As Crônicas de Verminia
3 Abraço da Morte
Uma mulher se encontrava num lugar escuro, deitada sobre uma estrutura de pedra, forrada com um pano socado e velho.
Seus cabelos eram negros e curtos, mas pareciam muito mal cuidados, estavam quase caindo e muito sujos – assim como lugar ao redor. Olhos verdes, mas quase totalmente secos, pele branca, mal cuidada, dando indícios de se desprender dos ossos. Seu rosto também estava desfigurado, havia um enorme corte em sua bochecha direita, expondo seus dentes e gengiva, que estavam apodrecendo. A mulher tinha também magreza excessiva, os que olhassem para ela, já perguntariam como passou anos sem se alimentar.
De repente, seus olhos se abrem. A mulher parece assustada, olhando para os arredores freneticamente, não vendo nada a mais do que um lugar escuro, cheio de poeira, livros e móveis velhos. Ela tenta gritar, mas não consegue, ela tenta se levantar, mas não também não consegue; está muito fraca para isso.
Sua pálpebra está pesada, ela mal consegue manter os olhos abertos. Ela os fecha e tenta relaxar, pensando como chegou ali. Ela não se lembra de nada de sua vida, apenas poucas coisas, como a presença de seu marido que ela amava muito, de lugares felizes por onde eles passaram juntos e seu nome: Lilith. Ela chora por sentir saudades dele, mas o que aconteceu? Por que ele não está aqui com ela? Por que ela está dessa forma? Muitas perguntas, nenhuma resposta.
Entre seus esforços de abrir os olhos, Lilith finalmente consegue. Logo se assustou, soltando um pequeno grito – era o máximo que ela conseguia fazer. Uma linda mulher ruiva, mas que parecia ter 14 anos, com cabelos longos e pele pálida se deitava sobre Lilith com seu vestido simples e branco.
A Ruiva a encarava, com um tom olhar de curiosidade, mas ao mesmo tempo tristeza, enquanto com seu jeito delicado, tocava a parte não desfigurada da face de Lilith. Seu rosto estava muito próximo ao da mulher, mas percebendo que a mesma acordou, ela se distanciou levemente.
“Deve ser muito bom ser amada.” Comentou a Ruiva, com um tom de voz melancólico.
Lilith simplesmente não entendeu, e permaneceu inerte e calada. Afinal, ela não tinha condições de fazer muitas coisas.
“É, você não deve estar entendendo nada” Soltou umas risadinhas e se alegrou, saindo de cima da estrutura.
“Seu marido, se lembra dele, né? Ele passou 10 anos estudando a vida e a morte para te reviver.”
Lilith, com dificuldades, engoliu seco. Seu desespero aumentou mais ainda. Algo assim era possível? Contrariar o rumo da vida?
“Vou tornar a conversa mais interessante.” Disse a ruiva, estendendo seu palmo em direção a morta-viva, emanando uma estranha luz amarelada, que fornecia uma sensação maravilhosa e calor.
Lilith sentia seu corpo mudar, seus ossos estalavam, sua coluna arqueava. Sua boca perdia o gosto amargo e ganhava a doçura de uma comida típica de Verminia. Sua pele voltava ao normal, e seus cabelos não mais se desprendiam de sua cabeça. Ela soltou um gemido de satisfação, mas mesmo assim sua respiração era inquieta.
“Quem... quem é você?!” Perguntou, desesperada à ruiva.
“A Morte.”
Imediatamente, Lilith saltou do lençol e se ajoelhou. Apoiou ambas as suas mãos sobre o peito e começou a implorar.
“Elanor, me proteja. Elanor, me proteja.” Suplicava ela, desesperada.
A Morte encarou a mulher rezando, num olhar de desgosto, ao mesmo tempo que estava decepcionada.
“Seu marido. Eu o levei. Ele pagou o preço por contrariar o meu ciclo. Portanto, eu o admiro.
Você não mais me encontrará.” E em questão de segundos, o corpo da Ruiva se desfazia em brilho etéreo, flutuando como pequenas partículas de luz.
“Elanor é fiel!” Exclamou ela, chorando e ajoelhada no chão frio. Tão frio quanto o abraço da morte.
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