As Desventuras e Romances de Percabeth
69 18 – Cerco
Notas iniciais
18 – Cerco
Voltaram a Londres numa segunda-feira cinzenta, o tipo de cinza que só a capital inglesa sabia produzir com tanta convicção. Três semanas de sol turco tinham deixado a pele de Percy num tom que destoava do resto do outono britânico, e por dois dias inteiros ele se pegou estranhando o silêncio da cobertura em Chelsea sem o barulho constante do gerador ao fundo.
Foi na quarta-feira, ao encontrar as correspondências empilhadas na mesa da entrada — contas, um catálogo de equipamentos de escavação, um convite formal que ele nem se deu ao trabalho de abrir — que ele notou o envelope.
Não tinha remetente. Papel grosso, cor de marfim, o tipo que só se encontra em papelarias que não colocam preço à mostra. O lacre de cera vermelha na aba estava impresso com um selo que ele não reconheceu de imediato — um brasão qualquer, um leão ladeado por duas espadas cruzadas, elegante o suficiente para parecer genuíno e discreto o suficiente para não significar nada pra quem não soubesse o que procurar.
Percy abriu com um dedo, sem muito cuidado.
A carta não tinha assinatura. Datilografada, cada palavra precisamente escolhida para soar mais ameaçadora do que qualquer punho cerrado.
"Sr. Jackson,
Chegou ao meu conhecimento que o senhor tem se permitido certas distrações incompatíveis com a posição que ocupa. Aconselho reconsiderar suas prioridades antes que decisões impensadas comprometam aquilo que levou anos para construir. O financiamento de expedições, como o senhor bem sabe, depende de mais fatores do que mérito acadêmico — assim como certos cargos de docência, que existem por indicação e permanecem por conveniência, não por direito adquirido. Seria uma pena ver um historiador tão promissor perder seu posto em Balliol por uma questão de tão pouca importância. Recomendo, com o devido respeito, que o teatro continue sendo bem representado. Alguns papéis, uma vez abandonados, custam caro a se recuperar — inclusive para quem os abandona."
Sem nome. Sem assinatura. Só o brasão do leão na cera derretida e a letra impecável.
Percy releu a carta três vezes, cada vez sentindo o estômago revirar um pouco mais. Não precisava de muito esforço para reconhecer o remetente. Só conhecia um homem em Londres inteiro capaz de escrever "com o devido respeito" enquanto ameaçava arruinar a vida de alguém — e por acaso, esse homem tinha jantado à mesma mesa que ele semanas atrás, o rosto vermelho de raiva contida enquanto cortava o faisão com mais força do que o necessário.
— Mais essa agora — Percy murmurou para o apartamento vazio — Simplesmente ótimo.
Ele dobrou a carta e a guardou na gaveta da escrivaninha, ao lado do porta-retratos com a foto antiga de Picadilly que ele nunca tinha coragem de jogar fora nem de expor.
***
Ele passou dias evitando pensar na carta, tarefa que se provou mais difícil do que qualquer levantamento topográfico na Turquia.
Num desses dias ele viu Annabeth por acaso — ou pelo menos foi o que ele preferiu acreditar — no átrio interno de Balliol, os mesmos arcos abertos para o pequeno jardim cercado onde, semanas atrás, ela tinha ouvido o suficiente de uma conversa dele com Scarlet para adivinhar que algo estava errado.
Ela estava sentada na mesma mureta de pedra, um livro fechado sobre o colo, olhando para o jardim sem realmente vê-lo.
— Documentação comparativa? — Percy perguntou, se aproximando, tentando manter o tom leve.
Annabeth ergueu os olhos e sorriu, meio distraída. Percy engoliu em seco quando os olhos deles se encontraram, aquele olhar penetrante dela fazia seu cérebro derreter mesmo após anos afastados.
— Estou processando o choque térmico. Alguém deveria ter avisado que voltar pra esse clima seria pior que o fuso.
— Bem-vinda à Inglaterra, Sabichona. Aqui o sol é uma lenda urbana.
Ela riu baixinho, e por um instante — só um instante — pareceu a mesma garota que tinha rido daquele jeito em cima de uma muralha bizantina em Mitilene, o vento bagunçando o lenço bege no cabelo dela.
Percy se sentou ao lado dela, sem perguntar se podia, e por um tempo nenhum dos dois disse nada. Mesmo naquele silêncio a familiaridade entre eles era percebida por qualquer um que passasse por perto, como um casal a muito tempo juntos, sem se importarem em ficar calados na presença um do outro.
— Estava com saudade disso — ela disse por fim, baixinho, quase para si mesma.
— De Balliol?
— De ficar quieta ao seu lado sem ter que fingir nada.
Percy sentiu o peito apertar de um jeito que a carta na gaveta da escrivaninha tornava ainda mais perigoso.
— Eu também — ele admitiu, e por um segundo os dois só se olharam, o jardim cercado testemunha silenciosa de algo que nenhum dos dois estava disposto a nomear.
Foi Annabeth quem quebrou o momento, ajeitando uma mecha atrás da orelha e se levantando.
— Tenho que ir — ela disse, a voz saindo mais controlada do que o resto dela parecia estar — Tchau.
Percy assentiu, e ficou ali sentado por mais um tempo depois que ela se foi, o coração fazendo um barulho que ele preferia ignorar.
***
Foi na manhã seguinte que a segunda carta chegou.
Mesmo papel grosso, mesmo lacre de cera com o leão e as espadas cruzadas, dessa vez deixado debaixo da porta do apartamento em vez de entregue pelo correio — detalhe que fez o estômago de Percy gelar antes mesmo de abrir o envelope.
"Sr. Jackson,
Presumo que minha última correspondência não tenha sido lida com a atenção devida. Fico feliz em constatar, no entanto, que certos… encontros no átrio interno de Balliol continuam acontecendo com uma frequência que desmente qualquer boa intenção declarada. Recomendo cautela redobrada. Alguns jardins têm mais olhos do que se imagina."
Percy leu a última linha três vezes, o sangue gelando de um jeito que nenhuma dor de cabeça de ressaca jamais tinha conseguido.
Ele estava sendo seguido. Ou vigiado. Ou as duas coisas — o que quer que fosse, alguém sabia exatamente onde ele tinha estado no dia anterior, e a mureta de pedra do átrio interno não era exatamente um lugar aberto ao público de Oxford.
— Isso é... — ele murmurou, olhando em volta do apartamento vazio como se esperasse encontrar uma câmera escondida atrás do sofá — Isso é definitivamente ilegal em algum lugar.
Ele dobrou a carta com mais cuidado dessa vez, guardando-a junto com a primeira, e passou os dedos pelo cabelo com uma força desnecessária.
Fazia sentido, de um jeito totalmente perturbador. O barão não queria Percy e Scarlet casados — isso ficava claro o suficiente entre as linhas cheias de educação afiada das cartas. O que ele queria era provar um ponto. Provar que a filha tinha errado ao escolher alguém como Percy, e a melhor forma de provar isso era garantindo que o teatro continuasse até a própria Scarlet desistir por conta própria — ou até Percy cometer algum deslize grande o suficiente para justificar tirar dela tudo que a família ainda insistia em oferecer.
Percy tinha certeza, apesar de nenhuma prova concreta, de que se aquele teatro desmoronasse agora, quem pagaria o preço não seria só ele. Seria Scarlet — as portas, os privilégios, o sobrenome que ela carregava como uma armadura que nunca tinha pedido para vestir.
E ele, preso no meio disso tudo, com o financiamento do Camboja e a própria carreira acadêmica pendurados por um fio que o barão claramente sabia exatamente como cortar.
— Ótimo — ele repetiu, para o apartamento vazio de novo — Simplesmente ótimo.
***
Os dias seguintes passaram devagar, cada hora carregando o peso extra de quem sabe estar sendo observado sem saber exatamente por onde. Percy manteve a rotina de sempre — aulas, escritório de Crawford, uma tentativa frustrada de treinar skate no Battersea Park que terminou com ele encostado num banco só olhando o rio —, mas evitou qualquer desvio do óbvio, qualquer trajeto que pudesse parecer suspeito demais para olhos que ele não conseguia identificar.
Encontrou Scarlet naquela mesma semana, num daqueles jantares obrigatórios que o teatro deles ainda exigia — dessa vez um restaurante discreto em Marylebone, mesa reservada no fundo, longe de olhos curiosos demais.
Ela usava um vestido verde-escuro de corte reto, o tipo de peça que parecia simples até alguém reparar no tecido, um casaco curto de lã por cima e brincos de pérola pequenos demais para chamar atenção, mas caros o bastante para quem soubesse olhar. Percy tinha optado por uma camisa social preta sem gravata, mangas arregaçadas de qualquer jeito assim que se sentaram, o blazer cinza jogado displicente no encosto da cadeira ao lado.
Ela estava com aquele mesmo distanciamento que carregava desde a Turquia, respondendo em frases curtas, os olhos fixos no cardápio como se ele contivesse informação vital.
— Scar — ele tentou, depois que o garçom se afastou — Você está estranha desde a viagem.
— Estou? — ela nem ergueu os olhos.
— Está. E eu meio que sei o motivo, então prefiro que a gente fale sobre isso ao invés de fingir que não sei.
Isso fez ela erguer os olhos, finalmente.
— Tudo bem, Jackson. Fale.
— Não sinto nada pela Annabeth — ele disse, a voz mais firme do que ele esperava conseguir — Ela é... uma parte antiga de mim que eu ainda não sei bem onde guardar, mas não é isso que você está pensando.
— Eu não disse nada sobre o que estou pensando.
— Você não precisa. Isso já é meio que sua especialidade, se eu lembro direito.
Um fantasma de sorriso passou pelo rosto dela, rápido demais para ser confirmado.
— E o que você acha que eu estou pensando, exatamente?
— Que talvez eu ainda sinta alguma coisa por ela. E que isso muda alguma coisa entre a gente.
Scarlet ficou em silêncio por um momento, girando a taça de vinho entre os dedos.
— E muda?
— Não — ele respondeu, e dessa vez a voz saiu sem hesitação — Gosto de você, Scar. Do jeito real, não só do jeito que a gente vende pros seus pais.
Ela o encarou por um instante longo demais, como se tentasse decidir se acreditava ou não, e então assentiu devagar, sem convicção total, mas o suficiente para que o jantar continuasse sem mais gelo do que o necessário.
Percy não mencionou as cartas. Não àquela altura, pelo menos. Havia coisas demais em jogo, e ele ainda não tinha certeza de quanto disso Scarlet já sabia — ou suspeitava.
***
O Porsche cortou as ruas de Marylebone em direção ao apartamento da garota, o silêncio entre os dois menos pesado do que tinha sido durante boa parte do jantar. Scarlet olhava pela janela, os dedos brincando distraidamente com a barra do casaco de lã, um meio sorriso que ela claramente não fazia questão de esconder dessa vez.
— Foi um jantar decente, pelos seus padrões — ela comentou, sem tirar os olhos da rua.
— Meus padrões são impecáveis, Windsor. Você que é exigente demais.
Ela riu baixinho, um som genuíno o suficiente para que Percy sentisse um alívio que não esperava sentir. Parou o carro em frente ao prédio vitoriano dela, o motor ainda ligado.
— Obrigada — Scarlet disse, já com a mão na maçaneta, a voz mais suave do que o normal — Por dizer aquilo, lá dentro.
— Eu quis dizer.
— Eu sei — ela respondeu, mas alguma coisa no tom dela não soou totalmente convencida, um resquício de dúvida que ela guardou tão rápido quanto deixou escapar — Boa noite, Percy.
Ela desceu antes que ele pudesse insistir em abrir a porta, e Percy ficou parado ali por um instante, vendo a luz se acender na janela do terceiro andar, se perguntando se aquele sorriso dela, tão raro ultimamente, era de fato alívio — ou só mais uma camada da mesma desconfiança de sempre, bem escondida por trás de boas maneiras.
***
Já passava da meia-noite quando Percy finalmente chegou em casa, o jantar em Marylebone e a carona silenciosa ainda pesando de um jeito que ele não sabia bem explicar. Encontrou Annabeth na cozinha da cobertura tarde da noite, o resto do apartamento silencioso, James provavelmente já dormindo no próprio quarto depois de mais um ensaio que tinha ido até tarde demais.
Ela estava de costas, curvada sobre a porta aberta da geladeira, os headphones entrelaçados no cabelo dela e o som vazando baixinho o suficiente para que Percy reconhecesse o riff antes mesmo de saber o nome da música. Usava apenas uma camiseta comprida demais para ser dela — provavelmente do próprio James — e shorts dry fit cinza, os cabelos soltos e ainda molhados do banho caindo displicentes pelas costas.
Percy se aproximou devagar, sem fazer barulho de propósito, e tocou de leve o ombro dela.
Annabeth deu um pulo, quase derrubando o pote de iogurte que segurava, e arrancou os fones com um susto genuíno.
— Credo, Percy! — ela levou a mão ao peito, respirando fundo — Quer me matar de infarto?
— Achei que só um susto pequeno já bastava pra chamar sua atenção.
— Idiota — ela bateu no braço dele, mas o susto já tinha dado lugar a um princípio de sorriso — Achei que já estivesse dormindo.
— Eu deveria. Mas decidi ficar acordado pensando em decisões questionáveis, como de costume.
Ela riu baixinho, um som cansado.
— Alguma decisão específica, ou é só o pacote completo de sempre?
Percy se apoiou no batente da porta, as mãos nos bolsos, tentando encontrar o jeito certo de dizer algo que já sabia, de antemão, que não teria jeito certo nenhum.
— Precisamos parar. Isso — ele fez um gesto vago entre os dois — o que quer que a gente ande fazendo.
Annabeth ergueu os olhos, finalmente, mas o rosto dela permaneceu impressionantemente calmo.
— "Isso" já tem nome, Percy?
— Não sei. E acho que é exatamente esse o problema.
Ela pousou o pote de iogurte na bancada com cuidado, o silêncio se estendendo por um segundo longo demais.
— Você tem o James — ele continuou, a voz mais baixa agora, o tom sarcástico de sempre falhando pela primeira vez em muito tempo — E eu tenho... o que quer que eu tenha com a Scarlet. E ficar por perto de você, Annabeth, é perigoso. Além disso, me causa calafrios em lugares onde é melhor não dizer — ele esboçou um sorriso mas o de Annabeth se desfez.
Ela não respondeu de imediato. Encarou o pote de iogurte na bancada como se ele contivesse alguma resposta que ela não conseguia formular sozinha.
— Concordo — ela disse por fim, a voz firme, sem qualquer tremor — A gente já provou, mais de uma vez, que perto um do outro só sobra destruição. Melhor cortar antes que estrague mais coisa do que já estragou.
Percy sentiu algo apertar no peito, um misto de alívio e de uma dor que ele não soube nomear direito.
— É bom saber que ao menos um de nós tem senso de autopreservação.
— Alguém precisa ter, já que claramente não é você — ela respondeu, um resquício do sorriso de sempre aparecendo brevemente, e então desaparecendo de novo, rápido demais para significar qualquer coisa além de cortesia.
Percy assentiu, e se afastou da porta antes que pudesse mudar de ideia, os passos ecoando pelo corredor sem porta que separava os dois quartos, cada um deles carregando, à sua própria maneira, o peso de uma decisão que nenhum dos dois tinha realmente escolhido fazer.
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