As Desventuras e Romances de Percabeth
71 20 – Manhã de sábado
Notas iniciais
20 – Manhã de sábado
Annabeth releu a mensagem pela quinta vez antes de finalmente responder.
“Foi um prazer te ver hoje. Espero que reconsidere o convite — Sally.”
Ela tinha passado o resto da sexta-feira ignorando o celular de propósito, como se isso fizesse a mensagem desaparecer, ou pelo menos parar de pesar daquele jeito estranho no peito. Não fazia sentido nenhum. Era só um café da manhã. Era só a mãe de um homem que ela deveria estar deixando pra trás, e uma menininha de tranças desalinhadas que a tinha chamado de bonita no meio de um shopping.
Mesmo assim, no sábado de manhã, Annabeth se pegou em frente ao espelho do apartamento em Greenwich, mudando de blusa pela terceira vez.
— Isso é ridículo — ela murmurou para o próprio reflexo, a camisa cinza surrada do The Strokes quase desfazendo e mandou a mensagem antes que pudesse se arrepender.
“Que horas?”
A resposta veio rápido demais, quase como se Sally estivesse esperando com o celular na mão.
“8h. Não se preocupe com nada, só apareça.”
***
A casa em Rotherhithe era exatamente como Annabeth lembrava vagamente de anos atrás — estilo vitoriano, com uma varanda na frente inteira, cercada por vasos de flores que pareciam ali há gerações, o tipo de casa que parecia ter sido construída ao redor de quem morava nela, e não o contrário.
Ela tocou a campainha e ajeitou a alça da bolsa pela terceira vez, o mesmo gesto nervoso que fazia desde adolescente.
A porta se abriu antes que ela terminasse de se recompor.
— Você veio — Sally disse, o sorriso genuíno o bastante para fazer o nó no estômago de Annabeth relaxar um pouco.
— Eu quase não vim — Annabeth admitiu, e Sally riu, dando espaço para ela entrar.
— A maioria das coisas boas começa assim.
A casa cheirava a café e a alguma coisa assando no forno. Annabeth mal tinha tirado o casaco quando sentiu um impacto contra a perna.
— Você veio! — Lilian anunciou, já agarrada nela como se fossem amigas de longa data, e não duas pessoas que tinham se falado uma única vez, por cinco minutos, num shopping.
— Eu vim — Annabeth confirmou, meio sem jeito, olhando para Sally em busca de alguma instrução sobre o que fazer com uma criança tão decidida quanto aquela.
Sally só deu de ombros, o tipo de gesto que dizia “boa sorte, é assim mesmo”.
— Lily, deixa a Annabeth respirar antes de sequestrar ela — Sally disse, guiando as duas até a cozinha.
A mesa já estava posta — waffles, frutas cortadas, uma jarra de suco de laranja e uma cafeteira que parecia ter feito serviço extra naquela manhã. Annabeth se sentou onde Sally indicou, ainda se sentindo estranhamente uma intrusa, mesmo com a menina já puxando a cadeira ao lado dela.
— Você desenha? — Lilian perguntou, sem qualquer preâmbulo, os olhos castanhos brilhando de expectativa.
— Um pouco. Não sou muito boa.
— Mentira — a menina decretou, como se aquilo encerrasse qualquer discussão possível — Vou pegar meus lápis.
Ela saiu correndo antes que Annabeth pudesse protestar, e Sally riu baixinho, servindo café para as duas.
— Ela decidiu que gosta de você — Sally comentou — E quando ela decide isso, não tem muito o que fazer a respeito.
— Percebi.
— Ela puxou isso do irmão, aliás. Os dois são teimosos do mesmo jeito.
Annabeth sorriu, apesar de si mesma, tomando um gole de café só para ter algo pra fazer com as mãos.
Lilian voltou correndo, um bloco de desenho quase do tamanho dela debaixo do braço e uma caixa de lápis de cor que fazia barulho de chocalho a cada passo. Ela largou tudo na mesa entre os pratos, completamente indiferente à bagunça, e empurrou metade do material na direção de Annabeth.
— Você desenha o mar. Eu desenho o castelo.
Sally observou da bancada, uma xícara nas mãos, o tipo de sorriso silencioso que não pedia explicação nenhuma. Havia algo naquilo — a cozinha pequena, o barulho dos lápis riscando o papel, a filha mais nova completamente entregue àquela loura que mal conhecia — que a fazia querer se lembrar de cada detalhe daquela manhã, sem saber bem por quê.
Annabeth desenhou o mar de qualquer jeito, ondas tortas e um sol mal proporcionado no canto, e Lilian examinou o resultado com a seriedade de um crítico de arte.
— Está torto.
— Eu avisei que não era boa.
— Está torto mas está bonito — a menina emendou, como se aquilo fosse um veredito perfeitamente coerente, e voltou para o próprio castelo, a língua entre os dentes de tanta concentração.
Foi nesse instante exato que a porta da frente se abriu com um baque, e o barulho inconfundível de rodas de skate ecoou pelo corredor antes mesmo de qualquer voz.
— Mãe! Cadê o Tyson?
Annabeth congelou com o lápis no ar.
Sally, pelo contrário, nem se abalou.
— Cozinha, Percy — ela respondeu, num tom que sugeria que aquela era uma cena perfeitamente normal num sábado qualquer.
Annabeth ouviu o som do Skate sendo largado em algum lugar contra a parede, e então Percy apareceu no vão da porta da cozinha, o cabelo bagunçado, uma camiseta cinza da Nike SB meio suada e os Ray-Ban Wayfarer pendurados na gola.
Quando ele pôs os olhos em Annabeth ela viu a expressão mais confusa que já tinha visto no rosto dele.
— O que — ele começou, olhando de Annabeth para a mãe e de volta para Annabeth, como se esperasse que a cena se reorganizasse sozinha até fazer sentido — o que você está fazendo aqui?
— Desenhando um castelo — Lilian respondeu antes que Annabeth pudesse abrir a boca, sem tirar os olhos do próprio papel — Ela desenha mal.
— Obrigada, Lily.
— É verdade.
Percy continuava parado no vão da porta, um braço apoiado no batente, as tatuagens do antebraço aparecendo por baixo da manga curta da camiseta. Ele parecia estar processando informação demais de uma vez só, e Annabeth teve a satisfação mesquinha de vê-lo, pela primeira vez em semanas, completamente sem uma resposta pronta.
— Sua mãe convidou — Annabeth explicou, tentando soar mais casual do que se sentia — Encontrei ela e a Lily no shopping semana passada.
— Ela disse que ia pensar — Sally comentou, um brilho de satisfação nos olhos que ela não fez qualquer esforço para esconder — Que bom que pensou bem.
Percy ainda não tinha se mexido do lugar. Annabeth podia praticamente ver as engrenagens girando atrás daqueles olhos verdes, tentando decidir se aquilo era coincidência, armação, ou as duas coisas ao mesmo tempo.
Foi nesse momento que outra pessoa apareceu atrás dele no corredor, um rapaz alto, ombros largos e cabelos escuros. Ele levava um Skate debaixo do braço e um sorriso fácil no rosto que sugeria zero consciência da tensão que acabara de se instalar na cozinha.
— Cara, você trava mais que meu computador quando… — Tyson parou ao ver Annabeth, ergueu as sobrancelhas, e olhou para Percy com um interesse repentino demais — Ah. Entendi. Continua travado, só que agora eu sei o motivo.
— Cala a boca, Ty.
— Eu nem disse nada.
— Nos poupou, então.
Tyson só riu, passando por Percy sem cerimônia e se jogando numa cadeira vazia perto de Lilian, roubando um pedaço de waffle do prato da irmã antes que ela pudesse protestar de verdade.
— Dezoito anos daqui a duas semanas e ainda rouba comida de criança — Sally comentou, balançando a cabeça, mas o orgulho na voz dela era impossível de disfarçar.
— Privilégio de irmão mais velho — Tyson respondeu, de boca cheia.
— Percy é o mais velho — Lilian corrigiu, sem erguer os olhos do castelo.
— Detalhes.
Percy finalmente se moveu, entrando na cozinha e pegando uma cadeira, mas sem se sentar de verdade — só apoiando os braços no encosto, como quem ainda não decidiu se vai ficar. Ele olhava para Annabeth com aquela curiosidade insuportável que ela conhecia bem demais, o tipo de olhar que sempre precedia uma pergunta que ela não tinha certeza se queria responder.
— Vocês combinaram isso — ele disse, mais afirmação do que pergunta.
— Não combinamos nada — Annabeth respondeu, cruzandbraços — Sua mãe mandou mensagem. Eu vim. Coincidência você aparecer justo agora.
— Eu venho aqui todo sábado andar de skate com o Tyson — ele disse, ainda desconfiado — Isso não é coincidência, isso é rotina.
— Já tem três sábados que você não aparece — Tyson respondeu com a boca cheia e piscou para Annabeth.
— Então o problema é meu, por vir num sábado.
— Eu não disse isso.
— Vocês sempre são assim? — Tyson perguntou, olhando entre os dois com um interesse que só aumentava — Porque é bem divertido de assistir.
— Cala a boca, Ty — os dois disseram ao mesmo tempo, e por uma fração de segundo, algo no rosto de Percy suavizou, quase um sorriso escapando antes que ele conseguisse controlar.
Sally observava tudo da bancada com aquela paciência de quem já assistiu aquela cena, de formas diferentes, ao longo de anos inteiros.
— Percy, já que está aqui — ela disse, servindo mais café numa caneca extra e empurrando na direção do filho — senta e come alguma coisa antes de sair correndo de novo. Paul já deve chegar.
Ele hesitou, os olhos ainda em Annabeth como se tentasse decidir se ficar seria uma péssima ideia ou a única ideia que fazia sentido naquela manhã. No fim, puxou a cadeira e se sentou, pegando um waffle com uma naturalidade que contradizia completamente a tensão nos ombros.
— Só porque tem waffle — ele murmurou, mais para si mesmo do que para qualquer outra pessoa.
Lilian aproveitou a distração para empurrar o bloco de desenho na direção dele.
— Faz o mar de novo. O da Annabeth ficou torto.
— Obrigada, Lily — Annabeth repetiu, sem conseguir esconder o sorriso dessa vez.
— Se você continuar vindo aqui em casa te ensino a desenhar — aquele pedido singelo fez Annabeth pensar em desenhar mais torto ainda, só para poder retornar àquela casa tão familiar e cheia de vida.
Percy pegou o lápis que a irmã estendeu, olhando de relance para o desenho torto de Annabeth antes de começar o próprio, e por um instante — só um instante, no meio do barulho de talheres e da voz animada de Tyson e Percy tagarelando sobre skate — ninguém ali parecia estar prestando atenção em quão estranho era aquilo tudo. Um café da manhã comum demais para as pessoas que estavam sentadas ao redor daquela mesa.
Sally trocou um olhar rápido com Annabeth por cima da cafeteira, o tipo de olhar que não precisava de nenhuma palavra para carregar significado, e voltou a mexer no fogão como se não tivesse acabado de testemunhar exatamente o que esperava testemunhar.
***
Lá pelas 10h os dois irmãos foram andando até a skatepark do bairro, os skates embaixo dos braços. Annabeth ficou na cozinha ajudando Sally a arrumar as coisas e recebeu o convite pra almoçar, ela estava tão atônita com tudo que respondeu um “sim” automático.
Percy e Tyson só retornaram do rolê quando a fome apertou e os estômagos começaram a roncar, os dois vieram remando no skate entre os poucos carros que transitavam naquele pacato bairro de Londres.
Foi só ao virar a esquina da rua da casa que Percy a viu.
Annabeth ainda estava em sua casa.
O coração dele falhou uma batida ao vê-la ao lado de sua mãe na varanda, numa daquelas cadeiras de vime desbotadas que Sally recusava a trocar havia anos, um livro aberto no colo que ela não parecia estar realmente lendo. Sally tinha o próprio livro numa mão e uma caneca na outra, e as duas pareciam completamente entregues àquele silêncio confortável, o tipo que só existe entre pessoas que já decidiram que gostam da companhia uma da outra.
Percy parou no meio da calçada por um segundo a mais do que devia.
Havia algo naquela cena — tão simples, tão comum, tão distante de qualquer coisa que ele tivesse com Scarlet, com Rosie, com qualquer uma das dúzias de pessoas que passaram pela cama dele nos últimos anos — que doía de um jeito que ele não sabia nomear direito. Ele se pegou imaginando, só por um instante, como seria se não houvesse Stanford, nem Oxford, nem o show de talentos, nem Matt, nem todas as cartas anônimas cheias de ameaças educadas guardadas na gaveta da escrivaninha. Só aquilo. Uma varanda, um livro, um sábado qualquer, e ela ali, sem pressa de ir embora.
— Você travou de novo — Tyson comentou baixinho, seguindo o olhar do irmão.
Percy não respondeu.
O almoço passou mais rápido do que Percy gostaria, a conversa de novo tomada pela empolgação de Lilian narrando o próprio desenho pedra por pedra, e Tyson insistindo em contar a queda no parque com detalhes cada vez mais exagerados a cada repetição. Annabeth ria de verdade, um som fácil que ele não ouvia daquele jeito havia semanas, e Percy passou boa parte da refeição só observando, sem conseguir parar.
Foi só quando os pratos já estavam sendo recolhidos que ele se ouviu falando antes de decidir falar.
— Eu posso te levar de volta, se quiser. Pro seu apartamento, digo.
Annabeth ergueu os olhos, surpresa e com as bochechas queimando, ela praguejou mentalmente antes de responder.
— Não precisa se incomodar.
— Não é incômodo — ele disse, e talvez tenha soado sério demais para o tom que pretendia usar, porque Sally, discretamente, escondeu um sorriso atrás da caneca.
— Tudo bem, então.
Annabeth agradeceu Sally imensamente. Estar em outro país sem família ou amigos não era fácil, e aquela casa era como um abraço quentinho numa manhã de chuva. Algo que só se dava valor quando tinha ou perdia.
A mãe de Percy insistiu pra que ela voltasse, Percy observava a cena como se ainda tivesse 17 anos, e algo naquele pedido insistente o deu a certeza de que aquela não era a última vez de Annabeth na casa do Rotherhithe.
***
O Porsche cortou as ruas de Rotherhithe em direção a Greenwich devagar, sem pressa nenhuma, o rádio ligado baixinho numa estação qualquer.
Annabeth olhava pela janela, o cotovelo apoiado na porta, o mesmo silêncio de sempre entre eles — só que dessa vez leve, sem o peso costumeiro que carregava havia semanas.
— Foi bom, hoje — ela disse por fim, ainda olhando pela janela.
— Foi.
— Sua mãe é incrível — ela sorriu travessa — Diferente de você, é claro.
— Ei! Os Jackson são famosos pela hospitalidade, mas ela tem mesmo esse efeito nas pessoas.
— E o Tyson é engraçado. E a Lilian é… — ela procurou a palavra certa, um meio sorriso aparecendo — Assustadoramente decidida, pra sete anos.
— Ela tirou isso de alguém.
— De quem?
— De mim, segundo minha mãe.
Annabeth riu, balançando a cabeça, e o silêncio voltou, mas ainda leve, ainda fácil.
Chegaram na porta do prédio dela mais rápido do que Percy gostaria. Ele desligou o motor sem realmente decidir fazer isso, só um reflexo, e nenhum dos dois se moveu para abrir a porta.
— Bom — Annabeth disse, olhando para as próprias mãos no colo — Obrigada pela carona.
Ela não se mexeu. Ele também não.
O silêncio se estendeu, diferente de todos os outros silêncios que os dois já tinham dividido — não constrangedor, não pesado, só cheio, do jeito que um cômodo fica cheio quando duas pessoas estão tentando não dizer a mesma coisa ao mesmo tempo. A luz da tarde entrava pelo para-brisa em ângulo, iluminando metade do rosto dela, e Percy se pegou olhando de um jeito que sabia que não devia, mas não conseguia parar.
— Percy — ela disse, baixinho, quase uma pergunta.
— Eu sei — ele respondeu, sem saber exatamente o que estava respondendo, só que parecia a coisa certa a dizer.
Ela sorriu, pequeno, cansado, real, e por um instante os dois só ficaram ali, sentados dentro do carro parado, nenhum dos dois se aproximando, nenhum dos dois se afastando, o tipo de momento que não precisava de mais nada além de existir.
— Boa noite, Jackson — ela disse por fim, abrindo a porta antes que qualquer um dos dois fizesse alguma coisa da qual não pudessem voltar atrás.
— Boa noite, Chase.
Ele ficou parado ali, o motor desligado, vendo ela entrar no prédio e a luz se acender numa janela do segundo andar, e só então percebeu que estava sorrindo sozinho dentro de um carro vazio, como um idiota.
Percy dirigiu de volta para Chelsea sem pressa nenhuma, as luzes de Londres começando a se acender contra o céu que escurecia devagar, e pela primeira vez em muito tempo, permitiu-se pensar numa pergunta que vinha evitando havia anos.
O celular dele já tinha 3 chamadas perdidas e 6 mensagens de Scarlet. Afinal, aquele sábado era pra ser apenas um encontro semanal com o irmão, e não passar o dia inteiro na casa da sua mãe junto da ex do colegial.
Será que Oxford, Balliol, o Camboja, os artigos publicados, o nome que ele tinha construído desde que pisara em Londres — será que tudo aquilo valia mais do que uma tarde de sábado qualquer, um livro no colo dela numa varanda, e o som fácil da risada ecoando pela cozinha da mãe dele?
Ele não tinha resposta. Mas, pela primeira vez, também não tinha certeza absoluta de qual seria a resposta certa.
Fale com o autor