19 – Dois Mundos


A semana seguinte passou de um jeito estranho. Nas vezes em que Annabeth precisou passar pela cobertura em Chelsea Percy parecia ter desenvolvido um talento novo para desaparecer assim que ela entrava. Saía apressado pra ir correr sem dirigir um olhar sequer a ela; ou simplesmente sumia pro próprio quarto sem dizer mais que um aceno. Quando os caminhos deles inevitavelmente se cruzavam, as respostas dele vinham curtas, educadas, e completamente vazias de qualquer coisa que lembrasse a facilidade de antes.


Ela tinha visto Scarlet sair da cobertura numa dessas noites, um vestido impecável demais para qualquer jantar comum, o tipo de peça que Annabeth só reconhecia de revista — e soube, sem precisar perguntar, que aquilo tinha a ver com o mundo específico de compromissos, sobrenomes e aparências que a britânica carregava e que Annabeth nunca fazia questão de entender direito.



***


— Você ainda é meu orientador — ela tinha lembrado a Percy na sexta-feira, ao esbarrar nele saindo apressado da cozinha — Isso não muda só porque você decidiu.


— Eu sei — ele respondeu, sem parar de andar — Marca um horário com a secretaria do departamento. Eu confirmo.


Ela não marcou nada. E ele não confirmou nada. E assim a semana inteira passou naquele equilíbrio estranho de evitação mútua e educada, até que chegou o sábado.


Annabeth acordou cedo demais na cobertura, o colchão do lado de James ainda quente, a luz do dia entrando em ângulo pelas cortinas que ele nunca se lembrava de fechar direito. Ficava ali, no quarto dele, só nos fins de semana — durante a semana preferia o próprio apartamento alugado em Greenwich, pequeno o suficiente para caber numa mala se precisasse, mas que era só dela, sem coberturas panorâmicas nem corredores sem porta separando quartos que guardavam histórias complicadas demais. Ficou deitada por um tempo olhando o teto — um teto que não era o dela, mesmo depois de tantos sábados — antes de decidir que continuar ali só ia dar tempo pra mente repassar a semana inteira de silêncios pela centésima vez.


Ela se levantou, vestiu a calça jeans que tinha deixado jogada numa cadeira na noite anterior e uma blusa qualquer tirada da pequena mala de fim de semana que já nem se dava mais ao trabalho de desfazer direito, e foi até a cozinha atrás de café. Foi só ao virar o corredor que viu Percy, já vestido, os cabelos ainda molhados do banho, mexendo em algo na tela do celular encostado na bancada.


Ela parou um instante, o suficiente pra recompor a expressão antes que ele erguesse os olhos.


— Bom dia — ela disse, o tom deliberadamente leve, quase performático de tão neutro.


— Bom dia — ele respondeu, sem erguer os olhos do celular.


Não houve mais nada. Nenhuma piada, nenhum comentário sobre aquela conversa, nenhuma referência ao que quer que fosse aquilo que os dois tinham decidido, juntos, que precisava parar. Annabeth serviu o café numa caneca qualquer, tomou um gole rápido demais pra estar quente o suficiente, e saiu pela porta antes que o silêncio entre eles esticasse além do suportável.


Foi só no elevador, sozinha, que ela permitiu o rosto relaxar na careta que vinha segurando desde que abriu os olhos.


***


O metrô até Stratford levava pouco mais de vinte minutos partindo de Sloane Square, mas Annabeth sempre sentia que a distância era medida em outra coisa além de estações.


Chelsea ficava para trás com suas fachadas brancas impecáveis e suas floriculturas que vendiam buquês mais caros que o aluguel mensal do quarto que ela tinha em Oxford, e o metrô ia soltando aquele mundo aos poucos, como quem tira camadas de verniz, até que Stratford aparecia do outro lado — mais barulhento, mais rápido, mais parecido com qualquer lugar que ela já tivesse morado antes de conhecer o Percy.


O shopping de Westfield City era enorme o bastante para engolir multidões inteiras sem parecer cheio. Famílias empurrando carrinhos de bebê, adolescentes de uniforme escolar rindo alto demais perto das lojas de tênis, um grupo de senhoras discutindo preços de tecido perto da entrada de uma loja de departamento.


Ela precisava de material de desenho técnico para o levantamento da Cária — um caderno específico, papel vegetal, um jogo de nanquim que a papelaria de Oxford sempre insistia em não ter em estoque —, e tinha decidido, meio sem pensar direito, que preferia resolver isso longe de qualquer coisa que lembrasse Balliol, seu ex ou coberturas com vista pro Tâmisa.


Estava saindo da papelaria, o saco de papel pardo balançando contra a perna, quando ouviu a voz.


— Você é muito bonita.


Annabeth baixou os olhos e encontrou uma menina pequena, uns sete anos talvez, os cabelos pretos presos em duas maria-chiquinhas desalinhadas, encarando-a com a seriedade solene que só crianças conseguem sustentar sem parecer ridículas.


— Ah — Annabeth piscou, pega de surpresa — Obrigada?


— Lilian! — uma voz feminina chamou, próxima o suficiente para fazer Annabeth erguer a cabeça.


E foi aí que o chão pareceu se mover um pouco debaixo dela.


Sally Jackson estava parada a poucos passos, uma sacola de compras pendurada num braço, o rosto ainda com aquela mistura de cansaço bom e alerta materno que Annabeth lembrava vagamente de anos atrás — de uma época em que ela mesma tinha menos de vinte anos e menos motivos pra prestar atenção em detalhes assim.


— Me desculpe — Sally disse, se aproximando e pousando a mão no ombro da filha — Ela conversa com estranhos como se fossem todos amigos antigos. Espero que não tenha incomodado.


— Não, imagina — Annabeth conseguiu, a voz saindo mais controlada do que ela se sentia por dentro — Ela só... elogiou.


Sally sorriu, mas o sorriso morreu devagar enquanto ela observava Annabeth com mais atenção do que a situação exigia. Alguma coisa se acendeu por trás dos olhos dela — reconhecimento, talvez, ou só o eco distante de uma memória tentando se encaixar.


— Você... — Sally começou, hesitante — Me desculpe se estou enganada, mas você não é a Annabeth? Annabeth Chase?


O estômago de Annabeth deu um nó rápido.


— Sou.


— Eu sabia — Sally sorriu de novo, dessa vez com mais convicção, algo genuinamente caloroso substituindo a hesitação — Daquela viagem. Você apareceu no JFK, lembro perfeitamente, o Percy quase teve um troço quando te viu com aquela touca rosa.


— A touca não era ridícula — Annabeth respondeu antes de conseguir se conter, e Sally riu, um som fácil e sincero que fez alguma coisa apertar no peito de Annabeth de um jeito que ela preferia ignorar.


— Ele te caçoa sobre a touca? — Sally perguntou, ainda rindo.


— Ele nunca esqueceu a touca — Annabeth admitiu, e por um segundo o próprio comentário a pegou de surpresa, o tanto de intimidade que aquela frase carregava sem ela ter planejado.


Lilian, entediada com a conversa de adultos, puxou a barra da blusa da mãe.


— Ela parece com a Elsa — a menina anunciou, como se estivesse resolvendo um enigma importante — Cabelão dourado.


— Lily — Sally repreendeu de leve, mas havia um brilho nos olhos dela que desmentia qualquer seriedade na correção.


— Que honra — Annabeth disse fazendo uma mesura educada.


Houve um silêncio breve, do tipo que carrega algo mais do que qualquer frase completa poderia. Sally olhava para Annabeth com a atenção específica de alguém somando datas e contando quanto tempo havia desde aquela viagem.


— Como você está, querida? — Sally perguntou por fim, a pergunta carregando um peso que ia muito além da cortesia básica — De verdade.


Annabeth abriu a boca para responder algo automático — Bem, ocupada, cansada da viagem, qualquer coisa que servisse de resposta educada — mas algo na expressão de Sally, aquela mistura de curiosidade e cuidado genuíno, fez as palavras certas simplesmente não aparecerem a tempo.


— Estou bem — ela disse, tarde demais para soar completamente convincente.


Sally não insistiu. Apenas assentiu devagar, do jeito de quem decide guardar uma informação para mais tarde em vez de forçar uma resposta que ainda não estava pronta para existir.


— Bom, foi muito bom te ver de novo — Sally disse, ajeitando a sacola no braço — Você devia aparecer lá em casa outro dia, o Percy sempre fala tão pouco sobre a vida pessoal dele que qualquer visita vira acontecimento.


— Eu... — Annabeth começou, sem saber exatamente qual seria o fim daquela frase.


— Sem pressão nenhuma — Sally completou, sorrindo daquele jeito que parecia saber exatamente o efeito que a própria gentileza tinha — Só um convite.


Lilian acenou animadamente enquanto a mãe a puxava gentilmente pela mão, os dois se afastando em direção à praça de alimentação, e Annabeth ficou parada ali por mais um instante, o saco de papel pardo esquecido contra a perna, tentando entender por que um encontro tão simples tinha conseguido bagunçar mais coisas dentro dela.


***


Annabeth caminhou de volta até a estação sem prestar muita atenção nas vitrines que passava. Repetiu para si mesma, baixinho, quase como um mantra, a mesma frase que tinha dito ao Percy na cozinha da cobertura havia poucos dias — “só sobra bomba e destruição” — mas a frase, dessa vez, soou menos como uma verdade definitiva e mais como algo que ela repetia na esperança de que virasse verdade só de tanto repetir.


O celular vibrou no bolso do casaco quando ela já descia as escadas da estação. Uma mensagem na DM do Instagram dela de um perfil desconhecido. Ela clicou na foto de perfil e viu três crianças de cabelos pretos e uma Sally Jackson talvez 15 anos mais jovem.


"Foi um prazer te ver hoje. Espero que reconsidere o convite — Sally."


Annabeth ficou olhando para a tela por mais tempo do que deveria, o barulho do metrô chegando na plataforma abafando qualquer pensamento coerente que ela tentasse formar, e guardou o celular no bolso sem responder, sem apagar, e sem ter a menor ideia do que fazer com o nó que aquela mensagem tinha deixado no meio do peito.