As Crônicas de Reddie Hunter
2 Referências
Houveram algumas mudanças na minha costumeira rotina. Antes eu estudava pela manhã e de tarde eu desenhava, fotografava no parque, tocava violão, lia algo em meu quarto ouvindo AC DC no último volume em meu fone de ouvido... Agora eu estudo de manhã e aprendo sobre monstros a tarde e de noite treino com armas.
Interessante, não? De manhã você lê sobre os estados e seu número de habitantes, pela tarde aprende como matar um vampiro e de noite brinca de tiro ao alvo com facas e revólveres. Que infância feliz.
No primeiro dia que segui essa rotina eu acordei no dia seguinte me sentindo um trapo e sem vontade nenhuma de viver. Ou seja acordei parecendo um universitário. Porém depois de uns dias consegui me acostumar, mesmo ainda sendo exaustivo.
Segunda mudança. Dieta. PIOR MUDANÇA. Só para deixar claro.
Meu pai parou de comprar doces e proibiu a qualquer um de me dar qualquer coisa que contenha açúcar. O que foi praticamente a morte pra mim já que sou viciada em doces. Tudo agora era cozido e sem graça. Jacob também lamentava, aparentemente o único motivo de nós termos jantado frango assado com molho e torta de amora na sobremesa por oito anos era que eu ainda não tinha entrado no rito de passagem da família Hunter. Que droga.
Agora era salada e um frango cozido e sem graça. Jesus, me leva. Eu não agüento mais isso. Esse mundo tá cruel demais. Sério, um dos melhores motivos para se viver é doce de leite. E jujubas. Jujubas são divas.
A pior coisa foram ter tirado meu café. Gente. Café é vida. Pelo amor de Deus, é tipo o líquido da vida. Por isso eu mesma tratava de contrabandear e tomar escondido minha doce droga lícita.
Terceira mudança: As sete regras de Patrick.
“Não faça amigos. Amigos são fraqueza e um Hunter nunca é fraco”
“Mate primeiro. Se vanglorie depois”
“Sua obrigação é salvar o máximo de pessoas possíveis” Quando ele fala essa eu sempre tenho vontade de dizer “E eu lá sou babá pra ficar cuidando da vida alheia?” Mas obviamente eu não tenho autonomia para dizer isso.
“Não faça planos pra velhice, você nunca vai chegar lá” E sempre que ele citava essa e Anne estava por perto, ela dava-lhe um tapa na cabeça. Mas eu até concordava com ele, as chances de eu chegar na velhice eram bem pequenas.
“Leia tudo o que puder, a informação é sua arma mais forte”
“Não fraqueje. Não hesite. Atire.”
“Nenhum monstro merece misericórdia. Se derramou sangue, o dele será derramado também.”
Como podem ver, eu estou tendo uma infância maravilhosamente saudável. Meu pai repetia tanto essas frases que como tempo eu já ia falando o resto depois das primeiras duas palavras.
Quarta, aprendi a mentir. E não qualquer mentira. Eu aprendi a chorar do nada e inventar histórias que fariam sentido a qualquer autoridade. Vamos dar um exemplo.
— Red, você acabou de matar um lobisomem e uma autoridade entra no local, vê você com a arma e o corpo no chão, qual sua reação? – Patrick perguntou olhando fixamente para meus olhos.
Pego um revólver e o largo no chão, caindo de joelhos logo em seguida.
— Eu não queria! – Grito entre soluços e lágrimas — Ele iria me violentar, eu não queria, por favor me ajude, por favor, eu não tive escolha, ele ia me matar!
Depois simulei um desmaio, muito bem feito por sinal, e ouvi as palmas de Patrick, me levantando do chão, limpando as lágrimas e colocando a arma de volta no lugar.
— Muito bem! Mas é fácil acreditar em crianças, fica mais difícil com a idade.
— Duvido. Isso é muito fácil. – Dei de ombros limpando as lágrimas de crocodilo.
Sim, eu sou uma excelente atriz. Palmas para mim meu povo, eu sei que sou uma menina prodígio.
Quinta e última mudança: Falta de liberdade.
Talvez eu odeie essa mudança mais do que a da dieta. Lá se foram minhas tardes no parque, minhas caminhadas, minha mania de manter a porta fechada, meus desenhos, meu violão foi jogado fora... Tenho que confessar que de noite, na minha cama, eu deixo derramar algumas lágrimas. Eu não me sentia bem, estava me sentindo na verdade péssima, cansada, com uma fúria crescendo dentro de mim.
Eu sempre odiei essa coisa de mandarem em mim. Geralmente as crianças param de fazer birra e abaixam a cabeça quando o adulto levanta a mão para bater nelas.
Eu não. Se eu não quero, não serei obrigada. Minha mãe poderia me bater o quanto fosse, eu não derramo uma lágrima, e não faço o que ela quer. Coisas como jogar o lixo fora ou pôr a mesa eu faço numa boa. Agora calar a boca ou ir para o meu quarto por causa de uma conversa de adultos já são outros quinhentos. Eu sou teimosa e orgulhosa. Fazer o quê né?
Essa coisa de acabar com minha liberdade está me sufocando. Eu realmente estou tentada a ir vender miçanga, só que nas montanhas, porque tiraram meu computador e eu não pude pesquisar o que é praia. Acho que tenho maturidade precoce. Estou passando pela revolta adolescente muito cedo.
Se passou um ano desse jeito. Até meu aniversário em que minha mãe fazia um delicioso e incrível bolo de chocolate com cobertura de doce de leite (a primeira maravilha do mundo) foi substituído por um bolinho de padaria sem açúcar. Sério pai? Nem no meu aniversário posso comer doces? Patrick é um chato.
Minha salvação era quando meus pais viajavam. Aí eu podia respirar aliviada. Jacob não era tão severo quanto nossos pais. Também pudera, ele tinha 16 anos. Ele não tinha namorada, (CULPA DE QUEM?! Não, não é das estrelas, é de Patrick mesmo, piadinha ruim mesmo porque eu não tenho senso de humor), mas vivia flertando com a nossa vizinha, Samantha. Eu havia puxado do meu irmão minhas feições faciais e... Só.
Ele era moreno, eu era meio pálida, ele tinha um cabelo preto e espetado, eu tinha cabelo liso e vermelho, os olhos dele eram cinza como os do nosso pai, os meus eram vermelhos puxados não sei de onde (Eu realmente estou achando que sou a única pessoa com essa cor de olhos), ele sorria toda hora, eu sorria quando ganhava dinheiro, com o sofrimento alheio e... Só. Porém eu havia puxado dele os mesmos traços suaves, os lábios finos, o mesmo olhar avaliativo... O que me torna uma criança fofa. Brincadeira. Me chame de fofa e eu te rastreio e te faço ter uma morte dolorosa. Eu sei fazer isso.
Seja o que for, Jacob pegava leve comigo, ele me deixava voltar a minha antiga rotina, e até me levava pra tomar sorvete. Eu aproveitava o máximo possível e escondia numa tábua solta embaixo da minha cama os novos desenhos. Patrick havia rasgado os outros dizendo ser perda de tempo.
Isso deve soar bem frio. Mas eu não vejo Patrick como pai. Ele nunca diz algo como “eu te amo” ou “você é importante pra mim de outra maneira que não seja para aumentar o status da linhagem de caçadores da linhagem Hunter”. Eu sequer gosto dele. Não rola aquele sentimento pai e filha entre nós. Ele não quer saber o que quero. Então não sou obrigada a vê-lo como um pai. Ele tem cabelos loiros e a barba sempre está por fazer. Tão bonito, nem parece que proíbe a filha de comer doces.
Minha mãe até me compreendia, mas ela não podia contestar muito já que Patrick nunca a dava ouvidos, o que resultou numa vez ela acertar o cabo de uma calibre em sua cabeça. Eu ri muito nesse dia. Então eu via Anne como mãe. Ás vezes ela conseguia me dar uma bala sem Patrick ver além de ter um sorriso incrivelmente dócil, ela é morena, seus olhos são castanhos e seu cabelo preto e ondulado, ou seja minha mãe é linda. E tem uma cicatriz de garras em seu pescoço, ela diz que foi um lobisomem.
Bom, vamos agora para um dos momentos mais... Intensos, digamos assim, dos meus nove anos. Foi a reunião da família Hunter.
Geralmente as pessoas tem problemas como uvas passa no arroz, as tias perguntando “E os namoradinhos?”, a péssima piada do “É pavê ou pacomê?”, alguém detonando toda a comida, a criança que fica te encarando como se soubesse seus pecados, a cara do povo quando suas músicas de rock começam a tocar e esses tipos de coisa. Mas eu não sou normal. O geralmente não cabe a mim. Infelizmente.
Eu tinha que mostrar que aprendi algo. Algo de útil. E os Hunter eram um bando de rabugentos piores que eu. Era bem difícil impressioná-los. Mas eu estava pouco me importando. Eu nem queria isso aqui pra começo de conversa então não tinham que exigir nada de mim embora segundo meu pai eu seja um prodígio da caça.
Vestia uma calça jeans e uma camiseta de mangas curtas roxa quando meus parentes começaram a chegar. Como eu queria estar como um Harry Potter da vida e trancada no meu quarto fingindo que não existo.
Eu não vou descrever nem citar nomes. Primeiro que é um monte de gente. Segundo eu não tenho paciência. Terceiro, essa descrição é inútil e vai fazer eu e vocês perdermos tempo e não vai mudar absolutamente nada em suas vidas.
Só preciso dizer que não ganhei nem um par de meias.
Bando de casquinhas. Tá certo que não é natal, mas o que custava?
Eu queria ir dormir. Mas vou ser obrigada a receber esse povo que nem presente trouxe. Que ódio.
Conversa vai, conversa vem (Quero dizer, entre eles, eu tava quieta no sofá avaliando minuciosamente tudo, de fininho) e um garoto que deveria ter minha idade sentou ao meu lado.
— Okay, você não parece do tipo que acorda cedo para assistir desenho animado. – Ele disse sorrindo de canto. Tinha cabelos castanhos bagunçados e olhos numa tonalidade bem escura, mesmo com a luz da sala acesa eu não consegui enxergar sua pupila.
— Ninguém aqui é. — Respondi secamente ao que deveria ser algum primo de terceiro grau.
— Tá. Tentemos de novo. Meu nome é Lucca. E o seu? Ninguém fez questão de te apresentar.
— Reddie. E eu não faço questão de ser apresentada.
— Você é mais rabugenta que meu pai. – Ele riu e eu suspirei. Ele tava tentando ser legal então eu podia fazer um esforço.
— Quem é seu pai? – Perguntei e ele apontou para um homem alto e forte de costeletas castanhas (Deve ser coisa de família) e cabelo bagunçado assim como o dele que conversava seriamente com meu irmão sobre a importância das armas que estava com uma cara do tipo “Me tirem daqui”.
— Aquele ali. Henry. Acho que sou seu primo.
— Hum.
— Então... Está nervosa? – Ele perguntou puxando assunto novamente.
— Porque eu estaria?
— Pelo rito de passagem. – Ele deu de ombros – Eu sou bom com facas. E você?
— Arco e flecha e revólveres.
— Uh, boa sorte.
— Eu não preciso disso. – Ele fez uma careta com o que eu falei e percebi que fui arrogante, okay, eu posso tentar ser legal. Eu consigo. – Quero dizer... Obrigada. E boa sorte pra você também.
Ele deu um sorriso e antes que eu pudesse falar algo meu pai me chamou. Quando notei, todos estavam encarando a mim, me levantei da poltrona em que estava e peguei o arco que meu pai estendia juntamente com cinco flechas. Já havia um alvo preso na parede. Eu engoli em seco. Minha calma se foi. Todos estavam me olhando como se fossem leões e eu um pedaço de bife.
Olhei discretamente e minha mãe e Jacob me lançavam olhares encorajadores. Ainda assim senti as palmas das minhas mãos suarem quando peguei a flecha. Eu comecei a tremer um pouco. Eram olhares afiados e desafiadores, como se não acreditassem na minha capacidade.
Balancei a cabeça e mesmo com as mãos suadas, atirei a flecha. Acertou fora do alvo. Engoli em seco novamente ao ouvir as zombarias e risadas.
— Patrick, acho que sua garotinha só vai servir para cozinhar mesmo! Não sabe nem atirar uma mísera flecha. – Zombou rindo um homem, acho que era o meu tio Valtér. Ele ria e segurava uma maçã enquanto gesticulava com as mãos.
Perdi a paciência que eu já tinha esquecido no útero da minha mãe. Meu estômago se contorceu em fúria e eu quase rosnei.
Atirei a segunda flecha em sua direção e acertei a maçã quase perfurando sua mão (Quem leu jogos vorazes vai saber que isto aqui foi em homenagem a minha personagem favorita). Depois peguei as três restantes e atirei de uma só vez no alvo, acertando as três no centro. Desta vez ouvi alguns murmúrios de assombro e mesmo com a visão vermelha, vi alguns pares de olhos arregalados.
— Obrigada pela sua atenção. – Me virei novamente em direção a Valter e fiz um falso gesto de saudação e então subi as escadas sem esperar ser dispensada.
Fale com o autor