As Crônicas de Reddie Hunter
23 Novos idiotas. Velho amigo.
Notas iniciais
A residência de Harold emanava cheiro de bebida, cigarros, sangue e era bem pitoresca, como se dissesse “É um teto, porém não preciso cuidar desse teto” a casa estava totalmente acabada, as paredes deveriam ser azuis eu acho, mas estavam num tom mesclado de verde musgo devido alguma infiltração ou goteira.
As janelas estavam com a moldura de madeira podre e o vidro quebrado, os cacos que ainda estavam ali presos estavam sujos de sangue. A porta as cerca parecia que tinha sido arrombada e ele a colocou de qualquer jeito no lugar. Dava para ver até uns ratos passeando pelo jardim já transformado num matagal seco cercado por estacas de madeira que um dia deveriam ter sido brancas, no entanto atualmente pretas de tão apodrecidas.
Está pior que aquelas mansões mal assombradas dos filmes de terror, daqueles bem baratos. Estou começando a achar que paramos na casa errada, não estava dando nem sinal que alguém habitava aquela casa afinal, a caixa de correio torta e enferrujada estava atolada de aparentemente correspondências e contas que Harold não se dá ao trabalho de ver.
Então um único sinal apareceu, começou a sair uma fumaça negra da chaminé torta de tijolos em cima do telhado imundo.
— Bem vinda a residência de Harold Ross. – Ethan suspirou, olhando a casa aos pedaços com raiva e andou até a porta da cerca chutando ela para entrar, não foi lá muita perda, perda nenhuma, aliás.
Andei atrás dele prendendo a respiração, senão com certeza iria me engasgar com o cheiro podre do lugar. Agora parecia que Harold havia matado alguém e enterrado o defunto no próprio jardim, duvido nada, tem até uns 3 lotes de terra remexida ali, e não parecem que foram de uma horta.
Ethan estendeu a mão em punho para bater na porta. Assim que ele bateu a porta caiu e fez um estrondo, e um guincho de um rato que provavelmente fora morto esmagado. Ethan balançou a cabeça e franziu os lábios antes de entrar. Quando soltei o ar me arrependi, algo estava queimando seriamente ali dentro e eu não queria descobrir o que era.
A casa era pior ainda por dentro se é que era possível. Tudo estava quebrado como se um furacão e umas 10 brigas feias tivessem passado por ali. O que eu acho que era uma sala de estar tinha uma poltrona velha, desgastada e respingada de sangue derrubada no chão verde musgo sujo com uma mancha enorme do que eu espero não ser sangue seco.
Uma TV velha estava tombada de uma mesinha que tinha um tijolo como o quarto pé. Aparentemente há muitas goteiras no teto já que várias panelas com água estavam espalhadas pela sala. Muitas garrafas de bebida e tocos de cigarros. Ouvi Luna soltar um gemido de nojo e quando me virei ela franzia o nariz enquanto Bryan estava ficando meio verde.
— Acho que esse cara tem chances de ganhar o prêmio de casa do ano – Murmuro tentando não absorver o odor fétido de maconha e aguardente.
Ethan se encaminhou até uma abertura que dava aparentemente para a cozinha. Onde saía a fumaça que empesteava o lugar todo. Um homem de cabelos castanhos um pouco claros com alguns fios brancos tossia tentando abanar com as mãos sem sucesso a fumaça que saía de uma panela enferrujada. Ele tinha olhos claros como os de Luna o que me levou a deduzir que aquele era Harold. Usava uma camiseta preta coberta com um grosso casaco marrom, calças jeans e sapatos encardidos. Tinha uma barba por fazer e uma barriga protuberante.
Luna e Ethan o olharam com desprezo, porém Luna tinha uma pitada de tristeza e pena em sua expressão.
— Harold? – Ethan chamou.
O homem olhou pra nós, sem surpresa, afinal acredito que dava para saber de nossa chegada pelo guincho do rato. Ele deu um sorriso amarelado de escárnio.
— Ah, vocês chegaram! – Ele abriu os braços e se aproximou, mas Ethan e Luna recuaram na mesma hora.
— O que pensa que está fazendo?
— Ora, recebendo meus filhos.
— Agora eu sou seu filho? – Ethan arqueou uma sobrancelha – Eu vim aqui porque Luna insistiu, fala logo o que você quer.
Okay, acho que estou entendendo a treta. Harold fez merda. Luna e Ethan ficaram com raiva. Agora ele está tentando se redimir porque quer ajuda deles.
O que dizer do sujeito que mal conheço, mas já acho desprezível?
— Quem é a porco espinho?
Caralho, o insulto ruim é de família?
— Reddie Hunter. — Eu acentuei bem meu nome para ele não vir com apelidos idiotas.
— Ah, filha de Patrick? Grande homem! — Ele adquiriu uma expressão pensativa.
Quis engolir em seco, quis perguntar de onde ele conhecia meu pai, mas desisti no momento que sua próxima frase saiu de seus lábios rachados.
— Então achou uma namoradinha decente, não é, Ethan? Talvez ela saiba cozinhar pra você – Ele deu uma gargalhada.
Cabeças vão rolar aqui.
— Não sou namorada dele. – Minha voz saiu entre os dentes. E eu queria me controlar.
— Bom, mas cadê o reforço? Não me diga que trouxe só esse magrelo e a empregada aqui. Luna nem conta.
Foi bem rápido. No segundo seguinte, Harold estava no chão, depois que eu esmurrei seu rosto. Não sou obrigada a ouvir essa desgraça e ficar quieta. Fico arrependida de ter gasto dinheiro só para ajudar ele numa caça. Se Harold se garante tanto, ele que vá para a cova dos leões sozinho. E que de preferência, morra com uma cravada de dentes em seus países baixos.
— Obrigado... – Ethan murmura sorrindo com satisfação.
— Da próxima vez, que falar assim comigo, juro que arranco seus dentes, miserável. – Puxei o colarinho imundo – Estamos entendidos? Ou eu vou ter que desenhar pra você entender?
— Eu falei, cara. Passa a grana – Bryan sorriu e Ethan revirou os olhos, passando uma nota de cem dólares para o amigo.
— Mas o quê...?
— A gente apostou. – Bryan deu de ombros – Eu falei que no terceiro insulto você socaria ele. Ethan apostou no primeiro.
— Então já sabe que eu não ajudo esse cara nem se ele estiver prestes a completar 10 anos de pacto. – Saí bufando, tentando não tossir naquela fumaceira, mas Ethan me puxou pelo braço. – Me larga, porra.
— Olha, eu odeio ele ainda mais que você, acredite. Por favor, me ajuda nessa, Reddie. Ele é a última pessoa que eu ajudaria no mundo.
Ele estava sendo educado. Pelo menos uma vez nesta vida, vi Ross ser educado. E ele estava usando um olhar digno de competir com o gato de botas.
— Depois dessa, eu realmente espero nunca mais ter que olhar na sua cara.
— Por quê? Minha cara é maravilhosa – Arqueei uma sobrancelha – Ok, ok. Mas é verdade.
Me desprendo de sua mão no meu braço. Limpei as mãos que estavam sujas somente de eu socar Harold.
— Eu já esperava por isso – Luna murmurou enquanto Harold se levantava.
— Você falou que se ele não tivesse mudado, nós iríamos voltar pra casa.
— Não gastei dinheiro de passagem pra nada!
— Essa é sua desculpa agora? – Ethan cruzou os braços.
— Ok. Eu sei que vocês não tem muitos motivos – Harold começou e Ethan o cortou.
— Não temos nenhum motivo. Temos motivos pra não comparecer no seu enterro, Harold.
— É, sei disso. Mas isso é passado.
— Não é não.
— Está bem, mas por favor me ajudem! – Ele pediu – Sete dos meus caçadores estão mortos por causa daquelas bestas.
E eles embarcaram numa conversa, com direito a muitas alfinetadas de Ethan e Bryan ás vezes. Eu só absorvia informações sobre os monstros. Era o único motivo de eu ainda estar ali.
Eu ainda estava com raiva, ainda queria bater naquele porco bêbado até arrancar todos os seus dentes, mas me controlei, okay. Okay. Eu já estou bem. Agora eu só estou com vontade de arrancar um de seus dentes, já é um progresso. Se eu soubesse que Harold era um machista nojento nem teria vindo, vou acabar matando ele ao invés do que quer que estejamos caçando.
Harold se levantou, me olhou torto (agora sua maçã do rosto estava adquirindo um tom arroxeado) e jogou o que quer que estivesse queimando numa lata de lixo, e pelo visto ele realmente não sabia cozinhar, tinha jogado o que eu acho que seria um tomate, um pedaço de frango, uma batata e uma cenoura que agora estavam praticamente carbonizados na panela, como se quando ele tivesse colocado pensasse ”Pronto, agora daqui a pouco sairá uma bela sopa daí”.
Acho que ele esqueceu da água.
Parei para observar a cozinha, as paredes de azulejo azul claro extremamente encardidas, o chão imundo, com cascas de alimentos, embalagens de salgadinho de bacon e mais garrafas de bebidas.
Eu resolvi não falar nada enquanto Ethan e Luna conversavam com o pai, tampouco prestei atenção em qualquer coisa que não fossem informações, porém nada que me fizesse ligar os pontos e chegar a algo, o que era realmente uma pena, eu adoraria ter uma resposta para esfregar na cara de Harold.
Várias coisas me irritam (Oh, sério? Acho você tão de boas!) e uma delas é o machismo e qualquer forma de preconceito. Parece que a sociedade simplesmente não aceita pessoas diferentes, como se uma pessoa negra, uma mulher totalmente auto-suficiente, homossexual ou com várias tatuagens fosse um tipo de protótipo defeituoso que alguém deveria jogar fora.
Eu sou do tipo que ama pessoas com personalidades diferentes, que não seguem a modinha da sociedade, é por causa delas que o mundo vai para a frente, elas tem ideias que vão além de publicar um desafio no Facebook de postar suas melhores fotos.
Até porque a atual geração tá uma desgraça.
Eu tamborilava os dedos pela mesa, e na minha cabeça passava a preocupação que a cadeira em que eu estava sentada rangia demais e era bem capaz dela desabar algum momento e eu acabar caindo no chão. Eu peguei algumas partes da conversa que me chamaram a atenção.
Como por exemplo, o fato de Harold ter um grupo de caçadores e eles serem “extremamente profissionais” e que os monstros não morrem com armas normais como um revólver ou faca, descobriram isso perdendo dois membros do grupo. Incompetentes. Não sabem nem pesquisar antes de caçar.
Se soubessem o que iriam caçar iriam saber como matar também. Bryan estava quase no mesmo barco que eu, brincando com os dedos, mas com os ouvidos atentos à informações, abrindo a boca apenas para dirigir uma ofensa a Harold.
Após mais alguns minutos, Harold fez uma coisa que por pouco não me fez levantar daquela maldita velha cadeira, ele acendeu um cigarro e agora além da fumaça por causa da “sopa” carbonizada tinha também a fumaça do cigarro.
Eu ia acabar tendo alguma doença respiratória por ser fumante involuntária aqui. Minhas mãos formigavam por querer esganar Harold.
— Tira essa merda da boca. – Falei, tomando o cigarro de seus lábios e o esmagando sob a minha bota – Odeio cheiro de cigarro.
Harold me fuzilou pela ousadia de destruir seu cigarro, mas o ignorei. Tem limite pra tudo. Inclusive para minha paciência, mas ela nunca nem existiu.
Saímos, graças a Deus porque meu pulmão não é de ferro. As informações constatavam que o ninho estava escondido num galpão enorme. Demorou meia hora para o táxi chegar e nesse meio tempo, o céu fechou completamente, e uma nevasca começou a cair. Que merda.
Eu quis dar um soco na minha própria cara quando um floco de neve pousou no meu nariz, isso é irritante, se eu fizesse uma lista de coisas que me irritam essa lista seria infinita.
Saímos do táxi, Luna e Bryan acabaram deslizando pelo gelo, e Bryan a segurou pela cintura para que ela não caísse. O engraçado foi que ele quem ficou vermelho com isso. Eles eram fofos juntos, combinavam, sei lá.
Os cinco dos caçadores restantes de Harold nos esperava ali. Ranzinzas, cheio de cicatrizes e me devoraram com os olhos. Ergui o dedo do meio para os velhotes.
— O próximo que me olhar, vai ficar cego. – Apontei para eles com minha faca. –Eu não sou ruim de mira, babacas. Vão pro inferno.
Eles me olham torto, ora, ora, parece que temos um bando de retardados com problemas, recomendo vocês a um oftamologista. Entramos no galpão, e os homens de Harold estragam tudo. Fazem barulho demais. São lentos demais. Se eu os enfrentasse, todos de uma vez, ganharia com uma mão nas costas. São grandalhões e logo noto que o serviço dele é na força bruta.
É por isso que mais da metade tá morto.
Dá para ouvir pelos corredores o som de chutes, socos e lâminas cortando o ar. Até aí tudo bem, mas começo a ouvir o som de risadas aleatórias. Uma delas me era familiar, e embora minha lista de conhecidos seja bem curta, quero dizer, minha lista de conhecidos ainda viva seja beeem curtinha, não consigo identificar de quem é.
Viramos num corredor pela direita e nos deparamos com o cenário de uma luta. Cinco pessoas, mais pra adolescentes lutando contra monstros. Parecia uma espécie de felinos com a pele enrugada e olhos em fendas. Suas garras tão mortíferas quanto serras. Se moviam numa velocidade absurda e possuíam uma enorme cauda de escorpião, que para mim é um mistério como não desequilibra eles.
Nunca vi nada igual. Eram fascinantes e a minha vontade era trancar um deles numa jaula e ficar pesquisando até achar algo parecido. Eu não sabia o que funcionaria para matar eles.
Mas aqueles cinco sabiam. Uma garota de cabelos e olhos sobrenaturais azuis lutava com suas garras e katanas, movendo-se numa velocidade ainda mais surpreendente que a dos monstros. Eu não gostei dela na primeira vista, era uma lobisomem. E eu mato cada lobisomem que aparece na minha frente. Mas aquela era diferente, algo na garota me dizia que era bem mais perigosa do que aparentava. Não gosto de entrar num campo minado sem ter um mapa específico de onde estou pisando.
Entretanto Harold e seus homens não eram tão inteligentes e entraram na luta.
Por que é mesmo que estou com esse bando de jumentos?
Ethan praguejou baixo enquanto Harold gritava feito um louco e metia facões nos monstros que assim que retirava, os ferimentos se curavam. Beleza, sei que aço não funciona. Vou deixar Harold testar os metais... Aí quando ele conseguir eu entro. A cobaia não irá fazer falta se morrer no processo.
Vi a garota enfiar duas katanas atravessando o monstro com o qual estava lutando e o levantou do chão. Ela é forte. Retirou as lâminas e o monstro se desfez em poeira dourada. Olhei o chão e ele estava abarrotado de pequenos montes do mesmo pó. Haviam bem mais criaturas e eles acabaram com todos.
— E é assim que uma garota trabalha! – Ela falou se virando para um garoto de cabelos castanhos fazendo um hi-five.
Minha cabeça estava trabalhando como o mecanismo de um relógio.
— Quem são vocês? – Harold perguntou e apontou duas armas em direção a eles e o seu grupinho das meninas malvadas também.
Rapaz, que sujeito violento.
— Eu quem pergunto isso. – A garota dirigiu um olhar de desdém, seus olhos faiscando perigosamente na direção de Harold como se não acreditasse que ele tinha a ousadia de lhe apontar uma arma.
Dei um passo a frente e Ethan, Luna e Bryan me seguiram.
— Cara, que fome. – Bryan murmurou. Beleza, né moço. Uma tensão da porra e ele vai e fala que tá com fome. Ethan bateu com a mão na cabeça.
A azulzinha psicopata se aproximou até a arma ficar encostada na sua testa.
— Acha que pode me matar?
— Um tiro bem certeiro e você morre, garotinha.
— Então é guerra! – Ela se afastou e todo mundo puxou suas armas.
Lutas individuais começaram a todo vapor e eu fiquei com a garota. Eu queria lutar com ela. Queria matar ela. Por mais que parecesse que ela não tinha medo de morrer. Olhei de esguelha ao redor e alguns caçadores de Harold lutavam em trio contra somente um de cada inimigo. Por mais que fossem fortes, eu não achava tão justo.
Mas começou a batalha e o justo não existia mais. Tiros, facas, katanas pra tudo quanto é lado. Bryan sacou um surpreendente sabre de luz estilo Star Wars que derretia tudo que tocava. O problema é que ele não sabia usar direito, então seus golpes eram fracos.
Peguei duas longas facas de prata de compartimentos no meu cinto. Minha rival me dirigiu um sorriso de canto de escárnio.
— Pode vir – Ela sorriu como a Arlequina e sacou suas katanas.
Dei uma rasteira e ela saltou no mesmo instante que tentou me decepar, me abaixei a tempo de ouvir a katana atravessando o ar e provavelmente cortando fios do meu cabelo. Eu enfiei com tudo minha faca de bronze em sua barriga e a girei, ela pegou com as duas mãos e a retirou com os dentes cerrados e um olhar em fúria.
— Parabéns, conseguiu me acertar. Essa era minha blusa favorita. – O seu ferimento se cicatrizou.
Não era uma lobisomem. Lobisomens não se curam de ferimentos com prata. Ela avançou e me desferiu um murro que não consegui me desviar com perfeição, me acertando na lateral da barriga. Doeu pra caramba, sua força é descomunal. Tentei avaliar minhas chances de luta. Eu não sabia o que a matava. A garota era um campo minado e eu não tinha um mapa dela.
Eu peguei uma adaga e a lancei, da qual ela desviou facilmente. Parecia tranqüila e percebi que não estava nem aí pra luta. Como se eu não fosse uma adversária digna dela. Isso me incentivou a ficar com mais raiva. Ela investiu mais uma vez me dando uma chave de braço. Suas presas se aproximaram do meu pescoço e eu mordi o seu braço com toda a força que consegui, ela se afastou rapidamente enquanto a marca se curava e eu cuspia seu sangue. Numa luta vale tudo.
Ela não esperou o ferimento se curar e correu em minha direção. Dei um mortal e ela passou por baixo de mim. Assim que pousei um pé no chão, a garota me deu uma rasteira me derrubando. Ficou em cima de mim e socou meu rosto e o gosto de sangue inundou minha boca. Dobrei as pernas e as impulsionei e dei um chute em seu estômago, a afastando. Eu tinha cinco adagas escondidas e atirei todas, ela era rápida, entretanto uma perfurou seu ombro. Antes que ela o arrancasse, dei um soco com toda a força que reuni em seu maxilar. Por uns instantes, seu olhar ficou insano, como se ela deixasse de ser aquela garota despreocupada para uma doentia terrorista. Me perguntei se era essa minha sentença de morte.
Mas ela voltou ao normal e cravou suas garras na minha barriga.
Me afastei rapidamente antes que ela aprofundasse o corte. Ela retirou a adaga do ombro. Dei mais uma olhava no depósito onde já haviam corpos dos caçadores no chão, mas os amigos da garota estavam de pé, sem sequer suar.
— CHEGA! – Gritei, perdendo minha paciência. O barulho de facas em atrito, socos e chutes encerrou e eles me olharam confusos. Mas não havia motivos para lutar.
A garota decretou guerra e parecíamos um bando de primitivos que simplesmente lutamos porque ela mandou. Era idiotice.
— Parem de lutar agora, isso aqui tá ridículo.
— E quem você pensa que é para tentar mandar em mim? – Harold indagou dando um sorriso de escárnio.
— Pensei que já tinha me apresentado a você, Harold. – Caminhei até ele e desferi dois socos em seu rosto, o fazendo cuspir um dentre junto com sangue. Minha vontade era fazê-lo cuspir todos os outros – Sou aquela que pode te mandar pro inferno se você acabar com minha paciência. Cale essa boca.
O derrubei no chão e limpei as mãos sujas de sangue com ferimentos nos nós dos dedos na calça. Minha barriga doía com o ferimento das garras e eu sentia a camiseta colando no meu corpo por causa do sangue.
— Sem briga. Não tem motivos pra ninguém brigar aqui.
— O seu líder que resolveu tentar me ofender – A garota revidou.
— Harold não é nosso líder – Dei um sorriso irônico – Por favor, olha pra esse cara. Ele é patético. – Joguei minhas facas no chão, em sinal de paz. – Viram? Coloquei minhas armas no chão.
— Eu sei que você tem mais armas. – Ela disse.
— Garota esperta.
Tirei meus dois revólveres.
— Tira as outras.
Franzi os lábios, odiava ficar desarmada, mas fui colocando no chão minhas outras três facas, dois canivetes, um facão, um pote contendo explosivos e uma granada, tudo pelo bem da paz.
Não me perguntem como eu encaixo tudo isso na roupa. Eu só encaixo.
— Okay. Mais alguma coisa, Srta. Raio X?
— Meu nome é Selena Cook. – Ela não me estendeu a mão, o que agradeci, ainda a achava estranha e perigosa.
Seus olhos voltaram ao “normal”, de um azul sereno e tranquilo como o mar. Mas não tão intensos quanto os de Ethan que eram azul turquesa. Os dela eram mais claros e destacados pelos longos cílios. Vestia um moletom com estampa de galáxia, jeans e coturnos pretos.
Eu olhei seu grupo, mas meus olhos detiveram em um garoto, com cabelos bagunçados e pretos como piche, pele branca se destacando ainda mais pelo moletom preto do Batman, seus olhos brilhantes da mesma cor que o cabelo. Ele estava mais alto do que eu.
Meus lábios se entreabriram no mesmo momento que Nicho falou:
— Capeta?
Fale com o autor