As Crônicas de Reddie Hunter
27 É Guerra
Notas iniciais
ETHAN
Ser mulher deve ser uma merda às vezes.
Reddie toda hora tentava agarrar meu braço e me chamava de amor, me devorava tanto com os olhos que eu estou me sentindo assediado. Fiquei imaginando a merda que deve ser para as mulheres toda hora um marmanjo chato ficar insistindo, afinal mulheres são muito mais assediadas que os homens. Já não basta ter que parir, sofrer com menstruação e TPM, ainda tem que aturar otário chamando de gostosa.
Mas que tal criar uma lei de assédio feminino? Porque eu tô sofrendo isso, okay?
— Nossa, sua bunda é muito linda.
O Cupido não lançou uma flecha do amor, foi da imoralidade. Depois dessa eu nunca mais olho pra dela. Peguei o celular e anotei a frase, assim que ela voltar ao normal, vou imprimir e colar em sua testa.
Brincadeira, a garota tem um arsenal.
Mesmo que Reddie tivesse uma personalidade menos explosiva e mais doce, eu sei que se deixasse ficar tão perto de mim, seria chamado de aproveitador. E eu não sou desse jeito. Pelo contrário, tenho trauma disso.
Fomos para uma cafeteria, onde compramos donuts e cafés. Reddie comprou uma caixa inteira de donuts de doce de leite e um copo extragrande de café com caramelo e creme e se sentou ao meu lado. Se estivesse normal provavelmente iria pedir algo sem açúcar.
Bom, tem uma coisa que eu posso me aproveitar desse momento sem ser abuso.
— Reddie, qual a sua cor favorita? – Ela parou de comer e me olhou franzindo o cenho.
— Azul.
— Comida favorita?
— Acho que lasanha, mas eu não como faz séculos. – Continuou comendo, sua boca ficando com algumas migalhas de açúcar.
— Algum talento?
— Caçar, sei manusear quase todo tipo de arma, desenhar, cozinhar, cantar, dançar, artes marciais, sei falar seis idiomas, pintar, andar de skate, faço malabarismo, posso hackear e mexer perfeitamente num computador e toco violão e guitarra. – Ela ia contando nos dedos e eu arregalando os olhos. Ela se daria bem num concurso de talentos.
— Gênero musical favorito?
— Rock.
— Banda favorita?
— Tenho duas, nunca consegui escolher entre AC DC e Imagine Dragons.
— Cantor ou cantora favorita?
— Não tenho um em especial, principalmente em relação a rock, mas eu gosto muito de Avril Lavigne, Adele e Michael Jackson.
— Hobby?
— Eu diria que em primeiro lugar a caça, mas às vezes acho que está mais pra trabalho. Mas eu curto ler ouvindo música.
— Gênero de leitura favorito?
— Aventura.
— Calor ou frio?
— Calor, o frio faz meu nariz ficar roxo – Ela bufou e fez uma careta.
— Livro favorito?
— O sangue do Olimpo.
— Se não fosse caçadora, qual profissão seguiria?
— Fotógrafa ou desenhista. Talvez os dois.
— Família?
Ela hesitou, sua boca nem abriu. Seus olhos ficaram vermelhos por um momento. Eu me arrependi na hora pela pergunta. Ela tinha uma expressão de mágoa, culpa e uma tristeza tão grande que me fez ter vontade de me dar um soco por fazê-la ficar desse jeito.
Por quê eu tinha feito aquela merda de pergunta?
— Eu... Não tenho mais família. – Ela murmurou, sua cabeça baixa.
— Eu sinto muito. – Falei, e acho que foi uma das coisas mais sinceras que eu já disse pra ela.
Reddie assentiu e tomou seu café, mas pela sua cara, não parecia tão bom como antes. Seu semblante estava vazio como se ela divagasse por lembranças distantes. Ela olhou para a vitrine e disse que sairia por um momento, levando consigo seus donuts.
POV da Reddie
Uma coletânea de lembranças ruins passaram diante dos meus olhos. Eu estava feliz dele se interessar em saber mais sobre mim, mas aí perguntou sobre minha família e eu senti meu coração pesar feito chumbo.
Eu não tenho mais família. Foi isso que respondi, sentindo meu estômago se contrair. Sempre que digo ou penso isso, é como se fizesse o pesadelo ficasse cada vez mais real, a insanidade a espreita, só esperando uma brecha em que meu autocontrole desabe e eu enfie uma maldita adaga no meu pescoço.
Sempre tinha a impressão que assim que matasse Edward, essa brecha apareceria, e dessa vez eu não teria um objetivo ao qual me segurar. Eu não sabia se queria ter esse objetivo, só pra me condenar a mais noites mal dormidas e dias com minha consciência me atormentando.
Peguei meus donuts e avisei a Ethan que sairia por uns minutos. Só precisava de ar, embora parecesse que tivesse algo que me amarrasse com Ethan e eu não conseguisse me afastar muito dele. Uma pequena parte de mim dizia que meu coração disparando a cada vez que o fitava era loucura, mas a ignorava.
Assim que sai, vi na soleira do lado de fora da vitrine da cafeteria, um garotinho. Ele olhava para dentro da loja, tão baixo que precisava se esticar para ver na parte de vidro, era magrinho, embora seu casaco de lã grosso dificultasse a afirmação desse fato, seus olhos castanhos e grandes sob o encaracolado cabelo preto fitavam com tristeza a agitação. Num momento, segurou seu estômago, e eu tive a impressão de ouvir seu estômago roncar.
Me aproximei e ele notou minha presença, seus olhos arregalaram-se e ele saiu correndo, o segui e pedi para que parasse.
— Hey, espere aí, eu não vou te machucar.
Ele diminuiu o passo até parar por completo e me olhou, ainda com medo.
Me agachei e entreguei a ele minha caixa com donuts e meu café. Ele me olhou confuso, como se não estivesse acostumado a pessoas te dando comida.
— É pra você.
— Sério? – Ele indagou e eu dei um sorriso enquanto colocava o lanche em suas mãos.
— Sério.
— Você não vai ficar com fome?
— Eu posso comprar mais pra mim. Esses eu quero te dar – Dei de ombros e ele sorriu, mostrando os pequenos dentes.
— Obrigado, moça. – Ele me deu um abraço como pôde com a caixa e o café nas mãos, e eu retribui, ainda com um sorriso.
Não é porque minha vida é uma merda que eu não posso ajudar outras pessoas.
— De nada, agora vai pra casa, garoto. – Baguncei seu cabelo – Sua mãe deve estar preocupada.
Ele me olhou triste por um momento, e logo me arrependi. Talvez o garoto nem tivesse mãe.
— É. Ela deve estar. – Ele assentiu de cabeça baixa – Tchau, moça.
Ele sorriu mais uma vez e saiu correndo, acompanhei seu olhar até ele chegar a uma senhora de idade. Talvez ele fosse criado pela avó. Eu não tinha como saber. Ela ficou confusa ao ver o lanche nas mãos do garoto e ele apontou pra mim. A mulher assentiu pra mim sorrindo agradecida e colocou o menino em seu colo, o levando, talvez, pra casa.
Respirei fundo, sentindo o frio penetrar meus pulmões, mesmo com o casaco de Ethan. Depois voltei a cafeteria, sentando de frente a ele que ainda me olhava com uma expressão de arrependimento.
— Tá tudo bem, você não tinha como saber de qualquer maneira. – Franzi os lábios.
— Ainda me sinto um merda.
Soltei uma risada abafada.
Na mesa onde os garotos conversavam animadamente, uma garota se sentou, fazendo Selena franzir o nariz. Fiz uma rápida avaliação. Ela estava de shorts rasgados, blusa branca com estampa da bandeira dos Estados Unidos e salto alto preto, o cabelo cacheado lhe caindo pelos ombros, olhos escuros destacados pela maquiagem e os lábios pintados de rosa escuro. Ela sorriu para os meninos da mesa. Só os meninos mesmo. Porque Luna e Sel tiveram em sua direção um olhar de desdém da garota.
— E aí, pessoal? – Ela abriu ainda mais o sorriso.
Agora vamos na linha de raciocínio da guria.
A viada tá lá andando pela rua, entra numa cafeteria, vê uma mesa com um monte de gente desconhecida conversando e pensa “Ah, deixa eu ir lá sentar na mesa dos outros, interromper a conversa, talvez assim consiga dar uns pegas em algum deles”.
Okay né. Belo método de abordagem. Prêmio Nobel pra você, querida. Preferi dar atenção ao garoto na minha frente, aproveitando a visão de seu rosto de perfil, já que ele também prestava atenção na garota intrometida.
— Por favor – Pedi irônica – Não há necessidade de olhar pra uma vadia dessas se você tem algo melhor na sua frente.
Ele finalmente olhou pra mim e arqueou uma sobrancelha.
— Eu não estava olhando pra ela. E não era você que estava dizendo outro dia que sou convencido?
— Sério? Se deixasse seu olho já tinha saltado e tava lá na mesa. Vai dar merda ela ali. E não estou sendo convencida, só falei a verdade, ela quase não tem peitos.
Vi o olho de Ethan se mover na esguelha.
— Não se atreva a olhar ela de novo pra conferir.
— Está com ciúmes? A gente nem tem nada.
— Ainda, meu amor. – Pisquei pra ele. – Questão de tempo.
— Vai ser legal jogar essas palavras na sua cara depois.
— E por quê eu me arrependeria? – Fiquei confusa por uns instantes, tinha a impressão de amá-lo desde a primeira vez que o vi. Eu só não lembrava quando foi essa primeira vez.
Me sobressaltei com o som de Selena se levantando e a cadeira de madeira tombando no chão, seus olhos faiscavam e ela parecia prestes a matar a garota, seus dedos se encaixaram na borda da mesa de madeira clara. Selena derrubou a mesa a fazendo se quebrar ao meio enquanto espalhava café e bolinhos por todo o chão.
— Falei que ia dar merda a vadia sentar ali.
Todos na loja direcionaram seus olhares a figura sobre humana, a maioria levantou seus celulares, prontos para gravar e por na internet ao invés de tentar cessar o quase conflito, outros estavam com os olhares pasmos.
Ela ia perder a consciência em pouco tempo. A garota que havia se sentado na mesa estava paralisada, somente seu peito subia e descia violentamente, parecia em pânico e sem saber o que fazer.
Nicho e os outros tentavam acalmar Selena, mas ela simplesmente os ignorava.
Me levantei e me pus a frente da garota.
— Se controle. Agora.
— Quem você acha que é pra mandar em mim? – Sua voz estava rouca.
Senti vontade de meter pelo menos três tiros em seu crânio.
— Saia daqui agora. Todo mundo está olhando. Você quer que todo mundo saiba o que você é?
Ela gritou, quase como um rugido. Mas não me abalei.
Selena saiu da cafeteria, somente para quebrar uma barra de ferro presa na calçada de concreto. A cafeteria iluminou-se com o flash de inúmeros celulares.
Aquilo não iria dar certo. Saí, disposta a tentar colocar Selena sob controle, por mais fora de si que ela parecesse.
— Por quê você faz isso? – Ela berrou, a raiva predominante em sua voz – Eu não sou um monstro! Não me trate como um sem saber o que passei!
— Eu não te chamei de monstro. Estou tentando não te julgar, mas a cada momento você mostra que mal consegue se controlar – Falei, ainda sem levantar muito a voz. – Sei o que é ter uma história triste, mas precisa aprender a se manter sob controle. As pessoas estão gravando isso.
— Você nunca perdeu alguém pra falar algo de mim! Você não pode me entender!
Tentei processar aquilo e a raiva possuiu minha mente por inteiro.
— Isso não é da sua conta, mas eu já perdi todo mundo. Enquanto você brinca com seus amiguinhos, eu não tenho ninguém. – Minha voz aumentou a cada palavra e eu senti o sangue percorrendo pelas minhas veias ficando cada vez mais quente. Tinha algo naquelas palavras ditas por Selena que me irritavam mais do que se ela tivesse falado aquilo normalmente – E eu tentei te entender, mas você parece que é outra que só sabe julgar sem saber da verdade!
O olhar dela vacilou, mas depois voltou com a insanidade misturada com fúria.
— Então é por isso que você é desse jeito? Uma anti social porque perdeu a mamãe? – Jack havia saído, a raiva também tomando conta de seu semblante. – Ou foi seu namorado? Ou eles só te odiavam o suficiente pra te deixar?
Havia uma garrafa de vidro no chão. A peguei, bati na calçada a quebrando no meio e lancei direto em Jack, o atingindo no peito. Jack ofegou e arrancou a garrafa, mas pela sua cara, pedaços de vidro ainda estavam dentro do seu corpo, o sangue manchava sua camiseta, jorrando de maneira alucinante.
Ele tinha que falar da minha mãe. Ele tinha que me provocar nesse ponto, justamente no momento que eu estava já perdendo o controle? Agora já era e não tinha mais tempo pra eu me arrepender, porque Selena avançava na minha direção, pronta pra me matar por ferir seu melhor amigo.
Vi Bryan saindo discretamente da cafeteria e depois acelerar o passo pra longe dali, ainda com uma caixa de donuts na mão e um copo de café na outra. Ele sabia que as coisas ficariam feias. Garoto esperto.
Assim que Selena estava a menos de um metro de mim, saltei o mais alto que podia dando uma cambalhota. Ela se chocou contra a vitrine da cafeteria, a fazendo em milhões de pedaços de tão forte o impacto. As pessoas começaram a evacuar o lugar rapidamente, mas se mantiveram perto da calçada, ainda de celulares levantados. Me passou na cabeça que merda aqueles idiotas tinham na cabeça de ainda não terem imitado Bryan.
Selena rugiu, seu corpo rapidamente cicatrizando dos cortes feitos pelos cacos de vidro. O som reverberou nos meus ouvidos e senti o chão abaixo dos meus pés estremecer. Pessoas cambalearam e caíram. Tirei a jaqueta de Ethan, ela era confortável, mas grande daquele jeito só ia me atrapalhar.
Quando notei, Luna e Ethan estavam logo atrás de mim, apesar da desvantagem numérica, éramos nós contra Selena, Jack, Rafa e Aaron.
E Nicho?
Nicho havia se metido entre os dois grupos.
— Heeey! Estão loucos? Parem com isso agora!
Ninguém o ouvia. A raiva zunia nos meus ouvidos e eu havia esquecido meu lado racional. No instante que ele terminou a frase, Selena rugiu mais uma vez e avançou contra mim, sua boca aberta, pronta pra dar uma mordida. E eu não podia ser mordida. Assim que ela estava prestes a cair em cima de mim, meu punho se moveu contra seu rosto, ela perdeu o equilíbrio com o impacto, mas agarrou meu pescoço com força, extinguindo a circulação de sangue no local. Segurei suas mãos, tentando empurrá-la com toda minha força, mas era inútil.
A chutei com tudo na barriga. Peguei minha adaga e atravessei seu pescoço.
Eu nem lembrava que ela era imortal. Selena engasgou, o sangue saindo aos respingos tingindo seus lábios de vermelho e jorrando do ferimento, eu tirei a faca. Assim que tirei, o ferimento começou a cicatrizar.
A face de Selena se tornou novamente aquela insana, louca e psicopata. Seus olhos cintilaram com fúria. Ela tentou rugir, mas suas cordas vocais ainda deveriam estar sarando, pois tudo que saiu foi uma mistura de rosnado e grasnado que resultou em mais sangue cuspido.
Selena me atingiu com tudo um chute na barriga, que me lançou pra longe. Senti o forte impacto do asfalto contra meu corpo. Ela subiu em cima de mim, mas Ethan a segurou pela cintura e a afastou de mim, ela o arranhou no braço.
Luna pegou uma estrela de metal, de quatro prontas, tão afiada que o brilho da lâmina ofuscava mesmo com o céu coberto de nuvens. Ela lançou a shuriken em Selena que tentava morder Ethan, o mesmo se esquivando da maneira que podia.
— Sai de perto do meu irmão. – Então começou a lançar várias shurikens em Selena, de modo que ela não podia escapar, seus dedos tão ágeis que eu não podia enxergar seus movimentos.
Ela saltou para cima e de lá atirou várias kunais, todas escondidas numa bolsinha amarrada em sua cintura.
Quando voltou ao chão, sua expressão era dura, os olhos tão escuros quanto a tempestade de neve que estava prestes a despencar. Selena desabou de joelhos. Havia shurikens por todo seu corpo, sem contar os arranhões feitos pelos de raspão, mas somente três armas jaziam ao chão, sem estarem sujas de sangue, sem terem alcançado o alvo.
Luna era literalmente uma ninja.
O corpo de Selena estremeceu e ela cuspiu sangue.
Então abriu um grande sorriso psicopata.
— Vai precisar mais do que isso pra me machucar.
Ela rugiu mais uma vez e avançou contra Luna, mas Ethan se meteu na frente, disposto a salvar a irmã. Quando Selena estava perto o suficiente, ele segurou em seus ombros, e a empurrou com tudo, ao mesmo tempo em que ela se agarrava ao seu braço e puxava junto, com a outra mão arranhando seu rosto.
Me levantei, Selena socou o rosto de Ethan, o tirei de cima dela e transferi um soco em seu rosto. Ela se levantoue atingiu meu rosto três vezes seguidas com seus punhos, senti o sangue subir pela minha garganta, mais uma vez saquei minha faca e rasguei a carne de seu ombro.
Ela cerrou os dentes, e aproveitei o momento para impulsioná-la para longe de mim. Me levantei, recuando alguns passos e ela também. Selena me encarava como se quisesse me matar. Eu não deveria estar diferente. Eu queria matá-la.
Por ser uma idiota descontrolada.
Por ter me atacado.
Por me julgar sem saber minha história.
Pelo meu instinto de matá-la por ser um lobisomem.
Ela avançou, eu também, senti o vento chicotear meu cabelo enquanto a neve finalmente caía sobre nós, as mãos dos idiotas ainda levantadas com celulares. Gravando cada movimento nosso. Cada passo parecia aumentar a tensão entre nós duas.
Então eu fui impedida.
Nicho se intrometeu entre nós duas.
— Vocês vão parar agora.
Uma rajada de gelo surgiu de suas mãos, se dividindo em nossas direções, avançando pelo asfalto. Uma pedra de gelo me prendeu dos pés até a cintura. E outra prendia Selena de seus pés até seus ombros, a imobilizando também.
O frio foi suficiente para me lembrar o quanto eu estava sendo uma idiota. Só estava indo no impulso. Mas ainda sentia meu sangue pulsando nas minhas veias, meu corpo latejando e provavelmente cheio de hematomas. Selena debatia a cabeça, mas o gelo não tinha uma única rachadura.
— Ora, ora, parece que temos um Jack Frost asiático aqui. – Revirei os olhos, já sentindo o frio do gelo em meus ossos, os deixando bambos.
— Se quiserem podem tomar um chazinho pra se acalmarem também. – Ele também revirou os olhos, então viu as pessoas filmando, com olhares perplexos, seu rosto fez um cosplay do meu cabelo – Eita. Que merda. Rafa?
— Eu vou tentar.
— Tenho algo mais prático. – Disse Jack, ainda arrancando cacos de vidro do peito, com um estalo de dedos, os celulares pegaram fogo.
Ao queimarem os dedos, todos largaram os celulares, e antes que pudessem correr, Rafa pronunciou umas palavras numa língua estranha, parecia que ele estava com a língua presa.
As pessoas da platéia indesejável entreolharam-se, de cenho franzido, como se perguntassem umas as outras porque estavam ali, mal olharam a vitrine quebrada e se retiraram, um para cada canto.
Se vocês virem um vídeo de uma garota de cabelo azul quebrando a vitrine de uma cafeteria, rugindo feito uma louca, com garras e presas, outro lançando fogo nos outros e sendo ferido por uma garrafa de vidro quebrada, uma dando umas cambalhotas e esfaqueando outras pessoas, outra sendo uma ninja vida louca e um asiático fofo sendo um Jack Frost no Twitter, Facebook, Youtube, Instagram...
Ignorem, é montagem. Outra besteira de internet.
Pelo amor de Deus ignorem.
Meus dentes começaram a tremer e minha respiração formava uma névoa de neblina.
— Então né, eu já estou calma.
— Certeza?
— Não, Nicho, eu prefiro ficar nesse bloco de gelo refletindo sobre minhas más ações enquanto congelo. – Arqueei uma sobrancelha.
Ele bufou e foi até mim, tocou o bloco com um dedo, e então o gelo se quebrou em milhões de pedaços libertando minhas pernas dormentes, eu ia cair no chão, mas Nicho me segurou. Não pude evitar abraçar meus joelhos, meus ossos estavam congelando.
— Caramba, podia ter me amarrado.
— Achei isso mais eficaz.
— Jura, Jack Frost? – A cada palavra mais uma baforada de neblina saía dos meus lábios.
Ethan me entregou de novo a jaqueta dele. Ele era tão fofo. Sorri e peguei a jaqueta e a vesti, agradecendo pelo calor instantâneo. Notei que Sel ainda estava presa. Sua cabeça pendia um pouco, mas seus olhos ainda cintilavam, com um azul intenso, as presas sobressaltando os lábios, ela ainda me encarava como se quisesse rasgar minha pele.
Mas começou a se acalmar, o azul enfraqueceu e suas presas diminuíram, então finalmente gemeu por causa do frio.
— Nicho... Me tira daqui. – Ela gaguejou.
— Tá mais calma agora?
— Até estou, mas se ficar perguntando eu perder o restinho de paciência que tenho. – Ela revirou os olhos.
Nicho foi até ela e quebrou seu gelo. Sel caiu de joelhos e Nicho a abraçou.
Eu só tinha uma pergunta.
Quem era Selena Cook afinal de contas? Uma psicopata, uma caçadora, uma pessoa gentil ou uma louca extravagante? Parecia que ela era tudo ao mesmo tempo. Seja o que for, tomaria mais cuidado ao ficar perto dela de agora em diante.
Ninguém sabia o que fazer ao certo. Todo mundo tava se encarando como se dissesse “Então... Quê que a gente faz?”
Sei lá, depois de uma treta nunca vem um manual de como pedir desculpa ao coleguinha. A não ser que você esteja na escola. E eu não estou na escola. E não quero pedir desculpa pra coleguinha. Eu quero é xingar a coleguinha e ralar a cara da coleguinha no asfalto.
Revirei os olhos, ainda pensando no porquê de Nicho confiar tanto em Selena a esse ponto. Ela tinha acabado de pirar por nada e lá estava ele, a abraçando como se nada além de uma pequena discussão houvesse acontecido.
Respirei fundo e mantive a calma. Depois olhei ao redor, Ethan estava do meu lado, fazendo uma careta.
— Você está horrível.
— Assim você me magoa, querido – Fiz um bico.
— Que bizarro você me chamando de querido.
— Não sei por quê – Dei de ombros.
Aí a raiva diminuiu um pouco e eu lembrei dos meus ferimentos. Como se estivesse esperando um sinal, tomei consciência da dor que atormentava cada centímetro do meu corpo, desabei, ofegante, estava doendo pra caralho. Minha camiseta estava manchada de sangue, meu ferimento na barriga piorou depois de tanta agitação. Talvez eu não tenha repousado do jeito certo.
Sério? Achei que cê tava mais parada que uma pedra.
Me levantei e fiz minha típica pose “Estou bem e nem um pouco ferrada”. A dignidade tem que proceder, não?
Eu precisava de um banho na verdade. E ir na farmácia antes, porque com esse tanto de arranhão e hematoma, eu não tinha remédio e curativo o suficiente. Não imaginava que ia me ferrar tanto.
Também né, quem pensa quando tá arrumando a mala “Cara, talvez eu me foda numa luta com um lobisomem louco. Melhor colocar mais curativos”.
Porém cancelei meus planos quando Selena levantou. Então né moça, eu acho que há um limite de tretas diárias pra mim que sou humana. Mas ela seguiu numa rua estreita, ignorando os questionamentos alheios e o povo resolveu ir atrás dela.
— É sério isso? – Murmurei, dando um tapa no meu rosto, gemendo logo após o ato.
E no final das contas, até Ethan foi atrás. Meu deus.
Que bando de jegues doentes mentais.
Revirei os olhos e fui acompanhar o rebanho. Depois de um tempo os alcancei, em frente a um prédio abandonado de concreto, com janelas quebradas, os cacos de vidro ainda presos, os portões de ferro estavam com uma grossa corrente com um cadeado empoeirado.
— Tá trancado. – Ethan disse.
Gente. Meu futuro namorado é o noticiador do óbvio.
— Jura, Ethan? – Sel perguntou, em seguida pegou o cadeado e o quebrou em sua mão, tornando o objeto nada mais que pedaços de ferro numa pilha no chão. – Eu acho que não.
Ela entrou no prédio, sua cabeça virando para todos os lados.
— Esse lugar tá abarrotado de monstros. – Ela ficou pensativa por um instante. –Nicho, Luna e eu procuramos no térreo. Ethan e Reddie no primeiro andar. Bryan... Ah, espera aí – Ela procurou ao redor, confusa – Cadê Bryan?
Luna deu uma risada.
— Ele fugiu assim que você bateu na vitrine. Daqui a um tempo ele volta, quando achar seguro, até lá vai ficar comendo em algum canto da cidade.
— Okay... – Selena continuou, e parecendo alheia a menção de ter batido na vitrine, tirou um caco de vidro do cabelo bagunçado – Rafa, Jack e Aaron no segundo andar então. O terceiro exploramos depois. – Ela respirou profundamente e depois engasgou – Que cheiro de enxofre de merda. Tá confuso. Não sei dizer a quantidade em cada andar.
Eu estava prestes a perguntar quem era ela pra mandar em mim. Mas primeiramente eu não queria arranjar mais treta.
Segundo. Ethan e Reddie no primeiro andar. Opa. Então né, aí eu vi vantagem.
Aí estamos falando de negócios. De boas. Afinal vai que Ethan desmaia enquanto luta e eu tenho que fazer respiração boca a boca nele e tal. Ah, espera, isso é pra socorrer gente afogada. Será que o povo topa ir numa praia? Eu nunca fui mesmo.
Cada um tomou sua direção proposta e Ethan gesticulou para a escada que levava ao primeiro andar. Dei um gemido antecipado pela dor na minha barriga. Acho que não estou em muitas condições de lutar.
Subimos e vasculhamos a área, depois de três minutos perdi minha paciência.
— Sabe o que eu estava pensando?
— Espero que em estratégias de luta. – Ele me olhou por cima do ombro, desconfiado, e eu sorri.
— Não. No motivo de demorar tanto pra gente se beijar. Tipo, eu quero e você não colabora, meu filho.
— Eu queria ter um gravador ligado agora.
— Pelo amor de Jesus Cristo, para de viadagem.
Ele parou e se virou pra mim, no momento que eu pensei que ele ia tomar uma atitude, Ethan abriu a boca e falou:
— Não me obrigue a te denunciar por assédio verbal.
— Sorte sua não ter que me denunciar por assédio físico. — Bufei e revirei os olhos. Por quê eu não tinha um crush mais fácil? Levantei o olhar e assobiei – Hey, é melhor olhar pra frente. Tem algo atrás de você.
— O quê...? – Ele se virou e deu de cara os três monstros. – Uh, merda.
Eles tinham o corpo de um felino negro, com cauda de escorpião e cabeça de serpente, com duas fendas douradas nos olhos, a boca arreganhada com presas pingando um líquido amarelo de aparência venenosa. E então rugiu, um som estranho com uma confusa mistura do silvo de uma cobra e miado selvagem.
— Eu fico com um. Você com outro. E o terceiro matamos juntos. – Murmurei, tentando buscar no longo banco de dados algo que poderia matar as criaturas. Mas deu um branco e eu dei de ombros. Vamos testando mesmo.
— Gostei do plano.
Ele avançou contra um e eu finalmente pude ver como Ethan lutava.
Sacou duas facas médias de ferro e saltou alto, um dos monstros que estava na dianteira avançou contra ele, as presas a mostra, pronto para uma mordida fatal, mas Ethan simplesmente fatiou sua cabeça numa velocidade inacreditável e continuou fatiando o resto do corpo como se aquilo não fosse nada até que não sobrou algo além de uma pilha de destroços sanguinolentos.
As partes se moviam de modo nojento, tentando se recompor, mas Ethan pegou mais duas facas de ouro e fatiou ainda mais o monstro. Então os restos mortais da criatura se desfizeram em pó.
— Sua vez – Ele me olhou por cima do ombro e eu finalmente despertei. – Essas coisas morrem com ouro.
Wow. Então ele sabe lutar afinal de contas.
Peguei meu revólver e recarreguei com balas de ouro. Não tinha muitas condições num combate corpo a corpo que nem Ethan, que mesmo com o arranhão em seu rosto e no braço ainda lutava perfeitamente. Atirei três vezes na segunda besta. Ethan fatiou a cabeça do terceiro monstro e eu atirei em seu peito. Ela desabou se transformando em pó. Tinha algo estranho ali.
— Você não acha que...?
— É. Fácil demais. – Concordei com seus pensamentos. Os bichos mal haviam desviado dos golpes ou tentado atacar – Será que é distração pra alguma coisa?
— Não sei, talvez seja melhor nos reunirmos de novo.
POW. POW.
Os dois estalos de tiro ecoaram por todo o andar. Um grito de desespero preencheu o ar. O grito de Selena.
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