As Crônicas dos Semideuses
1 Noah - Asas Negras
Noah — Asas Negras
Finalmente eu tinha chegado em casa... talvez fossem meus últimos dias ali. Não sei se sentiria falta deste lugar, mas por que iria sentir falta daqui? Talvez eu devesse esquecer esses pensamentos ruins e focar a atenção nas tralhas que minha mãe deixou no porão. Tenho que organizar tudo aquilo, talvez dar um sentido para as coisas empacotadas lá dentro.
Coloquei a mochila da escola no sofá, suspirei e não sabia o que fazer... com os problemas que minha mãe está tendo, não sei se vou aguentar. Não sei se sou do tipo emocional, mas ela foi a única pessoa que eu, realmente, amei. E estou determinado a não perder ela.
Em vez de ir no porão, me dirigi à cozinha. Quando cheguei lá, encontrei o pouco de café que tinha, dava um copo aquilo. Minha mãe fizera antes de... antes de, ah esquece. O café me acalmava, então decidi que seria melhor tomar um copo de café antes de começar a organizar as coisas no porão.
— Eu deveria aprender a fazer café, mas, droga. Minha mãe me mimou demais.
Um corvo com os olhos vermelhos, iguais aos meus pousou na janela. Já estava acostumado com isso, então não fiquei surpreso quando ele grasnou e pediu comida, enquanto abria as asas. Peguei um pouco de pão e dei para ele, ele grasnou e foi embora.
Como eu estava sozinho não tinha problemas em falar comigo mesmo, então eu disse sem nenhuma preocupação:
— Estranho que também minha mãe sempre gostou de corvos.
Teve um estalo lá na sala, como em resposta às minhas palavras. Senti um arrepio estranho na minha espinha, mas decidi que não era nada demais.
Tomei o primeiro gole de café, e senti ele descendo queimando pela minha garganta. Estranhamente, aquela sensação me acalmava profundamente. Sentei na mesa de jantar, e fiquei olhando para as minhas fotos quando eu era criança. Outra coisa estranha: eu nunca soube da cor dos meus olhos, quando eu tinha três anos, eles eram dourados como ouro puro, quando eu tinha cinco anos, meus olhos ficaram vermelhos igual a cor carmesim. E quando eu tinha dois anos... os meus olhos eram negros, iguais a noite. Reparando de perto, eram olhos sem vida e com um brilho opaco de loucura, mas eu tenho certeza que não sou louco. Minha mãe disse que os meus olhos também mudam, dependendo da luz e do ambiente.
Eu tirei todas as fotos da minha infância que estavam grudadas na geladeira. Virei elas ao contrário, não queria olhá-las nem mais um segundo, elas eram muito estranhas e minha mãe nunca dava um sorriso nas fotos. Então, os dois tinham cara de mortos.
Quando terminei de tomar o café, fui na piá e enchi o copo de água. Sequei minhas mãos e sabia que tudo mudaria, os problemas que minha mãe estava tendo... eles seriam apenas o começo de tudo. O começo de algo bem maior.
Comecei a me dirigir lentamente para o porão, não estava com pressa de chegar lá. E nem sabia se, realmente, queria arrumar àquelas coisas lá dentro. Mas mesmo assim, eu tinha que arrumar, minha mãe disse que queria arrumar aquele porão, então, vou fazer esse favorzinho para ela.
Quando cheguei no porão, tinha várias pilhas de caixas de papelão escrito: frágil. Então, imediatamente, pensei que teria muito o quê fazer. Olhei para todos os lados, e meu instinto me levou para uma caixa de papelão aberta, lá no fundo, com certeza, se eu passasse lá, nunca notaria ela. Mas algo me levou até lá, e eu não sabia o que aquilo era.
Cara, tinha coisas normais lá. Minhas roupinhas de bebê, os meus sapatinhos, alguns brinquedo como um morcego gigante de plástico, uns dois corvos de pelúcia e um gato preto de cerâmica da minha mãe. Não tinha nada demais lá, mas eu vi algo, um brilho ofuscante e negro lá no fundo... por um momento, aquilo me seduziu, mas eu não sei se deveria tocar naquilo. Tirei todas as coisas daquela caixa de papelão, e um pequeno button de um corvo abrindo as asas estava lá. Eu lembrava daquilo, era um presente do meu pai, quando eu completei um ano. Minha mãe me contara essa história, um milhão de vezes, mas nem ela entendia o porquê daquilo.
Tirei o button da caixa, e coloquei no meu bolso. Momentaneamente, eu vi um vulto passando do meu lado e ele foi lá para sala.
— Oi, tem alguém aqui?
Não houve resposta.
O telefone da sala tocou. Não iria atender, não agora, estava ocupado demais. O telefone tocava insistentemente, não parava nem por um segundo. Então, decidi ir lá, atender o telefone e mandar alguém tomar em um lugar especial. Suspirei e sai do porão.
O vulto negro tinha ido embora, o que foi um alívio.
O corredor que levava ao telefone, estava em completo silêncio. E isso me deixou um pouco apreensivo, era como se não houvesse nenhum carro passando lá fora, como se não houvesse vida. Ou, talvez, como se o corredor fosse feito de isolamento acústico, onde não podia ouvir nada, a não ser seus batimentos cardíacos e o som da sua respiração.
Sabe, naquele momento, eu, Noah Tylers, senti um pouco de medo. O que era raro, quase nunca na minha vida sentira medo. Mas agora era diferente, era como se uma sombra, e um som de um barco à remo estivesse passando atrás de mim.
— Mais uma vez: oi, tem alguém aqui?
Não houve nenhuma resposta. Sabia que ninguém responderia, mas queria arriscar.
Finalmente, consegui chegar ao telefone. Quando atendi, um som de um rio estava passando por lá, como se fosse uma vinheta, ou qualquer outra coisa.
— Oi? — perguntei.
— Olá, Noah Tylers, certo? — um homem com voz rouca falou.
— Sim.
— Então, o Submundo precisa da sua ajuda.
— O Sub-quem?
— O Submundo, para onde todos vão quando morrem. O Mundo Inferior, ou Inferno, ou qualquer outro nome adotado pela Sociedade Moderna.
— Ah, sim. Isso é um trote?
— Não, claro que não. Eu, Caronte, nunca faria um trote.
— Sim, até porque ligar falando que é do Submundo, é bem normal, aconteceu com meu amigo ontem.
— Estou falando sério, garoto. Seu pai, Thanatos, o Senhor da Morte está em perigo.
— Cara, espera aí. Meu pai não vive comigo, ele desapareceu, sei lá, não conheço ele. Desculpa, mas, talvez, eu seja o cara errado.
— Não, não. Você é o cara certo. Noah Tylers, quinze anos, filho do Deus da Morte, Thanatos. Você está com o Mensageiro da Morte?
— Mensageiro de Quem?
— O Mensageiro da Morte. A arma que seu pai te deu, ele vive falando desse dia aqui no Submundo. Acho que devo reformular o que disse... é, tipo, um button de um corvo com asas abertas.
Senti o button vibrar dentro do meu bolso.
— Sim, eu sei. Encontrei ele agora.
— Olha, vou ser o mais rápido possível e resumir: seu pai desapareceu, e seu irmão gêmeo, Hipnos, também desapareceu. As pessoas não estão conseguindo atravessar o Estige, porque não estão mortas de verdade.
— Mortas de verdade?
— Seu pai, é o Deus da Morte. Ele que visita as pessoas no leito de morte, e os trazem até mim, então, elas são levadas para o Mundo Inferior, onde são julgadas. Mas, enfim, com o desaparecimento do seu pai, as pessoas morrem, mas não conseguem atravessar o Estige. Ou seja, elas estão superlotando o Hall dos Mortos, que fica aqui no mundo dos vivos. Se não encontrarmos seu pai, dentro de doze dias, ninguém na Terra morrerá. Então, aquela frase: A morte nunca tira férias, vai passar a ser uma mentira.
— O.k. Mesmo se meu pai, for quem você está falando, não me importo com ele. Thanatos abandonou minha mãe, e desde então, ela parece cada dia mais desanimada.
— Ela sempre foi desanimada, provavelmente, deve ser por isso, que seu pai se apaixonou por ela. Garoto, você é um semideus, ou meio-sangue. Monstros irão atrás de você, e eles não vão para tomar um chá, eles vão para arrancar suas vísceras e comê-las no jantar.
— Isso me soa bem convidativo.
— Tudo bem, eu não vou forçar ninguém. Seu primo, Aron, vai buscar por eles.
— Aron? Não tenho nenhum primo chamado Aron.
— Tem sim, filho de Hipnos, logo, seu primo — Caronte deu uma risada abafada. — Eu sei que tudo está acontecendo muito rápido garoto, mas o seu destino como semideus está para despertar, você será o líder da Legião dos Mortos. Você será tão forte quanto os Filhos de Hades, mas antes, você precisa tornar-se forte e esse é o seu momento.
Finalmente eu ouvi um barulho: o de carros batendo, as luzes da minha casa piscaram. A ligação quase caiu.
— Siga a trilha da morte. E acho que você encontrará a solução para os problemas da sua mãe... — a ligação caiu.
— Espera, solução? Trilha da morte?
Uma súbita sensação de raiva tomou conta do meu corpo.
— Droga! — derrubei o telefone no chão, e ele se quebrou em um milhão de pedaços.
Peguei o pingente na minha mão, de repente, ele começou a levitar sozinho. Na verdade, não era levitar, o pequeno corvo ganhara vida e estava batendo as asas. Aquilo teria sido bonito, se não fosse um corvo de plástico, movimentado-se como se tivesse vida.
Aquilo foi na minha direção, com um impulso veloz. O button, literalmente, se cravou no meu peito. A dor era insuportável e os barulhos de carros batendo, e a eletricidade caindo, aumentavam com frequência. Cheguei a arquejar de dor, o peito sangrava e o corvo se cravava com mais força no meu peito.
A eletricidade caiu, os barulhos de carro também pararam. Estava no escuro, o único lugar em que eu me sentia bem. A dor no meu peito ainda continuava, apesar de mais fraca.
— Semideus, cadê você? — perguntou uma voz estridente. — Você será o almoço das sombras hoje.
Duas perguntas rápidas me vieram na cabeça: como ele sabia que eu era um semideus? E o que é um semideus?
Queria gritar que eu não estava em casa, mas seria meio inútil. Ele sabia quem eu era, mas ainda tinha minha vantagem: estava nas sombras.
Me levantei do chão, toquei no meu peito, o button tinha desaparecido. Fiquei tentando ver onde ele estava, e eu me mataria de culpa se tivesse deixado ele cair, ou se tivesse voado para longe com seus amigos buttons animados e assassinos. Que droga, como eu odeio tudo isso, estava acontecendo tudo muito rápido. Mas tentei me concentrar, sabia que ficar parado olhando para o horizonte, não resolveria nada. Eu mesmo teria que resolver esse problema, e se eu tiver que meter o cacete em alguém para salvar a minha mãe, eu faço sem hesitar.
Tudo bem, pensei. Agora só temos que tentar não morrer, de resto, está tudo bem.
Não sabia o que estava fazendo, mas comecei a me encostar na parede. Então, algo aconteceu, eu fui, literalmente, tragado pelas sombras. Elas me engoliram como se eu não fosse nada, como se elas já me conhecessem. Eu estava em um lugar escuro, claro, eu podia me movimentar, e uma tela enorme se projetava à minha frente, então, eu podia ver o que estava acontecendo na minha frente. Ou seja, eu estava andando pelas sombras.
Quando eu dei de cara com “aquilo”, ele era uma sombra gigantesca, seu rosto era disforme e ele tinha uma boca em formato circular, e vários dentes serrilhados. Tinha, de maneira irônica, uns quatro olhos vermelhos pulsantes e parecia ser bem forte, já que ele era gigante. Eu poderia chamar aquilo de monstro, mas por enquanto, não tenho certeza se monstros existem. Pelo visto, todo esse tempo, eu estive enganado.
Bem que eu queria que aquele fosse apenas mais um dia normal na minha vida. Tipo, sem mortes, apenas mais um dia na escola, no meu tedioso ano letivo, mas, não, aquilo tinha que invadir a minha casa e aquela ligação de um tal de Caronte, dizendo que eu sou um semideus, estragaram o meu dia. E também estragaram o dia de organizar o porão, que saco.
E outra coisa: não tenho opção, aquele cara disse que eu poderia encontrar a solução para o problema da minha mãe. E, amigo, eu faço qualquer coisa para salvar a minha mãe. Então, eu vou ter que ir atrás do meu suposto pai.
— Você não vai aparecer, seu meio-sangue miserável? Vou ter que ir atrás de você, sua caça imunda?
Com certeza, aquele cara precisa melhorar os insultos.
Olha, se fosse uma luta corporal, ele com certeza venceria, sério. Eu sou fraco demais, sou magro demais e sou horrível em qualquer esporte. Uma vez tentei fazer luta grega, cara, que fracasso. E mesmo se eu fosse forte, não tem como ganhar daquilo no corpo-a-corpo, aquele negócio deveria ter, pelo menos, dois metros e meio.
Não tem como eu me defender, aquela arma louca que tentou me matar, o Mensageiro da Morte, desapareceu. Agora, eu não tenho com o quê lutar.
Meu peito começou a arder, parecia a mesma dor daquele maldito button, porém, mais intensa. Arquejei novamente e soltei um grunhido de dor. O monstro parecia ter ouvido.
— Nas sombras, garoto? Filho de Thanatos?
De repente, as sombras à minha volta se moveram, estavam indo embora, fazendo com que eu voltasse para o mundo normal. De repente, eu estava na sala de estar, com uma das mãos no peito. O monstro, aparentemente, se deliciava com a cena. Eu estava exposto e machucado, poderia morrer há qualquer hora.
— Você é filho de quem, semideus?
— Da minha mãe.
O monstro gargalhou.
— Bem, pelo menos, você tem senso de humor. Mas isso não adianta de frente para a morte.
— Você poderia falar menos, e me matar logo de uma vez. Bota profissionalidade, nisso aí.
— Aposto que você não faz a mínima ideia do que está acontecendo, não é semideus?
— Se eu soubesse não estaria preso com uma coisa horrenda na minha casa.
O monstro pareceu se agitar, balançou sua carcaça sombria. Mas a cabeça continuava imóvel, como se fosse uma peça de boneco colocado, que não se movia.
— Uma nova era de monstros está surgindo, e com ela, novos deuses menores também. Bem, meu pequeno herói, você não viverá tempo suficiente para ver isso — por mais que aquilo se mexesse, por mais que balançasse, a boca circular ficava imóvel. — A partir de hoje, semideus, restará apenas a sua carcaça.
— Ah, nossa. Que pena, sério, estou muito abalado, socorro, eu vou morrer.
O monstro percebeu a ironia na minha fala, depois ele investiu contra mim. Ele foi tão rápido que eu nem percebi, ele se movimentava em uma velocidade incrível, e ele apareceu diante de mim, levantando uma das mãos, que mais pareciam garras afiadas.
— Esse é apenas o começo.
Quando o mostro atacou, senti meus olhos arderem, como se estivessem em brasas. O monstro recuou, meu peito queimava de dor. No meu peito estava cravado uma cicatriz em forma de corvo, abrindo as asas. Uma foice de dois metros de comprimento, de ferro negro apareceu em minhas mãos.
— Seus olhos estão brancos... isso é o quê? Ferro estígio? — disse o monstro, enquanto recuava lentamente. — Você é filho de Thanatos, o Senhor da Morte.
— É o que parece.
Levantei a foice e descrevi um arco diagonal, mas o monstro conseguiu desviar.
— Senhor, eu juro fidelidade à ti, mas não me mate.
— Não acredito em palavras de fidelidade, vindas de um covarde.
Levantei a foice novamente, aquilo, com toda a certeza, não era eu. Era alguém que estava adormecido dentro de mim, uma outra personalidade: o aspecto da morte. Quando descrevi um arco horizontal, o monstro grunhiu de dor e tentou se esquivar, mas a foice o acertou em cheio. Fazendo com que ele se dividisse em dois, depois, ele começou a desaparecer aos poucos.
— Escute minhas palavras, Filho da Morte: Você morrerá, e nem seu pai poderá salvá-lo.
O monstro se dissolveu em areia.
A minha foice voltou para o meu peito. O Mensageiro da Morte havia cumprido sua tarefa.
Foi quando eu fui engolfado pelas sombras novamente. Dessa vez, eu não estava escondido nelas, eu estava viajando. Mas era algo muito cansativo...
Quando eu percebi, estava na esquina de casa. Os polícias estavam na porta da minha casa, estava tudo destruído e saía uma estranha fumaça do teto, como se houvesse pegado fogo. Sinceramente, não sabia a conclusão dos polícias, mas eu não queria ficar no meio daquilo. E eu estava com tanto sono que acho que cairia ali mesmo, se não fosse por um garoto estranho... bem parecido comigo, só que ao invés de cabelos lisos e negros, os cabelos dele eram lisos e louros e os olhos, ao invés de vermelhos, dourados ou negros... eram verdes, azuis ou talvez, brancos.
— Você está bem? — ele perguntou
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