As Desventuras e Romances de Percabeth
66 15 – O preço do saber
Notas iniciais
15 – O Preço do Saber
Percy só tirou o smoking assim que fechou a porta do Porsche na garagem do prédio em Chelsea. Ainda sentia o gosto amargo do vinho e das palavras do barão na língua, uma sensação que persistia mesmo horas depois de ter deixado Scarlet na porta do prédio dela.
Pegou o celular no bolso do paletó e digitou antes mesmo de tirar a gravata.
"Livre esse fim de semana?"
A resposta de Rosie veio em menos de um minuto, um simples "Já estou providenciando o vinho", e Percy sorriu pela primeira vez desde que atravessara aquele salão lotado de gente importante demais.
O domingo passou inteiro dentro do apartamento — cortinas fechadas, telefones no silencioso, e o resto do mundo mantido convenientemente do lado de fora dos vidros panorâmicos. Percy não pensou no barão, nem em Crawford, nem em Nigel Aschombe e o sorriso de desdém dele perto do bufê de ostras. Por umas trinta e seis horas, conseguiu não pensar em absolutamente nada além de Rosie.
Foi só na segunda de manhã que o mundo real voltou a bater na porta.
Ou, para ser mais exato, voltou a passar pelo corredor — porque o quarto de Percy não tinha porta, um detalhe de design que ele achava genial em qualquer outra manhã da semana.
Ele se levantou nu, ainda sonolento, coçando a nuca, sem qualquer pretensão de disfarce, quando ouviu passos leves no corredor. Annabeth vinha da cozinha, provavelmente a caminho do quarto de James, os olhos ainda fixos no celular.
Ela levantou os olhos no momento errado.
Parou.
Percy viu o instante exato em que as bochechas dela ganharam cor — rápido, involuntário, o tipo de reação que ela claramente gostaria de não ter tido. Os olhos cinzentos desceram e depois subiram apressados, como se decidissem, tarde demais, que aquilo não merecia ser encarado.
— Bom dia — ele disse, sem qualquer traço de vergonha, abrindo os braços de leve como quem se espreguiça.
— Podia... — ela engoliu em seco — Podia ter avisado que sua namorada oficial não é a única que dorme por aqui.
Foi então que ela avistou Rosie, enroscada nos lençóis brancos, os cabelos pretos espalhados pelo travesseiro.
Annabeth ergueu uma sobrancelha, o rosto ainda vermelho, mas conseguiu recompor a expressão numa fração de segundo, algo que Percy sempre admirara nela desde o colegial.
— Achei que morava com um historiador respeitável — ela comentou, os olhos fixos no teto agora, deliberadamente evitando o resto — Não com um anúncio ambulante de roupa íntima da Calvin Klein.
— Inveja é feio, Sabichona.
— Nojo, Percy. A palavra é nojo.
Ela já estava se virando para ir embora quando parou, ainda de costas.
— Ah, e não esqueça — Minha aula com você é às onze, não se atrase. E, por favor, tome um banho. Você cheira a vinho barato e cigarros.
***
O escritório do reitor Crawford em Balliol cheirava a couro velho e a café requentado, os livros empilhados em pilhas que pareciam desafiar a gravidade havia décadas. Percy se sentou na cadeira de sempre, ainda carregando o cansaço do fim de semana e uma leve dor de cabeça que decidiu não mencionar.
— Jackson — Crawford começou, sem rodeios, tirando os óculos e limpando-os com um lenço — Boas notícias do conselho. O financiamento para Camboja saiu aprovado.
— Excelente notícia, reitor — Percy esboçou um sorriso vitorioso. Algo que o reitor antecipou e ergueu um dedo em sinal de condição.
— Mas nada nesta vida vem de graça, meu jovem. O saber exige seu preço.
Percy sentiu o estômago revirar antes mesmo de ouvir o resto.
— O conselho impôs uma exigência. Antes de Camboja, eles querem que você conduza seus alunos numa espécie de treinamento de campo. Ruínas gregas na Turquia oriental, próximo ao que antigamente era a Cária. Três semanas de duração.
— Três semanas — Percy repetiu, como se dizer em voz alta fosse tornar a ideia mais suportável.
— Exatamente isso. E, para não haver surpresas depois, o grupo inclui as duas alunas que estão sob sua responsabilidade direta. A Srtª Chase, obviamente, e também a Srtª... — Crawford consultou uma pasta na mesa — Windsor. A filha do nosso amigo em comum.
Percy piscou.
— Scarlet Windsor... — ele engoliu o resto da frase, sentindo o sangue esvair do rosto.
— Isso lhe causa algum incômodo, Jackson?
— Nenhum, reitor — ele mentiu, a voz saindo mais firme do que se sentia — Três semanas na Turquia. Perfeito.
— Ótimo, então está resolvido — Crawford sorriu, satisfeito — Porque qualquer que seja essa expressão que acabou de passar pelo seu rosto, prefiro manter minha ignorância a respeito. Já tenho idade suficiente para me poupar desse tipo de novela.
Percy saiu do escritório com a sensação exata de quem acabava de assinar a própria sentença.
***
Os corredores de Balliol tinham aquele silêncio abafado de segunda de manhã, o eco dos passos de Percy ricocheteando pelas pedras antigas enquanto ele tentava, sem muito sucesso, imaginar como sobreviveria a três semanas entre Scarlet e Annabeth numa escavação no meio do nada.
Foi virando o corredor perto da biblioteca que esbarrou em Scarlet.
— Ei — ele disse, ajustando a bolsa no ombro — Achei que estivesse em aula.
— Estava — ela respondeu, os olhos fixos em algum ponto atrás dele, evitando encontrar os dele.
— Está tudo bem?
— Está.
Uma palavra só. Percy conhecia Scarlet o suficiente para saber que aquilo não significava nada de bom.
— Scar...
— Preciso ir, Jackson — ela disse, já passando por ele, o perfume de sempre deixando um rastro breve no ar — Tenho aula.
Ela se afastou antes que ele pudesse insistir, os sapatos batendo apressados contra o piso de pedra, e Percy ficou parado ali por um instante, tentando entender o que tinha acabado de acontecer.
Não percebeu que não estava sozinho no corredor.
Annabeth estava sentada na mureta de pedra do átrio interno, os arcos abertos para o pequeno jardim cercado, um livro sobre o colo que ela claramente não estava lendo havia alguns minutos. Ela tinha ouvido o suficiente — não tudo, mas o bastante para reconhecer o tom estranho na voz de Scarlet.
Ela se levantou, fechando o livro, e caminhou até Percy com um sorriso já pronto no rosto.
— Problemas no paraíso? — ela provocou, cruzando os braços.
— Não é da sua conta.
— Ah, claro que é. Sou sua aluna favorita, lembra? — ela sorriu, satisfeita consigo mesma — E, além disso, me conforta te ver sofrendo.
— Nesse caso — Percy respondeu, o tom mudando de leve — você vai adorar ainda mais as próximas semanas.
— Do que está falando?
— Reunião com Crawford. O financiamento pro Camboja foi aprovado, com uma pequena condição.
Annabeth ergueu uma sobrancelha, o sorriso ainda intacto.
— Que condição?
— Uma expedição preparatória. Turquia oriental. Ruínas gregas perto da Cária antiga.
— Parece interessante, na verdade.
— Três semanas — ele completou — Com você e com... Scarlet.
O sorriso de Annabeth desapareceu tão rápido quanto tinha surgido.
— Espera. O quê?
— Você ouviu bem.
— Três semanas. No meio do nada. Com você e com aquela...
— Aristocrata britânica encantadora, sim.
— Idiota — ela cruzou os braços com mais força ainda, os olhos cinzentos estreitos — Isso é uma piada de mau gosto.
— Gostaria que fosse.
Ela ficou em silêncio por um segundo, processando, e Percy quase pôde ver o momento exato em que ela percebeu que não havia jeito de escapar daquilo.
— Ótimo — ela murmurou, sem convicção alguma — Simplesmente ótimo.
***
Ele se ofereceu para levá-la de volta após a aula, mais por hábito do que por qualquer outra coisa, e ela aceitou sem discutir, o que já era, por si só, um sinal de quão perturbada estava com a notícia.
O Porsche cortou as ruas de Oxford em direção à autoestrada, o silêncio entre os dois pesado o suficiente para encher o carro inteiro. Foi nos arredores de Londres, passando por um daqueles parques de diversões itinerantes montados às pressas num terreno baldio, que Percy diminuiu a velocidade sem perceber.
Uma roda-gigante, pequena e enferrujada, girava devagar contra o céu cinzento, as luzes ainda apagadas àquela hora do dia.
Annabeth olhou pela janela, e por um instante o rosto dela perdeu toda a dureza dos últimos minutos.
— Lembra da London Eye? — ela perguntou, a voz baixa, quase incrédula com a própria pergunta.
— Lembro — Percy respondeu, os olhos ainda na estrada — Você tinha acabado de aparecer no JFK com aquela touca rosa ridícula.
— Não era ridícula.
— Era um pouco ridícula.
Ela quase sorriu, mas segurou.
— Parece outra vida — ela murmurou, mais para si mesma do que para ele.
— Parece — Percy concordou.
Nenhum dos dois disse mais nada depois disso. A chuva fina começou a cair enquanto o carro avançava, desenhando linhas irregulares pelo para-brisa, e o silêncio entre eles se instalou de um jeito que nem a rádio ligada baixinho conseguia disfarçar.
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