As Desventuras e Romances de Percabeth
63 12 — O Alfaiate
Notas iniciais
12 — O Alfaiate
Percy estava começando a acreditar que Scarlet havia exagerado sobre a importância daquele jantar.
A crença durou exatamente até ele entrar na alfaiataria.
O estabelecimento ocupava um prédio antigo próximo ao centro histórico de Oxford, com paredes revestidas de madeira escura, tapetes vermelhos impecavelmente alinhados e fotografias emolduradas de políticos, empresários e membros da aristocracia espalhadas por todos os cantos. Um relógio antigo marcava os segundos com uma precisão irritante enquanto Percy observava um manequim vestido com um fraque que provavelmente custava mais do que seu primeiro carro.
Scarlet já o aguardava.
A britânica estava sentada próxima à janela, as pernas cruzadas elegantemente enquanto folheava uma revista qualquer. Ela ergueu os olhos quando ouviu a porta abrir e imediatamente consultou o relógio de pulso.
— Dois minutos atrasado — Scarlet fechou a revista e lançou um olhar acusador na direção dele.
— Quatro semáforos vermelhos seguidos — Percy retirou as luvas de couro enquanto caminhava até ela — Claramente uma conspiração.
— Claro. Oxford inteira acordou hoje decidida a sabotar você.
— Finalmente alguém entende.
O sorriso dela apareceu por uma fração de segundo antes de desaparecer.
Infelizmente para Percy, o senhor Whitmore não parecia compartilhar do mesmo senso de humor.
— Senhor Jackson — o alfaiate surgiu por uma porta lateral segurando uma fita métrica — Por favor.
Percy observou o homem por alguns segundos.
— Ainda dá tempo de eu ir de jeans?
— Não — responderam Scarlet e Whitmore ao mesmo tempo.
— Eu me sinto encurralado.
A britânica se levantou do sofá.
— Você está fazendo drama.
— Ainda nem comecei.
Os quarenta minutos seguintes foram suficientes para convencer Percy de que alfaiates britânicos eram uma espécie particularmente cruel de ser humano.
— Levante o queixo — Whitmore ajustou a gola do paletó provisório enquanto circulava ao redor dele.
— Assim? — Percy ergueu a cabeça alguns centímetros.
— Menos.
O americano obedeceu.
— Assim?
— Demais.
— O senhor precisa se decidir.
Scarlet levou a xícara de chá até os lábios para esconder uma risada.
— Não incentive — Percy apontou para ela sem sair da posição.
— Eu não disse nada.
— Seu rosto disse.
— Você não pode provar.
Whitmore ignorou a discussão e passou a fita métrica pelos ombros dele.
— Abra os braços.
— Já estão abertos.
— Mais.
Percy suspirou.
— Já participei de reuniões diplomáticas menos cansativas.
— Dramático — Scarlet apoiou o queixo na mão enquanto observava a cena.
— Diplomatas ao menos oferecem bebida.
— Está comparando um alfaiate a ministros estrangeiros?
— Estou dizendo que eles eram mais simpáticos.
O senhor Whitmore sequer piscou.
— Senhor Jackson, permaneça imóvel.
— Eu estou imóvel.
— Não está.
— Estou.
— Não está.
Scarlet finalmente perdeu a batalha contra o próprio autocontrole e soltou uma gargalhada.
O som arrancou um sorriso involuntário de Percy.
Era bom vê-la daquele jeito.
Na biblioteca ela parecia prestes a desabar a qualquer momento. Agora estava mais próxima da mulher que ele conhecera anos atrás, aquela que transformava qualquer situação numa disputa silenciosa sem que ninguém percebesse.
— Casaca ou fraque? — perguntou Whitmore enquanto consultava algumas anotações.
— Qual a diferença? — Percy inclinou a cabeça.
Scarlet fechou os olhos imediatamente.
— Não pergunte isso.
— Por quê?
— Porque ele vai explicar.
Whitmore realmente explicou.
Durante quase cinco minutos.
Percy ouviu tudo em silêncio respeitoso até o homem terminar.
Então voltou-se para Scarlet.
— Entendi exatamente metade.
— Isso já é um progresso.
— Você é cruel.
— Eu sou britânica.
— Mesma coisa.
Ela pegou uma almofada do sofá e ameaçou arremessá-la.
Quando Whitmore finalmente apresentou o resultado final, Percy precisou admitir que o homem era um artista.
O tecido escuro encaixava perfeitamente nos ombros, o corte era elegante sem parecer exagerado e, pela primeira vez naquela manhã, Scarlet pareceu genuinamente satisfeita.
— Então? — Percy abriu os braços.
Scarlet o observou por alguns segundos.
— Está aceitável.
— Aceitável?
— Não se acostume com elogios.
— Isso foi um elogio?
— Foi o mais próximo que você vai receber hoje.
O céu permanecia cinzento quando deixaram a alfaiataria, mas alguns raios de sol finalmente começavam a atravessar as nuvens sobre Oxford. Os dois seguiram pela calçada em direção ao centro histórico enquanto estudantes passavam carregando livros e mochilas.
Percy percebeu o silêncio dela primeiro.
Scarlet costumava preencher qualquer caminhada com comentários sarcásticos ou observações aleatórias. O fato de estar quieta dizia mais do que qualquer conversa.
— Está me olhando desse jeito por quê? — ela perguntou sem encará-lo diretamente.
— Estou tentando descobrir uma coisa.
— Isso nunca termina bem.
— Você realmente está assustada.
O sorriso que ela carregava desde a saída da alfaiataria desapareceu lentamente.
Por alguns segundos, Scarlet observou apenas o movimento da rua.
— Um pouco.
— Um pouco?
— Talvez mais do que um pouco — ela admitiu em voz baixa.
Percy diminuiu o passo para acompanhá-la.
— Achei que você não tivesse medo de ninguém.
— Normalmente não tenho.
— Então por que agora?
Scarlet observou um grupo de estudantes atravessar a praça antes de responder.
— Porque desta vez não depende de mim.
Aquilo arrancou uma sobrancelha arqueada do americano.
— Desde quando Scarlet Jones deixa outra pessoa decidir sua vida?
— Desde que essa pessoa me criou.
Percy ficou em silêncio.
Era raro ouvi-la falar do pai daquela forma. Mais raro ainda vê-la sem uma resposta pronta.
— Vai ficar tudo bem — disse ele por fim.
— Você não tem como saber.
— Não.
— Então pare de dizer isso.
— Certo.
Ela caminhou alguns metros antes de lançar um olhar de lado para ele.
— Mas foi gentil da sua parte.
— Não espalha por aí. Tenho uma reputação a manter.
— Tarde demais — Scarlet sorriu pela primeira vez desde que haviam deixado a alfaiataria — Já vi você carregando uma rosa pela cidade inteira.
— Foi um gesto calculado.
— Claro que foi.
— Funcionou, não funcionou?
A britânica fingiu refletir.
— Talvez.
— Talvez é praticamente um sim.
— Não abuse da sorte, Jackson.
Eles chegaram à esquina onde precisariam seguir caminhos diferentes. Scarlet ajustou a bolsa no ombro e observou o movimento da rua.
— Amanhã.
— Amanhã.
— E não se atrase.
— Você realmente acredita que eu faria isso?
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Sim.
— Justo.
Pouco depois do almoço, Percy caminhava entre os prédios da universidade quando o celular vibrou no bolso do sobretudo.
Annabeth.
Ele arqueou uma sobrancelha antes de abrir a conversa.
Annabeth: Preciso de uma opinião.
Percy: Isso já é um avanço.
A resposta demorou alguns segundos.
Annabeth: Sobre arquitetura.
Percy: Ah. Agora faz sentido.
Annabeth: Você acha que o neoclassicismo inglês absorveu mais influência romana ou renascentista?
Percy sorriu enquanto atravessava o pátio principal.
Percy: Depende do arquiteto.
Annabeth: Resposta covarde.
Percy: Resposta correta.
Os três pontinhos apareceram na tela.
Annabeth: Revisei meu artigo.
Percy: E?
Annabeth: Você tinha razão sobre a bibliografia.
Percy parou no meio do corredor.
Percy: Vou tirar print disso.
Annabeth: Não se acostume.
O sorriso permaneceu em seu rosto por vários segundos depois que guardou o celular.
Já passava das dez da noite quando Percy voltou para a cobertura.
O dia inteiro parecia ter sido consumido por aulas, reuniões e preparativos para o fim de semana. Ele abriu a porta esperando encontrar o apartamento vazio, mas ouviu vozes vindas do terraço.
Ao atravessar a sala encontrou uma mesa tomada por livros, folhas soltas, réguas, desenhos técnicos e canecas de café.
James estava inclinado sobre uma planta arquitetônica.
Annabeth ocupava a cadeira ao lado.
Os cabelos loiros estavam presos num coque improvisado enquanto ela analisava um conjunto de desenhos espalhados à sua frente.
Foi ela quem percebeu a presença dele primeiro. Os olhos cinzentos encontraram os de Percy por apenas um segundo antes de voltarem para os papéis, mas aquilo já era mais atenção do que ele havia recebido durante toda a semana.
— Achei que eu morasse aqui — Percy deixou as chaves sobre a bancada da cozinha externa.
James ergueu os olhos imediatamente.
— Achei que estivesse no laboratório.
— Achei que você estivesse no estúdio junto com os outros…
Percy puxou uma cadeira vazia e observou a bagunça espalhada pela mesa.
— O que estão fazendo?
— Tentando salvar a nota dela — James apontou para uma pilha de livros aberta.
— Mentira — Annabeth ergueu os olhos sem largar o lápis — Estou revisando meu ótimo artigo novamente.
— Viu? — James apontou para ela — É exatamente esse tipo de arrogância que me mantém motivado.
Percy deixou escapar uma risada. Annabeth tentou ignorá-lo.
Tentou.
— O artigo ficou bom? — ela perguntou sem encará-lo diretamente.
— Ficou.
— Você leu tudo?
— Claro.
— Mentira — Annabeth apoiou o cotovelo na mesa e estreitou os olhos.
— Li as partes importantes.
— Então não leu tudo.
— Tecnicamente não. Mas você está revisando novamente, não é? — Percy foi até a geladeira e retirou uma jarra de suco de laranja.
James observava a conversa com um sorriso amarelado.
— Vocês dois sempre foram assim?
— Sim — responderam os dois ao mesmo tempo.
O silêncio que veio depois foi breve, mas diferente dos outros daquela semana. Não era exatamente confortável, porém também não carregava a mesma tensão dos últimos dias. Pela primeira vez desde a festa, ninguém parecia procurar uma desculpa para ir embora.
Annabeth voltou aos desenhos. James retomou as anotações. Percy observou os dois trabalhando por alguns instantes e teve a estranha sensação de que as coisas estavam começando a voltar aos trilhos.
Ou pelo menos tão próximas disso quanto suas vidas permitiam.
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