As Crônicas dos Semideuses

3 Lizzie - A Jornada do Sol


Uma flecha passou zunindo pelo meu ouvido. O projétil se cravou em uma árvore, à minha esquerda. Olhei em volta, alguém estava me seguindo, eu sabia disso... E era um dos meus meio-irmãos. Verifiquei a minha armadura de bronze, nos bolsos da minha calça haviam algumas ervas medicinais. Lizzie, está preparada? Com toda certeza. Toquei na minha cinta, a minha arma, também chamada de Andarilho Solar. Agarrei o arco em pleno ar.

Tudo estava quieto, o bosque estava silencioso aquela manhã. Peguei uma das minhas flechas encantadas, o fio do arco estava tão brilhante e reluzente, que parecia ser feito de ferro. O que, provavelmente, teria cortado os meus dedos. Puxei até onde o arco aguentava, e em vez de disparar na direção do meu inimigo. Eu o joguei para cima. A flecha desapareceu no meio do céu.

Estou tentando melhorar esse truque aos poucos, mas ele é muito arriscado. E não sei se poderia funcionar agora. As chances de dar certo: quase zero por cento. Não que eu esteja sendo pessimista. Mas sim, realista.

A floresta ecoava sussurros de amor das dríades, de certa forma, era hipnotizante. Mas assustador. Algumas dríades são loucas.

Comecei a correr, minha bochecha estava cortada e escorria sangue. Droga. Sabia que deveria ter trazido alguns curativos.

Eu era uma das únicas que acordava o mais cedo possível para treinar. Era o meu primeiro ano no acampamento, não queria parecer fraca diante dos veteranos.

Três, dois, um... Agora.

Estalei os dedos e a flecha que havia desaparecido no céu, tocou o chão. Formando uma pequena explosão, que poderia destruir uns dois ou três monstros. Uma pequena nuvem em forma de cogumelo se formou. Com aquele estrondo, todo o acampamento deveria ter acordado.

— Boa tentativa, Lizzie. Sabia que você ia tentar isso — gritou uma voz ao fundo.

Fazer aquilo me deixava completamente exausta, o máximo que eu conseguia fazer era três por dia. Se eu fizesse mais duas daquelas, teria caído ali mesmo, no chão. Declarando derrota. Mas eu não sou tão fácil de vencer.

Balancei o meu arco. Ele se transformou em uma espada de noventa centímetros, o bronze tão reluzente que poderia se passar por qualquer outro metal. Bronze celestial, mortífero para monstros, tão raro quanto qualquer metal mágico.

Nas sombras das árvores um garoto surgiu: Synder, outro filho de Apolo. Cabelos castanhos escuros, olhos verdes, porte atlético e intenso sorriso acalentador, esse era Synder, meu meio-irmão. Ele era um pouco diferente dos meus outros meio-irmãos. Ele era um exímio lutador com espadas, e com arcos também. Mas na questão de artes, música, medicina e poesia, ele era horrível. Se bem, que pelo que me falaram, meu pai também não é muito bom com poesia.

— Ah, vai dizer que você já desistiu! — ele ergueu sua espada, tão reluzente quanto a minha, mas um pouco maior. Ele a chamava de Ferrão Musical. Dependendo do jeito que a espada atinge o alvo, solta um acorde tão estridente, que chega a ser quase inaudível para os semideuses e humanos, mas mortal para monstros. O que, na maioria das vezes, os deixam surdos por um bom tempo e fazem suas orelhas sangrarem. Numa batalha contra outra semideus, aquela se tornava uma arma comum, porém, afiadíssima. Toda vez que ele se aproximava com aquela terrível arma, meu corpo estremecia. — Venha, Lizzie. Não vou te machucar. Muito.

Ele me ensinou a como fazer isso com as armas. Synder me deu várias aulas de encantamento, então, eu aprendi. Mas não da mesma maneira que ele. Parece que ele tem um dom excepcional.

— Talvez você queira experimentar o fio da minha espada — gritei.

— É o que veremos, irmãzinha — ele deu um sorriso e avançou na minha direção.

As nossas espadas entraram em choque, algumas vezes, as armas soltavam faíscas tão quentes quanto plasma. Synder tentou um ataque pelo meu flanco direito, consegui desviar do ataque, ele pareceu ficar confuso, então eu bati com o pomo da minha espada na testa dele. Synder ficou atordoado por alguns segundos, de alguma forma, eu acho que tinha deixado sua visão turva. Mas ele conseguiu se recompor. Tentou um golpe na diagonal. Levantei defesa. Mas foi inútil, a sua força quebrou a minha defesa. Fazendo com que eu caísse de cansaço no chão, ele conseguiu cortar parte da minha roupa, fazendo com que a minha barriga aparecesse.

Ele me examinou com o olhar, parecia dizer: está melhorando com o tempo, mas não o suficiente, não tanto quanto eu esperava. E eu estava determinada a ser o mais forte possível. Não iria desistir assim, sem mais, nem menos.

Me levantei o mais rápido que pude. Synder parecia impressionado, ele não esperava que eu tivesse conseguido resistir ao seu ataque. Eu, realmente, não resisti. Mas não quero desistir.

Em vez de levantar guarda, eu dei um salto e descrevi um arco diagonal com a minha espada. Synder pareceu perceber o que eu estava fazendo — zero por cento defensivo, cem por cento ofensivo. Ele levantou sua guarda, mas a espada não aguentou a força que a minha exerceu sobre a arma dele. Synder caiu de joelhou no chão, a espada a reluziu sob a luz do sol.

E eu fiz o mais lógico: correr.

Transformei minha espada em arco novamente. O arco reluziu com uma cor alaranjada, tão poderosa que era quase cegante. Verifiquei a minha aljava, e peguei duas flechas. Já não tinha mais forças para usar aquele ataque, mas eu tenho outra tática. Talvez essa seja menos cansativa que a primeira.

São duas flechas, uma delas era igual a de um ex-campista, Michael Yew, antigo conselheiro do chalé de Apolo. Ou seja, era uma flecha musical, que quando atinge algo, tem uma explosão de um acorde tão forte que chega a deixar o inimigo surdo. A outra era uma flecha flamejante, e o fogo demora para ser apagado e a flecha fica mais forte quando é de dia. Na dúvida eu atirei as duas flechas.

Um estrondo horrível no meio das árvores. E mais para frente, algo queimava intensamente.

Transformei meu arco em espada.

Eu sabia que Synder ainda estava de pé, ele era tão difícil de derrotar quanto eu. Mas ele era menos despreparado, era um exímio guerreiro, mas as táticas de batalha não são das melhores. Ele precisa de alguém que saiba guiar ele, e ninguém menos que seu namorado, Petro, sabe fazer isso. Petro é um filho de Atena, e é tão bom em estratégia quanto Annabeth, e também é um exímio guerreiro. Não me lembro muito bem como Synder e o Petro se conheceram, mas pelo o que eles me falam, foi amor à primeira vista.

O silêncio foi tomado pelo crepitar do fogo. Mas não tinha mais ninguém.

— Apareça, Synder!

Não houve resposta, estava começando a me perguntar o que acontecera com ele. Eu não poderia tê-lo matado, sou fraca demais. Assim como ele não poderia ter escapado ileso dali. A explosão sonora fora forte demais, ele deveria estar aturdido em alguém canto, esperando sua audição voltar por completo. Ou deveria estar curando os ferimentos dele.

Me virei e uma ponta de espada me pegou de surpresa. A ponta de espada de Synder.

— Calma — ele disse. A manga da camisa dele estava chamuscada, sangue escorria de seu braço e suas orelhas, também sangravam. Ele tinha uma sugestão de sorriso no rosto, mas ele não estava bem. — Eu poderia ter te matado.

Synder caiu de joelhos no chão.

— Mas estou fraco demais para matar alguém.

Peguei um pouco de néctar e ambrosia da minha mochila. O cantil de néctar estava cheio, então dei apenas um pouco para ele. Néctar e ambrosia são coisas perigosas. Nunca se pode dar em grandes quantidades para um meio-sangue. Dei o suficiente para que seus ferimentos cicatrizassem. Synder pareceu renovado. Seus joelhos também foram feridos, estavam ralados e queimados. A audição pareceu ter voltado ao normal.

— Está me ouvindo? — perguntei.

— Sim, graças aos deuses. Da próxima vez, tomarei cuidado com essas flechas. Vou trazer um tampão de ouvido, ou qualquer outra coisa.

Dei uma risada.

— Ei, como você soube que eu viria atrás de você?

— Porque você se importa comigo, queria ver se eu estava bem. Às vezes, a fraqueza emocional pode ser explorada em batalha, foi o que Petro me disse. Mas como você pode ver, eu estou fraco demais para te ferir, e mesmo se estivesse forte, eu não te feriria. Você é minha irmãzinha, e eu também me importo com você. E lembre-se: a sua retaguarda é importante. Me culparia para sempre se você fosse morta por uma punhalada nas costas.

Senti meus olhos arderem. Era difícil Synder demonstrar amor pelos outros. Mas só de ele ter falado aquilo, me senti mais esperançosa, sabia que não ficaria sozinha. Nunca mais. Não depois de tudo.

Ele deu um tapinha nas minhas costas, e começou a andar. Ele mancava e soltava gemidos de dor. Mas ele parecia estar feliz.

— Agora, vamos voltar para o acampamento. Você tem muitas coisas para fazer, e depois é o almoço — ele disse. — Você tem que treinar estratégias de batalha com Petro. Lizzie, você vai se tornar uma guerreira tão poderosa quanto as amazonas, e eu serei eternamente orgulhoso de você.

Estava sendo difícil conter as minhas lágrimas depois de ouvir tudo isso.

— Tudo bem, mas primeiro, vamos para o chalé de Apolo, ou você prefere o chalé de Asclépio?

— Melhor o de Apolo. Se eles me verem entrando mais uma vez no chalé de Asclépio, eu vou ser expulso — falou. — Aliás, nem sei porque os filhos de Asclépio e de Apolo tem tanta competição, os dois deuses são curandeiros. E Asclépio é filho de Apolo, então, não teria problema eu ir no chalé deles.

Dei mais um sorriso. Certa vez, disseram que o meu sorriso é tão radiante quanto o sol. Me perguntou se o meu pai também não tem o mesmo sorriso.

— Tudo bem, Synder.

Já tínhamos chegado ao chalé de Apolo. Will Solace o atual conselheiro do chalé, tratou de todos os ferimentos de Synder. Will tinha um porte atlético e estilo surfista igual aos do meu pai, os olhos azuis tão claros quanto o céu e os cabelos louros desgrenhados eram tão reluzentes quanto o sol. Ele, literalmente, era um filho de Apolo.

— Nossa, Synder, como você conseguiu se ferir tanto? — Will perguntou. Ele sempre tinha um sorriso tranquilizador como arma, e também era muito bom com a cura e os medicamentos. Will analisou a situação e reparou que já lhe fora dado néctar e ambrosia, então, ele só fechou os ferimentos com ataduras. — Bem, seja como for, tenha mais cuidado.

Algo me veio na cabeça, Nico di Angelo, o atual namorado de Will. Os dois começaram a namorar há pouco tempo atrás, mas desde então, eu nunca os vi juntos. Nico começou a se afastar, quer dizer, eu já sabia que ele sempre viajava — principalmente para o Mundo Inferior, já que ele é filho de Hades. Mas, pelo menos uma vez por semana, ele vinha visitar Will.

— Aliás, Will, o que aconteceu com o Nico? — perguntei.

O rosto de Will Solace ficou tão sombrio, parecia que um eclipse solar pairava em seu rosto. O sorriso amigável e gentil havia desaparecido.

— Lizzie, sinceramente, eu não sei. Já faz algumas semanas que eu não o vejo, estou ficando cada vez mais preocupado com ele. Gostaria de poder encontrá-lo, mas tenho muitas responsabilidades aqui no chalé. E, além do mais, ele não gosta que fiquem atrás dele, Nico acha meio sufocante. Não posso culpar ele, se ele sai assim por tanto tempo, é porque deve haver algo errado e ele deve estar trabalhando em uma solução para isso. Mas, já faz alguns dias que ele não dá nenhuma notícia.

Talvez eu não deveria ter perguntado aquilo.

— Olhe, desculpe pela pergunta.

— Não, não. Você está preocupada, e isso é bonito de se ver — ele tentou sorrir mas não conseguiu. — Talvez o desaparecimento dele tem a ver com as recentes visões apavorantes que a Rachel vem tendo.

— Rachel Elizabeth Dare? Você está falando do oráculo?

— Sim. Hoje à noite, na fogueira, vai haver uma proclamação dela sobre suas visões. Nem mesmo ela está sabendo interpretar as suas visões, pelo que ela me falou, elas estão ficando cada vez mais turvas e borradas, tornando difícil a interpretação, que já não era algo fácil. Parece que algo muito ruim vai acontecer, eu só não sei se vão ser tão ruim quanto ao que aconteceu há algum tempo atrás.

Eu sabia do que Will Solace estava falando. A guerra contra os gigantes, os sete semideuses, Piper McLean, Leo Valdez, Jason Grace, Percy Jackson, Annabeth Chase, Frank Zhang e Hazel Levesque. Os semideuses mais fortes. O ressurgimento de Gaia, seria possível que aquela maligna deusa da terra estivesse voltando? Eu espero que não.

— Bem, seja como for — falou Synder —, estaremos aqui para proteger o acampamento e os campistas. Somos fortes. Não quero ver mais ninguém morrendo, e eu farei de tudo para impedir que isso aconteça. Mesmo que eu tenha que dar a minha própria vida.

Eu cheguei no acampamento havia dois meses, ainda era uma novata. E parece que Synder também é novo por aqui, não sei pelo o que ele passou. Mas parece que os nossos passados, são igualmente obscuros.

— Você é bravo, Synder Feihn — Will falou. — Eu gosto disso.

Foi quando eu lembrei: Synder é filho de uma imigrante da Polônia, por isso o sobrenome estranho. E ele não era muito parecido com os outros filhos de Apolo. Ele tem cabelos castanhos escuros, quase negros e os olhos verdes cintilantes. E eu parecia mais com uma irmã mais nova de Will.

— Bem, espero que não seja nada demais — falei. — Acho que Quíron não ia gostar disso, quer dizer, a batalha contra os gigantes e uma super gigantesca nova ameaça em um curto intervalo de tempo, deve ser horrível. Acho que nem ele vai saber o quê fazer.

— Não subestime Quíron, Liz — disse Will. — Ele pode ser velho, mas não é tão desorientado assim. Aquele centauro já passou por muita coisa, tem anos de experiência, e sinceramente, de vez em quando, ele me surpreende — Will pegou uma tesoura e cortou a atadura e a pressionou contra o braço de Synder. — Se sente melhor?

— Sim, mas as minhas pernas ainda doem.

— Normal. Você vai continuar mancando por uns dois dias, tente não fazer muito esforço até lá — recomendou Will. — Por que vocês não foram no chalé de Asclépio?

— Achei que você não gostasse de filhos de Apolo indo naquele chalé. Nosso pai também é um deus da cura e medicina — Synder movimentou seus ombros, fazendo a tensão entre eles diminuir.

— Alguns filhos de Apolo não gostam; para mim, tanto faz. Estou tentando fazer um projeto onde os filhos de Asclépio e, nós, os filhos de Apolo, consigam trabalhar juntos, construindo uma enfermaria própria para os alunos. Afinal, Asclépio é filho de Apolo, então, não há motivos para a gente tentar competir com eles, mas, temos que conversar com Quíron, e depois, com os campistas, para ver se o projeto é aprovado.

Eu tinha gostado da ideia. Eu até que sou boa com cura e medicina, mas não a melhor. O curandeiro mais experiente e conhecido, era o Will. Mas acho que até ele gostaria de adquirir um conhecimento com os filhos de Asclépio, que são caras legais.

— Enfim, já está quase na hora do almoço e vocês devem fazer suas atividades pela tarde. Provavelmente, só nos encontraremos no jantar e depois na fogueira, onde Rachel vai tentar explicar sobre suas visões. Espero que não seja nada demais dessa vez — Will não parecia estar tão confiante assim, o seu rosto ainda vacilava, alternando entre uma expressão sombria e um sorriso radiante.

Estávamos em torno da fogueira, que brilhava alto e radiante. Alguns filhos de Apolo ainda cantavam e recitavam poemas, eu estava sentada em um canto, conversando com Synder, Petro e a campista mais recente — Zara Farley, filha de Hermes, quinze anos, reclamada logo após chegar ao acampamento. Ela estava meio desorientada, e também é cleptomaníaca, ou é isso o que os mortais acham dela. Decidimos ajudar ela, começamos a situar ela, mostrar as atividades, o que podíamos fazer, e claro, como funcionava a captura da bandeira.

Foi quando Rachel Elizabeth Dare, deu um passo desajeitado para frente. Seus cabelos ruivos, e seus olhos lindos, escondidos por um óculos. Ela também era conhecida como a garota que mora na caverna, mas só porque meu pai quis dar um ar sombrio para o oráculo.

— Quem é essa? — perguntou Zara. E ela era bem parecida com os filhos de Hermes, sobrancelhas arqueadas, expressão astuta, rápida, orelhas pontiagudas. Ela parecia uma elfa bem bonitinha, com cabelos castanhos ondulados e olhos negros perspicazes.

— Rachel, ela é o oráculo do acampamento — respondeu Petro.

— E o que é um oráculo? — ela perguntou.

— São os que conseguem ver o futuro e transpor ele em profecias, geralmente, as profecias são algo incerto e cheio de duplo sentido. Rachel é aquela que porta o espírito de Delfos, um antigo espírito dos oráculos — explicou Petro.

— E ela é um meio-sangue?

— Não — falei —, ela é uma humana comum, pai e mãe mortais. Mas ela consegue ver através da Névoa — olhei para Zara —, suponho que você conheça a Névoa.

— Não tenho nem ideia — confessou.

— É o que impede os humanos de verem os monstros, um véu de magia controlado pela deusa Hécate, a deusa da magia e encruzilhadas. E também pelos seus filhos, na verdades, eles também moldam a Névoa. Mas, enfim, é raro um mortal conseguir ver através da Névoa — talvez eu não devesse contar a história, mas mesmo assim, eu falei um pouco sobre ela. — Há muito tempo atrás, uma maldição foi lançada contra o último oráculo, a menina que veio antes de Rachel. E isso foi há muito tempo atrás, lá na época da Segunda Guerra Mundial.

— Como assim?

Synder e Petro fizeram que não com a cabeça. Era melhor não assustar a garota no primeiro dia no acampamento. Se eu resolvesse contar aquela história, sob a luz daquela fogueira, iria parecer uma maligna história de terror.

— Talvez você devesse perguntar para os campistas mais velhos, mas é uma história bem antiga e nem eu entendo direito ela. Claro, já ouvi ela dezenas de vezes. Mas talvez seja melhor você não ouvir ela, por enquanto — dei um sorriso para ela —, você ainda é nova por aqui.

Rachel interrompeu todas as conversas. Olhou delicadamente para todos os que estavam ao redor da fogueira e começou a explicar:

— Recentemente, o espírito de Delfos tem me visitado com menos frequência. E as minhas visões estão ficando mais turvas, e acreditem — ela suspirou —, já era difícil interpretar as visões, agora, a situação só está piorando. Mas, pelo que eu vi, os semideuses estão guardando um futuro sombrio e incerto, não sei se é algo maior que a guerra dos titãs, ou a guerra com os gigantes. Mas é algo terrível. Estou tentando chamar o espírito de Delfos, pedir ajuda, pedir para ele me guiar, talvez assim, as visões fiquem mais claras... talvez assim, eu possa interpretar melhor. Isso é uma tarefa difícil, mas acho que algo antigo está voltando, não é Cronos, não são os gigantes, mas tem a ver com Gaia.

— Como assim? Seja mais clara — gritou um campista.

— Isso é confuso, as visões estão ficando enevoadas e cheias de mau presságio. E uma voz masculina ressoa enquanto eu vejo morte e sangue.

Houve um longo minuto de silêncio, se tem algo que os meios-sangues entendem, é de morte e sangue. Pelo que Will me falou, teve um grande banho de sangue na guerra dos titãs, e teve um banho de sangue ainda maior, na guerra dos gigantes. Será que deuses e semideus deverão se unir para derrotar o inimigo?

Quíron apareceu do lado de Rachel. O grande garanhão branco estava inquieto. Ele não falou nada, mas estava lá para apoiar Rachel.

— Olhe, isso é uma questão de tempo, mas algo está ressurgindo. Algo maligno — falou Rachel. Então, ela começou a passar mal.

Foi quando as coisas pioraram de vez: Rachel começou a passar mal, ela tentava se apoiar nas patas dianteiras de Quíron — ela não vomitava, mas expelia uma espessa substância verde pela boca. Suas mãos se retorciam e seus olhos estavam tomados pelo verde fluorescente, foi quando uma voz, que não era dela falou:

A filha do Sol caminha sozinha

O Sono e a Morte seguem sua trilha

Em meio às ruínas, sua esperança brilha

Os Antigos vão se levantar

E os heróis nos salvar

Rachel caiu cansada no chão. Quíron a colocou na sua garupa e então ele falou:

— Bem, teremos mais tempo para decifrar a profecia. Todos voltem para o seus chalés.

Synder me olhou com uma expressão fria. Zara ficou perdida, a névoa verde havia hipnotizado ela.

— A filha do... Sol? Eles estão falando de você, Lizzie — disse Synder.

— Não, ainda existem outras duas filhas de Apolo no acampamento — disse. — Mas...

— Elas estão desaparecidas — completou Petro, virando seus olhos cinzentos, naquele momento o olhar de Petro parecia estar tempestuoso. — Nenhuma profecia é algo bonito. Geralmente, elas estão conectadas com mortes, banhos de sangue, ou até o fim do mundo. Mas, por que uma filha do Sol? Caminha sozinha? O que isso significa.

— Sinceramente, eu não faço a mínima ideia — falei.

— A última profecia foi ainda pior. Os gigantes, os filhos de Gaia com o Tártaro — quando Petro disse aquilo, pareceu que a terra ficou mais fofa e o lugar começou a esfriar. — Não sei se essa é uma das Grandes Profecias. A última Grande Profecia já estava marcada há séculos antes dos verdadeiros meios-sangue nascerem. Essa profecia... ela me assusta.

— Lizzie é a única filha de Apolo no acampamento — Synder ainda continuava achando que a profecia se tratava de mim.

— As duas estão desaparecidas. Alex Seymar e Yukita Yoragami, já estão há mais de um ano desaparecidas. Pergunto-me se Quíron sabe de algo. E se a profecia estiver se referindo a Lizzie, será que ela encontrará as duas irmãs dela.

— Provável, por que você não pede ajuda para a Ayers?

— Porque eu não vejo ela há mais de dois anos. Desde… — meus olhos começaram a lacrimejar.

— Desde o quê? — perguntou Zara.

— Bem, a minha irmã também é uma filha de Apolo. Mas ela se juntou as Caçadoras de Ártemis, e eu fiquei sozinha desde então... Morei em diversas casas adotivas, porém, nunca me encaixei em nenhuma delas. Eu não sabia que ela tinha ido embora para se tornar uma Caçadora, eu não sabia de nada sobre monstros e deuses, achava que era uma menina normal. Mas eu nunca fui — só de falar aquelas palavras, parecia que algo estava me dilacerando por dentro. — Eu só fui descobrir que ela era uma Caçadora agora.

Me levantei, tentando manter a postura e fui embora. Falei que ia para o chalé e descansar um pouco, mas na verdade, eu ia para o bosque. Aquela profecia me perturbava, e o meu passado estava começando a me perturbar também.

Quando ninguém estava me vendo, eu corri. Lágrimas escorriam pelas minhas bochechas, elas eram quentes e tristes. Naquele momento, achei que não pararia de chorar.

Só queria encontrar um monstro e espancar ele para ocupar meu pensamento. Queria esquecer da minha irmã por um momento, despertar antigas memórias é perigoso, isso requer muito equilíbrio mental, coisa que eu não tenho.

Estava quase chegando na floresta, quando um brilho prateado começou a tomar conta da minha visão. Comecei a correr mais rapidamente, eu sabia quem estava atrás de mim, mas não queria olhar para trás e perceber que eu estava certa. Só queria correr, pegar o meu arco e disparar todas as flechas que eu pudesse.

— Você sempre foi tão teimosa, Liz. Pare de correr — disse uma voz atrás de mim.

Não poderia correr para sempre, uma hora eu teria que acabar olhando para trás e descobrindo que tenho que encarar todas as minhas incertezas e medos, talvez assim, eu pudesse ficar mais forte. E eu começaria agora, olhando para trás.

— Oi, Aye.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.