seu peito fazia até fumaça sair dos cabelos, pois aquele era o gesto de amor mais genuíno que ele havia demonstrado desde o colegial.
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