Acordei animada na manhã seguinte. Gente. Que milagre. Primeiro, que ninguém que acorda cedo, acorda de bom humor. Se você for assim, eu não quero te conhecer, seu hippie que provavelmente está de férias. Segundo que eu iria estudar partes do corpo humano. Só de acordar sabendo disso eu já deveria levantar com uma carranca no meu rosto.

Porém minha ansiedade para encontrar Nicho de tarde me fez levantar dando um sorriso bobo na cara. Nossa. Que horror. Não nasci pra isso não. Eu quero ser chata e rabugenta de novo. Meu Deus, que coisa de trouxa.

Suspirei e fui tomar café da manhã, Jacob estava esparramado no sofá e pra variar estava mexendo no celular.

— Fez café? – Perguntei me aproximando.

— Não.

— Por quê?

— Não sou obrigado.

E essa patada aí logo de manhã, moço?

— Ui. Tá de mau humor? Tenho culpa não, praga.

— Olha como é que tu fala comigo.

— Problema meu. – Fui para a cozinha. Aquilo ali tava um lixo. – Mas que droga é essa? Finalmente a Sam te largou, foi?

— Cala a boca. – Revirei os olhos e fiz uma careta pra aquela bagunça. A pia estava lotada da louça de ontem, tinha manchas no chão e nas paredes, além de cacos de pratos quebrados e embalagens de salgadinho.

— Eu não vou limpar isso aí. – Murmurei.

Eu não ia limpar aquilo ali sem ganhar nada em troca. Voltei a sala e dei um sorriso e me aproximei do meu irmão sofredor de vácuos eternos.

— Jakezinho do meu coração...

— Vaza.

— Hey, eu tenho um acordo.

— Não tô interessado.

— Eu limpo aquela zona na cozinha e posso ir ao parque de tarde?

Ele tirou os olhos do celular e franziu o cenho me dirigindo um olhar desconfiado.

— Quê que tu faz tanto no parque?

— Não é da sua conta. – Dei de ombros e ele bufou. – Se a cozinha continuar naquele estado daqui a pouco vai criar ninho de rato em casa. – Cantarolei em seu ouvido.

— Eu tô com preguiça então aceito o seu acordo. – Tão fácil.

— Aproveitando o embalo, já que você está com preguiça... Que tal cancelar as aulas de hoje?

— A mamãe me mataria.

— A mamãe não está aqui.

— Onde é que você tá aprendendo essas coisas?

— Aceita ou não?

— Tá legal. – Ele deu de ombros e eu sorri. Iria limpar aquela cozinha, mas me livrei de estudar e ainda iria sair com o Nicho sem problemas. Toma universo! Funguei um pouco ao chegar mais perto de Jacob.

— Cara, você cheira a sofrimento. E salgadinho. – Fiz uma careta e ele me dirigiu uma carranca.

Retornei a cozinha e fiz uma careta novamente. Caramba.

— Você tava de TPM? – Gritei para meu irmão que não respondeu, mas provavelmente revirou os olhos.

Limpei aquela bagunça amaldiçoando a vizinha por ter deixado meu irmão nesse estado. Sempre sobra pra mim. Eles que façam suas tretas sem me incluir no meio, tenho cara de faxineira de corações partidos? Que absurdo.

Quando tudo estava brilhando eu pensei seriamente se não teria sido mais prático jogar glitter naquela porcaria e estava tudo resolvido.

— Tá tudo limpo! Mas venha sujar de novo que eu te dou um tiro no pé, praga.

— Ok, agora vaza. – Tem dias que eu não suporto Jacob. Parece que um demônio possui essa criatura.

— DE NADA!

Bufei e voltei para meu quarto. Não tinha muita coisa lá. Só uma prateleira com um espelho, minha cama, o guarda roupa e a escrivaninha. Tudo em tons de preto e marrom. Eu gostava dele assim, simples. Aproveitei a paz e peguei meu caderno de desenhos que estava escondido numa tábua solta debaixo da minha cama. Comecei a desenhar as fotos que tirei no parque, primeiro um casal que passeava de mãos dadas, depois um arbustos de flores bonitinhas e por aí vai...

Olhei para o relógio e já era meio dia. Que milagre é esse? O tempo colaborando comigo? Dá até um medo básico. As coisas darem certo pra mim é novidade. Desci e meu irmão continuava na mesa posição de decadência. Tudo isso por uma garota? Que fase.

— Também não fez o almoço? – Perguntei, eu não sou mimada, mas é que eu não sei cozinhar mesmo. Patrick achou que era desnecessário Anne me ensinar isso. Claro. Porque eu posso caçar morrendo de fome sem saber nem como fritar um ovo. Eu até tentei fritar um, mas... Digamos que estamos sem frigideira.

— Pede uma pizza. – Ele falou e eu franzi o cenho.

— O que é pizza? – Jake tirou os olhos do celular e sorriu pra mim dando uma risada.

— Criação dos deuses, vai naquela gaveta, pega o folheto, liga e pede uma de quatro queijos. – Ele apontou e dei de ombros indo até a gaveta, tinha um folheto, eu liguei e pedi no sabor que Jacob havia falado. Meu estômago roncava e eu me perguntava o que era pizza ainda.

Ouvi a buzina de moto e logo tocaram a campainha.

— Vai lá pegar. Toma a grana. – Ele me deu uma nota de 20 dólares e eu fui na porta. Nunca comi nada entregado por estranhos. Será que é um teste e isso tá envenenado? Dei de ombros. Pelo amor de Deus, Jacob não iria me fazer ter uma diarréia, se bem que ele tá de TPM.

Abri a porta e um cara com jaqueta de couro preta me entregou a tal pizza que estava numa caixa redonda e rasa, mais ou menos do tamanho de um disco de vinil. Tinha um cheiro bom. Entreguei o dinheiro e o rapaz agradeceu.

Jacob finalmente tirou a cara do celular. Pelo menos pra comer né. Fica aí mandando mensagem tomando vácuo maior que o Grand Canyon. Pobre iludido. Ainda quero saber porque meu irmão fica se achando o oxigênio da vida da Sam se é ele que tá aí roendo as unhas esperando uma simples mensagem.

Jake tirou a tampa e minha boca salivou, era um circulo de massa com molho de tomate e muito queijo. E parecia extremamente gorduroso. Talvez por isso que eu nunca tenha comido. Jacob pegou uma fatia e começou a comer e depois de perceber que eu não havia pegado uma arqueou a sobrancelha.

— Não vai comer não, traste?

— Isso não tá envenenado, tá?

— Claro que tá garota burra! Por isso que eu tô comendo! – Revirei os olhos e peguei uma fatia.

Comi um pedaço e... Caramba. Que troço bom. Que troço maravilhoso. MELHOR INVENÇÃO DA HUMANIDADE DEPOIS DE DOCE DE LEITE! Até que pessoas servem pra alguma coisa. Okay. Comida favorita: Pizza. Quanto disso eu posso comer? Tipo, até explodir? Porque eu só vou parar quando isso acontecer.

— Hey vai com calma! – Jacob disse ao me ver comendo a quarta fatia – Pra onde tá indo tudo isso?

— Para o vazio que as verduras não preenchem.

— Dramática.

— Nem vem falar nada. Eu vi você jogando o ensopado que a mamãe fez na planta.

— Você também jogou!

Revirei os olhos, ninguém merece essa peste. Pior que se acordar morto, vão saber que fui eu. Aí você se pergunta “Red, você não falou que sua melhor relação era com Jacob?” Exatamente. Imaginem a pior que é com meu pai. Aliás com meu pai e eu não tem nem relação nenhuma.

Resumindo a coisa toda, eu comi dez fatias e Jacob duas. Não por vontade dele. Eu que roubei mesmo. Ele ficou mal humorado e eu só ri da cara dele.

Eram três horas quando resolvi que já podia ir ao parque. Dei um tchau para Jacob que me encarou desconfiado, mas deu de ombros.

Saí correndo e entrei no parque. Tudo igual, mas desta vez sorri abertamente ao ver Nicho sentado num banco balançando as pernas que não alcançavam o chão. Ele estava com a cabeça baixa, usava uma camiseta do Superman, uma calça jeans preta e um gorro branco. Ele não me viu, então fui sorrateiramente para trás do banco e tapei seus olhos. Nossa, que brincadeira idiota. Mas talvez felicidade deixe as pessoas idiotas.

— Quem é? – Ele indagou tentando tirar minhas mãos de seu rosto.

— Adivinha – Dei uma risada e retirei minhas mãos, ele se virou e abriu um grande sorriso.

— Você veio!

— Claro que vim, eu prometi, não é? – Sentei ao seu lado e começamos a conversar.

Nicho colocou um fone no meu ouvido e outro no dele e deitou a cabeça no meu colo enquanto eu brincava com seu cabelo e ouvia alguma música de k-pop do celular dele.

— Do que você mais gosta? – Perguntei curiosa. Eu nunca tive um amigo. Mas acredito que quando se tem um você deve saber alguma coisa sobre ele.

— Acho que de super heróis.

— Suas camisetas dão uma dica – Soltei uma risada que ele acompanhou.

— Eu quero ser um super herói algum dia.

— Acho que todo mundo tem a chance de ser super herói ou vilão, depende só da pessoa.

— Eu quero ser um herói, quero salvar pessoas, melhorar o mundo.

— Também, mas acho que de outro modo.

— Como assim?

— É que eu posso salvar muitas pessoas em pequenos atos, sabe? Dando comida a quem precisa, por exemplo, ou então doando dinheiro a instituições e tal.

— Eu me vejo sendo um herói do tipo que todo mundo ama, arrebenta, explode tudo, vence o vilão na maior moleza, e salva a mocinha no final – Ele gesticulou com as mãos enquanto falava imaginando a cena e eu sorri.

— Você sabe bem o que quer para o futuro.

— Você não?

— Eu não sei exatamente como vai ser meu futuro, ás vezes parece que tem uma neblina sobre ele, sei lá, não dá para saber como vai ser ele realmente. – Dei de ombros. Se dependesse da minha família eu tinha um futuro bem nítido.

— Acho que entendi. Mas sabe como quer que ele seja?

Não respondi de imediato, eu sonhava em ser fotógrafa ou desenhista, por mais que isso não fosse possível, afinal tinha todo o lance de caçadora.

— Sei, mas acho que ele nunca vai acontecer do jeito que eu quero.

— Por quê?

— Minha família não aceita o futuro que eu quero.

— E por que se importa com o que sua família aceita ou deixa de aceitar?

— Porque a amo demais para dizer não. – Suspirei.

— E não importa o que você quer?

— Para eles aparentemente não – Suspirei enquanto brincava com uma mecha de seu cabelo.

— Já pensou em fugir?

— Já. Mas seria idiotice. Não tenho para onde ir.

— Poderia ir para minha casa. – Dei uma risada leve.

— Eu não posso. Além disso, o futuro que minha família quer pra mim não é tão ruim, acho que posso conviver com isso.

— Para o resto da vida?

Não consegui responder a essa pergunta. Não sei se conseguiria ser caçadora para o resto da minha vida. Ok, talvez ela não durasse muito tempo, mas ainda assim, era tempo demais, eu iria gastar minha vida toda nisso? Nunca fazer o que eu realmente desejo?

— Hey, acha que consigo subir naquela árvore? – Ele indagou apontando para uma alta árvore perto de nós, vendo que eu não queria responder a pergunta.

— Eu duvido que você consiga subir.

— Só porque você duvidou de minha incrível capacidade de escalar árvores, eu vou subir nela. – Ele sorriu, se levantou e saiu correndo pelo parque até a árvore enquanto eu o seguia rindo.

— Nicho! Vai acabar caindo daí de cima! – Gritei, mas ele já apoiava o pé no segundo galho. E ele foi subindo, subindo, subindo, até que eu o perdi na copa da árvore. – Nicho?

Ele colocou a cabeça para fora das folhas, aparentemente estava se apoiando em algum galho.

— Ahn... Talvez essa não tenha sido a melhor ideia que já tive... Não consigo descer. – Fez uma careta frustrada e ri de sua cara.

— Viu só? Pula.

— Quê?

— Pula. – Repeti arqueando as sobrancelhas.

— É alto demais! Tá maluca? Eu vou me quebrar todo!

— Não tenha medo, qualquer coisa te pego.

— Desculpa, mas essa não é melhor garantia já existente, a não ser que você seja o Batman.

— Você tem que pular, vamos, não precisa ter medo Nicho, só tem que pular.

— E se eu me machucar?

— Aí você se levanta e tenta de novo.

Nicho suspirou e sua cabeça sumiu entre as folhas, após um segundo, ele pulou com perfeição aterrissando no chão e eu bati palmas sorrindo.

— Eu, eu consegui? – Ele indagou de olhos fechados. — Ou morri mesmo?

— Claro que sim, bobo! – Eu ri e o abracei enquanto ele também dava risada.

— Valeu.

— Não precisa, eu acho que é isso que amigos fazem, protegem um ao outro. Somos amigos, certo?

— Claro que somos – Ele sorriu apresentando novamente suas lindas covinhas e eu baguncei seu cabelo.

— Sorvete?

— Sorvete.

Fomos correndo até um carrinho de sorvete, Nicho pegou um de chocolate e eu um de framboesa.

— Você ama chocolate, não é?

— Claro! Chocolate é vida! – Ele tomou uma colherada e eu dei mais uma risada.

— Está em segundo lugar na minha lista de doces favoritos.

— Qual o primeiro?

— Doce de leite. Aquilo ali é a primeira maravilha do mundo! – Sorri sonhadora imaginando um pote daquela maravilha e ri junto com Nicho.

Tomamos nossos sorvetes conversando besteiras e eu suspirei ao olhar o relógio. Era hora de ir senão era capaz de Jacob vir me buscar. Encarei Nicho triste. Eu preferia mil vezes ficar com ele que voltar para casa.

— Eu tenho que ir de novo.

Nicho baixou os olhos para seu sorvete que já havia acabado e seu rosto se contraiu numa careta.

— Mas você volta amanhã?

— Claro que eu volto, eu prometo voltar – Sorri e ele retribuiu.

— Vou sentir saudade.

— Também vou sentir a sua. – Ele me abraçou forte e eu meio que fiquei estática. Não estou acostumada com afeto e carinho. Mas Nicho aparentemente gostava de demonstrar que sentia isso por mim e por isso eu sorri abertamente.

— Até amanhã Yamazaki.

— Até amanhã Hunter. – Ele ficou na sorveteria e eu saí de lá, acenando pra ele pela vitrine e ele me retribuiu sorrindo.

Quando voltei pra casa Jacob me encarava de olhos semicerrados da poltrona de Patrick.

— Onde que você tava, mocinha? – Ele arqueou a sobrancelha e eu repeti o gesto.

— No parque.

— Ok. Pergunta errada. Com QUEM estava?

— Ninguém. Eu estou proibida de fazer amigos, lembra? – Falei de forma amargurada.

— Droga. Nunca dá pra saber se você tá mentindo ou falando a verdade! – Ele bufou e eu dei de ombros.

Subi as escadas e dei um sorriso. Caramba, eu parecia uma idiota, sorrindo por motivos bestas não existentes. Isso é coisa de trouxas feito o Jacob.