16 – Acordo


O sol de terça-feira insistia em aparecer entre as nuvens, um milagre raro o suficiente em Londres para Percy aproveitar. Ele correu pela trilha principal do Green Park com o fone de ouvido bem encaixado, o volume alto demais para qualquer recomendação médica sensata. Highway to Hell tocava pela terceira vez seguida — Percy nunca conseguira se livrar do vício de repetir a mesma música até o corpo decorar o ritmo dos passos com ela.


Vestia uma regata cinza da Nike SB, desbotada o suficiente para revelar quantos anos de uso já tinha, um short preto e os tênis de corrida que substituíam, só naquelas horas, os Janoski de sempre. Os wayfarer protegiam os olhos do sol fraco, mais por hábito do que por necessidade. As tatuagens no antebraço apareciam a cada movimento do braço, e mais de um turista parado perto do lago virou a cabeça para acompanhá-lo passar.


Ele correu por quase quarenta minutos, cortando o parque em diagonal, os pulmões ardendo do jeito bom que só o exercício conseguia proporcionar. Quando finalmente desacelerou perto do portão que dava para Piccadilly, checou o relógio e praguejou baixinho — não teria tempo de passar em casa antes do encontro. Seguiu direto para Westminster do jeito que estava, a regata grudada nas costas e os cabelos ainda molhados de suor.


***


O Café Théâtre ficava numa esquina discreta de Westminster, entre um teatro fechado havia anos e uma livraria de segunda mão que Percy suspeitava nunca ter vendido um único livro. Era o tipo de lugar que só sobrevivia por teimosia, e por isso mesmo Percy adorava.


Rachel já estava lá quando ele chegou, sentada na mesa de sempre perto da janela, os cabelos ruivos mais curtos do que da última vez que ele a vira, uma jaqueta jeans cheia de patches por cima de uma camiseta preta qualquer de alguma banda que ele não reconheceu de cara.


— Achei que você ia se atrasar — ela disse, sem tirar os olhos do caderno de desenho aberto à sua frente.


— Eu corri até aqui, mereço um pouco de crédito.


— Mereceria se já tivesse trazido o café. E também um banho, já que estamos sendo sinceros — ela torceu o nariz, sem esconder o sorriso.


— Não deu tempo — Percy respondeu, se abanando com a própria camiseta — Culpa sua por marcar tão em cima da minha corrida.


Percy se sentou de frente para ela e fez sinal para o garçom. A amizade deles tinha sobrevivido ao colégio, ao Summit, à faculdade, e a algumas outras coisas que nenhum dos dois gostava de nomear em voz alta, mas que também nunca tinham realmente acabado — apenas se acomodado num lugar confortável demais para mexer.


— Então — ele disse, depois que os cafés chegaram — como está o mestrado?


— Terminando — ela respondeu, fechando o caderno — Defendo em março. E depois disso, volto pros Estados Unidos.


Percy sentiu algo estranho no peito, um aperto que não esperava.


— Volta de vez? — Percy perguntou receoso, provavelmente já sabendo da resposta seguinte


— De vez, Jackson. Não dá pra ficar pra sempre bebendo café ruim em Westminster com você.


— Vou sentir sua falta — ele disse, e percebeu, tarde demais, que tinha dito sério demais para o tom que pretendia usar.


Rachel sorriu de canto, o tipo de sorriso que só quem o conhecia havia anos conseguia interpretar direito.


— Também vou sentir a sua, cabeça de alga.


Foi então que Percy, olhando o relógio, decidiu confessar antes que fosse tarde demais.


— Ah, é. Falando nisso, eu meio que marquei dois encontros aqui hoje. No mesmo lugar. De novo.


Rachel arregalou os olhos e começou a rir, guardando o caderno na bolsa às pressas.


— Você não aprende, aprende?


— Aparentemente não.


— Quem?


— Scarlet e Annabeth.


— Ai meu Deus — ela riu ainda mais, já se levantando — Vou deixar vocês três se resolverem sozinhos, obrigada. Boa sorte, você vai precisar.


— Rachel...


— Não, sério — ela pegou a jaqueta e deu um beijo rápido no rosto dele — Isso aqui vai ser um espetáculo digno do teatro ao lado, e eu prefiro assistir de longe. Me manda mensagem contando como foi.


Ela saiu rindo, acenando pela vitrine antes de virar a esquina, e Percy ficou sozinho na mesa, se perguntando pela enésima vez por que insistia em repetir os próprios erros.


***


Scarlet chegou primeiro, um casaco bege impecável por cima de um vestido cinza discreto, o tipo de roupa que parecia ter sido escolhida com régua. Ela se sentou sem tirar as luvas.


— Você disse que era importante — ela comentou, ajeitando o cabelo.


— É. Mentoria extra pra sua matéria de licenciatura obrigatória. Você precisa de pelo menos um oito pra passar sem segunda época, e o departamento andou reclamando das suas notas.


Não era mentira, tecnicamente. Só não era bem o motivo do encontro.


Annabeth chegou dez minutos depois, uma bolsa de couro puída pendurada num ombro, o casaco de lã por cima de uma blusa estampada que não combinava com nada que ela estivesse usando embaixo, do jeito que só ela conseguia fazer funcionar. Os cabelos estavam soltos, mais dourados do que Percy se lembrava de ter visto em muito tempo, e havia algo no jeito como ela sorriu ao entrar — solto, fácil, sem a couraça de sempre — que o pegou completamente desprevenido.


Percy ainda se surpreendia com a rapidez com que ela tinha aceitado vir — bastara uma mensagem, sem perguntas, sem reclamações, e agora ali estava ela, leve, quase risonha, longe da versão sempre pronta pra rebater qualquer provocação dele. Ele não sabia bem o motivo daquela facilidade toda, e por ora preferia não questionar a sorte, mesmo achando estranho o quanto as coisas pareciam ter se invertido — Annabeth aberta e sorridente, Scarlet fechada e monossilábica havia dias. Não fazia sentido nenhum, mas Percy decidiu guardar a estranheza para depois.


— Ah — Annabeth disse, parando ao ver Scarlet já sentada, o sorriso não desaparecendo por completo — Não sabia que ia ter companhia.


— Nem eu — Scarlet respondeu, o tom impecavelmente educado, do tipo que soava mais afiado do que qualquer grosseria direta.


— Vocês duas vão ter que cooperar — Percy interveio, antes que a mesa esfriasse de vez — Scarlet precisa da nota, Annabeth precisa de crédito extra de tutoria pro currículo. Combinei com o departamento que vocês estudam juntas esse semestre.


— Cooperar com a patricinha britânica — Annabeth murmurou, se sentando e tirando o casaco.


— Prefiro "patricinha britânica" a andar parecendo um bazar marroquino que explodiu — Scarlet respondeu, sem erguer os olhos do cardápio.


— Pelo menos meu bazar tem personalidade.


— E o meu tem bom gosto.


Percy assistiu à troca de farpas por mais alguns segundos, achando graça demais para intervir de verdade, até decidir que já tinha cumprido sua parte.


— Bom, já que isso está indo muito bem — ele disse, se levantando — vou terminar meu treino de corrida. Vocês duas se resolvem.


— Jackson — Scarlet começou, mas ele já tinha deixado uma nota de 20 libras na mesa e saído porta afora, os fones voltando ao lugar antes mesmo de cruzar a esquina.


***


O resto da semana passou estranho. Scarlet andava mais distante do que o costume, respondendo mensagens com uma letra a menos do que o normal, cancelando um jantar em cima da hora sem muita explicação. Annabeth, por outro lado, seguia inexplicavelmente leve — cumprimentava Percy nos corredores de Balliol com um bom-humor que ele não via desde os tempos de colégio, sem as farpas costumeiras, sem a guarda erguida. Era como se as duas tivessem trocado de lugar durante a noite, e Percy não conseguia entender exatamente por quê, nem tinha certeza se devia se sentir aliviado ou preocupado com isso.


— Ninguém da sua família sente minha falta? — ele perguntou por fim, numa quinta à tarde, encontrando-a saindo de uma aula em Balliol — Nigel deve estar mantendo contagem de meus dias ausentes. Sei que ele vigia sua casa, aquele stalker não me engana.


Scarlet parou, ajeitou a alça da bolsa no ombro, e o encarou com uma calma que Percy reconheceu como perigosa.


— Depois do trabalho de campo, Jackson, vamos terminar. O namoro. O falso, quero dizer.


Ela disse aquilo com a mesma tranquilidade de quem comentava sobre o tempo, e seguiu andando antes que ele conseguisse formular qualquer resposta.