As Crônicas de Reddie Hunter
28 Prova de confiança
Era angustiante. Arrepiou meu corpo inteiro. Cortou o ar como uma lâmina afiada e penetrava meus ouvidos de um modo horrível. Representava o mais genuíno terror. Eu e Ethan nos entreolhamos, depois corremos a toda velocidade para o térreo, quase tropeçando nas escadas. Ignorei a dor que assolava meu corpo inteiro e a fadiga. Assim que chegamos, começamos a vasculhar a área.
O cheiro de sangue parecia preencher o local. Dobramos o corredor cinza e empoeirado e chegamos numa sala onde eu finalmente entendi o porquê dos gritos de Selena.
Uma mancha de sangue nas camisetas de Luna e Nicho. Os dois caídos inertes e de olhos vidrados no chão, lado a lado. Selena segurando suas mãos enquanto chorava e berrava. A pele pálida. O sangue se esvaindo cada vez mais rápido formando uma poça ao redor deles.
Todas as peças se encaixaram num terrível retrato.
Nicho e Luna mortos.
Me deixei cair de joelhos. Nicho. Luna.
A dor de ter perdido Luna não era tão forte quanto a de Nicho. Mas ainda assim, doía. E somente desse jeito percebi que já tinha me apegado a garota.
Não podiam estar mortos. Me permiti ter esperança. Não, não era possível. Eles não poderiam ter morrido. A ideia simplesmente não entrava na minha cabeça. Eu me recusava a acreditar que tinha perdido mais uma pessoa importante na minha vida, que eu amava.
E ao mesmo tempo minhas pernas não me obedeciam, meu corpo estava paralisado somente pela possibilidade. Pelo medo. Senti meus olhos arderem, mas as lágrimas não vinham, de tanta tensão, de tanto medo. Cada músculo travado. A insanidade estava a espreita. Sussurrando que eu me descontrolasse, gritasse, chorasse, me matasse. Mas eu me recusava a deixá-la vir. Porque essa agonia tinha de ser sem motivo.
— Não, não, não. – Ethan murmurou – Não!
Ele berrou e correu, abraçando o corpo da irmã, os soluços lhe escapando pelos lábios.
— Luna! Pelo amor de Deus, Luna, acorda. Você é mais forte que isso, acorde, por favor, não me deixa. Não, não, não, não. – Seu rosto estava banhado de lágrimas e ele rangia os dentes, sua expressão tão angustiada que me partia ainda mais o coração, e eu não tinha coragem de sair do lugar, tampouco ir lá tentar consolar Ethan de alguma forma – Por favor, acorde, Lu. Você não pode morrer. Tem que acordar.
O peito de ambos não faziam um único movimento que indicasse respiração.
ETHAN
As lembranças que sempre estiveram vivas na minha mente pareceram ficar muito mais nítidas, como se soubessem que eu sentiria mais dor ao revivê-las naquele momento.
Harold decapitando minha mãe.
O sangue.
Ele jogando uma garrafa de bebida em Luna.
Eu e minha irmã vivendo nas ruas, morrendo de fome e frio, sobrevivendo de bicos e doações de esmolas.
Eu me alistando e entrando no exército, lutando na guerra com 15 anos só pra conseguir dinheiro pra alimentar Luna.
Porque eu a amava, amo mais que minha própria vida.
Não. Nós tínhamos sobrevivido a tanta coisa, a miséria, a um pai desgraçado, a solidão, ao frio, a fome. Luna não podia ter morrido assim. Não. Ela é minha irmã caçula, eu deveria proteger ela. Luna não pode morrer. Ela é minha única família além de Bryan.
Mas a cada segundo toda possibilidade que ela voltasse a sorrir pra mim desaparecia.
Passou-se um minuto. Dois minutos. Três minutos. Tinha chegado mais alguém, mas eu não ligaria se um daqueles monstros me matasse naquele exato momento. Quatro minutos e minha irmã não se movia. Cada segundo uma maldita eternidade de tensão.
Tentei sentir seu pulso, nada.
A única coisa que eu conseguia fazer era chorar. Por me sentir vazio, impotente, desesperado. E eu ainda sequer sabia o que tinha acontecido. Luna não acabaria assim sem lutar, mas o único ferimento parecia ter sido o do tiro direto em seu peito.
Sem um único outro arranhão. E ela não morreria sem lutar até o fim.
— Ethan – Reddie chamou – Precisa se afastar dela.
— Não. – Balancei a cabeça – Ela vai ficar bem. Luna tem que ficar bem.
— É, ela vai ficar, mas só se você se afastar, olha pra cima.
Até o momento eu só tinha olhado o rosto de Luna, pálido e com os olhos vidrados, pensando o quanto aquela expressão vazia me atormentaria pelo resto da vida. Olhei pra cima. Selena, com o rosto banhado de lágrimas, agarrava firmemente as mãos de Nicho e Luna. Queria gritar para ela se afastar, que tudo aquilo era culpa dela, mas algo de estranho estava acontecendo, e eu tinha o pressentimento de que deveria me afastar.
Veias negras se entrelaçavam e se destacavam no braço de Luna, se encaminhando para os braços de Selena, pelas mãos dadas. A cada remessa, Selena fazia uma expressão torturada mais intensa. O mesmo acontecia com Nicho.
Ela estava sugando a morte deles.
A um ponto que ela própria começou a berrar de dor, as veias negras subindo até seu rosto, e quando isso aconteceu, para o meu alívio, os peitos de Luna e Nicho começaram a subir e descer levemente.
Então Luna ofegou, tomando para si uma grande remessa de ar, e tossiu.
Eu soltei a respiração que nem sabia que estava prendendo. Mais lágrimas desceram pelo meu rosto, só que de alívio. Abracei minha irmã com todas as minhas forças enquanto ofegava.
— Você... Você tá bem. – Eu sorri, ainda soluçando.
— É, não vai ser dessa vez que vai se livrar de mim. – Ela largou a mão de Sel e me retribuiu o abraço, sua voz estava tão fraca que me deu pena – Ethan... Espera, eu tô ficando sem ar, homem.
— Desculpe, ok, ok. – A soltei e sorri de novo, meu coração parecia ter se livrado de uma carga imensa de chumbo – Nunca mais me dá um susto desses.
— Não vou, eu prometo. – Ela sorriu, aquele lindo sorriso que tinha herdado da nossa mãe, que me fazia pensar que era minha melhor lembrança de quão linda era ela, e essa lembrança continuaria viva por muito mais tempo.
Nicho tomou uma baforada de ar, tossindo também, e desta vez foi Reddie a correr para seu lado. Abraçou tão forte o garoto que eu achei que ele ia morrer de novo só pela falta de ar. Ela murmurou algo em seu ouvido, mas não dava pra ouvir por causa dos berros da Selena.
Ela largou a mão de Nicho quando ele acordou. Começou a se contorcer enquanto seus gritos ficavam cada vez mais altos, parecia que meus tímpanos iriam estourar.
Seu corpo estremecia e ela apoiou suas mãos no chão. As veias eram assustadoras, fios negros caminhando por sua pele como serpentes venenosas. Selena rugiu e rasgou sua camiseta com as garras, as lágrimas caindo ainda mais quando viu a enorme quantidade de veias em sua barriga.
Nicho, Rafa, Jack e Aaron tentaram se aproximar, mas ela se contorcia muito e dava fortes chutes no ar. Selena socou o chão, formando uma grande rachadura no concreto. O suor brotava em gotículas no seu rosto. A pele tão pálida quanto papel. Reddie foi a primeira conseguir se aproximar. Tentou tocar Selena, mas afastou a mão na hora que tocou sua pele.
A mão de Reddie soltava fumaça e tinha marcas de queimadura.
— O sangue dela está queimando. – Ela murmurou assombrada enquanto abanava a mão.
— Sel... – Nicho a olhava com tanto medo que dava pena.
E eu sabia que não era medo dela em si. Mas sim medo dela morrer. Mais um grito estridente de Selena saiu de sua garganta.
Nicho tentou criar gelo e cobrir seu corpo, mas assim que a névoa gelada se aproximou do seu corpo, evaporou, sem fazer um único efeito. Ele estava desesperado, tentando criar mais gelo, mas suas tentativas eram todas falhas.
O corpo de Selena parou de se contorcer de repente. Ela soltou um soluço e fechou os olhos. As veias que tão ferozmente caminhavam por seu corpo desapareceram de súbito.
Mas seu peito também parou. Sem indicar o menor vestígio de respiração.
O frio ficou mais intenso no local, mergulhado num sombrio e fúnebre silêncio, quebrado apenas pelos soluços de Nicho. Eu não a conhecia muito bem. Ela tinha atacado minha irmã mais ou menos uma hora atrás. Mas acabara de dar a vida por ela agora. Selena estava morta. E desta vez, não tinha alguém para sugar sua dor.
Eu não compreendia. Ela era imortal. Tinha de acordar. Mas talvez, ressuscitar duas pessoas tenha sido demais até pra uma imortal.
Selena tinha se sacrificado por Luna e Nicho. Ela poderia ter salvado apenas Nicho, mas salvou Luna também, que a tinha atacado momentos atrás. Talvez ela tivesse algum tipo de dupla personalidade e aquela era outra pessoa, totalmente descontrolada, porém a pessoa inerte no chão, altruísta, legal e querida pelos amigos, fosse a verdadeira Selena, em que eu poderia confiar.
Mas eu tinha o pressentimento de que nunca mais poderia perguntar a respeito.
Fale com o autor