As Crônicas de Reddie Hunter

22 Uma das piores viagens de avião que já tive


ETHAN

Hã... Oi? E aí? Ethan Ross, prazer. Sei lá como isso funciona.

Eu sou uma pessoa de boas. Okay que irritar a cerejinha (Já tentei chamar ela assim, mas a criatura me socou) é o meu hobby atual. Ela fica com um vinco na testa, os dentes cerrados e as bochechas vermelhas de raiva enquanto tenta me fuzilar. É bem engraçadinha. Nem parece que é o coice em forma de gente. Sorte que eu tenho tanto amor próprio que suas palavras nem me atingem.

Tinha até esquecido do lance do vampiro (embora aquela fosse minha primeira presa depois de séculos), mas ver uma baixinha tentando acertar seu rosto mesmo com a perna fodida é muito legal. Sou no mínimo uns 30 centímetros mais alto que ela. Porém tenho que admitir que pelas vezes que ela conseguiu me alcançar, Reddie tem uma mão pesada do caralho.

Estava na minha cama jogando qualquer merda no celular quando Luna entrou no meu quarto. Sem bater para variar.

— Quantas vezes já te falei pra bater na porta?

— E quantas vezes já respondi que não me importo? – Ela deu de ombros.

Seus dedos não paravam quietos, e ela os escondeu nos bolsos enquanto pressionava os lábios. Conhecia muito bem minha irmã pra saber que vinha merda por aí.

— O que você quer?

— É Harold.

Larguei o celular em cima da cama, embora estivesse a um clique de passar de nível. Senti um calafrio no meu corpo ao ouvir aquele maldito nome.

— Ele quer nossa ajuda – Luna murmurou e a olhei sério. Não gostava do rumo da conversa.

— E você falou que a gente não iria nem a pau.

— Na verdade...

— Luna. – Eu me levantei e encarei minha irmã, que me olhava temerosa. Tenho a impressão que não vou gostar da resposta. – Você falou o quê pra ele?

— Que a gente iria.

E eu acertei.

— Você ficou louca? – Levantei a voz.

Nunca que eu iria ajudar aquele canalha. Não importava o quanto me pedissem ou me pagassem. Meu sangue fervia de ódio por ele ser tão cara de pau. Fervia de raiva por Luna concordar sem ao menos falar comigo. Ela retribuiu meu olhar na mesma intensidade, seus olhos claros faiscando como uma tempestade.

— Ethan, pra ele vencer o orgulho e pedir nossa ajuda...

— E AGORA ele quer nossa ajuda? Porque há uns anos, Harold não pensou muito na nossa utilidade pra ele! Espero que aquele imundo morra na sarjeta. –Grito e Luna respira fundo, tentando procurar argumentos para o seu posicionamento nem um pouco lógico.

— Está bem! Nem eu sei por que concordei! Mas talvez, só talvez ele tenha mudado um pouquinho!

— Ele pode ter virado um padre que eu não olho mais na cara daquele sujeito! – Peguei o abajur e joguei contra a parede, o observando se despedaçar no chão. Minha respiração estava entrecortada e minha vontade era quebrar tudo naquele quarto. – EU NÃO VOU!

— Por favor, dê uma chance! Se ele continuar do mesmo jeito, voltamos na hora. Não temos motivos. Eu sei disso. – Seus olhos lacrimejam e sinto meu coração se apertar ao ver uma lágrima rolar pelo seu rosto – Eu sei que ele não é mais nosso pai. Mas, por favor, vamos, eu quero mostrar a ele que... Que eu sou alguma coisa.

A abraço e afago seus cabelos enquanto ela soluça. Eu nunca aguento ver Luna chorando. Ela sempre é tão prestativa e sorridente que quando seus olhos ficam vermelhos a única coisa que consigo fazer é abraçar ela. É minha única família de sangue, ela e Bryan são as pessoas mais importantes na minha vida. Por causa de Harold, passamos tantos maus bocados, que ela o odeia, mas ao mesmo tempo que espera algum tipo de reconhecimento dele.

— Não chora. Não chora por causa dele. Nenhum de nós dois somos o que ele diz. – Murmuro em seu ouvido, Luna nunca havia superado direito o fato de ter um canalha como pai, nem eu consegui isso – Se você parar de chorar, eu vou.

Ela se afastou, suas bochechas e nariz vermelhos.

— Você vai?

— Tá. Eu vou. Por você. Não por ele. – Arqueio as sobrancelhas, contrariado e ainda com os punhos fechados com tanta força que sinto minhas unhas perfurarem a pele. – E a Reddie? Ela já foi?

— Na verdade ela vai com a gente.

— Mas o quê? Luna, se um dia você falar pra mim as coisas antes de sair dizendo e fazendo por aí, eu agradeço!

Reclamo com ela, mas na verdade fico contente por Reddie ir com a gente. Vai ser mais tempo para irritar aqueles 1,58 de pura fúria. Okay que eu achei que ela era uma bruxa quando a vi sem lentes, mas fazer o quê? Acontece.

Sinto minha cabeça latejar pela expectativa de encontrar Harold e vou em direção ao frigobar, pegando uma garrafa de vodka.

— Não beba – Luna me advertiu, como se fosse uma adulta – Vamos viajar daqui a pouco.

Gemo infeliz em antecipação. Minha vontade de derramar a vodka na garganta adentro aumenta ao imaginar pegar um avião para Londres. Sempre tive medo de aviões. Eu gosto do chão, onde sei que posso pular e correr sem me preocupar com o fato de estar a milhões de quilômetros do solo firme. Luna me lançou uma careta quando bebi o primeiro gole. Sorri de canto ao sentir a familiar queimação no estômago.

— Vai arrumar suas malas, Lu. – Ela cruza os braços.

— Já falei pra não me chamar assim.

— Você não está em muitas condições de pedir coisas — E mesmo contrariada ela sai do quarto.

Bebo mais um pouco até esquecer que vou gastar dinheiro somente para ajudar Harold, mas lembrando que não posso ficar bêbado. Que decadência.

Por causa de Harold, eu fiquei na fossa. Eu e Luna quase morremos. Por causa daquele desgraçado, minha mãe está morta. A minha vontade é de que enquanto ele estiver distraído, eu enfiar uma faca em suas costas. Mas não faço isso, porque Luna é uma pessoa boa demais.

O problema é que pessoas boas demais sempre se fodem.

Bryan aparece na porta com os óculos tortos na ponta do nariz e tira a garrafa da minha mão sob meus protestos. O meu quarto estava girando.

— Ah, qual é, cara? Devolve.

— Sabe que não é legal quando você bebe.

— Luna já te falou pra onde a gente vai? – Perguntei com falsa animação, procurando meu celular debaixo das cobertas. Acho que tem uma macumba universal que celular sempre some na cama, aí você sacode o cobertor e ele pula na cama e vai direto pro chão. Graças a Deus eu o acho e não preciso recorrer ao método.

— Sim. – Ele fez uma careta – E exigiu que eu fosse. Que merda. Odeio aquele otário.

— Mas tem uma coisa legal.

— Qual?

— A Reddie vai.

— Uh, vai ser legal ver o Harold tomando um soco – Ele gargalhou e eu o acompanhei enquanto me levantava para arrumar as malas.

Pelo menos acho que vou me divertir nessa viagem. Balanço a cabeça para afastar a tontura causada pela bebida. Arrumo as roupas na mochila. Na verdade eu só saí tacando tudo que tava limpo. Tomei um banho, vesti uma camiseta preta do AC/DC, calça jeans escura e confortáveis tênis. Alcei a mochila nas costas e respirei fundo antes de sair do meu quarto.

Realmente não valia a pena gastar o tempo que eu poderia estar assistindo séries ou caçando em ajudar Harold. Ele não merece minha ajuda. Ele merece cair num poço cheio de crocodilos famintos por um velho bêbado.

Me recomponho e penso em Luna. Ela pediu, então não custa tanto. Ainda assim praguejo enquanto vou a cozinha para pegar um lanche antes de sairmos. Reddie está lá, apoiada na bancada. Ela é linda, isso eu não tenho como negar. O problema é que a guria parece que fica possuída pelo Satanás às vezes. E os olhos dela, céus, parece que tem fogo neles quando ela fica com raiva e eu fico com dúvida se viverei para contar história no dia seguinte.

Reddie me olha feio e arqueio uma sobrancelha.

— O que foi? Eu nem falei nada! – Sorrio e ela me ignora, com sua carranca habitual. – Por que você nunca sorri?

— Não tenho motivos. Portanto não vou sair sorrindo por aí feito uma idiota.

— Que bad. Mas eu posso te dar um motivo pra sorrir. – Dou um sorriso de canto e me aproximo, o que a faz recuar automaticamente, ela simplesmente odeia que eu chegue perto dela – Vamos, sorria pra mim. O que custa?

Inclino a cabeça a olhando suplicante e simpático, ela continua com seu vinco na testa. Me aproximo mais um pouco e ela estreita os olhos como um aviso.

— Não se atreva!

Mas no instante seguinte eu estou a atacando com cócegas e a fazendo rir feito uma louca. É a primeira vez que ela ria, pelo menos na minha frente.

— Para, seu idiota! – Ela reclama entre risos, um sorriso lindo em seus lábios – Eu odeio cócegas!

— Não é o que parece – Rio junto com ela e Reddie me acerta um soco no braço.

— Nunca mais faça isso.

— Mas você riu – Gargalhei e ela parecia estar tentando se decidir como me matava.

— Vai se foder – E saí da cozinha, fazendo um gesto obsceno na minha direção. Gosto da loucura dela. Bem irritada e meio fatal, mas é legal.

Nunca gostei das fáceis de qualquer maneira.

REDDIE

Chega desse idiota narrando. Eu voltei para a alegria (Ou tristeza, sei lá) de vocês. Eu estava ofegante pelo ataque de cócegas. Odeio cócegas. Primeiro porque minha pele é sensível demais. Só um toque já me dá agonia. Cócegas é praticamente tortura. Eu nunca consigo parar de rir, merda.

Olhei feio para Ethan por causa de sua camiseta. Ele não era digno de usar uma camiseta do AC/DC. Essa é MINHA banda favorita. Ele não pode ter uma camiseta dessas. Droga, porque ele tinha de ter bom gosto musical? Saí bufando da cozinha e encontrei Luna, pedi para ela me guiar até a saída.

Eu precisava do meu trailer.

Um túnel com uma escada de ferro ia para cima. E cara, ela realmente era beeem longa, eu não sabia que estava tão fundo na terra até ver a escada. Na subida percebi que as paredes do túnel estavam lotadas de símbolos protetores. Nada que não fosse humano entraria ali. Seria desintegrado em pó na mesma hora. Eu nem sei como Ethan insistiu tanto que eu fosse um monstro. Aqui é uma fortaleza impenetrável. Dava para sentir o poder emanando de tantos símbolos acumulados.

Minha perna não agüentaria se estivesse doendo ainda. Depois de uma longa subida, abro uma espécie de alçapão e minha pele finalmente recebe o calor do sol das nove da manhã. Me permito respirar um pouco o ar puro e levemente morno e pulo para fora dali.

Avisto meu trailer ali, e graças a Deus eu estava sozinha, porque literalmente saí correndo em sua direção e o abracei dando palmadinhas. Não pude evitar sorrir. Aquele sim era meu cantinho. Um lugar que eu poderia descansar em paz. Revirei os olhos ao pensar que se iria pegar avião, teria que deixar o trailer no estacionamento. E ainda iria pagar a maldita taxa de quanto tempo ele ficaria ali.

Entrei no meu trailer, sentindo o habitual cheirinho de baunilha, sabonete de morangos silvestres e café. E um pouquinho de sangue, mas os outros cheiros o ocultavam, então era preciso pensar em sangue para senti-lo. Teve manchas que eu nunca consegui tirar.

Então, ouvi um zumbido que praticamente me enlouqueceu. Por uma porra de semana, o ar condicionado esteve ligado. MAS QUE MERDA HEIN? O país tá em crise, a energia um absurdo, e o ar condicionado por todo este tempo estava ligado. Imediatamente fiquei calculando quanto dinheiro custaria tanta energia gasta desnecessariamente.

Desabei no sofá, o que fez partículas de poeira se levantarem e pairarem no ar. Sou uma péssima dona de trailer. Eu estou sendo obrigada a todo tipo de coisa aqui. Primeiro eu sou obrigada a ficar porque estava ferida. Agora eles me imploram para eu ir ajudar eles com algum problema do pai em Londres. Okay né. Como eu sou super legal, gentil e gente boa eu vou ajudar eles. É isso aí, modéstia bateu na minha porta, eu ignorei, ela desistiu e foi embora.

Fiquei lá tendo dores de cabeça até Luna bater na porta, perguntando se eu já estava pronta. Eu tinha uma mochila feita de qualquer maneira. Assenti e ela entrou colocando sua mochila no chão.

— Isso é muito legal – Ela sorriu, olhando para todos os lados.

Dei de ombros, embora amasse a casa móvel. Estava lembrando que Ethan dirigiu meu trailer. Sentia como se tivessem invadido meu santuário. Porém tenho a impressão que eles não bisbilhotaram meu quarto. Espero que meu pressentimento esteja certo.

— Não seria melhor viajar com o trailer?

— Vai demorar dias. Precisamos ir hoje, e, de preferência, voltar amanhã mesmo.

— Okay – Assenti, agradecendo mentalmente por ela estar com uma curta previsão.

— E quando voltarmos...

— Quando voltarmos – A cortei – Eu irei embora. No aeroporto. Até porque vou deixar meu trailer no estacionamento de lá.

— Ah, okay. – Ela pareceu decepcionada por eu citar que iria embora assim que voltássemos.

Ethan e Bryan entraram carrancudos no trailer. Bryan usava um moletom do homem aranha e calças jeans cinza. Seu cabelo estava bagunçado e seus óculos tortos.

— Eu não quero ir. – Bryan resmungou e se sentou ao meu lado. Como Luna, seus olhos passeiam pelo meu trailer – Uh, lugar legal.

— Milagre você elogiar um lugar que não seja aquele seu buraco. – Debochou Luna.

— Olha o respeito! O nome do meu escritório é BatCaverna.

— Tanto faz – Luna revira os olhos e Ethan cambaleia um pouco e senta no banco de passageiro, aparentemente já adivinhando que ele não poderia dirigir.

— Bom, fiquem a vontade, vou levar a gente pro aeroporto.

Eles me trataram bem durante toda minha estadia. Menos Ethan, que era um chato me chamando de cabeça de fósforo, baixinha e cerejinha. Sério? Que merda hein. Voltando, tenho de retribuir a gentileza. Embora essa minha virtude não seja muito forte. Fui para o banco de motorista e encarei Ethan, prestes a colocar os fones de ouvidos. Mais precisamente encarei suas pernas apoiadas acima do porta-luvas. Seus olhos estavam meio fora de foco.

— Tira. – Rosnei, quase tendo um tique nervoso ao ver aqueles tênis sujos ali.

— O quê?

— Tira os seus pés daí antes que os corte. – Ele os tirou e quase imediatamente passei uma flanela que havia por perto para tirar a poeira.

— Chata. – Ele cheira a álcool.

— Você bebeu?

— Sim, e daí?

— Ah, me desculpe se você esqueceu seus bons modos lá na puta que pariu! – Praguejei, pronta para socá-lo em todas as áreas possíveis quando Luna perguntou porque a gente ainda não tinha saído. – Não me provoque nessa viagem. Não estou mais ferida. Posso acabar com sua raça.

— Já tomou café hoje?

— Já, mas você consegue me tirar dos nervos.

— Bom saber que mexo com seu psicológico, querida.

Eu poderia mandá-lo se foder. Poderia mandar que ele nunca mais me chamasse de querida, mas me lembrei quando Guilherme me chamou de querida pela primeira vez e isso me deixa triste o suficiente para não revidar.

Foco meu olhar na paisagem. Estamos numa campina coberta com um matagal alto, com uma extensa colina coberta de flores amarelas e o sol das 10 da manhã brilha alto no céu. Enfio a chave na ignição e piso forte no acelerador entrando na estrada e deixando um rastro de pneus sobre a grama amarelada.

Tenho que acabar logo com isso.

...

Depois de comprarmos passagens em cima da hora (Me certifiquei de desligar tudo que era possível no trailer antes de deixá-lo no estacionamento), esperarmos uma hora na sala de espera, sendo que eu fiz questão de preferir ficar na cafeteria vazia enquanto eles conversavam e riam nos confortáveis sofás, entramos no avião. Nós tínhamos comprado exatamente as 4 últimas passagens. Então noto que minha poltrona é ao lado de Ethan.

Oh, não, muito obrigada.

Tentei falar com a aeromoça e trocar de lugar com Luna, mas o avião estava prestes a decolar e a maldita mulherzinha de uniforme me mandou sentar na droga da poltrona. Ethan deu um sorrisinho malicioso e mesmo com a idosa sentada na poltrona da ponta, mostrei meu dedo do meio pra ele enquanto ia sentar ao lado da janela.

— Se tentar me matar – Diz Ethan – Pode acabar presa.

— Como eu vou ser presa por fazer um favor para a humanidade?

Ele revira os olhos. Fico feliz de saber que ele revira mais os olhos agora por minha causa. Tenho de irritar ele pra variar. Ele ainda está meio embriagado e dá para sentir o cheiro de bebida alcoólica mesclado com seu perfume, mas nada que se note muito.

Mesmo assim, quando o avião começa a tremer para a decolagem, ele toma reconhecimento de sua realidade aparentemente.

— Que merda! – Ele sussurra, cravando suas mãos no apoio da poltrona como que se ocorresse do avião cair, aquilo o salvaria.

Seu bronzeado se esvai dando lugar a uma palidez de medo. O maxilar tão travado que acho que um de seus dentes pode quebrar a qualquer momento. Ethan está tão imóvel que por um momento penso que a bebida está lhe causando alucinações e ele pensa que está numa câmara repleta de espinhos pontiagudos apontados para si em que qualquer movimento milimétrico seu o faria ter o olho perfurado. Seus olhos estão vidrados e ele nem pisca, o suor lhe escorrendo no rosto. A única parte que se move são seus lábios, que murmuraram rezas.

A irmã, bem ao contrário dele, já estava dormindo, com os fones em seus ouvidos e um livro que foi prontamente ignorado assim que aberto em seu colo. Bryan teve a sorte de se sentar ao lado de um garoto tão nerd quanto ele e agora estavam conversando sobre placas de computador e dicas de jogos.

— Meu Deus, por favor me protege. – Ethan choramingava – Eu devia ter bebido mais.

Por que todo mundo vira religioso na hora que fica com medo?

— Hã... Ethan... O avião ainda não decolou.

— Cala a boca e me deixa rezar em paz que com sorte essa merda nem sai do chão!

— Deixa de ser dramático.

— Respeita o medo dos outros!

— Mas isso é ridículo!

— Senhores passageiros, gostaríamos de informar que a decolagem ocorrerá neste momento, obrigada por escolher esta linha aérea e bom vôo. – A voz da aeromoça soou e vi uma veia saltada na testa de Ethan enquanto ele engolia em seco.

— Posso rezar em paz agora? – Ele perguntou meio irônico e se agarrou tanto aos apoios de mãos que os nós de seus dedos ficaram brancos.

— Tanto faz. – Dei de ombros e observei o avião começava a decolar pela janela.

Como eu já não agüentava mais os murmúrios de reza do Ethan, coloquei os fones de ouvido e comecei a cantarolar baixinho Demons enquanto o avião acelera pela pista para ganhar impulso. Não tinha nada de mais. Pelo menos eu não via motivo para o Ethan estar tão desesperado. Okay, estamos voando, pronto, acabou. O que diabos isso tem de mais?

Ele estava branco feito papel. Está bem, a fobia de avião dele é uma coisinha séria. Ele deveria procurar um psicólogo.

De repente sinto um pouco de culpa por criticá-lo. Eu tenho aracnofobia. Como posso julgar alguém que tem medo de avião? Se bem que Ethan não sofreu uma queda de avião (Eu acho) e eu quase morri por causa do veneno de aranhas.

Acho que esqueci de contar essa história a vocês. Bom, eu caçava um Stilio, uma espécie de aranha gigantesca e peluda com garras mortíferas com três metros de altura que estava pegando pessoas, as enrolando em sua teia e as devorando mais tarde.

Não foi uma das minhas melhores caçadas.

Eu estava lutando com ela, okay, mas daí acertei uma bolsa com minha faca de ferro embebida de veneno de serpente e de lá saíram, não uma, ou dezenas, mas sim, milhares de aranhas minúsculas que me cobriram e picaram meu corpo inteiro. O veneno me afetou na hora, toda a minha corrente sanguínea estava contaminada e eu comecei a ter alucinações enquanto me contorcia de dor e agonia. Tive que me arrastar para fora gritando por ajuda e quando vieram ao meu socorro e me levaram ao hospital, fiquei em coma por 5 meses, enquanto os médicos tentavam com todas as suas forças desintoxicar meu organismo.

História legal, né? Espero que não esteja comendo. Seja o que for, depois do incidente, não posso ver uma aranha sem dar um histérico gritinho e sair correndo. É tipo o meu calcanhar de Aquiles.

Agora que vejo Ethan, tremendo, seu peito descendo e subindo rapidamente de pavor, fico com um pouco de pena, embora ele seja um pé no saco.

— Ethan, se acalma, cara.

Ele me olha como se eu fosse a última pessoa que ele esperaria ajudá-lo.

— O avião não vai cair. Você está seguro. – Falo com a voz mais tranqüilizadora e gentil que consigo. O que é uma dádiva.

— É tarde demais pra gente ir no seu trailer?

— Sim. – Franzo os lábios e peço a aeromoça uma garrafa de água, mesmo sabendo que naquela companhia aérea, a água é paga, e ainda custa os olhos da cara – Hey, relaxa, o avião não vai cair.

— Uma das coisas mais fáceis desse mundo é esse avião cair. Qualquer merda pode dar defeito e de repente serei uma panqueca!

— Não é não. Isso foi construído por especialistas.

— E daí? Uma faísca na parte dos combustíveis e isso vai pelos ares.

— Mas isso não vai acontecer. Aqui – Fiz uma coisa que até eu me surpreendi, estendi minha mão – Pode apertar até se acalmar, cara.

O pior é que sei que por mais que eu esteja sendo legal com ele agora, ele irá me importunar depois.

Ele me olha confuso, provavelmente porque eu poderia estar chamando ele de covarde, porém não sou ninguém para julgar. Ethan entrelaça sua mão a minha e a aperta. O avião decola e sinto minha mão sendo apertada com força, porém a medida que mais nuvens que parecem chumaços de algodão entram em nosso campo de visão, o peito de Ethan começa a ter um ritmo normal e ele começa a ter seu bronzeado saudável de volta. A aeromoça vem com a água e dou a garrafa para Ethan, que bebe três goles e me devolve.

Ele desata sua mão da minha e me murmura um obrigado enquanto respira fundo. Respondo um de nada no mesmo tom. A viagem estava sendo tranquila, passaram-se três horas e Ethan até começou a dar em cima da aeromoça. Ficou bem até demais. Então estava tudo de boas, eu lia Em Chamas ouvindo AC/DC e Ethan trocava sorrisos com a loira.

Até que a desgraça do piloto declarou uma turbulência.

Ethan voltou a ser um papel e desmaiou.

Maravilhoso. Preferi não acordar ele. Não deixei a aeromoça tentar acordar ele. Esperei até o piloto anunciar que a turbulência havia terminado para jogar o resto do conteúdo da garrafa no rosto de Ethan e acordá-lo para vê-lo aos berros que chamaram a atenção do avião inteiro. Revirei os olhos.

— Vamos todos morrer!

Luna ainda roncava e Bryan fez uma careta pra Ethan enquanto conversava com seu novo amigo.

— A turbulência já acabou, Ross.

— Quê?

— Entrou água no ouvido? – Arqueei uma sobrancelha.

— Como assim já acabou?

— Acabou! A turbulência acabou! – Fingi uma comemoração levantando os braços e ele respirou de alívio após seu momento de confusão. – Podem parar de olhar! Ele só tem uns probleminhas.

— Graças a Deus. – Ethan suspirou e sorriu. A aeromoça deu uma toalhinha e ele secou o rosto.

Ficou nesse clima de trégua, a loira não quis mais saber de Ethan após seus berros. De qualquer maneira, não daria muito certo uma aeromoça com um cara com fobia de avião. Fiquei com vontade de ir ao banheiro e pedi licença a Ethan, que me deixou passar. Com uma olhada descarada para minha bunda.

Por que, Deus?

É isso que eu ganho por ajudar esse infeliz? Beleza, já aprendi, próxima turbulência vou deixar essa desgraça morrer de medo enquanto rio de sua cara.

— Ross, se não for pedir muito, pare de olhar pra minha bunda.

— Quem disse que eu estava olhando pra sua bunda?

— Até um cego percebe.

— Eu estava olhando o tecido da sua calça. É jeans mesmo?

— Na verdade eu fiz com as línguas de garotos que me importunaram demais.

— Então te aconselho a cuidar do seu estresse, garota.

A velhinha ao lado (Cuja existência eu nem lembrava) arregalou os olhos pela milésima vez. Fui ao banheiro e quando voltei, Ethan fingia descaradamente que estava dormindo. Eu me deixaria enganar se não soubesse que ele cochilava nas partes chatas dos episódios com a boca aberta. Embora, suas pálpebras nem tremessem, seu peito estivesse num ritmo sereno e sua cabeça pendesse levemente para baixo, seus lábios estavam selados. Agarrei seus cabelos e forcei sua cabeça para cima. Estreitei o olhar, sabendo que estava sem lentes e o lançando meu olhar mais frio e mortífero.

— Você não tem um pingo de vergonha na cara, não?

— Não, só beleza mesmo – Ele riu e desta vez passei para meu assento maneira cuidadosa.

— Eu te odeio, garoto.

— Você me ama e não admite.

Ri de sua cara.

— Vai se iludindo Ross, mas eu acredito que a realidade seja que eu quero te matar.

— Menina agressiva...

— Só com você mesmo.

— Valeu pela exclusividade – Ele piscou e o resto do vôo resolvi ignorar sua existência enquanto terminava de ler e repetia a playlist do celular.

Ele por vezes tentava chamar minha atenção e me importunar, mas mesmo os petelecos eu ignorei, embora precisasse cerrar os dentes para não esganá-lo e assim ser presa assim que o avião pousasse.

Ethan pareceu bem irritado por ser ignorado. Excelente saber que essa é a melhor maneira de irritá-lo. Mais algumas horas depois e finalmente chegamos em Londres.

Ross fez uma dança de comemoração bizarra e foi o primeiro a sair do avião, embora estivéssemos no fundo ele saiu atropelando todo mundo. Eu, Bryan e uma Luna de cabelos bagunçados bocejando fingimos que não conhecíamos ele e saímos discretamente.

Só reconhecemos ele na saída do aeroporto, onde era inevitável que pegássemos o mesmo táxi.

Mas a vontade era de deixar ele ali mesmo.

Sobre Londres: Incrível. Arquitetura incrível. Parques incríveis. Um frio incrivelmente forte. E eu estava sentindo um delicioso cheiro de muffins e café com creme (Meu nariz é ótimo, mesmo vermelho no frio) quando tomei uma bola de neve na cara de alguma criancinha demoníaca.

Maravilhoso. Os outros caíram na gargalhada.

Sacudi minha cabeça tirando a neve e praguejei baixo o que só fez eles rirem ainda mais.

Eu ficava no meio termo em relação a neve, assim como eu via as marcas de pegadas na neve, alguém poderia ver as minhas pegadas e seguir também.

O casaco e o cachecol também me atrapalhavam.

Me irritava que todo mundo brincava na neve, crianças correndo de um lado para o outro atacando bolas de neve umas nas outras, fazendo anjos de neve no chão (bando de doido, sabia que um cachorro pode ter urinado aí?), fazendo bonecos de neve, fazendo corações na neve.

Além de parecer que a neve está de complô contra as pessoas já que sempre que alguém passa debaixo de uma árvore, cai um monte de neve em cima desse pobre coitado. Argh. Quer saber? Eu odeio a neve. Pronto, falei. Não sei que graça as pessoas vêem nessa coisa branca e gelada que faz meu nariz ficar roxo e atrasa um monte de vôo.

Tinha um garotinho que havia tentando lamber uma estaca de gelo e acabou ficando preso pela língua. Outra coisa perigosa na neve, essas estacas de gelo que ficam penduradas nas árvores podem matar um se caírem. Uma pessoa desprotegida aqui a noite pode morrer de hipotermia. Gelo é um perigo total. Prefiro enfrentar mais uma alcatéia de lufflamas. Eles são menos mortíferos.

Eu procurei em minha mochila e achei um gorro preto de lã antes que meus ouvidos congelassem, Luna disse ter ficado fofo, fato que quase me fez tirar o bendito gorro se não fosse o frio chegando a ferir meus pulmões. Okay. Londres é muito fria.

Assim que o táxi parou em frente a residência de Harold, me perguntei se estávamos no endereço certo, porque se estivesse, agora entendo um dos motivos do cara não ser muito querido.

Notas finais
Ah, próximo capítulo, alguém querido aparecerá ♥