As Crônicas de Orbe

1 PRIMEIRA HISTORIA “ A ESTRADA DAS SURPRESAS”


CENA 1

Garoto

“Uma manhã quente. Milhas para andar”, pensou, arrastando os pés pela estrada escaldante.

As bolhas em seus pés já haviam estado piores. O calor, implacável, parecia um abraço sufocante. Se a encosta não fosse tão íngreme, talvez ele tivesse seguido pelo leito do rio. Mas não. Estava preso naquele caminho inóspito. “Se soubesse que a jornada seria tão longa, teria me preparado melhor”, murmurou para si mesmo.

Horas se passaram. A estrada se estendia infinita diante dele, sem promessas de fim. À direita, uma floresta densa e intocada — um muro verde que escondia qualquer vestígio de civilização. “Se é assim, talvez tivesse sido melhor fugir para outro lugar.”

Suas roupas denunciavam a dureza da viagem. A camisa puída, cheia de remendos. As calças rasgadas nos joelhos. Os sapatos? Há muito desaparecidos. O único abrigo era a capa desbotada, que ocultava o desgaste do corpo, e a faixa ensanguentada que envolvia o antebraço esquerdo. Poderia usar o capuz para se proteger do sol, mas não precisava. Os galhos mais altos da floresta curvavam-se sobre a estrada, filtrando a luz e lançando sombras sobre o caminho.

“Pena que não aliviem o calor também”, pensou, “mas isso seria pedir demais.” Não podia perder tempo com pensamentos vazios. Havia muito a fazer quando chegasse — se é que chegaria. O cansaço lhe pesava; o corpo frágil de um menino de treze anos já havia chegado ao limite.

Ele passou a mão pelo rosto, limpando o suor que escorria pela pele que um dia fora clara, agora bronzeada e marcada pelo sol implacável. Ajustou o gorro que escondia seus cabelos negros e inspirou profundamente quando uma brisa fresca vinda do rio o tocou.

“Que pelo menos isso me dê um pouco de ânimo”, pensou, olhando para o rio lá embaixo. Seus olhos, de um azul gelado e distante, eram vazios — sombrios. Olhos que já tinham renunciado a tudo, cheios de ódio e abandono...

CENA 2

Carruagem

O momento não era oportuno, e Alice sabia disso. Mas quem poderia culpá-la? Já viajavam há muito tempo: primeiro de barco, agora de carruagem. Com certeza, ela preferiria ter terminado o trajeto de barco, mas Rober insistira que seria melhor viajar discretamente. Ela não discordava — seu irmão não estava errado. Arriscar uma viagem de Balázios à Capital não era coisa fácil.

“Ainda mais quando se carrega um baú cheio de ouro”, pensou, fitando o objeto no banco à sua frente.

— Rober, acho que preciso de um urinol. — Olhou ao redor, procurando algo, e depois revirou os olhos na direção do irmão. — Mas, como não temos nenhum, creio que a floresta venha a servir.

Os olhos de Rober, presos nela, mostravam exatamente o que ela imaginava. Eram azuis, mais claros que os seus. Ela sabia o significado daquele olhar: “Não devemos parar, Alice. Espere até a aldeia, não deve faltar muito.”

Mas sabia também que seu irmão não diria isso, por mais que quisesse. Não era assim que tratava sua irmã mais nova.

— Se você não pode aguentar, paremos então — disse Rober, voltando-se para a veneziana usada para conversar com o cocheiro. Do lado de fora estava um homem rude, sujo e digno de desprezo aos olhos dela.

— Veja se minha prima não tem uma bexiga sensível — respondeu Alek, seu primo.

“E temos a primeira observação de um idiota”, pensou Alice, esboçando um sorriso forçado.

De todas as pessoas que sempre tivera de aturar, Alek Berifor era a pior. Mesmo agora se perguntava por que Rober o trouxera — embora a resposta fosse óbvia.

“Ele é meu irmão tanto quanto você, Alice. Provavelmente essa seria a resposta, ou algo assim”, refletia.

Desde que se lembrava, sempre vira o irmão com o primo. Alek era um ano mais velho que Rober, tinha os cabelos castanho-escuros dos Berifor e os olhos azuis de todos os balázianos. Tirando o pequeno rabo de cavalo que usava, não era diferente dos demais.

“Comum como um plebeu”, ironizava ela, enquanto a carruagem parava.

— Não vá demorar — advertiu Rober, com um sorriso cínico. — Se continuarmos a enrolar, perderemos o baile, e tenho certeza de que isso não seria do seu agrado, não é mesmo, minha irmãzinha?

— Claro que não — respondeu Alice. “E aí está minha repreensão. Melhor devolver o sorriso.” — O baile será a parte mais divertida dessa viagem, irmãozinho — concluiu com um sorriso manso, descendo do veículo pelo lado direito.

“Um lugar bem deserto para uma estrada”, observou enquanto entrava na floresta. Não demorou, como prometera — até porque não tinha interesse em permanecer ali. Havia um baile à sua espera em Capital, e ela não pretendia se atrasar.

— Já podemos seguir, ou você esqueceu mais alguma coisa? — perguntou Alek, em tom de deboche.

— Deixe-me ver... — Alice levou a mão ao queixo, em um gesto pensativo. — Ah, há mesmo algo que esqueci: as aulas para falar com idiotas. — Assumiu uma expressão cínica, fitando Alek enquanto ouvia os risos do irmão.

— Ela te pegou dessa vez, primo — comentou Rober, tocando o ombro de Alek, sentado à sua esquerda.

— Não tenho dúvidas disso, Rober — respondeu Alek, virando-se para ela com um sorriso. — Afiada como sempre, pelo que vejo.

Alice apenas devolveu o sorriso e se aproximou da janela do lado esquerdo. Não estava a fim de discutir com Alek naquele momento; seria melhor observar o rio aos pés da encosta. Não era uma paisagem bonita, mas qualquer coisa diferente de montanhas e neve merecia sua atenção.

“Um dia quente, pelo que vejo”, ponderou, pegando o leque e correndo os olhos pela estrada. Já fazia muito tempo que não via ninguém, por isso não deixou de notar o borrão que surgiu à frente.

— Veja, acho que é um menino ali — apontou para o local onde a pessoa surgia.

— Provavelmente. Poderíamos parar e perguntar se ainda falta muito para a aldeia, o que acha, Rober? — questionou Alek, tentando enxergar a pessoa na estrada.

Rober não deu sinal de que consideraria a sugestão do primo. Alice sabia que não seria uma boa ideia. Provavelmente Alek também sabia, mas, ainda assim, seria útil descobrir quanto faltava para chegarem.

— Pode ser que ele saiba alguma coisa. Ao menos podemos considerar a possibilidade, irmãozinho? — chamou a atenção para a figura parada não muito longe.

— Pelo sim ou pelo não, é melhor... — Rober parou para olhar pela janela enquanto o jovem do lado de fora fazia uma reverência baláziana. — É melhor considerar a possibilidade de ele saber alguma coisa. — Voltou-se então para a veneziana.

Alice viu o irmão pedir ao cocheiro que parasse, assim como ouviu o que ele perguntou ao menino. Por mais que quisesse escutar, as janelas escuras e as cortinas impediam saber como as coisas seguiam do lado de fora.

Alice estava intrigada. Ninguém ali dentro trazia qualquer identificação de Casa, e Balázios ficava muito, muito longe dali. Como poderia aquele menino saber quem eram? Não fazia sentido. Não fora à toa que Rober assumira um ar preocupado.

— Então, Rober, o que foi que o cocheiro disse? — questionou Alek, como de costume.

— Pelo que parece, é servo de algum nobre de uma Casa Mista. Disse que veio entregar uma mensagem e, enquanto voltava, resolveu cortar caminho pela floresta. Acabou perdendo o cavalo, que torceu a pata ao pisar em um buraco, e agora retorna a pé. Quanto à reverência, parece que é natural de Balázios e, sem dúvida, nem imagina quem somos — concluiu Rober, aliviado.

— Não vejo problema em ele seguir conosco — disse Alice, tentando ver a pessoa do lado de fora.

— Neste caso, sou forçado a concordar com você. Também não vejo problema — emendou Alek, dirigindo-se à prima.

— Forçado a concordar? — Alice sorriu e franziu o cenho. — Quero saber quando foi que você esteve certo na vida, priminho insolente.

O rubor subiu pelo rosto de Alek. Alice gostava daquilo. “É bom que fique com raiva.” Sabia o que viria a seguir. “Uma bela briga.” Pelo menos seria isso se seu irmão não tivesse intercedido.

— Então fica decidido: o garoto segue com a gente, e pomos um fim a essa discussão sem sentido de vocês dois.

“Com um rosto sério desses, quem vai querer discordar?”, constatou ao olhar para o irmão. Quanto a Alek, apenas virou o rosto para a janela. “Esse aí não sabe mesmo ser repreendido. Eu, por outro lado...”

— Seja como disse, irmãozinho. — Sorriu de forma inocente. — Então já podemos seguir?

Depois de devolver o sorriso, Rober virou-se para a veneziana, e a carruagem voltou a se mover. Alice realmente gostava do som do veículo correndo pela estrada.

“Ainda está cedo, provavelmente chegaremos antes do baile”, concluiu, observando o tempo.

CENA 3

Na Aldeia

— O senhor pode me dar um pouco mais de água? — perguntou com um sorriso abatido. O cocheiro entregou-lhe a garrafa com indiferença.

“Esse aí acha que é algum nobre...”

O garoto não demonstrava maior interesse no homem do que na paisagem que já vira tantas vezes. “Se eles não tivessem aparecido, provavelmente teria me jogado no rio”, pensou enquanto olhava a encosta.

Foi inacreditável ouvir o som dos cavalos ao longe e, ao ver que se tratava de uma carruagem, decidiu tentar a sorte e arriscar tudo com uma reverência. Depois de fazê-la, censurou-se: “Capital, não Balázios! Burro, burro...”

Mas, para sua sorte, eles haviam parado, e agora ele viajava em condições muito melhores. Bastava olhar para os pés ardentes e sangrando e saber que, enfim, poderiam ter o descanso que mereciam para sentir uma alegria imensa.

Depois de um breve descanso, a curiosidade o dominou: afinal, quem eram aquelas pessoas na carruagem?

Ao que tudo indicava, estavam indo para Capital. Pelo menos foi essa a conclusão que tirou pelas perguntas do cocheiro, que, infelizmente, se limitava a ignorá-lo.

“Provavelmente é da região”, julgou, pela pele morena, pelos cabelos enrolados e pelos olhos castanho-claros. “Velho de idade ou velho pela vida?”

Não fazia diferença. O homem era velho e pronto, além de grosso e rude, mas isso não era novidade. Já havia convivido com pessoas bem piores.

No momento, o que o incomodava era a falta de informação. Sabia que as pessoas estavam indo para Capital, mas “por que por aqui?” Essa era uma pergunta para a qual não encontraria resposta tão cedo, pelo menos era o que pensava.

Capital era o berço da economia de toda Orbe. “O reino mais rico e pacífico também.” Sabia disso, e sabia que a melhor maneira de viajar para Capital era de barco, não de carruagem. O fato de terem parado para perguntar deixava claro que já haviam percorrido um longo caminho.

“Embora uma viagem longa de carruagem seja bem diferente de uma viagem longa a pé”, concluiu, sorrindo como um lunático.

“Se esse é o caso, devem ser de algum vilarejo não muito distante.” Voltou a olhar a carruagem. “Branca, larga e simples. Comerciantes ou nobres, só podem ser uma das duas coisas. Mas, se for assim, onde está o brasão da Casa à qual pertencem? Não, há alguma coisa errada aí.”

— O senhor ainda não me disse seu nome. — Rafael esboçou o melhor sorriso que pôde e se inclinou um pouco para a frente, tentando enxergar melhor o rosto do homem, que recebeu a tentativa com frieza. — Desculpe-me se o aborreço. É que o senhor me lembra um grande...

— Garoto — cortou-o o homem, grosseiro. — Não fui pago para conversar com você, muito pelo contrário. Agora cale a boca e faça o favor de não me perturbar mais, se não quiser que eu arranque sua língua. — Terminou a ameaça enquanto alisava o cabo da faca na cintura.

“Por que sempre é a língua?” Virou o rosto para o outro lado. Embora não tivesse obtido o nome do homem, sentiu-se consolado pela resposta.

“Não fui pago para conversar, muito pelo contrário...”

Aquilo definitivamente chamou sua atenção. “Pago para não falar... parece que temos alguém que está tentando se esconder. Mas por quê?” Essa seria outra pergunta que ele julgava não encontrar resposta tão cedo, ou pelo menos assim pensava.

Demorou um pouco ainda no silêncio daquela viagem, até que viu, ao longe, a fumaça que indicava que a aldeia não estava longe — com certeza, uma notícia bem-vinda.

O cocheiro, ao notar, bateu na veneziana.

— Aldeia próxima — anunciou e voltou-se para seu lugar, sem que o garoto pudesse ouvir o que diziam dentro da carruagem.

“Aí está um joguinho sem graça.” Depois de sorrir com o pensamento, Rafael virou-se para a esquerda. A essa altura, a encosta cedera lugar ao leito do rio que banhava a aldeia. Viu muitas canoas e alguns barcos no píer, mas o que chamou sua atenção foi o tamanho do lugar.

Durante sua vida, vira muitas aldeias, mas nenhuma como aquela. Todas as casas eram feitas de concreto, e as ruas, pavimentadas com pedra — algo surpreendente.

“Isso está mais para um vilarejo.” Depois de olhar mais uma vez as construções, teve sua atenção direcionada ao mercado local, que, como esperado, estava lotado.

Comerciantes anunciavam uma variedade de mercadorias. Crianças corriam entre as bancas, enquanto outras furtavam o que conseguiam alcançar — não era difícil perceber para quem sabia o que procurar.

— Eu poderia encher os vasos de água, se for do agrado... — Rafael deixou a voz morrer enquanto fitava o homem. O cocheiro, depois de olhar os recipientes, bateu novamente na veneziana. “E lá vamos nós outra vez...”

— Meu senhor, gostaria que os vasos fossem cheios ou deseja alguma outra coisa? — O tom era submisso e especulativo. Durante alguns instantes, o homem permaneceu sem resposta, até que uma pequena bolsa lhe foi entregue juntamente com algumas instruções.

— Tome. Compre algumas frutas e pague para que encham os vasos. Estarei esperando próximo à saída para a cidade. Agora vá, antes que eu lhe bata.

“Tão diferente de pouco antes. Parece que você não está transportando qualquer um mesmo. Me pergunto quanto estão te pagando.” Abriu o saquinho que lhe foi entregue.

“Isso está cada vez mais estranho... Duas lascas de prata e cinco linhas de cobre. Mas afinal, quem são vocês?”

Para um local tão cheio de tendas e tão concorrido, meia lasca de prata seria suficiente — além do mais, era apenas para algumas frutas e um pouco de água.

“Com esse dinheiro, comprava um barril de maçãs e outro de ameixas.” Com certeza deviam ser muito ricos para esbanjarem tanto. Se esse era o caso, “acredito que uma lasca a menos não fará diferença.” Seguiu contente enquanto guardava algo no bolso.

— Moça, quanto cobraria para encher os vasos naquela carruagem? — perguntou para uma mulher que o fitava, tentando decidir um preço para aquele serviço.

A mulher tinha olhos castanhos escuros e pele parda, cabelos ondulados e oleosos de um ruivo cenoura. Tirando a cor do cabelo, não era em nada diferente das outras mulheres de Capital.

— Para você, vinte linhas de cobre — respondeu com um sorriso, tirando o lenço do cabelo para limpar o rosto.

“Isso, sem dúvida, é um roubo.” Entretanto, o dinheiro não era seu, então para que criar um caso?

— Para mim está ótimo — entregou o dinheiro.

Ao olhar novamente para a carruagem, deu-se conta de como chamava atenção. Mesmo ali, havia inúmeras pessoas a observando. Embora simples, era uma carruagem — mesmo em Capital não era qualquer um que viajava num veículo daqueles.

E então, depois de conferir o troco, deu-se conta de como estava sendo tolo.

— Moça, saberia me dizer se há algo acontecendo na cidade? — A mulher o olhou com espanto, e isso não passou despercebido.

— Ora, a coroação do Rei Felipe Meneai. Seu pai, o Bom Rei Henrique, morreu há três dias — explicou, com uma expressão que perguntava como ele poderia não saber daquilo.

“E eu que me perguntava o quanto o mundo poderia mudar em uma semana.” Olhou novamente para a carruagem. “Quase tudo explicado.”

Se estava acontecendo uma coroação, obviamente o porto de Capital estaria lotado, sem falar que as águas ficariam perigosas — e isso ele sabia muito bem. Logo, seguir discretamente para Capital por terra era uma decisão sensata.

“Vocês definitivamente são nobres. E não do tipo comum.”

— E sabe dizer se ainda falta muito? — A mulher levou a mão ao rosto, considerando se lhe responderia ou não.

— Isso fica por sua conta. Há dois caminhos daqui para a cidade: saindo pelo portão sul, pode seguir pela estrada real e chegar lá no início da noite; ou pode cortar caminho pela floresta, por um atalho à direita, e chegar no meio da tarde. Mas entenda bem: esse atalho não é vigiado, ao contrário da estrada real, que conta com patrulhas depois da curva. Além disso, é bem deserto.

— Entendo. De todo modo, muito obrigado pelas informações — despediu-se com um sorriso, enquanto a mulher assentia.

“Aí está algo útil.” Parou para olhar o sol por um instante. Poderia dizer que eram umas onze horas e considerava o início da noite por volta das seis.

“Mais sete horas de viagem? Eu não dou conta.” Por outro lado, o meio da tarde poderia ser às quatro horas.

“Isso dá uma diferença de três horas.” Sem dúvida, o atalho era a melhor opção. Mesmo assim, deveria considerar o terreno e a segurança antes de decidir. De todo modo, a escolha não era sua.

“E então, qual será o caminho que irão escolher?”

Seguiu para o centro do mercado, observando as bancas de frutas — maçãs, uvas, peras e ameixas eram apenas algumas da vasta variedade disponível.

“Qual levar?” Olhou mais um pouco para a banca. Havia muitas pessoas transitando, o que dificultava ir de banca em banca.

Enquanto tentava decidir, percebeu uma aglomeração próxima ao portão sul e ouviu uma série de murmúrios. Poderia ter continuado em seu dilema, mas a curiosidade falou mais alto e ele seguiu para o local.

Chegar lá não foi simples: passar por todas aquelas pessoas exigiu esforço — e um nariz forte. Muitas não cheiravam nada bem. Embora ele próprio não estivesse num mar de rosas, não chegava perto do odor de algumas.

“Eles deviam conhecer uma coisa chamada sabão!”

Quando finalmente identificou o motivo da aglomeração, ficou petrificado. Uma expressão sombria tomou conta de sua face, enquanto um sorriso se alargava em seu rosto.

“Se acreditasse em algum deus, diria que ele realmente olhou por mim hoje.”

Ao olhar bem, deduziu que o homem tinha cerca de dezenove anos. Era alto, de pele muito clara e olhos azuis. Os cabelos negros combinavam com a barba cerrada.

Se restava alguma dúvida, a vestimenta a eliminou: um sobretudo negro com bordas douradas e o broche do busto de Fenrir sobre duas espadas cruzadas.

“Mester.” Não restava dúvida. Era um Mester de Balázios e estava a caminho da coroação.

“Eu estava viajando com nobres de fato. E não do tipo comum.”

Depois de se recuperar do choque, voltou para as bancas de frutas.

“E eu que pensava que nos despediríamos na cidade... parece que terei de arrumar um jeito de passarmos mais algum tempo juntos...”

CENA 4

O Mapa

Antes de descer da carruagem, Rober retirara a capa simples usada durante a viagem e vestira o sobretudo negro de sua Casa. Também prendera ao peito o broche de Fenrir sobre as espadas cruzadas. Exibir a identidade contrariava a discrição mantida na estrada, mas facilitaria a negociação de um barco e garantiria que sua palavra fosse levada a sério. Pretendia permanecer exposto apenas pelo tempo necessário.

A taberna não estava cheia. Apenas algumas pessoas ocupavam mesas distantes e apreciavam suas bebidas. Rober correu os olhos pelo lugar; alguns também o observaram, mas logo desviaram o olhar. “Medo. Eles têm medo.” Não era difícil entender o motivo. Pertencer a uma Casa de Balázios não despertava o amor dos outros, ainda mais quando essa Casa integrava os Sete Pilares.

— Meu senhor deseja algo? — perguntou o taberneiro, enquanto polia o balcão. — Uma bebida, talvez?

— Não será necessário, mas de fato desejo algo. — Aproximou-se do homem e retirou uma pequena bolsa da vestimenta. — Vi alguns barcos no píer. Suponho que conheça alguém que parta para Balázios amanhã, no fim da tarde. — Deixou o conteúdo se espalhar pelo balcão e viu os olhos cor de mel do taberneiro brilharem diante das moedas.

— Talvez conheça. Poderíamos conversar com o barqueiro agora mesmo para acertar tudo — sugeriu o homem, contando as moedas com euforia.

— Isso não será possível. Preciso do barco pronto para amanhã; estarei aqui para o embarque no fim da tarde. Ficarei feliz em pagar o preço que acharem necessário, só espero encontrar algum conforto.

— Isso poderá ser feito, garanto!

— Muito bem. Fique com as moedas como agradecimento. Até mais ver. — Rober saiu depois de ser reverenciado.

“Um problema a menos.”

Depois da longa viagem para chegar até ali, Rober não queria enfrentar o mesmo percurso na volta. Como o porto de Capital estaria lotado, provavelmente demorariam muito para zarpar de lá; a alternativa seria retornar de carruagem até o Porto do Bispo. Repetir o trajeto, contudo, não era algo que estava disposto a fazer. Por isso, quando vira os barcos da aldeia, não perdera a oportunidade. Precisava voltar o mais rápido possível. Acontecimentos importantes se desenrolavam no Norte, e ele deveria tomar parte neles assim que regressasse. Antes disso, porém, precisaria comparecer à coroação, que já apresentava seus próprios obstáculos.

— Senhor, perdão por interrompê-lo. Estaria interessado em um mapa? — perguntou um homem assim que Rober saiu da taberna.

“Figura interessante esse aí...” Não era alto e usava uma capa marrom que o escondia por inteiro. “Quem usa uma capa com capuz neste calor?” Durante os momentos em que Rober o observara pela janela da taberna, o desconhecido não oferecera o mapa a mais ninguém. Agora se colocava entre ele e a carruagem, embora fingisse não ter interesse por ela. Sob a capa havia o contorno rígido de uma bainha, e suas botas carregavam a terra avermelhada do caminho que contornava a floresta.

— Não será necessário. Sei bem para onde estou indo.

— Todos os homens pensam saber para onde vão quando conhecem o caminho, mas a verdade é que sempre existe outra forma de chegar. Garanto que meu mapa o ajudará. — Mostrou o pergaminho enrolado enquanto se curvava. Ao fazê-lo, tornou a lançar um olhar breve na direção da carruagem.

“Se estivéssemos em Balázios, não teria que aturar isso.” Olhou novamente o homem. “Um golpista, talvez?”

Aquilo começava a entediá-lo, mas a postura do homem já não lembrava a de um simples golpista. Não se aproximara de nenhum comerciante ou viajante comum; esperara justamente pelo ocupante da carruagem. A capa escondia uma arma, o mapa parecia nunca ter sido aberto e o interesse do desconhecido estava menos nas moedas do que no caminho que Rober escolheria. “A não ser que...”

— E o que esse mapa me mostraria caso eu o comprasse? — Rober observou o homem com atenção, embora a capa não colaborasse muito.

— A maneira mais rápida de chegar à cidade, e não me refiro ao atalho já muito conhecido.

— Entendo, mas acho que confiaria mais no senhor se tirasse esse capuz... — deixou a voz morrer, esperando a reação.

— Você tem razão, mas tenho meus motivos para esconder o rosto. Não é algo bonito de se ver. Ainda assim, garanto: o mapa é seguro. Pode confiar.

“Você disse mesmo, não foi?” Olhou novamente o homem, não tendo muitas dúvidas. “Melhor acabar com isso.”

— Acredito que não precisarei do seu mapa. Como disse, sei bem para onde vou. Não preciso de atalhos. Tenho a estrada real, inteira e segura, à minha disposição. Agora, se não se importa, preciso ir.

— Se é o que deseja, não o impedirei mais. Foi um prazer ter sua atenção — despediu-se o homem com uma reverência, sem fazer nova oferta nem tentar reduzir o preço.

“Como pensei...”

O homem sumiu novamente dentro da taberna, e Rober seguiu para a carruagem. “Temos de ser rápidos. Se não, um baile atrasado será o menor de nossos problemas.”

Antes de entrar, deu uma boa olhada no menino. Uns treze anos, julgou. Não estava bem vestido. “E usa capa também, só que, em vez do capuz, optou por um gorro.” Ao abrir a porta, foi surpreendido pelo olhar dele, que se virou ao som do barulho. Eram olhos azuis, sem dúvida, mas, sob a sombra do gorro, pareciam quase pretos. “Muito sombrios para o meu gosto.”

Ao entrar na carruagem, tomou seu assento em frente à irmã e deu a ordem ao cocheiro para seguir. Já tinham ficado tempo demais parados.

— Como foi? Resolveu o problema da volta ou terei que sofrer nisso também? — comentou Alice, levando a mão direita aos olhos como se limpasse lágrimas, numa graça que só ela sabia fazer.

— Bom, quanto a isso, não teremos... — Rober parou para pegar uma ameixa no prato à sua frente. — Nenhum problema. Amanhã, no fim da tarde, o barco já deverá estar pronto.

O sorriso no rosto de Alice veio acompanhado de pequenas e rápidas palmas. “Creio que a tenha mimado demais...” Olhou para o primo, que também demonstrava satisfação ao ouvir que não voltariam de carruagem até Porto do Bispo. “Imagino quem não ficaria feliz em ouvir isso.”

— Realmente é uma notícia excelente. Agora só espero que possamos encontrar uma boa hospedaria...

“Tinha-me esquecido disso também...”

A bem da verdade, apenas adiara o problema. “Duvido que encontremos alguma hospedaria que não esteja lotada. Cinco dias antes, talvez, mas agora...” A ideia não lhe agradava, mas não se arrependia da decisão. Ir a Capital por mar, diante de todos os acontecimentos, teria sido imprudente. Entretanto...

— Tenho alguma ideia do que possa ser feito a respeito, mas não falarei disso no momento.

A virada da carruagem e o terreno acidentado indicavam que tinham entrado no atalho. “Talvez não devesse contar. Não fará diferença mesmo.” Olhou para eles novamente. Alice levava uma uva à boca, e o primo se acomodava com uma pequena almofada. “Realmente não devia...”

— Creio que estejam planejando nos seguir.

As reações não foram muito diferentes do que imaginara, exceto a da irmã, que cuspiu a uva. “Pálidos como fantasmas.” Rober os observou com tranquilidade enquanto pegava outra ameixa. — Tudo aconteceu quando eu voltava. Um homem tentou me vender um mapa de um suposto caminho...

— O que faz dele um golpista, não um bandido — interrompeu Alek, que colocava a almofada às costas.

— Se você não me interromper mais, vai entender — olhou duramente para o primo, que assentiu com a cabeça. — Como estava dizendo, o homem tentava me vender um mapa e, aqui vai algo incomum, fazia isso envolvido por uma capa. Havia uma espada escondida sob o tecido. Além disso, ele não abordou nenhum outro viajante: esperou que eu saísse da taberna e não parava de olhar para nossa carruagem.

— Com este calor? Muito estranho, mas ainda não vejo nada suspeito, Rober.

Alguns anos antes, Rober poderia ter ficado furioso, mas agora estava acostumado às constantes interrupções de Alek. De certa forma, não era culpa dele; o primo era o único filho e legítimo herdeiro do Tanos Manuelk Berifor. Durante a Batalha do Lobo e da Coroa, fora mantido em segurança. Nunca precisara prestar contas, permanecer em silêncio ou fugir na calada da noite, abandonando a família para sobreviver. Aquela atitude questionadora era natural para ele.

— Você está certo, Alek. É estranho, mas não conclusivo — ao menos até que sugeri comprar o mapa se ele retirasse o capuz, e ele se negou. As botas também estavam cobertas pela terra avermelhada do caminho junto à floresta.

“Uma rara ocasião. Deveria guardar na memória.”

Alek manteve-se em silêncio, esperando que ele terminasse o relato. De certo modo, aquilo era prazeroso, embora sua irmã não compartilhasse do sentimento. A expressão dela era em parte aflição e em parte expectativa. “Melhor acabar logo com isso.”

— Depois de se recusar a mostrar o rosto, enfatizou a segurança do mapa. Então afirmei que seguiríamos pela estrada real. Um vendedor tentaria convencer-me, reduziria o preço ou ofereceria outra rota; ele apenas aceitou e foi embora. Não queria vender nada. Queria saber qual caminho tomaríamos e, acredito, conduzir-nos a um lugar escolhido por ele. Agora pensa que estamos na estrada real, enquanto seguimos pelo atalho.

— Deixe-me ver se entendi. Esse possível perseguidor está agora seguindo pela estrada real, enquanto nós usamos o atalho, como já planejávamos... Mas, Rober, se esse for o caso, duvido que demore para perceber o engano. Como certamente estará a cavalo e acompanhado, não acredito que possamos ir muito longe.

Segurou o riso, tarefa que não foi tão fácil como supôs.

Alek tinha grandes habilidades — isso ninguém podia questionar —, mas o raciocínio não era uma delas, pelo menos não no mesmo nível de Rober. O primo se dedicava à esgrima e a tudo o que a envolvia. Embora Rober também valorizasse a arte como um verdadeiro baláziano, preferia a estratégia como principal objeto de estudo.

— Por que escolhemos o atalho, então, se ele tem o terreno acidentado e ainda por cima não é vigiado? — perguntou com simplicidade. Alek olhou para ele, ponderando onde pretendia chegar, mas perdeu a chance de responder.

— Se bem me lembro, só chegaríamos à cidade pela estrada real no início da noite. Mesmo sendo vigiada, perderíamos o baile, o principal motivo desta viagem. O atalho, apesar do terreno, ainda nos levará muito mais rápido. — Rober olhou para o primo e para a irmã com discreta malícia. — E salvará todos nós de uma verdadeira humilhação.

— Muito bem explicado. — Alice sorriu e fez uma mesura para o irmão enquanto usava o leque. — Então, considerando o terreno da estrada real, seria errado supor que eles percorreriam umas cinco milhas antes de perceber o engano?

Alek permaneceu calado e, após rápida análise, assentiu com a cabeça.

— Muito bem. Agora considere: depois de perceberem, terão de voltar todo o caminho até a entrada do atalho. Se fizerem isso, percorrerão mais cinco milhas, além de toda a distância que já teremos avançado... Uma última pergunta: quanto tempo se leva para chegar à cidade pelo atalho?

— Pelo atalho, quatro ciclos inteiros de tempo.

— Exatamente isso. E pela estrada real? — Rober perguntou com olhar malicioso, já vendo Alek juntar as peças do quebra-cabeça.

— Sete ciclos... Já sei onde você quer chegar, Rober. Realmente faz todo sentido.

— Nunca tive dúvidas disso, meu primo — pegou mais uma ameixa.

CENA 5

Caçada

“Já devíamos tê-los encontrado. Pelo Inferno! Onde esse povo se meteu?”

Quanto mais avançavam pela estrada real, mais Az se impacientava. A possibilidade de ter sido enganado já lhe roía o pensamento, mas ele precisava ter certeza antes de ordenar o retorno. O nobre fora específico ao se despedir: “Tenho uma estrada inteira e segura à minha disposição.” Talvez tivesse percebido alguma coisa. Talvez aquelas palavras tivessem sido deixadas para que Az as escutasse.

Não seria bonito admitir o engano diante dos companheiros, ainda mais depois de fazê-los cavalgar por tanto tempo. Um líder que demonstrava dúvida não permanecia líder por muito tempo.

Az seguia à frente. Silas cavalgava ao seu lado, fiel como poucos homens naquele ramo de trabalho. Mais atrás vinha Natel, e esse era um problema. O homem esperava apenas uma oportunidade para tomar seu lugar. Era o mais velho e experiente do grupo e possuía certo carisma, Az tinha de admitir. Inteligência, entretanto, nunca fora sua maior qualidade.

Por último vinham os irmãos Jersen. “Esses, sim, são burros como pedras.” Certa vez, haviam roubado uma casa e, três dias depois, tentado vender os objetos ao próprio dono. Não sabiam que aquele era o homem que tinham roubado, mas isso apenas tornava a história pior. “Que espécie de ladrão não conhece a própria vítima?” Em todo caso, eram fortes, obedientes e habilidosos com as espadas. Era tudo que Az precisava deles.

As marcas dos cascos prosseguiam pela terra, mas não havia sulcos de rodas entre elas. Az sentiu a cicatriz em forma de V repuxar-lhe o rosto.

— Maldito... Maldito! — Refreou o cavalo com violência e saltou da sela. — Malditos!

— Qual é o problema, Az? Está tudo bem? — perguntou Silas, preocupado.

— Não está, Silas. Não está mesmo. — Az se agachou e apanhou um punhado de cascalho. — O que vocês veem quando olham para o chão?

Os homens trocaram olhares e depois fitaram a estrada. Nenhum respondeu.

“Parece que, até aqui, ainda sou o único capaz de pensar.”

— Aí está o problema: não há marcas de carruagem. Deveria haver dois sulcos fundos nesta terra, mas só temos rastros de cavalos e carroças antigas. Fomos enganados.

— Olha só... Parece que seus olhinhos azuis não enxergaram tudo, não é, Az? — Natel desatou a rir. — E você disse que seria fácil. Parece que não é tudo aquilo que diz.

“Maldito Natel. Está adorando isso, não está?”

Os demais continuavam montados e aguardavam uma decisão. Az sabia que não poderia permitir que aquela hesitação se prolongasse. Não outra vez. A cicatriz em seu rosto era lembrança suficiente do preço de obedecer ao homem errado — e a memória dos filhos, encontrados mortos quando voltou para casa, ainda lhe roubava o sono.

Ele retirou o capuz, expondo o V cruzado na face.

— Você se esquece de com quem está falando. Ainda podemos encontrá-los. Se formos rápidos, nós os alcançaremos antes que cheguem a Capital. Então veremos quem não é coisa alguma aqui.

— É como você diz, Az... Isso se conseguirmos alcançá-los. — Natel deixou a provocação no ar enquanto virava o cavalo.

Silas desmontou, aproximou-se de Az e firmou uma das mãos em seu ombro.

— Não deixe que ele te abale, Az. Você é o único que sabe onde estamos indo. Confio em você, vamos tirar isso a limpo.

Silas sempre estivera ao seu lado, mesmo quando todos os outros se afastaram. “Deve ter a ver com meu caso com a irmã dele.” Silas dizia que Az fora o único homem que a tratara com respeito, embora nunca tivesse deixado claro se aquilo era gratidão ou apenas uma maneira de mantê-lo sob vigilância.

De qualquer forma, sua lealdade era verdadeira.

Az tornou a examinar o chão. Havia sulcos recentes vindo do portão, mas eles desapareciam antes da curva. A carruagem nunca chegara àquele trecho da estrada real.

— Vamos voltar — ordenou, montando novamente. — Há uma entrada para o atalho pouco depois da aldeia. Foi para lá que eles foram.

— E como sabe que ainda teremos tempo? — perguntou Natel.

Az puxou as rédeas e o encarou.

— Porque o atalho tem terreno ruim e uma carruagem não corre como nossos cavalos. Além disso, se o nobre se deu ao trabalho de mentir, é porque tem medo de ser alcançado.

Esporeou o cavalo antes que Natel encontrasse outra provocação. Os demais o seguiram.

“Pode ter percebido quem sou, nobre. Mas ainda não sabe quantos somos nem até onde estou disposto a ir.”

CENA 6

Esconderijo

Rafael precisou de alguns minutos para se recuperar do choque antes de descer da carruagem. Tudo acontecera depressa demais. Em um instante, viajavam tranquilamente; no seguinte, um enorme galho caído bloqueava quase toda a estrada.

O cocheiro reagira rápido. Puxara as rédeas e desviara os cavalos para o acostamento esquerdo, onde a terra era mais fofa. A roda dianteira, porém, afundara em uma depressão e fizera a carruagem inclinar-se com violência. Quando o homem se levantou do assento para recuperar o controle dos animais, um ramo mais baixo o atingiu no peito e o lançou alguns metros adiante.

Agora a carruagem permanecia torta, com uma das rodas enterrada e a lateral encostada no galho. Os cavalos bufavam assustados, mas nenhum parecia ferido. Uma nuvem de poeira ainda pairava sobre o veículo.

“Isso será terrivelmente difícil de tirar daí.”

Rafael mancava ao se aproximar do cocheiro estirado na estrada. Os pés voltavam a latejar, e a faixa no antebraço esquerdo ardia sob o suor. Agachou-se ao lado do homem e encostou dois dedos em seu pescoço.

“Vivo. Um pobre infeliz.”

O cocheiro respirava com dificuldade, mas não havia sangue em sua boca. Um galo já se formava na cabeça, e o lado do rosto estava esfolado. Ao virá-lo, Rafael percebeu uma bolsa de couro presa ao cinto.

“Parece que você tem uma cabeça bem dura, afinal.”

Olhou para a carruagem. Ninguém havia saído. Depois de alguns segundos, soltou a bolsa e contou pelo menos sete lascas de prata em seu interior.

“Eles realmente lhe pagam bem, não é?”

Guardou-a sob a capa e tornou a examinar o homem, agora com interesse renovado. Não encontrou nada além de uma faca, que preferiu deixar onde estava.

O ranger das dobradiças chamou sua atenção.

“E parece que minha sorte acabou...”

O nobre que Rafael reconhecera na aldeia desceu da carruagem. Os olhos claros percorreram primeiro o cocheiro, depois a roda enterrada, o galho e a curva por onde tinham vindo.

— Ele não está morto, apenas desacordado — explicou Rafael, antes que lhe perguntassem. — O ramo o acertou em cheio. É um milagre que tenha sofrido apenas alguns esfolados e um galo na cabeça, embora possa haver ferimentos que não consigo ver.

O Mester se agachou, verificou a respiração do cocheiro e tornou a observar a estrada. Não disse nada. A expressão em seu rosto, porém, endureceu ao perceber como os sulcos recentes das rodas conduziam diretamente até a carruagem presa. Os perseguidores não teriam dificuldade para encontrá-los.

“Está calculando quanto tempo falta até os perseguidores chegarem.”

O nobre retornou à carruagem. Lá dentro, vozes abafadas se alternaram por alguns instantes. O veículo balançou enquanto seus ocupantes moviam alguma coisa.

Rafael sentou-se à beira da estrada e tentou aliviar a pressão nos pés. A essa altura, o cocheiro já não lhe despertava tanta curiosidade quanto o movimento dentro da carruagem.

“Afinal, o que estão fazendo?”

A porta tornou a abrir. O Mester apareceu com uma pequena besta em uma das mãos e uma espada presa às costas. Com a outra, segurava a lateral de um baú. Do lado oposto surgiu um segundo nobre, maior e mais forte, vestindo um sobretudo cor de vinho. O broche de um corvo de asas abertas respondeu à pergunta de Rafael.

“Um Berifor. Seria muito esperar que aparecesse um Kaiser também?”

O Berifor carregava duas espadas às costas e usava os cabelos presos em um pequeno rabo de cavalo, algo pouco comum em Balázios — pelo menos não era comum quando Rafael ainda conhecia o lugar.

“Bem, já faz muito tempo. Não seria estranho que as coisas estivessem diferentes.”

Os dois retiraram o baú. Alek o tomou sozinho e o levou para o mato. O objeto parecia pesado por causa da madeira grossa, mas Rafael não ouviu o tilintar das moedas nem viu o esforço que esperaria de alguém carregando ouro suficiente para encher um cofre.

“Vazio.”

Rober acompanhou o primo por alguns passos, examinando o chão e apontando para um trecho entre as árvores. Depois voltou à carruagem e estendeu a mão para quem permanecia lá dentro.

“E agora, meu Kaiser...”

Não foi o Kaiser que Rafael esperava. Jamais poderia ter imaginado alguém como ela. A pele branca e os olhos azuis como cristais de gelo faziam a jovem parecer brilhante sob a luz filtrada pelas árvores. Devia ter uns quinze anos. Seus cabelos negros tocavam-lhe os ombros, presos de um lado pelo broche do busto de Fenrir sobre duas espadas cruzadas.

Usava um vestido de corte militar baláziano, acinturado, de mangas longas e com detalhes dourados nas bordas.

“Ao que parece, essa moda ainda continua.”

— Alice, guarde este punhal. Se alguma coisa acontecer, não hesite em usá-lo — disse Rober. — Preciso encontrar Alek e preparar nossa recepção. Escolha um lugar para se esconder e leve o garoto com você.

Despediu-se com um beijo na testa da irmã.

— Tome cuidado, meu irmão. E não se preocupe: sei muito bem como usar isto. — Ela mostrou o punhal antes de escondê-lo em uma abertura do vestido.

Rober voltou para o interior da carruagem por um instante. Rafael ouviu o encaixe de uma peça de madeira sendo fechado. Quando o nobre reapareceu, a estrutura do assento parecia exatamente igual à de antes.

“Então o baú é apenas uma isca, e o ouro continua aqui.”

Rober apanhou a besta e desapareceu pela trilha aberta por Alek.

“Curioso.”

Agora Rafael compreendia parte do plano. Os nobres já sabiam que eram perseguidos e pretendiam fazer o grupo acreditar que o ouro fora levado para dentro da mata. O acidente apenas os obrigara a enfrentar os perseguidores em vez de continuar fugindo.

— Você não vem? — perguntou Alice.

A voz era doce, embora firme. A jovem o esperava alguns metros adiante. Rafael demorou um instante para perceber que ainda estava olhando para a carruagem.

— Desculpe. Ir para onde?

— Ora, esconder-nos. Perdoe-me, você não deve compreender bem a situação. Posso explicar enquanto procuramos um lugar adequado. O tempo é imprescindível agora.

Diante daquilo, a única resposta possível era segui-la. Cada passo castigava os pés de Rafael, mas ele não demonstrou a dor. Alice avaliou vários lugares antes de escolher uma árvore caída, cercada por musgo e algumas rochas. O ponto não ficava longe da estrada e oferecia uma visão ampla da carruagem sem expor quem estivesse escondido.

Rafael ficou surpreso. Era exatamente o lugar que teria escolhido.

“Ela aparenta mais do que demonstra. Mas quanto?”

— Estamos correndo perigo — explicou Alice enquanto tentava acomodar-se atrás do tronco. Limpou uma pedra antes de se sentar. — Alguns salteadores nos perseguem. Não devem demorar a chegar. Meu irmão disse que seguiríamos por outro caminho para despistá-los, mas, depois desse acidente, acredito que não teremos sucesso.

“Você acredita? Eu tenho certeza. Então foi na aldeia que tudo começou.”

Rafael olhou para a estrada e tentou calcular quando os bandidos apareceriam. Rober provavelmente dissera que usaria a estrada real e depois tomara o atalho. Era um bom plano — pelo menos antes de a carruagem ficar presa.

— Desculpe, eu não sei o que fazer — disse Rafael, deixando um pouco de apreensão aparecer no rosto. — Imagino que esteja sendo um idiota.

— Não está. É normal sentir medo em uma situação como esta, mas não se preocupe. Tudo vai dar certo. — Alice tocou o lugar onde escondera o punhal. — Eu o protegerei, se for necessário.

Rafael precisou conter o riso.

“Proteger-me? Com um punhal?”

Se o plano falhasse, aquela arma pouco faria contra vários salteadores. Ainda assim, havia coragem na maneira como ela mantinha a mão próxima ao vestido.

— Obrigado. Não sei como agradecer — respondeu com um sorriso débil.

— Não precisa agradecer. Vai ficar tudo bem... Como é mesmo o seu nome? — perguntou ela, sorrindo.

“Meu nome... Você realmente perguntou?”

O sorriso da jovem lembrava uma joia sob o sol. Seu perfume também se sobrepunha ao cheiro de terra, couro e suor ao redor deles.

“Ainda bem que é mais forte do que o meu.”

— Se for do agrado de minha senhoria, pode chamar-me Rafael.

— Você ainda preserva os costumes de Balázios, pelo que vejo, Rafael. Chamo-me Alice Mester. Estou aqui com meu irmão e meu primo; você já os viu. O de cabelos negros é Rober, meu irmão. O outro... Bem, o outro é Alek.

“E não gosta do primo, pelo que vejo.”

Problemas familiares não o interessavam, ao menos não naquele momento. Talvez depois pudesse descobrir mais, desde que todos saíssem vivos dali.

— É uma honra conhecer uma Mester pessoalmente. Perdoe qualquer atitude que possa tê-la ofendido, minha senhoria.

Alice considerou as palavras com leve malícia e franziu o cenho.

— Ora, temos um garoto muito educado aqui. Eu gostaria de conversar mais com você depois. Acha que seria possível, Rafael?

— Como desejar, minha senhoria. Ficarei feliz em servir. — Fez a melhor reverência que o esconderijo permitia.

“Agora vamos ver como esse jogo termina.”

CENA 7

Armadilha

Surpresa? “Ou talvez espanto?” Natel não sabia qual palavra se ajustava melhor à situação.

Az estava agachado junto ao cocheiro caído, enquanto Silas permanecia ao seu lado. Os irmãos Jersen vasculhavam a carruagem, e Natel examinava um rastro que entrava na mata. O galho e a roda enterrada explicavam o acidente, mas não o desaparecimento dos nobres nem do ouro.

“Espero que esse rastro explique.”

— Az, a carruagem está limpa. Nenhum sinal de ouro nem de nada que preste — anunciou o Jersen mais novo, com aquele sotaque arrastado que Natel ainda não entendia de onde surgira.

— O rastro entra no mato — acrescentou Natel. — E então, Az? Tem alguma ideia ou vai continuar calado, agachado ao lado desse homem?

Natel nunca tivera paciência com Az e gostava ainda menos de receber suas ordens. Não podia negar, contudo, que ele sabia interpretar uma situação. Não era ruim trabalhar com Az; o problema era trabalhar para ele.

Az se levantou e observou, nessa ordem, a carruagem, a trilha aberta na vegetação e os cavalos dos salteadores, amarrados um pouco atrás.

— Imagino que um dos nobres tenha arrastado o baú para o meio do mato. Quer tirar-nos da estrada, esperar que o sigamos e depois voltar para tomar nossos cavalos.

— Então, o que faremos? — perguntou Silas.

A pergunta irritou Natel. Apenas o lembrava de que todos ainda procuravam Az quando precisavam de uma decisão.

“Pelo menos por enquanto.”

— Faremos o seguinte: Natel e os Jersen seguem o rastro. Silas e eu ficaremos aqui.

— Mas num é isso que o nobre quer? — perguntou o Jersen mais velho.

“Como é burro.” Mesmo para Natel, a intenção de Az era evidente. “Bem, eles são os Jersen. Bons com as mãos, uma desgraça com a cabeça.”

— Exatamente por isso — explicou Az. — Ele não sabe quantos somos. Se vocês três entrarem no mato, pensará que o plano deu certo. Quando voltar para pegar os cavalos, Silas e eu estaremos esperando.

— Entendi. É bom o plano mesmo.

— Isso se essa for a intenção dele — disse Natel. — E se estiver esperando outra carruagem passar para pedir ajuda?

O breve silêncio de Az foi prazeroso demais.

“Olhe bem. Também sei pensar.”

— Silas e eu cuidaremos disso. Diremos que a carruagem é nossa e que o cocheiro sofreu um acidente. O mais importante é que o ouro continua por perto. O baú deixou um rastro fundo; se não encontrarem outra trilha partindo dele, o ouro estará lá dentro. Agora vão.

Natel não gostou do resultado, mas ao menos seguiria com os Jersen em direção a um baú cheio de ouro. Talvez não fosse tão ruim.

“Se eu os convencer, seremos três contra dois.”

Ele caminhou por algum tempo em silêncio, observando os irmãos à sua frente.

— Já pensaram no que farão com tanto ouro?

— Ora, vô comprar um castelo, comer e beber pelo resto da vida — respondeu o mais velho.

— Eu num sei ainda. Tarvez gastá com muita mulher...

“Como podem ser tão burros?” Naquele momento, entretanto, a estupidez deles era exatamente o que Natel precisava.

— É uma pena que Az não pretenda dividir as partes igualmente. Parece que vocês receberão apenas metade do que foi prometido... — Deixou a frase morrer enquanto os observava.

— O que cê tá dizendo, Natel? Az num vai pagar a gente igual? — O rosto do Jersen mais velho se fechou, e seu olhar se tornou ameaçador.

Natel fingiu surpresa.

— Perdoem-me. Pensei que soubessem. Todos comentavam sobre isso. Eu, naturalmente, acho muito injusto.

— Aquele maldito! Vô lá tirar essa história a limpo.

— Carma, vô com você, irmão!

Os dois se viraram para retornar à estrada.

“Não poderia ser mais fácil. Melhor interceder agora.”

— Esperem. Não façam isso!

— Por quê? — perguntou o mais velho.

— Tenho uma ideia melhor. Por que não pegamos o ouro e o dividimos apenas entre nós três? — Natel esperou enquanto os irmãos se entreolhavam. — Az manda demais e está sempre humilhando vocês. Eu não os considero burros. Está na hora de provarem a ele que também sabem pensar.

— Cê tem razão. Tá na hora de Az ver que a gente num é burro.

— Você tá certo, irmão. Estamos com você, Natel.

— Então vamos buscar nosso ouro.

— Ora se vamos — responderam em uníssono.

“Hoje é o dia de sua queda, Az. Espero que aproveite o pouco tempo que lhe resta.”

Com as espadas, os irmãos cortavam a vegetação à medida que avançavam. Depois de alguns minutos, chegaram a uma pequena clareira. O baú repousava sob uma árvore, distante o bastante da estrada para não ser visto por quem passasse. Era quadrado e não muito grande, mas deixara um sulco profundo na terra.

“A madeira deve ser pesada. Ou o conteúdo.”

— Chegamos, Natel. Agora é só pegar — disse o Jersen mais velho.

— Espere. Isso está estranho. Olhe onde deixaram o baú. Pode ser uma armadilha.

Natel sentia que havia algo errado, mas não conseguia imaginar o que dois nobres poderiam fazer contra três homens armados. Az afirmara que a intenção deles era despistar os perseguidores. Então, por que preparariam uma armadilha?

— Eu vô lá ver — disse o mais novo. — Cês podem esperar aí, se preferirem.

Ele avançou com cautela, atento a cada ruído. Depois de cerca de doze passos, alcançou o baú. Apoiou a espada no chão e levou a mão livre à tampa.

“Parece uma criança diante de um presente.”

No momento em que começou a erguê-la, ouviu-se o estalo de uma besta. Um dardo atravessou-lhe a testa, e o homem tombou ao lado do baú.

— Mas que porra foi essa? — Natel segurou o braço do outro Jersen antes que ele corresse até o irmão e tivesse o mesmo destino.

— Me solta, Natel! Me solta! — O homem brandiu a espada. — Me solta ou eu te mato, seu puto!

— Não seja idiota! É uma armadilha. Precisamos sair daqui agora.

— Eu não contaria com isso — disse uma voz atrás deles.

Um homem surgiu entre as árvores. Vestia um sobretudo cor de vinho, usava os cabelos presos em um rabo de cavalo e empunhava duas espadas.

— Belo tiro, Rober. Quase me deixa com inveja — comentou, sem desviar os olhos de Natel e do Jersen. — Sinceramente, eu deveria receber alguma recompensa por livrar o mundo de pestes como vocês.

“Havia mais de um.”

O nobre demonstrava confiança, mas suas roupas formais não ofereciam a mesma proteção que o couro fervido dos salteadores. Além disso, estavam em dois contra um — pelo menos até o arqueiro abandonar o esconderijo.

Natel sacou a espada, e o Jersen fez o mesmo.

“Vamos ver quanto ele aguenta.”

Atacaram ao mesmo tempo. Natel golpeou pela lateral, mirando as costelas, enquanto o Jersen elevou a lâmina em direção à garganta. O nobre cruzou as duas espadas, desviou os golpes e avançou antes que eles recuperassem o equilíbrio.

“Esse aí sabe mesmo lutar.”

O som das lâminas se espalhou pela clareira. Para surpresa de Natel, eram ele e o Jersen que recuavam. O Berifor movimentava-se depressa e não lhes dava espaço para coordenar um novo ataque. Sabia que, se permitisse que os dois o cercassem, sua habilidade deixaria de importar.

— Vocês são uma vergonha com uma espada — provocou o nobre. — Talvez devessem aprender a tricotar. Tenho certeza de que se sairiam melhor.

Ele avançou entre os dois e os obrigou a se separar. Natel tentou atingir-lhe a nuca, enquanto o Jersen estocava em direção ao estômago. O Berifor se abaixou, girou o corpo e desviou o golpe de Natel, mas a ponta da espada do Jersen rasgou-lhe profundamente o antebraço esquerdo.

O nobre não gritou. Com a espada direita, golpeou atrás dos joelhos de Natel.

A dor veio antes da queda. Os tendões se romperam, e Natel tombou de costas, incapaz de mover as pernas.

— Maldito filho de uma puta!

— Um já foi — disse o Berifor, pressionando o braço ferido contra o corpo. — Falta o outro.

Natel contemplou as próprias pernas banhadas em sangue. Sua única esperança era que o Jersen vencesse.

“Ele só tem uma mão boa. Vai conseguir.”

Os dois adversários se estudaram. O Jersen mantinha o olhar fixo na espada da mão direita do nobre, esperando o ataque. Quando ambos avançaram, o Berifor arremessou essa espada para o lado.

O Jersen acompanhou a arma com os olhos por um único instante.

Foi o bastante.

Mesmo com o antebraço ferido, o nobre girou a lâmina esquerda e atingiu o rosto do adversário. O Jersen caiu antes de compreender o que acontecera.

“Estou acabado.”

— Uma bela luta — disse outra voz. — Exceto pelo final infeliz com esse ferimento. Alek, você não está tão bem assim se permite que vermes como esses o atinjam.

Rober saiu de trás das árvores, ainda com a pequena besta nas mãos.

— Você teria sido muito mais útil se tivesse saído do esconderijo para ajudar — respondeu Alek. Arrancou uma faixa da roupa do morto e começou a apertá-la ao redor do braço. — Agora interrogue esse verme antes que ele sangre até a morte.

Rober se aproximou. Seus olhos eram sombrios, e a expressão, tranquila demais.

— Misericórdia — implorou Natel, com os olhos cheios de lágrimas. — Não me mate. Por favor.

— Dou-lhe minha palavra de que não o matarei, se responder a algumas perguntas.

— Qualquer coisa. Tenho família, precisava sustentá-la. A ideia foi de Az. Foi ele quem planejou tudo.

Natel tentou arrastar-se, mas as pernas já não lhe obedeciam. A grama ao redor estava tingida de vermelho.

— Quem é Az? Quantos de vocês vieram?

— Éramos cinco. Az é baláziano... um trânsfuga da Batalha do Lobo e da Coroa.

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Mesmo em meio à dor, Natel percebeu a surpresa no rosto de Rober.

— Um trânsfuga... — Rober lançou um olhar para Alek e depois para a trilha de volta. — Muito bem. Como prometi, não o matarei.

— Ajude-me, então. Por favor.

Rober observou-lhe os ferimentos.

— Eu não prometi salvá-lo. Deveria ter pensado em sua família antes de escolher a vida de salteador.

Voltou-se para o primo.

— Vamos, Alek. Ainda faltam dois.

Natel os observou desaparecer pela mesma trilha que ele e os companheiros haviam percorrido pouco antes. Tentou pedir socorro, mas a voz não passou de um ruído rouco.

“Este é o fim que me coube.”

Fechou os olhos e não tornou a abri-los.

CENA 8

O Último Confronto

A última meia hora havia sido tensa. Alice vira os salteadores chegarem e acompanhara tudo o que fizeram: a busca na carruagem, os praguejamentos diante do baú desaparecido e a divisão do grupo. Também assistira ao interrogatório do cocheiro, que recobrara a consciência apenas para ser amarrado a uma árvore e ameaçado. A cena quase a fizera sentir pena do homem e lhe dera a certeza de que não poderia ser capturada.

Agora, somente um dos bandidos permanecia à vista. Conversava com o cocheiro e examinava a curva da estrada. O outro havia se escondido dentro da carruagem.

“A tática mais barata que já vi.”

Seu irmão ainda não aparecera, e a demora começava a preocupá-la.

“Ele virá. Ele sempre vem.”

Alice tinha certeza — ou, pelo menos, fingia ter. Ao olhar para o lado, encontrou Rafael sentado atrás da árvore caída, mantendo o peso longe dos pés feridos. O garoto também parecia apreensivo, e ela passara parte da espera tentando tranquilizá-lo.

“Pelo menos posso ajudar alguém.”

Um movimento entre as árvores chamou sua atenção. Rober surgiu na estrada com a pequena besta apontada para o salteador.

— Então foram os nobres que venceram — disse o homem.

— Az, presumo. — Rober manteve a arma firme. — Você sabia que se tratava de uma emboscada e, mesmo assim, enviou seus homens. Estou curioso para saber por quê.

“Meu irmão!” Alice precisou conter a vontade de chamá-lo. “Meu irmão.”

Não conseguia ver Alek, mas isso já não importava tanto. Rober estava vivo. Com cuidado, ela se aproximou um pouco mais da estrada. Rafael a seguiu, embora cada passo parecesse doloroso. Pararam atrás de um grupo de rochas, de onde podiam observar sem serem vistos.

— Ora, eles apenas esperavam uma oportunidade para me passar para trás — respondeu Az com um sorriso sarcástico. — Enviei-os para enfrentar os nobres e fiquei responsável por acabar com quem retornasse. Respondi à sua pergunta. Agora responda à minha: onde estão os outros?

— Mortos.

— E suponho que eu deva acreditar em você.

Rober estava a cerca de sete passos do homem e mantinha as costas voltadas para a carruagem. Por isso não viu quando o segundo salteador saiu silenciosamente do veículo, empunhando uma espada.

Alice inspirou para avisá-lo, mas Rafael cobriu-lhe a boca com firmeza antes que pudesse gritar.

— Rober, atrás de você! — berrou Alek ao sair da mata pelo lado oposto.

Rober girou a tempo de escapar da trajetória da espada. Ao recuar, deixou a besta cair, mas Alek já avançava contra Az, impedindo que o líder ajudasse o companheiro.

Rafael soltou Alice.

— No que estava pensando? — esbravejou ela, sem elevar a voz. — Queria que meu irmão fosse morto?

— Perdão, minha senhoria. Imploro perdão por minha atitude ousada, mas, se sua voz revelasse nossa posição e seu irmão perdesse a luta, não haveria esperança para nós. Seu primo ainda não havia aparecido. Imaginei que estivesse protegendo Rober exatamente contra um ataque como esse.

— Meu irmão jamais perderia. Ouviu? Jamais!

— Ainda assim, revelar onde estamos teria colocado minha senhoria em perigo. Apenas fiz o que me pareceu mais seguro.

Rafael mantinha a cabeça baixa, mas sua voz já não parecia a de um menino assustado. Alice o observou com atenção.

“O que foi isso?”

Ele estava certo. Um grito poderia ter levado os salteadores diretamente até ela. Alek já estava posicionado para proteger Rober e agira no momento certo. Rafael compreendera tudo isso em poucos segundos.

“E aquele olhar... Por um instante, parecia outra pessoa.”

— Eu é que devo pedir desculpas — admitiu Alice. — Você estava certo. Não esperava que fosse tão perspicaz, Rafael. Estou surpresa.

— Apenas fiz o óbvio, minha senhoria — respondeu, ainda curvado. — Fiz o que me pareceu certo.

Alice lhe lançou um último olhar e voltou a atenção para a estrada.

Rober lutava contra o homem que saíra da carruagem. Havia perdido a besta, mas sacara a espada e pressionava o adversário contra a lateral do veículo. Alek enfrentava Az com apenas uma das mãos. O outro braço estava envolto por uma faixa improvisada, já manchada de sangue.

“Não foi um simples corte.”

Rober se saía melhor; sua vitória parecia uma questão de tempo. Alek, porém, começava a recuar. Az manejava a espada como um guerreiro treinado, e o ferimento impedia o primo de usar a segunda lâmina.

Um golpe furioso atingiu a guarda de Alek e o lançou ao chão. Az pisou sobre o braço ferido, arrancando-lhe um grito, e ergueu a espada para atravessá-lo.

No mesmo instante, Rober derrubou o outro bandido e enterrou-lhe um punhal no pescoço. Em seguida, correu para recuperar a besta caída.

“Preciso fazer alguma coisa.”

Alice deixou o esconderijo e avançou sobre Az. A surpresa funcionou: ao vê-la surgir tão perto, o homem hesitou. Alek aproveitou o instante para rolar para longe da lâmina.

Alice, contudo, não teve tempo de sacar o punhal. Az agarrou-a pelo braço, puxou-a contra o peito e encostou a espada em sua garganta. Um movimento mais brusco seria suficiente para matá-la.

À sua frente, Alek tentou se levantar. Rober já apontava a besta na direção dos dois.

— Gostaria de vê-lo atirar agora, nobre — provocou Az.

Rober avaliou o espaço entre o rosto da irmã e o do salteador. Então colocou lentamente a besta no chão.

— Parece que venceu. Imagino que queira o ouro.

“Esperto.” Alice conhecia o irmão o bastante para saber que ele precisava de tempo. Ainda assim, estava assustada. Az a prendia com tanta força que mal conseguia mover o braço direito. A lâmina pressionava-lhe a pele, e o cheiro de suor, couro e cavalo tornava difícil respirar.

— É claro. Não preparei tudo isso para sair de mãos vazias.

— O ouro está escondido dentro de um banco oco da carruagem.

Az lançou um olhar rápido para o veículo.

— Você só pode estar brincando. Esteve aqui o tempo todo... Ainda assim, o impasse continua. Como sugere que eu saia com o ouro se a carruagem está presa naquele galho?

— Podemos libertá-la.

Az riu e apontou com o queixo para Alek.

— Aquele ali mal consegue permanecer em pé. O cocheiro tem dificuldade até para dizer o próprio nome. Por que eu acreditaria em você?

— Porque, ao contrário de você, não sou um trânsfuga — respondeu Rober. — Sei o que essa marca significa. Foi para escondê-la que se recusou a retirar o capuz na aldeia.

O sorriso desapareceu do rosto de Az.

— Trânsfuga? Suponha que eu seja. Esta marca foi um presente de um Mester depois de eu lutar por ele na Batalha do Lobo e da Coroa. Servi ao maldito até receber a ordem de matar os filhos de um rival. Quando me recusei, ele gravou este V em meu rosto e me expulsou como traidor. — A voz se tornou mais baixa. — Quando finalmente voltei para casa, encontrei meus próprios filhos mortos. Foi assim que ele me ensinou o preço da misericórdia.

A espada apertou-se contra o pescoço de Alice, abrindo um pequeno corte.

— Matei aquele Mester e não me arrependo. Também não me arrependerei de nada que fizer a outro membro dessa Casa. Portanto, são vocês que me devem uma prova de confiança.

Az fitou Alek.

— Você, o do braço ferido: mate Rober. Faça isso e deixarei a menina viver.

O coração de Alice pareceu parar.

As palavras a levaram de volta a uma noite distante. Viu novamente o pai poucos momentos antes de morrer em uma emboscada. Recordou a mãe, o cativeiro e a fuga na escuridão.

“Não, por favor... Mamãe!”

Também se lembrava de Rober conduzindo-a pela mão enquanto abandonavam tudo.

“Malditos sejam todos os envolvidos”, dissera ele naquela noite.

Seu irmão nunca mais fora o mesmo. Tornara-se frio e desconfiado, embora ainda sorrisse para ela como fazia antes da guerra. Agora Alice estava prestes a perdê-lo outra vez.

“Maldita seja a Batalha do Lobo e da Coroa. Maldita seja toda a desgraça que trouxe.”

Alek segurava a espada, imóvel e incrédulo. Rober, ao contrário, começou a caminhar lentamente em sua direção. Não procurou outra arma nem tentou negociar. Apenas se aproximou do primo, oferecendo-se ao golpe.

“Ele vai permitir. Vai deixar que Alek o mate por mim.”

As lágrimas turvaram os olhos de Alice.

“Não. Isso está errado. Você não pode.”

Uma pedra atingiu Az na lateral da cabeça.

— Mas que porra foi essa? — Ele se virou para a mata e recebeu uma segunda pedrada na testa.

— O punhal! — gritou Rafael.

Alice compreendeu. Com a mão que Az não conseguira imobilizar, puxou o punhal do vestido e o enterrou na face interna do antebraço que sustentava a espada.

Az gritou e afrouxou o braço. Alice se abaixou, escapou para o lado e correu em direção ao irmão. Atrás dela, o salteador tentou agarrar-lhe os cabelos com a mão ferida.

Rober alcançou a besta no chão.

Alice viu quando ele a ergueu e, por um instante, a arma pareceu apontar diretamente para seu rosto. O dardo passou a poucos dedos de sua face. Ela não olhou para trás, mas ouviu o impacto e o corpo de Az cair sobre a terra.

Terminou o percurso lançando-se nos braços do irmão. Rober a apertou contra o peito e afagou-lhe os cabelos.

— Vai ficar tudo bem. Já passou.

— Você ia deixar que Alek o matasse. Eu vi em seus olhos — disse ela, chorando. — Você não pode me deixar sozinha. Ouviu? Não pode.

— E não vou. — Rober afastou-a apenas o bastante para examinar o corte em seu pescoço. — Agora está tudo bem. Mas precisamos cuidar dos feridos e sair daqui antes que escureça.

Alice assentiu e limpou as lágrimas. O irmão beijou-lhe a testa e seguiu para ajudar Alek, que apertava a faixa ensanguentada ao redor do braço.

Rafael saiu do mato mancando. Mantinha uma pedra na mão e parecia pronto para lançar uma terceira, caso fosse necessário. Alice foi até ele e, antes que pudesse dizer alguma coisa, abraçou-o. Sentiu o garoto enrijecer de surpresa.

— Obrigada. Você salvou meu irmão e todos nós. Muito obrigada, Rafael.

— Eu... apenas fiz o que achei certo, minha senhoria.

— Chame-me de Alice — pediu ela, afastando-se com um sorriso.

Com as cordas da carruagem e os cavalos deixados pelos salteadores, Rober e Alek conseguiram mover o galho. Depois, puxaram a roda para fora da depressão e removeram os corpos da estrada. O cocheiro foi acomodado no interior do veículo, ainda atordoado, enquanto Alek mantinha o braço imobilizado. Como o homem não tinha condições de conduzir, Rafael assumiu as rédeas e tornou a subir ao assento externo, poupando os pés feridos.

Quando a carruagem finalmente retomou o caminho, Alice abriu a janela e olhou para ele.

— Agora vamos para Capital — disse. — Se esta estrada não tiver mais nenhuma surpresa .


Notas finais
Se vocês gostaram não se restrinjam em comentar, isso anima o pobre escritor a fazer mais! Conto com a participação e criticas de vocês!