Notas iniciais
Mais um


17 – Travessia


O saguão de embarque de Heathrow às seis da manhã tinha aquele tipo de agitação sonolenta que só existia em voos muito cedo ou muito tarde. Percy estava encostado numa das colunas de metal perto do portão, vestindo uma camisa de crochê off white, o tecido trançado deixando entrever pedaços das tatuagens no torso e nos braços a cada movimento, uma calça de alfaiataria bege que contrastava propositalmente com o resto do figurino displicente, e um par de mocassins escuros que destoavam completamente do resto do guarda-roupa que a mochila aos seus pés escondia.


Os Ray-Ban Wayfarer estavam pendurados na gola da camisa, mais reflexo do que necessidade, já que o sol ainda nem tinha nascido direito. A mochila entre os pés carregava o laptop, os cadernos de campo e, enrolada com cuidado no fundo, a bermuda cáqui e a camiseta da Nike SB que ele só voltaria a vestir depois de pisar em solo turco.



Ao seu redor, o grupo se formava aos poucos. Doze alunos ao todo, divididos entre três professores. Percy reconheceu o professor Aldridge primeiro — um inglês de uns cinquenta anos, gravata xadrez mesmo àquela hora, especialista em numismática romana, que cumprimentou Percy com um aceno breve e voltou a conferir uma prancheta cheia de listas. Ao lado dele, a Drª Marín, uma arqueóloga espanhola contratada especialmente para supervisionar o levantamento fotogramétrico do sítio, conversava baixinho com dois assistentes de pós-graduação que carregavam equipamento suficiente para parecer que estavam se mudando de país, não fazendo um trabalho de campo de três semanas.


Os quatro alunos sob responsabilidade de Percy formavam um grupinho isolado perto das cadeiras — Oliver, um rapaz magricela que não parava de checar o passaporte a cada dois minutos, e Priya, que folheava um guia de viagem já com as pontas das páginas dobradas. Um pouco afastadas delas, Annabeth e Scarlet mantinham distância profissional uma da outra, educadas o suficiente para dividir o mesmo banco, frias o suficiente para não trocar mais que meia dúzia de palavras.


Scarlet vestia um trench coat bege impecável por cima de uma calça de linho clara, lenço de seda no pescoço amarrado com uma perfeição que parecia ensaiada, óculos escuros grandes de aro dourado empurrados para cima da cabeça exatamente como os de Percy, embora nenhum dos dois fosse admitir a coincidência. Annabeth, ao seu lado, contrastava com o mesmo eclético de sempre — jeans rasgados no joelho, um moletom largo com o nome de uma banda que Percy não reconheceu, tênis All Star gastos, e por cima de tudo aquilo, um casaco de couro que definitivamente não combinava com nada, mas que nela, como sempre, parecia funcionar por pura teimosia.


— Passageiros do voo com destino a Esmirna — o alto-falante anunciou, e o grupo inteiro se levantou em uníssono, como um só organismo cansado.


Percy pegou a mochila e caminhou para a fila, sentindo o peso das próximas três semanas se acomodar nos ombros de um jeito que nem a camisa de crochê bem cortada conseguia disfarçar.


***


O aeroporto de Adnan Menderes, em Esmirna, os recebeu com aquele calor seco típico do fim de verão egeu, um contraste brutal com a garoa cinzenta que tinham deixado para trás em Londres.


O relógio do painel de desembarque marcava 14h20, três horas à frente do horário que os corpos de todos ainda insistiam em seguir. Era esse tipo de fuso que não doía imediatamente, mas cobrava a conta em silêncio — o sono chegando errado à noite, a fome batendo nos horários trocados, a sensação constante de estar meio passo atrás do relógio local. Annabeth bocejou ao lado dele na esteira de bagagens, os óculos escuros escondendo mal as olheiras de quem tinha dormido talvez uma hora no avião.


— Vai demorar pra se acostumar? — ela perguntou, se referindo ao fuso.


— Uns três dias. Sempre é assim.


— Ótimo. Mais uma coisa pra sofrer nessa viagem.


Dois vans os esperavam do lado de fora, motoristas locais contratados pela universidade segurando placas escritas à mão com o nome de Balliol. A viagem até o acampamento, perto de Selçuk, durou pouco mais de uma hora, cortando estradas ladeadas por oliveiras e placas desbotadas anunciando Éfeso a cada poucos quilômetros.


O acampamento em si era mais organizado do que Percy esperava — um conjunto de barracas grandes reforçadas, duas delas convertidas em laboratório improvisado, um gerador barulhento que forneceria energia até altas horas, e uma tenda central usada como refeitório e ponto de reunião. Ficava a uma curta distância a pé das ruínas propriamente ditas, perto o suficiente para que, à noite, o silêncio fosse cortado apenas pelo vento entre as colunas caídas.


Os primeiros dias se resumiram a rotina — levantamento topográfico, catalogação de fragmentos, palestras noturnas dadas alternadamente por Percy, Aldridge e a Drª Marín sobre a arquitetura jônica da região. Annabeth se destacava nas anotações de campo com uma facilidade que irritava discretamente os outros alunos. Scarlet, por sua vez, mantinha o mesmo profissionalismo britânico impecável, sempre a primeira a se levantar de manhã, a última a reclamar do calor.


O sol da manhã já castigava sem dó por volta das dez, e numa dessas manhãs, ajoelhado numa trincheira rasa escovando poeira de um fragmento de cerâmica, Percy sentiu uma sombra cobrir a luz.


— Bebe — Annabeth disse, estendendo uma garrafa de água meio suja de terra nas bordas — Antes que desmaie aí dentro e eu tenha que te carregar até a barraca médica.


— Preocupada comigo, Annie? — Percy foi fuzilado pelo olhar cinzento de Annabeth. Aquela era a primeira vez em anos que aquele apelido era dito em voz alta, algo que certamente a pegou desprevenida.


— Preocupada com o relatório final, cabeça de alga — ela chutou areia na direção dele e virou de costas sem pegar a garrafa de volta. O poder de um simples apelido.


Foi também naquela semana que Percy trocou as camisetas de uniforme da Balliol por regatas variadas da Nike SB, o calor tornando qualquer outra opção insuportável depois do meio-dia.


Ele não percebeu, mas Annabeth percebeu — os olhos dela deslizando mais devagar do que deveriam pelos braços e ombros suados dele enquanto ele erguia um balde de entulho, os músculos se contraindo sob o peso, uma gota de suor descendo pelo pescoço até sumir na regata. Ela desviou o olhar rápido demais quando ele se virou, fingindo interesse repentino num fragmento qualquer no chão.


À noite, o acampamento se organizava numa fila irregular perto do único chuveiro de campo funcionando, um cano improvisado ligado a um tanque de água aquecida ao sol durante o dia. Percy e Annabeth acabavam, com uma frequência que já não parecia mais coincidência, um atrás do outro na fila, trocando olhares rápidos que duravam sempre um segundo a mais do que deveriam antes que algum dos dois desviasse primeiro, fingindo estar entretido com a toalha no ombro ou com o celular na mão.


E depois do jantar, quando o resto do grupo se dispersava entre a tenda central e as barracas, Percy e Annabeth começaram, sem que nenhum dos dois anunciasse a mudança, a ficar para trás — sentados nas cadeiras dobráveis perto da fogueira improvisada, conversando até tarde sobre nada em particular, o tipo de conversa que só existia entre pessoas que já não precisavam preencher os silêncios.


Scarlet notou. Não de uma vez, mas aos poucos — um almoço em que os dois se sentaram sozinhos numa mesa afastada do resto do grupo, rindo baixinho de alguma coisa que ela não conseguiu ouvir; duas ou três noites seguidas em que ela acordava para ir ao banheiro de campo e via as duas silhuetas ainda perto da fogueira, vozes baixas demais para distinguir palavras. Ela nunca comentou nada. Apenas guardou, com a mesma frieza calculada de sempre, cada pequeno detalhe que não conseguia provar, mas que também não conseguia ignorar.


Entre Annabeth e Scarlet, uma trégua funcional que nenhuma das duas fazia questão de aprofundar.


***


Foi só na segunda semana, num domingo livre da escala de trabalho, que Percy resolveu propor a saída.


— Documentação complementar — foi como ele justificou para Aldridge na noite anterior, sob o pretexto de fotografar comparativamente a arquitetura da costa egeia para o relatório final — Preciso de alguém que entenda de catalogação para me acompanhar.


Aldridge nem ergueu os olhos da prancheta.


— Leve a Srtª Chase, então. Já que é a mais competente do seu grupo.


Percy sorriu vitorioso com a resposta, ele não precisaria argumentar em favor de Annabeth sobre como ela era a opção óbvia para o trabalho extra — Sem favoritismo, é claro.


Saíram cedo, o sol ainda baixo o suficiente para não castigar. Annabeth tinha trocado o eclético de sempre por algo mais prático naquela manhã — uma bermuda cáqui, botas de hiking já com marcas de poeira de outras escavações, uma regata branca de alças simples, e um lenço bege amarrado sobre a cabeça, cobrindo parcialmente os cabelos dourados presos num coque baixo. Os óculos escuros grandes escondiam metade do rosto, mas não o suficiente para disfarçar o sorriso de quem estava, pela primeira vez em dias, genuinamente animada com alguma coisa. Percy dirigiu o jipe alugado pela universidade, Annabeth ao seu lado com um caderno de anotações que ela sabia, tanto quanto ele, que não seria realmente necessário.


A primeira parada foi Éfeso mesmo, quase vazia àquela hora, antes que os ônibus de turistas começassem a chegar em levas. A rua de mármore polido pelos séculos se estendia à frente deles, ladeada por colunas truncadas e capitéis caídos que ainda guardavam vestígios de entalhes florais. No fim da avenida principal, a fachada da Biblioteca de Celso se erguia em dois andares de colunas coríntias talhadas em mármore claro, as estátuas nos nichos — Sofia, Areté, Ennoia e Episteme, personificações da sabedoria e da virtude — observando quem passasse com a mesma expressão serena de quase dois mil anos atrás. O sol da manhã ainda era manso o suficiente para deixar a pedra num tom quase branco, e o silêncio do lugar, cortado apenas pelo canto ocasional de cigarras entre as ruínas, tinha um peso diferente do de qualquer outro sítio que Percy já tivesse visitado.


Caminharam entre as colunas em silêncio, o tipo de silêncio que já não pesava mais como pesava semanas atrás.


— Sabe — Annabeth comentou, a mão deslizando pela pedra desgastada da fachada — Nunca imaginei que ia ver isso pessoalmente. Só nos livros da minha mãe.


— Ainda mais comigo ao seu lado, imagino — ela sustentou o olhar dele, assentindo com a cabeça involuntariamente.


— Jamais imaginei que trabalharíamos com algo parecido — Annabeth falou olhando pra um grupo de turistas entretido com uma estátua de bronze — Pensei que você seguiria carreira no skate.


— Eu também, antes de duas cirurgias no LCA — Annabeth deixou escapar uma risada sincera. O coração de Percy falhou uma batida ao ouvir aquele som de tantos anos atrás.


Percy não falou mais, apenas observou o jeito como ela levantou o rosto para a luz, algumas mechas escapando por baixo do lenço bege, a pele já levemente corada pelo sol da manhã. Havia algo ali, na simplicidade daquele instante, que ele reconhecia de muito tempo atrás e que insistia em fingir que tinha esquecido.


***


Do porto de Kuşadası, um barco fretado os levou até Lesbos em pouco mais de uma hora de travessia, o mar Egeu completamente azul debaixo do casco, tão transparente em alguns trechos que dava para ver o fundo rochoso a metros de profundidade. Ilhas menores pontilhavam o horizonte como se alguém tivesse derramado pedra sobre a água, e gaivotas seguiam o barco por longos trechos, mergulhando ocasionalmente atrás de peixes que só elas conseguiam enxergar.


O Castelo de Mitilene se erguia sobre o promontório dominando o porto da capital da ilha, uma fortaleza maciça de pedra escura que parecia ter absorvido cada uma das civilizações que por ali passaram — bases helenísticas, reforços bizantinos, torres genovesas erguidas no século XIV e, por cima de tudo, os arremates otomanos que fecharam o conjunto séculos depois. Ciprestes escuros brotavam entre as muralhas em ângulos improváveis, e o mar se estendia em três direções diferentes vista do topo, salpicado de veleiros brancos parados na distância. Subiram a pé pela trilha de pedra irregular, Annabeth documentando tudo com o celular mais por hábito de arqueóloga do que por real necessidade profissional.


— Isso aqui devia estar no seu relatório de Éfeso? — ela provocou, guardando o celular no bolso.


— Documentação comparativa da arquitetura defensiva egeia — Percy respondeu com a cara mais séria que conseguiu — Totalmente relevante.


— Você é péssimo mentiroso, Jackson.


— E você veio mesmo assim.


Ela não respondeu, apenas sorriu de canto e seguiu andando pela muralha, o vento do mar bagunçando os cabelos dela de um jeito que Percy teve que se esforçar para não encarar por tempo demais.


Percy tirou o celular do bolso quando ela parou perto de uma das ameias, o mar atrás dela recortado por um dos vãos da muralha, o lenço bege esvoaçando de leve com o vento.


— Fica aí — ele disse, erguendo o celular.


— Isso também é documentação comparativa? — ela perguntou, sem se mexer, um sorriso de canto já se formando.


— É.


— Documentação pro relatório da universidade, ou pro seu acervo pessoal? — ela ergueu uma sobrancelha, o tom deliberadamente provocador.


Percy sentiu o calor subir pelo rosto antes mesmo de conseguir formular uma resposta decente.


— As duas coisas — ele murmurou, e apertou o botão rápido demais, como se isso pudesse disfarçar o quanto tinha corado.


Annabeth riu, satisfeita consigo mesma, e voltou a caminhar sem comentar mais nada, deixando Percy alguns passos atrás, guardando o celular no bolso com um cuidado exagerado demais para uma simples foto.


O almoço aconteceu numa taverna pequena perto do porto, mesa de madeira desgastada voltada para a água, o dono servindo pratos sem perguntar muito — polvo grelhado com azeite e limão, um mezze variado de húmus, taramasalata e pães quentes, sardinhas fritas inteiras, e uma garrafa de vinho branco local gelado que nenhum dos dois tinha certeza se deveria beber em pleno horário de trabalho de campo.


— Isso conta como falta de profissionalismo — Annabeth comentou, erguendo a taça.


— Só se alguém perguntar.


— Ninguém vai perguntar.


— Exatamente.


Brindaram sem dizer a que, o som das taças se tocando praticamente engolido pelo barulho das gaivotas e do mar batendo contra as pedras do cais.


Falaram pouco sobre trabalho durante o almoço. Falaram, em vez disso, sobre coisas que nenhum dos dois tinha mencionado em anos — o colégio, o Summit, a primeira vez que Percy tocou piano na sala de música sem saber que ela estava ouvindo, a viagem a Londres quando ela apareceu de surpresa no JFK com aquela touca rosa que ele insistia até hoje que era ridícula.


— Você lembra de tudo isso? — ela perguntou, surpresa genuína na voz.


— Lembro de mais do que devia, provavelmente.


Annabeth desviou o olhar para o mar, o sorriso ainda ali, mas mais quieto agora.


— Eu também.


O sol já começava a descer quando voltaram a subir até o castelo, a luz da tarde tingindo as muralhas bizantinas de um dourado que parecia proposital demais para ser natural. O porto lá embaixo se enchia aos poucos de barcos pesqueiros recolhendo as redes do dia, o som distante de motores se misturando ao vento que subia do mar.


Pararam num dos pontos mais altos da muralha, de onde dava para ver a costa turca ao longe, uma linha cinza-azulada separando os dois lados do Egeu.


— É estranho pensar que dali — Annabeth apontou na direção do continente — a gente atravessou o mar todo em uma hora, e há dois mil anos isso aqui era outro mundo inteiro.


— Ainda parece outro mundo, um pouco.


Ela olhou para ele então, algo na expressão mudando de leve.


— Isso foi supostamente profundo, ou você só está cansado?


— As duas coisas, provavelmente.


Ela riu, um som baixo e genuíno, e por um instante, parada ali no alto da muralha com a luz do fim de tarde caindo sobre o rosto dela, Percy sentiu o mesmo aperto no peito que sentia anos atrás, numa sala de música vazia, antes que o mundo inteiro decidisse se meter no meio.


Ficaram parados perto demais um do outro por tempo demais, nenhum dos dois fazendo menção de recuar. O vento carregava cheiro de sal e pedra quente, e por uma fração de segundo Percy teve certeza de que ia se inclinar, de que ela também ia.


O celular de Annabeth vibrou no bolso, quebrando o momento antes que ele acontecesse.


Ela se afastou meio passo, ajeitando os cabelos atrás da orelha num gesto automático que Percy reconhecia de anos atrás, e checou a tela.


— O barco de volta sai em quarenta minutos — ela disse, a voz saindo mais controlada do que ele imaginava que ela conseguisse naquele momento — É melhor descermos.


Percy assentiu, e os dois desceram a trilha em silêncio, o sol se pondo atrás deles sobre o mar Egeu.


***


O barco os deixou de volta em Dikili já com o céu tingido de laranja, e em vez de seguir direto para o acampamento, Percy fez uma última parada no caminho — um desvio que, tecnicamente, também cabia dentro da mesma desculpa esfarrapada de documentação comparativa.


Esmirna se espalhava ao longe conforme o jipe subia a estrada estreita e sinuosa que levava ao topo do monte Pagos, as luzes da cidade começando a se acender lá embaixo, contornando a baía como um colar espalhado displicentemente. Prédios modernos se misturavam a minaretes iluminados e ao movimento constante do porto, os navios ancorados marcados por pontos vermelhos e brancos piscando devagar na escuridão que ia se assentando.


O Kadifekale — o Castelo de Veludo, como os turcos o chamavam, batizado por causa da textura macia que a pedra escura ganhava vista de longe — coroava o topo do monte com muralhas irregulares que se estendiam por um perímetro bem maior do que Percy esperava, torres semicirculares se erguendo a intervalos ao longo do circuito, boa parte delas já sem teto, expostas ao céu que escurecia rápido. Percy parou o jipe perto da entrada e desligou o motor.


— Alexandre mandou construir esse aqui — ele comentou, saindo do carro — Segundo a lenda, ele sonhou com duas ninfas que disseram pra reconstruir a cidade nesse monte. Acordou, consultou um oráculo, e pronto. Cidade nova.


— Decisões de política urbana tomadas em sonho — Annabeth comentou, subindo atrás dele pela trilha de pedra — Muito responsável da parte dele.


— Funcionou, aparentemente. A cidade durou uns dois mil anos.


O interior do castelo já estava quase deserto àquela hora, só alguns vendedores de chá recolhendo as barracas e um grupo de adolescentes locais sentados numa das muralhas mais baixas, rindo alto de alguma coisa no celular. Percy e Annabeth caminharam até um dos pontos mais altos, de onde toda a baía de Esmirna se abria abaixo deles, as luzes da cidade e dos navios ancorados refletindo tremulantes na água escura.


— É bonito daqui — Annabeth murmurou, os braços apoiados na pedra fria da muralha.


— É.


Ficaram ali por um bom tempo, sem pressa de voltar, o vento da noite carregando o cheiro de chá de maçã e carvão das barracas se fechando. Percy sentiu, mais uma vez naquele dia, a mesma vontade antiga e incômoda de simplesmente esticar a mão e fazer alguma coisa a respeito. Não fez.


Foi Annabeth quem quebrou o silêncio, a voz baixa, quase cansada.


— Deveríamos voltar. Amanhã tem escavação cedo.


— Deveríamos — ele concordou, sem se mexer por mais alguns segundos.


Desceram a trilha de volta ao jipe em silêncio, as luzes de Esmirna diminuindo no retrovisor conforme Percy pegava a estrada que levava de volta a Selçuk.


***


Chegaram ao acampamento já depois das nove da noite, o gerador zumbindo baixinho ao fundo, a maioria dos outros alunos reunidos na tenda central em volta de uma partida de cartas improvisada.


Scarlet estava sentada um pouco afastada do grupo, um livro aberto no colo que ela claramente não estava lendo. Ergueu os olhos quando os dois entraram, rindo baixinho de alguma coisa que Annabeth tinha acabado de comentar, ainda com o cheiro de sal e vinho grudado na pele.


Ela não disse nada. Não perguntou onde tinham ido, nem por que Annabeth parecia tão mais leve do que tinha saído de manhã, nem por que Percy evitava, de um jeito quase estudado, olhar diretamente para ela.


Apenas observou os dois por um instante longo demais, fechou o livro devagar, e voltou a atenção para a tela do celular, o rosto perfeitamente composto — e completamente impossível de ler.