As Crônicas de Vaerda
2 Crônica I: O Garoto do Subterrâneo.
Notas iniciais

Anos após o conflito entre os elementais e o acordo feito entre Ciel e Ace que garantiu o retorno de Ariel ao comando do Reino Ignis, a vida seguia normalmente em Vaerda.
Nas mais altas nuvens estava presente o Reino Aer sob o comando de Ciel. Era sem dúvidas um dos reinos mais prósperos, onde as construções exibiam a mais avançada e bela arquitetura. A riqueza era bem distribuída tornando o reino socialmente igual. Cada reino possuía algumas características específicas em sua população, no caso de Aer, acontecia de nascerem homens e mulheres com asas semelhantes à de anjos e com talento natural para manejar arco e flecha, atividade típica do Reino. Alguns humanos nasciam nos reinos com o dom de controlar o elemento de onde nasceu. Os humanos dominadores dos elementos eram vistos como pessoas nascidas para a guerra, e a grande maioria era obrigada a se alistar ao exército do real. Ciel era um líder bastante presente com seu povo e sempre aberto a sugestões e reclamações, era conhecido por sua moralidade e forte senso de justiça. Anos atrás sua forte amizade com as bruxas lhe rendeu um presente. Um pterodátilo fossilizado foi usado em um feitiço junto com a carne de um animal morto e o sangue do Ciel e nisso o animal pré-histórico foi trago de volta à vida. O elo de sangue com o elemental o tornou totalmente leal, o animal foi chamado de Sam e é utilizado para proteção do reino (ele também é domesticado, Ciel gosta de paparicar o bicho).
Descendo das nuvens e indo em direção ao mar, lá estava o Reino Aqua liderado pela bela Elza. A maior parte de seu reino era em terra, mas havia um pedaço submerso onde viviam as serias criaturas especiais de seu reino, cujo belo canto hipnotizava as demais criaturas e sua beleza contagiava qualquer um que as visse. O templo de Elza também era submerso e as pessoas diziam que era guardado por um Kraken, porém ninguém nunca o havia visto e quando faziam perguntas a Elza ela dava uma risadinha e mudava de assunto. O povo possuía uma vida estável no reino, alguns mais ricos e outros de classe média. A principal atividade do reino era a pesca, e a principal habilidade do exército era com as lanças.
Seguindo por terra temos o reino de Lucas, cuja maior parte da população trabalhava e vivia da agricultura, boa parte dos lucros do reino era através da exportação agropecuária. A riqueza ficava em maior parte nas mãos dos superiores que se encarregavam da parte burocrática desse negócio, e os donos de grandes terras. Os seres especiais do reino eram os Orochis, grandes homens com aparência similar a de cobras, eles tinhas seis braços e uma força inimaginável. Havia humanos espalhados por Vaerda de espécie de parente dos Orochis, porém mais evoluídos, possuindo a aparência mais humana e conseguiam se transformar totalmente em cobra cuja espécie variava de acordo com a genética. O reino tinha a marca de revelar artistas tanto nas artes como na música. Rastejando por cavernas e pelas florestas um enorme basilisco tomava conta daquelas terras.
O Reino Ignis de Ariel era sem dúvidas o mais pobre de todos os outros. Devida as circunstâncias impostas por Ciel para libertar a elemental do exílio, o reino sobrevivia do que pouco cultivava o que era difícil devido ao solo do local ser em grande parte vulcânico, impróprio para o cultivo. A pesca era o que mais rendia, porém havia certa rixa com os moradores de Aqua nesse quesito. Os humanos que nasciam com o dom do fogo não eram convocados, pois o reino estava proibido de montar exército. Os mesmos não podiam nem tentar aprimorar suas habilidades porque o treinamento do elemento também era proibido. Ariel não media também em fazer muitos esforços por seu reino, era vaidosa e se preocupava demais consigo mesma fazendo tudo ficar nas costas do humanoide Ace, que parecia mais líder do reino do que a própria elemental. Humanoides não costumavam ter sentimentos, mas Ace se apegou ao reino e com o passar dos anos acabou criando afeto pelo povo sem contar que era cegamente legal a Ariel.
Os humanos que não se misturavam com o restante das criaturas viviam a sua maneira nos subterrâneos. Adaptaram-se as novas condições de vida, ainda tinham tecnologia, energia, e evoluíram com o passar dos anos. Os mais corajosos eram convocados para fazer inspeções na superfície e conseguir matéria prima e alimentos que não estavam ao alcance lá em baixo. Os cientistas avançavam com seus experimentos e cada vez mais humanos possuíam habilidades e as passavam geneticamente para os filhos.
A história começa aqui. O grande salão de pilastras negras, algumas quebradas, outras apresentando rachaduras estava bem iluminado e não pense que isso era devido a velas ou qualquer outro tipo de iluminação, a luz irradiava de Ariel cujas chamas que saiam dos braços e cotovelos estavam tomando proporções cada vez maiores e isso não era um bom sinal. A elemental estava com raiva, seus olhos dourados brilhavam e conseguiam demonstrar todo o ódio guardado dentro de si.
— Quem ele pensa que é? – Ela dizia de forma irônica enquanto andava de um lado para o outro. – Ele não tem direito de deixar com que isso aconteça.
As chamas subiram mais e dessa vez até seu cabelo pegou fogo e erguendo-se para o ar. O jovem rapaz de eternos vinte e dois anos estava parado ajoelhado à frente dela. Tinha a pele muito branca, os cabelos negros um pouco ondulados iam até a altura dos ombros, tinha um porte físico invejável e as sardas no rosto lhe davam um ar um pouco delicado.
— Minha senhora. Sei que a situação do reino é preocupante, nosso povo não tem o direito de passar por isso. – Ele fez uma breve pausa e continuou. – Porém, precisamos encontrar métodos para reverter à situação e melhorar a qualidade de vida da população sem quebrar as regras do acordo e...
— Sem quebrar as regras? – Ela o interrompeu virando-se para ele. – Ace já lhe disse que este acordo foi a maior burrice que já fez? Esqueceu tudo que lhe ensinei?
— Jamais esquecerei seus sábios ensinamentos minha senhora, mas foi necessário para tirá-la do exílio e...
— Eu mesma daria um jeito de sair de lá sem precisar de acordos. – Disse interrompendo novamente o humanoide. – E cortaria aquela cabeça angelical fora e deixaria em cima de uma bandeja bem aqui do lado do meu trono. – Sentou-se e cruzou as pernas ao terminar de falar.
— Entendo senhora. – Ace baixava a cabeça em sinal de frustração.
— Ace, querido. – Ariel disse em tom doce, levantou-se e foi na direção de seu fiel braço direito. – Levante-se e olhe para mim.
Ace levantou-se um tanto surpreso, Ariel nunca falara de forma doce e tranquila com ninguém nem mesmo com ele que sempre fora leal e acatava suas ordens sem questionar. Ele ergueu o olhar para sua Deusa que levou uma de suas mãos quentes até o rosto do garoto e o segurou com força.
— Nunca abaixe a cabeça para ninguém, nem mesmo para mim. – O tom de voz mudou agora sendo firme. Ela soltou o rosto de Ace. – Quando escolhemos vocês para dar vida eterna e poder para nos auxiliar com este mundo, o preço a pagar foi remover suas emoções.
Ariel virou as costas para o subordinado e ficou em silêncio. Ace também nada disse, apenas ficou a fitar a capa que queimava nas costas da elemental. Ariel virou o rosto o olhando de lado.
— Mas, acho que você está voltando a sentir... Ou estou enganada?
— Está enganada! – Ace respondeu elevando o tom de voz. – Sentimentos não servem para nada, não servem para governar um reino, nos deixam fracos. Eu não sinto nada.
— Vou confiar no que diz. – Ariel sorriu e voltou devagar ao seu trono.
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A grama sintética cobria grande parte da praça, onde nenhuma luz solar alcançava. Algumas crianças jogavam bola, outras brincavam nos brinquedos do parquinho acompanhados dos pais. Sentado a uma das mesas estava um garoto de vinte e quatro anos, alto, pele alva e cabelos negros um pouco ondulados, uma parte do cabelo era meio raspada tendo mais cabelo na parte de cima da cabeça. Tinha olhos castanhos e vestia-se todo de preto, calça, blusa gola “v”, e tênis. Sentado a frente dele estava outro garoto de aparente mesma idade, só que este tinha cabelos castanhos ondulados, pele um pouco mais morena, e olhos negros.
— Então Arthur, o que você acha? – perguntou o garoto de cabelos negros.
— Connor você só pode estar brincando. Ir pra superfície assim do nada? Fumou alguma erva na festa de ontem à noite? – Arthur fez a última pergunta brincando, mas sua preocupação era verdadeira.
— Ah eu fumei, mas isso não interferiu em nada. Preciso achar meu pai, faz três anos que ele subiu.
— Ele prometeu que voltaria, eu estava junto com você quando ele se foi.
— Exato, mas quando ele volta? Arthur eu não sei nem se ele está vivo...
Arthur fez um biquinho e ficou olhando para o amigo. Connor agora desenhava linhas invisíveis com seu dedo sobre a mesa.
— Eu entendo que queira ir atrás dele, mas você está ansioso e ansiedade demais vai fazer com que tome decisões erradas.
— Blá, blá, blá...
— Connor me leva a sério pelo menos uma vez.
— Você é correto demais, Arthur.
Os dois amigos ficaram em silêncio novamente, o único barulho possível de se escutar era o das crianças brincando aos arredores, e dos pais reclamando daquelas que eram mais malcriadas.
— Ok está bem, já que não vou conseguir fazer com que mude ideia então vou te ajudar a fazer isso direito. – Arthur dizia sério enquanto endireitava-se no banco. – Preciso ser breve, logo tenho que voltar ao laboratório.
— Tá, fala logo.
— Você é fraco pra sobreviver lá fora. Eu já estive lá e vi coisas que realmente me assustaram, vou pedir que vá até o laboratório e convença o Dr. Lima a lhe dar alguma habilidade.
— Você se refere aquelas habilidades criadas em laboratório que deram poderes pra alguns de nós? Cara é muito difícil que me operem sabe que os doutores não gostam de fazer esse tipo de cirurgia.
— Eu sei disso, trabalho lá. Mas você precisa assim suas chances de sobreviver aumentam um pouco. Conte sua história, eu vou te ajudar a convencê-lo.
Connor sorriu para o amigo e ambos apertaram as mãos, um acordo havia sido feito. Agora fica a dúvida seiria conseguir ou não convencer o Dr. Lima.
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O Reino Aer era o ponto mais alto de Vaerda ficando acima das nuvens. Os ventos por ali eram bem controlados, e a extensão do reino era a única parte em que se podia andar sem cair em queda livre. O homem de quase um metro e oitenta de altura pele extremamente branca, cabelos loiros e ondulados e grandes asas douradas voava entre as pessoas. Cumprimentava a todos com simpatia, estava de bom humor naquele dia. Seus pés descalços tocaram o chão assim que entrou em seu templo, uma leve rajada de ar passou e aos poucos foi ficando mais forte e logo o ar foi se materializando em uma garota alta de longos cabelos ruivos e olhos castanhos.
— Chamou senhor?
— Sim Lílian. – Respondeu Ciel voando até a humanoide e beijando-lhe a mão. – Preciso que faça algo para mim.
A ruiva permaneceu em silêncio. Ciel foi até a ponta do templo de onde tinha a visão de toda Vaerda abaixo. Ele possuía excelente visão, enxergava toda a movimentação da terra.
— Quero que chame Elza e Lucas para uma reunião. Preciso que eles me deixem ciente de tudo que acontece lá em baixo.
— Senhor, e Ariel? Acho que ela também deveria ser chamada.
— Ah sim, a maluca em chamas. – Ciel suspirou de desgosto, mas balançou a cabeça de forma afirmativa. – Sim, chame-a também.
— Sim senhor. – Disse Lílian enquanto o ar a rodeava rapidamente cobrindo seu corpo e logo a humanoide não se encontrava mais no recinto.
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