As Crônicas do Mundo das Sombras
2 Ascensão
Notas iniciais
A sala do Conselho estava completamente iluminada. Um grande círculo duplo havia sido pintado sobre o pódio na frente do salão, e entre os círculos havia símbolos de sabedoria, de habilidade, de astúcia, coragem e ligação, e os que representavam o nome de Simon. Simon se ajoelhou no centro dos círculos.
Não parecia mais com o menino que fazia parte de uma banda que mudava mais de nome do que ele de meia, não parecia o mesmo menino nerd que sempre estivera na vida de Clary, que segurava sua mão quando iam atravessar a rua, puxava suas tranças, que era viciado em RPG, que havia se transformado em vampiro, se tornado o guerreiro Diurno, que sacrificara sua imortalidade e memórias para salvar a todos. Ele tinha os mesmos cabelos castanhos desgrenhados, os mesmos olhos luminosos, continuava usando o óculos de armação quadrada. E, no entanto não era mais um simples mundano, nem mais um vampiro. O uniforme preto de couro lhe deixava diferente dos outros Simon que ele já fora. E mais do que isso: ele próprio mudara.
Clary sabia que para Simon deveria ser um pouco assustador se ajoelhar ali e esperar por algo que poderia lhe matar. Ela até sentia-se culpada por tê-lo trazido de volta ao Mundo das Sombras. E se algo desse errado? Se, ao invés de ter uma vida com o Simon mundano, tivesse alguns segundos com um Simon Caçador de Sombras?
A Consulesa estava diante dele, com as mãos pálidas e marcadas elevadas, segurando firmemente o Cálice Mortal entre elas. Jia usava roupas simples e vermelhas, que ondulavam ao seu redor. Sua face estava séria e severa enquanto encarava aos olhos castanhos de Simon.
— Pegue o Cálice, Simon Lewis — instruiu, e o salão ficou em completo silêncio.
A câmara do Conselho estava lotada, várias pessoas querendo ver a Ascensão do antigo Diurno que havia cedido suas memórias para salvar seus amigos. Na fileira de Izzy estavam Magnus e Alec, Clary e Jace, Maryse e Robert, Maia, Jocelyn e Luke, todos – menos Robert – inclinados, silenciosos e ansiosos, esperando a Ascensão de Simon. Em cada extremidade do pódio havia um Irmão do Silêncio, com as cabeças baixas, as túnicas parecendo feitas de mármore, tão silenciosos – como sua natureza mandava – que você quase poderia esquecer-se de suas presenças.
Simon podia sentir seu coração acelerado, o suor descendo pelas costas. As batidas em seu peito eram tão fortes que ele poderia jurar que todos ouviam, que percebiam seu nervosismo.
Jia baixou o pesado Cálice e o entregou a Simon, que o pegou com cuidado, tentando fazer as mãos não tremerem e sabendo que se derrubasse aquele Cálice no chão nada de bom viria depois.
— Você jura, Simon Lewis, que vai renunciar à vida mundana e seguir o caminho da Caça às Sombras? Vai tomar o sangue do Anjo Raziel e honrá-lo? Jura servir à Clave, seguir a Lei estabelecida pelo Pacto e obedecer à palavra do Conselho? Defenderá aquilo que é humano e mortal, sabendo que, pelo seu serviço, não haverá recompensa nem agradecimento, apenas honra?
— Juro — respondeu Simon, com voz surpreendentemente firme.
Claro, seria ótimo receber uma graninha pelos serviços prestados, mas não se podia ter tudo afinal.
— Pode ser um escudo para os fracos, uma luz no escuro, uma verdade entre falsidades, uma torre na enchente, um olho que enxerga quando todos os outros são cegos?
— Posso.
Ele nunca poderia imaginar que algum dia exigiriam algo assim dele.
— E, quando morrer, oferecerá seu corpo para ser cremado pelos Nephilim, para que suas cinzas construam a Cidade dos Ossos?
— Oferecerei.
Era tão gentil da parte dela lembrá-lo disso.
— Então, beba — disse Jia.
Izzy apertou a mão de Alec, os dedos ficando pálidos tamanha a força com que se agarrava ao irmão. Esta era a parte perigosa do ritual. Era a parte que poderia matar os não treinados ou indignos. Não que achasse que Simon fosse indigno, ele era mais digno do que qualquer um que ela já conhecera. Simplesmente não conseguia evitar ficar nervosa.
Clary lançou-lhe um olhar de entendimento. As duas sabiam que não conseguiriam viver sem Simon.
Simon abaixou a cabeça e levou o Cálice aos lábios. Os dentes bateram no adamas e ele tentou não pensar no fato de que estava bebendo sangue. Sangue e icor de um anjo mal humorado que lhe odiava. Claro, como vampiro ele achava beber sangue muito apetitoso, mas ele não era mais vampiro, era humano, pelo menos por enquanto, e para humanos – mesmo que prestes a se tornarem Caçadores de Sombras – sangue não era lá muito bom para o paladar.
O círculo que envolvia Jia e Simon ardeu com uma fria luz azul esbranquiçada, ofuscando aos dois. Simon piscou, tentando enxergar algo. Seria super incrível ficar cego por uma luz estranha logo após tornar-se um Caçador de Sombras.
A luz se extinguiu, deixando todos piscando os olhos, tentando se acostumar novamente à luz ambiente.
Izzy piscou apressadamente e viu Simon segurando o Cálice Mortal com mãos mais firmes do que nunca. Havia um brilho no Cálice quando ele o devolveu a Jia, que sorria largamente.
— Agora você é um Nephilim — disse ela. — E eu o batizo Simon, Caçador de Sombras, do sangue de Jonathan Caçador de Sombras, filho dos Nephilim. Levante-se, Simon.
Izzy e Clary gritaram, batendo palmas e chorando.
Simon podia ouvir o coro dos gritos, assobios e palmas de seus amigos. No entanto ele estava mais concentrado na velocidade com que seu sangue corria, levando o icor de Raziel para todo o seu corpo.
E depois de dezessete anos ele sabia quem era, entendia por que havia nascido.
Ele era um Caçador de Sombras e nascera para defender o mundo, derrotar demônios. Nascera para ser um herói.
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