Notas iniciais
Mais um capítulo, se alguém ler comente pfv!!

13 — Preparação


A chuva caía sobre Londres desde antes do amanhecer, cobrindo a cidade com aquele tom cinzento que parecia existir exclusivamente para os britânicos. As gotas escorriam pelo para-brisa do Porsche enquanto Percy seguia pelas ruas ainda tranquilas de sábado, e seus pensamentos insistiam em voltar para a mesma pessoa.


Scarlet havia feito o possível para parecer tranquila, mas Percy a conhecia de tempo demais para ser enganado. Era o fato de ela ter permitido que alguém a enxergasse com medo — isso era o que ficava preso em sua cabeça.


Quando o carro entrou em Rotherhithe, Percy percebeu que o sorriso já havia surgido em seu rosto antes mesmo de estacionar. A casa de Sally continuava exatamente como sempre — pequena, acolhedora e cercada pelos vasos de flores que sua mãe insistia em cuidar independentemente da estação do ano.


Ele mal havia fechado a porta do carro quando ouviu passos correndo lá dentro. A porta da frente se abriu com força e uma pequena figura surgiu disparada em sua direção sem a menor preocupação com a chuva ou com os degraus escorregadios.


— Percy!


O grito atravessou a rua inteira. Lilian correu tão rápido que ele precisou se abaixar para segurá-la antes que os dois acabassem caindo no chão molhado. A menina se jogou contra ele sem qualquer cerimônia, envolvendo seu pescoço num abraço apertado que arrancou uma risada imediata. Percy a ergueu do chão e observou a expressão indignada que ela claramente havia preparado — lábios franzidos, sobrancelhas erguidas, os olhos transmitindo a gravidade da acusação que estava prestes a fazer.


— Você demorou.


A sentença saiu carregada de convicção, mas não conseguiu esconder a felicidade estampada em seus olhos castanhos.


— Lily, são dez da manhã.


Ele respondeu enquanto caminhava em direção à casa com a menina ainda pendurada em seu braço. A observação pareceu completamente irrelevante para ela. Lilian imediatamente cruzou os braços e ergueu o queixo, assumindo a postura de alguém prestes a apresentar um argumento definitivo.


— Exatamente.


A segurança na resposta fez Percy balançar a cabeça. Depois de sete anos convivendo com ela, ele já sabia que procurar coerência naquele raciocínio era uma batalha perdida antes mesmo de começar.


— Certo. Você venceu.


A satisfação que surgiu no rosto da menina foi instantânea. Ela sorriu como alguém que acabara de derrotar um adversário particularmente difícil, e Percy teve a sensação de que aquela conversa tinha acontecido exatamente da forma que ela planejara desde o início.


O cheiro de café o atingiu assim que entrou na casa. Alguns segundos depois, Sally apareceu na entrada da cozinha segurando uma caneca fumegante, o cabelo ainda levemente amassado pelo travesseiro e um sorriso no rosto que carregava a mesma sensação acolhedora de sempre.


— Achei que tinha ouvido uma discussão.


A observação veio acompanhada de um olhar divertido direcionado aos dois. Sally parecia perfeitamente consciente de quem havia vencido antes mesmo de ouvir qualquer explicação.


— Eu ganhei.


Lilian anunciou a informação com tamanho orgulho que Percy quase teve pena de si mesmo.


— Claro que ganhou.


A resposta de Sally veio sem hesitação alguma, arrancando uma expressão indignada dele.


— Impressionante como vocês duas sempre estão do mesmo lado.


O comentário fez mãe e filha trocarem um olhar cúmplice que praticamente confirmou sua teoria. Percy aceitou a derrota com a resignação de quem já sabia que não possuía aliados naquela casa.


A manhã passou de forma agradável. Lilian assumiu o controle absoluto da conversa durante boa parte do café da manhã, contando histórias sobre a escola, sobre uma colega de classe que aparentemente havia se tornado sua rival mortal naquela semana e sobre um desenho que estava produzindo com a dedicação de uma artista profissional. Percy ouviu cada detalhe com atenção genuína. Gostava daqueles momentos mais do que admitia — a diferença de idade entre eles era enorme, mas isso nunca havia impedido que sentisse uma responsabilidade quase instintiva pela irmã.


Foi apenas depois que as histórias finalmente diminuíram de ritmo que Sally percebeu a capa cuidadosamente apoiada próxima à entrada. O olhar dela imediatamente se estreitou com suspeita familiar.


— O que tem aí?


— Um terno.


— Um terno? Agora eu quero ver.


A forma como ela falou deixou claro que aquilo não era exatamente um pedido. Percy soltou um suspiro resignado, arrancando um sorriso satisfeito da mãe.


— Eu sabia que você diria isso.


Alguns minutos depois, ele retornou vestindo o terno. O silêncio que tomou conta da cozinha foi imediato. Sally o observou durante vários segundos sem dizer nada, analisando-o de uma forma que nada tinha a ver com roupas. Percy conhecia aquele olhar — era o olhar de uma mãe percebendo que o tempo continuava passando mais rápido do que gostaria.


Uau.


A palavra escapou quase como um suspiro, baixa demais para ser calculada.


— Isso é bom?


Sally balançou a cabeça lentamente, os olhos percorrendo cada detalhe com aquela atenção específica que as mães reservam para os momentos que pretendem guardar.


— Isso é muito bom. Você está bonito.


A sinceridade presente na voz dela atingiu Percy de forma inesperada. Talvez porque não existisse ninguém no mundo cuja opinião carregasse tanto peso quanto a da própria mãe.


— Obrigado.


— Agora me diga para onde vai.


Percy soltou uma pequena risada. A pergunta era inevitável.


— É um jantar.


— Essa parte eu imaginei.


Sally apoiou a caneca sobre a mesa sem desviar os olhos dele, esperando com a paciência de quem já aprendeu que pressionar não adianta.


— Que tipo de jantar?


Percy passou a mão pela nuca. A explicação parecia estranhamente complicada quando dita em voz alta.


— O tipo complicado.


— Scarlet.


Sally permaneceu em silêncio por alguns segundos, abrindo aquele intervalo específico que Percy reconhecia desde criança — o espaço que ela sempre deixava antes de dizer algo que realmente importava.


— Com o que está preocupado?


— Ela estar preocupada me preocupa. Mas serei cordial e atencioso, como sempre.


Sally assentiu lentamente, mesmo que estivesse com uma sobrancelha arqueada em discordância — Não me envergonhe, Perseu. E seja educado com os pais dela, eu ficaria muito desgostosa se houvesse uma confusão como daquela vez.


Percy não respondeu imediatamente. As palavras pairaram enquanto ele olhava para a caneca sobre a mesa. No fundo, acreditava que a mãe tinha razão. Talvez aquele jantar nunca tivesse sido sobre convencer um barão. Talvez fosse apenas sobre garantir que Scarlet não enfrentaria aquilo sozinha. Ele tentaria se passar quase despercebido.




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Às dezessete horas, a cobertura em Chelsea estava estranhamente quieta para um sábado.


Percy ficou alguns instantes parado diante do espelho do corredor, ajustando o nó da gravata pela terceira vez. O terno do senhor Whitmore caía com uma precisão irritante — como se o homem soubesse exatamente o que estava fazendo, o que Percy ainda relutava em admitir em voz alta. Ele afastou as mãos, avaliou o resultado e decidiu que estava bom o suficiente.


Ouviu passos pela sala antes de dar a volta.


Annabeth saiu do corredor com a atenção já voltada para o celular, os cabelos soltos caindo sobre o ombro, claramente a caminho da cozinha sem pretensão de encontrar ninguém no caminho. Ela o viu quando já era tarde demais para fingir que não havia visto.


Parou.


O celular baixou alguns centímetros.


Percy observou o exato momento em que as bochechas dela ficaram vermelhas — uma cor rápida e involuntária que subiu antes que ela pudesse fazer qualquer coisa a respeito. Os olhos cinzentos o percorreram de cima a baixo numa fração de segundo, e então estreitaram com uma intensidade que ele conhecia bem. Não era raiva. Era o esforço específico de alguém tentando reorganizar a própria expressão às pressas.


— Vai sair — ela disse. Não era uma pergunta.


— Vou.


Annabeth desviou o olhar para a janela, onde a luz da tarde entrava em ângulo sobre os prédios de Chelsea. Levou a caneca até os lábios com uma calma que parecia deliberada demais.


— Não se atrase.


Percy apanhou o casaco do cabide, jogou-o sobre o ombro e lançou um olhar de lado para ela antes de abrir a porta.


— Não me espere acordada, amor.


Ele saiu antes que ela pudesse responder. Mas ouviu, do outro lado da porta que se fechava, o leve barulho de uma caneca pousada com mais força do que o necessário sobre a bancada.



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A cidade ia mudando de cara conforme ele avançava — Chelsea dando lugar a Knightsbridge, as ruas alargando, os prédios assumindo aquela arquitetura pesada e deliberada que só aparecia nos bairros onde o dinheiro era antigo o suficiente para não precisar se anunciar.


O GPS indicou uma última curva.


Percy virou e então viu a town house.


Engoliu em seco.


Quatro andares de pedra georgian imaculada erguiam-se no coração de Mayfair, flanqueados por lanternas de ferro forjado que projetavam uma luz âmbar sobre a calçada molhada. As janelas altas deixavam escapar um brilho suave e controlado. Dois carros pretos estavam estacionados na frente — discretos demais para serem comuns, caros demais para passarem despercebidos. Um homem de terno escuro permanecia parado próximo à entrada com as mãos unidas na frente do corpo, sem gesticular, sem olhar para o celular. Não era um mordomo. Era segurança.


Percy estacionou o Porsche a alguns metros de distância e ficou alguns instantes sem sair do carro.


Havia jantado em bons no lugares. Havia frequentado ambientes formais o suficiente para não se intimidar facilmente. Mas havia uma diferença entre formalidade e aquilo que estava diante dele agora — aquela solidez específica de quem não precisava ostentar porque a própria pedra já dizia tudo que era necessário dizer. O barão Windsor não morava numa casa. Morava numa declaração.


Percy soltou o ar devagar, pegou o casaco do banco do passageiro e saiu do carro.


A chuva havia diminuído para uma garoa quase invisível. Seus passos ecoaram levemente sobre a calçada enquanto se aproximava da entrada, e o homem de terno o observou com aquela atenção treinada de quem avalia sem parecer que está avaliando. Percy manteve o passo tranquilo.


A porta se abriu antes que ele precisasse tocar a aldrava.


Scarlet estava no umbral.


Percy precisou de um segundo — apenas um, mas o suficiente para que ela percebesse e arqueasse uma sobrancelha com a expressão de quem anota pontos.


O vestido era lilás, com aquele tom que ficava entre o lavanda e o anoitecer, caindo em linha reta e desenhando cada curva até as canelas. Adereços pontilhados em ouro rosé e diamantes ornavam o colo e os pulsos, captando a luz das lanternas em pequenos clarões discretos. O cabelo estava preso de forma impecável, alguns fios soltos emoldurando o rosto com a casualidade calculada que ele nunca havia conseguido entender completamente.


Era quase espalhafatoso demais para ela.


Quase. Porque havia algo na forma como Scarlet usava aquilo tudo — a postura, o olhar ligeiramente erguido, o queixo que nunca baixava — que tornava impossível imaginar que não era exatamente ela. Era apenas uma versão dela que Percy raramente via. A versão que existia antes de Oxford, antes do casaco de tweed e dos livros empilhados e do chá que esfriava porque ela esquecia de beber. A versão que havia crescido naquela casa de quatro andares e aprendido desde cedo o peso de um sobrenome.


— Você está olhando — disse ela.


— Estou.


— Vai parar?


Percy considerou a pergunta com seriedade fingida.


— Provavelmente não.


O canto da boca dela se moveu. Não chegou a ser um sorriso, mas era o mais próximo que Scarlet chegava de um quando estava nervosa e não queria que ninguém soubesse.


— Entre — ela disse, recuando um passo. — E não diga nada sobre o vestido.


— Não ia dizer nada.


— Ia.


— Ia — Percy admitiu, cruzando a soleira. — Mas agora não vou.


Ela o olhou por um instante — aquele olhar longo e avaliativo que ele conhecia bem, o que ela usava quando tentava determinar se havia motivo para confiar em alguma coisa. Então virou-se e caminhou pelo corredor, os saltos soando com uma precisão quase metronômica sobre o mármore.


Percy a seguiu, deixando a porta pesada e enorme se fechar atrás de si.