As Crônicas de Reddie Hunter
4 Yamazaki
Notas iniciais
Um garoto se aproximou e cruzou os braços, ele tinha cabelos castanhos e olhos da mesma cor. O tom de pele dele era um pálido meio doentio. Eu não fui com a cara dele. Atrás dele vinha uma garota e mais dois meninos estranhos.
— Você é esquisita. – E começou. Nem fiz nada e já vem me atazanar essa praga.
— Acredito que isso não seja da sua conta. – Respondi secamente. Ele deu uma risada pelo nariz que saiu abafada, acredito eu, pelo catarro e eu fiz uma careta de nojo.
— E ainda por cima se acha, é uma aberração com esses olhos estranhos.
— Porque não vai cuidar da sua vida? Eu nem te fiz nada!
— Isso não vai mudar que você é uma garota estranha! – Assim que ele disse isso, a menina morena com cabelos cacheados atrás dele se aproximou me olhando com desdém.
— Quem é a estranha? A cara dela parece um tomate. – Ela deu uma risada estranha imitando um porco em que o garoto a acompanhou e eu, mesmo sentindo minha confiança se esvaindo um pouco, fiquei de cabeça erguida.
— A minha aparência não é da sua conta.
— Nossa, já não basta usar essa roupa ridícula ainda é mal educada – Averigüei suas roupas, ela usava um vestido rosa claro com estampa de pirulitos, uma tiara com um laço gigante, sapatos cor de rosa, tudo me fez querer vomitar. Quem foi a mãe com mau gosto que vestiu essa menina?
— Olha quem fala. Parece uma confeitaria ambulante. – Eu soltei uma risada zombeteira. – Se não gosta das minhas roupas, compre novas pra mim, okay? O dinheiro é meu e eu faço o que bem entender com ele.
— Para de ser chata, você podia tentar ao menos ser legal! – Um outro garoto, ruivo, falou pra mim e eu arqueei uma sobrancelha. Por que essas criaturas estão me fazendo desperdiçar saliva mesmo?
— Vocês que vieram me ofendendo, eu não tenho obrigação nenhuma de ser legal com vocês se não forem comigo. – Levantei as mãos e apoiei no banco – Agora façam algo de útil e saiam daqui.
A menina revirou os olhos e saiu, o garoto me direcionou um olhar repleto de desprezo antes de se virar e se juntar aos outros. Eu suspirei. Poderia responder mil vezes. Mas afinal aquilo me deixava triste. Então mesmo se eu quisesse, eu não poderia ter nenhum amigo. Eu não seria grossa se a pessoa também não começasse com grosseria. Eu posso ter um lado bom, tá legal? O problema é que a maioria não vê isso.
Peguei uma flor que estava na grama e comecei a mexer nela, cruzei minhas pernas em cima do banco e observei a pequena flor amarela cabisbaixa. Eu só queria um amigo. É pedir demais? Não preciso de muito. Só alguém pra conversar. Mas pelo visto é sim pedir demais.
— Hey. – Um outro garoto estava me observando, ele tinha cabelos pretos lisos, feições asiáticas e olhos pretos dóceis, usava uma camiseta do Batman e um casaco e calça de moletom pretos. O menino tinha um sorriso adorável que apresentava covinhas.
— Oi – Falei em voz baixa. Fiquei com uma pulga atrás da orelha enquanto ele sorria.
— Eu gostei de você. É diferente. – Franzi o cenho. Eu não estava acostumada a ser tratada bem por gente desconhecida. Nem por gente conhecida pra falar a verdade.
— Nem todo mundo acha diferente legal.
— Eu acho. O padrão da sociedade é muito chato pra ser seguido – Ele deu de ombros e eu sorri um pouco, finalmente uma criança que pensa por aqui. – Qual o seu nome?
— Reddie Hunter.
— Nicho Yamazaki. – Ele estendeu a mão e eu a apertei sorrindo. Acho que reclamei cedo demais. Mentira que estava mais que na hora, afinal eu reclamo desde o início dos tempos — Gostei do jeito que respondeu eles.
— Acho que é meu modo de defesa – Eu dei um meio sorriso e o encarei, sua franja caia na testa, Nicho era fofo, dava vontade de apertar suas bochechas coradas.
— Posso sentar com você? – Ele indagou apertando os lábios.
— Pode. – Me afastei um pouco e ele se sentou ao meu lado.
— Vem ao parque só pra ficar olhando?
— Sim, gosto de ficar olhando, e também de fotografar tudo pra desenhar depois, já que ninguém fica comigo.
— Então meu apelido agora é ninguém? – Ele deu um sorriso e eu ri.
— Acabei de te conhecer. – Dei de ombros.
— Bom, mas agora eu vou ficar com você, eles também me acham estranho – Ele apontou para os meninos que me chamaram de esquisita que agora pulavam corda. – A não ser que não queira.
— Não, eu quero – Dei um sorriso de orelha a orelha.
— Então eu vou ficar com você. – Ele deu um sorriso fofo e olhou ao redor.
— Você é japonês? – Perguntei tentando puxar conversa, coisa que eu não fazia com muita frequência.
— Sim e não, minha família é japonesa, mas nasci em Londres, e aí minha família se mudou pra cá quando fiz nove anos.
— E quantos anos tem agora?
— Ainda nove. – Ele riu e eu o acompanhei
— Tenho dez.
— Nossa, praticamente uma idosa.
Eu coloquei uma mão no peito me fingindo de ofendida.
— Está me chamando de velha!
— Não estou não, estou dizendo que você é sábia e experiente. – Nicho gesticulou com as mãos com uma voz grossa forçada e eu ri.
— Não liga de eles nos chamarem de estranhos?
— Não, eles que continuem rindo, eu que rio deles por serem iguais, é chato ser tão normal – Ele enfatizou a palavra normal e em seguida fez uma careta e colocou um dedo na boca como gesto de quem vomita. – É legal ser estranho, ser estranho faz diferença no meio das pessoas.
— Verdade. Mas às vezes eu queria não ser tão diferente.
— Se aquilo é ser normal – Ele apontou novamente para as crianças – Ser mal educado daquele jeito, então eu realmente prefiro não ser normal. — Nicho deu de ombros enquanto eu sorria. Okay, talvez ele não tivesse ideia do quanto eu era estranha, mas assim estava ótimo, eu prefiro assim.
— Hey, quer comer donuts? – Perguntei descruzando as pernas e ele me olhou sorrindo.
— Com certeza.
Fomos até uma cafeteria que ficava na calçada fora do parque. Eu ria enquanto ele tentava se andar equilibrado na linha da calçada com os braços estendidos. Entramos na cafeteria e compramos nossos donuts, comprei o meu de doce de leite e Nicho comprou um de chocolate. Finalmente comida decente. Começamos a comer e após a primeira mordida, Nicho suspirou.
— Doce é tão bom, mano!
— Eu sei, o triste é que não posso comer muito.
— Por quê? – Ele indagou e deu mais uma mordida.
— Porque meu pai acha que devo seguir um tipo de “dieta rigorosa” – Fiz aspas com os dedos e revirei os olhos. – Eu nem deveria estar comendo esse donut.
— Ui, olha só como ela é rebelde. – Eu ri e continuamos a comer nossos donuts.
No final eu dei mais uma risada ao olhar o rosto de Nicho.
— Nicho, tem um pouco de açúcar no seu nariz. – Eu apontei e ele ficou vesgo tentando enxergar o próprio nariz enquanto eu gargalhava.
— Eu sempre soube que era um doce de garoto. – Ele deu de ombros e eu ri ainda mais.
— Vem cá, deixa que eu limpo – Tirei o açúcar do seu nariz com os dedos e depois limpei na calça. Olhei para o meu relógio e me assustei ao ver as horas, tinha passado duas horas fora de casa. Eu estava ferrada. – Ah não, eu tenho que ir mesmo pra casa.
— Sério? Não pode ficar? – Ele me deu um olhar tristonho e meu coração amoleceu.
— Eu realmente tenho que voltar.
— Mas eu não quero ficar sozinho de novo. – Ele ficou cabisbaixo, seus ombros caíram e ele colocou as mãos nos bolsos.
— Eu juro que volto amanhã, aí você não fica sozinho.
— Promete de dedinho?
— Eu prometo de dedinho. – Estendi meu dedo mindinho e entrelacei ao dele. — Tchau.
— Tchau.
Suspirei e voltei correndo o máximo que podia para casa, antes de virar o quarteirão, olhei por cima do ombro e Nicho me observava sorrindo, acenei, o que me fez não perceber uma pedra no caminho e quase ralar a cara no asfalto, mas eu consegui me equilibrar no último segundo. Nicho retribuiu o aceno dando risada da minha quase queda. Voltei a me concentrar em correr antes que eu caísse de novo. Assim que abri a porta de casa ouvi a voz do meu irmão.
— Senhorita Reddie, você foi comprar um donut no Japão? – Ele arqueou uma sobrancelha e eu suspirei revirando os olhos..
— É que eu... Me perdi. Aí tive que ficar procurando.
— Sério? Essa é a desculpa mais esfarrapada que eu já ouvi! Fala a verdade! – Ele exigiu.
— Não me deixou terminar. Eu tive que ficar procurando quem te perguntou alguma coisa. E não consegui achar. – Foi a vez dele revirar os olhos.
— Pode ir desembuchando – Ele endureceu a expressão e eu suspirei pensando imediatamente numa desculpa pra ele calar a boca e me deixar em paz.
— Eu arranjei briga com um garoto que me chamou de esquisita.
Ele suspirou suavizando a expressão, não era de toda a mentira.
— Olha, já falei, tem que se acostumar com isso.
— Mas ele não estava sendo legal, eu não sou obrigada a ouvir ele! – Cruzei os braços formando um bico nos lábios.
— Você tem um gênio terrível – Ele bagunçou meu cabelo dando risada e eu sorri – Vem. Já tá quase na hora do treino de pontaria.
Acompanhei ele para nosso porão pensando no garoto com a camiseta do Batman. Com certeza eu vou encontrar ele amanhã. Sorri com esse pensamento e então peguei uma faca e comecei a praticar.
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