Acima das nuvens, pairava o Ofidiano, um navio aéreo caçador, com vários equipamentos para a caça e abate de criaturas. O navio recebeu justamente esse nome, porque beirando a proa, havia uma estrutura meramente decorativa de uma grande serpente, e este era liderado pelo ilustre capitão Caveira de Ferro. Todos o chamam assim, e não pelo seu verdadeiro nome. – Rumores dizem que seu nome foi amaldiçoado pela deusa da Tormenta, mas é apenas especulação. Além de que, ele quase sempre usava aquela máscara, a máscara de uma caveira, o material ninguém sabia, e o capitão se recusava a dizer, mas parecia ferro, e por isso ficou o nome. Apenas membros mais íntimos de sua tripulação sabiam de seu rosto.

O capitão ainda estava em seu convés, a tripulação estava se preparando para enfrentar uma Tormenta. – uma expressão de piratas aéreos, que quer dizer bandos de criaturas que vagam acima das nuvens. Tormentas são raras, mas quando se tem notícia de uma, os mais fortes se interessam, porque o lucro sempre é bom. Isso é, se você sobreviver.

“Lynford... Eu tô achando isso muito estranho.” Um homem jovem e gordo com duas canecas de hidromel se aproxima de Lynford. Um caçador de bestas, que foi contratado pelo Caveira de Ferro para ajudá-lo no combate contra essa Tormenta.

“Hm?” Ele estava distraído nas escadas que levavam para ao timão, brincando com o seu Falcão de Prata. – um tipo de moeda. Inferior em preço á Harpia de Ouro, mas superior ao Grifo de Bronze. Lynford era um homem alto, com um sorriso maroto e jeito trapaceiro. Branco como as nuvens que eles pairavam sobre, e com um longo cabelo loiro.

“Esse novo tipo de navio. Ele tem turbinas nas laterais, e não balões encima.” Comentou inocente o gordo, estendendo uma caneca para seu camarada.

Lynford sorriu, e fez um gesto dispensando a bebida. “É muito mais versátil, e seguro. O que é mais fácil de destruir? Um balão ou uma hélice?”

“Faz sentido.” Comentou também rindo, virando um copo de hidromel um atrás do outro. “Mas eu vou sentir falta de quando eu pendurava naqueles balões maiores que o navio, e saia rasgando.”

“Relaxa, os mais pobres e iniciantes certamente terão balões. Mas você pode tentar rasgar a turbina.” Lynford debochava do amigo.

“Há Há Há! Muito engraçado, sua harpiazinha de ventos calmos! Mas aqui, como terminou suas tarefas tão rápido? Maioria ainda tá lavando ou verificando as armas.”

Lynford sorria de novo. “Não pretendo ficar cansado. Paguei o Meriam para lavar os canhões e afiar os arpões por mim. Parabéns a você, Hawk, por acabar rápido”

“Mas é um preguiçoso mesmo, ein?!” Hawk arregalava os olhos e cambaleava um pouco para o lado. Deve ser o efeito do hidromel.

“Cuidado aí, amigão.”

De repente, um barulho e um grito. Todos olhavam até a direção do ruído, e viam seu capitão. Caveira de Ferro chutou a porta, ele parecia estressado e esbravejou contra sua tripulação.

“Andem logo, suas gaivotas de merda!” Ele estava usando, como sempre, sua máscara de caveira, mas também um colar com um pingente circular dourado, que as vezes emitia um brilho azulado. Após o grito, ele parecia estar se acalmando e começou a andar pelo Ofidiano.

Passam-se horas.

“Lynford! Venha cá!” O capitão ordenou. Em passos suaves, Lynford abandonou a conversa com Hawk e se aproximou dele.

“E então? Acha que a Tormenta chega quando?” Disse, se apoiando na borda do navio.

“Não sei. Já era para estar aq-!” Lynford se interrompe quando vê emergindo das nuvens, uma enorme Baleia-Anjo. Ela recebeu esse nome por ser cultuada por povos antigos que achavam que elas eram os guardiões de deus, ela é muito cara, mas nem todo mundo compra: Pra alguns ela ainda é sagrada. Junto a ela, via um Tubarão-Púrpura, uma das criaturas mais caras e sinistras dos ventos, por ter uma mordida capaz de destroçar o casco em questão de segundos, e também por liberar um gás roxo, que atraem mais criaturas e limitam a visão de todo mundo dentro da névoa.

“Atirem as correntes na baleia, e os arpões no púrpura!” Ordenou o capitão, puxando seu sabre e indo até a proa, ele aguardou os ataques. Lynford o seguiu, com sua espada em mãos e com uma balestra equipada com um arpão, era uma nova tecnologia usada para mirar os arpões com mais precisão. Sua espada era muito bem ornamentada, diferente da do capitão. Ela tinha dentes de um Leviatã-Raivoso numa alça perto do guarda mão, que protegia sua mão e que poderia ser usado para socar os inimigos.

Um estrondo e as correntes eram disparadas do navio. Eram correntes grossas e com uma ponta afiada, que facilmente perfuraram a baleia. Caveira de ferro começou a correr em direção a baleia, se sustentando na corrente e Lynford ia logo atrás. O tubarão ao ser atacado, começou a voar em torno do Ofidiano, liberando um rastro de gás púrpura, que restringia a visão de todos do navio, outros ruídos e gritos eram ouvidos do horizonte, em questão de segundos, dezenas, centenas de outras criaturas mais comuns, mas igualmente letais quando em quantidade, se aproximavam e atacavam os tripulantes. A Tormenta não era apenas a Baleia e o Tubarão, mas sim muitos mais. A caça virou o caçador.

Enquanto encima da Baleia, Caveira de Ferro gritava.

“Vamos matar ela! Assim ela cai, e leva o navio junto, por causa das correntes! Assim conseguimos escapar da Tormenta!” Disse ele, otimista, já fincando sua espada nas costas da baleia e vasculhando seu casaco por alguns apetrechos.

“Vou explodir as laterais dela, assim ela não vai conseguir mais voar... Lynford, o que você está fazendo!?” Expressou o capitão, indignado, quando viu Lynford apontando sua espada para ele.

“Não é nada pessoal. Eu tenho grande admiração pelo senhor, mas meu interesse pelo Ofidiano é maior.” Em passos ligeiros ele encurtou a distância entre ele e o capitão, e desferiu uma estocada.

O caveira de ferro, apanhou a espada e se afastou, mas tropeçou entre seus movimentos, e acabou por rolar até a cauda da criatura.

“Seu traidor! Me disseram que você não era confiável, mas eu decidi acreditar!” Ele gritava, furioso por estar sendo traindo, ao mesmo tempo que alternava sua visão para o Ofidiano, apenas ouvindo os berros de sua tripulação.

“Que pena, né?” Comentou Lynford, rindo, andando em direção ao capitão.

E então os explosivos responsáveis por matar a baleia eram arremessados contra o traidor, que se afastava imediatamente. A baleia rugiu de dor e começou a perder suas forças, indo para baixo.

Da fumaça causada pelos explosivos, um arpão surgiu e perfurou o peito do Caveira de Ferro. Fora um tiro letal, se o capitão ainda estivesse vivo, era por pouco tempo. A corda de onde o arpão estava preso começava a puxar, e por fim o capitão estava á frente do homem que pôs um fim ao seu legado. Ele apanhou sua máscara e viu os olhos desesperados do Caveira de Ferro, e isso não incomodou nem um pouco Lynford.

“Eu sou o capitão, agora.”

“Seu... monstro.”

“Aham. Espera, o que é isso?” Disse curioso, fitando o colar do capitão.

Agarrou-o. Agora também era dele.