As Crônicas de Verminia
5 Visões de um passado manchado
“Que lugar horrível...” Murmurou Lilith. Ela havia saído do antigo laboratório de seu marido e saído para procurar ajuda. Ela utilizava um pano no rosto, para esconder aquele rasgo, trapos surrados que já estavam em seu corpo.
“Ele morreu por minha culpa. Isso não é justo.”
Ela andava por uma rua enlameada, um orvalho fino cobria as casas ao redor, junto a um espírito de tristeza. O céu cinzento simpatizava com as pessoas. Elas choravam ao redor, e Lilith simplesmente não sabia o porquê, mas decidiu perguntar.
“Me desculpe, moça, mas por que todos estão chorando?” – Se aproximou em passos calmos de duas garotinhas que estavam próxima. Uma menina estava imersa em lágrimas e não soube responder, talvez nem tivera escutado a pergunta.
“Não sabe? Steinzburg está em guerra. Sempre esteve. Mas parece que a guerra está complicando e pegaram os mais jovens daqui, e aumentaram ainda mais os impostos.” A mais velha e madura respondeu, desesperançosa.
“Mas... por que?” Lilith deixou a curiosidade falar mais alto.
“Desculpa, mas você não tem outra coisa para fazer não? Como você não sabe de coisas básicas assim?!” Esbravejou contra a morta-viva, estressada com a sua ignorância.
Lilith se assustou com a mudança repentina de comportamento, mas entendeu a situação da moça. Tomada por um espírito acolhedor, ela tentou confortar as garotas.
“Espere mais um pouco. Tudo vai ficar bem.”
“Espero que sim...” Concluiu a garota, ainda um pouco triste.
E Lilith continuou a sua caminhada por aquela rua. Ela olhou ao horizonte, e além da tristeza e vastos campos, ela podia ver o semblante de enormes pilares e muralhas se ocultando na névoa. Provavelmente era Steinzburg.
Ela continuava andando, procurando algo ou alguém, mas ela não se lembrava de nada... até então. É como se a cada passo, um embolo de linhas fossem se ajustando e formando algo concreto, mas a memória de Lilith ainda não estava completa. Novas lembranças. Um nome e uma direção incerta.
“Lynford.”
Que nome era esse? Ela apenas o lembra, mas não sobre o que ele se tratava. Uma pessoa? Um amigo? Um lugar? Nenhuma pista.
A outra direção, incrivelmente era próxima. Em sua memória, ela se via na visão de alguém que após ver uma taberna, virava e entrava numa mata, e logo após encontrava uma figura encapuzada.
Lilith permaneceu receosa. Adentrar no meio do mato para encontrar alguém que ela não conhece? Ela pensava, era muito perigoso, mas ela não tinha nada a perder.
Ela tomou uma decisão.
Continuou andando e viu a taberna, era igualzinha à sua memória: Um sobrado, mesinhas dentro e fora do estabelecimento, com furos nas paredes e uma vela apoiada num suporte meio torto. A única diferença que vinha à tona, é que em sua lembrança, as mesas eram inundadas de bêbados, alegres e sorridentes. Já agora, elas permaneciam vazias. Haviam duas pessoas no lugar: Uma mulher que choramingava triste no canto, debruçada a um caneco de cerveja, e a atendente limpando em movimentos repetitivos e lentos a mesa com um pano sujo, estava tão triste e imersa em pensamentos, que nem percebeu que Lilith a observava. Ela queria consolar todos aqueles assolados pela guerra, mas tinha coisas mais importantes para fazer, como alguém estranho a encontrar.
Ela ignorou a tristeza alheia por um momento e adentrou a mata ao lado da taberna, que estava bem mais afastada, mas nada que atrapalhasse. Ela atravessou a mata, em passos calmos. Era escuro, e o medo aumentava cada vez que ela lembrava da memória do que era aquele ser encapuzado.
De repente, um rosnado e som de galhos se quebrando. Lilith se virou para a origem do ruído, e se deparou com uma matilha de lobos rugindo. Os lobos eram todos brancos e o que parecia ser o líder tinha uma faixa azulada no pescoço até o rosto. Mais um flash de memória.
Conhecidos como Caçadores Fantasmas, eles são lobos extremamente agressivos que atacam presas maiores em bandos.
Lilith recobrou a memória, e sabendo da ameaça, começou a correr. Ela persistiu; o ar gelado cortava seus pulmões. Se virou e seu olhar procurou pelos seus caçadores, e eles corriam frenéticos, saltitando entre troncos.
De repente, um tropeço. A morta-viva foi de encontro ao chão e saiu rolando por um declínio no solo. No fim do morro, estava lá ela jogada, tonta e pronta para o abate. A matilha já se prontificou de rodeá-la, para não ter a chance de escapar.
Fraquejando, ela tentava se levantar, inutilmente. Havia fraturado seu braço, seus gritos deliciavam os lobos.
Um clarão escarlate emergiu de trás do Alfa, sua listra azul ficou tão avermelhada quanto sangue fresco. Seus olhos se contorceram e ficaram brancos. Ele rosnou contra seus semelhantes, que instintivamente, se afastaram.
“Não sabe que é perigoso andar por essas matas?” Uma voz simpática de uma mulher ecoa do fundo.
“Vou pegar esse como estimação.” Completou aos risos, a mulher.
Se sustentando pelo braço não quebrado, Lilith tenta levantar. Ela vê a sua salvadora: Uma velhinha vestindo um manto avermelhado, parecido com de sua memória, uma postura curvada e uma faixa nos olhos.
“Você parece familiar.” Disse a velha.
“Desculpa, mas... Como você sabe que eu sou familiar? Sabe, seus olhos estão vendados.” Comentou, rindo para aliviar a dor do braço quebrado.
Um estalo é ouvido, e num piscar de olhos, uma sombra avermelhada surge atrás da velha. Uma espécie de cavaleiro com uma armadura pesada se molda atrás dela, e no visor de seu elmo, um feixe de luz surge. Aquilo causava temor a Lilith, e uma pressão era exercida aos seus joelhos, fazendo com que ela se curve. Era como um guardião, mas para Lilith era como um grande antagonista que inspirava medo.
“Ele é meus olhos, e meu guardião.” Brincou a anciã.
“O que... o que você é!?” Questionou desesperada, tentando se manter em pé, entretanto, em vão.
“Uma bruxa. Mas e você? Como soube da minha localização?”
“Eu não sei quem eu sou! Eu... tô procurando ajuda! Por favor!” Clamou Lilith, desesperada. A velha soltou uma longa e prolongada expiração. Outro estalo. O Guardião some.
“Meu nome é Ogha.”
“Prazer, Lilith.” Disse, bufando de alívio e se mantendo em pé.
“Venha comigo.” Chamou Ogha, começando a andar em sua cabana circular. Era bem simples, feita de madeira e telhado de palha. O novo lobo de estimação ficou brincando com a lama.
Adentrando a cabana, ela tinha apenas um cômodo, e tudo era meio amontoado. Havia um cheiro forte, como se fossem resíduos químicos, vários livros empilhados, poções, uma velha e boa poltrona, ao lado de uma lareira, junto com um tapete roxo empoeirado.
“Como assim você não sabe quem é?” Ogha perguntou, enquanto se acomodava na poltrona, relaxando os ombros.
“Eu... simplesmente não lembro. Minhas memórias sumiram. Só.” Apesar disso, Ogha também era familiar para Lilith, como se elas já tivessem se visto antes.
“Por que usa esse pano? O que houve? Mal hálito?” Brincou novamente a velha.
Relutante, Lilith abaixou o pano que cobria sua boca, revelando sua bochecha destroçada.
“Hm... Quem fez isso?” Disse um pouco mais séria, se preocupando com Lilith. Ela balançou a cabeça, expressando que só não sabia.
“Eu posso te ajudar. Eu posso acessar a sua memória e deixa-la clara para você.”
“Sério? Por favor! Eu tenho que lembrar.” Implorou.
“Certo. Ajoelhe-se... Isso. Pronto, vou iniciar.” Ogha inclinou a cabeça para cima, deixando-a descansar na poltrona. Segurou com suas mãos frágeis a cabeça de Lilith.
Uma conexão foi estabelecida, os olhos de ambos ficaram esbranquiçados. Ogha vagava entre as memórias de Lilith. Ela se via perdida num espaço cheia de linhas soltas; estendeu ambos os braços, usufruindo da sua magia para vincular as linhas mais semelhantes. Elas se entrelaçavam com facilidade, e de pouco em pouco, as memórias de Lilith voltavam ao normal.
Ela viu muita coisa. Viu aquele que destroçou seu rosto e a matou: um homem chamado Lynford, só não sabia o porquê. Tanto que a razão do corte era essa. Viu quem era o marido de Lilith, Lucidiur, um influente sacerdote e alquimista em Steinzburg, um pacifista reconhecido por toda a nação, que quase acabou com a guerra de Steinzburg com o Enxame. Seu projeto mais recente seria acabar com a caça de Tormentas, mas foi logo após a proclamação desse ideal que Lilith sofreu o ataque e veio a falecer, e também que Ogha era uma influente maga e alquimista em Steinzburg, amiga de Lilith e Lucidiur. A conexão acabou.
Ogha abriu os olhos e viu Lilith desabar em lágrimas
“Por que? O que eu fiz? Por que me mataram?” Ela gritava, desesperada.
“Eu não... eu não... sei.” Ogha tentava a confortar, mas de forma confusa. Ela também estava impactada, tanto por saber que reencontrou uma velha amiga, que ela morreu e voltou. É muita informação para processar.
“Eu fiquei muito triste depois que ele morreu, também. Por isso eu saí da corte de Steinzburg e me isolei nesse lugar. Eu superei, então você pode.” Ogha lacrimejava, mas tentava acalmar a amiga.
Ambas ficaram em silêncio por um tempo. O máximo que era ouvido era o choro de Lilith, até que ele cessou.
“Me treine.” Uma expressão de raiva e rancor se manifestava em seu rosto. Ela estava disposta a vingar a sua morte.
“Não! Lilith, olha...”
“Não me interessa! A morte do meu marido também é culpa dele. Se não tivessem me matado, ele não teria abandonado Steinzburg, o reino não mais lutaria com o Enxame, ele estaria vivo! Ele só morreu por minha causa!” Gritou, e gritou. Cada palavra mais intensa e rancorosa que a outra.
“Tudo bem.” Comovida, mas ainda insatisfeita com o desejo de vingança, Ogha decidiu ajudar.
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