As Desventuras e Romances de Percabeth
73 22 – Distâncias e reencontros
Notas iniciais
22 – Distâncias e reencontros
O jardim dos Ashcombe ainda estava fresco na memória de Percy três dias depois, e era exatamente por isso que ele evitava, com um cuidado quase cirúrgico, qualquer corredor de Balliol onde pudesse esbarrar em Annabeth sem aviso.
Não adiantou.
Ela o encontrou na quarta-feira de manhã, no mesmo átrio interno de sempre, só que dessa vez não estava sentada na mureta de pedra à espera de ninguém — estava de pé, o casaco de couro marrom puído jogado por cima de uma blusa amarela com a corujinha bordada no peito, os jeans rasgados no joelho e um cachecol emprestado, cinza, que definitivamente não combinava com o resto do conjunto, mas que ela usava como se fosse parte do figurino desde sempre. A faixa cinza de sempre prendia a franja para trás, e ela tinha os braços cruzados com uma firmeza que Percy reconheceu de longe como decisão já tomada.
— Precisamos conversar — ela disse, sem preâmbulo.
— Isso nunca é um bom começo.
— Não vou fazer aquilo de novo — ela continuou, ignorando o comentário — O que aconteceu no brunch. As farpas, a Scarlet, todo mundo olhando. Não vou.
Percy ajeitou a alça da bolsa no ombro, ganhando tempo.
— Achei que vocês duas tivessem se saído bem. No sentido de ninguém ter puxado faca.
— Percy — ela apertou os olhos, a franja caindo levemente sobre eles antes que ela a empurrasse de volta com um gesto automático — Estou falando sério. Aquilo foi humilhante. Pra mim, pra ela, provavelmente pra você também, só que você é bom demais fingindo que humilhação escorrega.
Ele não respondeu de imediato. Os Ray-Ban Wayfarer pendiam na gola da camisa, uma social azul-marinho meio amassada que ele nunca se dava ao trabalho de passar direito, mangas arregaçadas revelando as tatuagens do antebraço.
— Então o que você está sugerindo?
— Que a gente pare — ela disse, simples assim — De se esbarrar por acaso. Sem aparecer em eventos que não são meus, de qualquer coisa que pareça, de longe, parecido com o que estava acontecendo antes da Turquia.
— Achei que já tínhamos concordado com isso.
— Concordamos — Annabeth respondeu, a voz um pouco mais baixa agora — E aí eu apareci na casa da sua mãe e passeio o sábado inteiro lá. Depois viajamos juntos por três semanas e fugimos sozinhos pra você fazer seu “estudo complementar” e me levar pra almoçar. Como se fôssemos adolescentes…
Ele sentiu o peso exato daquilo. Era difícil discordar.
— Tudo bem — ele disse, por fim — Sem mais átrios por acaso — Percy fez um gesto entre os dois.
— Sem mais nada por acaso — ela corrigiu, e havia algo definitivo no jeito como ela ajeitou o cachecol e se afastou, sem esperar resposta, o casaco de couro balançando pelo corredor até desaparecer na esquina.
Percy ficou parado ali um bom tempo, olhando para o jardim cercado, os arcos abertos, o mesmo lugar onde semanas atrás ela tinha dito que sentia falta de ficar quieta ao lado dele sem fingir nada. Achou irônico. Ou talvez só triste.
***
Scarlet percebeu antes mesmo de ele admitir — como sempre.
Foi na sexta, num jantar que Percy tinha cancelado duas vezes seguidas sob pretextos cada vez mais frágeis, que ela finalmente o encurralou, literalmente, contra a porta do próprio apartamento, o casaco bege ainda sobre os ombros, as luvas de couro claro ainda calçadas, como se tivesse vindo direto de algum compromisso.
— Você está me evitando — ela disse, sem rodeios, tirando as luvas dedo por dedo com uma calma estudada que Percy reconhecia como perigosa.
— Não estou.
— Cancelou quinta. Cancelou terça. E hoje só abriu a porta porque eu bati três vezes e ameacei usar a chave reserva que você nem sabe que eu tenho.
Percy passou a mão pelos cabelos, sem saber bem o que dizer. Ainda estava com a camiseta cinza da Nike SB que usara mais cedo para correr no Green Park, o suor já seco, os Janoski largados perto da porta.
— Foi uma semana cheia.
— Foi uma semana em que você evitou meu olhar em três ocasiões diferentes, Jackson — Scarlet entrou sem esperar convite, o salto batendo firme contra o piso de madeira — E eu passei os últimos dias tentando decidir se isso é sobre o brunch, sobre sua colega americana, ou sobre isso — ela tirou da bolsa um envelope de papel grosso, cor de marfim, e o estendeu para ele.
O estômago de Percy gelou instantaneamente. Reconheceu o papel antes mesmo de tocá-lo.
— O que é isso?
— Minha mãe pediu pra eu te entregar — Scarlet respondeu, tirando o casaco e jogando-o displicente sobre o braço do sofá, sem prestar atenção na palidez repentina dele — Ela disse que preferia algo mais formal do que mandar pelo correio, então aqui está, entregue em mãos pela própria filha, um pombo-correio de luxo.
Percy virou o envelope entre os dedos. O lacre de cera vermelha, o brasão do leão e das espadas cruzadas — idêntico aos outros dois guardados na gaveta da escrivaninha. As mãos dele tremeram de leve ao quebrar o lacre.
Não havia ameaça nenhuma dessa vez.
"Sr. Jackson,
Espero que aceite este convite com o mesmo espírito com que é feito. Edmund e eu estaremos em nossa propriedade em Bristol no próximo fim de semana, e gostaríamos muito de recebê-lo lá, junto com Scarlet, para alguns dias de descanso antes que o inverno torne qualquer viagem menos agradável. É uma casa antiga, cheia de história — imagino que um historiador aprecie esse tipo de detalhe mais do que a maioria dos nossos convidados. Trago também o Reitor Crawford e a esposa, então o senhor não estará entre estranhos.
Aguardo confirmação.
Mary Windsor."
Percy releu a carta duas vezes, esperando encontrar alguma segunda camada, alguma ameaça disfarçada de gentileza, do jeito que as outras duas vinham. Não encontrou nada. Só um convite. Formal, educado, genuinamente hospitaleiro.
— E então? — Scarlet perguntou, já se servindo de um copo de água na cozinha, sem prestar atenção real na expressão dele — Minha mãe geralmente não convida ninguém pra Bristol. Isso é praticamente uma bênção papal, Jackson, espero que você entenda a raridade disso.
— Sua mãe nunca me convidou pra nada.
— Exatamente meu ponto — Scarlet voltou para a sala, se sentando no braço do sofá — Ela deve estar tentando ser gentil desde aquele comentário no brunch. Talvez tenha se sentido culpada. Ou talvez só esteja entediada e precise de alguém novo pra impressionar com a propriedade de Bristol. Nunca sei ao certo o que se passa na cabeça dela.
Percy olhou para a carta na mão, depois para Scarlet, e então ele refletiu em silêncio uns segundos se a autoria de Mary estivesse restrita a essa carta ou se as outras ameaçadoras que ele vinha recebendo eram mesmo do Barão ou de sua esposa.
— Isso te parece estranho? — ele arriscou, tentando soar casual.
Scarlet ergueu uma sobrancelha, genuinamente confusa com a pergunta.
— Estranho como? Minha mãe sendo hospitaleira? Ela é insuportável, Percy, mas raramente é rude sem motivo. Se ela te convidou, é porque decidiu que talvez você não seja um desastre completo, afinal. Devia ficar lisonjeado, não desconfiado.
Ele quase riu da ironia. Se ela soubesse das outras duas cartas, do brasão idêntico, das ameaças educadas guardadas na mesma gaveta onde aquele convite acabaria indo parar — talvez visse a coisa de outro jeito. Mas contar significaria admitir que vinha escondendo havia semanas, e havia coisas demais em jogo para arriscar isso agora.
— Vou confirmar presença — ele disse, por fim, dobrando a carta com um cuidado que não condizia com o tom leve da voz.
— Ótimo — Scarlet se levantou, satisfeita, pegando o casaco de volta — Porque eu já disse que sim por você. Bristol, sexta que vem. Leve algo quente pra vestir, a casa é gelada mesmo com lareira em cada cômodo.
Ela saiu sem beijá-lo dessa vez, distraída demais com os próprios planos para notar o jeito como Percy ficou parado, o envelope ainda entre os dedos, tentando entender por que um convite tão inofensivo conseguia deixá-lo mais inquieto do que qualquer ameaça explícita jamais tinha conseguido.
Scarlet bateu a porta largando Percy e o convite formal escrito à mão na soleira.
No caminho até a cozinha ele viu James. Ao ver o guitarrista da No Name ele notou que não era o único a estar afastado de Annabeth. Desde a viagem da Turquia ele não viu mais a loira andando descalça vestindo alguma camisa de James circulando pela cobertura.
Não que James fosse do tipo que fazia drama — nunca tinha sido, desde que se juntara à banda substituindo o antigo guitarrista, o tipo quieto que preferia deixar os amplificadores falarem por ele — mas havia semanas que o quarto ao lado do de Percy permanecia com a porta fechada boa parte do tempo, sem o barulho costumeiro de Annabeth revirando gavetas ou deixando a torradeira ligada por engano.
— E você? Não é possível que sou só eu que escolho mulheres de personalidade forte. Cadê Annabeth? — Percy comentou, meio de passagem, enquanto abria a geladeira pra servir um suco de laranja após corre 5km.
James deu de ombros, os olhos ainda na tela do celular. Ele estava sentado no balcão da ilha da cozinha.
— Não vem mesmo.
— Vocês brigaram?
— Não exatamente — James pegou a cerveja na mesinha, girando a garrafa entre os dedos antes de responder de verdade — A gente só... parou. Sem drama, sem discussão. Ela ficou mais distante, eu também fiquei, e num certo momento os dois perceberam que já não tinha muito o que segurar aquilo junto.
Grover, que estava esparramado no sofá da sala, ergueu as sobrancelhas por cima do prato de pizza.
— Isso é meio deprimente pra se ouvir enquanto se assiste um jogo da Premier League.
Percy sentiu algo apertar no peito que preferia não examinar de perto.
— Por minha causa? — ele perguntou a James, ignorando o comentário de Grover.
James finalmente desviou os olhos da tela, encarando Percy com uma expressão que misturava cansaço e uma pontada de diversão.
— Cara, nem tudo é sobre você.
— Não estou dizendo que é.
James riu, um som curto — Olha, a Annabeth e eu nunca fomos aquele tipo de casal que precisa de motivo grande pra esfriar. A gente começou meio por conveniência, ela precisava de um lugar em Londres pros fins de semana, eu gostava da companhia. Foi bom enquanto foi. Mas ultimamente ela anda mais fechada, mais sozinha, e eu não sei se isso tem a ver com você, com a família dela, ou com qualquer outra coisa que ela decidiu não me contar.
Percy ficou em silêncio, absorvendo aquilo. Era estranho — durante semanas ele tinha carregado a certeza confortável de que o afastamento de Annabeth da cobertura era sobre ele, sobre o pedido dela no átrio, sobre o teatro inteiro que os dois tinham decidido encerrar. Descobrir que talvez não fosse assim, que havia uma versão inteira da vida dela que ele simplesmente não via mais, doía de um jeito diferente.
— Ela está bem? — ele perguntou, por fim.
James deu de ombros de novo, voltando a atenção para a tela.
— Pergunta pra ela. Não sou mais eu quem sabe essas coisas.
***
A mensagem chegou na quinta à noite, o nome na tela do celular fazendo Annabeth parar no meio do corredor apertado do apartamento em Greenwich, o saco de compras ainda pendurado no braço.
Thalia Grace.
"Chase. Juniper e eu compramos passagem pra Londres. Semana que vem. Não aceita não como resposta."
Annabeth ligou de volta imediatamente, o coração batendo mais rápido do que deveria por uma notícia tão simples.
— Vocês estão brincando — foi a primeira coisa que ela disse, um misto de risada e surpresa genuína.
— Não estamos — a voz de Thalia soou do outro lado, exatamente como Annabeth lembrava, ríspida e afetuosa ao mesmo tempo — Juniper decidiu que já tinha esperado tempo suficiente pra ver esse apartamento chique que você tem em Greenwich, e eu decidi que preciso urgentemente ver sua cara de sofrimento reprimido em pessoa, porque por telefone não dá pra confirmar direito.
— Eu não tenho cara de sofrimento reprimido.
— Você sempre tem, Chase. É basicamente sua expressão de descanso.
Annabeth riu, um som real, o primeiro em dias.
— E onde vocês vão ficar?
— Com você, ué. Não procurei hotel nenhum, presumi que você tivesse sofá.
— Tenho sofá-cama e um colchão de ar bem duvidoso, mas topo.
— Perfeito. Preparamos as malas.
O apartamento em Greenwich, pequeno o bastante para caber inteiro numa fotografia, ganhou uma vida completamente nova na noite em que Thalia e Juniper chegaram, malas amontoadas no corredor estreito, risadas altas demais para o tamanho do lugar.
— Isso aqui é do tamanho do meu closet de Nova York — Thalia comentou, se jogando no sofá-cama já armado, o colchão rangendo sob o peso — Chase, você trocou uma cobertura chique por isso?
— Nunca tive cobertura nenhuma, Thalia.
— E aquele guitarrista lindo que eu vi nos seus stories do Instagram?
— Continua lá, ele divide a cobertura com o resto dos meninos.
Juniper, sentada no chão com as costas apoiadas no sofá, folheava distraidamente um livro que encontrara na estante improvisada.
— É aconchegante — ela disse, o tom genuíno o bastante para Annabeth sorrir — Combina com você.
Passaram os dois primeiros dias assim — cafés da manhã apertados na cozinha minúscula, passeios por Greenwich, Thalia insistindo em fotografar cada esquina "pra fazer inveja em Nova York", Juniper perguntando timidamente sobre Balliol, sobre Oxford, sobre a vida que Annabeth tinha construído do outro lado do oceano.
Foi na terceira noite, depois de um jantar improvisado de macarrão instantâneo e vinho barato comprado na loja da esquina, que o celular de Annabeth vibrou.
Luke Castellan.
Ela hesitou antes de atender, ainda sem costume de ouvir aquele nome depois de tanto tempo.
— Oi?
— Chase — a voz de Luke soou do outro lado, quase animada demais — Soube que você tem duas refugiadas americanas dormindo num sofá-cama que definitivamente não aguenta o peso de três pessoas discutindo até tarde.
— Como você sabe disso?
— Nico. Ele sabe de tudo, é perturbador — uma pausa — Olha, aqui na cobertura tem dois quartos vazios agora. O James foi visitar a família em Manchester, deve voltar só semana que vem, e o Percy tá viajando, então o quarto dele também tá livre. Convida suas amigas pra ficarem aqui. É maior, tem chuveiro de verdade, e eu prometo me comportar.
Annabeth cobriu o bocal do celular, repetindo a proposta em voz alta. Thalia ergueu uma sobrancelha, Juniper corou visivelmente.
— Ele quer que a gente fique lá com ele — Annabeth resumiu.
— Com o Luke — Thalia repetiu, sem esconder o quanto a ideia a divertia — E o Grover.
— E o Grover — Juniper confirmou, baixinho.
— Isso vai ser um desastre — Thalia declarou, já se levantando pra procurar a mala — Um desastre e tanto. Bora.
***
A cobertura em Chelsea nunca tinha parecido tão cheia quanto naquela sexta-feira à noite, o som de vozes ecoando pelo corredor, risadas se sobrepondo à música baixa que vinha da sala.
Thalia entrou primeiro, deixando a mala cair no chão do hall de entrada com um baque, ainda com aquele estilo punk que nunca tinha realmente saído de moda nela — jaqueta de couro preta, botas pesadas, os cabelos negros curtos com uma mecha azul elétrico que definitivamente não estava lá da última vez que alguém ali a vira.
— Grace — Luke apareceu no corredor, parando abruptamente ao vê-la, o queixo quase caindo — Você está... aqui.
— Estou — Thalia cruzou os braços, o queixo erguido numa provocação silenciosa — Foi você quem convidou, um pouco tarde pra parecer surpreso.
— Uma coisa é convidar, outra é ver acontecendo.
— Se arrependeu?
— Nem um pouco — ele respondeu rápido demais, e os dois ficaram parados no corredor por um segundo longo demais, o tipo de silêncio que carregava anos de coisas não resolvidas.
Juniper entrou logo depois, mais suave no jeito de se vestir, uma blusa verde-oliva estampada com folhas, os cabelos castanhos ondulados soltos, o mesmo sorriso tímido de sempre que escondia uma teimosia enorme por trás. Ela parou na porta da sala assim que viu Grover largado no sofá, os pés em cima da mesinha de centro.
— Juniper — ele engasgou com o próprio refrigerante, se sentando reto na hora.
— Oi, Grover — ela disse, o tom deliberadamente calmo, embora as bochechas tivessem corado de leve.
— Vocês vão ficar aqui?
— Aparentemente — Juniper deu de ombros, olhando ao redor do apartamento com um misto de curiosidade e desconfiança — É bem maior do que Annabeth disse.
— É o suficiente pra fugir de conversas constrangedoras, se for o caso — Nico comentou da cozinha, aparecendo com uma taça de vinho, claramente se divertindo com a cena.
Annabeth, sentada no braço do sofá com a própria mala ainda ao lado — decidira ficar também, já que os quartos vazios sobravam de qualquer forma —, observava tudo com um sorriso que insistia em crescer mais do que ela pretendia. Era estranho — bom estranho — ver aquele pedaço específico do passado se materializar ali, no meio da cobertura panorâmica com vista pro Tâmisa, tão distante de tudo que aquele apartamento normalmente representava para ela.
— Isso vai ser uma boa semana — Thalia declarou, se jogando no sofá ao lado de Annabeth, o cotovelo cutucando de leve as costelas dela — Ou o pior desastre que já vivemos. Ainda não decidi qual.
— Provavelmente as duas coisas — Annabeth respondeu, rindo.
Percy soube da visita através de um post nas redes. Maldita hora pra checar o celular, timing perfeito.
Estava sentado na sala de estar da propriedade dos Windsor em Bristol havia pouco mais de uma hora, o fogo crepitando na lareira enorme, uma xícara de chá esfriando intocada na mesinha ao lado, o Reitor Crawford discutindo animadamente com o barão sobre algum escândalo político que Percy só entendia pela metade. Scarlet estava ao seu lado, ela vestia nada além de calça e blusa de moletom cinzas e pantufas de lã.
O celular vibrou no bolso do blazer. Era Nico.
"Cara, seu quarto virou hotel enquanto você tá fora. Luke convidou a Thalia e a Juniper pra ficarem aqui já que o James viajou e você também. THALIA GRACE, cara, a ex do Luke. Ele tá surtando, finge que não mas surta. Grover surtando com a Juniper também. Você tá perdendo o melhor evento do ano, e ainda por cima na sua própria casa."
Percy releu a mensagem três vezes, sentindo algo se contorcer no peito de um jeito que não tinha nada a ver com o chá frio ou com o barão observando-o do outro lado da sala com aquele desprezo de sempre.
Annabeth. Thalia. Juniper. No seu próprio quarto, na sua própria cobertura, rindo com Nico e Luke e Grover — pessoas que Percy não via de verdade, sem a máscara de professor ou de namorado de aparências, desde o colegial. E ele, preso ali, numa sala imensa e gelada mesmo com a lareira acesa, ouvindo uma condessa qualquer comentar pela terceira vez sobre a decoração georgiana do teto.
— Algum problema? — Scarlet perguntou baixinho, notando a mudança na postura dele.
— Não — ele mentiu, guardando o celular no bolso com mais força do que precisava — Nada.
Mas era mentira, e ele sabia disso com uma clareza incômoda. Queria estar lá. Queria ver Thalia debochando de Luke, queria ver Juniper fingindo indiferença por Grover, queria dormir na própria cama sabendo que do outro lado da parede havia gente rindo de piadas antigas que só faziam sentido pra quem tinha passado pelos mesmos corredores da Thames Valley anos atrás — em vez de acordar no dia seguinte pra mais um café da manhã protocolar com talheres de prata e um barão medindo cada palavra que ele dizia.
— Jackson — o barão o chamou do outro lado da sala, a voz seca de sempre — Direi que sua expressão de tédio está mais evidente do que qualquer comentário que eu pudesse fazer a respeito.
— Desculpe, senhor. Só um pouco cansado da viagem.
— Certamente — o barão respondeu, sem acreditar em uma palavra, e voltou a atenção para Crawford, deixando Percy sozinho com o próprio celular guardado no bolso, o peso da mensagem de Nico ainda pulsando como um lembrete de tudo que ele estava perdendo a quilômetros dali, na própria casa que, por uma semana, deixaria de ser sua.
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