As Crônicas de Verminia
4 O Pecado mais puro
Em seus novos aposentos, Lynford, o capitão do Ofidiano, logo após de escapar de uma tormenta, (que custou a vida de quase metade da tripulação) observava um colar que emitia um curioso brilho azulado. O pingente era dourado e circular, e entre suas pequenas rachaduras, parecia haver um cristal azulado, ou algo do tipo.
“Mas que droga é essa?!” Resmungou e arremessou contra a mesa o pingente.
“Está disposto?” Ecoou uma voz misteriosa na mente de Lynford.
“De novo essa voz?” Questionou, olhando para todos os lados, de um jeito meio paranoico. Lynford não dormia a 2 dias porque a curiosidade para descobrir o que era aquilo era muito grande, e porque havia vozes. Vozes em sua cabeça.
Algo nele dizia que, aquilo não era apenas um colar bonito, ou um mero saque. Ele sabia disso.
“Está disposto?” Sussurrou novamente, docilmente e com tom persuasivo.
“A que?!” Gritou ele, não aguentando mais essa pergunta.
“A cometer o pecado mais atraente e puro de todos. Corromper a vida.” A cada palavra, a voz era mais intensa na sua cabeça.
Em meio a respirações frustradas e stress, Lynford toma sua decisão.
“Sim! Eu estou disposto!”
As vozes param. O orbe dourado treme. Lynford encara o pingente, sentindo seus pecados rastejando por de baixo da sua pele, uma sensação de falta de ar e afogamento toma conta. O colar se quebra, fios de energia azuis e púrpura serpenteiam o ar e vão de encontro ao seu rosto.
A energia rodeia e se apossa do capitão. Sua pele se torna muito mais úmida e elástica, ele sente seu rosto cair e tomar forma por si mesmo. Ele sente líquidos quentes transbordando de seu corpo, seus músculos latejando e seu olho ardendo. Suas pupilas doem, doem muito, e ele tenta se comunicar. Ele queria pedir socorro, mas a única coisa que é ouvida são grunhidos dementes e seu corpo se debatendo no chão.
“Acorde, criança das profundezas.” Uma voz suave é ouvida entre os gritos desesperados do era para ser um humano.
O agito para, e Lynford se vê no espelho de seu aposento. Ele parecia um polvo humanoide, de pele roxa, com garras e olhos amarelos. Tentáculos substituíram o lugar da sua boca, mas mesmo assim ele conseguia falar, mesmo que com uma voz monstruosa e distorcida.
Por algum motivo, Lynford não se sentia mais sozinho, muito menos aquela aparência o incomodava.
“Venha nos encontrar. Até lá, se esconda.” A voz sussurrou novamente, e os mesmos fios de energia que outrora o envolveram, agora repaginaram sua aparência para o que era antes. Coordenadas foram enviadas a sua mente.
Lynford caminhou meio desestabilizado até o convés superior. Observou tudo e todos, diferente de antes, Lynford agora não sentia um pingo de afeto por seus companheiros. Não mais.
“Vamos mudar a rota. Nós vamos para para a Ilha Afogada!” Ordenou o capitão.
Hawk, ao ver o comandante, logo se aproximou com um sorriso amigável.
“E aí! Faz dois dias que você não sai do seus aposentos. Aconteceu alguma coisa?” E ele deu um tapinha nas costas de seu amigo.
“Ahm... sim. Só tô um pouco cansado. São muitos... pensamentos.” Disse, num tom meio suspeito e duvidoso, mas Hawk ignorou.
“Mas... por que logo a Ilha Afogada? O Caveira de ferro foi lá há alguns dias antes de te contratar. Lá foi onde ele arranjou o colar esquisitão dele.”
“Tenho alguns assuntos a resolver na ilha.” Disse Lynford, de forma evasiva.
“Tudo bem então, capitão!” Comentou Hawk, de forma irônica.
Algum tempo se passa, e eles sobrevoam um vilarejo submetido a Verminia. As vozes voltam a atormentar a mente de Lynford, que delira em seus aposentos. As vozes gritam, e ele molda a sua vontade em prol delas.
“Morte! Macule-os!” Berrou uma voz sedutora.
“Tudo bem! Chega! Eu o faço, eu o faço!” Esbravejou ele, implorando para elas pararem.
Saiu de seus aposentos e observou o vilarejo abaixo do Ofidiano. Sua carne pulsava por sangue.
“Vamos saquear a vila.” Gritou o capitão.
“Certo, chefe!” Concordaram os marujos, e logo começaram a abaixar a altitude do navio, e ele acabou por quase encostar no chão. Pessoas olhavam maravilhadas, crianças puxavam umas as outras para verem o Ofidiano. Uma repulsa percorreu pela espinha de Lynford, com nojo daquilo.
Alguns minutos depois, choveu aço pela cidade. As pesadas balas dos morteiros esmagavam tudo, sejam casas, pessoas ou a floresta ao redor.
“Mais, mais, mais!” Lynford parecia um sádico, mais do que ele já era. Seus olhos brilhavam de ver aquilo.
Outra rajada de morteiro. Mais vítimas inocentes feridas. Quase ninguém ouvia, mas os gritos de agonia e de socorro eram claros na mente do capitão. E isso não o incomodava nem um pouco.
“Eu vou descer.” Gargalhou orgulhoso, Lynford, já empunhando a sua espada e saltando do navio.
Ele degolou e estripou qualquer um que passasse por sua frente, as únicas reações dos camponeses eram os olhar aterrorizados e os gritos de desespero. Passou-se aproximadamente uma hora, e quase todos foram mortos e massacrados. Alguns, Lynford cortava as pernas e os deixava rastejar, para ver quem era o rastejante mais rápido, mas logo depois o executava.
“Seu monstro!” Esbravejou uma mulher acompanhada a outra. Lynford gargalhou e em passos lentos foi em direção a moça.
A mulher que a acompanhava, foi puxada por outros camponeses que temiam pela sua vida, enquanto ela desesperada tentava também puxar a amiga, mas que decidiu ficar e confrontar o genocida.
“Você matou todo mundo? Por que?! Você é um monstro! Que Elanor julgu-!” As reclamações e maldições jogadas sobre ele, foram interrompidas por um corte profundo na garganta.
A mulher não morreu imediatamente, ele ainda tentou terminar sua frase, mas o sangue e a dor a atrapalharam.
“Mary! Nããão!” Um grito de fundo era ouvido, pela mulher que fugiu.
Lynford passou por cima do cadáver de Mary, aterrando a sua cabeça na lama. Ele vai em passos lentos até o Ofidiano, gargalhando e com um sorriso que vai a cada ponta do rosto. Todos olham assustados para seu capitão; claro, nenhum deles é flor que se cheire, mas o que Lynford fez foi algo extremamente desumano.
“Você... cê tá bem?” Questionou Hawk, até mesmo ele, que tinha estuprado três mulheres com menos de 14 anos ao mesmo tempo estava um pouco horrorizado.
“Ótimo!” Disse extremamente alegre o capitão.
“Tá... né.”
“Acabou o tempo de farra, vamos logo a Ilha Afogada.” Interrompeu o silêncio e olhares tão horrorizados quanto os dos camponeses.
O Ofidiano novamente zarpou pelos ares, em busca de um destino incerto.
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