As Desventuras e Romances de Percabeth
65 14 - Jantar em Mayfair
Notas iniciais
14 — Jantar em Mayfair
O salão principal da residência Windsor estava tomado por mais de sessenta convidados, todos ali para celebrar o aniversário de trinta anos de casamento do barão. Três lustres de cristal despejavam luz sobre os vestidos de gala e os smokings impecáveis, enquanto duas lareiras ardiam em pontas opostas do cômodo, disputando espaço com o burburinho educado das conversas.
Percy atravessou a entrada sozinho, o smoking novo do Sr Whitmore tinindo especialmente para a ocasião.
Já conhecia aquela casa bem demais para se impressionar com pedra georgiana ou lanternas de ferro forjado, mas uma coisa é jantar a sós com os Windsor. Outra, bem diferente, é atravessar sozinho aquele mar de convidados sabendo que cada rosto ali dentro provavelmente era importante demais para não estar presente.
— Sr. Percy Jackson — o mordomo anuncia junto à entrada, e alguns rostos próximos se voltam brevemente na direção dele antes de retomarem as conversas.
Scarlet o avistou do outro lado do salão e se desculpa rapidamente com o grupo ao seu redor, atravessando em passos rápidos até alcançá-lo.
— Até que enfim — ela sussurra, o braço enroscado no dele com uma naturalidade estudada assim que chega perto o suficiente — Achei que ia se atrasar de propósito só para me deixar nervosa.
— Cheguei na hora — Percy respondeu, ajeitando a lapela.
— Sorria — ela continua, o sorriso profissional estampado no rosto para os convidados ao redor — Apaixonado, indispensável, e nada de comentários sobre quem quer que você reconheça por aí.
— Achei que o jantar seria pequeno.
— Voce conhece minha família — ela responde, sem desviar o sorriso que já distribui para os convidados ao redor — Nada aqui é pequeno.
Percy passa os olhos pelo salão, reconhecendo alguns rostos de um jantar anterior — lordes, embaixadores, um ou dois rostos que já viu estampados em capas de revista —, até que um homem parado perto da lareira mais próxima, copo de champanhe na mão, faz Percy quase engasgar.
— Não pode ser — ele murmura.
— O quê? — Scarlet seguiu o olhar dele.
— O reitor Crawford está aqui.
— Ah — ela sorriu, quase se divertindo com o desespero repentino no rosto de Percy — Claro que está. Ele e meu pai estudaram juntos em Eton. Você não sabia?
— Não, definitivamente não sabia — Percy respondeu entre dentes, ajeitando a gravata como se isso pudesse ajudar em algo.
O reitor Nathaniel Crawford era um homem de uns sessenta anos, os cabelos brancos impecavelmente penteados, o smoking cortado com a precisão de quem nunca precisou se preocupar com o preço de nada. Ele avistou Percy do outro lado do salão e ergueu as sobrancelhas, um misto de surpresa e diversão cruzando seu rosto habitualmente austero.
— Jackson — ele disse, se aproximando com o copo de champanhe — Confesso que não esperava encontrá-lo aqui essa noite. Achei que a essa hora estaria em algum bar de Waterloo bebendo até a queda.
— Boa noite, reitor — Percy apertou a mão estendida, tentando manter a compostura — Sr. Windsor teve a gentileza de me convidar.
— A gentileza foi da minha filha, imagino — o barão apareceu atrás de Crawford, o tom seco de sempre, um copo de scotch já na mão apesar da nova rodada de champanhe circulando pela sala — Nathaniel, você conhece o namorado de Scarlet.
— Conheço, sim, infelizmente na condição de supervisor dele em Balliol — Crawford riu, um riso baixo e cúmplice que fez Percy relaxar minimamente os ombros — Edmund, você tem certeza de que quer esse rapaz perto da sua filha? Porque na universidade ele é um desastre de pontualidade.
— Não tenho certeza nenhuma — o barão respondeu, sem nenhum traço de humor — Mas parece que ninguém mais nesta casa está interessado na minha opinião.
— Papai — Scarlet interveio, o sorriso ainda fixo no rosto, embora a voz carregasse um aviso.
— Estou apenas sendo sincero, querida — o barão respondeu, virando-se para cumprimentar outro grupo de convidados que se aproximava, deixando a frase pairando no ar como uma sentença.
Crawford observou a cena com um interesse quase acadêmico, o tipo de curiosidade que reservava normalmente para inscrições antigas difíceis de traduzir.
— Ele é sempre assim com você? — perguntou baixinho a Percy, enquanto Scarlet era puxada por outra convidada para os cumprimentos de praxe.
— Cada vez mais afiado, reitor.
— Bem, ao menos na segunda-feira você vai poder se distrair aterrorizando os calouros com a Guerra do Peloponeso — Crawford deu um tapinha no ombro de Percy — Divirta-se essa noite, Jackson. E, pelo amor de Deus, não beba tanto quanto de costume. Metade de Whitehall está nesta sala.
Ele se afastou, cumprimentando um grupo de senhoras de idade que imediatamente o cercaram com perguntas sobre a próxima gala beneficente. Percy respirou fundo e procurou Scarlet com os olhos, encontrando-a já sendo conduzida por Mary em direção a um grupo maior perto das portas do jardim de inverno.
— Sr. Jackson — Mary o chamou, sem muito entusiasmo na voz — Venha, quero que conheça algumas pessoas.
O restante da meia hora seguinte foi uma sucessão de apresentações que Percy mal conseguia acompanhar — uma condessa italiana que insistia em falar sobre a decadência da aristocracia moderna, um banqueiro que quis discutir criptomoedas por cinco minutos ininterruptos, dois primos distantes de Scarlet que o olhavam como quem avalia um cavalo de leilão. Percy sorriu, apertou mãos, respondeu perguntas sobre Camboja com a paciência ensaiada de quem já dera aquela mesma palestra dúzias de vezes, e manteve a mão de Scarlet presa na sua sempre que possível, um gesto que parecia, a cada minuto, menos encenação e mais hábito.
Nigel Aschombe, o duque de Westchester, apareceu perto do bufê de ostras, impecável num smoking azul-marinho que certamente custava mais do que o aluguel mensal do apartamento de Percy em Chelsea.
Ele provavelmente era o número um na lista da mãe de Scarlet pela mão da herdeira dos Windsor. Amigo de infância, família nobre e sangue azul, como Scarlet sempre dizia.
— Jackson — ele cumprimentou, o tom carregado do desdém de sempre — Não sabia que convidados de fora conseguiam entrar nesses eventos.
— Duque — Percy respondeu, mantendo o sorriso — Achei que teria desistido dessa família depois da última rejeição, mas aqui está, resiliente como sempre.
Nigel apertou a mandíbula, mas antes que pudesse responder, a orquestra contratada para a noite anunciou o início do jantar com alguns acordes suaves, e um exército de garçons começou a conduzir os convidados para a sala de jantar principal.
A mesa comprida acomodava quarenta pessoas, decorada com arranjos de rosas brancas e candelabros de prata que pareciam ter idade suficiente para lembrar do reinado da rainha Vitória. Percy conferiu os pequenos cartões caligrafados que indicavam os lugares e encontrou o seu ao lado de Scarlet, de frente para Nigel novamente — arranjo que suspeitou fortemente ser obra de Mary — e, para seu desespero renovado, a apenas duas cadeiras de distância do reitor Crawford.
O primeiro prato — uma terrina de foie gras que Percy discretamente empurrou para o lado do prato — foi servido em meio a um burburinho educado de conversas cruzadas. O barão, sentado na cabeceira, ergueu a taça brevemente para agradecer a presença de todos antes de voltar a atenção para o prato, ignorando deliberadamente o casal à sua frente.
— Então, Sr. Jackson — uma voz feminina chamou sua atenção. Era a condessa italiana, sentada duas cadeiras à esquerda — Scarlet nos contou que vocês se conheceram numa aula de história da arquitetura, em Oxford. Que curioso, um professor se apaixonando pela própria aluna.
— Foi bem complicado, na verdade — Percy respondeu, sentindo a mão de Scarlet apertar a sua por baixo da mesa.
— O suficientemente complicado para ele passar meses namorando outras vinte mulheres pela cidade antes de se decidir por ela — o barão comentou, sem levantar os olhos do prato, a voz alta o bastante para que ao menos oito pessoas ao redor ouvissem perfeitamente.
Um silêncio breve e constrangedor tomou conta daquele canto da mesa. A condessa ergueu as sobrancelhas, visivelmente curiosa com o desenrolar da cena. Nigel sorriu de canto, satisfeito, girando o vinho na taça.
— Edmund — Mary murmurou, o tom mais entediado do que realmente incomodado, como quem já assistira àquela mesma peça um número incontável de vezes.
— Estou apenas sendo hospitaleiro, querida — o barão respondeu.
— Sr. Windsor tem razão em desconfiar — Percy disse, a voz firme, decidindo que a mesa inteira já estava assistindo mesmo, então não havia motivo para fingir — Fui, por muito tempo, exatamente esse homem. Não vou negar isso na frente dos convidados do senhor.
Um murmúrio de surpresa percorreu a mesa próxima. Crawford, ao longe, ergueu o olhar do prato com um interesse renovado.
— Mas isso foi antes de perceber que já tinha encontrado a única pessoa que realmente importava — Percy continuou, olhando para Scarlet, não para o pai dela — Só demorei tempo demais pra admitir.
Scarlet corou visivelmente, e a condessa italiana suspirou baixinho, levando a mão ao peito num gesto teatral de comoção. Alguns convidados próximos sorriram, encantados com o pequeno espetáculo.
— Belíssimo discurso — Nigel comentou, sem esconder o sarcasmo — Você deveria considerar escrever romances, Jackson, já que os livros de história parecem não lhe dar audiência suficiente.
— Talvez escreva — Percy respondeu, sem desviar o olhar de Scarlet — Alguns capítulos merecem ser contados mais de uma vez.
O barão bufou, cortando a carne no prato com uma força desnecessária, mas não respondeu imediatamente, o que Percy interpretou, sem muita confiança, como uma pequena vitória.
O segundo prato trouxe consigo uma trégua breve, preenchida pela conversa geral da mesa sobre a próxima temporada de caça em Escócia e um escândalo político que Percy só entendeu pela metade. Foi durante essa pausa que Crawford se inclinou discretamente na direção dele.
— Você está se saindo melhor do que eu esperava, Jackson — o reitor murmurou, divertido — Confesso que apostei internamente que sairia daqui antes da sobremesa.
— Ainda há tempo, reitor.
— Espero que não. Seria uma pena perder o resto do show — Crawford ergueu a taça discretamente na direção de Percy antes de voltar a atenção para a senhora ao seu lado, que já reclamava sobre o clima de novembro.
O barão, no entanto, não havia terminado. Assim que o prato principal — um faisão assado que exigia mais talheres do que Percy conseguia identificar — foi servido, ele voltou à carga, a voz agora mais baixa, dirigida apenas ao trecho da mesa onde Percy e Scarlet estavam sentados, mas ainda perfeitamente audível.
— Sr. Jackson, deixe-me ser claro, já que aprecio a clareza. Eu não gosto do senhor. Não gostava antes desta noite, e a presença de quarenta testemunhas não vai mudar isso.
— Edmund, por favor — Mary suspirou, mais cansada do que constrangida, como quem já havia perdido a paciência com aquela cena específica havia anos.
— É a verdade, Mary, e não vejo motivo para escondê-la só porque há convidados — o barão continuou, sem desviar os olhos de Percy — O senhor magoou minha filha. Repetidamente. E agora aparece na minha mesa, na minha casa, no meu aniversário de casamento, esperando que eu sorria e finja esquecer.
— Não espero que finja nada, senhor — Percy respondeu, mantendo a voz firme, ciente de que ao menos uma dúzia de convidados próximos já haviam parado de fingir que não estavam ouvindo — Só peço a chance de provar, com tempo, que sou diferente do homem que o senhor conheceu.
— Todos dizem isso — o barão respondeu secamente, voltando a atenção para o faisão como se a conversa já não merecesse mais esforço algum.
Scarlet, ao lado de Percy, mantinha os olhos baixos no prato, as bochechas ainda coradas, mas os dedos entrelaçados com os dele por baixo da toalha branca com uma força que desmentia qualquer fingimento.
A sobremesa — um vacherin de framboesas decorado com folhas de ouro comestível, exagero que só fazia sentido numa casa como aquela — trouxe consigo uma nova rodada de brindes, discursos protocolares do barão sobre os trinta anos de casamento, e aplausos educados de toda a mesa. Percy aproveitou o barulho geral para se inclinar na direção de Scarlet.
— Seu pai realmente não vai facilitar nada, vai?
— Nunca facilitou — ela sussurrou de volta, um meio sorriso cansado nos lábios — Mas ele ainda está falando com você. Isso já é mais do que fez com o namorado anterior.
— O que aconteceu com o namorado anterior?
— Ele mandou o segurança escoltá-lo até a rua antes de servirem a entrada.
— Ótimo — Percy murmurou — Isso é reconfortante.
Quando o jantar finalmente se encerrou e os convidados começaram a se dispersar entre o salão principal e o jardim de inverno para o café, Mary aproximou-se dos dois com a mesma displicência controlada de sempre.
— Vocês dois deram um espetáculo e tanto essa noite — ela comentou, o meio sorriso não chegando aos olhos — Convincente o bastante para a condessa Moretti, ao menos, que já deve estar espalhando a história por toda a Toscana até amanhã de manhã.
— Não foi um espetáculo, mamãe — Scarlet respondeu, a voz vacilando de um jeito que fez Percy prestar mais atenção.
— Veremos, querida — Mary respondeu, repetindo quase as mesmas palavras do marido, e se afastou em direção a um grupo de senhoras que já a chamava para os cumprimentos finais da noite.
Nigel surgiu ao lado deles pouco depois, o casaco já sobre os ombros, uma taça de conhaque na mão como despedida.
— Bem, Jackson, apesar de tudo, foi uma noite instrutiva — ele disse, o sorriso tenso nos cantos — Vamos ver quanto tempo você aguenta antes de decepcionar essa família de novo. Scarlet, deslumbrante como sempre.
— Vou fazer questão de te decepcionar primeiro, duque, só para variar — Percy respondeu.
Nigel apertou os lábios, despediu-se de Scarlet com um beijo na bochecha que durou um segundo a mais do que deveria, e se afastou em direção à saída sem esperar resposta.
Foi Crawford quem se aproximou por último, já com o casaco de gala e uma taça vazia na mão que entregou a um garçom que passava.
— Jackson — ele disse, o tom mais sério agora, embora ainda houvesse humor nos olhos — Você sobreviveu. Parabéns, sinceramente. Poucos plebeus como nós sobrevivem a um grande jantar dos Windsors sem serem expulsos por um segurança.
— Ainda é cedo, reitor. A noite não acabou.
— Verdade — Crawford riu, batendo de leve no ombro de Percy — Segunda-feira, oito horas, meu escritório. Quero falar sobre o financiamento da expedição ao Camboja, e espero que esteja mais lúcido do que normalmente está às segundas-feiras.
— Estarei lá, senhor.
Crawford acenou para Scarlet e se afastou, deixando os dois finalmente sozinhos perto de uma das janelas altas do salão, o barulho da festa ainda ecoando ao fundo.
— Achei que não íamos sobreviver àquilo — Scarlet murmurou, os ombros finalmente relaxando.
— Sobrevivemos — Percy respondeu, guiando-a discretamente para fora do salão principal, em direção ao corredor que levava à saída — Seu pai ainda me odeia na frente de sessenta pessoas, isso é uma novidade e tanto.
— E minha mãe não comprou nada do que viu — Scarlet completou, pegando o casaco que um funcionário lhe estendia — Ela é boa demais em enxergar através das coisas.
— Ela vai mudar de ideia — Percy disse, abrindo a porta para ela.
— Ou não — Scarlet respondeu, olhando de volta para a fachada iluminada da casa que ia diminuindo atrás deles enquanto caminhavam para o carro — De qualquer forma, hoje foi mais difícil do que eu esperava, e ainda assim, de alguma forma, mais fácil do que devia ter sido.
Percy não respondeu de imediato. Apenas abriu a porta do Porsche para ela, os pensamentos ainda presos nas palavras do barão ecoando pela mesa inteira, na expressão indecifrável de Mary, e no fato estranhamente reconfortante de que, apesar de tudo, ele havia sobrevivido ao jantar sem que ninguém o escoltasse até a rua.
O motor ligou com o ronco de sempre, e Percy guiou o carro pelas ruas silenciosas de Mayfair, a garoa fina ainda desenhando pontos irregulares no para-brisa.
— Quanto tempo — Scarlet perguntou, os olhos fixos na janela — você acha que precisamos manter isso?
Percy virou a esquina, o silêncio da rua quebrado apenas pelo som do motor.
— O teatro — ele disse por fim.
— O teatro — ela confirmou.
— Depende. Seu pai parece disposto a me odiar por pelo menos mais uma década, então imagino que precisemos de algo em torno de dez, doze anos. Talvez treze, para garantir.
— Estou falando sério.
— Eu também estou — Percy respondeu, o tom ainda leve — Mas se quiser uma resposta mais razoável, diria que aguentamos até ele parar de fazer discursos sobre a minha reputação na frente de sessenta convidados. O que, pelo ritmo de hoje, também deve levar uma década.
Scarlet suspirou, cruzando os braços, mas o canto da boca traiu um princípio de sorriso que ela claramente tentava esconder.
— Minha mãe também não ajuda — ela murmurou — Aquele jeito de dizer “veremos” como se estivesse esperando eu cometer o mesmo erro de sempre.
— Ela ficou impressionada. Só não admite.
— Ela nunca admite nada. É basicamente o esporte oficial da família.
O carro seguiu em silêncio por mais algumas quadras, cortando Knightsbridge em direção a Chelsea, onde ficava o apartamento de Scarlet — um andar inteiro num prédio vitoriano reformado, herança de uma tia que ela raramente mencionava.
Percy estacionou em frente ao prédio, o motor ainda ligado, nenhum dos dois fazendo menção de sair imediatamente.
— Então — ele disse, desligando o motor por fim — quanto tempo vai durar oficialmente? Preciso saber quantos jantares terríveis ainda tenho pela frente.
— Não sei — Scarlet respondeu, olhando para as próprias mãos no colo — Talvez até meu pai parar de perguntar. Talvez até minha mãe se cansar de fingir que não percebe nada.
— Isso realmente pode levar anos — Percy pareceu soar sério por um instante, mas logo disfarçou com uma exagerada careta de medo.
— Não é pra tanto, Jackson. Meu pai está certo em algo, sua presunção é deveras irritante — ela clicou a maçaneta do Porsche antes que Percy a contrariasse sendo cavalheiresco e viesse correndo abri-la primeiro.
Mesmo assim ele desceu do carro rapidamente ao vê-la saindo. Caminharam lado a lado até a entrada do prédio.
Na porta, Scarlet procurou as chaves na bolsa, e Percy aproveitou o momento.
— Já que estamos mantendo as aparências — ele disse, encostando o ombro no batente da porta, o tom deliberadamente casual — entrar com você e passar a noite também faz parte do teatro?
Scarlet nem ergueu os olhos da bolsa.
— O que você acha?
— Se fosse meu apê eu jamais deixaria você na rua — ele tentou o melhor charme de dois centavos que podia.
— É porque não está morando no Reino Unido a tempo suficiente pra se tornar frio como nós — ela retirou a chave e a girou nos dedos.
— Não custa tentar, né — Percy deu de ombros, o sorriso de canto intacto, recuando um passo.
— Sempre um ardil na manga, Jackson — ela respondeu com um sorriso travesso.
Scarelt girou a chave na fechadura, mas parou antes de empurrar a porta, os olhos fixos num ponto qualquer da rua molhada, pensativa.
— Sabe — ela disse, a voz mais baixa agora, quase para si mesma — às vezes penso que a solução mais simples seria eu simplesmente desaparecer. Pegar um voo para algum lugar remoto o suficiente para meu pai nunca me encontrar. Budapeste, talvez. Ou Praga. Um lugar bonito, barato, longe o bastante de Mayfair e de qualquer duque metido a salvador.
— Está planejando fugir da própria família?
— Estou planejando fugir do destino de virar uma peça de museu andante — ela respondeu, um meio sorriso amargo nos lábios — “terminar” com você bem a tempo de desaparecer antes que minha mãe decida que já esperou o suficiente e comece a organizar meu casamento com Nigel nos bastidores.
— Parece parece um plano muito especifico para alguém que só pensou nele agora.
— Venho pensando nisso há anos, Jackson. Você só apareceu recentemente na equação.
— Fico lisonjeado por fazer parte dos seus planos de fuga.
— Não fique — ela empurrou a porta, finalmente entrando no saguão iluminado do prédio, mas virou-se antes que a porta se fechasse por completo, os olhos âmbar presos nos dele por um instante longo demais para ser apenas uma despedida qualquer.
— Boa noite, Scar.
A porta se fechou com um clique suave, e Percy ficou parado na calçada por um momento, as mãos nos bolsos do casaco, olhando para a luz que se acendia na janela do terceiro andar. Balançou a cabeça, um sorriso baixo escapando antes que ele se virasse de volta para o carro, os pensamentos já divagando entre o barão, o reitor Crawford e a estranha, específica menção a Praga que ele suspeitava não ser inteiramente brincadeira.
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