As Crônicas dos Semideuses: The Lost Mermaid
6 Capítulo VI -- Idiotas, Chamas e Canções.
Notas iniciais
??? -- 23:35
Safira POV's
Estava escuro, mas víamos tudo pelo brilho das estrelas e da lua. Ainda estávamos perto da praia, mas Davi e Jean tinham trago algumas coisas para passarmos a noite ali, seria imensamente ruim, mas eu simplesmente não conseguia me levantar e não queria nenhum dos dois me carregando. Minha perna doía incessantemente, uma queimação irradiava da mordida da Hidra, cujo os dentes ultrapassaram a bota e se fincaram na canela e na panturrilha, até a parte inferior da coxa, onde as garras pegaram de raspão, deixando só um arranhão meio superficial. Eu tirei a bota e cobri a perna com um pedaço de pano rasgado – que foi trocado por uma bandagem logo depois – visando parar o sangramento e tornar a dor mais suportável, mas era como se houvesse fogo correndo pela extensão dos machucados. Davi se agachou ao meu lado, afastou a ponta do esparadrapo do olho – ele estava com um curativo do meio da testa até a parte superior da orelha esquerda – e estendeu uma garrafa de água pra mim, coisa que ele encontrou quando entrou no submarino preso na areia. Agradeci tentando sorrir brevemente, mas logo senti uma pontada forte na coxa, o que fez com que eu mordesse os lábios para abafar um grito. Jean olhou para mim rapidamente.
– Tsc, deplorável – o encarei com raiva e ele levantou – Vou pegar mais bandagens para vocês dois, assim que levantarmos amanhã, partiremos de volta ao submarino, não podemos atrasar a busca.
Davi irritou-se:
– Você não vê o estado dela?
Jean o encarou com os olhos fulminantes:
– Vejo, está machucada, cuidaremos dela e partiremos para achar a chave. – ele olhou de relance para a minha perna e depois seus olhos se focaram em mim. Ele se abaixou e falou num tom mais cuidadoso: – Sei que está quase insuportável e que levantar daí parece uma missão impossível, mas temos um dever a cumprir. Não podemos nos dar ao luxo de atrasos, e você sabe disso.
Assenti com a cabeça firmemente e vi ele se levantar e andar em direção ao submarino. A mordida começou a arder mais forte e eu pressionei a mão em cima dela. Davi se abaixou novamente e olhou para mim.
– Tem certeza que conseguirá andar?
Murmurei um "uhum" rapidamente, antes que trincasse os dentes pela dor.
– Apesar do jeito bruto, ele tem razão, devemos prosseguir... – ele olhou para o curativo, agora praticamente ensanguentado, mas desviou o olhar e se levantou.
Ele ficou olhando para a direção em que Jean tinha ido, até que ouvimos passos vindo do outro lado. Surgiu uma garota, os cabelos pretos bem curtos e desalinhados, olhos em um azul elétrico e pele meio bronzeada, como se passasse dias no sol. Ela vestia trajes diferentes dos normais – parecia ser feito para caçar, ele protegia bem o corpo e as partes que ficariam vulneráveis com roupas comuns – e possuía um arco preso em seu ombro.
– Veja o que encontrei...
Olhei para ela meio assustada, até que a reconheci.
– Thalia?
Ela sorriu para mim e disse:
– É sempre bom vê-la novamente, mesmo que esteja remendada.
Dei um sorriso fraco, mas a perna ardia cada vez mais. Jean chegou com passos fortes mas parou assim que viu a caçadora, logo revirou os olhos e estendeu uma caixa toda branca para Davi, que a pegou sem exitar. Eu poderia pular de felicidade ao ver isso, se não me sentisse tão dolorida e cansada.
– Você aqui também? Já não basta um? É por isso que está desse jeito Safira, dois homens em um time não funciona.
Jean bufou:
– Não me venha com esse discurso feminista, se ela tivesse tomado cuidado, não teria sido mordida pela Hidra.
Thalia ficou vermelha de raiva, depois branca feito papel e olhou para mim.
– A quanto tempo você está com esse machucado?
Tentei responder, mas só o que saiu foi um tipo de grunhido, agora não estava queimando como antes, estava pior, como se eu estivesse pondo a perna toda no fogo e não conseguisse tirar. Thalia arrancou o curativo de cima da minha perna, o que me fez dar um gemido sôfrego e prendeu a respiração por um momento.
– Está pior do que eu imaginava. Droga, vocês garotos não sabem cuidar de nada? – os dois a olharam intrigados. – Veneno de Hidra, seus idiotas, como deixaram ela chegar a esse ponto?
Jean se alarmou e pareceu querer falar algo, mas eu não sei ao certo, minha visão começava a ficar embaçada. Thalia o interrompeu antes que começasse.
– Não adianta falar nada agora, vamos, tragam ela... o acampamento das caçadoras está perto... lá... nós... ermos...
Mas sua voz parecia tão distante e minhas pálpebras estavam muito pesadas para manter meus olhos abertos, fui fechando-os aos poucos, parecia que eu não dormia a décadas. Senti me levantarem e a última coisa que eu consegui ouvir e identificar foi "Fique viva". Depois foi só a escuridão..
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Mundo Inferior -- ???
Jéssica POV's
Eu me senti mal por ter ficado tão enciumada, e ter tradado mal a filha de Zeus. Mas o que eu deveria fazer? Sentar e assistir um possível desastre acontecer? Jamais. Eu tinha que ter certeza de que ela era capaz de suportar-nos e de ser leal.
– Então, como está se sentindo? – tentei ser um pouco mais simpática.
Ivana me olhou meio que em alerta. Sorri um pouco com isso, eu devo ter assustado ela, dá pra ver pelos olhos. Ela pareceu meio relutante mas respondeu:
– Eu estou bem, só um pouco aérea pela viagem... Diferente.
Olhei-a sorrindo.
– Como meu irmão disse, uma hora você se acostuma, mas não garanto que vá ser assim de repente. No início, eu me sentia bem tonta quando chegava no local, na verdade, eu estava meio desestabilizada quando chegamos hoje, mas eu aprendi a me recuperar rápido.
Ivana retribuiu com um pequeno sorriso. Ela olhou envolta do quarto e depois para mim.
– Você que decorou? – assenti – Gosta daqui?
Hesitei um pouco ao responder a essa. Era bom morar aqui no Mundo Inferior, eu passei meses aqui, treinando com Douglas, mas ao mesmo tempo... Era solitário. Eu me sentia protegida, é claro, mas era tudo tão triste, tão vazio... Por isso eu passava meus dias no Acampamento, todos os campistas, as emoções de cada um, tudo me fazia sentir tão...Viva.
Ivana me olhou com carinho.
– Eu entendo.
Olhei-a alarmada.
– O que?
– Eu te entendo – ela repetiu – Você gosta daqui, é bom e você sabe que tem um lugar para voltar caso queira, você só sente que não é esse o lugar que te faz feliz, não é essa a sua casa. – ela terminou com um sorriso mínimo e seu olhar pareceu meio distante – Eu também sentia isso na minha antiga casa, até que eu encontrei o Acampamento Meio-Sangue. Lá é onde eu posso ser quem eu sou, sem medo que vejam meus poderes, ou de me acharem estranha.
Eu a olhei relutante, ela realmente entendia. Ivana sorriu e eu retribuí.
– Acho que começamos com o pé esquerdo antes. Podemos tentar novamente? – eu assenti energicamente e ela estendeu a mão – Olá, meu nome é Ivana.
– Jéssica – apertei sua mão levemente.
A porta foi aberta, acompanhada de algumas batidinhas.
– Posso entrar? – vi Douglas botar a cabeça para dentro do quarto. Fiz que sim com a cabeça e ele entrou, fechando a porta logo em seguida. – Papai concordou com a proposta de nos ajudar. Ele nos dará passe livre desde o Esílio e até a entrada do Tártaro. Perséfone me parou assim que saí da sala. Ela perguntou a resposta que ele deu e propôs ajudar.
– Perséfone quer nos ajudar? Por que isso não me soa como algo bom?
Ivana nos olhou em dúvida.
– Ela não vai com a gente desde que me entendo por gente. Ela acha que o papai gosta mais de nós do que dela e tem um ciúme danado.
– Mas é verdade? – ela pareceu interessada
– Nada! Papai daria o mundo e mais um pouco por ela. Só ela que não vê.
Ivana riu um pouco, mas se levantou em seguida.
– Nós vamos agora?
Olhei para Douglas e praticamente começamos uma guerra com os olhares, uma guerra que eu venci.
– Nós vamos ficar aqui hoje, planejar e amanhã quando acordarmos, sairemos para a procura. No momento, ficamos aqui no quarto até o horário do jantar, quando voltarmos, Douglas para o quarto dele e você dormirá aqui.
Levantei-me e puxei Douglas até o centro do quarto. Sentei-me e indiquei para os dois fazerem o mesmo.
– O que você está fazendo? – Ivana me perguntou.
– Quero mostrar algo a vocês – olhei para Douglas e ele sorriu, meio que me encorajando, seus olhos passando para um azul escuro. Passei meu olhar para a filha de Zeus. – Não se preocupe, eu tenho total controle, nada vai te machucar.
Meio relutante, ela se sentou, agora nós formávamos um tipo de roda. Estendi a minha mão para o chão e me concentrei. Chamas negras pequenas brotavam do chão e trepidavam movendo-se de um lado para o outro. Não tive dificuldade em fazer as chamas crescerem e rodear-nos. Ivana olhou-as encantada e Douglas deu um sorriso orgulhoso. Com um movimento de mão, fiz com que elas se aglomerassem no meio, num outro gesto, elas formaram pequenas caveiras no chão. Fiz alguns desenhos a mais, me divertindo com a facilidade daquilo, até que, em um movimento firme, fiz com que elas subissem se extinguissem como pequenos fogos de artifício.
– Perfeitas. Me admira que tenha conseguido tanto em tão pouco tempo. – sorri para ele. – Mas não poderia ter esperado menos de você.
Ivana nos olhou, ela ainda parecia tão admirada quanto antes.
– Isso é uma habilidade de todos os filhos de Hades? – olhei para Douglas, num sinal de que ele poderia explicar.
– Sim, isso é, mas poucos sabem. É um tipo de poder esquecido. Nós, filhos de Hades, costumávamos aprender isso bem cedo, mas com o tempo, a maioria desistia, pois achava uma habilidade sem valor, pois não sabiam controlá-la para o ataque. Encontrei um livro que falava sobre isso no verão passado e mostrei para Jéssica. Ela se interessou e bem... Acho que ela descobriu como usar. É claro que eu também tentei aprender um pouco, só por curiosidade – ele balançou os dedos e algumas chamas cobriram seus dedos – Mas Jéssica se dedicou bastante a isso. Acho que ela foi mais longe com esse poder do que qualquer outro filho de Hades já foi.
– Isso que eu fiz foi só uma amostra, algo só para apresentação. Não iria te machucar a menos que eu quisesse. – olhei de relance para Douglas – O que eu não quero, só para deixar claro.
Ivana riu levemente. Ouvimos algumas batidas da porta e uma mulher, loira e alta, veio ao nosso encontro. Era Deméter.
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Montes Tamalpais, 19:45
Kimberly POV's
Maria estava na árvore e Adriano no chão, tentando achar algum vestígio de magia. Eu estava tão preocupada com o que estava acontecendo, com toda a questão da chave e pelo fato de estarmos tão perto de Atlas... Será que a Safira estava bem? Ela era como uma irmã para mim, desde que eu a vi pela primeira vez. Tínhamos 12 anos quando a conheci. Eu havia acabado de chegar no acampamento, nem sabia quem era o meu pai. Ela era tão quieta, e tinha um chalé inteiro só para ela! Inicialmente, eu só a via de vez em quando, normalmente quando era o horário da refeição, até que eu decidi puxar assunto com ela. Safira era quieta, na maior parte do tempo, mas aos poucos foi se abrindo, até que finalmente conversávamos direito. Tentei me aquietar dentro do meu saco de dormir, mas simplesmente não consegui. Eu estava muito agitada e preocupada para simplesmente desligar. Adriano entrou na barraca, parecendo cansado.
– Ainda acordada? – assenti – Não consegue dormir não é? – fiz o mesmo sinal que antes. Ele veio se sentar ao meu lado. – Tem algo te incomodando?
– Preocupação. Estou muito agitada para dormir.
Ele riu abafado.
– Sei como é. Passei várias noites assim, devido a certas coisas – ele pareceu incomodado de lembrar.
Tentei desvia-lo disso:
– E como você conseguia dormir então?
Ele me olhou de maneira diferente.
– Normalmente, eu... Ah, deixe, é algo bobo.
Ele se preparou para levantar, mas eu segurei seu pulso. Eu sorri para ele, até que, meio indeciso, ele sorriu de volta.
– Pode falar.
Ele hesitou por um momento.
– Eu lembrava uma música que eu ouvi quando criança. Não lembro ao certo quem cantava essa música, eu só lembro de alguém sussurrando ela quando eu não conseguia dormir. – olhei-o, esperando que começasse a cantar. Ele deve ter percebido isso, porque ficou meio vermelho e desviou o rosto – E-eu só lembro de alguns trechos, não é nada demais, eu nem acho que isso vá ajudar.
Sorri um pouco e disse com a voz pedinte:
– Cante, garanto que pode me ajudar.
Ele pareceu pensar por um momento. Respirou fundo e, sem olhar para mim, começou a cantar baixinho. A voz dele não era de nenhum cantor, mas era bonita e as vezes bem melodiosa. Senti os efeitos do sono começarem a me alcançar e fui fechando os olhos a tempo de ouvir uma parte do refrão:
"Someday, somehow
I'm gonna make it all right, but not right now"
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