As Crônicas dos Semideuses: The Lost Mermaid

7 Capítulo VII -- Ceto, Sequestro e Harpias.


Notas iniciais
Oie meu lindos cupcakes de morango o/ Demorei mas cheguei!!! Eu fiquei extremamente feliz com a recomendação que me mandaram *-* Esse cap é super dedicado a vocês, que me incentivam, seja por aqui ou pelo face. Um cap enooorme novinho, saindo do forno pra vocês. Qualquer erro, por favor, me avisem. Ahhh, e uma recomendação, quando forem ler o cap, é legal botar essa música pra tocar, só pra dar um tcham: https://www.youtube.com/watch?v=GjZ1f9cKxaA&index

?? -- 07:37

Jean POV's

Droga, porque eu não me lembrei do veneno? Passei a mão pela cabeça, tirando o cabelo do rosto. Estava ansioso, nervoso, impaciente. Depois que Safira desmaiou, a carreguei pela trilha em que Thalia nos guiava. Chegamos no acampamento das caçadoras e desde que pisamos aqui Safira ficou em uma tenda, com Thalia e outras caçadoras junto, nenhuma delas nos deixa entrar ou se aproximar do local. E o que mais me irrita é o fato de que eu não lembrei dos efeitos do veneno. Eu não acredito que fui tão descuidado a esse ponto.

Quando chegamos, nos indicaram um lugar para dormir, e foi lá que passamos a noite. Assim que acordamos, fomos ao submarino, tomamos banho no banheiro que tinha, e voltamos ao acampamento. Thalia nos mandou esperar numa árvore, enquanto terminávamos de comer frutas que achamos durante a volta. Davi agora estava do meu lado, quase igualmente nervoso, ele andava de um lado para o outro, se fosse em outra ocasião, eu me irritaria, odeio pessoas agitadas. Mas como eu estava a beira de um colapso nervoso, nem me importei com esse fato. Estávamos a alguns metros de distância da onde Safira estava e eu estava tentado a entrar ali, passando por cima daquelas caçadoras, aposto que Davi iria comigo na mesma hora. Ele se sentou ao pé de uma árvore, balançando os pés e respirando pesadamente. Eu, que estava apoiado na mesma árvore até aquela hora, escorreguei de costas até me sentar ao seu lado.

– Não é culpa sua, sabia? – arrisquei a frase

Ele me olhou assustado, parecia que havia despertado de um transe.

– Eu sei que está preocupado e se sentindo culpado, mas ela vai ficar bem. – completei e ele deu um meio sorriso.

– Também não adianta puxar a culpa só pra você, isso não vai ajudar em nada. – ele riu um pouco e eu o acompanhei. Olhou pra tenda, deu um suspiro cansado e voltou seu olhar para mim.

–Da vontade de invadir a tenda, só pra saber se está tudo bem.

Sorri com esse comentário, não éramos tão diferentes assim afinal.

– Ninguém vai invadir lugar nenhum – me assustei com uma voz ao meu lado direito e vi uma caçadora. Morena, olhos claros e cabelos pretos presos no topo da cabeça. Ela estava séria, mas ao mesmo tempo, aliviada. – A garota se encontra passando bem, pelo menos, tão bem quanto poderia em tal estado. O veneno da Hidra foi repelido com medicamentos, os cortes foram cuidados e limpos e ela acordará daqui a alguns minutos, mas ela ainda estará com dor e vai precisar de descanso. Devido a isso, vocês terão permissão para vê-la, mas apenas por tempo limitado. – ela pareceu meio incerta por um momento – Vocês devem saber, a garota foi salva, mas com muito trabalho. Se Thalia não os tivesse encontrado e trazido ela pra cá, ela poderia ter perdido a perna, ou, se o veneno chegasse a corrente sanguínea, morrido. A partir de agora, tomem mais cuidado com isso.

Assentimos e observamos a garota sair de perto.

– Acho que é só esperar um pouco então... Não é? – Davi olhou pra mim, sorri tentando tranquilizá-lo. Mas acho que ele percebeu minha ansiedade e riu brevemente – Você está mais nervoso que eu. – rolei os olhos de maneira displicente e ele riu. – Agora eu entendi porque gostam tanto dela.

– Ela é a garota mais cabeça dura e teimosa que eu já vi. Mas acaba que ela faz todos se preocuparem com ela. – Davi me olhou interessado.

– Porque você...? – o interrompi.

– Isso é assunto pra outra hora. – ficamos em silêncio por alguns instantes até que me levantei. – Acho que ela já está acordada. Vamos.

Ele também se levantou e fomos andando devagar, para não chamar a atenção das caçadoras. Chegando a abertura, ouvimos o som de vozes, uma estava bem fraca e baixa, mas era firme, com certeza era a voz da Safira; a segunda tinha o tom normal, tentava convencer a outra de alguma coisa, provavelmente era Thalia.

– Sabe que sempre será bem vinda aqui, não sabe? – disse Thalia.

Ouvimos um suspiro. Eu e Davi nos alarmamos.

– Eu sei disso, mas eu não deveria fazer isso no meio de uma missão.

Um muxoxo – Não é só por causa da missão, você disse a mesma coisa antes.

– Eu tenho coisas pendentes, você sabe.

Espera, ela já havia feito essa proposta antes?

Thalia suspirou cansada.

– E ainda existe alguma possibilidade de você entrar na caçada?

Safira deu uma risada curta e abafada. Eu me aproximei um pouco mais para ouvir melhor, já que a voz estava muito fraca.

– Claro que sim. Eu adoraria ficar com vocês, bem sabes o que tenho a resolver. Eu também gosto daqui, é agradável.

Eu senti toda a confiança que eu tinha nela despedaçar sobre minhas mãos. Eu queria sair dali, mas a voz de Thalia me impediu.

– Só lhe peço uma coisa, se decidir vir, agora ou depois, estaremos de braços abertos. Mas se decida o quanto antes, sabe quais são as regras aqui. Então pense com carinho nisso tudo, certo?

Safira nada disse, e esperamos ansiosamente pela resposta, Davi parecia querer pular lá dentro.

– Pensarei.

E então o olhar de desespero passou por entre nossos rostos.

– Ótimo, chamarei os garotos aqui, eles ficarão felizes de saber que já acordou.

Thalia se preparou para levantar.

– Não, espere, não os chame ainda. Preciso pensar no que dizer. – uma pausa longa se fez. – Mas não fale nada sobre o que conversamos aqui, está bem?

Thalia hesitou, mas disse:

– Certo, não falarei nem uma palavra.

Foi então que voltamos correndo para os nossos lugares. Parei ofegante ao lado da árvore em que estávamos e me apoiei com meu braço.

Ficamos em silêncio, estávamos em choque. Realmente ouvimos aquilo? E ela está mesmo pensando em ir? Senti toda preocupação que eu tinha se esvair e dar lugar a raiva. Droga, eu me sentia traído. Parte minha queria sair dali sem falar porcaria nenhuma a ninguém, a outra queria voltar e exigir explicações. “Ela nem ao menos quis se dar o trabalho de se explicar, preferiu esconder tudo a encará-los e falar cara a cara que iria deixar vocês.”. Uma voz veio a minha cabeça. “De novo, não é? Não se cansa de ser enganado? De confiar em gente errada?” A voz ficava mais alta, aquilo estava me enfurecendo cada vez mais. Principalmente porque ela tinha razão.“Você sabe o que precisa fazer agora, não sabe?”

– Você acha que ela vai?

Fiquei mais irritado ainda. Que ele acha que eu tenho haver com isso? Eu não tenho nada com a vida dela, nem devia me preocupar enquanto ela pensa se abandona a gente nessa missão ou não.

– Garotos? – ouvindo a voz de Thalia, a voz voltou. “Foi culpa dela, você sabe disso. Se não fosse por ela, a garota nem pensaria em abandoná-los”. Ouvindo isso, senti que poderia espumar de ódio. Acho que foi então que perdi completamente a cabeça. Sentia raiva dela, por fazer aquela proposta; de Safira, por cogitar aceitar; e principalmente de mim, por me preocupar como um.... Droga, nem palavra eu tinha para descrever minha burrice.

Me virei para ela e a olhei com sarcasmo.

– Ah, a madame resolveu nos receber? Pra que? Pra nos dar um pé na bunda, deve ser.
Ela pareceu assustada, mas se endireitou e respondeu:

– Eu não sei do que está falando, seu idiota. Eu só vim avisar que ela está acordada, achei que deveriam saber.

Fechei as mãos, formando um punho, eu estava visivelmente alterado.

– Mas se não se importa com ela até esse ponto, não vou incomodar. Deveria saber que é tão idiota quanto os outros, não merece a amizade dela.
“Ah sim, amizade. Palavra tão desvalorizada... Me diga, quem é amigo deixa os outros pra trás?”

Soquei a árvore com toda a raiva que eu tinha naquele momento e um buraco se formou no lugar.

– Amizade? Quem é amigo não abandona. Eu me preocupei com ela, mas acho que foi um erro. – o rosto de Thalia se contorceu em uma careta de duvida. Ela ainda se faz de desentendida? – Quem vocês acham que enganam? – senti o sangue escorrer da mão que eu soquei na árvore, mas eu estava literalmente fora de mim – Achou que iria me fazer de idiota enquanto tenta atrapalhar nossa equipe? Sinceramente, esperava mais de você caçadora. – ela me olhou espantada e recuou.

– Eu não sei do que você...

“Enrolação! Você sabe, você sente, ela quer te enganar. Ela quer tirar tudo de você, assim como ele!”

Meu sangue fervia de raiva, eu poderia explodir a qualquer momento. Eu tranquei os dentes com força, tanta que meu maxilar chegava a doer. Eu não conseguia expressar a minha raiva direito, e isso me deixava ainda mais furioso.

“Ah sim, você lembra do que ele fez com você não é? Lembra também de como aquela mulher agiu... Você sabe o que ela faria agora. Quer passar por isso de novo?”

Naquele ponto eu não conseguia pensar em nada que não fosse a fúria que eu sentia. A voz ficava mais potente dentro da minha cabeça.

“Vamos! Não seja covarde, exponha a verdade. Prove que ela não te enganará”

– Não se faça de tonta. – sibilei e vi o estado da caçadora. Espantada. Olhei para Davi, que me encarava com duvida, mas ainda assim um pouco assustado.

“Diga-me, você ainda se importa? Você não é forte o suficiente para acabar com tudo por si só? Precisa da compaixão deles?”

Então voltei para Thalia e gritei: – Quer saber? Fala pra ela que se quiser sair, que fique a vontade, não preciso dela pra terminar essa missão. Vou fazer essa droga sozinho, já que só eu me importo com isso.

E saí. Quase não lembro do caminho que eu fiz, nem do que eu ouvi. Eu lembro de ouvir Davi me chamando, mas eu estava tão imerso na raiva que eu sentia... Eu só parei quando percebi que estava em frente ao submarino. A voz tinha sumido.
Me encostei de costas na porta e tombei minha cabeça para trás. As lembranças boas que eu tanto almejava, me pareciam sem sentido. Só o que ecoava na minha cabeça era uma cena que a minha mente me fez o favor de me lembrar. A raiva finalmente cessou, mas uma coisa pior deu lugar. Eu senti dor. Dor de ser traído por quem eu confiava, de novo. Sentia como se estivessem arrancando alguma coisa lá de dentro. Escorreguei pela porta e senti-me cansado.

– Ora criança, levante-se. Não tem graça acabar com alguém que já está acabado.
Ouvi uma voz... A mesma voz que estava na minha cabeça, mas agora, estava ali. Olhei para a origem e vi uma mulher. Tinha cabelos negros que caiam pelos ombros, sua pele era branca como leite. Suas vestes verde-água eram longas e batiam no chão, enquanto seus olhos vermelhos me encaravam. Ela era extremamente bela, mas parecia igualmente perigosa ao mesmo tempo.
Quando me preparava para perguntar quem era, a mulher sorriu maldosamente.

– Sou Ceto, deusa menor – ela disse a contragosto – dos perigos dos mares... Não por muito tempo, é claro.

Intriguei-me, mas devolvi num tom arrogante.

– E o que eu tenho a ver com isso?

Ela pareceu insultada.

– Fale em tom mais próprio quando se referir a uma deusa como eu, filhote de deus.

Tentei parecer mais firme do que estava.

– Ainda não me disse porque você 'tá aqui.

Ela estreitou os olhos vermelhos.

– Se eu soubesse que um pouquinho de raiva te deixaria tão fraco, não teria te manipulado. Mas foi um belo entretenimento brincar com a sua mente... Pena que agora não há mais tempo para brincadeiras – a olhei meio em dúvida – Oh, não se preocupe, não irei matá-lo – e então ela sorriu – Não ainda.

Aconteceu rápido, senti meu corpo envolvido por água e o todo o ar escapar de meus pulmões. Comecei a me afogar e sufocar. Tentei me manter consciente, mas parecia que a água se empurrava para dentro da minha garganta. Apaguei.
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x- Mundo Inferior -- ???

Douglas POV's

Deméter entrou no quarto nos avisando para descer para o jantar, que estava sendo servido. Logo, nos apressamos para isso. Ela não gosta quando nos atrasamos para a comida, disso eu sei. No tempo em que fiquei aqui, pude perceber isso. O jantar não começou nada agradável. Papai estava muito incomodado com a presença de Ivana, afinal ela era filha de Zeus, e de Deméter, que critica tudo ali, desde a cor do castelo, até em como ele controla o Mundo Inferior. Pelo menos, Ivana tentou ser educada com alguns comentários como "o jantar está maravilhoso" ou "agradeço pela estadia", o que fez com que ele não ficasse completamente zangado. Mas foi aí que Perséfone começou com as indiretas sarcásticas. Coisa que, na minha opinião, é a habilidade mestre dela. "Acho que vou ter filhos mamãe, assim alguém saberá como me sinto", "Vou passear com cães infernais no Olimpo, talvez Zeus goste de conhecê-los assim como eu gostei de seus filhos" e finalmente, o estopim: "Já que temos tantos jantando conosco, poderíamos chamar mais gente. Morfeu gostaria de passar aqui, o que acha querido?". Ao ouvir isso, ele ficou furioso. Foi uma aura tão ameaçadora que quase nos prensou no chão. Ele bateu com a mão na mesa e agarrou Perséfone pelo braço, saindo os dois porta a fora da sala de jantar. Deméter continuou criticando, agora meu pai em si, como se nada tivesse acontecido. Terminamos de jantar, ainda que meio hesitantes, nos despedimos da deusa que continuava jantando e saímos pela outra porta que tinha.

Enquanto caminhávamos, conversamos.

– É sempre assim? – Ivana perguntou assustada. Ri um pouco.

– Fica pior a cada dia.

Ela arregalou os olhos.

– Acho que papai só se segurou porque estávamos aqui, não é Doug? – Jéssica disse e eu assenti.

– Já vi brigas piores. Tenha certeza de que isso não acabou. Agora ela ficará com raiva de nós.

– Mas vocês não falaram nada – Ivana não se conformou e... Notei que os olhos dela brilham quando está determinada...

Eu divaguei por um momento, só acordei quando Jéssica me chamou.

– Não é Doug? – Olhei e percebi que as duas me olhavam.

– O que?

Jéssica soltou um risinho.

– Estava contando pra ela que para Perséfone, só existirmos já basta para ela nos odiar.

Concordei com a cabeça.

– No tempo em que fiquei aqui, dava graças aos seis meses que ela passava fora. Nos outros eu tentava ao máximo ficar longe dela.

Ivana ficou surpresa.

– Ela é tão ruim assim?

Jéssica assentiu.

– Pelo menos, conosco ela é.
Subimos as escadas que davam para o quarto de minha irmã e paramos em frente a porta.

– Enfim, acho que está na hora de irmos para cama. – Jéssica me olhou de canto – Vou tomar um banho... Boa noite a vocês.

– Entrou no quarto e fechou a porta, deixando a mim e a Ivana meio perdidos.

– Ela é bem... Impulsiva.

Concordei com a cabeça.

– Está com sono? – perguntei.

Ela pareceu meio envergonhada.

– Sinceramente? Nem um pouco. – sorri um pouco.

– Quer dar uma volta? Pra conhecer o castelo, sabe... – Ivana sorriu e assentiu animadamente.

Pusemo-nos a caminhar novamente e continuamos assim por vários minutos. Guiei-a pelos corredores e escadas, conversamos bastante, pela minha parte, foi para descontrair a vergonha que se impunha desde que fiquei sozinho com ela. De repente, ela estagnou em frente a uma varanda. Olhou para mim, como se perguntasse se poderia se aproximar e, quando eu consenti, ela andou em passos lentos até a borda, onde havia uma mureta. Ela olhou ao redor, como se saboreasse a vista. Estávamos num dos corredores altos do castelo, vez ou outra, eles dava para uma varanda, mas nada se comparava a vista daquela em especial. Dava para ver uma pequena parte de tudo.

Conversamos por horas sentados no chão da tal varanda. Era simplesmente relaxante não ter que ficar pensando em todos os problemas. Ivana se levantou e eu a acompanhei.

– É sofrido, eu sinto. – ela deu uma pausa, fechando os olhos brevemente para logo depois abri-los – Mas é lindo ver tudo... Mesmo nas piores paisagens aos olhos comuns, existe beleza. Imagino... Aquele são os Campos da Punição?

Ela apontou para um lugar que, mesmo daqui, ainda se pode ouvir fracos grunhidos e gemidos de dor.

– São sim. – Entrei na varanda também, ficando ao lado dela. Apontei um outro lugar, mais calmo, que emanava uma aura boa e pacífica. – E Elísio.

Ivana sorriu.

– Com certeza minha mãe não vai pra lá. – abri a boca para perguntar algo sobre, mas ela me interrompeu com um suspiro – Longa história.

Dei um meio sorriso: – Temos tempo.

Ela me olhou e sorriu, mas seus olhos não fizeram o mesmo. Ela os desviou de volta para a vista. Entendi que ela não queria falar sobre aquilo no momento, mas antes que eu mudasse de assunto, ela começou a falar.

– Minha mãe é doente. Não no sentido real da palavra, mas eu a considero assim. Começou quando eu tinha... Não sei, talvez 5 anos, não me lembro ao certo. Meu pai, quando se apaixonou por minha mãe, não contava que ela ficaria tão... Obcecada por ele. Ele foi embora e ela tentou de tudo, mas o experimento principal dela, era eu. Ela oferecia carinho a mim, na esperança que ele visse aquilo e voltasse para ela. Quando ela finalmente percebeu que ele não voltaria, minha mãe ficou furiosa. Ela queria de alguma forma atingi-lo, e em mim, viu a oportunidade perfeita. O que seria melhor que uma de suas preciosas filhas? – Ivana deu um suspiro longo e cansado – O pesadelo começa daí, e não para mais. Foram tantas coisas que ela me fez passar, que eu prefiro pensar que ela era doente. Só assim para fazer tudo o que ela fez.

Eu fiquei em duvida se me aproximava dela ou se falava alguma coisa. Ela não parecia frágil, como a maioria das pessoas ficariam ao se lembrar disso. Ivana só parecia cansada, como se o que ela contasse fosse uma história que ela leu.

Ela deu um pequeno sorriso e se debruçou sobre a mureta.

– Mudando de assunto. Como você veio pra cá?

Cocei a nuca, pensando no que falar.

– É complicado...

Ela me olhou com o canto do olho enquanto eu me apoiava ao seu lado.

– Complicado?

– É, eu vim pra cá depois que minha mãe morreu. – e então, me vi sendo observado por dois olhos curiosos. Sorri pra ela e senti minhas orelhas queimarem quando ela retribuiu. – Sou filho único, pela parte materna é claro. Minha mãe amou meu pai mais do que qualquer um, e quando eu nasci, ela meio que... Transferiu seu amor pra mim. Nos dávamos bem, minha mãe era uma mulher encantadora que se esforçava cada dia mais para compensar a falta de um pai. Ela trabalhava todos os dias, o dia todo, para sustentar a nós dois. Quando eu fiz 10, monstros vieram atrás de mim. Você, sendo filha de quem é, sabe o que acontece... Começamos a fugir incansavelmente, mas eles vinham, um atrás do outro, até que um deles pegou-a. Ela me disse pra correr, e assim eu o fiz. Peguei o resto do dinheiro que tínhamos juntado e fiquei uns dias num hotel a beira da estrada. Foi aí que meu pai me encontrou e me trouxe para o Mundo Inferior. Desde então eu vivo aqui, fugindo da Perséfone, na maioria das vezes. – Dei um riso curto, sem vontade real de rir e ficamos um tempo em silêncio.

– Você viu ela após isso?

Neguei com a cabeça.

– Meu pai disse que é perigoso. Eu poderia querer fazer ela voltar a vida e isso é estritamente proibido. Até que eu tenha “maturidade” para arcar com minhas decisões, eu não posso vê-la, ou ao menos, saber para onde ela foi.

Ivana me olhou, mas seus olhos não se focaram em mim, pelo contrário, eles perderam o foco por completo.

– Iva-

Ela pareceu voltar a si, meio tonta e cambaleante, para então ficar alarmada.

– O que foi isso? – Ivana olhou pro corredor assustada e saiu correndo por ele – Ivana?! Espera, onde você... – ela não parou. Comecei a correr atrás dela, pulei diversos degraus das escadas tentando alcança-la e chamei ela várias vezes, mas ela parecia concentrada demais em fugir, que nem devia ter ouvido.

Chegamos ao corredor que dava para o quarto de Jéssica e a alcancei a tempo de vê-la escancarar a porta.

– Eu sabia.

– O qu-

Olhei para dentro do quarto e vi a cama bagunçada, mas sem ninguém ali.

– Droga, eu sabia, não devia ter saído de perto dela.

Voltei-me para Ivana, que estava com as mãos na cabeça, falando coisas sem sentido.

– Ivana! – ela nem deu sinal de me ouvir. Segurei ela pelos ombros, fazendo com que ela ficasse de frente para mim – O que aconteceu?

– Eu... – ela hesitou e olhou para o quarto vazio. – Eu vi uma coisa. Simplesmente apareceu na minha cabeça. – murmurei para que ela continuasse a contar – Jéssica foi pega. Eu não consegui ver quem era, a visão estava embaçada, mas eu tenho certeza do que aconteceu. Ela estava dormindo, acordou um barulho no quarto... No segundo seguinte um vulto apareceu, mas apesar disso, Jéssica não pareceu assustada. O vulto passou pela cama dela e voltou correndo para a porta, onde desapareceu, mas ela não estava mais na cama.

Isso explica o porque dela sair correndo e a cama vazia.

– Não temos tempo para pânico, certo? – apertei levemente seus ombros para chamar sua atenção e ela concordou. – Vou falar com meu pai e você fica aqui, está bem? – ela recusou com a cabeça – O que? Por que?

– Não vou deixar você sozinho nessa.

Sorri e soltei os ombros dela.

– Então vamos logo.

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Adriano POV's

“Eu estava em frente a um espelho, na verdade em frente a vários, eles me cercavam. A pessoa que eu encava era eu mesmo, mas numa versão mais nova. Ele estava encolhido, com a cabeça encostando nos joelhos e os braços cercando as pernas.

– Eu estou cansado disso – ele sussurrou. – Eu não quero mais fugir.

Me abaixei até sua altura.

– Eu sei.

Soluços ecoaram pelo salão de espelhos.

– Toda vez que eu penso que eu... – ele levantou os olhos, molhados de lágrimas – Que nós estamos livres, eles aparecem. Quando eu fecho os olhos, eles estão lá. Porque isso acontece comigo?

Encarei a figura a minha frente e ela me encarou de volta. Tentei procurar um motivo, alguma coisa para dizer a ele, mas nada me veio a cabeça.

– Você não tem uma resposta não é? – neguei – O que garante que você não vá ficar igual a eles? Em que você é diferente? – agora não era mais eu falando, era um dos meus (vários) pais adotivos. Eu tentei retrucar, mas a voz não saia – Você é igual a todos eles, os que te perseguiam. – novamente, o rosto mudou e eu vi rostos conhecidos. – Você sabe o que é. Você é uma ameaça. – os rostos iam mudando enquanto falavam, as vozes se misturavam, tudo aquilo me deixava atordoado. – Sabe que nunca vai ter uma vida normal.

Me virei de costas para a imagem perturbadora e encontrei meu reflexo, agora alguns anos mais velho que eu, sorrindo para mim. Uma luz roxa emanava de seu corpo.

– Acha que pode fugir disso? – recuei assustado – Você não tem escapatória, isso é você mesmo. Sua mente te recrimina, porque você ainda tenta lutar? – ele sorriu em escárnio. – Torne-se o que todos esperam que você vire. Sabe que seu lugar não é entre eles.

Uma mulher que eu não conhecia veio para o lado dele.

– Esse é o seu destino. Venha até mim e se sentirá completo.

Olhei com os olhos arregalados para aquela cena. Procurei algum lugar para me livrar do reflexo e vi um corredor. Corri por ele até que encontrei uma luz no final, minha visão se ajustou um pouco e eu vi o contorno de uma mulher parado, de onde saía uma forte luz. Ela estendeu a mão pelo espelho e eu senti como se ela pedisse para segurar. Agarrei a mão estendida e ela me puxou para dentro do espelho.

– Você não é só o que vê diante do espelho, lembre-se disso”

Monte Tamalpais – 04:45

Acordei num pulo, sentindo meu pulso queimar. Passei a mão pelo rosto, tentando me manter calmo. Minha cabeça martelava nos lados e eu sentia como se tivesse passado a noite sendo amassado por búfalos. Olhei pro outro canto da tenda e vi Maria ressonando levemente enquanto dormia. Levantei-me com cuidado para não acordá-la com barulhos desnecessários, botei os tênis e sai da tenda.

– Está cedo para acordar, não? – ouvi uma voz vindo do meu lado esquerdo.

– Não tenha tanta certeza assim. – sorri de lado. – Sra.M diz que quanto mais cedo se acorda, mais disposto se fica.

Kimberly riu e se levantou.

– Vem comigo. – ela começou a andar.

– Mas você não devia ficar de guarda?

Ela pareceu pensar por instantes.

– Verdade, então você vai. – olhei surpreso para ela – Calma! Eu ia te mostrar uma coisa. – apontou para um ponto mais ao lado do monte. – Quando chegar lá, vai me agradecer. E pode deixar, se a Mabe perguntar onde você está, direi que acordou inquieto e que foi espairecer a mente.

O que não era uma total mentira. Assenti e comecei a caminhar pelo caminho que ela me apontou. Acidentalmente, pensei no sonho esquisito que tive. Aquilo estava me deixando preocupado. Primeiro, quem era aquela mulher? Eu nunca a tinha visto antes! Depois, ver meu reflexo falando aquelas coisas foi, no mínimo, perturbador. Por último... O que era aquela luz? Ela foi minha passagem de volta do mundo dos sonhos, mas não deixava de ser estranho. E a mão que eu estendi a ela estava ardendo na altura do pulso.

Ouvi barulhos de água batendo contra as pedras e percebi que havia chegado em uma cachoeira. Sorri ao pensar que Kimberly queria me mostrar isso. Me aproximei da água, peguei um pouco com as mãos e levei até o rosto, sentindo o frescor sobre a pele. Me abaixei para molhar as mãos novamente, foi então que eu vi a marca. Era um Strophalos, símbolo de minha mãe, Hécate. Estava na parte de dentro do pulso, todo em preto, mas a área estava meio avermelhada, como se tivesse sido feita a pouco tempo, o que explicava a ardência.

Finamente eu entendi, o ser que me puxou para fora do sonho fora ela. O que me faz ter outra pergunta... Porque ela fez isso?

Suspirei e me sentei a beira da cachoeira. Como estou confuso agora... Ouvindo o barulho natural daquele ambiente, me permiti relaxar os músculos do corpo e esvaziar a mente, para então meditar e murmurar o feitiço.

Logo pude ver o ambiente diferente, eu estava aqui e ali ao mesmo tempo, senti que poderia estar em qualquer lugar em segundos. Essa magia que eu usei, me permitia ver a magia existente em toda uma área desejada. Para diferenciar, eu enxergava tudo do vermelho forte ao azul claro e quanto mais vermelho fosse, mais “resquícios” de magia existe ali. No cenário em que me encontrava, praticamente na metade da altura da montanha, todo o local estava em um azul mais escuro que o natural... Se eu subisse mais um pouco, talvez achasse mais sinais da chave, mas isso significaria que ela está mais perto de Atlas, o que pode ser extremamente perigoso... Só que se eu não procurar e ela estiver lá, do que adiantaria continuar a busca?

Me concentrei novamente e vasculhei, pouco a pouco o percurso da montanha, enquanto a paisagem ia saindo de azul para tons mais arroxeados. Foi quando eu vi um grande pedaço da montanha, coberto em um vermelho ofuscante. A distancia do acampamento até o local era consideravelmente grande, sendo que era uma subida. Logo que me desliguei da conexão, senti minha cabeça latejar um pouco e a marca em meu pulso arder rapidamente, como se eu tivesse levado um pequeno choque no local. Olhei para a marca e vi que a área em volta não estava mais vermelha como antes. Agora estava da minha cor normal, e a marca em preto fazia um pequeno relevo como contorno. Me levantei devagar, para não me sentir tonto e molhei meu rosto mais uma vez.

Fui andando calmamente de volta para o acampamento, esperando que Maria já tivesse acordado e que Kimberly não tivesse levado bronca por minha causa. Observei a trilha aos meus pés enquanto caminhava e vi que algo brilhou no chão. Peguei o objeto e vi que um broche dourado em forma de sol. Estranhei o fato de um objeto assim estar ali, foi quando eu percebi que poderia ser da Kimberly. Ela pode ter deixado cair enquanto voltava da cachoeira. Guardei o broche em meu bolso e me pus a andar novamente.

Quando cheguei, ambas já tinham desfeito o acampamento e estavam sentadas, uma de frente para a outra, se encarando e conversando seriamente. Cheguei perto e as cumprimentei.

– Descobri onde está a chave. – elas me olharam curiosas – Não está tão longe, mas não vai ser fácil chegar lá. E a chave tem muita magia incluída, então é difícil saber o local exato, mas quanto mais perto estivermos dela, mais poder eu poderei sentir.

Maria se levantou e ofereceu a mão para que a loira pudesse se levantar também.

– Vamos andando... – ela hesitou – Tem certeza de que é seguro?

Assenti – Ainda assim, devemos manter nossa atenção redobrada. Esse lugar não é pra passear.

Recolhemos as mochilas e pusemo-nos a caminhar. Depois de alguns minutos, a subida começou a ficar cada vez mais ingrime, e tivemos que fazer um esforço maior que o normal para caminhar na mesma velocidade que antes. Senti uma pressão em meu interior, o que significava que eu já começava a sentir os efeitos da magia da chave. Acenei para Maria, chamando-a. Ela veio em minha direção, parando meio ofegante pela subida ao meu lado.

– Começou, eu consigo sentir ela próxima.

Concordamos em continuar seguindo e, a cada passo que dávamos, eu sentia a chave ficando mais próxima. Foi quando eu vi um vulto por cima de nossas cabeças.

– Droga – ouvi Maria sussurrar – Se escondam, rápido!

Pulei pra debaixo dos galhos, me colocando num espaço pequeno entre duas árvores e me agachei mais nas sombras. Maria e Kimberly estavam perto, e vi elas sussurrando, foi quando Kimberly assentiu e veio cuidadosamente andando para o meu lado. Quando chegou perto da onde eu estava, se agachou e veio abaixada até entrar no espaço em que eu me encontrava. Eu estava claramente desconfortável com ela tão perto assim, mas preferi não falar nada. Ela se encolheu ao meu lado e fez sinal para que eu me aproximasse, e foi o que eu fiz.

– Maria avisou para que ficássemos aqui por enquanto. Ela vai dar uma volta e ver o que são essas coisas. Se for seguro, prosseguiremos normalmente, mas se não for, procuraremos uma rota alternativa.

Me mantive naquela posição, até que percebi que eu estava extremamente perto dela... E que ela estava me encarando. Desviei o olhar e me afastei alguns centímetros, o suficiente para que não ficasse desconfortável e que eu continuasse a ouvindo claramente.

– Você conseguiu ver o que era? – perguntei num tom baixo.

– Só de relance. Parecia uma espécie de pássaro, não sei.

Pensei um pouco. E me lembrei da sombra.

– Acho que não é um pássaro, o vulto era grande demais para que seja uma...

Ela fez uma careta pensativa.

– Um pégasus?

Neguei com a cabeça.

– Por aqui? Acho pouco provável. Não, nenhum pégasus se arriscaria a voar pelo monte onde Atlas se encontra.

Ela concordou brevemente.

– Então o que... – ela pareceu surpresa por um momento. – Monstros vem aqui não é?

– Acho que sim... É raro, mas é possível que venham.

Tentei chegar a sua linha de raciocínio e uma luz se acendeu em minha cabeça.

– Você está pensando o mesmo que eu? – a olhei surpreendido.

– Harpias?

Ela assentiu.

– Faz tempo que eu não vejo uma...

Ela me olhou e, mesmo na sombra, pude ver seus olhos reluzirem.

– Você já enfrentou uma harpia? – cocei a nuca, me sentindo mal com a memória que a pergunta trouxe, mas assenti. – E como foi?

Desviei meu olhar de volta para o lugar em que Maria estava antes, desejando que ela aparecesse logo para que as perguntas acabassem, mas ela não apareceu.

– Hm... É uma história longa, talvez outro dia... – ela pareceu entender.

– Então... Sobre harpias... Você sabe alguma coisa extra? Tipo pontos fracos.

Pensei um pouco.

– Está escuro ainda, não é? Pois bem, harpias odeiam a luz do sol. Não chega a machucar mortalmente ou algo do tipo, mas é bem desconfortável a elas e principalmente, prejudica certas habilidades que elas teriam a noite, uma delas é a visão aguçada. – eu parei, olhei novamente em volta, estranhando a demora de Maria – Se saíssemos agora, tenho certeza que elas nos veriam antes que pudéssemos escapar, porém, se estivesse mais tarde e o sol já tivesse nascido, poderíamos passar despercebidos tranquilamente. Além disso, garanto que, se o sol estivesse mais forte, elas não ficariam... A não ser que seja algo muito importante, pois elas não gostam de se sacrificar.

Olhei para Kimberly, que me olhava com os olhos atentos a cada movimento. Ela pareceu notar que eu a observava e virou seu rosto em outra direção bruscamente, não pude deixar de soltar um riso perante a essa cena. Ela percebeu a risada e me olhou com os olhos faiscando. Mas antes que ela falasse qualquer coisa, Maria chegou. Estava com o rosto pálido.

– O que foi que aconteceu com você? – Kimberly disse meio assustada.

– H-Harpias – ela gaguejou.

– Nós sabemos.

Ela nos olhou com os olhos arregalados.

– Não, vocês não sabem. Não são uma ou duas harpias, é quase uma duzia delas. Sobrevoando em círculos sobre nós.

Ofeguei. Uma duzia? É mais do que poderíamos lidar, disso eu tenho certeza.

– Calma, agora não ainda surtar... – disse ela – O.K. Vamos resolver isso da melhor maneira possível. O plano é o seguinte...

Notas finais
Espero que tenham gostado. Se gostaram, digam-me. Se não gostaram, digam-me também XD Até o próximo cap gente!!