As Crônicas de Reddie Hunter
3 O que todo mundo quer fazer com os parentes
Infelizmente minha referência a Katniss não alegrou a todos. Povo sem senso de humor. Vão ler um livro que não seja sobre monstros. Um pouquinho de leitura diversificada iria fazer muito bem. Mas seria uma pena, não? Eles não gostarem de mim... Eu não poder ser caçadora... Seria muito triste. Nossa cara, a ironia chega a ser palpável.
Na realidade eu estava praticamente fazendo a torcida digna de um time de futebol e pulando de felicidade pela possibilidade deles não terem gostado de mim. Patrick me chamou algumas vezes, porém preferi ficar no quarto em forma de protesto. Eu parecia uma adolescente revoltada sendo totalmente infantil. Mas eu tenho 9 anos. Dane-se. Isso é problema meu.
Eu não curto muito a ideia de passar a noite em meu quarto sendo que não podia desenhar, meu violão fora jogado fora e meu fone de ouvido também. E eu acho que o pessoal lá embaixo pode não ser muito fã de Metallica. Mas eu tenho culpa de ter bom gosto musical? Então dei de ombros e coloquei o som no último volume e comecei a gargalhar enquanto Back in Black retumbava em meus ouvidos. Sim, eu ficarei em meu quarto.
É uma questão de princípios, uma questão de conceitos, uma questão de orgulho e...
Eu até continuaria no meu quarto em forma de protesto, se meu estômago não me traísse. Parecia que tinha um monstro na minha barriga. Droga. Não se pode nem ser uma adolescente infantil que a vida colabora pra não dar certo. Eu quis ficar no meu quarto, porém meu estômago não estava aceitando ser ignorado. Então a fome venceu. É a vida. Baixei a música e me levantei da cama.
Abri a porta do meu quarto e fui descendo as escadas. Nem parecia reunião de família, eu só ouvia murmúrios de conversas. Quando fiquei visível todos começaram a me encarar de novo. Nossa. Esse povo realmente não tem o que fazer.
Ao contrário do acontecimento anterior, eu não senti minhas bochechas coragem nem minhas mãos suarem. Desta vez eu estava com raiva. O que não era nada bom. Por isso devolvi friamente cada olhar um por um, me demorando mais em Valtér.
Eu dei um sorriso irônico em sua direção como se dissesse “E aí? Como vai a mão, velhote?”. Ele fez uma carranca. O único que não me olhava era Lucca que estava entretido encarando as chamas da nossa lareira.
Fui até a cozinha, que antes era meu lugar favorito. Eu vinha aqui comer tanta coisa boa. Agora só frutas e verduras. Mais uma vez, é demonstrado a vocês o sofrimento e crueldade que passo nessa residência. Denunciem e me ajudem. Comi uma maçã e uma pêra.
Eu iria voltar para meu quarto em protesto (agora de barriga cheia), porque você só pode começar uma greve de barriga cheia.
Mas aquela voz irritante causadora da minha fúria estilo Katniss me chamou. Franzi os lábios, me irritar mais agora daria merda.
— Ei, garota, venha cá. – Valtér chamou. Eu revirei os olhos.
— Meu nome é Reddie, Valtér.
— Me chame de tio, demonstre que tem algum respeito.
— Eu não vou demonstrar o que não tenho.
Lucca e a mulher a seu lado que provavelmente era sua mãe, sorriram. Eu gostei daquele ramo da família, eram interessantes. Eles tinham um pouco de senso de humor ao contrário dos outros que simplesmente me olhavam como se eu fosse uma maluca gótica.
— Sua petulante! Eu vou lhe ensinar o que é respeito! – Ele levantou e avançou pra cima de mim, eu arqueei uma sobrancelha. É sério? Que cara estressado. Peguei um revólver que estava por perto (Tem arma pra tudo quanto é lado nessa casa) e apontei para seu peito. – Ah, pirralha. – Ele deu uma risada e debochou – Não teria coragem.
— Eu fui criada assim – O cortei – Não fraqueje. Não hesite. Atire.
Olhei de esguelha para Patrick que me dirigia um olhar orgulhoso e sorria um pouco.
— Então atire. – Ele desafiou.
Estreitei o olhar, apertei o gatilho e direcionei a arma para cima, dando um tiro na parede que fez um buraco no teto. Valtér se sobressaltou, os lábios de meus parentes se entreabriram. Uma parte do teto caiu na cabeça de Valtér junto com um monte de pó o sujando.
— Atirei. – Dei um sorriso sarcástico — Entenda, eu não tenho medo de te matar. Mas ninguém aqui está a fim de interromper a sobremesa pra limpar seus miolos na parede.
Jacob deu uma gargalhada. Valtér me encarava furioso e prestes a me matar. Eu me virei e comecei a subir a escada quando Valtér esbravejou.
— VOLTE AQUI AGORA MESMO!
— Um. Não sou obrigada. Dois, isso foi a prova que sirvo para coisas além da cozinha. E três. Fale com minhas costas. E tem uma sujeirinha no seu rosto. – Falei ainda de costas enumerando com os dedos e então virei apenas o meu rosto por cima do ombro dando mais um sorriso de canto sarcástico – Boa noite família. Foi um prazer conhecer vocês.
No dia seguinte recebi a excelente notícia que passei no rito de passagem e que deixei todos da família impressionados, menos Valtér, agora ele me odeia. Wow, que maravilha, gente, eu estou até emocionada. Eu serei uma caçadora oficialmente. Passarei minha vida matando monstros, tendo o peso de salvar pessoas e sem ganhar recompensa alguma! É formidável! Eu me sinto tão feliz!
Eu realmente deveria receber um prêmio Nobel por ter tanta ironia na veia.
No mesmo dia Patrick me apresentou seu arsenal de armas particular que ficava num alçapão secreto do nosso porão. Okay. Aquilo realmente era impressionante. Eu não consegui evitar que meus lábios entreabrissem. Havia dez armas de cada tipo, adagas, facas, lâminas, katanas e balas de todo tipo de minério (eu fiquei realmente tentada a pegar uma adaga de ouro para vender, caramba, ele tinha mais nove! Que falta ia fazer?), revólveres, espingardas, sangue de todo tipo de animal, ossos e por aí vai...
Era incrível e Patrick disse que um dia tudo aquilo seria meu e de Jacob. Eu fiquei meio encantada com o que ele disse. Era um presente e tanto, futuro, mas já era algo. Acho que foi o momento mais pai e filha que tivemos.
Vocês devem estar se perguntando “Hey, então a Reddie recebeu alguma coisa?” Vão sonhando, meus queridos. Vão sonhando. A única coisa que ganhei foi um discurso inútil. Afinal, dá pra comer um discurso? Dá pra pagar algo com um discurso? Não. Então é inútil até porque não aprendi nada com ele, só que Patrick ama de gabar que tem a filha mais incrível da linhagem.
Só eu que percebo que isso é uma grande porcaria? Eu tenho que arriscar minha vida pra não conseguir nada em troca. E nem serei feliz com isso. Porém acho que ninguém além de mim liga pra esse fato.
Eu achei que Jacob ficaria com ciúme ou algo assim, mas ele não estava nem aí. Pelo contrário, agora que a atenção estava mais focada em mim, ele tinha mais tempo para seus flertes com a vizinha.
Meu treinamento se intensificou. Eu me sentia cada vez mais sufocada. Era como se tentassem me impregnar numa realidade que não era minha. Cada vez mais eu tinha uma única vontade. Ficar sozinha. Passou um ano desse jeito. Infelizmente meus pais tinham, para continuar com o treinamento intensivo, combinado de não sair mais juntos para as caçadas, agora ou ia Patrick ou ia Anne.
O que não me dava muita chance de sair afinal essa casa só tem janela na parte dos fundos e depois do nosso quintal tem a parede de outra casa. Porque a gente tem quintal eu não sei. Só tem mato. Não temos cachorro. Acho que Patrick comprou a casa sem averiguar esse detalhe. Porque era o cúmulo da inutilidade.
Até que surgiu minha chance. Havia uma alcateia de lobisomens em uma cidade distante e se viu a necessidade de Patrick e Anne irem juntos. Eles iriam levar até Jacob, se ele não estivesse responsável por cuidar de mim. Jacob já tinha caçado algumas vezes e dizia que era legal a adrenalina.
Ele tinha um incrível talento para pontaria. Era mais fácil meu pai fazer amizade com um ghoul do que Jake errar a mira. Pra quem se pergunta, Ghoul é um monstro que se alimenta de pessoas e assume a forma de sua última vítima. Se bem que era capaz de Patrick realmente fazer amizade com um. Vai que o ghoul mata um amigo dele. Não... Patrick sempre obrigava as pessoas a tocarem em algo de prata para falarem com ele. Mesmo que fosse discretamente. Não seria diferente com um amigo.
Eles viajaram faz quatro horas. Eu esperei dar o horário em que Jacob sempre ia ficar perturbando Samantha. Eu não sei o que ela viu nele. Estavam nesse rolo há 3 anos. Desencana garota. Eu já vi até ela jogando um vaso de planta em Jacob e o xingando de nomes de baixo calão enquanto ele somente ria e se desviava gritando “Você não vive sem mim!”. Acho que meu irmão está com a bola cheia demais. Calma, querido. Desde quando tu virou oxigênio?
Eu estava descendo a escada tentando ser silenciosa ao máximo. Queria ir ao parque. Tentar ter uma tarde normal. Mas achei Jacob, que me olhava do sofá reprovador.
— Aonde pensa que vai, mocinha? – Ele indagou cruzando os braços e eu repeti seu ato.
— Comprar donuts – Respondi convicta e Jacob suspirou.
— Sabe que não pode comer donuts.
— É só um! – Fiz um gesto de suplica com as mãos tentando fazer minha cara de cachorrinho que caiu da mudança. – Por favor, maninho.
— Tá, está bem, mas vê se não demora, não posso ficar te acobertando sempre. – Ele cedeu e eu sorri abertamente.
— Obrigada – Eu já ia abrindo a porta quando ele me chamou de novo e eu temi ele perceber que eu menti. O que seria um absurdo considerando meu incrível talento de atriz.
— Espera aí, porque está sem as lentes?
— Elas coçam! E eu só vou comprar donuts! Não é possível que eu encontre algum religioso fanático que queira me exorcizar enquanto isso!
— Porque é que eu sempre acabo cedendo mesmo?
— Porque você me ama?
— É, acho que é por isso.
— Aliás, por que não está enchendo o saco da Sam? – Indaguei, era pra essa criatura estar enchendo o saco da guria e nem me ver saindo de casa.
— Ela me atirou a coleção de porcelanas da mãe dela. Amanhã eu tento de novo. – Ele deu de ombros e revirei os olhos.
— Maninho... Deixa a garota em paz.
— Ela me ama! Só não admite.
— Uma hora essa sua bola vai estourar de tão cheia. – Debochei sorrindo.
— Será possível que nem com seu irmão você é gentil?
— Sangue compartilhado gera gentileza agora? – Jacob soltou uma risada e se levantou do sofá me dando um abraço. Sorri e abri a porta e Jacob me deu um leve aceno sorrindo de canto. Eu sai correndo de casa, assim teria mais tempo para aproveitar no parque.
Aí você se pergunta “Então a Reddie tem amigos para querer tanto ficar no parque?”. Não. Não tenho nenhum amigo, mas é legal ficar observando tudo e eu também gosto de tirar fotos das pessoas pra desenhar depois, ok que eu não desenhava lá muito bem, mas era divertido. Me relembrava os tempos tranquilos há dois anos atrás.
Eu usava um gorro roxo, uma calça jeans, uma camiseta rosa e um suéter preto, já que estava no inverno, com certeza meu nariz estava um pouco vermelho. Assim que cheguei ao parque suspirei, várias crianças estavam brincando, e, como de costume, sentei num banco mais afastado e retirei o celular do bolso.
Comecei a fotografar tudo ao meu redor, as crianças, esquilos, árvores, adultos correndo, casais, meu celular já estava cheio de imagens. Essa foi uma das pouquíssimas coisas que Patrick não tirou de mim. Meu celular. Mas seria vacilo tirar isso de mim também né. Em compensação eu não tinha internet. Até hoje não sei como é uma praia.
Eu estava num momento reflexivo, pra variar, quando um grupo de crianças resolveu se aproximar de mim.
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