As Crônicas dos Semideuses: The Lost Mermaid
11 Capítulo XI -- O Plano
Notas iniciais
Capítulo XI
??? – ???
Jéssica PoV’s
Novamente com dor de cabeça, sério, isso tá ficando repetitivo. Percebi que eu estava sentada no canto da cela. Levantei um pouco minha cabeça, o suficiente para ver um copo com água ao meu lado. Peguei e bebi quase tudo num gole só, minha garganta estava seca como jamais esteve, assim que acabei, respirei fundo e olhei em volta. Eu estava na cela que eu tinha visto, notei uma figura ao meu lado me olhando. Era um garoto, eu o conhecia, era do Acampamento... Mas ele estava com machucados espalhados por todo canto, seu rosto tinha alguns arranhões, nada que parecesse sério, mas o resto estava bem ruim, não sabia como ainda não havia infeccionado. Apesar disso, ele continuava andando normalmente.
– Eles vão trazer comida daqui a pouco, eu acho. Consegue se levantar? – assenti – Quem é você?
Pensei em retrucar, não estava feliz com a situação, mas tentei sorrir um pouco quando lembrei do que estava fazendo ali, fiz uma careta amigável, ao menos, penso que foi assim.
– Jéssica. E você é Jean, não é?
Ele pareceu confuso.
– Como sabe disso? Eles te falaram o que sobre mim?
– Nada. Eu te conheço do Acampamento.
Ele se aproximou de mim, ainda meio receoso.
– Nunca que te vi por lá. Eu repito, como me conhece?
– Lógico que nunca me viu por lá, eu não sou do tipo que sai muito, nem do tipo que vive em missões que nem você. – ele se sentou ao meu lado, ainda desconfiado, tentei parecer simpática e estendi minha mão – Filha de Hades.
Ele olhou pra minha mão e riu.
– Se sabe quem sou, sabe de quem sou filho. Estamos em uma guerra e numa guerra não se faz amigo, se faz aliado. Se puder contar com você pra sair daqui, ótimo. Se não, ótimo também. Mas pelo seu estado, acho que você não está exatamente do lado deles, não é? – assenti – O que está fazendo aqui?
– Estou em uma missão. Eles querem uma informação que eu não tenho. – ele me encarou curioso.
– Sereia?
– Sereia.
Suas feições endureceram antes de praguejar.
– Desgraçados. Eles estão passando dos limites.
– O que?
Ele se levantou.
– Existe uma razão para só eu saber a localização. Sabe, eu já vi muita coisa garota. Coisas que você nem sonha. Morte, guerra, dor. Eu posso suportar. Eu sei disso. Qualquer informação que me dê vai permanecer comigo. – ele passou a mão pelos cabelos, tirando a poeira deles – Não vê? – ele me encarou – É por isso que pegaram você, eles estão ficando sem tempo. Das duas uma, ou eles acham que você tem a informação, ou... Ou eles planejam chantagear, uma vida pela informação. Ah, eles me enganaram uma vez, são bons. Me pegaram em um momento desprevenido, mas chantagem emocional não vai funcionar comigo. – ele correu pra porta e gritou – Estão me ouvindo? Não vai funcionar! – deu um soco nela logo depois e se aproximou de mim, ficando frente a frente, se abaixou e sussurrou: – Eu sei que acabou de chegar, mas é hora de agir. Não vou esperar mais um segundo sequer, logo eles estarão perdidos sem mim, eu tenho que sair daqui e avisá-los. Você está comigo?
Ainda meio tonta com o raciocínio rápido, tentei me nortear. Espera, como assim? Eu mal havia chegado, ele viu tudo àquilo só porque me botaram na cela dele?
– Você tem um plano? – ele revirou os olhos.
– É claro que eu tenho.
Naquele momento eu não vi um garoto, não, eu vi uma máquina de guerra, trabalhando sobre pressão, sabendo exatamente o que fazer, como uma rotina, ou como se tivesse um manual de instruções plantado em sua cabeça, bem nas configurações de fábrica. Eu olhei bem dentro dos seus olhos e vi fogo. Ele estava determinado, iria sair com ou sem a minha ajuda. Eu não podia permitir isso. Eu tinha muita coisa em jogo. Eles a pegaram, eu não tinha escolha. Sorri confiante.
– Eu te ajudo.
Ele sorriu, quase como um psicopata.
– Então eu vou te contar o plano. Mas saiba, eu não sou idiota, se eu ver que vai me trair, eu te largo aqui para apodrecer com eles. Entendidos? – assenti – Vamos começar.
Não era tão ruim quanto parecia. Jean se sentou novamente ao meu lado e começamos a conversar baixo. Ele havia juntado muitas informações desde que chegou aqui. Todos os dias, a 1 da manhã, e provavelmente ao meio dia, eles viriam trazê-lo comida, duas vezes o levaram para “limpeza pessoal” (O que explica o porquê das feridas não terem infeccionado) e as torturas chegavam em um intervalo de 3 horas, porém, ele me contou, eles vem diminuindo, eles estão ficando sem tempo. Ele me contou o plano, era perfeito. Ele passou a falar normalmente ao invés de sussurrarmos.
– Daqui à uma hora eles vão voltar para pegar um de nós dois. Eu não tenho certeza qual de nós será. Temos que agir antes de sermos levados. Senão estaremos machucados demais para lutarmos. Quando cheguei aqui, ainda estavam me levando, passamos pela sala das armas, não é muito longe daqui, se eu puder chegar até lá...
E a porta se abriu com um estrondo e uma daquelas mulheres, que Jean disse ser uma súcubo, entrou. Ela veio até nós.
– Fez amizade com a novata? Que bom pra você garoto. Está nos facilitando bastante. – a mulher apertou a minha bochecha – É um pecado machucar uma lindeza que nem você, eu concordo. Mas fazer o que fofa, ordens são ordens.
Ela me levantou pelos braços e começou a me arrastar para fora, fingi me debater, o suficiente para parecer convincente. Jean me olhou como se mandasse ficar calma, foi o que eu fiz. E ela fechou a porta, me levantando pelo braço logo depois e me levando para longe da porta.
– Ok garota, eu vi vocês conversando. Desembucha.
Bufei.
– Por que eu deveria te contar?
– Você perdeu a noção do perigo? – ela me segurou pelo cabelo – Não se esqueça do que nós temos. Você vai se arrepender muito se nos atrapalhar.
Puxei sua mão do meu cabelo com força.
– Quem perdeu a noção é você. Eu estou aqui porque precisam de mim. Eu cansei de me tratarem assim, se querem respostas, é melhor fazer do meu jeito, se não, podem se contentar em voltar a estaca zero.
Ela rosnou, seus dentes pontiagudos aparecendo ameaçadoramente.
– Não me provoque, podemos precisar de você, mas não significa que estamos em desvantagem. Seu papai não está aqui para te proteger, criança. Muito menos proteger a ela como da última vez. Ele nem sabe onde você está.
– Não faça nada com ela, está me ouvindo?
– A criança quer proteger a mamãe, parece que os papéis se inverteram, não é? – ela zombou – Vamos, não tenho tempo para isso.
– Ele quer fugir, já tem todo o plano, ele... Ele fez tudo isso em menos de 1 hora, como isso é possível? – só uma palavra me surgiu em mente: Ares. – Isso não vem ao caso. Ele quer sair na próxima vez que vierem trazer alguma coisa, vocês chegaram bem a tempo, não daria tempo de avisar se o plano já tivesse começado. Ele vai nocautear o guarda e vamos passar para a sala das armas. De lá, será tudo mais fácil. Eu disse a ele que não podia usar minhas sombras aqui, seria muito arriscado sem saber pra onde iriamos, ele acreditou.
Ela pareceu pensar e logo deu um sorriso
– Vamos deixar vocês passarem até a sala de armas, quando ele tiver uma faísca de esperança, o prendemos na porta final. É essencial que você passe primeiro. Ele verá que você é a única que tem chance de sair e te falará o local. A partir daí, você nos diz e nossos exércitos vão ao local. – ela olhou para mim – Brilhante, não?
Assenti tediosamente.
– Ótimo, vamos voltar, mas antes. – ela desferiu um tapa em meu rosto. – A sua vinda aqui não foi inútil, serviu pra me distrair afinal.
Fuzilei ela com meus olhos. Isso vai acabar, ah se vai. Ela me arrastou pelo braço de volta pra cela, deixando mais alguns machucados por causa da unha dela. Quando abriu a porta de ferro, vi que Jean estava em pé, olhando para ela. A súcubo me jogou no chão, me deixando com alguns arranhões, mas nenhum dos machucados foi sério, nada comparado ao estado de Jean. Ele esperou ela fechar a porta e então veio até mim, me ajudando a levantar. Ele fez um sinal com os olhos, indicando a porta, eu assenti. Fomos para o final da cela, sentamos e esperamos.
– Está tudo saindo como planejado. Lembra-se de tudo? – murmurei um “sim” sem muita vontade. Eu estava triste e zangada, e principalmente confusa. Droga, eles tinham que botar minha mãe na situação não é? Jean me olhou desconfiado – Hey, o que foi? Eu já disse que não vou mudar o plano. Eu não quebro minha palavra, fica calma.
– Tudo bem. – tentei parecer firme, mas acho que não funcionou muito bem. Respirei fundo – Então, meio dia eles vem né?
– Assim espero. Estou aqui a menos de um dia, é difícil deduzir as coisas sem uma base.
Sorri um pouco.
– E como você sabe que está aqui a menos de um dia? – ele me olhou de canto de olho. Estávamos sentados de frente pra porta, eu estava mais confortável, com a cabeça encostada na parede, mas Jean parecia um cão de vigia, com os joelhos dobrados e os braços apoiados neles.
– Eu tenho um sistema interno, e aquilo – ele apontou para uma pequena janelinha no topo da cela. --, aquilo me diz as horas. Eu passei. 10 horas aqui. É quase meio-dia, mais ou menos, ao julgar pela posição do Sol. Logo logo eles chegam aqui. É aí que vamos aproveitar. – ele deu uma pausa e olhou pra mim – Tem certeza que consegue fazer isso?
– Hmpf – bufei, mas sorri – Não sou frágil. Posso não ser aprendiz de Rambo, mas eu dou conta.
Ele levantou uma sobrancelha e deu um sorriso de canto. Ouvimos uns barulhos vindos do corredor e nos levantamos, vi Jean indo em direção à porta e ficando ao lado contrário. Ela se abriu, revelando uma das súcubos novamente. A criatura entrou, vindo em minha direção. Em um lance rápido, questão de segundos, Jean estava atrás dela, segurando seu pescoço, prendendo-a em um Mata-Leão. Ela começou a sufocar, mas ele só apertou o suficiente para desmaia-la. Olhamos de um lado a outro quando passamos pelo corredor, fechamos a porta antes de sair. Corremos silenciosamente em direção à direita até a sala das armas. Mais duas estavam lá dentro. Avistei minha pequena espada em cima de uma mesa de metal, e minha adaga do outro lado. Havia dois socos-ingleses no meio. Jean me deu um sinal, falando para eu entrar. Eu era pequena e rápida, esguia, conseguia entrar ali sem ser vista, apesar de não ter necessidade, já que, para as súcubos, aquilo também fazia parte do plano.
Corri para a mesa me abaixando ao máximo. Alcancei minha adaga, o que, no momento, era tudo o que eu precisava. Me esgueirei pelo canto da sala sobre o olhar de Jean e acertei uma das súcubos pelas costas, vendo ela se desfazer em pó dourado. Não dei tempo nem chance para a outra, acertando ela na altura dos ombros, minha arma passou lisa pelo corpo dela, enquanto o pó acompanhava o fio da adaga. Olhei para Jean no portal, sorri sarcasticamente e murmurei alto o bastante para que ele ouvisse “não tão indefesa quanto achava né?”, recebendo uma sombra de sorriso em troca. Ele entrou e pegou os socos-ingleses enquanto eu pegava minha espada na bainha e encaixava na cintura. Segurei minha adaga com mais firmeza e olhei para Jean, que me olhava transmitindo firmeza, tomei-a para mim. Era agora, a grande hora.
Saímos da sala e voltamos para a esquerda, direção contrária à saída. Eu não sabia se estavam me observando, mas se estivessem, com certeza estariam me xingando.
Encontramos uma porta de madeira mais a diante, depois de matar uma guarda súcubo. Apesar de Jean estar ferido, ele não hesitou em arrombar a porta, que estava trancada. E lá dentro encontrei ela. Minha mãe. Com o rosto machucado, mas bem, amarrada, mas saudável, era isso que importava para mim. Corremos até ela, seus olhos cheios de lágrimas e de felicidade, eu disse que ia ficar tudo bem e começamos a desamarrar. Antes que terminássemos...
– O QUE FAZ AQUI PIRRALHA?! – ouvi um grito furioso vindo da porta. A súcubo principal estava ali. Ela ia nos atacar, era questão de segundos.
Fiz o que achei melhor, peguei a mão de Jean e segurei forte, fiz o mesmo com minha mãe, então gritei:
– NÃO SOLTEM.
E os levei para minhas sombras.
Fale com o autor