As Crônicas dos Semideuses: The Lost Mermaid
4 Capítulo IV – Dentes pontiagudos, escuridão e cantadas baratas.
Notas iniciais
??? – 18:30pm
Jean POV's
Calor, era isso que eu sentia, era isso que resumia tudo o que eu senti desde que chegamos. Estávamos navegando a horas e a tarde já estava acabando, eu dava graças por isso. Sentado perto da proa, olhava o céu ao anoitecer. Era o meu turno de vigia do lado de fora, e já faziam horas que eu estava naquela mesma posição, sendo assim, a fadiga me alcançava. Analisei um pouco o barco, a parte de fora era simples, com um piso de madeira vermelha, uma portinhola no chão que dava para a cabine do piloto, que no momento era o Davi, para o dormitório e para o banheiro. Era um barco bem diferente, a direção ficava mais abaixo porque, no caso de algum acidente, ela se desacoplava no navio, virando um minissubmarino pronto para guerra. Vi a tal portinhola se levantar e uma cabeça passar por ela e olhar o local, até me encontrar. Depois de me avistar, Davi jogou seu corpo para cima e subiu para o exterior, fechando a madeira logo depois. Caminhou até mim e se jogou ao meu lado. Apenas o observei quando ele fechou os olhos e massageou as têmporas.
– Ela é maluca – e suspirou pesadamente. Sorri com sarcasmo.
– Cabeça dura ela, não?
Ele assentiu.
– Ela me expulsou da cabine, dizendo para que eu descansasse. Mas nem suado eu estou, posso aguentar bem mais que isso. – ele abriu os olhos e os direcionou para mim – Você pode tentar convencê-la a me devolver o controle do navio?
– Convencê-la? – ri um pouco – Impossível, aquela garota não admitiria seu erro nem se o mundo dependesse disso.
Ele soltou uma risada curta e encostou a cabeça na proa. Meus membros latejaram um pouco e logo achei minha melhor solução.
– Já que você está tão cheio de energia – falei me levantando – Fique com meu turno.
– Você ficou entediado, certo? – ri e acenei positivamente, ele indicou a portinha com a cabeça – Vai lá, é bem melhor estar aqui, sozinho, do que com aquela louca lá em baixo.
Concordei num breve aceno e desci por uma escada que eu vi assim que abri a portinhola.
A parte de baixo do navio era bem diferente. O piso e as paredes eram de metal, três portas também de metal se encontravam ali e tudo, até o ar, era mais gelado lá embaixo. A primeira que eu abri, dava para as camas. Duas camas de solteiro, com três malas jogadas no canto do quarto e um pequeno armário com armas extras. A segunda era um banheiro, simples e só com o necessário, e é claro, uma pequena caixa de primeiros socorros. Já a terceira me engoliu numa curiosidade que eu não sabia que tinha. Abri devagar a porta e vi Safira parada em frente ao painel de controle, entrei, fechando a mesma e dei um meio sorriso para o que vi. A cabine do comandante era simplesmente perfeita: armas por todos os cantos, chão completamente revestido de metal, tudo totalmente impenetrável, menos pela porta, que poderia ser trancada com mais de 100 quilos só por um simples comando. Kit completo de remédios em um canto refrigerado, painéis com mira de ataque no outro e, finalmente, o painel principal, o comando total do navio… Nas mãos de uma Safira que me encarava com uma carranca que poderia intimidar os campistas do acampamento, mas não a mim. Segurei seu olhar e abri um pequeno sorriso de lado.
– O que veio fazer aqui?
– Curiosidade – retruquei rapidamente, me virando para olhar a cabine novamente. Eu gostaria de uma dessas pra mim… Não é uma má ideia…
– Era suposto que você estivesse de vigia, não é?
– Sim, sim, me cansei e dei o posto para o Davi, que estava louco para fazer alguma coisa e se livrar de você.
Provoquei-a e, mesmo de costas, notei que ela bufou de irritação. Passei um tempo olhando as armas, todas bem-arrumadas e polidas, sentindo o olhar fulminante de Safira, até que Davi entrou correndo e ofegante. Ele estava pálido e respirava como se tivesse corrido uma maratona.
– Acho que vocês vão querer ver isso.
E apontou para a janela.
Me assustei quando vi uma grande cabeça de hidra com os maiores e mais afiados dentes que eu já tinha visto. Passado o susto, abri um sorriso presunçoso. Afinal, era só uma hidra, nada muito difícil.
– Então.. Quem quer espetinho de serpente?
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Acampamento Meio-Sangue, 14:45pm
Douglas POV's
Olhei para minha irmã e sorri, ela estava nervosa, podia ver isso em seus olhos. Eu também estava, mas não podia demonstrar isso, tinha que ser forte, pela minha irmã e pela missão.
– Jéssica, se acalme, é só uma missão, vai dar tudo certo – me aproximei e botei uma mão em seu ombro direito.
Seus olhos foram até os meus e pareceram me vasculhar, fiquei incomodado pelo olhar invasor, mas o sustentei durante um tempo, até que ela desviou e pareceu pensar. Logo seu olhar voltou para mim.
– Amêndoas. – ela falou como se constatasse algo
A olhei confuso.
– Como?
Ela sorriu.
– Amêndoas, é a cor dos seus olhos quando você está preocupado.
Arregalei um pouco os olhos.
– Como você...?
Ela deu uma risadinha.
– Sou sua irmã, esqueceu? Te conheço a tempos. Venho catalogando a cor dos seus olhos pra decifrar como se sente em situações específicas. Amêndoas é a cor de quando você está preocupado; preto é quando está ansioso ou curioso; castanho é a cor normal, mas quando fica avermelhado é porque você está animado; os tons de azul aparecem quando você está tranquilo ou feliz; verde eu nunca vi, então é algo que eu não decifrei ainda; e finalmente, vermelho, que é quando você está com raiva.
Olhei-a surpreso.
– Você viu isso tudo só na cor dos meus olhos?
Ela sorriu abertamente, sentindo orgulho de si própria.
– Sim, sim. Agora vamos parar de falar da minha ilustre pessoa e minhas grandes habilidades, e vamos nos preparar para a viagem. Será um pouco cansativa para mim…
– Tem treinado?
– Sim, mas não estou completamente pronta para uma viagem desse porte, faço com distâncias pequenas. Ir para o Mundo Inferior é uma viagem um tanto quanto diferente.
Sorri, dessa vez mais confiante.
– E o outro poder?
Ela me olhou e seus olhos faiscaram.
– Completa e perfeitamente dominado.
– Então não há problema algum.
Fechei me mala e a joguei em minhas costas carregando-a com facilidade.
– Vamos?
Ela sorriu, pegou a mala e saiu do chalé 13 comigo. Fomos andando entre os chalés até chegarmos aos três maiores. Zeus, Hera e Poseidon, respectivamente. Nos dirigimos ao primeiro chalé e pude notar os detalhes extravagantes, com certeza eu não dormiria ali, nem que me pagassem. Bati à porta e ouvi a voz de Ivana ao longe. Acenei para que Jéssica entrasse primeiro, e foi o que ela fez, deixando espaço para que eu passasse logo depois. O chalé era exageradamente grande, com uma estátua gigante de Zeus logo a frente… Realmente, ele não é nem um pouco narcisista.
Ouvi o barulho da porta um pouco mais ao lado e vi Ivana saindo do banheiro com blusa, calça jeans e tênis. Simples e prático, porém simples demais para onde vamos.
– Só isso? – perguntou Jéssica sorrindo de canto.
Ivana a encarou um pouco e se dirigiu para a cama que ficava no canto do chalé.
Pegou um colete com diversos bolsos e o amarrou na cintura e abaixo do busto. Colocou armas de pequeno porte, um frasco de néctar e um pacote de ambrosia. Pegou sua espada já embainhada e a prendeu contra a cintura.
– Suficiente pra você? – sorriu com escárnio enquanto Jéssica retribuía a provocação com um sorriso na mesma proporção.
Tossi um pouco para chamar a atenção das duas. Quando vi que os dois pares de olhos pararam de brigar e me encararam, sorri minimamente.
– Vamos?
As duas assentiram e vieram para a minha família.
– Preparada Jéssica? -- ela acenou. Passei meu olhar para a Ivana – Vamos todos dar as mãos para a viagem, então não largue, a não ser que você queira parar em algum lugar qualquer esquecido pelos deuses.
Ela sorriu um pouco e vi Jéssica fechar a cara.
– Vamos logo Douglas – falou ela grosseiramente. Estranhei o fato, mas dei de ombros.
Seguramos as mãos e fomos envolvidos por uma familiar escuridão.
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???, 15:30
Kimberly POV's
– Estamos quase chegando meu docinho, pare de perguntar, está até parecendo que não gosta da minha presença – disse meu pai sorrindo radiante para uma Maria que estava de extremo mau humor… Talvez por que ela ser uma caçadora e meu pai dar em cima dela diversas vezes… Eu não estou exagerando, quando eu digo diversas, é porque foram MUITAS vezes mesmo.
Mabe já estava ao ponto de sair fumaça, feito uma locomotiva. Sentia que, se ela ficasse dentro daquele carro por mais um minuto, ela saltaria pela janela e andar meio país até o local da missão.
– Eu já disse que não me sinto à vontade ficando no banco do carona, desejo ir para o banco traseiro.
Meu pai sorriu um pouco mais.
– Mas meu doce, não tem espaço no banco de trás. Ou é aqui, bem do meu ladinho, docinho, ou é na mala.
Mabe o olhou desafiadora. Sério, meu pai tem alguma tara pelo que é proibido, não é?
– Eu escolho a mala.
Apolo a encarou divertido.
– Nossa, estou seriamente magoado. Você é tão má que estou ofendido… – ele fingiu uma careta de mágoa, mas logo sorriu maliciosamente – Isso passa se você me der um beijinho de desculpas.
Mabe o olhou com os olhos em chamas. Ela estava furiosa.
– Agora chega! -- seu rosto estava completamente vermelho – O senhor pode ser um deus, mas eu exijo respeito! Minha senhora sabia que seria assim, disse-me para ter paciência, mas se tem uma coisa que eu não suporto, é falta de respeito para comigo. Me desculpe se estou sendo grossa, mas que a verdade seja dita, eu não sairei com você, e você sabe, então para que insistir?
Por um momento eu achei que ela estava perdida aí. "Pronto, ele vai transformá-la em pó", pensei. Mas diferente do que imaginei, ele apenas abriu mais o sorriso, quase irradiando o carro todo, eu não sabia como ela não havia ficado cega ainda, e se inclinou para perto dela.
– Porque eu amo provar do que é proibido. É bem melhor um desafio do que uma vitória fácil, e meu bem, você é o meu maior desafio agora.
Ela ficou extremamente vermelha, até as orelhas, mas não de vergonha, de raiva.
– Pois então pode procurar outra pessoa, porque eu não serei um troféu na sua estante. Sou fiel a Ártemis e a mais ninguém.
Ele mudou seu sorriso, de irradiante foi para malicioso, como antes e sussurrou:
– Veremos, docinho, veremos.
Mabe ficou calada pelo resto da viagem. E curiosamente, papai só abriu a boca para falar quando chegamos no local. E um clima de tensão entre os dois se instalou no ar. Já eu e Adriano entramos quietos e saímos da mesma forma. Nenhum de nós dois ousou soltar uma palavra naquele ambiente de guerra.
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