As Desventuras e Romances de Percabeth
62 11 — Lady Scar
Notas iniciais
11 — Lady Scar
As consequências do “amistoso” jogo de algumas noites anteriores ainda estavam caindo como tempestade na cabeça de Percy. Se antes as duas alunas brigavam para ter o tempo do homem, agora ele não conseguia nem cinco minutos com nenhuma delas. Scar até frenquentava algumas das aulas ministradas por ele. Todavia, ela arrumava várias desculpas pra não encontrá-lo fora da universidade, alguém sempre estava fazendo aniversário ou um parente vinha visitá-la sempre nos momentos em que Percy mandava uma mensagem ou tinha uma ligação rejeitada.
Se isso não bastasse, a loira Annabeth estava ausente em todas as aulas da semana subsequente, ela ignorava todas as mensagens e Percy até foi bloqueado por um dia ou dois. Ela só o chamou para perguntar da prova mensal do stricto sensu que seria na sexta-feira.
Fora isso ele estava sendo evitado de todas as formas.
Na manhã nublada daquela quinta-feira ele tentou falar com Scarlet na saída da aula de história da arte, mas foi impedido por uns três calouros que o encheram de perguntas sobre arquitetura budista. Percy conseguiu se livrar deles em alguns minutos, contudo nesse meio tempo Scar havia desaparecido nos corredores da Balliol.
O homem conseguiu encontrar uma amiga da britânica quando se dirigia até o jardim próximo à biblioteca. Percy saiu todo desengonçado carregando a pasta de couro preto numa mão e o sobretudo preto de tweed na outra, ele deu um trote para alcançá-la ainda nas dependências do auditório.
—Amelia!
O esbaforido Percy com custo conseguiu chamar atenção da garota.
—Sr Jackson — ela retirou os fones de ouvido e parou de andar, o grupo das outras meninas que estavam com ela continuaram andando, Percy ouviu algumas risadinhas. Ele deu uma boa olhada em todas antes de dirigir a palavra à ela.
—Cadê ela? — Amelia desviou o olhar dele — É urgente, eu preciso falar com ela. É sobre o stricto sensu.
—Eu passo o recado. Temos aula de Arquitetura de tarde, na Harrow.
—Ela trocou de professor? — Percy ficou surpreso, ele ia ministrar a mesma aula após o almoço.
—Sim, e ela não quer ver você. Será que não se lembra do ano passado? Ela sofreu bastante — Amelia o fuzilou com os olhos.
Percy suspirou e deixou a bolsa no chão, junto com o casaco — Eu sei o que fiz. Prometo que minha intenção é inteiramente acadêmica.
—Não me convenceu, e eu esqueci onde ela foi — ela deu um sorriso travesso — Mas um “A” com certeza ajudaria a refrescar minha memória.
O homem olhou-a ultrajado, mas infelizmente era a única opção — Fechado.
—Ela tá na biblioteca. Na Bodleian.
Percy catou a maleta no mesmo instante e vestiu o casaco rapidamente. Ele mal se despediu da garota e logo foi-se pelo corredor, ele ouviu ela gritar uma ameaça caso não cumprisse o trato e fez sinal com a mão enquanto corria.
Ele saiu do campus da Balliol e quase foi atropelado na primeira rua que tentou atravessar às pressas. Percy passou correndo frente a uma roseira cheia de brotos e puxou um deles no meio da corrida, quase arrancando toda a árvore sem querer.
O sol estava até começando a despontar no céu, mesmo sendo outono na Grã-Bretanha. O homem fez uma pequena prece ao passar pela porta da catedral de Oxford no caminho até a biblioteca, que se erguia imponente com sua torre circular de pedras marrons e arcos de mármore envelhecidos e adornos de leões e grifos entalhados nas paredes e nas portas de madeira arqueadas.
O homem subiu as escadas da porta principal e esbarrou em um cara fumando um cigarro absorto num livro, debruçado no corrimão. Ele nem se desculpou, só entrou correndo e procurando pela britânica mais linda de Oxford.
Percy vagou pelos corredores abarrotados de livros e mezaninos, cheios de luminárias e candelabros espalhafatosos de aparência luxuosa. Vários grupos de estudantes se sentavam no chão e mexiam nas prateleiras altas usando escadas de correr para alcançar os livros mais exclusivos no alto do salão.
O brilho solar realmente estava se intensificando, passando pelas frestas da abóbada dourada decorada com pinturas de figuras históricas importantes e ilustres. As prateleiras eram intermináveis, além das incontáveis salas de leitura e digitação.
Percy estava prestes a desistir quando viu a bolsa da Gucci em cima de uma das mesas de estudo, do lado de um casaco de lã preto que ele tinha visto no auditório antes da aula acabar, só podia ser ela. Ele rolou os olhos em volta e achou Scarlet pendurada numa das escadas tentando se esticar para pegar um livro grosso no topo de uma das prateleiras.
Ela estava deslumbrante, botas de couro pretas e jeans, suéter cinza por baixo do paletó e cachecol bege cobrindo parte dos cabelos castanhos ondulados da bela srta. Jones.
Percy foi até a mesa e deixou a rosa em cima do teclado do laptop dela e se escondeu atrás de uma das prateleiras, longe da visão de Scar. Ela não demorou muito pra retornar à mesa com o tijolo de capa branca gasta e logo se sentou na cadeira. Scarlet não percebeu o broto de rosa no primeiro momento, mas tomou um susto quando o viu deitado sobre o teclado.
A mulher procurou em volta pelo admirador e até fez menção de se levantar, mas deu de ombros e largou a rosa ao lado da bolsa. Percy foi andando na direção dela e puxou a cadeira que estava de frente pra dela, na mesma mesa.
—Tem alguém aqui? —ela forçou pra não subir o olhar na direção dele, além de um pequeno sorriso que lutava pra tomar o lugar da carranca — Opa, não sabia que tinha namorado. Digo pela rosa — ele apontou pro broto vermelho.
—Porque eu não estou surpresa? — ela olhou pra ele por trás das costumeiras lentes de leitura quadradas. Os olhos cor de âmbar estavam quase pretos, de raiva Percy supôs — Você acha que uma rosa vai tirar o fato de você ter me usado pra se aproximar da sua ex?
O homem deu de ombros — Você não me perguntou, eu não disse. Não achei que fosse importante, já que é minha EX, do verbo não é mais. E, além disso, você também quis sair comigo pra fazer ciúme nela, não vou levar a culpa sozinho.
Scarlet bufou e franziu o cenho, retirando os óculos e apertando os olhos com as pontas dos dedos.
—Como foi que me encontrou? — ela suspirou — Quem me entregou?
—Um passarinho me contou assim que acabou a aula.
—Ah! Um passarinho, claro. Passarus Amelius, suponho — Percy deixou um sorriso escapar. Scar desbloqueou o celular que estava do lado da bolsa e fechou a cara.
—Essa informação me custou um “A” pra ela. Sinta-se importante, arrisquei minha carreira docente só pra te encontrar aqui hoje.
Scarlet ainda assim forçou a carranca, ainda que seus olhos brilhantes estivessem dizendo o contrário.
—E o que você quer? Desembucha — Scar tirou os olhos do celular e cerrou a testa.
—Te lembrar que tem prova amanhã.
—Não se preocupe, eu sou britânica, ser pontual faz parte da minha personalidade — Scarlet foi firme na fala, ela fuzilou Percy com o olhar.
O homem engoliu em seco disfarçadamente, ela sabia ser irredutível como ninguém. Talvez pela linhagem ou nacionalidade, também.
—Ok — Percy se levantou derrotado, ele vestiu o casaco preto e pegou a pasta em cima da mesa — Nos vemos amanhã, Lady Scar.
—Não me chame assim — ela franziu o lábio e sorriu amarela pra ele.
Percy fez um aceno de cabeça e se afastou fazendo uma leve mesura, debochando da raivosa Scarlet. Ele caminhou alguns segundos em silêncio e logo sentiu movimento nas costas, seguido de um puxão no braço esquerdo que quase fez a maleta cair no chão.
Scarlet ficou de frente pra ele, os olhos marejados. Percy largou a maleta no chão e avançou na direção dela, envolvendo-a num abraço apertado — O que houve?
O coração da garota estava acelerado, ela afundou a cabeça no casaco de Percy e soluçou algumas vezes, ele fez carinho nos cabelos castanhos e apoiou o queixo na cabeça dela. Scar chorava copiosamente e não desgrudava do homem, que já estava ficando bastante preocupado.
—É a sua família, não é? — Percy presumiu. A britânica tentou reunir fôlego pra murmurar uma afirmação chorosa — O que eles querem dessa vez? Achei que você tinha deixado os compromissos oficiais de lado.
Scar finalmente engoliu o choro, mas não quebrou o abraço.
—Meu pai — ela balbuciou — Vai ter uma festa no fim de semana, eles vão escolher meu noivo.
Percy levantou uma sobrancelha — Que barbárie, isso ainda existe? Pensei que os Windsor eram progressistas, veja o príncipe Harry.
—E nós somos, mas meu pai não tem herdeiro homem, e minha mãe já não tem idade pra ter outro filho…
—Mesmo assim, eles não tem o direito.
—Tecnicamente — ela fungou o nariz e afastou-se um passo de Percy — Eu fiz um trato com ele, disse que honraria minha família se não encontrasse uma paixão verdadeira. E já estou tão solteira que adotei mais um gato.
Percy cerrou os olhos e coçou o pescoço.
—Eu adoro ser livre, tem tantas coisas que quero fazer, lugares pra visitar — ela deu um tapa na prateleira de livros, alguns exemplares caíram no chão — Não preciso de um homem, pelo menos não um que eu não ame.
—Você está fodida, a meu ver — Percy deu um sorriso amarelo.
—E se você viesse comigo ao jantar? — ela o olhou suplicante — Seria perfeito pra afastar esses filhos de Lordes entediantes.
—Não sei, não — o homem se abaixou pra pegar os livros caídos no chão — Seu pai não é exatamente meu fã. Nós temos um passado, caso esteja esquecendo. Não que eu me orgulhe do que aconteceu.
—Por favor, é só desta vez. Eu fico te devendo uma — Percy tentou desviar o olhar da suplicante Scar, que o analisava como um filhote de cachorro perdido.
—Não me olhe assim, é golpe baixo.
—Isso é um sim, então? — Scar não deu abertura pro homem tentar negar, já foi logo abraçando ele novamente — Está perdoado por causa daquele jogo idiota.
Percy não teve muita escolha a não ser acenar de cabeça quando ela o mirou de olhos arregalados.
—Se serve de consolo, eu não estava evitando você. Honestamente nem fiquei com raiva do jogo — ela deu um sorriso e coçou o nariz.
—E eu arriscando minha carreira pra ver você — Percy terminou de colocar os livros em ordem na prateleira — Eu devia era deixar você se virar com sua família, mas vou te salvar nessa. E você fica me devendo uma, Lady Scar.
Ela deu um soco no braço dele e um sorriso — Obrigado, me avise quando precisar ser salvo.
O telefone de Scarlet vibrou no bolso, ela rolou os olhos ao ver o chamador. A garota murmurou algumas respostas monossilábicas e desligou na primeira oportunidade.
—Era minha mãe — ela guardou o celular no bolso do paletó cinza — Nosso alfaiate vai recebê-lo amanhã pela manhã. Não se atrase.
—Mas eu nem vi você falando que iria levar um convidado — ele ergueu uma sobrancelha.
—Ignoremos os detalhes — Scar e Percy foram andando na direção da mesa de estudos — Já tinha dito à ela que ia levar uma pessoa… E como você já aceitou, vou dispensar os outros dez que estavam na reserva, implorando por uma chance de sair comigo.
Ela sorriu sarcástica e juntou as coisas de estudo, deixou a rosa por último em cima da mesa.
—Você realmente sabe ser romântico, estou surpresa. Quando namoramos de verdade, eu nunca tinha presenciado esse teu lado.
—Não se acostume — Percy retribuiu o sarcasmo, ela mostrou língua e fechou a cara.
—Jackson, não se atrase. Estou falando sério.
Percy fez uma mesura exagerada e por pouco uma cadeira não voou na direção dele. O homem ficou observando a bela britânica se despedir com um leve aceno e desaparecer por entre as prateleiras de livros com seu andar gracioso.
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