As Crônicas dos Semideuses: The Lost Mermaid
10 Capitulo X -- O Julgamento
Notas iniciais
Mundo Inferior -- ???
PoV’s Douglas
Acordei primeiro e descansado, como Ivana ainda estava dormindo, decidi arrumar tudo para partirmos em busca de alguma pista da minha irmã.
Sem fazer barulho, saí do quarto e fui em direção ao meu. No corredor, vários guardas me observavam, como se eu fosse fazer algum atentado. Destranquei minha porta e entrei, me sentindo novamente confortável. Busquei com os olhos a minha espada e a encontrei em cima da cômoda, logo estava com ela nas mãos. Com segurança, a desembainhei, sentindo-a pesar sobre meus dedos. Ouvi três baixas batidas na porta e avisei que poderiam entrar. Perséfone apareceu encostada no portal da porta.
– Precisamos conversar.
Assenti e fiz sinal para que ela entrasse, ela negou com a cabeça.
– Seu pai está estranho, eu não sei o que está acontecendo e eu também sei que não nos damos bem mas... – ela mordeu o lábio inferior e desencostou, fechando a porta atrás de si. – Eu não tenho nada contra você, eu só não quero que você conheça esse lado do seu pai... Lados que eu conheci... – ela se aproximou de mim e me segurou os ombros – São tempos escuros Douglas. Mais do que você imagina. Aqui está tudo distorcido, eu não me surpreenderia se algo tivesse contatado seu pai. Você precisa tirar isso daqui. Hécate tem estado inquieta.
Olhei-a rapidamente, surpreso com o pedido.
– Eu até gostaria de ajudar mas.. Não sabemos por onde começar.
Ela parou e pareceu pensar.
– Eu sei que não deveria te contar isso, mas ninguém vai saber, certo? Andei conversando com as Fúrias. Elas não querem me contar de jeito nenhum, mas eu tenho certeza que elas sabem de alguma coisa. A próxima ronda delas é daqui a alguns minutos. Recomendo correr se quiser saber do que elas tanto falam.
Eu estava prestes a concordar, mas me veio uma luz em minha cabeça.
– E quanto a minha irmã? – seu rosto pareceu gelar – E quanto a ela, hein? Acha que eu vou esquecê-la? Que vou eu deixar ela para trás aqui?
Senti suas mãos se apertarem em meus ombros e um rosnado baixo.
– Sabe, vocês podem procurar ela depois. Eu tenho certeza que ela está bem onde quer que esteja. Agora é mais importante que vocês vão buscar a coisa que vieram buscar. Ou você se esqueceu do que está em jogo? – trinquei os dentes. Por que o repentino interesse pela chave agora? Ela pareceu notar minha reação e afrouxou seu dedos, mas manteve eles firmes mesmo assim. – Olha, “querido” – ela frisou –, eu lhe expliquei meus motivos, se não quer fazer, muito bem, não diga que não avisei.
Ela soltou meus ombros bruscamente e se dirigiu a porta.
– Elas saem daqui a meia-hora. Tempo o suficiente para que você se decida não é, enteadinho?
Resisti ao forte impulso de chama-la pelo apelido “carinhoso” que eu e Jéssica demos a ela... Argh, é agoniante, mas ela está certa. Não posso fazer nada, ainda tenho uma missão para completar. Além do mais, Jéssica é crescida, e é minha irmã. Ela sabe se virar se a coisa ficar difícil... Mesmo assim, eu não estou com um bom pressentimento.
Peguei a bainha da espada e encaixei na cintura, me preparando para sair, mas quando passei em cima da cômoda, encontrei uma pulseira de fio preta, era algo que minha irmã havia feito ainda pequena para mim. Sorri com a lembrança dela criança. Peguei a pulseira da cômoda e prendi no pulso enquanto trancava a porta do quarto. Segui pelo corredor e encontrei Ivana saindo do quarto, já trocada e pronta.
– Desceremos para o café, mas vamos rápido, a algo que precisamos fazer, encontrei uma pista da chave.
Ela sorriu e assentiu.
– E sobre Jéssica? Alguma coisa? – perguntou enquanto parávamos em frente a porta da cozinha. Neguei.
Entramos e logo vi que Deméter estava lá, suspirando, me sentei a mesa. Ela começou seu monólogo e ficamos nos encarando, empurrando comida goela a baixo para ir mais rápido, e então, assim que acabamos, nos levantamos depressa e saímos porta a fora. Praticamente corremos ao hall de entrada e saímos sorrateiramente pelas portas. Ouvi uma risada esganiçada e alta vindo de cima e fiz um sinal de silêncio para Ivana, ela estendeu e se abaixou.
Acompanhamos as “assistentes” do meu pai durante um bom tempo, até que chegamos no Pavilhão de Julgamento. Lia-se bem grande na entrada, “Bem-Vindos, Recém-Falecidos!”. De lá saiam três filas. Duas consideravelmente grandes e a última era ridiculamente pequena. Olhei para Ivana.
– Eu não tenho permissão pra entrar aí, mas nós precisamos da chave – ela assentiu – nós entramos e saímos o mais rápido que pudermos, tente não chamar atenção.
Era um lugar escuro, como eu esperava, e eu podia ouvir os gritos de desaprovação das pessoas. Muitas pessoas, muito empurrão, tentei me manter concentrado e focado, mas era muito sofrimento, era gente demais pra eu lidar. De repente, me vi sendo levado até a fila que entrava para o julgamento. Quando entrei, era tudo escuro, não conseguia enxergar nem a porta pela qual eu vim. Apesar de não me importar com a escuridão, eu estava preocupado, onde eu deixei Ivana?
– Ora ora, quem temos a honra de encontrar aqui. Mas você não está morto, está? – uma voz grossa falou do nada. Virei-me a procura da voz, mas nada, ela surgia do além.
– O que veio fazer aqui, pequeno mestre? – uma voz mais gentil se estendia ao fundo.
A voz, que antes estava entalada na garganta, saiu facilmente, como se nada tivesse acontecido. Eu não me sentia assustado, ah não, eu me sentia em casa.
– Eu quero a chave.
– Chave? Não sei do que falas, poderia ser mais especifico e nos dizer como é? – a primeira voz sugeriu com escárnio.
– Não podemos te dar nada a não ser que seja julgado digno. Ordens superiores, pequeno mestre, devemos cumpri-las, a não ser que queiras sair daqui sem a chave. – bufei, mas assenti.
– Então que comecem logo com isso.
Senti-me ser empurrado contra uma cadeira, como se me convidasse a sentar, fiz antes que feito a força.
– Douglas Werickson. Sua ficha não é a das piores. Mas achas mesmo que merece receber a chave? – ouvi a primeira voz novamente.
Logo reconheci as vozes dos juízes. Ele era Radamanthys. Um dos servos mais fiéis do meu pai, resumindo, ele não ia facilitar nada para mim. Revirei os olhos, foi quando me toquei de algo.
– Espera, eu não sou do oriente, quem deveria me julgar não é você.
Uma risada se fez ouvir no fundo.
– Você não pertence a lugar nenhum semideus. Pertences ao nada e ao tudo. Vem do submundo. Nem norte, nem sul, leste ou oeste, és puramente Infernal. Não seria justo que só um de nós o julgasse.
A voz gentil de Aiacos apareceu novamente.
– Certamente pequeno mestre, não fizeste mal, porém por que se acha merecedor de tal artefato?
– Não sou digno de várias coisas, fiz somente meu dever como semideus, se ajudei, foi porque quis, não porque almejo privilégios.
Silêncio.
– Douglas? – uma voz feminina (?) – Querido? – meus olhos se arregalaram.
– Mãe? – procurei seu rosto em meio a escuridão – Mãe! – sua figura apareceu na minha frente. Ela parecia cansada, mas não mais velha do que eu me lembrava. Minha visão ficou embaçada. Ela estava sorrindo pra mim.
– Oi meu pequeno. – ela falou de modo carinhoso. Estiquei meus braços para alcança-la, mas ela se afastou, como se meu toque doesse. – Douglas, filho, eu preciso que me ajude – notei machucados em seu rosto.
– O que fizeram com você?
– Eu fui condenada meu querido. Injustamente. – seus olhos se encheram de lágrimas – Eu só queria te ver mais uma vez, e então eu poderia ficar em paz, mas eles não aceitaram e me puseram para o Campo das Punições pela insistência.
Eu olhei em volta, a procura das vozes, mesmo sabendo que não as veria.
– Chega, eu ordeno que parem de maltrata-la.
– O julgamento foi selado, pequeno mestre. Não há nada que possamos fazer para absolvê-la. – Aiacos deu uma pausa – Mas, na verdade, há algo que você possa.
– Qualquer coisa.
– Você com certeza é digno do Elísio, mas você estaria disposto há trocar de lugar com ela? O sofrimento eterno após a morte, só para salvar uma alma que já foi julgada?
Eu congelei. Eu faria isso por ela? Ela era minha mãe, ela recebeu esse julgamento por querer me ver. Mas era um julgamento definitivo, não importaria o que eu fizesse em um segundo ou cem anos, eu estaria destinado aquele fim.
Eu hesitei, mas finalmente respondi.
– Eu faço.
Quando as outras duas iam começar a falar...
– É o suficiente – ouvi uma terceira voz surgiu, aquietando elas. Esse era Minos – você, Douglas, filho de Hades, príncipe do submundo, me surpreende. Com seu histórico, sendo filho de que é, nenhuma pessoa que recebeu essa proposta aceitou. Com certeza ainda há muito que não sabemos a seu respeito. Essa imagem não é nada além de uma alma atormentada, sua mãe não sofre. Mas graças a sua escolha, você provou ser digno de receber a chave. Até sua morte, pequeno mestre.
Logo reapareci ao lado de Ivana, ela pareceu assustada. Como eu fui parar ali?
– O que é isso na sua mão?
Agora que eu percebi que eu estava segurando algo. Mas não era uma chave, era.. Um pente?
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