As Crônicas dos Semideuses
2 Aron - A Terra dos Sonhos
Finalmente era sexta-feira, o dia em que dormia e não ia para o colégio. Eu escolhi esse dia, pois posso emendar ele com o final de semana, e minhas notas sempre são boas, então, sempre consigo passar de ano. Passava dias dormindo e, meus sonhos sempre foram lúcidos, então eu vivia no meu próprio mundo, e eu o chamava de “Terra dos Sonhos”. Pode parecer idiota, mas lá algumas criaturas curiosas e adoráveis gostam muito de mim, às vezes, eu até sou tratado com um deus por lá.
Quando entrei na Terra dos Sonhos, eu percebi que tudo estava vazio. Na verdade, eu estava em um show de uma banda de rock, aliás, não tinha banda, apenas instrumentos e não tinha ninguém. Imaginei que a banda não devia ser muito legal.
Estava no palco, com o microfone na mão.
Um barulho ecoou no meio do palco. Me virei e não vi nada, aquilo não era nada parecido com os meus sonhos habituais, quer dizer, eu colocaria bastante gente e começaria a tocar Pop Punk, ou qualquer outro gênero musical. Mas eu não tinha controle sobre o meu sonho, o que eu achei um pouco estranho.
Fui até a bateria e percebi que não tinha nenhuma baqueta por perto. As guitarras elétricas estavam desligadas e não tinha nenhuma caixa de som e o microfone tinha o seu fio cortado. O.k. Estava estranho demais, eu acho que estava em Detroit, pelo menos, as fábricas à distância davam a impressão de que eu estava em Detroit.
Sim, pensei. Detroit, talvez. Ou talvez, eu esteja louco.
Na hora, eu queria aproveitar meu sono. Era sexta-feira, cara. Dia de nem ir para o colégio, ficar em casa e dormir. E também dormir sábado. Dormir domingo também é uma boa ideia.
O vento começou a ficar mais forte, me puxando para o centro do palco. Comecei a lutar contra o vento, corria e tentava escapar daquelas rajadas em espiral do vento. Mas não conseguia lutar, aquilo era muito mais forte que eu. Claro, que se eu estivesse tendo um sonho lúcido, poderia fazer com eu pudesse voar, ou que eu criasse uma bola de fogo altamente explosiva e lançasse contra aquilo. Mas eu não podia. Sabia que estava sonhando, mas não tinha controle de nada.
Então, uma intensa luz começou a fluir de dentro das rajadas espiraladas. Alguém — ou melhor, um anjo estava aparecendo. Era algo magnífico, com asas brancas esplendorosas e com mais de três metros de diâmetro, de vez em quando, as asas soltavam fagulhas douradas.
Aos poucos, um homem com cabelos louros lisos, olhos azuis, verdes ou... dourados? Começou a aparecer. As bochechas dele eram coradas e seu nariz arrebitado, tinha as sobrancelhas arqueadas e um sorriso travesso.
— Oi? O senhor poderia me soltar antes que eu comece a gritar? — perguntei.
Os ventos pararam abruptamente, eu ainda tentava correr e, quando os ventos pararam, eu quase caí de cara no chão. Não teria sido nada legal, além do mico que eu iria pagar.
O homem me olhou com ternura, seus olhos cintilantes pareciam querer me abraçar, mas ele não podia. Ele iria chorar, mas tinha que manter a postura. Ele se ajeitou, e olhou para mim.
— Oi — falei.
— Filho, quanto tempo esperei para te ver.
— Filho? Não, eu não sou seu filho. Tenho certeza.
— Você é sim. Suponho que não saiba quem eu sou.
— Não sei, não.
O homem pareceu pensar, depois ajeitou suas asas e tirou algo dos bolsos de sua calça jeans. Era um pingente, parecido com uma árvore, não sei direito como descrever, mas o pingente era uma árvore que escorria um líquido.
— Tome isto, é seu.
— Meu? — perguntei, apontando para o pingente.
— Seu... queria te dar isso desde que você era uma criança, mas... sabe, eu não tenho tanto tempo assim — ele me entregou o pingente. — Bem, espero que faça bom proveito dele. Seus irmãos o invejaram por isso.
— Que irmãos?
O homem pareceu não notar o que eu falei.
— Bem, não importa — ele começou a se concentrar. — Você conhece os mitos gregos? Sobre os deuses, monstros, titãs, primordiais ou qualquer coisa do tipo?
— Sim — falei.
— Então, eles existem de verdade. E uma vez, um cara chamado Urano, se casou com uma mulher chamada Gaia, então eles tiveram vários filhos.
— E deram origem aos titãs. Cronos, seu próprio filho, o esquartejou com uma foice e tomou seu lugar — interrompi. — Eu conheço. Mas eles não existem, são apenas mitos.
— Não são bem mitos, são mais... histórias que realmente aconteceram e os deuses existem. Conhece Hipnos, o deus do sono? Ele tem um irmão gêmeo bem parecido com ele, só que menos bonito.
— Sim.
O homem se ajeitou novamente.
— Então, eu sou Hipnos, deus do sono. Ou Somnus, se bem que no meu aspecto romano, eu sou bem mais assassino... mas isso não importa. Você é meu filho, Aron. E eu tenho uma missão para você.
— Missão? Bem, eu vou para a escola, e eu sou muito estudioso, não sou de ficar dormindo e nem nada do tipo.
— Já está na última semana de aula, daqui à pouco, será as férias de verão. Você é um garoto inteligente. Venho observando você desde criança. Sei muito bem do seu potencial, por isso acho você digno de me resgatar.
— Resgatar você? Nada está fazendo sentido. Acho que vou chorar.
Hipnos, o deus do sono, veio na minha direção. Ele não andava, ele levitava com sutileza e delicadeza.
— Não, não chore. Olhe, Urano, de alguma forma, está despertando, ele deveria estar morto, mas algo, ou alguém, está juntando a sua energia e não sabemos como, mas Pontos também está despertando. Se eles conseguirem arranjar uma nova forma de trazer Gaia de volta, poderão ter novas crias horrendas, novos deuses que talvez sejam tão ruins quanto eles. Vocês precisam deter eles.
— E como eu faço isso?
— Thanatos e eu fomos sequestrados. Fomos aprisionados e não sabemos onde estamos, vocês terão de seguir a trilha da morte... e eu só conheço uma pessoa capaz de seguir a trilha da morte. Os nossos poderes estão fracos, e você, meu filho, talvez seja a minha única salvação.
— Tudo bem, e como você me prova isso?
Hipnos bateu palmas. Eu não estava impressionado, de certa forma, sempre soube que meu pai não era humano.
O deus do sono, mostrou duas pessoas pessoas acorrentadas pelos braços. Um tinha os cabelos louros e o outro, cabelos negros como a noite. Os dois pareciam diferentes. Mas se completavam de uma maneira estranha. Eram gêmeos, e pareciam tão conectados... eu podia sentir isso.
Os dois estavam sangrando, cheio de cortes pelos braços e nos rostos. Também estavam com as roupas rasgadas e estavam em um lugar escuro... sem vida. E algo atrás deles ria intensamente.
— Isto é uma prova para você?
— É, sim. Mas olha, não tem como você ser meu pai. Você, é tipo, magnífico, sei lá. Suas asas são legais, roupas maneiras, inclusive.
— Claro que você é meu filho. Seus olhos são iguais aos meus, e os cabelos também, até o nariz é parecido. E a carinha de sono... a mesma.
Pensando por um lado, ele tinha razão. Se eu fosse o filho do deus do sono, talvez explicasse o porquê de eu gostar tanto de dormir. E também explicava muitas outras coisas...
— Eu queria te perguntar tanta coisa, essa é a primeira vez que te vejo, Aron. E parece que você é um bebê para mim, mas não tenho tempo. Minhas forças estão se esgotando.
Hipnos começou a desaparecer lentamente no ar.
— Uma nova ameaça está surgindo, filho. Eu não sei o quão perigosa ela é. Mas sei que se deixarmos eles despertarem, vai ser devastador...
Quando ele estava quase desaparecendo, eu perguntei algo:
— E quem é o cara que consegue ver a trilha da morte?
— Seu primo...
Então, ele desapareceu. Quer dizer que eu tinha um primo, que era filho de um deus? Olha, que legal. Talvez pudéssemos compartilhar alguns segredos.
Sim, aquele cara poderia ser meu pai, muitas semelhanças... É, realmente, a gente é muito parecido. Então, todos os esses anos, aquelas coisas estranhas que eu vira, nunca foram causadas pelo meu sono, mas sim porque elas, de fato, existem. É uma explicação lógica.
Agora que eu deveria acordar? Bem, eu queria continuar dormindo. Era sexta-feira, cara. Dia de dormir. Mas eu tinha que encontrar meu primo, e eu nem sequer sei como ele é, ou o nome dele. Talvez ele viva aqui, em San Diego.
Tudo bem, hora de acordar... Um, dois...
Acordei.
Bocejei e ergui meus dois braços. Olhei pela janela e... como assim, já era de noite? Meu Deus, eu dormi por quanto tempo? Eu lembro de ter ido dormir quase meia-noite de uma quinta-feira. E já são... Peguei o meu relógio. Dez e meia da noite? Agora sim, estou orgulhoso de mim mesmo.
O.k. Comecei a me arrumar, arrumei meus cabelos, coloquei uma calça jeans e uma camiseta preta. Olhei para o espelho mais uma vez, estava tudo bem. Nem feio. Nem bonito. Razoável. Gosto assim.
Desci as escadas, quando notei que algo balançava no meu peito. O pingente do meu pai? Então, aquilo não fora um sonho? Ainda bem que não foi um sonho. Detestaria ter que acordar no meio da noite e me arrumar para nada. Seria péssimo.
Quando eu finalmente saí de casa, percebi que uma viatura policial passou a um milhão de quilômetros por hora na minha rua. Achei estranho todo o movimento. Tinha uma fumaça à algumas quadras de onde eu moro, sim... Talvez fosse uma pista. Ou talvez um assassinato brutal tivesse acontecido, mas eu decidi encarar como uma pista.
— É, priminho. Acho que você mora mais perto do que eu pensava.
Comecei a correr na direção da fumaça e das viaturas policiais. Conforme corria, via pessoas saindo das casa para ver o que estava acontecendo, e ocasionalmente, elas me olhavam. Qual é? Eu só sou um adolescente fazendo um cooper de noite. Não estou fazendo nada demais.
Faltava só uma quadra para mim chegar lá, estava quase chegando. Meu fôlego estava indo embora, agora sim, eu estava vendo vantagens em fazer a aula de Educação Física. Minha respiração estava tão pesada, que eu acho que a qualquer momento, eu poderia ter um ataque cardíaco. Ou sei lá.
Dois policiais extremamente grandes trancaram a rua. Então, eu não poderia entrar. Quando cheguei lá, eles me fitaram com escárnio e falaram em uníssono:
— Volte para casa, garoto. Aqui não há nada que você queira ver.
— Ah, tem uma coisa que eu quero ver, senhor. Deixa eu entrar, meu primo está aí.
— E qual o nome dele?
Rapaz...
— Ah... boa pergunta. Era isso o que eu ia descobrir.
— Você tem um primo e não sabe o nome dele?
— Você tem um tataravô e não sabe o nome dele. Qual é, cara. Me deixa entrar.
O policial da esquerda parou, me cheirou e se deliciou. Foi quando eu percebi os dentes saltados, e também que eles eram muito altos... tipo, tinham uns seis? cinco metros? Não importa, mas eles eram ridiculamente grandes.
— Vem cá, vocês não são muito grandes, não? Sério, o que as suas mães deram para vocês, quando crianças? — falei. — Anabolizantes, esteroides? Cara, eu queria crescer assim.
— Garoto, você é um meio-sangue? — o guarda da esquerda falou. O da direita começou a acompanhar o cheiro do outro guarda, eles ficaram me fungando.
— Meio-quem? Não, posso te garantir. Sou um inteiro.
Sim, aquilo estava ficando muito estranho. Comecei a perceber que eles tinham olhos extremamente avermelhados, um nariz muito grande e orelhas pontiagudas. Elas pareciam elfos gigantes. Ou talvez uma mistura de monstro, com um monstro mais horrendo ainda, que deu naqueles dois.
— Dentuço, será que comer dois meios-sangue é demais? — perguntou o guarda da esquerda.
— Claro que não, Cabeça de Bagre — respondeu o guarda da direita.
Quem se chamava Dentuço e Cabeça de Bagre? As mães deles deveriam ser muito criativas. Tão criativas ao ponto de deixar as crianças passando vergonha por causa de um nome desses.
— Você é um meio-sangue, garoto! Me diga seu nome.
Pensei em algo bem rápido.
— Bem, que eu não lembro meu nome. Coisa de doido, né? — comecei a me meter entre eles. — Só me deixar passar, não vai ter nenhum problema com seu superior.
Algo dentro de mim falou uma palavra que eu conhecia muito bem.
— Sério, me deixem passar — falei.
— Não, meio-sangue, você será nosso aperitivo de hoje — falou Dentuço.
Tomei coragem e falei:
— Durmam!
Os dois adormeceram na hora. E, de repente, meu pingente brilhou, transformando-se em uma espada com o punho de couro que se encaixava perfeitamente, e uma espada feita de um metal branco e com um fio reluzente. Parecia que eu estava segurando uma lâmpada fluorescente.
Ponderei por alguns minutos, os dois policiais estavam dormindo. Feito duas crianças. Eu tinha uma espada, eu poderia silenciá-los. Sei lá, eles ficariam com umas sequelas ali e aqui, mas eu precisava passar. E eu sabia que esse efeito do sono não ia durar muito tempo.
— Desculpa, Dentuço. Desculpa, Cabeça de Bagre — finquei minha espada em Dentuço, depois no Cabeça de Bagre. Em vez de eles sangrarem, ou sei lá, soltarem purpurina. Eles começaram a dissolver aos poucos, como se fossem feitos de areia. — Olha, que interessante. Em vez de sangrarem, eles jorram areia. Meu professor de biologia ficaria louco.
A rua ficou vazia, um silêncio terrível teria passado por ela, se não fosse pelas viaturas e pela fumaça saindo do teto de uma casa. Credo, cara. Parece que a casa foi incendiado por algum maníaco.
Eu olhei para todos os lados, um sensação de tristeza e morte estavam no lugar. Parecia que eu estava em um cemitério, e conforme eu ia andando, mas essa sensação ficava forte. Era como se estivesse me aproximando de algo muito familiar. Algo diferente de mim, mas, que de certa forma, me completava. Alguém que talvez eu gostaria muito... ou odiaria muito.
Foi quando eu percebi que tinha um garoto deitado, quase morto no chão. Ele parecia estar doente, pois seus pálpebras estavam carregadas de fuligem e pareciam sofrer muito. Ele parecia bem cansado, parecia que enfrentara um monstro.
Comecei a carregar ele pela rua, ele era bem pesado para alguém magro. Tudo nele estava rasgado, tinha cortes por todos os lados e parecia ser alguém bem poderoso, se não fosse pelo fato de estar dormindo no meio da rua. Ou ele poderia ser um louco.
Sim, eu admito: não sei quem ele é. Mas eu tinha que ajudar ele, ele poderia morrer ali no meio da rua.
Sentei no meio-fio e fiquei olhando para cima, procurando uma resposta e, provavelmente, eu estava com essa cara: bem que poderia ter me dado uma dica antes de desaparecer. Deveria ter perguntado detalhes para Hipnos, mas na hora eu estava pensando: Que que eu estou fazendo aqui? Então, nada disso tinha me vindo na cabeça.
O garoto começou a abrir os olhos. Me levantei. E de certa forma, eu esperava que algo acontecesse, estava esperançoso.
— Você está bem? — perguntei.
O garoto pareceu me analisar. Olhando bem para ele, ele era bem parecido comigo — só que ao contrário. Olhos, vermelhos? pretos? dourados? Parecia um caleidoscópio sem vida. Cabelos negros e lisos. Resumindo: bem parecido, só que muito diferente.
— Eu... estou bem. O que aconteceu?
— Olha para ser sincero, eu não sei te dizer. Qual é seu nome, cara?
— Noah.
De alguma forma eu sabia, ele era meu primo.
— Meu nome é Aron — o garoto pareceu assustado, e até recuou, mas ele percebeu que eu não era uma ameaça. — E temos muito o que conversar.
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